Jacques Wagner e a PM da Bahia

     O governador da Bahia, Jacques Wagner, concedeu uma entrevista aos repórteres Graciliano Rocha e Fabio Guibu, da ‘Folha’. Wagner se disse surpreendido com o movimento e disse que os métodos usados pelos grevistas são “coisa de bandido”.
Eis a entrevista:
- Esta greve poderia ter sido evitada?
- Isso é mais levante do que greve, pelo jeito como foi feito: caboclo põe dois “berros” [armas] na cintura, tira população de dentro de ônibus, agride as pessoas, interrompe o trânsito. Têm por obrigação legal garantir a ordem pública e estão fazendo o contrário. Esse movimento tem esse caráter nacional: tem uma direção nacional, uma cartilha cujo objetivo é a votação da PEC-300.
- Mesmo com motivação nacional, houve uma adesão forte dos PMs daqui por melhores salários.
- Quem não quer ganhar mais? Todo mundo quer, mas precisa saber da legalidade e das consequências. Não é pouca coisa o aumento de 30% acima da inflação que policiais tiveram em cinco anos.
- No momento em que a greve foi deflagrada, o sr. estava em Cuba. O sr. foi surpreendido?
- Eu estava monitorando. A assembleia [de grevistas] foi dia 31 à tarde, cheguei na madrugada do dia 2. Havia autoridade aqui. Tinha o governador em exercício e o secretário de Segurança. A primeira ligação que eu recebi foi informando que a assembleia deu mais gente do que eles achavam que ia dar. A avaliação que as estruturas de segurança tinham [do movimento] não se confirmou na assembleia. Isso é fato.
- O governo não negocia com a Aspra (entidade que lidera a greve) por isso?
- É a associação que tem o menor número de associados.
- Mas tem o controle do movimento. O sr. já foi sindicalista. Não é um equívoco não negociar com quem lidera?
- Não acho que a categoria tenha apreço por essa liderança. Ninguém do governo vai receber o [presidente da Aspra, Marco] Prisco. Ele está com ordem de prisão decretada.
- Em 2001, quando a PM parou por duas semanas e também houve uma onda de violência na Bahia, o sr. era de oposição e apoiou o movimento.
- Eu não.
- O partido do sr. apoiou.
- Vários parlamentares apoiaram, eu não apoiei. Eu entrei para negociar e ajudar a sair da greve.
- Pode haver invasão da Assembleia, onde estão acampados os líderes do movimento?
- Invasão, não, porque é um prédio de outro poder [Legislativo]. Mas o próprio poder está incomodado com a presença de pessoas com ordem de prisão sentadas ali.
- O Estado baiano ou as Forças Armadas irão prender essas pessoas?
- Tem uma ordem judicial para ser cumprida. A estrutura militar e policial está montando uma estratégia para cumprir a ordem.
- O sr. pode anistiar os grevistas?
- Não vou assinar anistia nenhuma a quem cometeu crime, invadiu ônibus, matou mendigos ou moradores de rua, como foi feito. A figura da anistia não existe, ela só existe quando se encerra um regime de exceção. Não estamos em um regime de exceção. Anistia é presente e estímulo a esse processo.
- O sr. tem informações concretas que grevistas mataram pessoas?
- Óbvio que não tenho prova. Como a estratégia deles é a criação de pânico, é muito estranho que nesses dias morram moradores de rua na proximidade da associação deles. Você pode perguntar se estou sendo leviano. Estou falando de uma suspeita; será acusação se a gente conseguir provas.
- O governo pode fazer alguma concessão para encerrar o impasse?
- Não tem acordo. Não dá para a gente ficar alimentando isso como método de reivindicação salarial. Isso não existe. Qual é a segurança que posso lhe dar amanhã se é a polícia quem está tirando cidadão de ônibus? Isso é coisa de bandido. Estou falando até como ex-grevista.
- Os militares darão segurança ao Carnaval de Salvador?
- Ainda estamos a 10 ou 11 dias do Carnaval. Não há hipótese de esse planejamento da PM para o Carnaval não ser cumprido. Até lá estará acabado esse processo [de greve].
- O sr. vai cortar o ponto de quem aderiu à greve?
- Há uma separação gritante entre os marginais, que estão cometendo esses troços, de quem está querendo ganhar mais e aderiu. Tenho de separar o joio do trigo. Quem cometeu crime vai responder na Justiça. Para os outros, não, [o corte de ponto] será instrumento da negociação do comando da PM com eles.