• Quarta-feira, 31 Março 2010 / 3:12

A eleição em marcha

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente da Voz Populi, para o ‘Correio Braziliense’:
“Aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência
Depois de uma longa jornada, que começou ainda em 2007, as próximas eleições presidenciais entram em uma nova fase. De hoje ao fim da semana, Serra e Dilma, os principais contendores, deixam seus cargos. Daí em diante, nos seis meses que nos separam do pleito, a disputa entre eles fica diferente.
Com Serra agora no papel de candidato e Dilma fora do Planalto, acabam-se os embates prévios. Até 3 de outubro, ambos estarão em condições parecidas, dedicando-se, em tempo integral, às suas campanhas. Nenhum dos dois pode dizer que tem outros compromissos.
Na longuíssima pré-campanha que vivemos, tivemos algumas coisas demais e outras de menos. Sobraram, por exemplo, pesquisas, enquanto faltaram ideias. Tanto o governador quanto a ministra se esmeraram em inaugurações e palanques festivos. Quase nada se ouviu a respeito de propostas para o Brasil.
A avalanche de cerimônias de entrega de obras a que assistimos sugere como tende a ser a disputa: uma briga de imagens na televisão. De um lado, sobre aquilo que o governo Lula fez e que dá corpo à proposta básica da candidatura de Dilma, de continuar o que está em curso. De outro, do que Serra fez em São Paulo, das obras e iniciativas que o qualificam como administrador e que mostram que é um governante de grandes feitos e preocupação social.
Se ficar nesse campo, a eleição será regida pelo verbo fazer, tornando-se uma briga em torno das realizações (e omissões) de um contra as do outro. Como nos embates que alguns vetustos personagens da cena política brasileira travaram nos últimos anos, nos confrontos entre tratores, quem faz mais?.
Por mais importantes que sejam as obras, seria uma pena se o debate sucessório se restringisse a essas comparações. No fundo, salvo uma ou outra diferença de ênfase, há muita concordância sobre o que o país precisa e o que deve ser feito na infraestrutura, na energia, no saneamento e na habitação, assim como no que toca as grandes necessidades que temos em áreas como saúde publica, educação e segurança.
Em outras palavras, os dois PACs do governo Lula (mudando o nome) seriam parecidos com o que o PSDB faria se estivesse no poder. Como não são grandes as discrepâncias entre o que se chamou de Brasil em Ação no governo Fernando Henrique e o que Lula fez no seu, considerando-se que um sucedeu ao outro e quanto as condições do Brasil mudaram de lá para cá.
Aliás, o Brasil em Ação e o PAC se assemelham até nos problemas, pois ambos enfrentaram as dificuldades que existem no país na transição entre as intenções e os resultados das políticas públicas. Cobrar do atual governo por ter feito menos que o prometido (ou por ter prometido demais) só seria justo se a cobrança fosse estendida à administração anterior.
É claro que ainda falta tempo até a eleição e que, aliviados de suas responsabilidades cotidianas, espera-se que Dilma e Serra possam se concentrar na formulação do que pretendem fazer na Presidência. Que o façam logo e que não creiam que basta mostrar suas ações na televisão para satisfazer a necessidade que os eleitores têm de saber o que propõem.
Estamos nas comemorações dos 25 anos da Nova República, celebrando um quarto de século de normalidade democrática. Apesar de vários percalços e do muito que deixou de ser feito, podemos nos orgulhar, como sociedade, de ter conseguido enfrentar três grandes desafios com razoável sucesso. A consolidação da democracia foi o primeiro, permitiu que os outros fossem alcançados e foi obra do conjunto das forças políticas do país. A normalização da economia veio a seguir e foi o maior legado do governo Fernando Henrique. Com Lula, enfrentamos o terceiro, a incorporação pacífica de uma imensa massa de desprivilegiados à cidadania e à economia.
As três agendas estão superadas e o país precisa de uma nova. Com a palavra, Serra e Dilma, assim como Marina e Ciro (que, mesmo se não emplacar a candidatura, pode contribuir em muito para o debate)”.

  • Quarta-feira, 17 Março 2010 / 2:48

Serra, o extraordinário

 Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Voz Populi, no ‘Correio Braziliense’:
“Desde dezembro, quando Aécio Neves se retirou da disputa pela indicação do candidato do PSDB a presidente, não há razão para que Serra retarde sua entrada em campo. Nada do que poderia justificá-la permanece, o que só faz aumentar seu próprio desgaste quando insiste em mantê-la
O governador José Serra é uma pessoa extraordinária. Na opinião de muitos, por ser um de nossos políticos mais qualificados e experientes, com larga e profícua biografia. Ele seria extraordinário no sentido de excelente, de alguém que se distingue pelos méritos. Quem pensa assim diria que político extraordinário é José Serra!, significando que é notável, acima da média.
Para outros, ele seria, no entanto, extraordinário em uma segunda acepção, menos elogiosa: estranho, inusitado, fora do comum. Ou seja, ele não faria o que se espera de uma liderança política. A frase que político extraordinário é José Serra! significaria, para essas pessoas, que é esquisito.
Quem olha para o que ele tem feito ultimamente poderia concordar com as duas ideias. É fácil admirá-lo e perceber que reúne atributos mais que suficientes para ocupar qualquer cargo, muitos dos quais já exerceu com competência. Mas é difícil não se surpreender com o modo como tem lidado com a responsabilidade de ser o candidato das oposições nas eleições deste ano.
Esta segunda-feira, por exemplo, Serra publicou um artigo alusivo ao 25º aniversário da Nova República. Foi um ensaio denso, construído em torno do conceito de democracia e de sua importância para o que aconteceu conosco de 1985 para cá. Sem ser um texto acadêmico, poderia ter sido escrito por um filósofo.
Em nenhum momento da longa argumentação o leitor percebe que seu autor é um candidato a presidente da República. A oportunidade da data, o espaço à sua disposição, a curiosidade da opinião pública a respeito do que tem a dizer, nada foi aproveitado. Disciplinadamente, se ateve ao tema, comemorando o passado. Sobre o futuro, nada. Com esforço, algumas pistas escondidas: duas menções a Fernando Henrique, duas ao Plano Real, nenhuma a Lula, uma ao Bolsa Família. Será essa a mistura da qual sairá seu discurso de campanha?
Enfim, um texto tão extraordinário quanto quem o assina. Bom em tudo, fundamentado e bem escrito. Mas nunca o texto de um candidato quando faltam seis meses para a eleição mais importante de sua vida.
Desde dezembro, quando Aécio Neves se retirou da disputa pela indicação do candidato do PSDB a presidente, não há razão para que Serra retarde sua entrada em campo. Nada do que poderia justificá-la permanece, o que só faz aumentar seu próprio desgaste quando insiste em mantê-la.
As pesquisas disponíveis não permitem avaliar com certeza o prejuízo que lhe advém. Mas é razoável supor que não seja pequeno, pois o vazio tucano tende a fazer com que pareça que só Dilma existe. Ao invés de deixar claro para o eleitorado que as eleições serão competitivas (e que, em função disso, não seria bom que as pessoas definissem seu voto de maneira prematura), a sensação de uma candidatura única pode provocar o inverso: quando começar, Serra talvez descubra que o mercado eleitoral encolheu. Mais gente do que desejaria se decidiu enquanto esperava.
Nas eleições, o tempo corre de forma diferente para diferentes tipos de pessoas. Quem se interessa por elas fica atento a tudo que acontece e reage rapidamente aos eventos de conjuntura.
A maioria, ao contrário, acompanha a vida política com atenção flutuante, aqui e ali, pinçando uma notícia. Como não conhecem adequadamente os candidatos e têm dificuldade de distingui-los, são pessoas que se satisfazem com pouco. Preferem simplificar seu quadro de decisões, poupando-se da tensão de lidar com uma massa de informações que não compreendem. Para elas, quanto menos tiverem que pensar para escolher, melhor. Menos um problema na cabeça.
Pessoas satisfeitas com a situação que vivem, uma liderança respeitada lhes dizendo o que fazer e ausência de contencioso são ingredientes que podem precipitar a escolha de muita gente. Na hora em que Serra acordar, pode ser tarde”.

  • Sábado, 20 Fevereiro 2010 / 2:14

Artigo de Serra para ‘Veja’

                                                              José Serra*

    A Nova República completa 25 anos em março, mês em que Tancredo Neves deveria tomar posse na Presidência. Há razões para sustentar que se trata da fase da história do Brasil com o maior número de conquistas de indiscutível qualidade política e humana.
Em primeiro lugar, o país nunca havia conhecido um quarto de século ininterrupto de democracia de massas. É nítido o contraste com a oligárquica República Velha, de eleições a bico de pena, sacudida por intervenções nos estados, revoluções e instabilidade.
O período supera igualmente a fase democrática após a queda de Getúlio Vargas, em 1945. E não só pela duração ? o regime da Constituição de 1946 foi desfeito em menos de vinte anos pelo golpe que derrubou João Goulart. A Nova República vai muito além na expansão sem precedentes da cidadania e na eliminação quase total das restrições ao direito de voto, com o eleitorado praticamente se confundindo com o universo da população adulta.
Longe de acarretar maior instabilidade, a ampliação da participação das massas populares coincide com um período de completa ausência de conspirações, golpes militares, quarteladas, intervenções preventivas e epílogos políticos trágicos ou temerários. Bem diferente do período anterior, que teve Aragarças e Jacareacanga, durante o governo de Juscelino Kubitschek; o movimento do marechal Lott, de 11 de novembro de 1955; o suicídio de Vargas, em 1954; e a renúncia de Jânio Quadros, em 1961.
Desde a Questão Militar do Império, passando pela primeira década da República, pela Revolta da Armada, pelo tenentismo, pela Revolução de 1924, pela de 1930, pela de 1932, pela insurreição comunista de 1935, pelo golpe de novembro de 1937 e pelo golpe de 1964, é a primeira vez que o fator militar desaparece da política brasileira, e a hipótese do golpe dos quartéis se torna na prática impensável.
Não se pode atribuir essa tranquilidade à ausência de fatores de desestabilização, que foram às vezes dramáticos: a doença e a morte inesperada do presidente eleito no momento mesmo da transição do regime militar para o civil, o processo de impeachment e afastamento de Collor.
Muito menos se pode alegar que tudo se deve a uma conjuntura econômico-social particularmente favorável. Ao contrário: boa parte dos últimos 25 anos se desenrolou sob o signo da aceleração da inflação, até atingir o limiar da hiperinflação, com o agravamento dos conflitos distributivos. Em seguida, houve a fase das grandes crises financeiras mundiais (1994-1995, 1997-1998, 2007-2008). Convém não esquecer a coincidência também com as décadas perdidas em matéria de crescimento econômico. Não faltaram reveses sérios que, em outras épocas, teriam abalado as instituições. Um dos maiores foi o fracasso do Plano Cruzado e dos inúmeros planos que se sucederam, alguns com medidas draconianas, como o confisco da poupança.
Não obstante tais obstáculos, a Nova República conseguiu completar com normalidade uma conquista que permaneceu fora do alcance dos regimes do passado. A alternância tranquila no poder de forças político-partidárias antagônicas provocava sempre a polarização e a radicalização da sociedade brasileira. São exemplos os períodos de 1954-1955 e, com consequências mais graves, entre 1961 e 1964. Neste quarto de século, a alternância passou a fazer parte das conquistas adquiridas: já ninguém mais contesta a legitimidade das vitórias eleitorais, do processo democrático e do natural desejo dos adversários vitoriosos de governar sem perturbações.
O resultado é ainda mais impressionante quando se observa que uma dessas alternâncias aparentemente mais contrastantes foi a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, encarado, a princípio, se não como força desestabilizadora, ao menos de comportamento radical e deliberadamente à margem na política nacional. Basta lembrar, como exemplo, a decisão do PT de punir seus deputados que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, e sua recusa em homologar a Constituição de 1988.
O PT, aliás, acabou por ser, por paradoxal que pareça, um dos principais beneficiários dos grandes erros históricos de julgamento que cometeu. Nos dois primeiros casos, porque a eleição do primeiro presidente civil e as conquistas sociais e culturais da Constituição foram os fatores-chave que possibilitaram criar o clima que eventualmente conduziria o partido ao poder. Outros erros históricos seguiram-se àqueles. O partido também se opôs à estabilização da economia brasileira, denunciando com estridência o Plano Real, o Proer e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas soube, posteriormente, colher seus bons frutos.
Este último exemplo, o da estabilização, é especialmente notável. Os governos militares, apesar dos 21 anos de poder discricionário em termos de elaboração de leis e normas, com elevado grau de repressão social e sindical, fracassaram por completo em liquidar a herança da inflação, acelerada na segunda metade dos anos 1950, mas que provinha do fim da
II Guerra Mundial. Pior do que isso: agravaram em muito o problema ao criar a indexação da moeda, que tanto iria complicar o combate à inflação. Ao mesmo tempo, conduziram o país para a gravíssima crise da dívida externa a partir de 1981-1982, dando início a quase uma década e meia perdida no que respeita ao crescimento econômico.
O Brasil, que, segundo os estudos do professor Angus Maddison, havia sido por mais de um século, entre 1870 e 1980, o país de maior crescimento médio entre as dez maiores economias do mundo ? EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, China, Índia, União Soviética, Brasil e México ?, esqueceu a fórmula do crescimento e passou até a menosprezá-lo, como, aliás, ainda o fazem alguns.
Pois bem, o período de um quarto de século da Nova República, sem repressão nem poderes especiais, conseguiu finalmente derrubar a superinflação. Fez mais: resolveu o problema persistente da dívida externa herdada e até deu começo a uma retomada promissora do crescimento econômico, e à expansão do acesso das camadas de rendimentos modestos ao crédito e ao consumo, inclusive de bens duráveis.
Duas observações acautelatórias se impõem a esta altura. A primeira é que as conquistas da Segunda Redemocratização não foram o resultado de milagres instantâneos. Custaram esforços enormes e, com frequência, só se deram depois de muitas tentativas e erros. É por isso que o período tem de ser analisado na sua integridade, êxitos e fracassos juntos, já que estes são partes inseparáveis do processo de aprendizagem coletiva, para o qual contribuíram numerosos dirigentes e cidadãos numa linha de continuidade, não de negação e ruptura.
A segunda é que nenhuma conquista é definitiva, nenhum progresso é garantido e irreversível. Assim como não somos escravos dos erros do passado, tampouco devemos crer que a eventual sabedoria dos acertos de ontem se repetirá invariavelmente hoje e amanhã. É necessário destacar tal aspecto porque a estabilidade, o crescimento e os ganhos de consumo, no que concerne ao panorama econômico-social, ainda não têm garantidas as condições de sustentabilidade no médio e no longo prazos.
Nosso dever é, por conseguinte, o de assumir com humildade e coragem a herança desses 25 anos, não para negar o passado, mas para superá-lo, a fim de fazer mais e melhor. Não é apenas por uma coincidência deste momento com o aniversário dos primeiros 25 anos da Nova República que devemos reclamar essa denominação, injustamente esquecida devido talvez às decepções dolorosas dos primeiros anos, quando a história nos surpreendeu com o desaparecimento prematuro de Tancredo Neves, o galope da superinflação e a renitência do patrimonialismo na vida pública brasileira. Mas o Brasil mudou para melhor.
A verdade é que os fatos alinhados acima, indiscutíveis na sua consistência e na sua imensa importância, atestam o discernimento e a sabedoria que deram perenidade à obra fundadora dos grandes responsáveis pela Nova República. E aqui evoco os nomes de alguns que já nos deixaram, além de Tancredo: Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola, Teotônio Vilela, José Richa, Mário Covas, Sobral Pinto, Raymundo Faoro e Celso Furtado.
O exemplo inspirador de Nelson Mandela está aí para nos mostrar que a grandeza do instante fundador não se esgota naquele momento da partida, mas continua a fazer diferença no futuro. As fases da história não podem ser arbitrariamente datadas a partir de um ou outro governante ao qual queiram alguns devotar um culto de exaltação. Elas só terão coerência se corresponderem a instantes decisivos de mudança institucional: a República, a Revolução de 1930, a Primeira Redemocratização, em 1945, o golpe de 1964, a Segunda Redemocratização ou Nova República. A razão não é difícil de compreender e já está presente em Maquiavel: os fundadores de uma nova ordem na base da virtude em grande parte determinam como haverão de viver os homens e mulheres de acordo com as leis e a Constituição criadas.
O Brasil de hoje tem a cara e o espírito dos fundadores da Nova República: senso de equilíbrio e proporção; moderação construtiva na edificação de novo pacto social e político; apego à democracia, à liberdade e à tolerância; paixão infatigável pela promoção dos pobres e excluídos, pela eliminação da pobreza e pela redução da desigualdade. É na fidelidade a esse legado que haveremos de manter e superar o que até aqui se tem feito e realizar mais e melhor para o crescimento integral do povo brasileiro.

* José Serra é candidato à Presidência da República.

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