• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:59

Tuma Jr. só sai se surgir fato novo

Dos repórteres Kennedy Alencar, Fábio Amato e Lucas Ferraz, da ‘Folha’:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá manter Romeu Tuma Jr. no cargo de secretário nacional de Justiça. Nas palavras de um ministro, só um “fato novo” poderia levar Lula a demiti-lo.
Investigação da Polícia Federal obteve gravações telefônicas e troca de e-mails entre Tuma Jr. e Li Kwok Kwen, o Paulo Li, que foi preso em 2009 sob acusação de contrabando.
Nas gravações, Tuma Jr., que também é presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, trata da compra de um celular, de videogame e até de regularização da situação de chineses que viviam clandestinamente em São Paulo. Embora tenha sido flagrado nos grampos da PF, o secretário não foi alvo do inquérito.
Na visão presidencial, não há nessa investigação uma ilegalidade cometida por Tuma Jr., a quem o presidente considera “um bom policial”, de acordo com um auxiliar direto.
Lula se considerou satisfeito com as explicações de Tuma Jr., oferecidas anteontem, quando o jornal “O Estado de S. Paulo” divulgou reportagem vinculando-o à máfia chinesa.
No entanto, o presidente pediu ao ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que buscasse mais informações.
Até ontem, Barreto não obtivera, segundo a cúpula do governo, um dado que comprometesse Tuma Jr. Barreto confirmou ontem em Buenos Aires que fez à PF “um pedido formal de informações” sobre o caso, “a fim de poder fazer uma avaliação mais precisa”, mas descartou afastar Tuma Jr. imediatamente.
A Folha apurou que o presidente deverá voltar a tratar do tema hoje com o ministro. Sem o tal “fato novo”, a posição presidencial será manter Tuma Jr. Se surgir algo desabonador, o secretário perderá o cargo.
Um ministro disse que, no máximo, houve um pedido de favor de Paulo Li, mas não uma ilegalidade. Segundo ele, ficaram claras as relações de amizade da família Tuma com Li. Sobre a prisão de Li em 2009 sob acusação de contrabando, um auxiliar direto do presidente diz que Tuma Jr. não pode ser demitido por ter trocado telefonema e pedido favores. O ex-ministro da Justiça Tarso Genro disse ontem, em Porto Alegre, que as gravações de conversas de Tuma Jr., “se forem verdadeiras”, o “inabilitam” para o cargo.
Por telefone, Tuma Jr. disse ontem conhecer Li há 30 anos e nunca ter comprado produtos piratas. Afirmou ter ficado surpreso quando Li foi preso.
“Nunca imaginei isso. Como vou cuidar ou saber o que meus amigos fazem? Muitas vezes não tenho condições de saber o que minha filha está fazendo.”
Li conheceu Tuma Jr. quando este ainda era adolescente. Eles trabalharam juntos -Li o assessorou na Assembleia de São Paulo quando o filho do senador Romeu Tuma (PTB-SP) era deputado estadual. “Não há nada contra mim. Não cometi nenhum crime. Não fui nem sequer denunciado.”
Sobre a conversa em que trata com Li de mercadorias, o secretário, responsável no governo por combater a pirataria, disse não haver ilegalidade.
“Não há nada demais. Consultei algumas coisas com ele, coisas de amigo para amigo. Nem sei se existe esse videogame pirata. O videogame foi comprado e há nota.”
O secretário ocupa um dos cargos mais importantes do Ministério da Justiça.
A Secretaria Nacional de Justiça é responsável por assuntos que tratam da situação de estrangeiros, da repatriação de dinheiro de brasileiros bloqueado no exterior e da lavagem de dinheiro. Tuma Jr. garante que não deixa o cargo. “Posso cometer erros, mas não crime. Ninguém está acima da Justiça.”

  • Quinta-feira, 13 Maio 2010 / 4:05

Romeu Tuma Jr. não voltará

De férias, Romeu Tuma Jr não deverá voltar para a Secretaria Nacional de Justiça.
O Presidente Lula disse que preferia vê-lo afastado, e não de férias.
E o policial federal Paulo Guilherme Melo, o Guga, considerado o seu braço direito, já foi devolvido à Polícia Federal.

  • Quarta-feira, 12 Maio 2010 / 4:04

Tuma, férias cansativas

Tudo leva a crer que as férias de Romeu Tuma Jr serão um verdadeiro inferno.
Ou alguem acha que ele vá descansar?

  • Terça-feira, 11 Maio 2010 / 4:02

Governo quer se livrar de Tuma Jr.

Da ‘Folha’:
“A Comissão de Ética Pública da Presidência decidiu investigar a conduta do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., levando o governo a pressioná-lo a deixar o cargo.
Segundo a Folha apurou, o presidente Lula espera que Tuma Jr. peça ao menos uma licença até que o caso envolvendo seu nome seja esclarecido.
Um auxiliar do presidente disse que a situação do secretário está ficando “difícil” e que o ideal seria ele deixar o governo por conta própria, evitando a saída mais traumática que seria sua demissão. Esse desfecho, segundo a equipe de Lula, será o mais provável caso Tuma Jr. não peça a licença.
Na avaliação de Lula, Tuma Jr. não cometeu crime, “não pegou dinheiro de ninguém”, mas suas conversas com o chinês Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li, acusado de contrabando, são inadequadas para o cargo que ele ocupa. Além de secretário nacional de Justiça, ele preside o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, tentou convencer seu subordinado a pedir a licença -o que ontem Tuma Jr. resistia, alegando que “sempre esteve do lado que combate o crime” e que sair do cargo seria o mesmo que admitir culpa.
Barreto e o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, se reuniram por duas vezes com Lula para discutir a situação de Tuma Jr., que ficou de dizer hoje se pede ou não licença.
Nas gravações reveladas pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, o secretário trata com Paulo Li da compra de celular e videogame e até da regularização de chineses que viviam no país.
Naquele momento, o governo avaliou que os motivos expostos não eram suficientes para a saída dele, mas que o surgimento de novos fatos poderia mudar a situação -o que ocorreu na sexta e no sábado.
Primeiro, um relatório da PF o apontou como suspeito de ter usado o cargo para liberar mercadorias de outro contrabandista. Tuma Jr. também teria tentado evitar o flagrante de familiares de uma deputada levando para o exterior dólares acima do que a lei permite.
A Comissão de Ética da Presidência vai dar cinco dias para Tuma Jr. apresentar esclarecimentos e também requisitou à PF e à 3ª Vara de Justiça de São Paulo informações.
Com base nas respostas, a comissão decidirá se abrirá processo disciplinar contra ele -nesse caso, o órgão pode recomendar punição que varia de advertência até a demissão. Tuma Jr. nega qualquer irregularidade”. (SIMONE IGLESIAS, FÁBIO AMATO, LUCAS FERRAZ e VALDO CRUZ)

  • Segunda-feira, 10 Maio 2010 / 3:59

Governo cobra explicações de Tuma

Dos repórteres Tânia Monteiro e Leandro Colon, do ‘Estadão’:
“O Palácio do Planalto considerou insuficientes as explicações do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, captado por escutas telefônicas legais da Polícia Federal em troca de favores com um dos chefes da máfia chinesa no Brasil, Li Kwok Kwen, o Paulo Li.
Na avaliação do governo, o silêncio de Tuma Júnior – que é delegado da Polícia Civil de São Paulo – somado ao desdobramento das investigações pode tornar a situação do secretário “insustentável”. Paralelamente, articuladores do Planalto ainda tentam colocar “panos quentes” no caso.
Expoente da hierarquia do Ministério da Justiça, Tuma Júnior comanda áreas estratégicas como o Departamento de Recuperação de Ativos (DRCI), que é responsável pelo rastreamento de dinheiro ilegal no exterior, e o Departamento de Estrangeiros.
Como o Estado revelou na edição de ontem, o secretário nacional de Justiça mantinha estreita ligação com Paulo Li, hoje um presidiário na capital paulista.
Li foi preso pela PF com mais 13 pessoas, sob acusação de comandar uma quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, procedentes da China, durante a Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.
Sob o impacto do noticiário, Tuma Júnior preferiu silenciar, dar declarações sucintas a imprensa e ofereceu explicações consideradas fracas para seu superior hierárquico, o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto.
O secretário chegou a convocar a imprensa para uma entrevista coletiva. Prometeu que se defenderia publicamente, mas depois desistiu.
Em um movimento para não atrair para o Planalto o escândalo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu a senha para Barreto exonerar o auxiliar.
Lula “despolitizou” Tuma Júnior, filho do senador Romeu Tuma (PTB-SP), aliado do governo, afirmando que esse era um assunto do Ministério da Justiça. “Eu vi informações hoje (ontem) sobre o delegado Romeu Tuma. Primeiro tem de esperar a investigação. Todo mundo sabe que é um delegado muito experimentado na polícia brasileira. É um homem que tem uma folha de serviços prestados ao País”, disse.
“Se há uma denúncia contra ele, a única coisa que temos de fazer, antes de precipitarmos decisão, é investigar da forma mais democrática possível”, afirmou o presidente Lula, no Palácio do Itamaraty, onde recebeu as credenciais de novos embaixadores estrangeiros.
Mas as idas e vindas do secretário e a escassez de respostas colocaram o Planalto no enredo. À tarde, Barreto foi chamado para uma reunião no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), sede provisória da Presidência da República.
Oficialmente, ele foi lá para tratar da Comissão da Verdade, prevista no decreto do Plano Nacional de Direitos Humanos. Barreto teria sido orientado a exigir explicações que sufocassem a crise ou a abreviasse, com a exoneração do secretário nacional de Justiça.
Depois do encontro com o presidente Lula e outros ministros, Barreto saiu sem falar com a imprensa.
Ao chegar para trabalhar pela manhã, Tuma Júnior reuniu-se com seus principais assessores para analisar sua defesa. Foi então chamado para uma reunião às pressas com o ministro na hora do almoço. O encontro não estava agendado. Tuma Júnior defendeu-se e afirmou ao ministro que não havia praticado nada de irregular.
Antes desse encontro, a reportagem do Estado o abordou nos corredores do ministério. O secretário tentou demonstrar tranquilidade e afirmou que não era dono do cargo que ocupa no governo. “Eu não sou do cargo”, declarou Tuma Júnior.
Logo depois, minimizou as acusações: “Eu não fiz nada”. Indagado sobre as relações com o chinês Paulo Li, o secretário partiu para a ironia: “Eu não sou racista”.
No início da tarde, após a reunião com o ministro, foi questionado pelo Estado sobre sua permanência no governo. Ele desconversou: “Primeiro o serviço, depois a fofoca”.
A assessoria do Ministério da Justiça avisou os jornalistas que, para comentar as acusações, ele daria uma entrevista coletiva após a reunião que teria sobre Estratégia Nacional de Justiça e Segurança Pública (Enasp), com a participação de secretários estaduais de Justiça, representantes do Ministério Público, da Advocacia Geral de União (AGU) e do Poder Judiciário.
Ele, aliás, comandou essa reunião da Enasp, que contou com a presença do ministro Barreto por alguns minutos. Tuma Júnior, no entanto, ausentou-se da sala por cerca de 40 minutos. Seu destino foi incerto. Depois da reunião, ele informou que não daria mais a prometida entrevista, alegando que não teve acesso à investigação”.

Chinês tem ligações com Tuma há 30 anos
Dos repórteres Mario Cesar Carvalho, Flavio Ferreira e Rubens Valente, da ‘Folha’:
“O chinês naturalizado brasileiro Li Kwok Kwen, de 53 anos, conhecido como Paulo Li e preso pela Polícia Federal no ano passado sob acusação de importar ilegalmente telefones celulares, mantém relações com a família Tuma desde os anos 80.
Naquela década, quando o atual senador Romeu Tuma (PTB-SP) era superintendente da PF paulista, o chinês deu aulas de kung fu na sede paulista do órgão. Li tem uma academia na Liberdade, em São Paulo.
A partir de 1995, quando Tuma se lançou ao Senado, Li ajudou em campanhas políticas dos Tuma. Até hoje, Paulo Li é o elo da família com a comunidade chinesa. Dois filhos do senador tiveram carreira política: Robson foi deputado federal (2002-2005) e Romeu Tuma Jr., estadual (2003-2006).
Ontem, o jornal “O Estado de S. Paulo” revelou que uma investigação da PF do ano passado encontrou indícios de que Tuma Jr., hoje secretário nacional de Justiça, auxiliou Li a regularizar a situação de chineses que viviam clandestinamente em São Paulo. Gravações da PF mostram Tuma Jr. pedindo celulares para Li.
Policiais da PF ouvidos pela Folha sob a condição de anonimato disseram que é exagero qualificar Li como líder da máfia chinesa em São Paulo. Ele ocuparia um papel entre médio e pequeno no contexto dos esquemas de contrabando que operam na capital paulista.
A investigação sobre Li começou em 2009 de forma casual. A PF investigava um agente federal lotado na superintendência paulistana quando percebeu que ele mantinha contatos com outro colega que dizia, ao telefone, ter condições de resolver problemas de vistos para estrangeiros no Brasil.
As conversas do segundo o policial, por sua vez, levaram os investigadores à família Li. Foram autorizadas interceptações telefônicas e de e-mail -a Operação Wei Jin foi colocada em andamento.
Seis meses depois, em setembro, o procurador da República em São Paulo Marcos José Gomes Corrêa, que acompanhou o caso, representou à Justiça Federal pela prisão de Li e seus três filhos, Renato, 28, André Man Li, 26, e Marcelo, 24.
O esquema, segundo as investigações, funcionava da seguinte forma: o grupo recebia telefones celulares por meio de entregas postais por encomenda, o chamado serviço “courier”, feito por uma empresa de exportação sediada na China, a Express Mail Service.
Em seguida, os celulares eram adulterados numa empresa de brindes, que acrescentava marcas famosas como Nokia, Sony e Motorola. Os aparelhos eram então despejados no comércio informal.
Um primo de Li, Lee Lap Fai, afirmou, em depoimento à PF, que eram trazidos ao Brasil, em média, 230 celulares por semana. Em setembro também estava sendo formado um estoque para as vendas do final do ano.
A juíza federal substituta da 3ª Vara Federal Criminal de São Paulo Letícia Dea Banks Ferreira Lopes decretou, em 9 de setembro, a prisão preventiva de Li, seus filhos e primo.
Ao mesmo tempo, ela expediu mandados de busca e apreensão contra endereços ligados ao clã, incluindo a academia de kung fu comandada por Li, a A.C.W. Associação Chin Wu, Artes Marciais e Esporte Center do Brasil, que funciona na rua Conselheiro Furtado, na Liberdade.
Nos seis meses de interceptações telefônicas, a PF detectou que um policial militar escoltava o transporte de mercadorias contrabandeadas, e outro servidor público lotado no Ministério Público do Estado de São Paulo teria auxiliado a suposta quadrilha com dados sobre investigações em andamento.
Paulo Li está preso desde então. O inquérito foi tornado ação penal, que tramita na 3ª Vara Federal Criminal.
O caso principal deu origem a dois inquéritos. Um apura possíveis irregularidades na obtenção de vistos e regularização de chineses em situação ilegal no Brasil, e o outro trata de suposta advocacia administrativa atribuída a um policial federal”.

  • Quinta-feira, 06 Maio 2010 / 3:58

PF liga Tuma Jr. a máfia chinesa

Do repórter Rodrigo Rangel, do ‘Estadão’:
“Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal (PF) durante investigação sobre contrabando ligam o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo.
A relação de Tuma Júnior com Kwen, conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.
Paulo Li foi preso com mais 13 pessoas, sob acusação de comandar quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, procedentes da China.
Ao ser preso, Paulo Li telefonou para Tuma Júnior na frente dos agentes federais que cumpriam o mandado. Dias após a prisão, ao saber que seu nome poderia ter aparecido no inquérito, Tuma Júnior ligou para a Superintendência da PF em São Paulo, onde corria a investigação, e pediu para ser ouvido. O depoimento foi tomado num sábado, para evitar exposição. Ele declarou que não sabia de atividades ilegais de Li. O surgimento do nome Tuma Júnior no inquérito seguia em segredo até agora.
O esquema, estimou a PF à época, girava R$ 1,2 milhão por mês. Os aparelhos eram vendidos no comércio paralelo de São Paulo e no Nordeste. Denunciado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de formação de quadrilha e descaminho, Paulo Li seguia preso até ontem.
Além de ocupar um dos postos mais importantes da estrutura do Ministério da Justiça, Tuma Júnior preside, desde o último dia 23 de abril, o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
Foi investigando Paulo Li, a quem a PF se refere nos relatórios como comandante de “uma das maiores organizações criminosas de São Paulo e do Brasil”, que os policiais descobriram seus laços com Tuma Júnior. Entre os telefonemas gravados com autorização judicial, são frequentes as conversas de Li com o secretário nacional de Justiça.
Paulo Li, que de acordo com as investigações também ganhava dinheiro intermediando a emissão de vistos permanentes para chineses em situação ilegal no País, tinha livre trânsito na secretaria. Segundo o inquérito, Li conseguia agilizar processos em tramitação no Departamento de Estrangeiros, órgão subordinado diretamente ao secretário. Os telefonemas também revelam Tuma Júnior como cliente assíduo do esquema: sem hesitar, ele fazia encomendas por telefone de aparelhos celulares, computador e até videogame.
As gravações mostram Li especialmente interessado nos bastidores da aprovação da lei que deu anistia a estrangeiros em situação irregular no País. Assim que a lei foi sancionada, em julho passado, o chinês logo passou a intermediar a aprovação de processos de anistia.
As demandas de Paulo Li eram transmitidas abertamente a Tuma Júnior ? muitas delas, por telefone. Nos contatos, o secretário se mostrava diligente, de acordo com a PF. Num deles, em 1.º de agosto de 2009, ele convida Li para uma conversa em Brasília ou em Ribeirão Preto, onde daria palestra dias depois. “Eu tenho um monte de respostas daqueles negócios. Se você quiser vir…”, disse. Tuma afirmou que a conversa com Li tem de ser “pessoalmente”.
Tuma demonstra ter proximidade com Li, a ponto de convidá-lo para dividir o quarto de hotel caso quisesse encontrá-lo durante seu compromisso oficial em Ribeirão Preto. “Mesmo que você tenha que dormir lá, você dorme comigo no quarto. Não tem problema. E você não paga hospedagem”, afirmou.
Durante busca e apreensão no escritório de Li, os policiais federais apreenderam cartões de visita, com brasão da República e tudo, em que o chinês se apresentava como “assessor especial” da Secretaria Nacional de Justiça, comandada por Tuma Júnior.
Nos contatos com o secretário, Li se mostrava ansioso pela aprovação da anistia. “Está todo mundo esperando a anistia, hein, caramba!”, disse, em 29 de maio. “Eu sei, eu vou ver esta semana”, respondeu Tuma.
Assim que a lei foi aprovada no Congresso, semanas depois, Tuma se encarregou de dar a notícia ao amigo chinês. “Já aprovou, viu?”, anunciou. “Ih, caramba! Coisa boa!”, festejou Li. “Só que mantiveram a data de 1.º de fevereiro”, ressalvou o secretário, referindo-se ao fato de a lei beneficiar imigrantes que ingressaram no Brasil até 1º de fevereiro de 2009.
“Agora vai pro presidente, ele vai marcar uma data pra assinar”, diz Tuma. O chinês pede: “Me avisa, hein”. Tuma não só avisou mas colocou Li, à época já investigado pela PF, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia em que a lei foi sancionada, em 2 de julho.
Li fez questão de guardar a foto com o presidente. O arquivo foi interceptado pela PF na caixa de e-mails do chinês”.
Nomeação política criou desconforto na secretaria

“Nomeado secretário nacional de Justiça como resultado de uma equação política que culminou com a migração de seu pai, o senador Romeu Tuma, do oposicionista DEM para o PTB, integrante da base aliada, o delegado Tuma Júnior criou arestas no ministério.
No início de sua gestão, em 2007, foi acusado de desmantelar por interesses políticos o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI). Na época, em carta renúncia ao então ministro da Justiça, Tarso Genro, a diretora-geral do órgão, Maria Rosa Guimarães Lola, atacou a politização do DRCI.
Suspeitava-se que Tuma Júnior comandava investigações sensíveis, envolvendo políticos e empresários, para extrair supostos benefícios. O hoje ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, na ocasião secretário executivo da pasta, defendeu o subordinado.
A Secretaria Nacional de Justiça é um braço operacional do ministério, com atribuições que vão das investigações de contas de brasileiros no exterior, tocadas pelo DRCI, a assuntos relacionados à naturalização de estrangeiros.
Recentemente, Tuma Júnior também foi um dos destinatários do dossiê sobre supostas contas no exterior do senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Na ocasião, como revelou o Estado em abril, começou a tramitar no DRCI um processo destinado a mapear existência das contas, que, de acordo com papéis em poder do governo, seriam mantidas em bancos dos Estados Unidos, Suíça e paraísos fiscais do Caribe”.

 

Li mandava e-mail a Tuma Jr. com lista de processos
“O chinês Paulo Li costumava mandar números de processos em tramitação no Ministério da Justiça direto para o e-mail particular do secretário Romeu Tuma Júnior. Suas demandas, indicam os documentos obtidos durante a investigação da Polícia Federal, tinham tratamento especial.
Num dos casos, em e-mail a Tuma Júnior, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Luciano Pestana Barbosa, festeja após atender a mais um pedido do chinês: “É o caso do Paulinho!! Mais um caso resolvido. É nóisssssss!!!!.”
A demanda havia sido enviada a Pestana pelo próprio Tuma Júnior, seu superior imediato. A sequência de mensagens revela o empenho do diretor. Num e-mail anterior, enviado a Tuma, ele faz um pedido para facilitar a solução do problema na burocracia da pasta: “Será que ele (Paulinho) poderia digitalizar os documentos e encaminhar?”
As encomendas de Tuma a Li também eram frequentes. Num telefonema em 22 de maio, o secretário pergunta: “Sabe onde tem aquela mala marrom? (…) É igual àquela marrom e bege, sabe, que você levou (…) em Brasília. Tem uma que é preto e cinza. Será que tem?”
Li promete conseguir a mala. Dois dias depois, Tuma, em viagem ao exterior, pede para o chinês saber o preço de uma câmera Sony em São Paulo. “Se aí for mais barato, eu não vou comprar.” Ao saber que custa R$ 1.200, autoriza que Li compre.
A relação de Tuma Júnior com Paulo Li levou a PF a propor a abertura de um inquérito específico para investigar indícios de crimes praticados pelo secretário.
Em expedientes internos, os investigadores sugerem haver indícios de advocacia administrativa e prevaricação – o primeiro pelos favores ao chinês e o segundo por não ter adotado providências ao saber das atividades ilegais de Li. O inquérito também investigará indícios de corrupção e tráfico de influência.
Anistia. Os contatos entre os dois indicam, segundo documentos da PF, que o secretário sabia da existência de um mercado ilegal destinado a agenciar processos de anistia de estrangeiros.
Em mensagem datada de 29 de julho, com a anistia já em vigor, Li dá conhecimento ao secretário de um esquema similar ao que, segundo a PF, ele próprio mantinha. “Eles estão cobrando R$ 350 para a realização do agendamento, incluindo taxa e xerox. Os telefonemas revelam que, na comunidade chinesa, Tuma se esforçava para ser reconhecido como responsável pela aprovação da anistia, numa disputa com o deputado William Woo, autor do projeto original”.
Diálogos interceptados

“27 de julho de 2009
20h16min09s
Por telefone, Tuma Jr. dá satisfação a Paulo Li sobre um dos processos de seu interesse. Trata-se de um pedido de legalização de permanência no Brasil, em trâmite no Ministério da Justiça, de um imigrante chinês. Li aproveita para cobrar de Tuma Jr. providências sobre o andamento de outro procedimento. O secretário afirma que transmitirá a demanda a um de seus subordinados, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério, Luciano Pestana.
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: você tinha pedido um negócio pro Luciano de “Uang Hualin Chen Ian”.
Paulo Li – Caramba. O que que é isso?
Tuma Jr. – Ah, não sei. Era uma permanência. Já tá publicado já, tá?
Li – Ah, é. Daquele negócio lá (…) Tá bom, tá bom, joia. Que mais?
Tuma Jr. – Publicou dia 16 de julho (…)
Li – Como é que chama o cara? Tuma Jr. – É. Uang Haulin…
(…) Como é que é o nome do Tomas?
Li – Tomas?
Tuma Jr. – É. É Fang “Tche”, é isso?
Li – Fang Ze? Fang Ze é o Tomas. Fang Ze. É.
Tuma Jr. – Como é que fala? Como é que escreve? Fang?
Li – É, verificar quando que ele chegou aqui no Brasil. Publicou no (ininteligível) permanente dele. Quinze anos contando aquele data.
Tuma Jr. – Quinze anos de permanência. Tá. Eu vou ver aqui.
Li – Ah, tá bom, tá bom. Você vai ver negócio pra mim, né? Tá bom, então.
Tuma Jr. – Tô vendo tudo já.
Li – Pelo amor de Deus! Porque…
Tuma Jr. – Eu vou passar pro Luciano. Ele vai ver… Vai esclarecer isso aqui.
Li – Esclarecer… E o, e o… Não, não é só esclarecer, né?
25 de julho de 2009
11h05min26s
Tuma Jr. diz a Li que precisa encontrá-lo. Li diz estar com muitos problemas e que também gostaria de falar com o secretário.
Tuma Jr. – Vamos encontrar à noite pra gente conversar e ver como é que tá as coisas.
Paulo Li – P., precisa conversar, viu? Muito problema, precisa conversar.
Tuma Jr. – Quer ir sete e meia?
Li – Sete e meia, tá bom? (…)
Tuma Jr. – Escuta, aquele telefone do Fran chegou, não?
Li – P. que pariu! Chegou uma que não é aquele lá! Chegou preto.
Tuma Jr. – Igual aquele?
Li – Igual aquele lá, mas preto.
Tuma Jr. – É 1.600 também?
Li – Eu trazer pra você ver.
Tuma Jr. – Traz pra mim (sic) ver.
Li – Chegou, mas ninguém tem no Brasil. Ninguém tem. Só esse aqui.
Tuma Jr. – Se for igual, eu troco e dou o meu pra ele. Fica frio.
Li – É, mas não fica bonito. É preto, né caralho!
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: lá na Vinte e… lá na Paulista vende aquele jogo Wii? (…)
Tuma Jr. – Dá pra saber quanto é que é? Eu preciso comprar pra Renata mas na Europa tava caro.
Li – Eu vou, vou dar uma passadinha lá pra ver, tá bom?
Tuma Jr. – Tá bom (…) Daí me fala, aí eu já levo o dinheiro pra você.
Li – Tá bom, Tá bom.
Tuma Jr. – Até já, tchau.

Ministério nega que Tuma Jr. seja alvo da investigação

“Procurada pelo Estado, a assessoria do Ministério da Justiça diz, em nota, que não há investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário Romeu Tuma Júnior, mas sim “trechos de conversas do secretário com um alvo da Polícia Federal”.
“A Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça informa que não há, na Polícia Federal, investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, mas que trechos de conversas do secretário com um alvo investigado foram captadas pela PF, em inquérito que corre sob sigilo”, limitou-se a dizer o ministério.
Horas antes, depois de contato telefônico informando o teor da reportagem, o Estado havia enviado 15 perguntas destinadas a Tuma Júnior e ao diretor do Departamento de Estrangeiros, Luciano Pestana. O ministério não informou a razão pela qual preferiu não responder às indagações.
Tuma Júnior e Pestana caíram na investigação porque mantinham conversas com pessoas que, como Paulo Li, estavam com telefones grampeados por ordem judicial. Também foram interceptadas conversas de Paulo Guilherme Mello, o Guga, um dos assessores de Tuma Júnior na secretaria”.

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.