• Sexta-feira, 20 Janeiro 2012 / 11:13

Tom Jobim dispensa palavras

                                                             Ruy Castro*

        Caso raro no cinema brasileiro, as palavras não têm do que se queixar nos filmes de Nelson Pereira dos Santos. Eles são escritos com capricho, há uma permanente busca de verniz “literário” por trás da dinâmica visual e, não por acaso, ninguém até hoje adaptou tão bem Machado de Assis, Graciliano Ramos e Nelson Rodrigues. Aliás, trata-se de um cineasta com assento na Academia Brasileira de Letras, e perfeitamente à vontade nela.
O paradoxal é que, quando Nelson resolve fazer filmes sem palavras, também atinge pontos altos.
Foi o caso de “Vidas Secas” (1963), em que 90% do filme transcorre em opressor silêncio -e poucas vezes um filme brasileiro “disse” tanto. Agora é “A Música Segundo Tom Jobim”, com imagens de arquivo em que cantores e instrumentistas interpretam Jobim, sem uma única linha de texto.
Não há narração em “off”, nem “talking heads” dizendo platitudes, nem os artistas dialogando banalidades. Não há nem sequer caracteres com os nomes dos intérpretes, títulos das músicas e datas das imagens, exceto no final, quando rolam os créditos. As únicas palavras no filme são as das letras das canções. Foi uma opção de Nelson e de sua codiretora Dora Jobim, neta de Tom -apostaram tudo na força da música.
Apostaram e ganharam. A ordem das canções é cronológica ou quase, mas a alternância de interpretações antigas e modernas provoca surpresa e encantamento durante 86 minutos -são constantes os suspiros e exclamações da plateia. Revela também a eternidade daquela música e de seus intérpretes. Os cortes de cabelo, o estilo das sobrancelhas, a largura das lapelas, tudo pode ter mudado, mas não há ninguém datado ali.
Como pode ficar datada Elizeth Cardoso cantando “Eu Não Existo sem Você”, tendo ao violão um jovem e atento João Gilberto? Ou Sylvinha Telles em “Samba de uma Nota Só”, Nara Leão em “Dindi”, Maysa em “Por Causa de Você”? Ou o pianista Erroll Garner em “Garota de Ipanema”? E qual o melhor “Insensatez”? O de Alayde Costa, na aurora da bossa nova, em 1959, ou o de Judy Garland, perto de sua morte, dez anos depois? Os pontos altos são muitos. O “Águas de Março” de Tom e Elis Regina. Cynara e Cybele cantando “Sabiá” no Maracanãzinho, em 1968. Diana Krall, Jane Monheit e Stacey Kent provando a perene contemporaneidade de Jobim. E o próprio Tom, em muitas sequências, buscando a magia secreta de cada acorde, como se não tivesse sido ele que a produzira.
*Ruy Castro é colunista da ‘Folha’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:36

Nova bossa na nossa bossa

De João Donato, no ‘Globo’:
“Em 1962, voltei ao Brasil para gravar um disco, depois de dois anos morando nos Estados Unidos. Era uma tarde quente e um produtor entrou no estúdio falando em voz alta: ?Mas isso não é Bossa Nova?. Retruquei: ?Eu não disse que é, só estou gravando um disco.? Era o meu primeiro 12 polegadas: João Donato e seu Trio Muito à Vontade, com os saudosos Milton Banana (bateria) e Tião Neto (baixo).
Um ano depois retornava à América, em seguida o disco foi lançado pela Pacific Jazz com o nome de ?Sambou Sambou? e se tornou o responsável pelo meu ingresso definitivo no mercado fonográfico americano. No auge da Bossa Nova, eu, que desembarcara na terra de Frank Sinatra antes da chegada dos meus amigos João Gilberto e Tom Jobim, assistia à euforia dos músicos de jazz com a novidade.
O jornal ?São Francisco Chronicle? chegou a anunciar que o novo gênero musical brasileiro era a melhor coisa que tinha acontecido na música americana.
Cansados de tocar a música exageradamente popular da época, os músicos passaram a usufruir do prazer de viajar pelos ricos acordes do samba-jazz e da sua versão mais suave, a Bossa Nova.
O improviso andava solto e por caminhos nunca antes percorridos. A carreira de Stan Getz, estacionada, ganhou fôlego com a chegada da Bossa Nova. Bud Shank e Chet Baker, meus parceiros de estrada, queriam tocar, gravar e se aprofundar nos ritmos deste país da América Latina que contribuía com algo diferente do mambo, da salsa e da rumba dos imigrantes da América Central.
Mais de meio século depois do marco da exportação da Bossa Nova para o mundo, após fazer música com parceiros de tantas gerações e estilos musicais variados, e de ver minhas canções interpretadas por brasileiros do samba, do bolero e do hip hop, pela Orquestra Sinfônica da Rússia, por um grupo vocal de cubanas, de tocar na Líbia e de ser tratado como um artista popular no Japão, tais lembranças me fazem refletir sobre como talvez eu tenha dado ouvidos àquele produtor e passado a vida resistindo à minha participação e influência no ritmo que veio a se chamar Bossa Nova.
Hoje, tenho consciência de que negar minha participação na história da Bossa Nova seria deletar um trecho da história da música popular brasileira e de minha história pessoal. Em 2002, quando a Dubas relançou ?Muito à Vontade? em CD, o escritor Ruy Castro lembrou que o disco me abriu novos horizontes e, nas palavras dele, ?devolveu a Donato, sem ele saber, um movimento que ajudara a construir?.
Em 2008, nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, convidado pelo meu parceiro musical Nelson Motta a receber uma homenagem da nova geração de intérpretes da música, já cansado do peso das viagens ? rodei 11 países em quatro continentes, fui duas vezes a Cuba no mesmo ano ? acabei desabafando em uma entrevista: ?Não aguento mais falar em Bossa Nova.? Eu sou mesmo assim.
Para lembrar um grande músico brasileiro, Eloir de Morais, ?envaideçome? ao ser convencido de integrar uma história tão bonita pelo desenrolar da própria história. Mas devo confessar que, como acreano-pianista-compositorintuitivo, o que me encanta são as infinitas possibilidades que a música me oferece de experimentar novos sons, novos rumos, novas combinações, novos acordes, novas vozes, numa constante renovação.
Algo que foi percebido há muito tempo por gente como Stan Kenton, Miles Davis, mais recentemente por Diana Krall e ? por que não? ? Black Eyed Peas. Algo que o mundo inteiro reconhece e modernamente aprecia. Percebo que na atualidade há um improviso do improviso.
Uma nova bossa dentro da Bossa e é um patrimônio que, quanto mais se transforma, mais herdeiros faz ao longo do caminho e de uma estrada rumo à imortalidade.
Faltava o Rio, berço da Bossa, valorizar e dar o suporte para que novos compositores, músicos e intérpretes possam fazê-la ecoar e ser recriada a partir da sua maternidade. Um bom começo é o Circuito da Bossa Nova que a prefeitura lançou na segunda-feira, na festa dos 445 anos do Rio, no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico.
Agora, Leny Andrade, Joyce, João e Bebel Gilberto, Pery Ribeiro, Carlos Lyra, Milton Nascimento, Os Cariocas, Emílio Santiago, Roberto Menescal, Cris Dellano, Zé Renato, Mariana Aydar, Wanda Sá, Thaís Fraga, Mário Adnet, Augusto Martins, Miúcha, Sérgio Mendes, Sandra de Sá, Fernanda Takai, Johnny Alf, Adriana Calcanhoto, Marcos Valle, Francis e Olivia Hime, Jaques e Paula Morelenbaum, Roberta Sá ? nosso catálogo é infinito ? poderão mostrar com ternura, amor e sem temer contradições que a boa música é celestial, é de todos, é nossa e se re-NOVA”.

  • Domingo, 06 Junho 2010 / 4:23

Fluxo e refluxo da violência no Rio

                                                                   De Jorge Da Silva*

Corre a lenda: o maestro Antônio Carlos Jobim teria afirmado certa feita que só haveria justiça social no Rio quando todas as pessoas morassem em Ipanema. Ironia do mestre. Talvez quisesse chamar a atenção para o fato de que a cantada-em-prosa-e-verso harmonia da sociedade carioca era, e é, um exercício de auto-ilusão, ou manifestação da síndrome de avestruz. Ora, como esquecer que a organização sócio-espacial da cidade é herança do longo período (mais de 3 séculos) em que a mesma foi capital do maior e mais duradouro regime escravista da história da humanidade? De toda coerência, ao contrário, é concluir que a hierarquia dos tempos monárquico-oligárquicos permaneceu enquistada na sociedade, e que urge investir na integração social da cidade como um todo.
Com a expressão fluxo e refluxo, tenho em mente certo deslocamento da violência. Parto do contexto de quatro ou cinco décadas atrás, quando ela não despertava o interesse dos grandes jornais, pois era tida como circunscrita à periferia, em particular à Zona Norte. Tema importante só quando a vítima, ou o autor, pertencesse à chamada ?classe média? da Zona Sul, como, por exemplo, em casos como o da morte da jovem Aída Curi ou o do crime do Sacopã. Fora daí, a indiferença, pública e privada, certamente porque vítimas e autores dos crimes violentos (assassinatos, roubos a mão armada, tiroteios e facadas) eram, em maioria, oriundos do mesmo estrato popular, e os crimes, praticados no seu espaço. A criminalidade só era tema importante em jornais que circulavam na periferia (jornais dos quais, na expressão em voga, ?saía sangue, se espremidos?), como o Luta Democrática, do lendário deputado Tenório Cavalcanti. Aquela violência ?distante? virara motivo de chacota em programas humorísticos de rádio e televisão. Em tom jocoso, o apresentador do programa ?Patrulha da Cidade?, Samuel Correia, se referia a Duque de Caxias, então violento município da Baixada, como ?a terra onde a galinha cisca pra frente?. Com o tempo, a violência do crime se espraiou, atingindo as áreas consideradas nobres. A segurança, então, passa a ocupar as páginas e as telas, e torna-se prioridade pública, para a qual são canalizados grandes recursos governamentais. E muito discurso. Esse foi o fluxo de lá para cá.
Ultimamente, ao observador atento não escapará o fato de que, a toda evidência, os acontecimentos criminais estão voltando a se concentrar naqueles espaços onde antes eram, de certa forma, admitidos (agora incluída também a Zona Oeste). Pelo menos é o que se depreende da leitura dos jornais e do noticiário da TV e do rádio, que nos dão conta de assaltos, assassinatos, bondes de traficantes, arrastões, ataques a policiais etc. que vêm ocorrendo com crescente freqüência nesses espaços. Ou a violência refluiu para o lugar de onde tinha vindo ou estamos diante do que os criminologistas chamam de segurança subjetiva (se não falo nela, é como se não existisse; se falo, existe?). Não tardará que, em algum programa de TV ou rádio, um apresentador ou humorista volte a fazer graça com a célebre frase de Samuel Correia.   
Em suma, se a violência reflui para a periferia, resta saber se isso ocorre por um movimento espontâneo ou provocado. Certo é que, com o fluxo, tivemos uma espécie de socialização da violência. Restava a socialização da segurança, o que não aconteceu. E a oportunidade de integração vai-se perdendo diante da força da tradição? Na verdade, aparentemente, o que Tom Jobim queria dizer é que a solução era, não que todos fossem morar em Ipanema, e sim que Ipanema, metáfora, se deslocasse para a periferia. Esse é o verdadeiro desafio. Utopia? Pode ser, mas utopia mesmo é imaginar a possibilidade de manter a violência represada num dique distante, guarnecido pela polícia, sem risco de rompimento ou do efeito bumerangue.
*Jorge da Silva é coronel reformado da PM e professor da UERJ.

  • Segunda-feira, 24 Agosto 2009 / 18:50

Viva o João Donato!!!

Certa vez o jornalista Sergio Augusto perguntou ao gênio João Gilberto, de onde ele havia tirado a inspiração para criar a batida da bossa-nova:
- Aprendi vendo o João Donato tocar piano.
O maior músico brasileiro fará, em agosto, 75 anos de idade e 60 anos de música. Ele tinha 15 anos quando entrou, pela primeira vez, em um estúdio para tocar acordeon no disco de estréia do flautista Altamiro Carrilho.
E a data começou a ser comemorada ontem, no Espaço Tom Jobim, do Jardim Botânico, num show de Donato e três convidados: Paulinha e Jacques Morelenbaum e Paulo Jobim, que descobriu, no baú do pai, uma música até agora inédita assinada pelos dois: ?Quando a lembrança me vem?, composição de Donato e  letra de Jobim.
A chuva, que caiu ontem à noite no Rio, não foi problema para as mais de 600 pessoas que lotaram o espaço para assistir a um espetáculo memorável de duas horas. Aliás, memoráveis são todas as apresentações de João.
Como ontem foi  Dia de São Jorge, ele vestiu uma camiseta com a imagem do santo (ou seria de Ogum?),  presente do mais recente amigo Zeca Pagodinho que, em seu último disco, gravou “Sambou, sambou”, uma velha musica de Donato, também presente na faixa.
No roteiro do show, houve um momento para o solo de piano. Certamente em homenagem ao ?dono? do Espaço, ele executou ?É de manhã?; ?Garota de Ipanema? e ?Chega de Saudade?, que deixou de ser musica instrumental para servir de base para o coro da platéia. O que vem ocorrendo todas as vezes em que a canção é executada. Até mesmo quando quem está no palco é João Gilberto. Foi assim no Teatro Municipal do Rio. João Gilberto gostou tanto da participação do público, que elogiou a afinação da platéia e ele próprio pediu bis. 
A banda com Robertinho Silva (bateria); Luiz Alves(contrabaixo), Ricardo Pontes (sax e flauta) e Jessé Sadoc (trumpete), ganhou agora a participação de  Sidinho Moreira (percussão). E para a atual  fase de João, Sidinho estará integrado ao grupo para o todo sempre. A música de João Donato está cada dia mais latina. ?Até pensei?  e  ?Brisa do Mar? viraram boleros definitivos; ?A Paz? é mambo; e ?Flor de Maracujá? (assista o vídeo) tem um quê de salsa. E o  futuro do sambolero, se enraíza com sua nova composição e letra de Nelson Motta: ?Bolero Digital?.
A som de João Donato é tão bom que ele deveria se apresentar todos os dias.
Viva o João! Viva o Brasil!
Viva o Samba! Viva a música latina! Viva o Bolero!

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