• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:55

Partidos querem 3º candidato

De Renata Lo Prete, no Painel, da ‘Folha’:
“Políticos do governo e da oposição aguardam ansiosos a resposta do TSE a três consultas sobre a possibilidade de incluir candidatos a senador numa chapa sem necessidade de coligação nacional entre os partidos que a integram. Na prática, trata-se de decidir se um candidato a governador pode “carregar” mais de dois candidatos ao Senado. Em busca de argumentação jurídica que sustente o voto dos ministros, técnicos do tribunal apelidaram sua obra de “emenda Rio”. Nesse Estado, se a resposta do TSE for favorável, Sérgio Cabral (PMDB) -e por tabela Dilma Rousseff (PT)- poderá contar com a trinca Lindberg Farias (PT), Jorge Picciani (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB) -este último hoje sem lugar na chapa.
No campo adversário, a brecha permitiria a Fernando Gabeira (PV), que terá um tucano como vice, compor a chapa para o Senado com Cesar Maia (DEM), um nome do PPS e mais a “verde” Aspásia Camargo.
Os efeitos da eventual licença do TSE vão além do Rio. Em São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que já tem como candidatos ao Senado Orestes Quércia (PMDB) e um tucano a ser definido, finalmente encontraria um lugarzinho para acomodar Romeu Tuma (PTB)”.
                       * * *
E serve também para a Oposição paulista,
Na chapa de Mercadante, a candidata ao Senado será Marta Suplicy, do PT.
A segunda vaga está sendo disputada pelo vereador-pagodeiro Netinho de Paula, do PCdoB, e pelo ex-secretário Gabriel Chalita, do PSB.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:23

Deops-SP esconde dossiês políticos

De Mario Cesar Carvalho, da ‘Folha’:
“Espiões nazistas podem entrar disfarçados de latino-americanos no porto de Santos, alertava a polícia em 1943. Romeu Tuma, então chefe da polícia política, é informado sobre um show de Chico Buarque em 1972. Relatos de dois pescadores e de um funcionário público dão conta de que Carlos Marighella, líder guerrilheiro da ALN (Ação Libertadora Nacional), prepara uma ação no litoral paulista em 1969.
Essas histórias estão guardadas num arquivo secreto do Deops-SP (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), abandonado pela Polícia Civil em Santos e que nunca havia sido aberto a consultas.
A reportagem da Folha entrou pela primeira vez no arquivo. Numa sala com cerca de 18 m2, trancada com cadeado, duas estantes de madeira guardam cerca de 600 pastas e caixas, que abrigam entre dez e 15 dossiês cada uma, tudo infestado por cupins, traças e poeira. A sala fica no segundo andar do Palácio da Polícia, atrás de dois elevadores.
Numa estimativa grosseira, o arquivo teria de 6.000 a 9.000 dossiês. O Deops foi a polícia política no Estado à época da ditadura militar (1964-1985).
Os investigados são sindicalistas, comunistas, guerrilheiros, políticos, padres e líderes estudantis. Não há ordem alfabética ou cronológica no armazenamento. As pastas são organizadas por temas -sindicato dos estivadores, movimento estudantil, Marighella, Jânio Quadros, e assim por diante.
O documento mais antigo encontrado pela Folha é de 1943, sobre os riscos de infiltração nazista no porto; o mais recente, de 1982, sobre lideranças estudantis.
O Deops foi extinto em 1983 e sua documentação deveria ter sido entregue ao Arquivo do Estado a partir de 1994, segundo uma resolução do então secretário da Cultura do governo paulista, Ricardo Ohtake, que criou as normas de consulta a esses papéis. Essa resolução determinava que os arquivos do Deops fossem abertos a consulta pública e que ficariam sob a guarda do Arquivo do Estado.
O historiador Rodrigo Rodrigues Tavares, autor de dois livros sobre a história política de Santos contada a partir de documentos do Deops, diz que a polícia da cidade sempre negou que tivesse esse arquivo: “Pedi umas quatro ou cinco vezes para consultar essa documentação e a polícia dizia que não tinha mais nada”.
Os livros escritos pelo historiador (“O Porto Vermelho” e “A Moscouzinha Brasileira”) foram pesquisados na documentação que a polícia de Santos enviava para São Paulo e está guardada no Arquivo do Estado. Nesse arquivo, há cerca de 50 pastas sobre Santos, segundo ele, menos de 10% do que está abandonado nas 600 pastas que estão naquela cidade.
As 50 pastas existentes em São Paulo não traduziam a importância política que Santos teve no país, na avaliação dele.
A cidade era um dos principais polos dos anarquistas no país e uma bases históricas do Partido Comunista Brasileiro. Tão importante que o escritor Jorge Amado dedicou um dos livros da trilogia “Os Caminhos da Liberdade” a Santos -o volume intitulado “A Agonia da Noite”. “Os velhos comunistas diziam que deveria haver muito mais material do Deops do que aquele que eu achei em São Paulo”, relata o historiador.
Um desses velhos comunistas, Anibal Ortega, 64, militante do PCB desde 1961, diz que o arquivo encontrado agora estava escondido porque os policiais temiam retaliações após a redemocratização do país.
“Muitos comunistas de Santos foram procurar dossiês em arquivos para entrar com pedidos de indenização e não acharam nada”, conta Ortega. A possibilidade de presos políticos serem indenizados foi instituída em 1995 pelo governo federal e, seis anos depois, pelo governo paulista.
A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vai pedir que o Ministério Público apure as razões pelas quais os dossiês não foram entregues ao Arquivo do Estado em 1994. O conselheiro Arley Rodrigues diz que a Secretaria de Segurança violou uma norma do próprio Estado. “Se descobrirmos que houve ação ou omissão de algum delegado, ele pode ser punido”, diz. Rodrigues foi informado da existência do arquivo pelo radialista João Carlos Alckmin.
O delegado responsável por Santos, Waldomiro Bueno Filho, diz que não sabia da existência do arquivo, mas que vai transferir a documentação para o Arquivo do Estado. Bueno Filho foi acusado de ter participado de sessões de tortura do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975), o que ele nega”.
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“O arquivo do Deops em Santos guarda uma história de pescadores e guerrilheiros.
Dois pescadores e um funcionário público caçavam passarinho no morro dos Itatins, em Peruíbe, e, no meio de uma trilha, dizem ter achado um bilhete escrito em código Morse cuja autoria é atribuída pela polícia ao líder guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969).
O bilhete, arquivado no dossiê de Marighella, estava numa clareira, segundo o trio, onde havia latas de sardinha e de pêssego em calda. A polícia achou que havia encontrado uma pista do guerrilheiro, um dos homens mais procurados pelos militares em 1969.
Traduzido “com algumas dúvidas”, como anota a polícia, o bilhete menciona a movimentação de cem homens -”distribua homens em grupo na Baixada dia 5 para ? [ação] no porto e o restante na serra Xixova e na Baixada dia 7″. É assinado por “Maringhela”.
Foi encontrado em setembro de 1969, um mês quente para a ALN (Ação Libertadora Nacional), que adotava a estratégia de focos guerrilheiros preconizada por Che Guevara. Nesse mês, o grupo participou junto com o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro) do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick no Rio de Janeiro.
Com base no bilhete a polícia criou uma estratégia de defesa, descrita num documento de três páginas assinado pelo delegado Adalberto Dias de Almeida. Fez um mapa dos supostos pontos que Marighella poderia atacar, deduzidos a partir do bilhete em código Morse: uma usina na serra Pouso Alto, o porto de Santos e a fortaleza de Itaipu. Os locais são descritos como “objetivos relevantes para um grupo de audaciosos terroristas que pretendesse, em ação simultânea, a eclosão de três atentados”.
O jornalista Mário Magalhães, que prepara há sete anos um livro com a história de Marighella, diz que o guerrilheiro cultuava códigos, mas nunca viu algo escrito por ele em código Morse. Por causa do culto, ele acha que Marighella poderia ter escrito o bilhete.
Em setembro de 1969, Marighella passava a maior parte do tempo na zona norte do Rio, de acordo com o jornalista. A ação poderia ter sido planejada por militantes da Baixada Santista. Havia militantes da ALN em Cubatão e Mongaguá, segundo Agenor Ortega, militante do PCB em Santos à época.
Completamente improvável, segundo Magalhães, seria imaginar um foco guerrilheiro da ALN no litoral paulista: “A ALN nunca conseguiu viabilizar uma base rural”, afirma, apesar das tentativas que fez em Goiás, no Maranhão e no Pará”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:47

Suplicy é doido, mas não é maluco

 O senador Eduardo Suplicy é doido mas não rasga dinheiro.
Ele vestiu a sunga vermelha do ‘Super-Homem’ nas dependencias do Senado, mas com a repercussão negativa ele conseguiu que o programa ‘Pânico na TV’ não exibisse as imagens, pediu desculpas ao corregedor Romeu Tuma, e encerrou o caso.

  • Segunda-feira, 05 Julho 2010 / 4:37

O senador das princesas

  O pagodeiro e hoje vereador Netinho, que fez enorme sucesso com o grupo Negritude Jr. e, depois, na TV com um programa onde proporcionava uma dia de princesa a moradoras da periferia de São Paulo, é agora candidato ao senado pelo PCdoB, na coligação de Aloísio Mercadante.
A repórter Marli Olmos, do ‘Valor Econômico’, publica um excelente perfil do político Netinho, candidato ao mais importante cargo legislativo, no mais rico e mais importante estado da Federação, e que já consagrou Enéas e Clodovil como campeões de votos  e, até hoje, mantém vivo e forte o deputado Paulo Maluf.
  “Selly Martinez ajeita a coroa na cabeça e faz pose. Com os dedos das duas mãos imita o desenho de um coração. Aproxima o corpo à imagem do seu ídolo, olha para a câmera e abre um sorriso. Num piscar de olhos, sai impressa a foto: ela ao lado de Netinho de Paula. O artista não está ali. Trata-se de uma montagem. Mesmo assim, 600 fãs fizeram fila para ter um retrato igual a esse no dia em que o PCdoB referendou a candidatura do cantor de pagode a uma vaga do Senado.
O artista em carne e osso compareceria à convenção na tarde daquele sábado. Mas, como seria impossível atender a todos os fãs que sonhavam com um retrato ao lado do ídolo, a solução encontrada pelo PCdoB foi a máquina da Funclick, empresa especializada em serviços de foto-lembrança. Havia três opções de moldura: duas ao lado de Netinho e uma entre Netinho e Aloizio Mercadante. O fã clube mostrou ampla preferência pela foto ao lado apenas do cantor de pagode.
Para levar o retrato para casa o eleitor tinha que deixar endereço de email e número de telefone celular. Além da cópia em papel, recebeu a imagem também por internet. Mas quem mais ganhou foi o PCdoB, que, em poucos instantes, montou um banco de dados de eleitores não apenas para o astro do dia como também para os candidatos a deputado. Em apenas 50 minutos 110 pessoas foram registradas.
Selly Martinez foi à convenção numa caravana de mulheres de Diadema (SP) – todas com coroa na cabeça, numa alusão ao quadro “Dia de princesa”, que se tornou famoso no programa de auditório comandado por Netinho em duas emissoras de televisão.
A legião de fãs de Netinho de Paula idealiza eleger um senador com poderes de estender a toda a população carente as graças que os escolhidos para participar de seus programas já receberam.
Tereza Canas, na fila do retrato-lembrança durante a convenção, diz que gostaria que o candidato ao Senado arrumasse uma casa para a amiga dela, manicure, que acaba de fazer cirurgia na coluna.
“Não tenho a intenção de mistificar nada. O que eu fui na televisão e como músico eu tenho agora que ser como político”, diz o candidato. “A TV limita as ações. Me constrangia muito só poder gravar com uma princesa em cada programa. Quando entrava com ela na limusine via que milhares de meninas tinham ficado para trás”. Segundo diz, foi isso que o conduziu à política: “Somente a política é capaz de tratar da população em escala.”
A estreia do cantor na política foi nas últimas eleições municipais. Com 84.406 votos, Netinho de Paula foi o primeiro mais votado da coligação PT / PCdoB / PSB / PRB e o terceiro na lista de todos os mais de mil candidatos.
Já naquela ocasião uma pesquisa feita pelo PCdoB forneceu dicas a respeito da forma como a população de baixa renda projeta o artista na política. A maior parte dos votos conquistados por Netinho foi de mulheres jovens (até 24 anos), da classe C, com o 2º grau (completo ou incompleto). Vale lembrar que no quadro “Dia de Princesa” só podiam participar moças com até 25 anos. Regiões Sul e Leste do município, onde moram as classes mais baixas, concentraram 55 mil dos 84,4 mil votos que o elegeram vereador.
O dia de princesa foi inventado pelo próprio Netinho: “Era um sonho de infância”. “Imagina se um dia eu estivesse lá na Cohab e passasse um carro que me levasse para um shopping! Só de pensar passo mal. A gente era muito pobre demais!”
Aos 19 anos, casada e com um filho de 1 ano e 4 meses, a princesa Fernanda mora na casa do sogro e diz ser muito mal tratada lá. São histórias assim que chegavam à produção do “Show da gente”, transmitido pelo SBT nas tardes de sábado até o início do ano. Elenice – 21 anos e duas filhas – escreveu carta contando que o marido está preso. E desde então falta tudo às meninas. Ela tem casa, mas faltou terminar o banheiro.
Num dos programas, James, motorista da limusine, conduz Netinho até a casa de Elenice, que o recebe chorando e conta sua história triste. “O negrão chegou e vai te ajudar”, diz o artista. Dali, ambos seguem para um shopping, onde a jovem toma o chamado “banho de loja” – promovido pelas marcas patrocinadoras – e vai ao cabeleireiro.
Antes de seguir para o estúdio da emissora, a bordo de um helicóptero, a dupla ainda passa pelo cemitério onde o pai de Elenice – uma referência para ela – está enterrado e deixa uma coroa de flores. Ao final do dia de mimos, a princesa recebe ajuda financeira para poder concluir a construção do banheiro.
“Eu tenho orgulho de levar essa alegria e apresentar um mundo diferente que a sociedade ignora”, diz Netinho. O contrato com o SBT terminou, mas o apresentador espera retomar o comando de um programa no mesmo formato, mesmo se eleito senador. “As gravações ocupariam apenas dois dias da semana”, explica.
A estratégia de campanha planejada por Netinho é aproximar-se do “povo do gueto”, conta, numa alusão ao seriado “Turma do gueto”, escrito por ele e exibido durante dois anos pela Rede Record. “Não será uma campanha milionária porque meus amigos não são grandes doadores”.
Prestes a completar 40 anos, no dia 11, Netinho de Paula, afirma vislumbrar na eleição uma oportunidade de a juventude chegar ao Senado, de a Casa ser renovada. “Acho que também serei o primeiro negro a disputar uma vaga no Senado por São Paulo”, afirma.
Dos seis projetos que ele apresentou até agora como vereador, somente um foi aprovado. Trata-se do que institui a frente parlamentar em defesa da educação integral nas escolas do município. Seguem em tramitação o que propõe cursos pré-vestibulares a estudantes de baixa renda, o que defende como dever do município a educação de crianças de zero a seis anos em período integral, o que determina que as quadras poliesportivas situadas em equipamentos municipais sejam cobertas e o que cria a comissão extraordinária de comemoração do centenário de nascimento de Adoniran Barbosa. O projeto de lei 595/09, que fixa parâmetros para a criação de centros de referência da juventude chegou a ser aprovado na Câmara, mas vetado pelo prefeito.

Quem foi a convenção do PCdoB quis foto ao lado de Netinho, mas dispensou a presença de Mercadante

Quem foi a convenção do PCdoB quis foto ao lado de Netinho, mas dispensou a presença de Mercadante

José de Paula Neto nasceu no bairro de Santo Amaro e foi criado em Carapicuíba, na Grande São Paulo, em um apartamento do conjunto habitacional popular Cohab. Começou a trabalhar aos sete anos, vendendo doces numa estação de trem. A mãe, dona Romilda, morreu, quando ele tinha 11 anos. Depois disso, o garoto foi trabalhar numa gráfica, com o pai. A família deixou, depois, a Cohab. Mas Netinho voltou, para morar no mesmo apartamento da infância, ao casar-se, aos 16 anos.
Foi nessa época que o grupo Negritude Junior surgiu. Os amigos da Cohab se encontravam para batucar instrumentos. “A gente gostava de ir atrás das fanfarras das escolas”, conta. Netinho tornou-se o vocalista do grupo, mas em 2001 decidiu partir para uma carreira solo. Nas suas contas, gravou pelo menos seis CDs com o Negritude e mais cinco sozinho, num total próximo de 4 milhões de cópias.
O candidato da periferia também ajudou a fundar a ONG Casa da gente, em Carapicuiba, que atende 700 crianças, com complemento escolar, aulas de música e cursos profissionalizantes, além de suporte às famílias. Os recursos saem dos shows e colaboradores.
Embora a maior parte das suas músicas fale de romance e amor, o candidato ao Senado cita algumas que, segundo ele, criam “uma identidade com a questão social”. Caso de “Cohab City”: ” Tô chegando na Cohab/Pra curtir minha galera/Dar um abraço nos amigos/E um beijinho em minha cinderela.”
“O Senado tem sido uma Casa muito distante do povo”, afirma. Se eleito, o candidato escolheu como prioridade defender investimentos voltados para o ensino público em período integral e também profissionalizante, “permitindo a capacitação e inclusão dos menos favorecidos no mercado de trabalho em igualdade de condições”. Ele também pretende trabalhar pela moradia popular, saúde e cultura e combater a discriminação “em todas as suas formas, incluindo a discussão das cotas raciais”.
No dia da convenção que oficializou o lançamento da chapa ao Senado, com a ex-prefeita Marta Suplicy e Netinho de Paula, e também o apoio do PC do B à candidatura do senador Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo, a militância mal conseguia se acomodar. Um telão foi instalado no hall da universidade Uninove para quem não teve a chance de entrar no auditório.
Se nos tempos de apresentador as tardes de sábado representavam o momento de o cantor aparecer na televisão, o sábado da convenção trouxe muito mais. No mesmo dia foi publicada uma pesquisa do Ipespe para o “Diário de São Paulo”, indicando Netinho no segundo lugar das intenções de voto dos paulistas ao Senado, ao lado do ex-governador Orestes Quércia (PMDB). Ambos apareceram com 17% , na frente do senador Romeu Tuma (PTB), com 16% e logo depois da ex-prefeita Marta Suplicy (PT), primeira colocada com 38%.
Netinho ficou bem à frente de diversos outros candidatos: o vereador Gabriel Chalita (PSB), que ainda não assumiu oficialmente a candidatura, com 9% das intenções de voto, a ex-vereadora Soninha Francine (PPS), que aguarda uma consulta do PPS ao Tribunal Superior Eleitoral, com 8%, o ex-ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), com 6%, e o empresário Ricardo Young (PV), que foi citado por 1% dos eleitores.
Netinho diz que sente orgulho por estar na coligação da “turma que colocou o Brasil no eixo”. Estima que tem muito a aprender e também a contribuir. Numa recente entrevista para o site do PCdoB, o artista disse acreditar que é capaz de “aproximar Dilma de uma parcela da sociedade que não está a fim de discutir política, que não tem confiança nos políticos. Esse público da periferia que não entende o recado dos políticos, que só recebe da mídia os escândalos”.
Quando, durante a convenção na Uninove, os três candidatos – Netinho, Marta e Mercadante – apareceram no palco de mãos dadas e ergueram os braços, o público só gritou um nome: “Netinho! Netinho”. Durante os discursos, Nádia Campeão, presidente do PCdoB paulista, implorou silêncio, quase em vão. As fãs continuavam eufóricas: “Netinho!”… “Lindo!”
A cada grito, o candidato mostrava o largo sorriso. Um jeito dócil que contrasta com as histórias de violência que já vieram a público. Em fevereiro de 2005 Netinho foi acusado de agredir com socos a mulher, Sandra Mendes de Figueiredo, após uma briga conjugal. Na ocasião, ele foi impedido pela Justiça de retornar à casa do casal. No final do mesmo ano, o cantor foi novamente acusado de dar um soco na orelha do humorista Rodrigo Scarpa de Castro, do programa Pânico na TV, durante um evento.
Netinho é violento? “Como todo o mundo é com coisas que tiram a gente do sério”, responde o candidato. “Eu já tive, sim, atos violentos na minha vida. Mas a vantagem é que eu tive muito mais atos dóceis”.

  • Segunda-feira, 31 Maio 2010 / 4:20

SNI espionou opositores de Sarney

Do repórter Rubens Valente, da ‘Folha’:
“Documentos liberados à Folha pelo Arquivo Nacional após 25 anos de sigilo demonstram que o governo do atual presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), espionou os principais focos de críticas na sociedade civil.
O governo interceptou cartas, infiltrou agentes e produziu listas de nome e endereços dos principais protagonistas da oposição.
Criado após o golpe de 64 e mantido por Sarney (1985-1990), o Serviço Nacional de Informações centralizava as informações na chefia do órgão em Brasília, que tinha status de ministério e ocupava sala ao lado da de Sarney, no Palácio do Planalto.
Os relatórios revelam os principais focos de preocupação do governo: partidos de esquerda, entidades de trabalhadores rurais sem terra, especialmente o MST -largamente o mais visado dentre todos-, religiosos da Teologia da Libertação, sindicatos e setores da mídia.
O SNI recebia e retransmitia relatórios produzidos por inúmeros outros órgãos que formavam a chamada “comunidade de informações” -o arquivo contabilizou pelo menos 248 órgãos que integravam o sistema do SNI.
Em 11 de dezembro de 1988, o SNI acompanhou a “primeira reunião da executiva nacional” do Partido dos Trabalhadores. A reunião era fechada, com cerca de 30 pessoas, dentre as quais Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu. Todos os líderes do PT tinham fichas no SNI.
Os arapongas escreveram que os petistas atacaram a inflação e os baixos salários e afirmaram que Lula defendeu a antecipação das eleições. Lula teria dito: “O centro da crise é Sarney”.
O relatório descreve as disputas dentro do PT e “certo descontentamento” com a gestão da então prefeita paulistana, Luiza Erundina.
Na Polícia Federal, dirigida pelo atual senador Romeu Tuma (PTB-SP), o serviço de espionagem era exercido pelo Centro de Informações.
A PF se valia de sua estrutura nos Estados para investigar os partidos que incomodavam o governo Sarney. Em 24 de junho de 1985, a superintendência de Minas emitiu “ordem de busca” para investigar “a tática do PCB [Partido Comunista Brasileiro] para o movimento sindical”. O documento orientava os policiais a “verificar se houve alterações táticas que modifiquem a orientação sindical determinada pelo partido em março de 85″.
Em maio de 1988, a unidade da PF no Paraná elaborou um relatório sobre um grupelho chamado PRC (Partido Revolucionário Comunista), formado por Tarso Genro (PT-RS), pelo hoje deputado José Genoino (PT-SP) e pela atual pré-candidata à Presidência pelo PV, Marina Silva, desconsiderada no relatório.
Na campanha de 1989, os arapongas deram destaque aos possíveis apoios que o MST prestaria a candidatos. “O MST vem difundindo a “campanha dos 11 pontos” para os presidenciáveis. Isto é, são propostas do MST para a reforma agrária que devem ser incluídas na plataforma do candidato. Aquele que se dispuser a aceitar integralmente os “11 pontos” terá o apoio do MST, menos Paulo Salim Maluf, Fernando Collor de Mello e Ronaldo Caiado”, apontou relatório datado de julho de 1989 -na eleição, o MST apoiou Lula.
Futuro ministro da Justiça no governo Lula, o advogado Márcio Thomaz Bastos foi muito acompanhado pelo SNI até, pelo menos, 17 de agosto de 1988, data do último relatório com referências ao ex-presidente da OAB paulistana. Sua ficha inclui uma acusação de participação num caso de contrabando, nos anos 70. Bastos havia defendido um acusado desse tipo de crime. “A ditadura acusava os advogados dos acusados para poder envolver todos num suposto crime. Era uma forma de intimidação”, disse.
Bastos conheceu Lula nos anos 70 e, na fase da abertura política, integrou o grupo de advogados que levou a OAB apoiar as Diretas-Já. Naquela época, sabia ser seguido. Ele disse que a OAB-SP até encontrou um gravador no teto da sala da presidência”.
Leônidas diz que trabalho do SNI era apenas de “rotina”

 

 
“O chefe do SNI no governo Sarney foi o general Ivan de Souza Mendes (1922-2010), morto em fevereiro último.
Em 2002, Mendes recebeu a Folha em seu apartamento, no Rio. Indagado sobre os segredos que poderia deter, brincou: “O que tenho a dizer, você não vai se interessar em publicar, pois já é conhecido. Mas o que você gostaria de publicar, porque é inédito, ah, isso não posso dizer”.
Chamando sua mulher à sala como “testemunha”, Mendes contou ter queimado todos os documentos que levou para o apartamento.
O então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, disse que os trabalhos do SNI eram “de rotina”, e que todo governo “do mundo” necessita de um serviço de inteligência para subsidiar as decisões dos presidentes.
“O Sarney se valia, sim, das informações do SNI. Mas isso era a rotina, a prática, não havia nada de irregular.”
Ele afirmou não ter conhecimento específico sobre “alvos” determinados pelo SNI. “Eu não tinha essas informações detalhadas. O chefe do SNI despachava com o presidente”, disse Gonçalves.
Chefe do CIE (Centro de Informações do Exército) por um ano no governo Sarney, o general reformado Sérgio Augusto Coutinho, 78, disse à Folha, em 2009, não se recordar de relatório de análise assinado por ele em julho de 1989 e que tratou do MST.
Ele diz que o CIE produzia “conhecimento que pudesse auxiliar o comandante [do Exército] a tomar decisões”.
Indagado sobre o grau de interesse do governo acerca do MST, o general disse não se recordar. “Um serviço de inteligência, agora estou falando em tese, se interessa por tudo que possa instruir a autoridade”, disse. “Quem estabelece o que quer saber é o próprio comandante, não é o serviço que inventa.”
“Hoje eu vejo o MST, tenho um entendimento pela imprensa, é um movimento campesino revolucionário, socialista, no socialismo agrário”, afirmou o general.
Outro chefe do CIE no governo Sarney, o general de divisão Tamoyo Pereira das Neves, disse no ano passado que não comenta relatórios que assinou na época.
“Eu estou afastado já há alguns anos e eu não tenho a intenção, assim, de conversar sobre esse assunto.”
Falando em termos gerais sobre “organizações subversivas”, o general afirmou: “Essa é uma preocupação que eu acredito que sempre existiu, de acompanhar todos os movimentos, não na intenção de cerceá-los, mas na intenção de prevenir. É esse o grande objetivo”, disse.
“É acompanhar para ver se aquilo podia resultar em alguma coisa que pudesse por em risco a democracia. Esse era o grande objetivo nosso”, completou o general. (RV)”
Sarney: SNI não investigou a vida particular de ninguém

 
“Ao longo de seu mandato na Presidência (1985-1990), o senador José Sarney (PMDB-AP) se reuniu diariamente, às 8h30, com o chefe do SNI, general Ivan de Souza Mendes, e outros funcionários do Palácio do Planalto. Para o então presidente, contudo, as atividades do SNI estavam “praticamente hibernadas”. Leia os principais trechos da entrevista, por e-mail. (RV)
- Como o sr. qualifica o trabalho do SNI naquele período, sob o ponto de vista da organização, dos métodos e da transmissão das informações ao governo?
- O trabalho do SNI pareceu-me sempre burocrático, e o seu ministro-chefe encontrava-se comigo em reuniões de trabalho, das quais participava com os chefes da Casa Civil e da Casa Militar, e se restringia a me transmitir notícias que, em geral, já eram do conhecimento da mídia. Logo que assumi, dei instruções para que suspendesse toda e qualquer atividade no que se referia a investigar a vida particular das pessoas, dizendo que isso não correspondia a nenhum interesse de Estado.
- Olhando em retrospecto, o sr. concorda com as atividades do SNI sobre os movimentos sociais?
- Nunca recebi nenhum relatório sobre movimentos sociais. Atribuo isso ao fato de o general Ivan de Souza Mendes ter certa reserva sobre a posição do presidente. Depois que já deixara de ser presidente, tive acesso a uma entrevista dele fazendo críticas ao próprio governo, bem como a um documento dirigido ao presidente [Ernesto] Geisel com restrições graves à minha pessoa, cuja fonte era o senador Vitorino Freire, seu particular amigo. No fim do governo, pedi ao SNI que fizesse um levantamento de todas as greves que tivessem sido realizadas no meu governo, com as horas de trabalho perdidas, para fins estatísticos. Por outro lado, pedi que as análises sobre conjunturas internacionais do SNI me fossem mandadas com regularidade, pois as considerava de boa qualidade.
- O SNI tinha autonomia para escolher as “áreas de interesse” de seus trabalhos ou, de alguma forma, o sr. colaborava para indicar essas áreas? Qual era o grau de autonomia do SNI?
- Jamais entrei no âmago das atividades do SNI, que me pareciam, praticamente, hibernadas. Se o SNI tinha informações e escolhia áreas, nunca levou isso ao meu conhecimento”.

  • Segunda-feira, 10 Maio 2010 / 4:01

Tuma Jr reclama de abuso da PF

O Secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr,, acusado de ligação com a máfia chinesa, em São Paulo, deu entrevista ao repórter Mario Cesar Carvalho, da ‘Folha’, na qual ele reclama de abusos da Polícia Federal, e diz que o objetivo não é investigá-lo mas sim desmoralizá-lo.
Eis a entrevista:
- O sr. já comprou celular e videogame contrabandeado, como sugerem as conversas gravadas?
- Eu estava em Viena e minha filha pediu para eu comprar um Wii para minha neta. Liguei para ela e disse que o Wii custava caro, 350, quase R$ 1.200. Ela me perguntou se não seria melhor comprar no Brasil. Liguei para o Paulinho. Uma coisa que tem de ficar clara é que eu tenho um amigo que é chinês. Não sou amigo de contrabandista. Se cometeu crime, deixa de ser meu amigo.
Falei para o Paulinho: “Vê quando custa um Wii na Paulista”. Ele liga de volta: “Custa R$ 950″. Minha filha liga de novo e diz que o namorado da minha outra filha estava nos EUA, onde o Wii custa US$ 250. O jogo veio dos EUA.
- E o celular?
- Tenho esse celular há três anos, quando fui para a China. Só tem em Hong Kong. Tem um amigo meu, diretor do Corinthians, que ficou doente com o telefone. O Paulinho me liga: “Tá vindo um primo meu de Hong Kong”. Pedi para ele comprar um telefone igualzinho ao meu. O cara trouxe o preto, não dourado. O meu amigo não quis e eu não comprei. Não é pirata. É um Motorola que só tem em Hong Kong.
- Paulo Li é conhecido como contrabandista há alguns anos. O sr., que é delegado, não sabia disso?
- Se for verdade, para mim é uma decepção. Sou policial há mais de 30 anos e tenho obrigação de conhecer quem faz coisa errada. Nunca desconfiei, até porque ele vivia numa situação difícil. Tinha um filho que estava sem emprego e eu arrumei emprego para ele no Corinthians. Ele estava tirando outro filho da escola porque estava sem dinheiro. Esse é o grande líder do contrabando?
- A polícia diz que o sr. ajudava Li a regularizar a situação de chineses ilegais no Brasil.
- Conheço o Paulinho há 20 anos e tem uns quatro e-mails em que ele pede informação sobre estrangeiros. É minha obrigação como servidor atender qualquer pessoa de uma área sob minha responsabilidade. Ele, eventualmente, pode ter pedido alguma coisa. Mas se houve atendimento é porque estava dentro da lei.
- Mas Li é acusado de cobrar comissão para fazer isso.
- Houve uma disputa muito grande sobre a data para anistia dos imigrantes. Decidimos que seria 1º de novembro de 2008. No Congresso, um deputado fez uma emenda colocando a data para 1º de fevereiro de 2009. Isso é um absurdo.As pessoas iriam se aproveitar para colocar imigrantes no Brasil. É criminoso. Um deputado havia montado um esquema com policiais federais na Liberdade e cobravam por atestado. Foi o Paulinho que denunciou esse esquema.
- O sr. avisou a polícia?
- Pedi um inquérito. Foi um mês antes de o Paulinho ser preso. É por isso que ele me liga no dia da prisão. Tinha medo de que não fossem policiais, mas pessoas dessa máfia.
- Numa gravação, um assessor do sr. tenta liberar aparentemente uma carga apreendida.
- É outro absurdo. Se divulgassem a conversa inteira, veriam que não é mercadoria. São livros contábeis. Um empresário me liga e diz: “Veio um fiscal na minha loja e pegou os livros. Para devolver, ele quer R$ 30 mil.” Falei: “Vamos prender o cara”. Pedi para um assessor descobrir quem era o delegado da Receita na região. O empresário foi lá e denunciou.
Não cometi nenhum crime.
- O sr. também é acusado de tentar ajudar a família da deputada Haifa Madi, presa com US$ 123 mil no aeroporto de Cumbica.
- Recebi dezenas de telefonemas nesse caso, inclusive de pessoas do Judiciário. Me perguntavam se podia sair do Brasil com US$ 10 mil ou R$ 10 mil. Eu não lembrava. Era domingo. Liguei para um assessor e contei o caso. Quando soube que eles tinham sido presos na sexta à noite, dois dias antes, falei: “Então tá morto, tá putrefato”. O que eu queria dizer é: por que me ligam se as pessoas já estão presas? Como fazem divulgação seletiva e criminosa dos diálogos, acham que estou dizendo que já não dá para ganhar uma nota.
- É normal um secretário da Justiça ter esse tipo de conversa?
- Sou servidor público e tenho obrigação de atender as pessoas. É natural que uma deputada ligue quando tem parentes presos. Isso não é crime.
- Um assessor seu, Paulo Guilherme Mello, é investigado sob suspeita de ajudar a máfia chinesa. Por que o sr. não o afastou do cargo?
- Ele é um policial federal e não posso prejulgar uma pessoa por uma investigação a que eu não tive acesso.
- O sr. sabe por que seu depoimento não está no inquérito?
- Isso é muito grave. Fui delegado de polícia e, se ouvisse uma pessoa num inquérito e não juntasse o depoimento, estaria na rua. Isso é crime. Não tive direito a defesa.
- O sr. acha que essa investigação da PF cometeu abusos?
- Do jeito que essa investigação está sendo tratada, é um abuso. Não da PF, mas de algumas pessoas da PF. Fui investigado e chegou-se à conclusão que não deveria ser denunciado. O caso foi arquivado.
- Por que uma investigação de setembro veio à tona agora?
- Estou sendo vítima do crime organizado e de uma armação política muito grande. Com a política que implantamos no ministério, virei símbolo do combate à lavagem de dinheiro, da cooperação internacional. Quando fui para a Comissão de Pirataria, é evidente que isso criou um desconforto. O objetivo não é me investigar, é desmoralizar. O crime organizado age assim: mata testemunhas e desmoraliza os chefes da investigação”.

 

Nova denuncias complicam situação de Tuma Jr.
Do repórter Roberto Maltchick, de ‘O Globo’:
“As novas denúncias de envolvimento com Li Kwok Kwen ? preso como um dos chefes da máfia chinesa no Brasil e acusado de contrabando pelo Ministério Público Federal ? complicaram a situação do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., dentro do governo. Depois que o presidente Lula disse, no sábado, que Tuma Jr. terá de ser punido ?como qualquer brasileiro?, se as denúncias forem comprovadas, o Palácio do Planalto já admite que ele precisará dar explicações plausíveis se quiser se manter no cargo e estancar o estrago causado pelo escândalo.
O governo avalia que a situação de Tuma Jr. piora à medida que são reveladas novas conversas interceptadas pela PF demonstrando a intimidade do secretário com Kwen. O líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vaccarezza (PT-SP), disse ontem que Tuma Jr. precisa dar mais explicações para afastar as dúvidas sobre sua conduta à frente da Secretaria Nacional de Justiça.
? Se não tiver uma explicação plausível, não tem alternativa senão afastar o servidor.
Neste caso, essa é uma decisão que deve ser avaliada pelo ministro da Justiça ? afirmou.
No último sábado, o jornal ?O Estado de S. Paulo? revelou trechos de conversas telefônicas que indicam outra ação de Tuma Jr., desta vez para tentar amenizar o flagrante de uma apreensão de US$ 160 mil, no Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP). O dinheiro estava na bagagem da deputada estadual Haifa Madi (PDT). Durante a operação, que interceptou a remessa ilegal de dinheiro para Dubai, nos Emirados Árabes, sete pessoas foram presas.
Na avaliação de auxiliares, o presidente Lula está insatisfeito com os argumentos apresentados até agora por Tuma Jr., especialmente a respeito das conversas em que trata da compra de produtos, como telefones celulares supostamente contrabandeados.
? A questão é mais ética do que criminal. Não há, de fato, processo contra o Tuma Jr. O problema é que o cargo dele é totalmente incompatível com esse tipo de atividade ? disse um interlocutor do presidente.
O secretário acumula a função de presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria desde o dia 23 de abril. Na posse de Tuma Jr. no Conselho, o ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, destacou seu mérito para assumir o posto.
? Não existe máfia no mundo que o Tuma não conheça.
Sua indicação agrega um valor substantivo ao trabalho do órgão ? disse o ministro referindose à atuação de Tuma como delegado da Polícia Civil de São Paulo.
Hoje, a situação de Tuma Jr.será discutida entre o presidente Lula, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e outros ministros durante a reunião de coordenação de governo. O presidente também recebe relatos periódicos sobre o caso do ministro da Justiça.
No sábado, em São Bernardo do Campo (SP), durante o lançamento da campanha nacional de vacinação, Lula admitiu que a permanência de Tuma no governo não está assegurada, embora tenha lembrado sua história como delegado e filho de um homem ?de muito respeito em São Paulo?, o senador Romeu Tuma (PTB-SP)”.

  • Quinta-feira, 06 Maio 2010 / 3:58

PF liga Tuma Jr. a máfia chinesa

Do repórter Rodrigo Rangel, do ‘Estadão’:
“Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal (PF) durante investigação sobre contrabando ligam o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo.
A relação de Tuma Júnior com Kwen, conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.
Paulo Li foi preso com mais 13 pessoas, sob acusação de comandar quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, procedentes da China.
Ao ser preso, Paulo Li telefonou para Tuma Júnior na frente dos agentes federais que cumpriam o mandado. Dias após a prisão, ao saber que seu nome poderia ter aparecido no inquérito, Tuma Júnior ligou para a Superintendência da PF em São Paulo, onde corria a investigação, e pediu para ser ouvido. O depoimento foi tomado num sábado, para evitar exposição. Ele declarou que não sabia de atividades ilegais de Li. O surgimento do nome Tuma Júnior no inquérito seguia em segredo até agora.
O esquema, estimou a PF à época, girava R$ 1,2 milhão por mês. Os aparelhos eram vendidos no comércio paralelo de São Paulo e no Nordeste. Denunciado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de formação de quadrilha e descaminho, Paulo Li seguia preso até ontem.
Além de ocupar um dos postos mais importantes da estrutura do Ministério da Justiça, Tuma Júnior preside, desde o último dia 23 de abril, o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
Foi investigando Paulo Li, a quem a PF se refere nos relatórios como comandante de “uma das maiores organizações criminosas de São Paulo e do Brasil”, que os policiais descobriram seus laços com Tuma Júnior. Entre os telefonemas gravados com autorização judicial, são frequentes as conversas de Li com o secretário nacional de Justiça.
Paulo Li, que de acordo com as investigações também ganhava dinheiro intermediando a emissão de vistos permanentes para chineses em situação ilegal no País, tinha livre trânsito na secretaria. Segundo o inquérito, Li conseguia agilizar processos em tramitação no Departamento de Estrangeiros, órgão subordinado diretamente ao secretário. Os telefonemas também revelam Tuma Júnior como cliente assíduo do esquema: sem hesitar, ele fazia encomendas por telefone de aparelhos celulares, computador e até videogame.
As gravações mostram Li especialmente interessado nos bastidores da aprovação da lei que deu anistia a estrangeiros em situação irregular no País. Assim que a lei foi sancionada, em julho passado, o chinês logo passou a intermediar a aprovação de processos de anistia.
As demandas de Paulo Li eram transmitidas abertamente a Tuma Júnior ? muitas delas, por telefone. Nos contatos, o secretário se mostrava diligente, de acordo com a PF. Num deles, em 1.º de agosto de 2009, ele convida Li para uma conversa em Brasília ou em Ribeirão Preto, onde daria palestra dias depois. “Eu tenho um monte de respostas daqueles negócios. Se você quiser vir…”, disse. Tuma afirmou que a conversa com Li tem de ser “pessoalmente”.
Tuma demonstra ter proximidade com Li, a ponto de convidá-lo para dividir o quarto de hotel caso quisesse encontrá-lo durante seu compromisso oficial em Ribeirão Preto. “Mesmo que você tenha que dormir lá, você dorme comigo no quarto. Não tem problema. E você não paga hospedagem”, afirmou.
Durante busca e apreensão no escritório de Li, os policiais federais apreenderam cartões de visita, com brasão da República e tudo, em que o chinês se apresentava como “assessor especial” da Secretaria Nacional de Justiça, comandada por Tuma Júnior.
Nos contatos com o secretário, Li se mostrava ansioso pela aprovação da anistia. “Está todo mundo esperando a anistia, hein, caramba!”, disse, em 29 de maio. “Eu sei, eu vou ver esta semana”, respondeu Tuma.
Assim que a lei foi aprovada no Congresso, semanas depois, Tuma se encarregou de dar a notícia ao amigo chinês. “Já aprovou, viu?”, anunciou. “Ih, caramba! Coisa boa!”, festejou Li. “Só que mantiveram a data de 1.º de fevereiro”, ressalvou o secretário, referindo-se ao fato de a lei beneficiar imigrantes que ingressaram no Brasil até 1º de fevereiro de 2009.
“Agora vai pro presidente, ele vai marcar uma data pra assinar”, diz Tuma. O chinês pede: “Me avisa, hein”. Tuma não só avisou mas colocou Li, à época já investigado pela PF, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia em que a lei foi sancionada, em 2 de julho.
Li fez questão de guardar a foto com o presidente. O arquivo foi interceptado pela PF na caixa de e-mails do chinês”.
Nomeação política criou desconforto na secretaria

“Nomeado secretário nacional de Justiça como resultado de uma equação política que culminou com a migração de seu pai, o senador Romeu Tuma, do oposicionista DEM para o PTB, integrante da base aliada, o delegado Tuma Júnior criou arestas no ministério.
No início de sua gestão, em 2007, foi acusado de desmantelar por interesses políticos o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI). Na época, em carta renúncia ao então ministro da Justiça, Tarso Genro, a diretora-geral do órgão, Maria Rosa Guimarães Lola, atacou a politização do DRCI.
Suspeitava-se que Tuma Júnior comandava investigações sensíveis, envolvendo políticos e empresários, para extrair supostos benefícios. O hoje ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, na ocasião secretário executivo da pasta, defendeu o subordinado.
A Secretaria Nacional de Justiça é um braço operacional do ministério, com atribuições que vão das investigações de contas de brasileiros no exterior, tocadas pelo DRCI, a assuntos relacionados à naturalização de estrangeiros.
Recentemente, Tuma Júnior também foi um dos destinatários do dossiê sobre supostas contas no exterior do senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Na ocasião, como revelou o Estado em abril, começou a tramitar no DRCI um processo destinado a mapear existência das contas, que, de acordo com papéis em poder do governo, seriam mantidas em bancos dos Estados Unidos, Suíça e paraísos fiscais do Caribe”.

 

Li mandava e-mail a Tuma Jr. com lista de processos
“O chinês Paulo Li costumava mandar números de processos em tramitação no Ministério da Justiça direto para o e-mail particular do secretário Romeu Tuma Júnior. Suas demandas, indicam os documentos obtidos durante a investigação da Polícia Federal, tinham tratamento especial.
Num dos casos, em e-mail a Tuma Júnior, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Luciano Pestana Barbosa, festeja após atender a mais um pedido do chinês: “É o caso do Paulinho!! Mais um caso resolvido. É nóisssssss!!!!.”
A demanda havia sido enviada a Pestana pelo próprio Tuma Júnior, seu superior imediato. A sequência de mensagens revela o empenho do diretor. Num e-mail anterior, enviado a Tuma, ele faz um pedido para facilitar a solução do problema na burocracia da pasta: “Será que ele (Paulinho) poderia digitalizar os documentos e encaminhar?”
As encomendas de Tuma a Li também eram frequentes. Num telefonema em 22 de maio, o secretário pergunta: “Sabe onde tem aquela mala marrom? (…) É igual àquela marrom e bege, sabe, que você levou (…) em Brasília. Tem uma que é preto e cinza. Será que tem?”
Li promete conseguir a mala. Dois dias depois, Tuma, em viagem ao exterior, pede para o chinês saber o preço de uma câmera Sony em São Paulo. “Se aí for mais barato, eu não vou comprar.” Ao saber que custa R$ 1.200, autoriza que Li compre.
A relação de Tuma Júnior com Paulo Li levou a PF a propor a abertura de um inquérito específico para investigar indícios de crimes praticados pelo secretário.
Em expedientes internos, os investigadores sugerem haver indícios de advocacia administrativa e prevaricação – o primeiro pelos favores ao chinês e o segundo por não ter adotado providências ao saber das atividades ilegais de Li. O inquérito também investigará indícios de corrupção e tráfico de influência.
Anistia. Os contatos entre os dois indicam, segundo documentos da PF, que o secretário sabia da existência de um mercado ilegal destinado a agenciar processos de anistia de estrangeiros.
Em mensagem datada de 29 de julho, com a anistia já em vigor, Li dá conhecimento ao secretário de um esquema similar ao que, segundo a PF, ele próprio mantinha. “Eles estão cobrando R$ 350 para a realização do agendamento, incluindo taxa e xerox. Os telefonemas revelam que, na comunidade chinesa, Tuma se esforçava para ser reconhecido como responsável pela aprovação da anistia, numa disputa com o deputado William Woo, autor do projeto original”.
Diálogos interceptados

“27 de julho de 2009
20h16min09s
Por telefone, Tuma Jr. dá satisfação a Paulo Li sobre um dos processos de seu interesse. Trata-se de um pedido de legalização de permanência no Brasil, em trâmite no Ministério da Justiça, de um imigrante chinês. Li aproveita para cobrar de Tuma Jr. providências sobre o andamento de outro procedimento. O secretário afirma que transmitirá a demanda a um de seus subordinados, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério, Luciano Pestana.
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: você tinha pedido um negócio pro Luciano de “Uang Hualin Chen Ian”.
Paulo Li – Caramba. O que que é isso?
Tuma Jr. – Ah, não sei. Era uma permanência. Já tá publicado já, tá?
Li – Ah, é. Daquele negócio lá (…) Tá bom, tá bom, joia. Que mais?
Tuma Jr. – Publicou dia 16 de julho (…)
Li – Como é que chama o cara? Tuma Jr. – É. Uang Haulin…
(…) Como é que é o nome do Tomas?
Li – Tomas?
Tuma Jr. – É. É Fang “Tche”, é isso?
Li – Fang Ze? Fang Ze é o Tomas. Fang Ze. É.
Tuma Jr. – Como é que fala? Como é que escreve? Fang?
Li – É, verificar quando que ele chegou aqui no Brasil. Publicou no (ininteligível) permanente dele. Quinze anos contando aquele data.
Tuma Jr. – Quinze anos de permanência. Tá. Eu vou ver aqui.
Li – Ah, tá bom, tá bom. Você vai ver negócio pra mim, né? Tá bom, então.
Tuma Jr. – Tô vendo tudo já.
Li – Pelo amor de Deus! Porque…
Tuma Jr. – Eu vou passar pro Luciano. Ele vai ver… Vai esclarecer isso aqui.
Li – Esclarecer… E o, e o… Não, não é só esclarecer, né?
25 de julho de 2009
11h05min26s
Tuma Jr. diz a Li que precisa encontrá-lo. Li diz estar com muitos problemas e que também gostaria de falar com o secretário.
Tuma Jr. – Vamos encontrar à noite pra gente conversar e ver como é que tá as coisas.
Paulo Li – P., precisa conversar, viu? Muito problema, precisa conversar.
Tuma Jr. – Quer ir sete e meia?
Li – Sete e meia, tá bom? (…)
Tuma Jr. – Escuta, aquele telefone do Fran chegou, não?
Li – P. que pariu! Chegou uma que não é aquele lá! Chegou preto.
Tuma Jr. – Igual aquele?
Li – Igual aquele lá, mas preto.
Tuma Jr. – É 1.600 também?
Li – Eu trazer pra você ver.
Tuma Jr. – Traz pra mim (sic) ver.
Li – Chegou, mas ninguém tem no Brasil. Ninguém tem. Só esse aqui.
Tuma Jr. – Se for igual, eu troco e dou o meu pra ele. Fica frio.
Li – É, mas não fica bonito. É preto, né caralho!
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: lá na Vinte e… lá na Paulista vende aquele jogo Wii? (…)
Tuma Jr. – Dá pra saber quanto é que é? Eu preciso comprar pra Renata mas na Europa tava caro.
Li – Eu vou, vou dar uma passadinha lá pra ver, tá bom?
Tuma Jr. – Tá bom (…) Daí me fala, aí eu já levo o dinheiro pra você.
Li – Tá bom, Tá bom.
Tuma Jr. – Até já, tchau.

Ministério nega que Tuma Jr. seja alvo da investigação

“Procurada pelo Estado, a assessoria do Ministério da Justiça diz, em nota, que não há investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário Romeu Tuma Júnior, mas sim “trechos de conversas do secretário com um alvo da Polícia Federal”.
“A Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça informa que não há, na Polícia Federal, investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, mas que trechos de conversas do secretário com um alvo investigado foram captadas pela PF, em inquérito que corre sob sigilo”, limitou-se a dizer o ministério.
Horas antes, depois de contato telefônico informando o teor da reportagem, o Estado havia enviado 15 perguntas destinadas a Tuma Júnior e ao diretor do Departamento de Estrangeiros, Luciano Pestana. O ministério não informou a razão pela qual preferiu não responder às indagações.
Tuma Júnior e Pestana caíram na investigação porque mantinham conversas com pessoas que, como Paulo Li, estavam com telefones grampeados por ordem judicial. Também foram interceptadas conversas de Paulo Guilherme Mello, o Guga, um dos assessores de Tuma Júnior na secretaria”.

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