O cardiologista da República

 De Tatiana Farah, de ‘O Globo’:
“Luiz Inácio Lula da Silva, José Alencar, Dilma Rousseff, José Sarney, Fernando Collor, Paulo Bernardo, Paulo Maluf e José Serra. A lista de pacientes de Roberto Kalil Filho tem segredos de três décadas da política brasileira, mas o cardiologista prefere ser visto como médico de família, à moda antiga, do que ser chamado de ?médico do poder?.
? É claro que tem um lado bom em ser o médico do presidente, mas há outro lado. Alguns pacientes pensaram ?agora ele vai ficar viajando o mundo inteiro e não terá mais tempo para mim?. Não é verdade. Eu atendo a todos e gosto de acompanhar cada caso. Se quebrou o pé, quero saber ? diz Kalil, que, para dar conta do recado, começa às 8h e só para à meia-noite.
Aos sete anos, Kalil ganhou um microscópio do pai. Agora, aos 50, já deu estetoscópios e aventais brancos, bordados com os nomes, para estimular nas filhas adolescentes algum gosto pela medicina.
? Elas têm duas opções, podem ser médicas ou médicas ? brinca o médico, que começou ao lado do tio, Fúlvio Pileggi, diretorgeral do Instituto do Coração (InCor) nos anos 80.
Foi com Pileggi que Kalil aprendeu a ser rigoroso e cobrar muito dos assistentes: ? Meu tio dizia: ?Não quer ficar 24 horas trabalhando? Está cansado? Então vá fazer balé, tricô, ficar em casa. Porque médico trabalha 24 horas?. Eu sou mais bonzinho que ele, pelo menos de madrugada, em emergência, eu não faço as assistentes correrem para o hospital. Venho eu mesmo, até porque eu gosto de ver o que está acontecendo com o meu paciente.
Diretor de Cardiologia do Hospital Sírio Libanês, médico e professor do Instituto do Coração, Kalil está arranjando tempo para se dedicar mais à pesquisa.
Quer desenvolver no Instituto do Câncer um trabalho sobre o efeito dos quimioterápicos sobre o coração e as artérias.
? Um médico não pode ficar sem fazer ciência muito tempo.
Este é meu plano para agora.
Para cumprir sua jornada de ?workaholic?, Kalil dispensa cinema, teatro, livros, passeios e férias. Em janeiro, ?arrastado? pela mulher, a médica Cláudia Cozer, e as filhas, foi esquiar nos Estados Unidos. Resultado: a mão e uma costela quebradas.
Mas não é de hoje que a agenda de Kalil é fechada para o lazer.
? Quando era criança, o melhor dia das férias era o de voltar para casa. Quando era moço e solteiro, nunca fui a uma boate.
Não gosto de festas, se fui ao cinema, fui umas três, quatro vezes na vida (uma delas para ver o filme ?Lula, O Filho do Brasil?).
Sou assim. Meu irmão, médico também, é um pouco diferente.
Kalil não para nem para conversar com colegas na lanchonete do hospital e, muitas vezes, passa reto, sem cumprimentar, com a cabeça ?a mil?.
? Falam que eu sou chato, mas eu não gosto, nunca gostei de festa, de muita conversa. É só o meu jeito ? admite.
O excesso de visibilidade em razão da agenda de pacientes famosos, principalmente do presidente Lula, incomoda um pouco Kalil. Para decidir dar a entrevista ao GLOBO, ele levou duas semanas.
Com a reportagem aguardando no hospital, ligou para o presidente do CRM (Conselho Regional de Medicina), para saber a opinião do órgão.
? Os médicos usam pouco o CRM e, lá, eles estão habilitados a nos orientar nessas questões éticas? justificou.
O melhor amigo de Kalil, também médico, é Lucio Rossini, especialista em endoscopia. Moram em São Paulo, mas passam mais de um ano sem se ver.
? É um amigo daqueles que, pode passar o tempo, será o seu melhor amigo. Devo muito a ele.
Quando começamos com um consultório, eu não tinha dinheiro, e abrimos juntos. Um atendia de manhã e o outro, à tarde.
Dinheiro e consultório hoje não são problema. Em um dos prédios ao lado do Hospital Sírio Libanês, os pacientes ficam cercados de sofisticação. No consultório que Kalil guarda o microscópio da infância e um ritual: sempre ter um vaso com rosas brancas.
? Sou espiritualizado.
Aprendi a acreditar quando vi minha mãe doente. Com fé e medicina ela se recuperou.
É a mesma receita de fé e medicina que Kalil vê como o sucesso do vice-presidente José Alencar na luta contra o câncer. Ele elogia o espírito otimista de Alencar e o jeito regrado de Maluf para cumprir os tratamentos médicos. Para o presidente Lula também sobram elogios, assim como histórias.
Kalil é seu cardiologista há quase 20 anos.
? Na eleição de 2002, o presidente, muito carinhoso, brincou com a minha filha: ?Você votou em mim?? Ela respondeu: ?não, votei no Serra?. Eu falei: ?Filha, como assim? Você não votou em ninguém, você não vota?.
E ela respondeu: ?Votei sim, fui votar com a minha mãe e apertei o 45 (número do PSDB)?.
Todos nós demos risada.
Mas política é um assunto que fica fora do consultório.
? Sou médico, não político.
Não tenho vontade de ser”.