Rocinha sofre com crise econômica

     O ex-prefeito Cesar Maia publica hoje trechos de uma reportagem do ‘Extra’ sobre a crise econômica na Rocinha, após a criação da UPP naquela comunidade.
Antes faz algumas considerações.
Eis o texto:
“1. Em várias notas, este Ex-Blog chamou a atenção para que a ocupação definitiva, tipo UPP, sempre que ocorresse em comunidades com alta circulação de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, simultaneamente, essa circulação de dinheiro sujo deveria ser substituída por dinheiro limpo (frentes de trabalho, geração de renda, ampliação de ajuda assistência/bolsas, indução a contratação de moradores em empresas da região, etc.). Citou o exemplo da Colômbia, onde a erradicação de campos de folha de coca só começou a vingar quando pontos desse tipo foram implementados.  
2. Uma dessas notas lembrou o que disse o ex-prefeito Cesar Maia no caso do Jacarezinho, em 2000, em que foi pessoalmente analisar a situação. Nesse caso, a ocupação sem essas preocupações levou a uma oposição geral dos que perderam o emprego ou bico ou faturamento, como camelôs, donos de negócios
(mercado, drogarias, açougues, aluguel de vídeos…) e, finalmente, ao recuo da ocupação. Isso também já havia ocorrido na Rocinha, anos atrás, e a ocupação foi desfeita. No Complexo do Alemão (em 2003 eram 17% da população adulta que trabalhavam no próprio Complexo impulsionados pela circulação de dinheiro) há, hoje, uma certa acomodação com a venda de drogas, de forma espontânea, o que reestabelece parcialmente a autoridade do traficante. No morro de São Carlos a acomodação é geral. Não é solução, como não será fazer o mesmo na Rocinha.     
3. (Matéria de Capa do EXTRA, 12) Rocinha entra em crise econômica. 3.1. Na ocupação, Ana Cláudia, tinha o coração cheio de esperança, como qualquer morador da Rocinha. Dois meses após a ocupação policial, ela tenta se equilibrar: — O faturamento caiu pela metade, e ainda pago mil reais de aluguel. Não pensei que a ocupação afetaria o movimento. Duas manicures deixaram o salão e dispensei uma pessoa que trabalhava na minha casa.  Os dias também são de incerteza para Rosângela Jesus Silva. Dona do Isabella’s Coiffeur, na Via Ápia, principal rua de comércio local, ela acreditava que a freguesia aumentaria após a ocupação. Hoje, chora ao lembrar que há dias em que atende apenas uma pessoa. A média diária era de 30 clientes.  — Aos sábados, fechava à meia-noite. Essa semana, fui embora às 21h. Aos poucos, vejo meu sonho acabar — diz, com lágrimas nos olhos.  Dona do salão há oito anos, ela procura alternativas.— Já pensei em levar a loja para Rio das Pedras. Mas vou procurar um ponto na rua.
3.2. A crise na Rocinha não se restringe a salões de beleza, nem aos exageros do choque de ordem. Parte dos milhões que o tráfico lucrava mensalmente circulava no comércio local. Esse dinheiro evaporou da noite para o dia. Além disso, os moradores passaram a arcar com os custos da legalização, como o da TV a cabo. Vida de Oliveira Neves, ouviu por cinco anos o primo dizer que ela deveria ter um negócio na Rocinha. Há oito meses, ela abriu uma lanchonete na Estrada da Gávea, alugou uma casa na comunidade e se mudou com o marido e os cinco filhos. Na semana passada, voltou para o interior e retomou a atividade como cabeleireira — trabalhando em casa, que é própria. A nova vida que ela esperava ter na Rocinha ficou no passado:  —Meu ponto ficava aberto 24 horas e vendia dois mil salgados no fim de semana. Depois, caiu para 500. Parei para não me endividar.  No domingo, ela entregará as chaves da loja alugada por mil reais.  Outro prestes a entregar as chaves e abandonar o negócio é o cearense Adalberto. À frente de um bar na Travessa Oliveira há dois anos, ele viu os clientes sumirem, as caixas de cerveja se acumularem e o faturamento mensal despencar.  — Eu vendia 30 caixas de cerveja num fim de semana. Agora, elas ficam aí por 15 dias. Além da queda nas vendas, pago R$ 1.500 de aluguel. Pedi ao dono do imóvel para baixar o preço, mas não teve negociação. A saída é entregar as chaves e procurar um emprego — diz ele, que deve voltar a ser garçom.
3.3. Os recentes episódios de assaltos e roubos na comunidade — houve dois assassinatos na semana passada — contribuíram para Adalberto, que mora na Rocinha há 31 anos, desistir do sonho de ser seu próprio patrão: — Fecho mais cedo para evitar prejuízo. Não dá para ficar me arriscando”.