• Quarta-feira, 18 Agosto 2010 / 10:21

Mitos e verdades sobre as pesquisas

                                                   Marcos Coimbra*

       De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.
É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir ideias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.
Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.
Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.
Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira.
Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.
É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.
Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum.
Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro? As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem.
Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.
Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são fotografias de momento, sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.
Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada.
Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.
Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.
E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra? Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.
Ceticismos (nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido), perplexidades (como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?) e falsas noções (pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro) são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi.

  • Quarta-feira, 04 Agosto 2010 / 11:22

As pesquisas públicas

                                             Marcos Coimbra*

      Quando escrevem sobre pesquisas, alguns jornalistas mostram não conhecer bem o papel que elas têm hoje nas campanhas políticas. Curioso é que mesmo profissionais tarimbados costumam revelar esse desconhecimento e não apenas os jovens repórteres no início de carreira.
Em momentos iguais a este, de aproximação das eleições, veem-se exemplos disso a toda hora. Como saem pesquisas com muita frequência, a imprensa está sempre cheia de matérias que as citam, nas quais se percebe a desinformação de seus autores sobre o que acontece no quartel-general das candidaturas.
Não são todas as campanhas que conseguem, mas todas que podem montam sistemas para acompanhar os humores do eleitorado por meio de pesquisas. À medida que aumenta a importância do cargo em disputa e sobe a capacidade de arrecadação, maior é o arsenal de pesquisas próprias que mandam realizar, para uso de coordenadores e estrategistas.
Faz tempo que as pesquisas quantitativas de intenção de voto se tornaram apenas o pedaço visível desses projetos, pois eles envolvem inúmeros outros levantamentos cujos resultados não são divulgados ou comentados. Ou seja: o que se vê é somente a ponta de um iceberg, cuja parte maior permanece submersa.
No mundo real das campanhas, grande destaque é dado às pesquisas qualitativas, indispensáveis à formulação de estratégias de comunicação. São elas que permitem entender as razões e motivos dos eleitores, por que preferem um candidato em detrimento de outros, o que esperam da eleição, o que não sabem e gostariam de saber dos candidatos. Os marqueteiros costumam olhá-las com mais interesse que os resultados das quantitativas, cujo objetivo é medir quantos pensam de uma maneira ou de outra, bem como identificar que variações existem entre os segmentos (socioeconômicos ou geográficos) do eleitorado.
As campanhas de Serra e de Dilma estão fazendo pesquisas desde muito antes do lançamento oficial das candidaturas. Seus partidos têm o hábito de pesquisar, possuem institutos que tradicionalmente lhes prestam serviços e contam com especialistas, internos e de fora de seus quadros, para assessorá-los em sua análise. A esta altura do processo eleitoral, já fizeram alguns (muitos) milhares de entrevistas e (várias) dezenas de discussões em grupo, a técnica qualitativa mais empregada. Ambos têm em mãos longas séries de pesquisas em todo o país, estado por estado, sempre usando questionários mais elaborados e detalhados que aqueles que se veem na imprensa. De agora em diante, na reta final, essa massa de dados vai aumentar exponencialmente.
Além da parafernália de pesquisas próprias, as duas campanhas têm acesso a dezenas de outras, feitas por correligionários e aliados nos estados, por entidades de classe e empresas do setor privado. Não deve haver um só dia em que não chegue aos comitês uma pesquisa nova.
Faz algum sentido imaginar que campanhas assim organizadas e tão bem abastecidas tenham que esperar a divulgação de pesquisas públicas para tomar qualquer decisão relevante? Que as equipes de Serra e Dilma fiquem roendo as unhas na frente da televisão para saber quem está na frente e quem atrás? Que só resolvam o que vão fazer depois de ler no jornal o que disse uma pesquisa?
Pelo que escrevem alguns jornalistas, pareceria que sim. Seus textos dizem coisas como antes da pesquisa do Ibope, Serra ia fazer…., agora com o Datafolha, Dilma decidiu…., o que equivale a supor que os candidatos foram inteirados de algo pela imprensa. Que o vasto investimento de suas campanhas em pesquisas próprias é inútil, pois o que contaria seriam as pesquisas hípicas (as que mostram quais cavalinhos estão na frente) que todos conhecem.
Nas disputas eleitorais, as pesquisas publicadas são irrelevantes como instrumentos de informação estratégica, pois as campanhas grandes (e seus apoiadores) sabem muitíssimo mais que aquilo que chega à imprensa e ao cidadão comum. O que não quer dizer que sejam irrelevantes na guerra da comunicação, pois estar publicamente na frente é melhor que estar atrás e isso pode trazer diversas vantagens a quem lidera.
* Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Sábado, 24 Julho 2010 / 1:00

Vantagem de Dilma é de 8 pontos

   Do repórter Ricardo Galhardo, do IG:
“A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, lidera a disputa presidencial deste ano e aparece com 8 pontos de vantagem sobre o rival José Serra (PSDB) tanto no primeiro como no segundo turno, aponta pesquisa Vox Populi/Band/iG divulgada nesta sexta-feira. Dilma tem 41% das intenções de voto, enquanto Serra tem 33% e Marina Silva (PV) 8%. Segundo o Vox Populi, José Maria Eymael (PSDC) tem 1%.
Os outros cinco candidatos não pontuaram. Os votos brancos e nulos somam 4% e 13% dos entrevistados estão indecisos. A margem de erro é de 1,8 ponto percentual para mais ou para menos. Esta é a primeira pesquisa nacional divulgada depois da oficialização das nove candidaturas à Presidência.
Na sondagem anterior, divulgada no dia 29 de junho e que incluía 11 nomes, Dilma tinha 40% contra 35% de Serra e 8% de Marina. Os brancos e nulos eram 5% e os indecisos 11%. A diferença entre a petista e o tucano subiu de cinco para oito pontos. Segundo o Vox Populi, Dilma venceria Serra em um possível segundo turno por 46% a 38%. Na pesquisa espontânea, a petista tem 28%, Serra 21% e Marina 4%.
Embora não seja candidato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 4% e o candidato indicado por ele com 1%. A ex-ministra da Casa Civil tem seu melhor desempenho na região Nordeste, onde chega a 54% contra 24% de Serra e 5% de Marina. O ex-governador de São Paulo vai melhor na região Sul, onde tem 39% contra 35% da petista e 7% de Marina. Ele também está na frente na região Sudeste, com 36% contra 34% de Dilma e 10% de Marina.
A petista lidera tanto entre os homens quanto entre as mulheres. Ela tem 43% das intenções do eleitorado masculino contra 34% de Serra e 7% de Marina. No eleitorado feminino, Dilma tem 38%, Serra 32% e Marina 9%. A ex-ministra é a preferida em todas as faixas e níveis de ensino.
Quanto à renda familiar, Serra está na frente, dentro da margem de erro, entre os que ganham mais de cinco salários mínimos com 37% a 36% de Dilma e 11% de Marina. A petista tem o menor índice de rejeição, 17%, contra 24% de Serra e 20% da senadora do PV. O Vox Populi ouviu 3.000 eleitores entre os dias 17 e 20 de julho. A pesquisa foi registrada junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com o número 19.920/10.
Dilma continua menos conhecida do que Serra. Segundo o Vox Populi, 63% dos entrevistados conhecem bem ou tem algumas informações sobre Dilma enquanto Serra chega a 73%. Entre os que conhecem os candidatos só de nome Dilma tem 31% contra 24% do tucano”.

  • Domingo, 11 Julho 2010 / 4:42

A sucessão nos estados

                                                        Marcos Coimbra*


     Se o retrato que as atuais pesquisas estaduais pintam se confirmar, o país que teremos a partir de 2011 será muito semelhante ao de hoje. Pelo menos no tocante aos governos dos estados, pois tudo indica que o Senado ficará diferente.
De norte a sul, o tom que domina as sucessões, nos estados para os quais dispomos de dados, é de continuidade. São vários os governadores da safra de 2006 que disputam a reeleição, muitos com favoritismo e possibilidade de vitória no primeiro turno, outros enfrentando eleições menos tranquilas.
A eles se somam os vices que assumiram o cargo este ano, depois da desincompatibilização dos titulares, que saíram, quase todos, para se candidatar ao Senado. Neles, a marca da continuidade continua forte, mesmo quando enfrentam sua primeira eleição.
O caso mais notável de descontinuidade é o do Rio Grande do Sul, o único estado em que nem quem está no governo, nem alguém vinculado a ele, disputa com chances. A governadora Yeda Crusius não conseguiu fazer com que a opinião pública gaúcha se reconciliasse com ela, termina mal seu mandato e, embora concorra, está muito atrás dos líderes das pesquisas. Em si, a falta de perspectiva de reeleição não é de estranhar, pois contam-se nos dedos os políticos de seu estado que conseguiram renovar seu mandato (um deles, aliás, é José Fogaça, ex-prefeito reeleito de Porto Alegre, que está taco a taco com Tarso Genro).
O máximo de continuidade é, paradoxalmente, do maior estado, daquele que mais perto está do chamado Primeiro Mundo. Ao contrário de confirmar, nas eleições estaduais, o que se espera de uma sociedade moderna, a política de São Paulo tem ficado cada vez mais parecida com a dos estados tradicionais. Lá, a se manter a vantagem de Alckmin sobre Mercadante, o PSDB chegará a 2014 comemorando seu vigésimo aniversário no Palácio dos Bandeirantes.
Nenhuma oligarquia dos estados pobres do Norte/Nordeste conseguiu tamanha proeza no Brasil contemporâneo. Depois da redemocratização, nem os Antonio Carlos, os Sarney, os Amazonino Mendes, os Siqueira Campos, os Lavoisier ou os Maia chegaram nem perto. Nenhum deles teve tanta competência para se manter no poder. E o engraçado é que são os tucanos de São Paulo os que mais advogam a alternância como remédio para os males de nossa administração pública.
Devem se reeleger sem susto os governadores do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco, do Ceará, do Mato Grosso do Sul e a governadora do Maranhão. Também favoritos, mas em cenário mais competitivo, os de Sergipe e da Paraíba. Em Alagoas, Teotônio Vilela disputará uma eleição complicada, agora ainda mais, com a entrada de Fernando Collor no páreo.
Em Minas Gerais, Hélio Costa está bem à frente de Antonio Anastasia, que assumiu o governo com a renúncia de Aécio. Ninguém que acompanha a política mineira, no entanto, considera que sua vantagem é estável. Como no caso da eleição presidencial, o desconhecimento sobre o candidato do PSDB faz com que os números das pesquisas de agora tenham que ser vistos com cautela. É muito possível que Aécio faça por ele o mesmo que Lula por Dilma.
Existem outros casos de vices que se tornaram governadores e disputam com chances (como no Mato Grosso, no Piauí e no Amazonas), de ex-governadores voltando (como em Goiás) e alguns lugares imprevisíveis, uns que sempre foram (como Santa Catarina e o Pará), outros que se tornaram, como o Paraná. Lá, parecia que Beto Richa talvez nem tivesse adversário e agora tem, por sinal forte: Osmar Dias. Há, ainda, mudanças que nada são além de continuidade, como a do Acre, onde Tião Viana deve ganhar.
Mas, na hora em que for feita, em 2011, a foto dos governadores no seu encontro com o novo (ou a nova) presidente, o retrato não ficará muito diferente do atual, mesmo que alguns novos rostos apareçam. No fundamental, pouca coisa vai mudar (salvo, é claro, se alguma surpresa sobrevier).
Já no Senado, é certo que teremos grandes mudanças, muitas para melhor. Nos dois terços que serão renovados, virão ex-governadores, ex-prefeitos, pessoas experientes e lideranças respeitadas nos seus estados e no país. Vários furos acima da média da atual legislatura, que vai embora sem deixar saudade.
* Marcos Coimbra, sociólogo, presidente do Instituto Vox Populi, escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Sexta-feira, 02 Julho 2010 / 4:35

O Datafolha e as pesquisas

Que ginástica o Datafolha faz para que Serra (39%)  e Dilma (38%) continuem empatados.
Quem agradece é Marina Silva (10%) que passou a ter dois digítos.
          * * *
O mais curioso é que não deram muita bola para a pesquisa expontânea.
Justamente ali Dilma Rousseff ganha de José Serra, de 22% a 19%. Não é espantoso?
E ainda dizem que ela é uma desconhecida…

  • Quarta-feira, 26 Maio 2010 / 4:17

Escadas e chicletes

                                          Marcos Coimbra*  

    Conta-se que o ex-presidente Gerald Ford tropeçou um dia ao descer do Air Force One, o avião que transporta os presidentes americanos. Para explicar o vexame, se justificou: Também, estava mascando chicletes e descendo a escada. Nada mais natural que caísse.
É fato que muitas pessoas não conseguem fazer duas coisas complicadas ao mesmo tempo e que podem se esborrachar tentando. Mas a maioria consegue.
Como os eleitores brasileiros e a Copa do Mundo. Por obra do acaso, que veio quando o mandato presidencial foi abreviado para quatro anos, quando da aprovação da emenda da reeleição (que reduziu os cinco que a Constituição de 1988 estabelecia), temos eleições presidenciais exatamente nos anos de Copa do Mundo. Em 1994 foi coincidência, pois Collor havia sido eleito para cinco anos e seu mandato terminava em um ano de Copa. No novo figurino, começamos em 1998 e, desde então, toda vez é igual. Já fizemos três e vamos fazer a quarta eleição presidencial com ela no meio. Tomara que tenhamos muitas pela frente.
Deve ser um acaso construído pelos deuses, sabe-se lá se da bola ou da nacionalidade. Se formos mesmo o país do futebol, onde as pessoas mais o amam e mais se envolvem com ele, é uma coincidência feliz que as duas coisas aconteçam tão perto uma da outra. São meses de paixão para quem gosta de ambas, começando agora, passando por jogos cada vez mais emocionantes, atravessando a decisão e prosseguindo, pois a eleição emenda com a Copa e só termina com a apuração no início de outubro (ao que parece) ou no fim do mês.
Em 1994, a Copa, como este ano, foi de meados de junho a meados de julho. Houve quem se perguntasse se o sucesso ou o fracasso da Seleção Brasileira redundaria em vantagens para Fernando Henrique, àquela altura já candidato, ou Lula. O raciocínio banal era que o ex-ministro da Fazenda lucraria se vencêssemos e que Lula seria beneficiado se todos ficassem tristes com a derrota, se enfurecessem com o status quo e resolvessem votar nele só de birra.
Não houve como testar o aforismo povo que ganha Copa vota no governo, povo que perde Copa vota na oposição. Veio o Plano Real e aniquilou a candidatura Lula. No fim do mês de julho, FHC ultrapassou os 40 pontos nas pesquisas e foi (quase) tranquilo para uma vitória no primeiro turno. Em outubro, ninguém nem se lembrava mais das especulações sobre a Copa e as eleições. O fato de o Brasil ter vencido não entrou nas explicações do que havia acontecido.
Em 1998, o Brasil perdeu a Copa e o governo venceu a eleição. Em 2002, venceram o Brasil e a oposição. Em 2006, perdemos e ganhou o governo. Ou seja, não parece haver qualquer razão para sustentar que as vitórias no futebol são boas para quem está no governo e más para a oposição. A rigor, a tomar pela nossa experiência, Dilma e Serra estão livres para torcer sem preocupações. Ganhando ou perdendo nossa Seleção, suas chances não mudam. Nenhum dos dois teria mais vantagens com a derrota. Podem vestir a camisa verde-amarela e soltar a voz.
Este ano, a discussão sobre as relações entre Copa do Mundo e futebol tem um ingrediente diferente. Continua-se a especular sobre quem ganha ou perde em função de seus resultados, mas a ênfase da conversa está sendo, especialmente nos últimos dias, outra.
É a ideia de que tudo começa depois da Copa. Ela tem tanta sustentação quanto outras mitologias sobre o processo de decisão do eleitorado. Tudo começa depois da parada (de 7 de setembro), tudo começa depois do andor e outras parecidas. Em todas, a suposição sem sentido de que os eleitores só vão pensar na eleição depois que alguma coisa importante (ou não) tiver acontecido.
Existem centenas de estudos internacionais que mostram que não é assim que as coisas acontecem. A tomada de contato do eleitorado com a eleição é um processo contínuo, ainda que comece cedo para alguns e mais tarde para outros. Mas acontece diariamente, sem intervalos ou interrupções. Os eleitores conseguem prestar atenção na eleição e na Copa, sem cair da escada.
Quem defende o argumento do só depois da Copa são as mesmas pessoas que achavam que tudo começaria depois da desincompatibilização ou depois de quando Serra assumisse sua candidatura. Estavam enganadas. Na verdade, tudo começou há muito tempo.

*Marcos Coimbra, sociólogo, presidente do Instituto Vox Populi, escreve para o ‘Correio Brasiliense’

  • Segunda-feira, 24 Maio 2010 / 4:15

Escondendo o sol com a peneira

Pela pesquisa do Datafolha, Dilma Rousseff cresceu em todas as regiões do país. E José Serra caiu em todas, menos no Nordeste, onde segue com seus 33%.
No Sudeste, o tucano lidera com 40% contra 33% da petista, mas em abril a vantagem era de 45% a 26%.
No Norte e no Centro-Oeste, regiões agrupadas pela pesquisa, Dilma assumiu a liderança pela primeira vez e tem 40% das intenções, contra 34% de Serra. No Sul, há empate técnico: 38% para o tucano e 35% para a petista.
                         * * *
O que o Datafolha descobriu, já havia sido revelado pelo Vox populi três dias antes.
                         * * *
O presidente nacional do PSDB e coordenador da campanha de José Serra, senador Sérgio Guerra (PE), acredita que os resultados regionais da pesquisa Datafolha “não podem ser considerados na avaliação do cenário eleitoral. Eles não conferem com os números que nós temos”.
Então está ótimo.
Não há com que se preocupar.
É vida que segue.

  • Segunda-feira, 24 Maio 2010 / 4:15

O que dá pra rir, dá pra chorar

De Cesar Maia sobre a pesquisa do Datafolha:
“Registre-se que, em 2006, o atual patamar em que se encontra Serra foi a votação de Alckmin no primeiro turno (incluindo brancos e nulos), ou 37%.  Os carros ainda estão dando as voltas no circuito em busca do melhor posicionamento no grid de largada. Mas lembre-se que, na F1, definido o grid de largada, tudo para e se recomeça com os carros parados no dia seguinte. Nas eleições, os carros nunca param de correr, para frente ou para trás ou no mesmo lugar ou em diagonal”.
O que para Cesar pode ser o patamar mínimo, para outros pode ser o patamar máximo.
Assim, Serra não teria como crescer.

  • Domingo, 23 Maio 2010 / 4:15

Coimbra: Dilma é a favorita

Ricardo Noblat fez mais uma entrevista pelo Twitter, onde cada pergunta e resposta tem de ter um máximo de 140 toques. Dessa vez o entrevistado foi o sociológo Marcos Coimbra, presidente do Instituto Vox Populi:
- Boa tarde, Marcos Coimbra. Quem tem mais chances de se eleger presidente da República em outubro próximo?
- Boa tarde, Noblat. Dilma é favorita, mas favoritismo não basta para ganhar uma eleição.
- Por que você considera Dilma favorita?
- Ela empatou com Serra e tem um espaço de crescimento aberto à frente junto ao eleitorado que está disposto a votar na candidata do Lula.
- Isso é suficiente para que Dilma se eleja? Serra não tem espaço para crescer?
- Serra é conhecido por 80% da população. Tem menos espaço para crescer. Dilma tem crescido tirando intenções de voto dele.
- A essa altura, quantos por cento das intenções de voto de Dilma resultam de transferência feita por Lula?
- Dilma é a candidata dele, de continuidade do que ele representa. Nesse sentido, toda a intenção de voto que tem vem de Lula e do governo.
- Dilma corre o risco de o eleitor, a certa altura, concluir que votar nela não significa votar em Lula, não é a mesma coisa?
- Claro que não é, e o eleitor sabe disso. Quem pensa em votar nela não acha que Lula vai mandar, mas acha que ela preservará o que ele fez.
- Se os votos de Dilma não são dela, mas de Lula e do governo, o candidato poderia ter sido qualquer outro bom auxiliar de Lula. Ou não?
- Me parece que sim, mas Lula deve ter tido razões para preferi-la. Seu papel no governo, seu perfil técnico, sua identificação com ele.
- Pelos seus cálculos, quantos por cento a mais de votos Lula ainda poderá repassar para Dilma?
- Há ainda cerca de 40% do eleitorado que conhecem mal ou não conhecem Dilma. Ela pode crescer mais 20 pontos nesse segmento.
- Fernando Henrique Cardoso tira votos de Serra? Ou freia seu crescimento? Há algum tipo de cálculo a esse respeito?
- A imagem de FHC é negativa e a maioria das pessoas acha que o governo dele foi muito pior do que o de Lula. Isso é ruim para Serra.
- Por que Dilma cresceu tanto em maio? Exposição em programas partidários na tv? Companhia de Lula no programa do PT? Ou cresceria de todo jeito?
- Todas as opções estão corretas. A propaganda do partido ajudou, Lula também, e ela estava em crescimento lento, mas firme.
- Em junho, Serra terá muito espaço nos programas de tv de partidos. Automaticamente ele crescerá?
- Serra é muito conhecido, o que limita essa hipótese. Mas deve melhorar, nem que seja por sustar o crescimento natural de Dilma.
- Lula já foi multado 4 vezes por fazer propaganda de Dilma antes do tempo. Faz mais de 1 ano que ele está em campanha por ela. Isso não a ajudou?
- Mais que ajudou, é a explicação de tudo. Ele antecipou a campanha, todo mundo entrou em campo e ele teve tempo para apresentar sua candidata.
- Todo mundo, não. Serra não entrou. E ninguém dispunha do grau de exposição de Lula e de Dilma.
- Desde 2009, todos os programas partidários foram eleitorais, PT, PSB e PSDB. Quanto à demora de Serra, a decisão foi dele e só dele.
- Serra tem um “teto” de votos que dificilmente ultrapassará? Qual seria?
- Serra tem um piso alto e um teto limitado pelo tipo de eleição que fazemos, onde o eleitor se pronuncia sobre politicas e governos e não sobre biografias.
- E o teto de Dilma e de Marina Silva?
- O teto de Dilma é o desejo de continuidade, que é muito alto. Marina corre o risco de ficar espremida entre os dois grandes e não conseguir crescer.
- O que Serra precisaria fazer para driblar esse quadro desfavorável e ganhar? Ou não tem como?
- Trazer a eleição para o campo dele, o da comparação de currículos. Torcer para que Dilma erre muito. Mas sua posição é desvantajosa.
- Aécio de vice poderia ajudar Serra a se eleger ou não acrescentaria grande coisa?
- Aécio só é bem conhecido em Minas Gerais, onde Lula é muito querido. Serra está bem e é dificil avaliar se um ganho em Minas faria diferença.
- Não dá para avaliar se um ganho em Minas faria diferença para Serra? Ou você prefere não avaliar?
- Minas é 11% do eleitorado. Aumentar 20 pontos no estado é 2% no total do país. Pode ser muito pouco no resultado final.
- Por que a História registra erros tão clamorosos cometidos por institutos de pesquisa?
- Os erros existem e todos procuramos reduzi-los ao mínimo. Mas os institutos brasileiros estão entre os que mais acertam no mundo.
- É certo que institutos pesquisem ao mesmo tempo para partidos e meios de comunicação?
- É nossa tradição, mas é natural que seja discutida. Pode ser um dos itens a tratar na reforma política que aguardamos.
- Montenegro, presidente do IBOPE, disse à VEJA no ano passado que a eleição de Serra era segura. Era na época ou ele estava errado?
- Acho que seria melhor perguntar isso a ele.

  • Domingo, 23 Maio 2010 / 4:15

As normas escritas e as outras

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, para o ‘Correio Brasiliense’:
“Nossa legislação eleitoral é confusa, efêmera, artificial. Em alguns aspectos, é tão detalhista que parece obcecada com pulgas; em outros, é tão omissa que deixa escapar elefantes
Quando nossas elites resolverem fazer a prometida reforma política, bem que poderiam começar pela revisão da legislação eleitoral. Há muita coisa que repensar nas normas que regem o funcionamento do sistema político como um todo, mas talvez não haja capítulo onde a necessidade de amplas mudanças seja tão evidente quanto no que ordena as eleições.
Nossa legislação eleitoral é confusa, efêmera, artificial. Em alguns aspectos, é tão detalhista que parece obcecada com pulgas; em outros, é tão omissa que deixa escapar elefantes. Se os políticos trocam (ou trocavam) de partido como trocam de camisa, os legisladores trocam as leis eleitorais (ou os tribunais ao aplicá-las) como os estilistas trocam (ou trocavam) a altura das saias a cada temporada.
Quando o vento sopra a favor do liberalismo, temos regras brandas. Quando o clima é propício ao endurecimento, ficam severas. Uma hora, pode-se tudo; outra, nada.
Afinal, o que é permitido e o que é proibido fazer nos horários que a legislação concede aos partidos políticos na televisão e no rádio a cada semestre? Destinados à divulgação das ideias e das propostas de cada um, até onde são livres para estabelecer o que vão dizer?
Há um paradoxo na pergunta. Se um partido político representa o pensamento de uma corrente de opinião suficientemente expressiva para ultrapassar as barreiras que existem para impedir que qualquer um possa fazer o mesmo, quem teria o direito de proibi-lo de falar o que quiser? Respeitados os princípios constitucionais básicos, ele poderia tudo.
Se o PT quer usar seu tempo de televisão para falar bem de Dilma, como fez, por qual razão não poderia? Se o PSDB quiser usar o seu para elogiar José Serra, como fez, estaria proibido?
A resposta que não podem, porque as leis não deixam, nos leva a pensar na legislação vigente. No caso, nas leis que definiram esse absurdo lógico em que nos metemos, de desejar o fortalecimento dos partidos e pouco fazer para alcançá-lo.
Sua primeira formulação aconteceu, talvez não por acaso, alguns meses antes do Ato Institucional nº 2, de 1965, que violentou o sistema partidário brasileiro, extinguindo os partidos existentes e inventando um bipartidarismo que nunca funcionou. Em julho daquele ano, foi promulgada a Lei nº 4.737, que, pela primeira vez, reservava horários na televisão para a ?propaganda permanente do programa dos partidos?. Nela, também foi fixado que os candidatos só poderiam fazer propaganda após ?a respectiva escolha em convenção?.
Foi, assim, há 45 anos, em plena ditadura militar, que criamos os fundamentos das regras esdrúxulas que temos. Delas, exalava uma óbvia resistência aos partidos e à atividade política, coerente com os tempos que o país vivia. Incoerente é sua sobrevivência na democracia.
As regras são tão sem sentido que, faz muito tempo, ninguém as leva a sério. Desde a redemocratização, os tribunais decidiram deixar que os partidos usassem seu tempo de televisão com liberdade, assim como fizeram vista grossa ao descumprimento da ficção de que as campanhas só começam depois das convenções.
Por isso, todas as eleições que fizemos de 1989 para cá foram marcadas pelo uso eleitoral dos horários partidários na televisão, como é natural que acontecesse. Collor se elegeu os utilizando com competência, como Fernando Henrique e Lula. Todas as campanhas presidenciais, bem como as de governador e de prefeito, foram antecedidas pelo seu aproveitamento na apresentação ou consolidação de candidaturas.
Essas foram as normas reais que prevaleceram nos últimos 20 anos, mesmo que as velhas normas escritas não tivessem sido formalmente revogadas. Todos os partidos, sem exceção, seguiram o figurino. Como nestas eleições. Ciro, Marina, Serra (na época com Aécio) e Dilma foram as estrelas dos horários e inserções de seus partidos. Alguém adivinha por quê?
Agora, há quem se diga indignado com o recente programa do PT, veiculado há duas semanas. Talvez quem suponha que foi por causa dele que Dilma subiu nas pesquisas e parece próxima de ultrapassar Serra. Ou seja, quem não entende por que ela cresce.
Nele, no entanto, nada houve além da observância das normas aceitas, ainda que não escritas, de nosso sistema político. E, quem sabe, das que poremos escrever um dia, quando resolvermos reduzir o nível de hipocrisia que existe hoje”.

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