Três notas sobre Tiririca

 

PALHAÇO EM TEMPO INTEGRAL
       Do repórter Amauri Segalla, da ‘Isto é’:
“O palhaço da foto ao lado não tira a peruca de jeito nenhum. Candidato do Partido da República (PR) a deputado federal por São Paulo, o sujeito, que atende pelo apelido de Tiririca, recusou-se a atender a reportagem de ISTOÉ na condição de Francisco Everardo Oliveira Silva, seu nome de batismo. Alegou falta de tempo, mas a verdade é que, na reta final de campanha, não quer correr o risco de expor o seu verdadeiro eu. Segundo o Ibope, Tiririca deve amealhar um milhão de votos, o que vai transformá-lo num dos maiores fenômenos eleitorais da história do Brasil. Personagem criado pelo cearense Francisco, Tiririca fez certo sucesso em um programa humorístico da tevê e vendeu milhares de cópias de um CD graças à música burlesca Florentina. Por que resolveu ser candidato? “Minha mãe disse que era uma boa”.
Não tem graça nenhuma o real motivo que o levou à política. Um ano antes das eleições, uma pesquisa do PR concluiu que Tiririca tinha enorme potencial nas urnas. Seu desempenho avassalador vai puxar outros integrantes do PR para o Congresso. Como o número de vagas de cada partido é definido pelo quociente eleitoral (a soma de votos dos candidatos e da legenda dividida pelo número de vagas a que cada Estado tem direito), ele traz consigo candidatos nem tão queridos assim pela população. Se chegar a um milhão de votos, Tiririca pode eleger Valdemar Costa Neto, ex-presidente do PL e que renunciou ao cargo de deputado em 2005 por seu envolvimento no caso do Mensalão, e o delegado Protógenes Queiroz, que liderou barulhentas operações da Polícia Federal, como a Satiagraha. É da natureza da democracia admitir que qualquer cidadão possa disputar uma eleição. Mas o caso Tiririca é diferente. O candidato não é um brasileiro comum, mas um personagem do mundo da fantasia. Isso introduz um elemento fraudulento ao caso, diz o cientista político Fábio Wanderley Reis. O problema está no disfarce. Tira a peruca, Tiririca.
- Você vai responder a entrevista na condição de Tiririca ou de Francisco, seu nome de batismo?
- Então, cara, o Tiririca é o Francisco e o Francisco é o Tiririca.
- Você deve receber um milhão de votos. Como conquistou tanta gente?
- É o tempo de trabalho que tenho como artista, esse lance da Florentina. O pessoal se identifica com a minha história de vida, aquele cara que veio de baixo e deu a volta por cima.
- Como surgiu a ideia de sua candidatura?
- É engraçado. Recebi o convite do partido, o PR, há um ano. Aí fui falar com a minha mãe e ela achou uma boa.
- Quem está bancando a sua campanha?
- O partido.
- Quanto ela vai custar?
- Uns R$ 3 milhões. A campanha está bem pra caramba, tem muito material, tem de tudo.
- Quais são suas as propostas?
- A gente quer ajudar os menos favorecidos e os nordestinos também. Mas é complicado pra caramba. Por isso eu não divulgo proposta, não prometo nada.
- Você já disse que não tem ideia do que faz um deputado. Acha correto esse tipo de discurso?
- Do fundo do coração, acho bacana tudo o que o Tiririca fala. É uma coisa que um deputado jamais falaria. Ele não vai dar a cara para bater. O público gosta desse lance de sinceridade. As pessoas querem ver o Tiririca brincando. Essa é a maneira que achamos de fazer política. O Tiririca fala o que vem na cabeça, o que a galera quer ouvir. É por isso que a campanha deu 100% certo.
- No Congresso, você vai ser o Tiririca ou o Francisco?
- Eu queria estar vestido de Tiririca, mas não pode. Pelo menos foi o que o pessoal da parte jurídica disse. O que pode é terno diferente, colorido, mas a peruca não posso usar.
- Você quer ir para Brasília para fazer política séria ou piada?
- Vou ser o que eu sou. Vou ajudar muita gente, ajudar pra caramba. Graças a Deus, tenho meu trabalho. Já cheguei num ponto em que estabilizou a minha vida. Se eu quiser parar hoje, posso parar. Não sou candidato pela grana que o deputado ganha.
- Você se incomoda com as críticas?
- Não. Os adversários batem pra caramba, mas acho isso engraçado.
- Vai votar em quem para presidente?
- Do fundo do coração, posso falar em quem não vou votar. Não vou votar no Mercadante (Aloizio Mercadante, candidato ao governo de São Paulo pelo PT). Ele partiu para um lance infantil, bateu de frente comigo. Quando estou no ar, aparece o nome de quem apoio. O Mercadante pediu para tirar o nome dele, falou que não queria se associar a esse tipo de política. Voto na Dilma, mas no Mercadante não voto.
- É você vai ter paciência para política partidária, para o trabalho formal no Congresso?
- Já pensei nesse lance e acho que vou tirar de letra. Vai ser bacana mesmo.
VAI, TIRIRICA

      De Renata Lo Prete, da ‘Folha’:
“Sondagens eleitorais em curso indicam que o palhaço Tiririca (PR), provável recordista de votos em São Paulo, virou trunfo do PT para assegurar a presidência da Câmara em 2011. Puxador da coligação encabeçada pelos petistas, o dono do bordão “pior que está não fica” permitirá, caso as projeções se confirmem, que o partido de Lula e Dilma Rousseff conquiste até quatro cadeiras adicionais. Isso desempataria a acirrada disputa com o PMDB pela maior bancada.
As duas siglas trabalham para atingir a meta de cem deputados. Embora não exista regra, a base mais numerosa tem mais chances de comandar a Casa”.
JERÔNICO E TIRIRICA

    Do crítico Artur Xexéo, de ‘O Globo’:

“As pesquisas anunciam que Tiririca deve ser o candidato a deputado federal mais votado em São Paulo. Entendo perfeitamente o que leva um Tiririca a se candidatar a deputado federal. O que não entendo é o que leva um eleitor a votar em Tiririca.
Já fui adepto do voto nulo, e isso num tempo em que votar era coisa rara. Lembrome da primeira eleição popular durante a ditadura. Eu deveria escolher um candidato para fazer parte da Câmara dos Vereadores de Juiz de Fora. Não acreditava na eleição. Para quem chegou agora, estou falando de um tempo em que a gente votava em cédulas. Para que pareça mais distante ainda, era um tempo em que a gente escrevia na cédula o nome do candidato. Quer dizer, para presidente, governador, acho que até mesmo para senador, bastava preencher uns quadradinhos.
Mas, como a gente não votava para presidente, governador ou senador, tinha mesmo é que escrever o nome do vereador ou dos deputados. Cravei na cédula: Jerônimo Coragem.
Jerônimo Coragem não era um candidato de verdade. Era um candidato de ficção, interpretado por Claudio Cavalcanti na novela ‘Irmãos Coragem’, de Janete Clair. É meio difícil imaginar uma questão política envolvendo uma novela de Janete Clair.
Logo ela que sempre foi associada a trabalhos alienantes. Mas acho que, durante a ditadura, a televisão não produziu trabalhos mais engajados do que as novelas de Janete. Dizia-se que Sucupira, a cidade que Dias Gomes inventou em ‘O bem amado’, era um microcosmo do Brasil. Mas, antes de Sucupira, havia Coroado, a cidade dos ‘Irmãos Coragem’.
Na ficção, Jerônimo candidatava-se a prefeito em eleições, que, como acontecia com as eleições de verdade no Brasil, eram só para inglês ver. Jerônimo Coragem foi meu primeiro e único voto nulo. Um voto de protesto.
É impossível fazer um voto de protesto hoje em dia. Com as eleições eletrônicas, não há mais espaço para Jerônimo Coragem.
Ficou pior. Sobrou espaço para Tiririca.
O protesto é em Tiririca. Só que Jerônimo Coragem nunca teria uma cadeira na Câmara Federal. Tiririca vai ter.
Há quem justifique a candidatura de Tiririca dizendo que ela é representativa de parcela da população. Bobagem. Se fosse assim, teríamos que ter também candidatos ladrões, candidatos corruptos… bem, nós temos candidatos ladrões, candidatos assassinos e candidatos corruptos, mas não escancaradamente. Eles se disfarçam, e quem vota neles não sabe que são ladrões ou corruptos. Em Tiririca, vota-se sabendo quem ele é. O eleitor escolhe um palhaço para eleger acreditando que está sendo esperto. No fundo, está sendo mais palhaço que o candidato. Na campanha, Tiririca usa o slogan Vote em Tiririca, pior do que está não fica. Ledo engano. As pesquisas estão mostrando que pode ficar bem pior”.