José Serra pode mais

   O candidato José Serra participou, ontem à noite, da entrevista do programa 3 x 1, na TV Brasil.
Serra estava visívelmente cansado.
Também pudera. Sua campanha é digna de um barata tonta.
Ele está todos os dias em todos os lugares e, ao mesmo tempo, não está em lugar algum.
A jornalista Tereza Cruvinel, sua velha amiga, participou do debate.
Serra deveria se sentir honrado com a presença da presidente da TV Brasil na bancada de entrevistadores. Tereza talvez seja a jornalista com quem Serra teve mais afinidades durante toda a sua carreira política.
Mas foi justamente com ela que o candidato resolveu implicar.
O âncora do programa, Luiz Carlos Azedo, havia feito uma pergunta sobre aborto, e Tereza aproveitou para saber a opinião do candidato sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo.
Serra irritou-se:
- Essa questão agora virou o xodó das entrevistas –  reclamou. Já falei sobre isso várias vezes. As religiões é que devem definir a questão de cada caso. Isso não é uma questão de Estado.
Pobre candidato…
Pouco depois, Tereza fez nova pergunta:
- O senhor, como candidato de oposição…
- Eu não sou candidato de oposição – repeliu o tucano. Sou o candidato do futuro.
Classificá-lo como candidato de oposição deixou Serra tão irritado que, no final do programa, ele voltou ao tema:
- Eu não sou candidato de oposição. Sou o candidato do ‘pode mais’, do ‘dá para fazer’.
Serra elogiou a política externa de Lula, mas disse que ele não procuraria conversar com governantes tipo Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, que “apedreja adúlteras e condena jornalistas”:
- Lá  – disse ele para Tereza – você seria condenada a pelo menos 30 anos.
Quanta gratuidade…
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Serra foi, no mínimo, descortês com Tereza Cruvinel. Na verdade, ele foi mal educado.
Tudo isso pode ser debitado ao cansaço do candidato, obrigado a ir a quatro, cinco compromissos por dia, mesmo que não tenha nada a dizer a seus interlocutores.  Ele encontrou-se, semana passada, com um pequeno grupo de artistas e intelectuais, no Rio, e a eles disse que seu programa para a área cultural ficará pronto em agosto.
Por que, então, não agendou o encontro para essa data?
Cansado, reclamando da garganta e do ar condicionado - ele tossia o tempo inteiro -  Serra está parecendo mais velho do que a idade que tem.
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Mas tudo isso é detalhe.
O que lhe falta, antes de mais nada, é um discurso.
1. Ele disse que todos os presidentes, até agora, foram fracos diante do Congresso. Imaginem o que Serra fará com os políticos caso chegue a Presidência.
2. O tucano deixou claro que é adepto da política do “dono do botequim”. Reclamou que a atual equipe econômica não é homogênea. Ele não admite debates dentro do governo. Todos tem de pensar como o chefe.
3. Sua proposta de reforma política começa com o voto distrital para os vereadores, já em 2012. Poderia ser apelidada de reforma naif, de tão primitiva. É de uma infantilidade que dá dó.
4. Serra falou, falou e falou sobre reforma tributária, e não fez uma única proposta. Ninguém sabe o que o candidato pensa sobre o tema.
5. O único discurso que o candidato tem arrumado na cabeça é o que se refere ao consumo, ao tratamento e ao combate as drogas. Mesmo que ele seja totalmente equivocado.
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Serra precisa de repouso, principalmente nos dias em que for à televisão.
A entrevista de ontem, na TV-Brasil, será comparada com a de Dilma Rousseff, no dia anterior, e com a que Marina Silva dará hoje.
José Serra fortaleceu a sua imagem de barata tonta.
E ele não é isso.
Pode ser um pouco trapalhão, mas é homem sério, bom gestor e sabe, como ninguém, formar equipes.
Mas sua aparição, de ontem, foi a de um politico descompensado, frágil, sem programa, sem discurso, com exemplos tolos, e irritado. Muito irritado.
É pena pois Serra pode mais…