• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:54

Anistia condena decisão do Supremo

De ‘O Globo’:
“A Anistia Internacional condenou ontem a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerar válida a Lei da Anistia, que perdoa crimes cometidos na ditadura tanto por agentes do Estado quanto por opositores do regime. ?A decisão coloca um selo judicial de aprovação aos perdões estendidos àqueles no governo militar que cometeram crimes contra a humanidade?, afirmou, em comunicado, o pesquisador da Anistia Internacional para o Brasil, Tim Cahill.
?Isto é uma afronta à memória dos milhares que foram mortos, torturados e estuprados pelo Estado que deveria protegê-los. Às vítimas e a seus familiares foi novamente negado o acesso à verdade, à justiça e à reparação?, escreveu.
Anteontem, o STF decidiu, por 7 votos a 2, rejeitar uma ação impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil que pedia uma revisão da lei de 1979. A OAB defendia que a Lei da Anistia não beneficiasse autores de crimes como homicídio, abuso de autoridade, lesões corporais, desaparecimento forçado, estupro e atentado violento ao pudor cometidos contra opositores à ditadura militar.
Em seu comunicado, a Anistia Internacional criticou o Brasil por não seguir o exemplo de países vizinhos como Argentina, Chile, Bolívia e Uruguai, que, de acordo com o grupo, levaram à Justiça acusados de crimes contra os direitos humanos durante os regimes militares nessas nações.
Na avaliação da Anistia Internacional, a decisão do STF deixa o Brasil em desacordo com leis internacionais que não permitem exceções para crimes de tortura e execuções.
O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, disse ontem que, mesmo sendo contra a decisão do STF, acredita que o julgamento do caso vai reforçar a criação da Comissão da Verdade e ajudar a esclarecer crimes cometidos durante a ditadura. Para o ministro, os votos de boa parte dos ministros e o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, referendaram a investigação dos crimes, mesmo que os culpados não sejam punidos por conta da anistia: ? Decisão do Supremo a gente respeita sempre, embora minha opinião fosse diferente. Mas louvo bastante os votos dos ministros Ayres Britto e Ricardo Lewandowski e o fato de que muitos deles e o advogado-geral da União enfatizaram a importância desse empenho para aprovarmos no Legislativo a Comissão da Verdade.
O anteprojeto de criação da comissão será apresentado ao presidente Lula na próxima quarta-feira. O texto está pronto.
Pela sugestão do grupo responsável pelo trabalho, a Comissão Nacional da Verdade deverá ser composta por notáveis, a exemplo de experiências similares na Argentina e na África do Sul. Na Argentina, o ex-presidente Raul Alfonsinn indicou o escritor Ernesto Sábato para coordenar as investigações; na África do Sul, Nelson Mandela indicou o bispo Desmond Tutu.
Num dos pontos mais delicados do acordo que precedeu o projeto, ficou acertado também que não poderão participar da comissão representantes de familiares dos desaparecidos ou de militares. A comissão terá prazo de dois anos para tentar esclarecer os crimes da ditadura que permanecem obscuros.
Terá poderes para requisitar documentos e chamar para depor ex-ativistas de esquerda e militares que participaram de movimentos políticos ou tiveram conhecimento dos crimes”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:50

Lula e o risco do pitoresco ao ridículo

De Elio Gaspari:
“O Nosso Guia precisa pisar no freio de seu desembaraço internacional. Quem viu algumas das expressões de perplexidade no plenário da reunião com chefes de Estado caribenhos, em Brasília, quando anunciou que “depois da Presidência, vou continuar fazendo política” teve uma ideia do efeito que a ligeireza verbal do Grande Mestre provoca em reuniões internacionais. Noves fora a platitude, o que desconcertou parte da audiência foi a utilização de uma reunião desse tipo para um improviso de palanque municipal.
Na política internacional sempre há lugar para personagens improváveis. Alguns, como o Mahatma Gandhi (um “faquir seminu”, segundo Winston Churchill) ou Nelson Mandela, um prisioneiro sem rosto nem voz durante 27 anos, tornam-se figuras da história. Outros, como o jovem capitão Muammar Gaddafi, que destronou o rei senil da Líbia em 1969 e, quase septuagenário, ficou parecido com Cauby Peixoto, nas palavras de Lula.
A distância do improvável ao pitoresco é pequena e quase sempre benigna. Do pitoresco ao ridículo é imperceptível, porém maligna. O operário pobre que chega à Presidência de um país de 190 milhões de habitantes é uma história de sucesso em qualquer lugar do mundo. Não se pode dizer o mesmo do monoglota que tem o seu nome oferecido para a Secretaria-Geral da ONU, ou do latino-americano que sai pelo Oriente Médio oferecendo uma mediação desconexa, “risivelmente ingênua”, na opinião pouco protocolar atribuída à secretária de Estado Hillary Clinton.
No auge da crise financeira de 2008, Lula sugeriu que partisse da ONU “a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças”, com uma reunião dos presidentes dos Bancos Centrais e ministros da Fazenda dos 192 países-membros da organização. Do presidente do Federal Reserve Bank americano ao ministro das Finanças do reino de Tonga, Otenifi Matoto.
Pode-se entender que o Brasil tenha negócios com a Venezuela e que Nosso Guia e seu comissariado tenham afeto nostálgico por Fidel Castro. Daí a abrir uma embaixada no campo de concentração do “Querido Líder” norte-coreano ou a receber em Brasília o cleptocrata uzbeque Islam Karimov, cuja polícia ferveu dissidentes, vai grande distância.
Toda política externa tem algo de teatral, mas o embaixador Marcos Azambuja ensina, há décadas, que “os diplomatas são produtores de blá-blá-blá, mas não são consumidores”. A maior negociação diplomática ocorrida nos quase oito anos de diplomacia-companheira foi a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio. O chanceler Celso Amorim trabalhou pelo seu êxito, deu um drible de última hora na Índia e na China, caiu numa armadilha da delegação americana e amargou um fracasso.
Quando uma diplomacia acredita no próprio teatro, deixa de ser associada a uma política externa e é vista como uma companhia de espetáculos. Sobretudo quando essa diplomacia gira em torno de um personagem-ator. Ainda falta algum chão para que Nosso Guia ganhe um retrato na galeria dos governantes pitorescos, como Silvio Berlusconi ou Boris Yeltsin de seus últimos anos, mas o caminho em que entrou pode levá-lo até lá.
Serviço: nas próximas quatro quartas-feiras o signatário usufruirá o abuso adquirido (expressão tucana) das férias”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:22

Zé Dirceu responde a Virgílio

Do ex-ministro José Dirceu em seu blog:
“O líder do PSDB, senador Artur Virgilio (AM) é conhecido por sua retórica vazia e seus rompantes no Senado. Ninguém dá muita importância à sua verborragia, exceção da Folha de S.Paulo que lhe dá espaço hoje com uma matéria de página interna com a chamada ?Tucano ataca luta de Dilma contra a Ditadura?.
Claro, essa é uma agenda cara à Folha que faz de tudo para caracterizar como ?bandida? a luta contra a ditadura e segregar os democratas que resistiram com armas, mesmo em autodefesa. O jornal esconde que todos nós que pegamos em armas viemos da luta política institucional que foi proibida, reprimida e eliminada.
E que todos – isso mesmo, todos – que lutaram contra a ditadura foram vítimas das torturas e assassinatos, independente da forma de luta em que se engajaram, se apenas política ou militar. O tucano – que já foi comunista como ele mesmo diz no discurso que fez – afirmou que Dilma “não é bandida, mas lutou de maneira errada contra a ditadura militar?.
É uma afirmação sem nenhum sentido histórico. Os tenentes que se levantaram em 22 e 24, na Coluna Prestes, e depois triunfaram na Revolução de 30, erraram em 1922 quando 18 deles enfrentaram de peito aberto a repressão e todos, menos Eduardo Gomes, foram assassinados pelas balas covardes das tropas federais?
Erraram aqueles que levantaram São Paulo em 1924, sob a liderança de Miguel Costa, e depois conformaram a Coluna Prestes? Erraram os Inconfidentes? Erraram os que lutaram contra as ditaduras na República Velha?
Claro que não. Não venceram naquela fase, como também Nelson Mandela não venceu na África do Sul e ficou 27 anos na cadeia. Mas, o próprio Mandela nunca renegou a luta armada. Não faltam exemplos no mundo para refrescar a memória do senador tucano”.

Na nota seguinte, diz Zé Dirceu:

“(Dilma) lutou contra a ditadura. Com as armas, a concepção, as limitações que tinha, e eu também. A análise políica daquele momento nos levou, tanto ela quanto a mim, a uma posição de ultraesquerda. Tanto ela quanto eu e outros agimos como a nossa consciência ditava na época(…) Lutar contra a ditadura da forma mais radical era uma exigência ética e moral”.
Ao invés de ficar com destempero verbal, o líder tucano no Senado, Artur Virgílio (PSDB-AM) deveria era ler – e com muita atenção – o trecho acima, de entrevista ao Estadão de hoje de seu companheiro de partido, o deputado e ex-chefe da Casa Civil de Serra em São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira Filho. Ele fala exatamente sobre a resistência de Dilma Rousseff à ditadura e de um momento que Virgílio claramente não compreende.
Nas acusações que faz contra a candidata do presidente Lula, governo, PT e aliados, Dilma Rousseff, o  senador Artur Virgílio (PSDB-AM) erra quando diz que ela devia ter optado por um partido como o MDB. Ora, ela optou.
Atuou no MDB em Porto Alegre e não só coordenou, junto com outros democratas, a campanha do vereador eleito em 1976, Marcos Klassmann – cassado pela ditadura dois anos depois – como ajudou a fundar o IEPS e, depois, a Associação de Debates do então PTB brizolista.
Dilma ainda se filiou ao PDT depois que a ditadura tirou de Leonel Brizola a legenda do PTB, no final da década de 70 e o general Golbery do Couto e Silva entregou a legenda à deputada Ivete Vargas. Atuou no Movimento Feminino pela Anistia e no Comitê Brasileiro pela Anistia.
Também foi secretária da Fazenda de Alceu Colares na Prefeitura de Porto Alegre e em seu governo no Rio Grande do Sul. Como toda democrata Dilma lutou a luta que era possível. Dilma não faltou à convocação da história. Quando necessário enfrentou a ditadura na tradição rebelde e insurgente de toda as lutas democráticas de nosso povo”

  • Segunda-feira, 17 Maio 2010 / 4:09

Marta trapalhona ataca Gabeira

Dos repórteres Malu Delgado e Alfredo Junqueira, do Estadão:
“Em meio à estratégia do PT de abordar a participação da pré-candidata à Presidência, Dilma Rousseff, na luta à ditadura, a ex-prefeita Marta Suplicy introduziu ontem ao debate político a atuação do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) contra os militares e afirmou que “ele sim sequestrou”.
Num discurso a militantes petistas da zona leste de São Paulo, acompanhada do pré-candidato ao governo, Aloizio Mercadante, Marta surpreendeu ao comparar a atuação de Gabeira com a de Dilma ao criticar ataques à petista feitos na internet: “Vocês notaram, Aloizio, que do Gabeira ninguém fala? Esse sim sequestrou. Eu não estou desrespeitando ele, ao contrário, mas ele sequestrou. Ele era o escolhido para matar o embaixador. Ninguém fala porque o Gabeira é candidato ao governo do Rio e se aliou com o PSDB”.
O discurso da petista provocou reação imediata no comando do PT e entre coordenadores da pré-campanha de Dilma. Dirigentes do partido afirmaram na noite de ontem que a opinião de Marta não é avalizada pela legenda e nem se trata de uma estratégia eleitoral. “Não vamos adotar isso como estratégia de campanha. Todas as pessoas que atuaram contra a ditadura merecem nosso respeito. Foi uma declaração muito infeliz da Marta”, afirmou o presidente do PT, José Eduardo Dutra.
Marta referiu-se à atuação de Gabeira no MR-8 e à participação dele no sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 1969. O ministro Franklin Martins (Comunicação) também fez parte do grupo que sequestrou o embaixador.
No Rio, Gabeira reagiu com indignação: “Ela está equivocada, está inventando coisas, está mentindo”. O deputado rechaçou a informação de que poderia ter se tornado o assassino do embaixador. “Não havia escala para isso (para um assassinato). Lamento que ela use esse tipo de coisa na campanha, até porque tem muita gente dentro do PT que sabe bem dessa história”, disse. O pré-candidato, que fez coligação com PSDB, DEM e PPS, disse, contudo, que não pretende processar a petista: “Vou ignorá-la.”
Marta “explicou” a militantes as razões pelas quais o presidente Lula comparou Dilma a Nelson Mandela em programa partidário dia 13: “O que Lula quis dizer com isso? Que pessoas que vão para uma cadeia por ideologia são pessoas de luta, dignas”.

  • Sexta-feira, 14 Maio 2010 / 4:07

Cesar Maia fala sobre o PT do M

O ex-prefeito Cesar Maia postou no Twitter o seu comentário sobre o programa do PT:
“1. O programa do PT exibido na TV, ontem à noite, foi, sem nenhuma dúvida, o pior programa desde sempre. Pior no roteiro, pior na imagem dos personagens, pior em emoção. Vamos lá.
2. Lula foi, pela primeira vez, artificial na sua fala. O uso do teleprompter não o ajuda e termina fazendo um contraste com seus bem sucedidos improvisos. E a história de Dilma, como ele descobriu seu talento em uma só reunião quando ela era secretaria estadual, soou como mentira.       
3. Dilma parecia plastificada. A imagem fechada nela reforça uma pele maquiada/plastificada. O uso do teleprompter, um desastre. Nenhuma emoção. As cenas com moradores, sobre programa de luz elétrica, foram de um enorme artificialismo. Pareciam diálogos de vídeo feito por alunos em sala de aula. Um ping-pong treinado. Nenhuma emoção, nunca. Dilma diz que a vida das pessoas mudou, mas fala como se estivesse num papo, num batizado.    
4. Aliás, a marca forte dos programas do PT, que é a emoção, ficou de fora.  A comparação com o governo FHC-Serra é risível e imemoriável, não cumprindo objetivo algum.    
5. E no final, os testemunhais de ministros, que ninguém sabe quem são, e do presidente do PT, num mesmo plano, com textos similares e com um fundo desfocado metido a impressionista: foi um desperdício de tempo. Se o PT estivesse sem dinheiro, se explicaria. Mas com a caixa que tem, só há uma explicação: açodamento na colagem Lula-Dilma. E quase tudo dentro do  estúdio, separados e com um mesmo plano diagonal. Um desastre”.

                                                       * * *

O título está errado. O comentário de Cesar é sobre o PT… O M de Mandela ficou de fora.

  • Sexta-feira, 14 Maio 2010 / 4:07

Cesar Maia cala sobre PT do M

Uma das principais diversões do ex-prefeito Cesar Maia é criticar programas eleitorais.
Daqui e do exterior.
E ele sempre as faz com brilho e com rigor.
Pois no seu blog de hoje, ele não publica nada sobre o programa do PT do M na TV.
Nem mesmo a comparação de Dilma com Mandela, feita por Lula, mereceu uma crítica do ex-prefeito.
                 * * *
Cesar Maia se concentra geralmente na linguagem utilizada pelo candidato, e na imagem que vai ao ar – enfim, nas questões técnicas.
Pelo que parece, nesse aspecto, o marqueteiro de Dilma deve ter obtido nota 10.

  • Sexta-feira, 14 Maio 2010 / 4:07

Lula consagra o PT do M

Pelo tamanho da grita dos jornais, e de muitos blogs hoje pela manhã, não resta a menor dúvida.
O programa de TV do PT, de Lula, de Dilma e de Mandela, foi um sucesso estrondoso.
                      * * *
Vamos aguardar as próximas pesquisas.
E a repercussão do PT do M…
… M de Mandela.

  • Sábado, 20 Fevereiro 2010 / 2:14

Artigo de Serra para ‘Veja’

                                                              José Serra*

    A Nova República completa 25 anos em março, mês em que Tancredo Neves deveria tomar posse na Presidência. Há razões para sustentar que se trata da fase da história do Brasil com o maior número de conquistas de indiscutível qualidade política e humana.
Em primeiro lugar, o país nunca havia conhecido um quarto de século ininterrupto de democracia de massas. É nítido o contraste com a oligárquica República Velha, de eleições a bico de pena, sacudida por intervenções nos estados, revoluções e instabilidade.
O período supera igualmente a fase democrática após a queda de Getúlio Vargas, em 1945. E não só pela duração ? o regime da Constituição de 1946 foi desfeito em menos de vinte anos pelo golpe que derrubou João Goulart. A Nova República vai muito além na expansão sem precedentes da cidadania e na eliminação quase total das restrições ao direito de voto, com o eleitorado praticamente se confundindo com o universo da população adulta.
Longe de acarretar maior instabilidade, a ampliação da participação das massas populares coincide com um período de completa ausência de conspirações, golpes militares, quarteladas, intervenções preventivas e epílogos políticos trágicos ou temerários. Bem diferente do período anterior, que teve Aragarças e Jacareacanga, durante o governo de Juscelino Kubitschek; o movimento do marechal Lott, de 11 de novembro de 1955; o suicídio de Vargas, em 1954; e a renúncia de Jânio Quadros, em 1961.
Desde a Questão Militar do Império, passando pela primeira década da República, pela Revolta da Armada, pelo tenentismo, pela Revolução de 1924, pela de 1930, pela de 1932, pela insurreição comunista de 1935, pelo golpe de novembro de 1937 e pelo golpe de 1964, é a primeira vez que o fator militar desaparece da política brasileira, e a hipótese do golpe dos quartéis se torna na prática impensável.
Não se pode atribuir essa tranquilidade à ausência de fatores de desestabilização, que foram às vezes dramáticos: a doença e a morte inesperada do presidente eleito no momento mesmo da transição do regime militar para o civil, o processo de impeachment e afastamento de Collor.
Muito menos se pode alegar que tudo se deve a uma conjuntura econômico-social particularmente favorável. Ao contrário: boa parte dos últimos 25 anos se desenrolou sob o signo da aceleração da inflação, até atingir o limiar da hiperinflação, com o agravamento dos conflitos distributivos. Em seguida, houve a fase das grandes crises financeiras mundiais (1994-1995, 1997-1998, 2007-2008). Convém não esquecer a coincidência também com as décadas perdidas em matéria de crescimento econômico. Não faltaram reveses sérios que, em outras épocas, teriam abalado as instituições. Um dos maiores foi o fracasso do Plano Cruzado e dos inúmeros planos que se sucederam, alguns com medidas draconianas, como o confisco da poupança.
Não obstante tais obstáculos, a Nova República conseguiu completar com normalidade uma conquista que permaneceu fora do alcance dos regimes do passado. A alternância tranquila no poder de forças político-partidárias antagônicas provocava sempre a polarização e a radicalização da sociedade brasileira. São exemplos os períodos de 1954-1955 e, com consequências mais graves, entre 1961 e 1964. Neste quarto de século, a alternância passou a fazer parte das conquistas adquiridas: já ninguém mais contesta a legitimidade das vitórias eleitorais, do processo democrático e do natural desejo dos adversários vitoriosos de governar sem perturbações.
O resultado é ainda mais impressionante quando se observa que uma dessas alternâncias aparentemente mais contrastantes foi a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores, encarado, a princípio, se não como força desestabilizadora, ao menos de comportamento radical e deliberadamente à margem na política nacional. Basta lembrar, como exemplo, a decisão do PT de punir seus deputados que votaram em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, e sua recusa em homologar a Constituição de 1988.
O PT, aliás, acabou por ser, por paradoxal que pareça, um dos principais beneficiários dos grandes erros históricos de julgamento que cometeu. Nos dois primeiros casos, porque a eleição do primeiro presidente civil e as conquistas sociais e culturais da Constituição foram os fatores-chave que possibilitaram criar o clima que eventualmente conduziria o partido ao poder. Outros erros históricos seguiram-se àqueles. O partido também se opôs à estabilização da economia brasileira, denunciando com estridência o Plano Real, o Proer e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Mas soube, posteriormente, colher seus bons frutos.
Este último exemplo, o da estabilização, é especialmente notável. Os governos militares, apesar dos 21 anos de poder discricionário em termos de elaboração de leis e normas, com elevado grau de repressão social e sindical, fracassaram por completo em liquidar a herança da inflação, acelerada na segunda metade dos anos 1950, mas que provinha do fim da
II Guerra Mundial. Pior do que isso: agravaram em muito o problema ao criar a indexação da moeda, que tanto iria complicar o combate à inflação. Ao mesmo tempo, conduziram o país para a gravíssima crise da dívida externa a partir de 1981-1982, dando início a quase uma década e meia perdida no que respeita ao crescimento econômico.
O Brasil, que, segundo os estudos do professor Angus Maddison, havia sido por mais de um século, entre 1870 e 1980, o país de maior crescimento médio entre as dez maiores economias do mundo ? EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, China, Índia, União Soviética, Brasil e México ?, esqueceu a fórmula do crescimento e passou até a menosprezá-lo, como, aliás, ainda o fazem alguns.
Pois bem, o período de um quarto de século da Nova República, sem repressão nem poderes especiais, conseguiu finalmente derrubar a superinflação. Fez mais: resolveu o problema persistente da dívida externa herdada e até deu começo a uma retomada promissora do crescimento econômico, e à expansão do acesso das camadas de rendimentos modestos ao crédito e ao consumo, inclusive de bens duráveis.
Duas observações acautelatórias se impõem a esta altura. A primeira é que as conquistas da Segunda Redemocratização não foram o resultado de milagres instantâneos. Custaram esforços enormes e, com frequência, só se deram depois de muitas tentativas e erros. É por isso que o período tem de ser analisado na sua integridade, êxitos e fracassos juntos, já que estes são partes inseparáveis do processo de aprendizagem coletiva, para o qual contribuíram numerosos dirigentes e cidadãos numa linha de continuidade, não de negação e ruptura.
A segunda é que nenhuma conquista é definitiva, nenhum progresso é garantido e irreversível. Assim como não somos escravos dos erros do passado, tampouco devemos crer que a eventual sabedoria dos acertos de ontem se repetirá invariavelmente hoje e amanhã. É necessário destacar tal aspecto porque a estabilidade, o crescimento e os ganhos de consumo, no que concerne ao panorama econômico-social, ainda não têm garantidas as condições de sustentabilidade no médio e no longo prazos.
Nosso dever é, por conseguinte, o de assumir com humildade e coragem a herança desses 25 anos, não para negar o passado, mas para superá-lo, a fim de fazer mais e melhor. Não é apenas por uma coincidência deste momento com o aniversário dos primeiros 25 anos da Nova República que devemos reclamar essa denominação, injustamente esquecida devido talvez às decepções dolorosas dos primeiros anos, quando a história nos surpreendeu com o desaparecimento prematuro de Tancredo Neves, o galope da superinflação e a renitência do patrimonialismo na vida pública brasileira. Mas o Brasil mudou para melhor.
A verdade é que os fatos alinhados acima, indiscutíveis na sua consistência e na sua imensa importância, atestam o discernimento e a sabedoria que deram perenidade à obra fundadora dos grandes responsáveis pela Nova República. E aqui evoco os nomes de alguns que já nos deixaram, além de Tancredo: Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola, Teotônio Vilela, José Richa, Mário Covas, Sobral Pinto, Raymundo Faoro e Celso Furtado.
O exemplo inspirador de Nelson Mandela está aí para nos mostrar que a grandeza do instante fundador não se esgota naquele momento da partida, mas continua a fazer diferença no futuro. As fases da história não podem ser arbitrariamente datadas a partir de um ou outro governante ao qual queiram alguns devotar um culto de exaltação. Elas só terão coerência se corresponderem a instantes decisivos de mudança institucional: a República, a Revolução de 1930, a Primeira Redemocratização, em 1945, o golpe de 1964, a Segunda Redemocratização ou Nova República. A razão não é difícil de compreender e já está presente em Maquiavel: os fundadores de uma nova ordem na base da virtude em grande parte determinam como haverão de viver os homens e mulheres de acordo com as leis e a Constituição criadas.
O Brasil de hoje tem a cara e o espírito dos fundadores da Nova República: senso de equilíbrio e proporção; moderação construtiva na edificação de novo pacto social e político; apego à democracia, à liberdade e à tolerância; paixão infatigável pela promoção dos pobres e excluídos, pela eliminação da pobreza e pela redução da desigualdade. É na fidelidade a esse legado que haveremos de manter e superar o que até aqui se tem feito e realizar mais e melhor para o crescimento integral do povo brasileiro.

* José Serra é candidato à Presidência da República.

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