• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:38

Jobim: “Nada muda na Defesa”

De Eumano Silva, da revista Época:
“O ministro da defesa, Nelson Jobim, desfruta uma situação única no governo Lula. Homem de confiança do presidente numa das áreas mais sensíveis da Esplanada, Jobim mantém estreitas relações com o candidato da oposição ao Planalto, José Serra (PSDB). A dupla militância permite a previsão de que, em assuntos de Defesa, o Brasil manterá as diretrizes atuais caso a eleição seja vencida por Serra ou pela ex-ministra Dilma Rousseff. ?Fiz reuniões com PT, PMDB, DEM e com o ex-presidente Fernando Henrique?, diz Jobim, ao explicar as mudanças na área militar, como a subordinação ao poder civil, aprovadas no Congresso. Nesta entrevista a ÉPOCA, Jobim faz um balanço dos acordos internacionais do país e das medidas para tentar organizar a aviação no Brasil”.
                                                        * * *
“? Como vai ficar a defesa nacional do Brasil no futuro?
? Os políticos e os governos civis viam a defesa com certa distância. Na época da Constituinte, a defesa se confundia com repressão política. Com isso, militares tinham de tomar certas decisões que, a rigor, eram decisões de governo civil. Exemplo: quais as hipóteses de emprego (das Forças Armadas) que politicamente interessam ao país? Isso é um misto de política internacional com defesa. Cabe ao poder civil definir o que os militares devem fazer em termos de defesa. Os militares decidem a parte operacional.
? Isso aconteceu no governo Lula?
? Tudo é um processo. Não acontece assim, bum! Começou no governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, nas condições possíveis naquele momento. No governo Lula, avançou-se um pouco no início, com o ministro Viegas (José Viegas, primeiro ministro da Defesa de Lula). Os avanços mais doutrinários são consolidados pelo vice-presidente (José Alencar) que o sucedeu e, depois, pelo Waldir Pires. Quando assumi, decidi que precisávamos realizar uma mudança de concepção para dar mais musculatura ao Ministério da Defesa.
? Como assim?
? O orçamento, por exemplo. Antes, as Forças (Marinha, Exército e Aeronáutica) se acertavam entre si dentro do limite fixado pelo Ministério do Planejamento. O ministro (da Defesa) não tinha participação. Também foi aprovado na Câmara o projeto de alteração da Lei Complementar nº 97. O Estado-Maior de Defesa passa a ser o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Será chefiado por um oficial de quatro estrelas escolhido pelo presidente, indicado pelo ministro da Defesa. Vai ter a mesma precedência dos comandantes de Força. Ao assumir, vai para a reserva. Hoje, ele volta para a Força de origem.
? Qual é o problema?
? Dá constrangimentos. Às vezes, precisa tomar decisão contrária ao interesse da Força de origem e tem dificuldade. Outra mudança é na política de compras, que hoje é fixada pelas Forças, mas será fixada pelo ministério em função do que o poder civil considera relevante. Precisamos de monitoramento e controle, mobilidade e presença. O monitoramento deve ser feito, por satélite, na Amazônia Legal e na Plataforma Continental, onde o Brasil tem soberania.
? São planos de longo prazo?
? Ah, uns 20 anos…
? O senhor, então, não espera grandes mudanças se o próximo presidente for Dilma Rousseff ou José Serra? ? Eu não espero.
? A Defesa está acima das questões políticas?
? Tudo que estou falando foi discutido com todos os partidos. Fiz reuniões com o PT, o PMDB e com o DEM. Fui ao Instituto Fernando Henrique Cardoso. Estava cheio de gente lá, todos os ministros dele, todos meus colegas, e várias outras pessoas, intelectuais também.
? Não há ideologia nessa área?
? Eu quis descolar, mostrar que não é um programa do governo. É um programa do Estado.
? O que mais mudou?
? Tem uma mudança doutrinária. Saímos do conceito de operações combinadas para o conceito de operações conjuntas. Na combinada, cada Força tem seu comando próprio. Na conjunta, tem um comando só para as três Forças. O comandante da operação vai depender do teatro de operações. Se for a Amazônia, o comandante da operação vai ser do Exército. Se for no mar, vai ser um almirante.
? O que, de fato, interessa ao Brasil em termos de defesa?
? O Brasil não é um país com pretensões territoriais, não vamos atacar ninguém. Então, devemos ter um poder dissuasório. Temos três coisas fundamentais. Uma é energia, que tem o pré-sal e também energia alternativa, energia limpa, entre elas a energia nuclear. Segundo, o Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo: a Amazônia e o Aquífero Guarani. E, terceiro, temos a maior produção de grãos. São coisas que, progressivamente, o mundo vai demandar mais.
? Na América do Sul, quais são as maiores preocupações?
? A estabilidade política e econômica. Quanto mais desenvolvido o país, mais estável será. Quando o Brasil paga mais pelo excedente de energia elétrica do Paraguai, ajuda a criar condições para que o Paraguai se estabilize. Um país que tem a dimensão do nosso não pode botar o pé em cima dos outros.
? Qual é sua opinião sobre a relação do Brasil com a Venezuela?
? É boa. A Venezuela viveu sempre do óleo. A elite se apropriou dessa riqueza e não investiu no país. Ficou um conjunto de pessoas muito pobres. Aí, surgiu o presidente Hugo Chávez, que lidera esse setor. Está conseguindo avançar. Agora, o Chávez é um homem, digamos, de uma retórica forte. Isso não atrapalha. Faz parte do hispano-americano. É preciso ter paciência. Boa sorte à Venezuela.
? E com os Estados Unidos?
? Estamos muito bem. Com a vitória do presidente Obama, mudou muito. Concluímos um acordo de defesa para criar novas perspectivas de cooperação bilateral. Vai nos permitir, por exemplo, vender aviões da Embraer para eles sem licitação.
? O Irã é o maior ponto de divergência entre Brasil e Estados Unidos?
? A posição do presidente Obama não é nesse sentido. Há setores nos EUA, principalmente no governo Bush, que demonizam o islã. O islã é pacífico. A posição do Brasil é assegurar a legitimidade do enriquecimento do urânio para fins pacíficos. Nós temos tecnologia para isso e temos urânio. Ainda precisamos completar a parte industrial.
? Qual é sua opinião sobre o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares?
? É assimétrico. Divide os países em nucleares e não nucleares. Os nucleares assumiram compromisso de reduzir as armas e transferir tecnologia nuclear com fins pacíficos para os não nucleares. Não fizeram nem uma coisa nem outra. O Brasil só desenvolveu tecnologia de urânio com luta própria, com cientistas militares brasileiros.
? Quais são os interesses do Brasil na área de defesa em Israel?
- Temos interesses em Veículos Aéreos Não Tripulados, os Vatns, para fazer monitoramento. Algumas empresas israelenses produzem. Estou examinando a possibilidade de produzirmos no Brasil, com uma empresa brasileira associada a uma israelense.
? E a compra dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), quando se resolve?
? Pretendo terminar em abril uma exposição de motivos para o presidente, com uma opção. O presidente convoca o Conselho de Defesa Nacional, que emite um parecer e, aí, o presidente decide.
? Como estão as buscas dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia?
? A segunda etapa já começou.
? A irmã de um guerrilheiro desaparecido encontrou ossadas. Isso ajuda?
? Sim. Qualquer pessoa que encontrar ossos tem de chamar a polícia e identificar. Se isso estiver no âmbito de execução da sentença penal que estamos cumprindo com as buscas, vamos ter de aproveitar isso. Não há um conflito.
? O senhor foi nomeado para resolver o caos aéreo do Brasil. Considera a missão cumprida?
? Vou falar o que fizemos. A primeira medida foi substituir a direção da Infraero, despartidarizar. Formulamos a Política Nacional de Aviação Civil. Ela foi aprovada. Pretendemos oferecer um tratamento diferente para a aviação regional. Vamos enviar um projeto de lei ao Congresso. Em 2005, instituímos liberdade de rota e liberdade tarifária. Esse sistema funciona para a aviação doméstica, mas não para a regional, que precisa de estímulos. Vamos investir nos aeroportos regionais.
? Nossa estrutura de aeroportos estará preparada para as Olimpíadas do Rio em 2016?
? Sim. Tem um calendário da Infraero para as obras necessárias. Temos um crescimento anual médio de 10% na aviação civil. Na Copa do Mundo, terá um aumento de 2% em dois meses. Mas nossa preocupação não é só com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem muito mais gente viajando, os preços caíram. Em 2002, o quilômetro voado custava R$ 0,71. Em 2009, custa R$ 0,49.
? E em relação aos passageiros?
? Incentivamos uma resolução da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre a responsabilidade das empresas em relação a atrasos, overbooking. É o que a Anac podia fazer dentro da legislação. Paralelamente, nós mandamos para o Congresso um projeto que cria um dever de indenização por parte das empresas se os atrasos forem devidos a qualquer agente. Se o atraso for decorrente da Infraero, a empresa se ressarce do que entregou ao passageiro.
? E se for culpa da meteorologia?
? Nesse caso, não tem ressarcimento.
? Dá trabalho ser ministro da Defesa?
? Na época das demissões da Infraero, recebi críticas de amigos meus porque eu demiti pessoas indicadas por eles. Fiz exatamente o que eu precisava fazer. Como não sou candidato a coisa nenhuma e sempre gostei de confusão, não teve problema”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:17

Gabeira precisa do DEM

Dos repórteres Alessandra Duarte e Cássio Bruno, do ‘Globo’:
“O deputado Fernando Gabeira (PV) acha que o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) “é o melhor candidato para o Senado”, como ele afirmou mês passado num evento do DEM, ou não quer saber do ex-prefeito em seu palanque na campanha a governador do Rio, como disse o PV em seguida? Para cientistas políticos, o vaivém da relação do pré-candidato verde com Cesar Maia já teria feito com que as imagens dos dois comecem a ser associadas. Os analistas também acreditam que a necessidade de um palanque forte para o tucano José Serra no Rio vai pressionar Gabeira a aceitar o DEM de Cesar, aliado do PSDB. Ontem, na Câmara de Vereadores do Rio, nenhum vereador do DEM compareceu a um evento organizado por Gabeira para falar das eleições deste ano.
Para o professor Ricardo Ismael, coordenador do curso de ciências sociais da PUC do Rio, “o copo d”água já entornou”:
- Houve falta de habilidade política por parte do Gabeira. Ele não podia ter ido a público elogiar Cesar Maia se havia a possibilidade de voltar atrás depois. Isso causou estranhamento tanto aos eleitores do Gabeira, quando ele o apoiou, quanto aos eleitores mais próximos do Cesar, mais conservadores, quando voltou atrás – afirma Ismael, para quem o fato também serviu para relembrar o apoio dado por Cesar a Gabeira no segundo turno das eleições municipais de 2008. – Ali, o Gabeira não levou o apoio do Cesar Maia à TV, mas também não falou mal dele. E o (então candidato) Eduardo Paes utilizou isso contra o Gabeira. Houve folhetos com fotos dos dois juntos…
A aproximação entre Gabeira e Cesar é criticada por nomes do PV como o presidente regional, Alfredo Sirkis. Um dos motivos seria o temor de que a rejeição a Cesar na classe média carioca seja transferida para Gabeira.
- Qualquer que seja o desfecho, vai ficar registrada a aproximação dos dois – diz Ismael. – Mas o estrago será menor se ele aceitar de vez o DEM. O PV tem pouco tempo de TV, depende do DEM e do PSDB. Ele não pode pensar que será como campanha a prefeito. O PV não tem estrutura fora da capital, não é a parte mais forte da chapa. Se o Gabeira acha que pode, sem aliados, quebrar a força de Cabral e Garotinho no interior do estado, engana-se. O Zito (presidente estadual do PSDB) não gosta dele; e ele (Gabeira) nega os aliados que pode ter?
Ismael lembra ainda o fator nacional nesse imbróglio: para ele, o DEM “tem bala na agulha” para exigir que o PSDB pressione o PV a apoiar Cesar, já que o PSDB precisaria do DEM no Rio para a campanha de Serra. O professor Eurico Figueiredo, coordenador de pós-graduação em ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), também acredita que a campanha nacional do PSDB afetará as alianças no Rio.
- O Sirkis tem importância local. Nacionalmente, é dez vezes menos importante que o Cesar, assim como o PV é menos importante nacionalmente do que o DEM. O que der respaldo a uma frente de oposição e à candidatura Serra será o parâmetro – diz Figueiredo.
Ontem, um evento organizado por Gabeira na Câmara do Rio teve como público metade dos 300 inscritos – por causa da chuva, alegou o verde. Dos 17 vereadores da coligação de apoio a Gabeira, quatro compareceram, nenhum deles do DEM. Segundo Gabeira, ele não teria convidado nenhum vereador. No evento, o pré-candidato elogiou as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) do governo Cabral, ressalvando que a segurança não pode ser “só para a Zona Sul”. Mas criticou o transporte público no estado (“o que o Metrô fez para receber uma renovação de concessão de mais 20 anos?”), além das viagens de Cabral e do gasto do governo com propaganda:
- Um gasto de R$180 milhões foi o que o Obama transferiu para o Haiti”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:30

Balanço de Cesar para 2009

O ex-prefeito Cesar Maia aproveita o último dia do ano para fazer um balanço de 2009. Como sempre, Cesar tem uma explicação lógica para cada um dos pontos abordados. Mas no fim, ele joga a toalha.
Senão vejamos:
“LULA E A PERCEPÇÃO INTERNACIONAL!
1. Merece uma avaliação cuidadosa a percepção internacional sobre Lula. Os elogios; os destaques na imprensa, como Le Monde e Financial Times; o artigo de Zapatero, chefe de governo da Espanha; o “cara” declarado por Obama; tudo converge para um ano de consagração. Mas ao mesmo tempo, todas as demandas do Brasil por espaço nos órgãos internacionais foram amplamente derrotadas. Assim foi na Organização Mundial de Comércio (OMC), assim foi na Corte Internacional de Haia, como também deixada na gaveta a pretensão brasileira de mudança no Conselho de Segurança da ONU com um lugar permanente.            
2. Colocando a lupa mais próxima aos fatos, o ano de 2009 começa com uma crise financeiro-econômica que projetava o risco de uma desestabilização política, além da econômica, pelos quatro cantos do mundo. A crise de 29 é exemplo disso e a Europa foi seu palco principal, na Alemanha, dando sustentabilidade ao regime italiano, reforçando o falangismo espanhol, o salazarismo, o bloco soviético… É uma memória viva.               
3. O primeiro alívio veio com as eleições na Índia, em maio, com a vitória da aliança governista. O segundo veio com a eleição para o parlamento europeu com a vitória do PPE, de centro-direita. Obama apontou na direção da estabilidade política e os que imaginavam que traria mudanças políticas fortes, em pouco tempo entenderam que não era assim. As relações entre EUA, China e Rússia apostaram na estabilidade e deram visibilidade a isso.               
4. Os riscos estavam concentrados na América Latina e especialmente no Brasil, por sua dimensão e repercussões na geopolítica regional e na economia. O Brasil precisava ser neutralizado e acomodado. E o sinal veio da primeira reunião oficial do G-20 para tratar da crise mundial. Recebido com pompas e circunstâncias por Obama, a apresentação de Lula por este como “esse é o cara” a outros líderes mundiais mostrou-se muito bem sucedida. Lula teve um comportamento convergente na reunião e ainda saiu reforçando o papel do FMI com aporte de capital.               
5. Mas o artificial da projeção de Lula era tão evidente, que ele, em seguida, deveria dar sinais de independência para a esquerda. E assim foi em sua viagem à Venezuela, nas afirmações sobre as bases colombianas e os EUA, na intervenção -desastrada- do Brasil no caso de Honduras, e na visita do presidente do Irã. Tudo foi bem entendido pelos líderes dos EUA, França e Reino Unido, que se mantiveram silenciosos e compreensivos.
 
2009: A INFLEXÃO POLÍTICA DA AMÉRICA LATINA! 
1. Após as diversas eleições na América Latina quando se esperava uma intensificação das tendências à esquerda -e chavistas- em função da crise internacional, a resultante foi muito diferente do esperado pelos bolivarianos. Venezuela, Equador e Bolívia, é verdade, ficaram onde estavam. A vitória da FMLN, em El Salvador, frustrou Chávez, pois Fulnes, o presidente eleito como independente apoiado pela FMLN, assumiu a diplomacia presidencial e não se acercou a Chávez, que por isso sequer foi a sua posse.               
2. O caso de Honduras, depois de muita espuma, foi uma derrota contundente para Chávez, que com o lastro internacional, esperava reintegrar seu parceiro Zelaya. Brasil se incumbiu da tarefa suja. Mas o resultado foi a exclusão de Zelaya numa prisão domiciliar na embaixada do Brasil, eleições com participação ampliada e vitória do partido nacional, o mais à direita, em todos os níveis.      
3. As eleições parlamentares intermediárias na Argentina derrotaram os Kirchner tanto na câmara como no senado, onde perdeu a maioria que detinha. No Uruguai houve continuidade de um governo que, entrando pela esquerda, se mostrou a grande surpresa do continente, com um posicionamento de centro, moderado em todas as instâncias. A expectativa de Lugo “chavizar” o Paraguai se esvaiu, seja pela tática correta adotada pela oposição de se concentrar em nível parlamentar, seja pela desmoralização pessoal do Bispo com seus filhos declarados e reconhecidos.              
4. Finalmente, a grande surpresa veio do Chile com a vitória de Piñera -do partido renovação nacional, de centro-direita- com ampla vantagem no primeiro turno, apontando para uma vitória no próximo mês de janeiro.               
5. Portanto, o vetor político resultante de 2009 em relação a 2008 mostra uma inflexão política na América Latina, descolando-se do risco chavista, reforçando a tendência democrática e que tende a ser reforçado em 2010.
                                                 
2009: A ECONOMIA BRASILEIRA!
     
1. O fato da crise econômica, no Brasil e em tantos países mais, não ter tido a profundidade projetada no final de 2008, e Lula ter usado como pôde a propaganda para criar uma sensação ainda melhor, não tira dela as consequências delicadas para o Brasil. A crise na indústria brasileira pode ser medida pela radical inversão de sua balança comercial, que aponta em 2010 para um déficit superior aos 10 bilhões de dólares. As exportações brasileiras mergulharam e as induútriais caíram 20%.              
2. O Brasil inverteu a tendência de tantos anos, de se tornar um país exportador de produtos industriais manufaturados. A balança comercial com a China é exemplo disso, onde das exportações do Brasil, 80% são de produtos primários. O PIB brasileiro em 2009 terá uma queda de quase 1%, o que tem importante impacto social pela queda do PIB per capita de cerca de 3%.              
3. A recuperação do emprego no Brasil se deu nos setores tradicionais e informais, apontando para uma perda de competitividade internacional pós-crise. O agro-negócio sentiu um forte golpe e o exemplo maior é o do setor de carnes/frigoríficos.              
4. Finalmente, as Contas Públicas, usadas como elemento contra-cíclico, desmontaram. O Brasil é o único país do mundo em que ainda se usa, depois da hiperinflação, o déficit primário como medida fiscal. Em todos os outros o déficit público é o nominal, incluindo os juros. O déficit nominal brasileiro se tornou uma preocupação geral. Saindo de 1,5% do PIB antes da crise, termina 2009 com 4,5% do PIB. O anúncio de alguma melhora em novembro, mas não muda nada em relação ao acumulado.              
5. Além da propaganda governamental e da natural torcida de todos, a começar pela imprensa cujas empresas sofreram muito também, o Brasil pós-crise é um país que entra num quadro internacional muito mais competitivo, com sua competitividade abalada. Os ministros chutam números aos ares para 2010. Afinal, só serão ou não comprovados após as eleições, e são essas que interessam ao governo.

2009: AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DE 2010!         
1. Aqui sim Lula termina 2009 com um quadro muito mais favorável que o que iniciou 2009. Uma escolha açodada de candidata sem currículo e sem charme eleitoral terminou chegando ao ponto que Lula queria: acima dos 20%. E com cruzamentos em pesquisa que indicam que crescerá ainda mais nos meses iniciais de 2010.                
2. A oposição se mostrou incapaz de entrar em campo com seu time escalado. A tática de ganhar tempo não só abriu caminho a Dilma, como afetou a situação em vários Estados importantes e ainda produziu feridas, que são certamente sanáveis, mas que sempre deixam uma casquinha ou outra.               
3. Cabe a candidatura presidencial da oposição usar bem o primeiro trimestre de 2010 para curar as feridas, reerguer nomes em vários Estados e voltar ao quadro de favoritismo que apontava no início de 2009. Ainda há tempo. Mas nem tanto assim”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:30

Exemplo de Obama na saúde

De Elio Gaspari para a ‘Folha’ e ‘O Globo’:
“De obama@gov para dilma.e.serra@org
ASSUNTO : plano de saúde para o Brasil
Estimados Dilma Rousseff e José Serra,
Como vocês viram, aprovei o projeto que universaliza o acesso dos americanos aos planos de saúde. Tínhamos entre 45 milhões e 60 milhões de pessoas ao sol e ao sereno. Vocês achavam que não ia dar. Deu, porque recuei quando foi necessário e enfrentei a direita paleolítica à maneira do Lula, de microfone na mão, em cima de um tablado.
Sugiro que vocês aproveitem a campanha eleitoral para oferecer aos brasileiros um novo capítulo da história de vossos serviços médicos.
Quero lhes confessar que entrei na disputa pela Presidência sem ideia formada a respeito da questão dos planos de saúde. Se vocês ouviram as platitudes que eu disse num debate em março de 2007, tiveram pena de mim.
Nosso sistema amparava os velhos e os pobres, mas deixava na chuva um pedaço da classe média. O de vocês oferece o serviço dos planos privados para quem tem saúde para trabalhar. Fora daí, há o SUS. Em tese, é um sistema fenomenal, verdadeira cobertura universal. Na vida real, o Brasil privatiza recursos públicos e a iniciativa privada estatiza uma parte do custo social da saúde. Como? Privatiza o público quando o cliente de um plano privado vai a um hospital público.
Estatiza o custo social quando um trabalhador desempregado ou aposentado é expelido do plano da operadora. Esse é hoje o maior buraco da agenda social brasileira.
Vocês podem virar esse jogo. Yes, you can. Concebam mecanismos por meio dos quais os planos privados e o SUS trabalhem com objetivos convergentes. Dá algum trabalho, mas não muito. Será preciso que o Estado mostre a sua mão pesada e os dentes da opinião pública.
Comecemos pelo óbvio: o ressarcimento, pelas operadoras privadas, das despesas que os hospitais públicos têm com seus clientes. Um caso recente: quem salvou a vida do cineasta Fábio Barreto foi a equipe de neurocirurgia do plantão da madrugada no hospital Miguel Couto. Pela tabela dos hospitais cinco estrelas da rede privada (onde não há plantão de neurocirurgia) as primeiras 12 horas de atendimento de Barreto teriam custado em torno de R$ 100 mil. Procurem saber se a operadora dele pensa em ressarcir a Viúva. (Não deixem de ver o filme do Fábio. A CIA me trouxe uma cópia pirata, adorei. A Michelle chorou, mas a Malia ficou meio desconfiada.)
A lei que determina o ressarcimento tem mais de dez anos e foi sedada pelos gatos gordos do mercado, associados aos gatos magros da burocracia. O que foi feito do cartão do SUS? Com ele, cada brasileiro teria um plástico com seu histórico médico. Já se passaram 11 anos, gastaram-se quase R$ 400 milhões e o projeto está atolado. Os gatos gordos e os gatos magros esterilizaram a iniciativa porque ela racionaliza o serviço da saúde pública. Para eles, governo ideal é aquele que tem ministros caçando holofotes, dando serviço aos empreiteiros que constroem hospitais e aos mercadores de equipamentos.
Quando os hospitais decaem e as máquinas apodrecem, começa-se tudo de novo.
Um último palpite: sugiro que procurem a professora Ligia Bahia, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Eu li umas coisas dela e garanto: entende do que fala, diz o que pensa e sabe se expressar.
Atenciosamente,
Barack Obama”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:02

Caetano vai votar em Marina

De Caetano Veloso a Sonia Racy, do ‘Estadão’:
“”Não posso deixar de votar nela (Marina Silva). É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e é Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.”

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 22:33

Cuba pode pagar o pato

Clóvis Rossi publica hoje, na ‘Folha’, um interessante artigo sobre a crise em Honduras. Seu enfoque é o temor de Lula de que a crise atrapalhe os planos de Obama, e o grande prejudicado passe a ser Cuba.
Veja o que diz Rossi, que está em Paris como enviado especial da ‘Folha’:

“A grande inquietação do governo brasileiro com a crise em Honduras, além do golpe em si e da instabilidade decorrente, é com os presumíveis prejuízos para a política norte-americana na América Latina.
Pode parecer que uma coisa nada tem a ver com a outra, mas o teorema que se esboça na diplomacia brasileira é bastante claro e faz sentido:
1 – Quando a Assembleia Geral da OEA discutia, no início de junho, a revogação da punição a Cuba (que acabou aprovada), o presidente Barack Obama ligou para seu colega Luiz Inácio Lula da Silva para informar-se melhor da posição brasileira.
No meio da conversa, disse que pretendia deixar as relações EUA-Cuba plenamente normalizadas até o final de seu mandato dentro de três anos e meio. Já então soou como uma ideia excessivamente otimista.
2 – Agora, o governo brasileiro sente que Obama ficará sob pressão para não normalizar as relações com Cuba, a partir do paradigma hondurenho: se o americano for duro com Honduras, como o Itamaraty acha que vem sendo, a direita nos EUA exigirá a mesma dureza em relação a Cuba.
Ou, em termos formais, fica difícil para Obama apoiar a suspensão de Honduras, com base na Carta Democrática da OEA, e não exigir de Cuba respeito idêntico a esse mecanismo.
3 – A reintegração de Cuba, como ficou evidente nas recentes cúpulas latino-americanas, é considerada a pedra de toque para a mudança nas relações América Latina-Washington, prometida por Obama.
O que agrava o incômodo do Brasil com a situação em Honduras é que não está à mão um instrumento, além da punição já anunciada pela OEA, para restabelecer a normalidade no país centro-americano.
Calcula-se na diplomacia brasileira que o único caminho que pode conduzir a uma saída seria a realização das eleições presidenciais, marcadas para novembro antes do golpe e mantidas pelo menos verbalmente depois dele.
Dependendo das condições em que se realizar o pleito, seria em tese uma maneira de zerar o quadro institucional, se os organismos internacionais que monitoram eleições na região lhe aplicarem o rótulo de “livre e justa”, que é o selo de qualidade exigido internacionalmente.
No momento, o Brasil teme que não haja normalidade suficiente para uma eleição saneadora da anomalia institucional.
Ainda mais que Zelaya não terá representante na disputa, mantido o quadro atual”

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 22:33

Fidel está calado

O comandante Fidel deve estar se deliciando com o verão cubano.
Há uma semana ele não escreve suas ‘Refelexões’.
A última foi no dia 28 do mês passado -  ”Um êrro suicida” - quando comentou o sequestro do presidente de Honduras.
Mas ainda em junho ele teve um intervalo maior.
Ficou 10 dias na muda.
No dia 15, escreveu que “Não é fácil a tarefa de Obama”, e dia 25 “Um gesto que não se esquecerá” – um artigo curto no qual elogia a conclamação feita pelo presidente constitucional de Honduras, para que o povo fosse as urnas.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 21:38

A mosca de Obama

Teria sido politicamente  correto o gesto do Presidente Barack Obama de matar uma mosca dentro da Casa Branca, diante de uma câmera de TV  -  imagem que estava sendo vista por milhões de pessoas?
Quando se quer dizer que determina pessoa é boa, tem um bom coração, costuma-se falar que ?Fulano é incapaz de matar uma mosca?.
Obama, todos viram, é capaz de matar.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 20:32

Lula x Obama

As quatro cidades finalistas para as Olimpíadas de 2016 são Chicago, Madrid, Tóquio e Rio de Janeiro.
Segundo Sergio Cabral, o vídeo que Lula gravou, a seu pedido, será decisivo para a vitória do Rio, pois “a grife Lula é muito forte e de prestígio”.
Chicago tinha, até o ano passado, como seu representante no Senado dos Estados Unidos, um cidadão que atende pelo nome de Barack Obama.
E se ele mandar também um vídeo?

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 19:49

Tucanos continuam no muro

Do jornalista Elio Gaspari hoje na ‘Folha’ e no ‘Globo’:

“O tucanato assustou-se diante da conjunção do repique da popularidade de Lula com a redução da distância que separa José Serra de Dilma Rousseff (de 30 pontos para 22). Assombração sabe para quem aparece.
Um partido que tem dois nomes para oferecer, mas o favorito reluta em anunciar sua candidatura, não poderia esperar outra coisa. Faltam 16 meses para a eleição de 2010, e José Serra guarda o imponente silêncio dos santos de andor. É cedo? O companheiro Obama anunciou sua candidatura 21 meses antes da eleição.
Ao seu estilo, o PSDB tem um candidato que não diz que é candidato, quer fazer prévia, mas não quer fazer prévia, quer montar uma chapa puro-sangue, mas não quer montar uma chapa puro-sangue. Em 2006, José Serra saiu da disputa com Geraldo Alckmin sem ter anunciado publicamente que era candidato à Presidência. Nunca se saberá direito até que ponto ele saiu do caminho porque temeu a divisão de sua base ou porque percebeu que marcharia para uma segunda derrota.
Sem candidato (ou sem candidatos disputando prévias, o PSDB acorrentou-se ao projeto-procissão, no qual o santo percorre um trajeto com destino certo, cabendo aos devotos acompanhá-lo com suas preces.
A imobilidade do PSDB é responsável, em parte, pela persistência do fantasma de uma nova candidatura de Nosso Guia. Se Serra ou Aécio botassem a cara na vitrine, desencadeariam um processo que dificultaria uma manobra queremista do comissariado. Jogando na retranca, alimentam-na.
Pode-se dizer que Lula já informou que não pretende buscar o terceiro mandato, mas ele nunca disse isso numa frase que não contivesse uma saída de emergência. Numa de suas últimas versões, repetiu que não pretende entrar na disputa, mas disse que não via nenhum mal no continuísmo chavista.
Se algum dia Lula quiser encerrar essa discussão, pode recorrer a um modelo formulado em 1871 pelo general americano William Sherman (o devastador do Sul dos Estados Unidos durante a Guerra Civil). Ele mandou uma carta a um jornal dizendo o seguinte:
“Nunca fui e nunca serei candidato a presidente. Se algum partido me indicar, não aceitarei a escolha. E se eu for eleito, mesmo que seja por unanimidade, não ocuparei o cargo”.

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