• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:43

A Igreja e as esquerdas

 

Marina Silva, beneficiária

Marina Silva, beneficiária

    Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econômico’, assina a reportagem mais interessante do dia:
“O PT foi fundado, em 1980, de uma costela dos movimentos populares ligados à Igreja da Teologia da Libertação. A ligação entre ambos, todavia, não é mais a mesma. Houve uma “despetização” desses movimentos. O setor progressista católico botou o pé para fora do partido que hoje está no governo da União e se move com mais desembaraço nos movimentos sociais do que fora do circuito de poder, e nos movimentos políticos suprapartidários, como o que resultou na aprovação do projeto Ficha Limpa, no dia 19 de maio.
As bases católicas progressistas ainda votam de forma majoritária no PT, mas não se misturam com o partido e são proporcionalmente menores que nos anos 80 e 90. Primeiro, porque a própria instituição perdeu a sua centralidade, com a redemocratização. “Nos anos 70 e 80, a Igreja era o guarda-chuva para a sociedade civil na defesa de direitos, um abrigo para os movimentos sociais e um centro de atividade política. Quando abriu o regime, não precisou mais exercer esse papel, porque floresceram outras institucionalidades”, analisa o padre José Oscar Beozzo, da Teologia da Libertação – o veio de reflexão da Igreja de esquerda latino-americana que foi condenado à proscrição nos papados de João Paulo II e Bento XVI, acusado de tendências materialistas, mas que resiste nas bases sociais católicas de forma mais tímida e “de cabelos mais brancos”, segundo Beozzo, e com mais dificuldades de reposição de quadros, na opinião de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um de seus teóricos.
Na democracia, a atividade partidária não precisa estar mais abrigada na Igreja, nem a Igreja tem a obrigação de ser o grande protagonista de movimentos políticos civis: “No movimento do Ficha Limpa, houve um trabalho conjunto com setores laicos. É melhor trabalhar assim”, afirma Beozzo. “Sem a capilaridade da Igreja, dificilmente o movimento conseguiria reunir 1,6 milhão de assinaturas para a proposta de iniciativa popular”, relativiza o juiz Márlon Reis, um dos organizadores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
De outro lado, também foi gradativamente se reduzindo o espaço de atuação da Igreja progressista nas bases sociais. Isto se deve à evasão dos setores mais pobres das igrejas católicas, que rumam celeremente para templos evangélicos, e à política sistemática de esvaziamento dos setores católicos progressistas por Roma. A igreja da Teologia da Libertação ocupa um espaço, junto às classes menos favorecidas, a que os tradicionalistas não conseguem acesso. Quando esse setor tem seu acesso reduzido a estas bases, a adesão ao catolicismo também diminui. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, 89,2% declaravam filiação ao catolicismo em 1980; em 2000, eram 73,8%. Em 1990, esse índice era de 83% – um ritmo de queda muito aproximado a 1% ao ano nos dez anos seguintes. As religiões evangélicas eram a opção de 6,7% da população em 1980; já trafegavam numa faixa de 15,4% dos brasileiros em 2000. Segundo dados do Censo, subiu de 1,6% para 7,3% os brasileiros que se declaram sem religião.
O IBGE parece confirmar a teoria de Frei Betto em relação à origem dos que saem do catolicismo em direção às igrejas evangélicas: enquanto, na população total, 73,8% se declaravam católicos no Censo de 2000, esse número subia para 80% nas regiões mais ricas e entre pessoas de maior escolaridade.
Segundo Beozzo, a Igreja Católica encolheu nas comunidades onde viscejava o trabalho pastoral da igreja progressista. “Hoje a igreja é minoritária nas comunidades. Para cada três igrejas católicas, existem 40 pentecostais.” Além da perda de fiéis para as igrejas católicas nas periferias urbanas, a Igreja católica tem perdido também para os que se declararam sem religião. É a “desafeição no campo religioso” a que se refere Beozzo.
Para Frei Betto, todavia, as perdas respondem diretamente à ofensiva da hierarquia católica contra a Teologia da Libertação. Essa é uma posição que foi expressa também pelo bispo emérito de Porto Velho, dom Moacyr Greghi, na 12ªInterclesial, no ano passado, quando as comunidades eclesiais de base surpreenderam ao reunir cerca de 3 mil delegados num encontro cujo tema era “CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”. “Onde existirem as CEBs, os evangélicos não entram e os católicos não saem de nossa igreja”, discursou dom Moacyr.
Segundo teólogos, padres e especialistas ouvidos pelo Valor, processos simultâneos mudaram as feições da ação política da igreja. A alta hierarquia católica fechou o cerco contra a Teologia da Libertação, quase que simultaneamente à redemocratização do país e à emergência de instâncias livres de participação democrática – partidos, sindicatos, organizações não-governamentais e movimentos organizados.
O PT, principal beneficiário dos movimentos de base da Igreja, se autonomizou e absorveu quadros originários das CEBs, das pastorais e das ações católicas especializadas (JEC e JUC, por exemplo). Ao tornar-se poder, pelo voto, incorporou lideranças católicas, mas também decepcionou movimentos que estavam à esquerda do que o partido conseguia ir administrando o país e mediando interesses de outras classes sociais. “As bases estão insatisfeitas, mas têm medo de fazer o jogo da oposição, que está à direita do governo”, analisa Frei Betto. “Tem uma parte dessa militância que tem pavor da volta do governo tucano”, relata o candidato do P-SOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio.
O espaço do PT nas bases católicas ficou menor depois da ascensão do partido ao poder e da crise do chamado Escândalo do Mensalão, em 2005 – quando foi denunciado um esquema de formação de caixa 2 de campanha dentro do partido. Hoje, a relação dos católicos progressistas com a legenda não é mais obrigatória e os militantes de movimentos católicos de base são menos mobilizados e em menor número. Os partidos de esquerda acabaram incorporando um contingente da base católica que continua partidarizada, embora o PT ainda seja majoritário.
“O PT continua sendo o partido que tem mais preferência dos militantes das Comunidades Eclesiais de Base, mas existem partidários do P-SOL e tem gente que saiu do PT para militar com a Marina Silva, do Partido Verde”, conta o padre Benedito Ferraço, um ativo militante . Em alguns Estados, como o Maranhão, onde existia uma militância histórica do antigo MDB autêntico, da época da ditadura, ainda se encontram bases católicas progressistas pemedebistas, segundo padre Ferraço. O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, que milita junto a setores da Igreja na defesa da reforma agrária – e assessora a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o tema – tem a adesão de líderes de movimentos da Igreja ligados à questão agrária. Contabiliza o apoio do ex-presidente da Comissão Pastoral da Terra, o bispo emérito Dom Tomás Balduíno. Marina – que, embora tenha abraçado a religião evangélica, tem na sua origem política a militância nas CEBs – recebeu a adesão do guru da Teologia da Libertação, Leonardo Boff.
Na avaliação do ex-vereador Francisco Whitaker, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, as bases da igreja progressista têm saído da militância petista, mas engrossam mais as fileiras dos “sem-partido” do que propriamente as legendas mais à esquerda ou opções mais radicais pela ecologia, embora isso aconteça. “Hoje, a militância partidária é apenas uma das possibilidades”, afirma Whitaker, que foi um dos líderes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral que esteve à frente da campanha pelo projeto dos Ficha Limpa.
Whitaker e Frei Betto – este, junto com Boff, é um dos expoentes da Teologia da Libertação – apontam também um outro fator para a “despetização” das bases da Igreja: a absorção de quadros originários das CEBs e das pastorais sociais pelo próprio governo. “O movimento de base foi muito desarticulado, ou porque os seus líderes foram cooptados pelo governo do PT, ou porque foram incorporados à máquina partidária”, diz Frei Betto. Isso quer dizer que o militante católico absorvido pelas máquinas partidárias e do governo deixou de ser militante e passou a ser preferencialmente um quadro petista.
A incorporação à máquina não é apenas a cargos de confiança em Brasília. “As representações estaduais do Incra e da Funasa, por exemplo, absorveram muita gente que veio dos movimentos de base da Igreja Católica”, conta Frei Betto. Também a máquina burocrática do partido atraiu os militantes que antes atuavam nas bases comunitárias de influência católica.
A “laicaização” do PT foi mais profunda, todavia, após 2005. “O mensalão bateu forte nas bases católicas”, avalia Whitaker. Sob o impacto do escândalo, centenas de militantes petistas aproveitaram o Fórum Social Mundial, que naquela ano acontecia em Porto Alegre, para anunciar a primeira debandada organizada de descontentes, que saíram denunciando a assimilação, pelo PT, das “práticas e a maneira de fazer política usuais no Brasil”, conforme carta aberta divulgada por Whitaker. “Eu tomei a decisão de integrar o partido dos sem-partido”, conta o ex-vereador. A aposta, naquele momento, era que esses dissidentes criassem um forte partido ligado à esquerda católica. O P-SOL nasceu, mas pequeno e fraco – uma reedição, em tamanho reduzido, da aliança entre esquerda católica e grupos marxistas que, 15 anos antes, havia criado o PT.
Os “sem-partido”, no cálculo de quem saiu, são em maior número. Whitaker chama essa “despetização” de “saída para a sociedade”: o contingente se incorporou ao movimento dos Ficha Limpa, agora reforça a briga pela aprovação da Emenda Constitucional de combate ao trabalho escravo e tem atuação na luta pela reforma agrária. Tem forte atuação também – e quase definitiva – na organização dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) que ocorrem todo ano, de forma quase simultânea ao Fórum Econômico Mundial de Davos, como uma opção de debate econômico dos excluídos das generosidades do capitalismo mundial. Exercem uma militância de certa forma invisível na política institucional, mas muito atuante nas bases, de questionamento da legitimidade das dívidas interna e externa.
O secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Daniel Seidel, afirma que esse setor católico vive hoje em estado de ebulição, depois de um período de recuo, imposto especialmente pela ofensiva de Roma contra os setores mais progressistas da Igreja da América Latina. No caso brasileiro, esse novo período de eferverscência é atribuído a Dom Dimas Lara, secretário-geral da CNBB, de um lado; e de outro lado, ao papel desempenhado pelas Assembleias Populares, um formato de organização das bases mobilizadas da Igreja. As Assembleias têm definido uma ação política fora dos partidos e engrossado as mobilizações dos movimentos populares. São um espaço para onde tem convergido a atuação da Igreja cidadã: é onde se definem questões de atuação conjunta com outras igrejas, leigos, movimentos sociais e partidos políticos, embora jamais vinculados a eles.
Embora a “saída para a sociedade” tenha se dado num quadro de frustração com o governo, existe cautela em relação a ações contra o governo Lula. “Tem uma parte das bases católicas que acha que, ruim com ele (Lula), pior sem ele. Essa parte tem pavor da volta de um governo tucano”, analisa Arruda Sampaio. “Embora as bases estejam insatisfeitas, têm medo de denunciar o governo e fazer o jogo da oposição”, diz Frei Betto. Isso ocorre também com os movimentos sociais que já estão descolados da Igreja, como o MST, que foram criminalizados nos governos de FHC, não concordam com os rumos tomados pelos governos de Lula, mas ainda assim preferem a administração petista, numa situação eleitoral de polarização entre o PT e o PSDB”.

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

EX-MILITANTES ESTÃO COM MARINA E PLÍNIO

 ”A Igreja progressista já não produz quadros para a política na quantidade que o fazia antigamente, mas a política brasileira pós-redemocratização está repleta de suas crias.
No início do governo, no comando do programa Fome Zero, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, contabilizou-s em artigo no “Correio Braziliense”: Marina Silva, ex-militante das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja; Benedita da Silva, líder comunitária cujo primeiro marido, o Bola, militou no movimento Fé e Política; o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi da Juventude Estudantil Católica (JEC) de Anápolis (GO); Dilma Rousseff, companheira de cárcere de Frei Betto e de outros religiosos, no presídio Tiradentes; José Graziano, formado politicamente na JEC; Olívio Dutra e Gilberto Carvalho, que vieram da Pastoral Operária; José Dirceu, que no período de clandestinidade foi abrigado no convento São Domingos; e o jornalista Ricardo Kotscho, com quem Frei Betto criou grupos de oração, base do trabalho evangelizador da Teologia da Libertação .
Muita água rolou por baixo da ponte, mas nessas eleições presidenciais pelo menos dois candidatos beberam dela. A evangélica Marina Silva, candidata a presidente pelo PV, é uma. “Nós crescemos na batina do dom Moacyr (Grechi)”, afirma a candidata. Militante desde cedo das comunidades eclesiais de base do Acre, atribuiu à Igreja católica, em especial de dom Moacyr, o fato de o Estado ter encontrado caminhos políticos diferentes ao do narcotráfico. Foi o pessoal do dom Moacyr que ganhou eleições para governos e Senado e forneceu quadros para secretarias e estrutura burocrática,
O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi um incansável militante, dentro e fora da Igreja, pela reforma agrária. Era um quadro do PT até o racha de 2005. Acha que, em algum momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve liderança incontestável nas bases da Igreja, mas hoje não lidera mais “gregos e troianos”.
A deputada e ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSB), embora não seja candidata à Presidência, é um exemplo de política que se criou nas bases da Igreja. Em Pernambuco, onde dava os seus primeiros passos na luta política, a Igreja progressista ajudava a organizar sindicatos rurais numa região em que as ligas camponesas – movimentos sociais muito atuantes antes do golpe de 64 – foram destroçadas pela ditadura. “Havia uma grande repressão às ligas e aos camponeses, mas a Igreja tinha uma relativa liberdade de transitar por esses espaços e aproveitava disso para organizar sindicatos”, conta a deputada. Erundina veio para cá ameaçada pela repressão militar. Elegeu-se prefeita em 1989 – e foi a sua relação com a Igreja progressista que a protegeu nos momentos mais difíceis”. (M.I.N)

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:07

As semelhanças de Dilma e Serra

Do repórter Moisés Mendes, de ‘Zero Hora’:
“Com temperamentos semelhantes, a petista e o tucano forjaram a fama de administradores públicos exigentes, movidos por um nível de cobrança que assombra assessores e interlocutores
Espelhadas, as imagens públicas de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) podem refletir as mesmas luzes e sombras. Nas luzes, surgem como exigentes, obstinados, disciplinados, francos, leais. Nas sombras, nem sempre visíveis, como teimosos, geniosos, mandões, ríspidos, amargos.
Os dois pré-candidatos que lideram as pesquisas para a Presidência da República têm muito mais em comum do que é revelado por adjetivos e aparências simplificadoras. A petista e o tucano construíram, cada um a seu modo, o que consagraram como a principal virtude de ambos: a capacidade de planejar, comandar e decidir com níveis de exigência e eficiência acima da média na gestão pública. Assim carregam a fama de carrancudos, que se esforçam para atenuar com sorrisos, abraços e acenos exigidos pela campanha.
Quando chegou a Brasília, no final de outubro de 2002, para coordenar a área de infraestrutura da equipe de transição do governo Lula, Dilma era respeitada como conhecedora do setor de energia. Não mais do que isso.
Participara da montagem do programa do candidato petista, quando ocupava a Secretaria de Energia e Minas do Rio Grande do Sul. Mas é das reuniões da equipe de transição, que definia os planos de ação do novo governo, no Centro de Formação do Banco do Brasil em Brasília, que emerge a Dilma que só os gaúchos conheciam.
Eu convivi com Dilma na transição. Ali ela mostrou que conhecia um setor do qual ninguém do governo anterior sabia nada, porque não tinham planejamento, cálculo econômico, estratégia diz o ex-ministro José Dirceu.
Dilma impressionou Dirceu e o coordenador-geral da equipe, o médico Antonio Palocci, que assumiria depois o Ministério da Fazenda. Aos poucos, passou a ser observada por Lula. Era categórica. Confrontava suas ideias com as de especialistas em energia com vigor de veterana em embates. Em dezembro de 2002, foi anunciada por Lula como ministra de Minas e Energia.
Vencera a disputa pelo ministério com o engenheiro Luiz Pinguelli Rosa, militante petista, amigo de Lula e um dos mais ouvidos técnicos do setor. Dilma nunca disputara uma eleição. Não tinha votos. Nem representatividade política. Nem intimidade com Lula. Ex-trabalhista, filiara-se ao PT havia apenas um ano e nove meses.
Dilma virou ministra de Energia e depois me sucedeu na Casa Civil porque tem capacidade de coordenação, liderança e visão estratégica. No dia seguinte ao da minha saída do governo (em 2005), o presidente me disse que o primeiro nome em que pensara para a Casa Civil era o dela. Eu disse que Dilma daria conta. Ela não é turrona, é afável e gentil e está cercada de homens meigos sorri Dirceu ao telefone.
Um economista que conviveu com Dilma quando ela ocupou a Secretaria de Energia e Minas do governo Olívio Dutra (PT), de 1999 a 2002, lembra:
Ela colocava todo mundo em pânico quando queria entender em 10 minutos o que tínhamos aprendido em quatro anos de faculdade.
Dilma já havia passado pela mesma secretaria no governo Alceu Collares (PDT), onde ficara pouco mais de um ano, entre dezembro de 1993 e janeiro de 1995. Não teve tempo para provar que conhecia energia. Mas já estudava o assunto, que seria tese do mestrado iniciado em 1978 e não concluído na Universidade de Campinas (Unicamp). Era casada na época com o ex-deputado Carlos Araújo, que relembra:
Dilma estudava demais, sempre foi uma obstinada, queria saber de energia com profundidade.
Quando voltou à secretaria, em janeiro de 1999, enfrentou naquele verão uma grave crise de abastecimento. Seus conhecimentos teóricos mergulhavam no breu de apagões sistemáticos. Herdara um sistema de distribuição precário. Criou o Comitê de Operação e Planejamento do Sistema Elétrico, com representantes das concessionárias, RGE, AES-Sul e CEEE.
Conquistou os empresários do setor privatizado um ano e meio antes. Buscou recursos em Brasília, tocou obras emergenciais, cercou-se de técnicos. Queria entender tudo de geração, transmissão, distribuição.
Dilma se empenhou em aprender diz o engenheiro e consultor de energia Paulo Milano, que coordenava na época o grupo temático do setor na Fiergs e pôde testar a impulsividade da secretária e sua capacidade de reconhecer erros.
Num evento na Fiergs, o engenheiro fez uma avaliação não muito otimista do abastecimento de energia. Ficou sabendo que a secretária questionara seus conhecimentos ao indagar a um participante:”Quem é ele para dizer isso?”
Dias depois, uma Dilma constrangida convidou Milano a ir a seu gabinete, para saber por que o cenário que ele apresentara na Fiergs era preocupante. O engenheiro Sidney Simonaggio, hoje vice-presidente executivo da Enersul, de Mato Grosso do Sul, presidia na época a RGE, empresa privada de energia do Rio Grande do Sul, e acompanhou a evolução da secretária em meio ao caos do setor:
Ela ouvia, aprendia e nos mobilizávamos juntos para buscar recursos para o sistema de distribuição do Estado. O modelo que levou para o setor elétrico, como ministra, serenou a convivência com geradores, transmissores e distribuidores, não afugentou investidores e evitou o risco de apagões.
Simonaggio foi um dos empresários que contribuíram para que se desfizesse, logo depois da escolha de Dilma por Lula, a ercepção disseminada por parte da oposição de que uma ex-guerrilheira, sem conhecimento técnico, assumiria o comando da complexa área de energia do país:
Chegaram a apresentá-la como uma fera radical no governo. Na verdade, ela já chegou a Brasília como uma gigante do setor elétrico. Dilma não tolera embromation, não tem paciência com conversas que não sejam claras.
O ex-prefeito de Porto Alegre Sereno Chaise, que em 2001 saiu do PDT com Dilma e outros trabalhistas históricos e se filiou ao PT, conhece a mineira-gaúcha como poucos:
Ela está sempre na roda viva. Há um ano, fui a Brasília para jantarmos. Fiquei ao seu lado das 22h até depois da meia-noite, no gabinete. Desisti. Fui embora e ela ficou ao telefone.
Para o deputado e ex-governador Alceu Collares, Dilma revelou-se boa gestora como sua secretária da Fazenda, de 1986 a 1989, quando ele era prefeito de Porto Alegre. Desentenderam-se em 2000. Collares chegou a abrir um processo contra a economista por injúria contra sua mulher, Neuza Canabarro. Pouco depois, se reconciliaram. O deputado torce para que Dilma não mude:
Tomara que o marketing político não tente modificá-la e que ela se apresente ao povo como é. É uma durona porque sabe tomar decisões fortes.
                  * * *
Prefeito de Piracicaba, o economista Barjas Negri conviveu com José Serra de 1983, no governo Franco Montoro em São Paulo, até sua saída do Ministério da Saúde, em 2002, para concorrer à Presidência da República. Conhece bem um folclore em torno do tucano:
O momento certo para falar com ele é quando o Palmeiras ganha de goleada. Se o Palmeiras perdeu para o Corinthians, nem pensar.
Claro que pode ser assim, mas não é bem assim. Assessores sabem que o momento certo de conversar com Serra é quando o tema a ser tratado na reunião foi destrinchado. Se não foi, o chefe decreta:
Estude melhor e volte depois.
Negri foi coordenador de políticas sociais do governo Montoro, quando Serra ocupou a Secretaria de Economia e Planejamento, entre 1983 e 1986. Foi o primeiro cargo executivo de Serra, que voltara do exílio em 1978 e até então dava aulas de economia na Unicamp. Foi ali que se revelou gestor. Paulo Maluf quebrara as finanças do Estado. Serra tomara gosto por orçamentos na teoria, quando estudou economia na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos. No governo, submeteu-se ao teste de provar na prática que era possível pagar dívidas, aumentar receitas, equilibrar o caixa e retomar a capacidade de investimento do governo.
Com ele, é preciso trabalhar em três turnos diz Negri, que também conviveu com o tucano quando era secretário executivo do Fundo Nacional de Educação e Serra comandava o Ministério do Planejamento de Fernando Henrique Cardoso.
Depois, voltaram a trabalhar diretamente, com Negri como secretário executivo do Ministério da Saúde, o segundo em hierarquia na pasta. O tucano chegava tarde ao trabalho, aí pelas 10h, quando todos já estavam ralando. Mas convocava reuniões para depois das 20h e saía do Ministério à meia-noite. Negri testemunhou confrontos tensos. Como os duelos com presidentes de laboratórios, quando o ministro ameaçou, em 2001, quebrar a patente de medicamentos do coquetel contra a Aids:
Assisti a discussões duríssimas.
Os laboratórios foram dobrados e reduziram os preços dos remédios. Serra sente prazer ao se impor diante de interlocutores enroladores. Fica desconfortável com soluções adiadas. E mergulha no que pretende resolver, acionando assessores de madrugada, para que não dependa de ninguém na hora de argumentar e decidir.
Nas reuniões com o presidente Fernando Henrique, ele nunca recorria a assessores para que falassem em seu nome, ele defendia sozinho e com convicção o que pretendia lembra o deputado Eliseu Padilha (PMDB), colega de Serra no governo FH como ministro dos Transportes, entre 1997 e 2001.
Um engenheiro recrutado para a equipe que está montando o programa de governo de Serra para o Brasil conta:
Ele é extremamente fiel a sua equipe e dá o exemplo pela capacidade de trabalho. Mas tem dias em que eu sei que não devo abrir a caixa de e-mails.
O economista Wilson Cano, da Universidade de Campinas, foi colega de Serra. Recorda-se de um professor preocupado em compreender a realidade brasileira, no retorno ao país, do desafio que enfrentou, ao deixar a Unicamp, sem experiência executiva, para assumir a Secretaria de Planejamento de Montoro e das dificuldades como ministro da Saúde, sempre em confronto, brigando por verbas, com o então ministro da Fazenda, Pedro Malan:
Como ele tem personalidade forte, o exercício da autoridade, por competência reconhecida, se confunde com autoritarismo. Ele e Dilma são centralizadores.
Geraldo Biasotto, outro economista também formado pela Unicamp, trabalha com Serra como diretor executivo da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap), encarregada de melhorar a gestão pública. Foi secretário de Gestão e Investimentos de Serra no Ministério da Saúde, de 1999 a 2002.
Biasotto conta que, além do duelo com os laboratórios na questão das patentes de medicamentos contra a Aids, Serra enfrentou os grandes grupos do setor quando da implantação da lei dos genéricos, afastando, com mecanismos de fiscalização da produção, a ameaça de ver os remédios sem marcas serem desqualificados por suspeita de ineficácia:
Dizem que Serra é um homem de planejamento, mas o forte mesmo dele é dar sentido prático as suas ideias, acompanhar, cobrar e ver resultados.
O governador tem de novo ao seu lado, desde abril do ano passado, um parceiro de exílio no Chile, no início dos anos 70. O economista Paulo Renato Souza deixou a Câmara dos Deputados para assumir a Secretaria de Educação de São Paulo. Paulo Renato, ex-ministro de Educação de FH e também ex-reitor da mesma Unicamp, sabe que Serra tem obsessão por números desde quando estudava Engenharia:
Ele sempre se interessou pelo debate, não só de questões teóricas e abstratas, mas também pelas coisas concretas.
Paulo Renato observa que Serra chegou ao cargo de secretário de Montoro porque antes havia coordenado a equipe que elaborara o programa de governo. Foi a primeira vez, segundo o economista, que grupos de várias áreas fecharam-se numa casa em São Paulo para decidir o que seria a cara de um governo estadual. Em 1986, deixou a secretaria e se elegeu deputado federal Constituinte pelo PMDB. Foi relator das questões tributárias e fiscais da nova Constituição.
Ninguém irá se lembrar de Serra como tribuno, apesar de ter sido deputado e senador, e tampouco como participante de articulações políticas de bastidores. Gosta de executar, de enxergar o que projetou. Em 1985, coordenou o time que desenhava o que seria o governo de Tancredo Neves, morto antes de assumir, e depois contribuiu para a elaboração dos programas dos governos de FH (1995-2002), coordenados por Paulo Renato.
O amigo comenta a fama de turrão do governador:
Ele cobra, quer saber de todos os detalhes, mas também mete a mão na massa, como fez quando foi ministro e faz agora como governador.
Para o ex-secretário executivo do Ministério da Saúde Barjas Negri, a imagem de casmurro não pode estar dissociada do perfil do tucano, desde que não o transforme numa caricatura, em detrimento do talento para a gestão de recursos e pessoas:
Defender posições com convicção não significa ser brigão. Ele é na verdade um exigente. Trabalha à noite e dorme pouco porque este é o seu jeito criativo de fazer as coisas”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:15

Dilma:”Sem aventuras ou retrocessos”

  De Vera Rosa, Clarissa Oliveira, Wilson Tosta e Lisandra Paraguassu, do ‘Estadão’:
“Aclamada ontem como pré-candidata do PT à Presidência, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, encarnou o pós-Lula e ensaiou o discurso de sua campanha. No encerramento do 4.° Congresso Nacional do PT, preparado para sacramentar sua candidatura e aprovar as diretrizes do programa de governo, Dilma pregou o fortalecimento do Estado, mas fez questão de defender com todas as letras a preservação da estabilidade econômica, com manutenção do equilíbrio fiscal, controle da inflação e câmbio flutuante.
“Não haverá retrocesso nem aventuras”, avisou a ministra no ato político que também comemorou os 30 anos do PT. “Mas podemos avançar muito mais e muito mais rapidamente.” Atrás dela, um painel com sua foto ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibia a inscrição “Com Dilma, pelo caminho que Lula nos ensinou”.
Vestida de vermelho, a cor do PT, a chefe da Casa Civil falou por uma hora em um salão decorado com estrelas, logo após Lula apresentá-la como herdeira para a plateia, assumindo o papel de avalista da candidatura. “Eleger a Dilma é a coisa mais importante do meu governo”, disse. “Eleger a Dilma não é secundário para o presidente da República: é a coisa prioritária na minha vida neste ano.”
Lula não escondeu a emoção ao apresentar a ministra. Contou que a conheceu quando ela foi secretária de Energia do Rio Grande do Sul no governo de Olívio Dutra (1999-2002), fato que muitos petistas não sabiam. Depois, teceu elogios à sua capacidade de trabalho, dedicação e solidariedade nos momentos difíceis, como na crise do mensalão, que, no seu diagnóstico, não passou de um “golpe” contra o Palácio do Planalto.
O presidente recomendou à candidata que esteja pronta para responder aos ataques da oposição na campanha. “Vão dizer que a Dilma vai ser estatizante. Se prepare”, afirmou, olhando para a ministra. “Isso não é ruim, não. Isso é bom.” Logo depois, porém, emendou: “Claro que você não vai querer estatizar borracharia, bar, pizzaria, cervejaria. Mas aquilo que for estratégico, não estiver funcionando e precisar colocar para funcionar, a gente não tem que ter medo de tomar decisões importantes para o nosso país.”
Em meio a promessas de continuar investimentos sociais iniciados no governo Lula, Dilma encontrou espaço para críticas à oposição. E foi com elas que arrancou os primeiros aplausos. “Não praticamos casuísmos. Basta ver a reação firme e categórica do presidente ao frustrar as tentativas de mudar a Constituição para que pudesse disputar um terceiro mandato. Não mudamos, como se fez no passado, as regras do jogo no meio da partida”, insistiu.
Ao citar os poetas Carlos Drummond de Andrade, mineiro, e Mário Quintana, gaúcho, e relembrar seu passado de combate à ditadura, ela afirmou que nunca esperou ser candidata, mas disse estar preparada para o desafio.
Na tentativa de tranquilizar quem viu viés estatizante nas diretrizes de sua plataforma, Dilma garantiu que tudo será feito para manter a estabilidade. Enfatizou, no entanto, a determinação de “continuar valorizando o servidor público” e “reconstituindo o Estado” e rebateu as críticas de que o governo petista inchou a máquina pública. “Alguns ideólogos chegavam a dizer que quase tudo seria resolvido pelo mercado”, comentou, atacando a defesa da privatização, feita por tucanos.
O discurso de Dilma, lido em dois teleprompters, demorou para empolgar os petistas. Com menos espontaneidade que Lula, ela se revelou um tanto dura ao falar e seguiu praticamente à risca o pronunciamento escrito dias antes, com a colaboração do ex-prefeito Belo Horizonte Fernando Pimentel, do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e do coordenador do programa de governo, Marco Aurélio Garcia.
“Quem duvidar do vigor da democracia em nosso país, que leia, escute ou veja o que dizem livremente as vozes oposicionistas. Mas isso não nos perturba. Preferimos as vozes dessas oposições, ainda quando mentirosas, injustas e caluniosas, ao silêncio das ditaduras”, afirmou.
Ex-guerrilheira, a ministra se emocionou ao citar três companheiros mortos na luta armada. Eram Carlos Alberto Soares de Freitas, desaparecido em 1971; Maria Auxiliadora Lara Barcelos, exilada que se matou em 1976, em Berlim; e Iara Iavelberg, morta em 1971.
Dilma também foi acompanhada no Congresso do PT pelo presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), cotado para vice na chapa. O comando do partido só foi à festa depois que Temer e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (RR), pediram a Lula sua interferência para resolver impasses em Estados onde os dois partidos disputam a cabeça de chapa.
“Acho que foi boa a presença do PMDB aqui”, disse ela. “O Brasil precisa de um governo de coalizão. Não acho bom para o País governo de um partido só.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:11

Cesar sobre Dilma e Marina

“1. Este Ex-Blog já tratou dessa questão. Só a enorme popularidade de Lula viabilizou a candidatura de Dilma, pelo PT. Cristão novo no PT não tem vez. Dilma era do PDT, e como tal, ocupou a secretaria de minas e energia no governo Olivio Dutra, no RS. A desintegração do PDT local, com a adesão do filho de Brizola, ex-deputado federal,  e suas entrevistas, terminaram por gerar uma migração ao PT (que além de estar no governo do RS, ainda detinha uma hegemonia de anos em Porto Alegre). Nessa leva, Dilma entrou.         
2. Com a surpreendente ausência de quadros na formação do primeiro governo Lula, Dilma acabou indicada por Olivio e o PT-RS para ministra de Minas e Energia. Sua passagem foi, no depoimento dos especialistas, medíocre. E o PT viu sacrificar-se seu principal quadro no setor de energia (Pingueli Rosa),  que tendo assumido a Eletrobrás, foi demitido por Lula, dizendo que “ele não tem votos”, na verdade a pedido do PMDB. Dilma foi salva pelo “mensalão” e a queda de José Dirceu. Lula, que trabalha com símbolos, nomeou-a no lugar de Dirceu, pelo jeito de executiva vertical com que ela vendia a sua imagem (encobrindo o despreparo técnico), e pela condição feminina. Lula produzia com isso, expectativas de mudança de referência.         
3. Não foi por sua performance, sempre criticada (vide o escândalo em Furnas, empresa de sua área, onde toda a diretoria caiu). E a transição do ministério se deu, para controle total do PMDB de Sarney. Os conflitos entre meio-ambiente (Marina) e energia (Dilma) (hidroelétricas, etc.) começaram aí e só se ampliaram quando o campo de influências de Dilma foi ampliado, com maiores interferências na área ambiental. Lula, provavelmente para proteger Dilma, lançou Mangabeira no conflito, indicando-o como coordenador das estratégias econômico-ambientais.         
4. Quando Lula designou Dilma para candidata ad referendum do PT, as reações internas dos históricos do PT foram sentidas. Marina, Tarso Genro, etc. No caso de Marina, com intensidade dupla, pois a vitória eleitoral de Dilma significaria sua completa exclusão do processo decisório na questão ambiental. A saída de Marina do ministério, com a assunção de um ecologista urbano, foi apenas a indicação que a ruptura estava dada e que era questão de tempo e de momento. E assim foi.
5. Marina, espertamente, escolheu o melhor dia: a sustentação de Sarney pelo PT. Mas seria hipocrisia destacar a questão ética para sua decisão. Afinal de contas, não se leu, viu ou ouviu qualquer indignação da ministra Marina Silva no caso “mensalão”. Onde estava, ficou. O fato novo, fermentado pelos confltos com a ex-ministra de minas e energia foi a escolha de Dilma para candidata. Nesse momento, o futuro se somava ao passado e ao presente, e era insuportável a convivência. Por isso, ela diz na carta de saída do PT que o PT deixou de sinalizar compromisso de fato com o desenvolvimento sustentável. Na verdade, com Dilma (e não com o PT) é que esse descompromisso ficou caracterizado, e com firma reconhecida”.

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