• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:02

Merval: “Serra saiu-de mal na polêmica”

De Merval Pereira, em ‘O Globo’:
“Depois de um período em que navegou em mar de almirante, quase sem cometer erros e claramente ditando o rumo da pré-campanha, o candidato tucano, José Serra, ressuscitou o político ranzinza que estava adormecido dentro dele e saiu ontem com três pedras na mão para responder a uma pergunta da jornalista Míriam Leitão na entrevista que concedeu à rádio CBN.
A pergunta, sobre se manteria a autonomia do Banco Central, nada tinha de ofensiva, e mesmo a referência ao fato de que muita gente acha que Serra quererá ser também o presidente do Banco Central, se for eleito presidente, referia-se a um comentário frequente, que o candidato tem que esclarecer porque se trata de uma característica que lhe atribuem, a centralização das decisões, que pode ser crucial para a definição do eleitorado.
As críticas de Serra à política de juros já são conhecidas, assim como sua visão de que o Banco Central é um órgão assessor da política econômica como qualquer outro, e não é intocável, também.
É previsível que num eventual governo Serra a autonomia do Banco Central não será formalizada. Aliás, nem Lula tornou essa autonomia lei, e mesmo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em cujo governo chegou-se a cogitar essa formalização, hoje dá graças a Deus de não ter levado adiante o projeto de sua equipe econômica.
Ele relembra a crise da desvalorização do Real em 1999 e diz que, se o Banco Central fosse independente, com a diretoria com mandato, não teria sido possível mudar a política do economista Francisco Lopes, nem tirá-lo da presidência do BC em tão pouco tempo para colocar em seu lugar Armínio Fraga.
A tendência num governo Serra é que as diretorias dos bancos estatais sejam compostas na maior parte por funcionários de carreira, valorizando as corporações, fortalecendo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, por exemplo, sem aparelhar politicamente suas gestões.
Assim também o Banco Central provavelmente não terá status ministerial e perderá a importância que tem hoje, reduzindo a margem para conflitos internos.
A ideia é dar consistência à equipe econômica, harmonizando a atuação do BC com o Ministério da Fazenda, o que evitaria divergências de políticas que existem hoje, com uma parte do governo aumentando os gastos públicos e incentivando a demanda, e o Banco Central tendo que atuar aumentando os juros para conter a inflação.
Embora não tenha entrado em detalhes na entrevista à CBN, pelo que tem revelado em conversas, Serra não vai baixar a taxa de juros na base do voluntarismo, mas vai usar diversos métodos para reduzir a necessidade de manter os juros mais altos do mundo, como ressaltou ontem na entrevista.
O papel da Bolsa de Valores será fundamental, e nesse contexto o pré-sal é um bom exemplo: um eventual governo Serra incentivaria que a Petrobras se capitalizasse na Bolsa.
Segundo seus assessores, Serra tem claro que hoje, quando o que precisamos é crescer e financiar novos investimentos, a Bolsa ganha dimensão especial. Ressaltou na entrevista que os investimentos têm sido pequenos nos últimos anos, especialmente em infraestrutura.
Uma das ideias que estão sendo estudadas é cobrar menos impostos de quem aplica na Bolsa do que em papéis do Tesouro. A visão é a de que temos muita liquidez interna, e está tudo aplicado em títulos do governo, em vez de em investimentos.
Boa parte das empresas que o BNDES e o Banco do Brasil estão financiando ganharia taxa de juros Selic nas suas aplicações e pagaria pelo empréstimo TJLP, bem mais baixa.
O tom da política econômica de Serra seria uma regulação forte, e isso ele destacou na entrevista da CBN, criticando o aparelhamento das agências reguladoras.
Serra é favorável ao que chama de Estado ativo, mas não nos mesmos moldes dos anos 50, quando o Estado desempenhou papel fundamental na economia brasileira, coordenando investimentos e intervindo na economia.
Esse modelo de desenvolvimento centrado no Estado perdeu força nos anos 1980, mas está sendo reavivado hoje pelo governo Lula.
Serra ontem se disse favorável a um Estado musculoso e não inchado. Em outras ocasiões, nos últimos anos, ele tem explicitado suas ideias sobre o sucessor do Estado intervencionista, que segundo ele não pode ser o Estado inerte, mas o Estado regulador, com a criação das necessárias agências e a aprovação de legislação que defina precisamente parâmetros para o funcionamento dessas entidades.
Em lugar de uma estatal, um governo Serra estimularia que as grandes empresas privadas produzam aqui, como foi feito com os celulares e a indústria automobilística.
Uma das maneiras de controlar o câmbio seria incentivar as empresas a segurarem o dólar no exterior, para comprar equipamentos e importar.
A diferença entre os candidatos seria basicamente que Dilma é mais interventora, e Serra, mais regulador, embora na entrevista de ontem ele tenha deixado uma sensação de intervenção no trabalho do Banco Central que deu margem a críticas da candidata oficial.
A estratégia de Lula, de tentar colocar o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, como vice de Dilma, visava justamente a isso: dar um recado ao mercado de que haveria continuidade na autonomia do Banco Central.
Ontem, embora tenha garantido que não haverá virada de mesa com ele no governo, Serra saiu-se mal na primeira polêmica da campanha, mostrando-se irritadiço com as desconfianças do mercado.
Está apenas dando margem ao governo de explorar os receios de que ele seja na verdade mais intervencionista do que Dilma. O que é improvável, mas como mote de campanha eleitoral produz seus efeitos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:02

Miriam não coloca lenha na fogueira

O debate de ontem na rádio CBN:
MÍRIAM LEITÃO: Governador, deixa eu fazer a minha pergunta que eu não consegui completar. A questão não é se o Banco Central é infalível; ninguém é. Mas se o senhor, quando se deparar com um erro do BC, caso seja presidente, ficará apenas com sua opinião ou vai interferir? A questão não é a taxa de juros.
JOSÉ SERRA: Imagina, Míriam, o que é isso? Mas que bobagem. O que você está dizendo, você vai me perdoar, é uma grande bobagem. Você vê o BC errando e fala: Não, eu não posso falar porque são sacerdotes. Eles têm algum talento, alguma coisa divina, mesmo sem terem sido eleitos, alguma coisa divina, alguma coisa secreta tal que você não pode nem falar: Ó, pessoal, vocês estão errados? Tenha paciência!”
                        * * *
Apesar de ter sido tratada de maneira grosseira pelo candidato tucano, Miriam não se referiu ao episódio em sua coluna de hoje, em ‘O Globo’.

  • Segunda-feira, 05 Julho 2010 / 4:37

Serra precisa reinstalar o sistema

  O bagulho entupiu.
Assim, plagiando o sambista Zeca Pagodinho, esse blog resumiu, há dias, a campanha de José Serra à Presidência. Era impressionante a quantidade de erros cometidos pelo comando tucano, culminando com a escolha do vice, Índio do Demo.
Hoje, o jornalista Élio Gaspari faz nova comparação, obviamente de maneira mais sofisticada. Vamos a ela.
   “José Serra está na situação do sujeito que digita um texto em “Times New Roman” e ele aparece na fonte “Arial”. (Numa entrevista, indagado pela jornalista Miriam Leitão sobre a autonomia do Banco Central, destratou-a.) Depois, o cidadão decide salvar uma planilha, e ela some. (Forma uma chapa puro-sangue com um vice que noutra encarnação foi expulso do PSDB.) Finalmente, no meio de uma palestra com PowerPoint, suas tabelas travam. (Diante da insurreição do DEM, fecha a chapa com um candidato com quem nunca conversou por mais de cinco minutos.)
O freguês do computador achou que o problema estava no programa Word (Jornalistas perguntando o que não devem). Depois a suspeita migrou para o Excel. (O PSDB é muito volúvel). Finalmente, o culpado é o PowerPoint (É preciso reformular a estrutura da campanha).
Se os problemas fossem esses, seriam pequenos, mas, levando-se as queixas a quem sabe mexer com as máquinas, a resposta é dura: na melhor das hipóteses é o seu sistema operacional que está corrompido. O bug não está nos diversos programas que acompanham a candidatura, mas na sua essência. É preciso reinstalar o sistema. Na pior das hipóteses, a encrenca não está no software, mas na própria máquina. Por ser a alternativa catastrófica, letal, convém desprezá-la.
Problemas na escolha dos vices são mais comuns do que resfriados. Geraldo Alckmin jogou ao mar Henrique Alves; Fernando Henrique Cardoso sacrificou Guilherme Palmeira. Tancredo Neves, reunido com o senador Pedro Simon numa suíte do Hotel Nacional, ouviu um veto desprimoroso a José Sarney, que se retirou da sala, tomou o avião e foi para o Rio. Tancredo disse a Simon que o vice de seu projeto era Sarney e acabou com a divergência. Quando o ministro do Exército, general Lyra Tavares, disse ao general Médici que o almirante Rademaker não podia ser seu vice, o então comandante da guarnição do Sul pegou o quepe e voltou para Porto Alegre, onde foram buscá-lo, com Rademaker na vice.
Serra detonou a proposta de prévias de Aécio Neves, que poderia expor o PSDB a uma saudável exposição de contraditórios. Fez isso insistindo em postergar o lançamento de sua candidatura. Há um ano, quando a nação petista começou a mover a candidatura de Dilma Rousseff, o governador de São Paulo estava 30 pontos à frente da chefe da Casa Civil. Assumindo a candidatura, acreditou demais na possibilidade de atrair Aécio Neves e cultivou a ideia de dispensar o DEM. Serra temia, e continua temendo, a exibição dos vídeos do democrata José Roberto Arruda e de sua quadrilha embolsando dinheiro em malas, bolsas e meias.
Há um mês, Serra poderia escolher o vice que bem entendesse. Não queria buscá-lo no DEM, mas não disse isso a ninguém. Fez uma escolha oportunista, calculou mal o equilíbrio da política paranaense e acordou na quarta-feira sem plano B, C ou Z. Aceitou um companheiro de chapa produzido muito mais pela marquetagem do que pelos Maia do Rio de Janeiro. Todas as decisões e indecisões saíram do seu sistema operacional e deu no que deu.
Há três meses, Serra lembrou que “a boa equipe necessita de um norte claro, sempre claro, de quem está no comando” e lançou-se na campanha presidencial dizendo que “o Brasil pode mais”. Depois disso, o “Times Roman” virou “Arial”, a planilha sumiu e o “PowerPoint” travou. Como a campanha mal começou, poderá reinstalar o sistema”.

  • Quarta-feira, 12 Maio 2010 / 4:02

Serra com sono e agressivo

De Renata Lo Prete, no Painel da ‘Folha’:
“Para além das discussões de mérito sobre o grau de autonomia do BC, a refrega entre José Serra e a colunista de economia Míriam Leitão, durante entrevista na rádio CBN, foi discretamente festejada pelo campo adversário por ter sido a primeira vez, desde o lançamento da candidatura, em que o tucano respondeu com agressividade explícita a uma pergunta que o irritou. Aliados se dividem em atribuir o fato a mau humor, dor de garganta, privação de sono e/ou sensibilidade do tema, mas todos concordam: trata-se de infração ao “código de conduta” de qualquer candidato.
De 10 de março até ontem, episódios de “má sorte” pareciam exclusividade de Dilma Rousseff. Não mais.
Última mensagem postada na madrugada de ontem por Serra no Twitter: “Dormir é questão de decidir. E decidi dormir mais “cedo” hoje. Às 8h, tenho debate na CBN”. Eram mais de 3h.

  • Terça-feira, 11 Maio 2010 / 4:02

Candidatos divergem sobre BC

Da ‘Folha’:
“Os três principais pré-candidatos à Presidência revelaram ontem divergências sobre o grau de autonomia que o Banco Central teria em seus governos.
O tema veio à tona depois de uma declaração de José Serra (PSDB), que pela manhã defendeu que “o presidente da República tem que fazer sentir sua posição” se houver “erros calamitosos” na condução da política monetária do país.
Apesar de o tucano ter declarado ser favorável à autonomia do BC, suas principais adversárias, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV), aproveitaram a frase para tentar se contrapor ao tucano, defendendo a autonomia da instituição e sua atuação na crise mundial -que havia sido criticada por Serra.
Na entrevista matinal, à rádio CBN, Serra mais uma vez negou que vá ocorrer “virada de mesa” na economia caso ele seja eleito, mas afirmou que o BC não está “acima do bem e do mal”. Para o tucano, “o Banco Central não é a Santa Sé”.
O pré-candidato do PSDB chegou a ter uma discussão ríspida sobre o assunto com a colunista Míriam Leitão. Ao participar da entrevista por telefone, ela perguntou se o tucano respeitaria a autonomia do BC ou se presidiria também a instituição se vencesse a eleição.
Serra disse que a suposição era “brincadeira” e afirmou que “o tripé câmbio flutuante, responsabilidade fiscal e meta de inflação veio para ficar”.
Mas rebateu: “Você acha isso, sinceramente, que o BC nunca erra? Tenha paciência”.
Questionado se interviria ao se deparar com um erro do BC, Serra interrompeu. “O que você está dizendo, vai me perdoar, é uma grande bobagem. Você vê o BC errando e diz: “Não posso falar porque são sacerdotes, eles têm algum talento, alguma coisa divina, mesmo sem terem sido eleitos, alguma coisa divina, alguma coisa secreta, e você não pode nem falar “pessoal, vocês estão errados”.
À tarde, voltou ao assunto e disse defender a autonomia do BC “dentro de certos parâmetros, que são os interesses da estabilidade de preços e do desenvolvimento da economia”. Afirmou ser “um grande admirador” da jornalista e negou ter ficado incomodado com as perguntas. “Eram 8h, o que vocês querem? Que eu chegue sorrindo como chego aqui?”, disse, às 17h, o notívago pré-candidato.
Poucas horas depois da primeira entrevista de Serra, Dilma defendeu, no Rio, o que chamou de “agilidade, competência e precisão” da gestão do BC no governo Lula. “Relações institucionais têm que se pautar pela maior tranquilidade possível, pela serenidade. Sempre tivemos uma relação muito tranquila com o Banco Central, de muito pouca turbulência, de muito pouca confusão”, disse.
Marina foi na mesma linha e defendeu tanto a autonomia do BC quanto sua atuação durante a crise. “A experiência brasileira mostra que foi acertada a autonomia do BC. É uma autonomia não institucionalizada.” (CÁTIA SEABRA, BRENO COSTA, BERNARDO MELLO FRANCO, PLÍNIO FRAGA e SERGIO TORRES)
                           * * *
“Indagado se via as declarações do tucano José Serra como crítica ou se elas poderiam trazer algum desdobramento para o Banco Central, o presidente da instituição, Henrique Meirelles, afirmou que se tratavam, “por enquanto”, apenas de debate. “Faz parte do trabalho da oposição criticar”, disse ele ontem, na Basileia, onde participou de reunião do BIS (espécie de Banco Central dos BCs). “O BC, como qualquer autoridade monetária, não se mete em debate eleitoral.”

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