• Terça-feira, 06 Março 2012 / 13:57

Justiça de Transição

                                                    Miriam Leitão*

         No próximo dia 9, a subprocuradora-geral da República Raquel Dodge vai ajuizar ação que envolve cinco casos que aconteceram na ditadura. A ação será assinada por procuradores de outras regiões do país e sustentará o entendimento de que desaparecimento forçado e ocultação de cadáver são crimes continuados. Há um terceiro: formação de quadrilha para esconder as informações sobre os eventos. Nada disso está coberto pela Anistia.
A subprocuradora afirma que, apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de que a Lei de Anistia encerrou os casos ocorridos durante o governo militar, há esse mesmo entendimento de que os desaparecidos são vítimas de um crime que ainda não se encerrou. Ela diz que a 2 Vara do Ministério Público Federal vem trabalhando com essa interpretação há mais de um ano, no Grupo de Trabalho de Justiça de Transição. Essa expressão “Justiça de Transição” é usada para definir as dúvidas que ficam em países que saíram de um regime de exceção, uma ditadura, para um regime democrático de direito.
Ela conta que foi tomada a decisão de não autorizar o arquivamento de dois casos que correram no Ministério Público Militar. Aliás, a subprocuradora está convencida de que apesar de serem crimes cometidos por militares não é a Justiça Militar que tem que conduzir a ação, mas a Justiça Federal. Na entrevista que fiz com o promotor Otávio Bravo, da Justiça Militar do Rio e Espírito Santo, ele contou que – com esse entendimento de que o crime do desaparecimento forçado é permanente – tinha reaberto 39 casos de desaparecidos políticos ocorridos no Rio e no Espírito Santo.
Mesmo havendo duas visões sobre a competência, o que não há entre eles é divergência sobre se a Lei da Anistia se aplica a esses casos ou não. Tanto o promotor Otávio Bravo quanto a subprocuradora-geral da República Raquel Dodge acham que os crimes não prescreveram nem podem ser apagados pela Lei da Anistia porque continuam em curso. Consideram também que a determinação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA – para que o Brasil investigue os crimes cometidos durante a ditadura militar – deve ser avaliada, dado que o Brasil ratificou a Carta de São José, que criou a corte.
O debate jurídico será intenso e interessante. Uma decisão da Corte Interamericana pode se sobrepor à decisão do STF? Crimes cometidos por militares devem ser julgados pela Justiça Federal? Leis do regime de exceção devem ser reconhecidas e seguidas pelo regime democrático?
O Grupo de Trabalho da Justiça de Transição fará agora nos dias 12 e 13, em Brasília, o segundo workshop sobre o assunto. Para ele virão procuradores regionais, subprocuradores-gerais e promotores de todo o Brasil. Serão apresentados dois estudos encomendados às universidades de Stanford e Harvard.
- Estudei em Harvard e tenho muito respeito pela capacidade de pesquisa da universidade. Eles apresentarão para nós estudos comparando as várias soluções nacionais dadas em países da América Latina, África e Europa que transitaram de uma ditadura para a democracia. Stanford apresentará um estudo sobre competência de crimes cometidos por militares em regime de exceção – disse Raquel Dodge.
A subprocuradora não informa que crimes serão objeto dessa ação que será ajuizada na Justiça Federal, no dia 9, nem mesmo em que região do país foram cometidos.
Em maio de 2010, o Supremo Tribunal Federal decidiu por 7 votos a 2 rejeitar a ação impetrada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que pedia a revisão da Lei de Anistia, de 1979. A maioria seguiu o voto do então ministro Eros Grau. A lei foi aprovada no começo do governo João Figueiredo, ainda na ditadura, após um movimento nacional de mobilização pela anistia “ampla, geral e irrestrita”. Os membros do movimento pediam que fossem anistiados todos os condenados pelo regime ditatorial, inclusive os integrantes da esquerda armada. Os militares aceitaram após exigir que fossem considerados anistiados também os militares que tinham participado de crimes. A OAB argumenta que nem sequer foram identificados os agentes do Estado que cometeram crime, como é que eles podem ser anistiados? Mas perdeu a ação.
No entanto, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, criada com base na Carta de São José, que o Brasil subscreveu, condenou o país por não ter punido os responsáveis pelas 62 mortes e desaparecimentos ocorridos na Guerrilha do Araguaia, entre 1972 e 1974. O próprio Supremo Tribunal Federal equiparou o crime de desaparecimento forçado – quando uma pessoa é presa e nunca mais aparece – com o de sequestro. E nesses casos não se tem uma informação básica: quando o crime terminou? Se foi antes de 1979, está coberto pela lei, se foi depois, não está.
A questão permanece em debate jurídico cuja intensidade deve continuar este ano por dois motivos. A Comissão da Verdade começará a funcionar e ela vai levantar informações, vai requisitar documentos, convocar para depor agentes do Estado. Os militares da reserva estão rebelados contra isso com um número cada vez maior de signatários do documento de protesto contra a comissão da verdade e de críticas ao governo. Oficiais generais que até recentemente ocupavam postos de comando estão entre os signatários. O general Luiz Eduardo Rocha Paiva, que foi secretário-geral do Exército até 2007, me disse, em entrevista à Globonews e a este jornal, que as críticas que fez representam o pensamento do pessoal da ativa.
*Miriam Leitão é colunista do ‘Globo’.

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:59

Tortura e morte de Rubens Paiva

    

        A jornalista Miriam Leitão prestou um trabalho inestimável ao jornalismo e ao país ao apresentar nessa semana, no Espaço Aberto, da GloboNews, um especial sobre o assassinato do deputado Rubens Paiva por agentes da ditadura nas celas do DOI-CODI no Rio de Janeiro.
Ela entrevistou o atual vice-prefeito do Rio, Carlos Alberto Muniz, o Adriano do MR-8 – com quem Paiva teria um encontro no dia em que foi preso – a filha de Rubens, Eliana,  também presa pela ditadura, com apenas 15 anos, e o general Luiz Eduardo Rocha Paiva, ex-comandante da Eceme, que deveria ser preso por suas declarações contra a Presidente Dilma Rousseff.

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:53

Muniz: “Rubens foi torturado e não me entregou”

      “Os militares que capturaram Rubens Paiva, em 20 de janeiro de 1971, diante da família, queriam saber a identidade de Adriano. Deputado cassado pela ditadura, Rubens Paiva, mesmo sob tortura, não contou quem ele era nem que iria à sua casa naquele dia. Hoje, Adriano, elo perdido do caso Rubens Paiva, está sentado na cadeira de vice-prefeito e secretário de Meio Ambiente do Rio. Seu nome é Carlos Alberto Vieira Muniz.
Um relato escrito por uma professora, hoje aposentada e doente, revela detalhes do sofrimento de Rubens Paiva na Aeronáutica e no Exército. Há também uma prova física que desmente a afirmação, sustentada até hoje pelos militares, de que não sabem o que houve: um recibo com carimbo do Exército prova que o carro do deputado estava na Polícia do Exército.
A história nunca foi apurada porque os militares sempre impediram, com notas e ameaças, que se buscasse informação sobre esse e outros mistérios macabros do regime.
Muniz, o Adriano, era do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8, de Carlos Lamarca. Os órgãos de segurança procuravam os sequestradores do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, trocado por 70 presos. Rubens Paiva conhecera Adriano quando tirou do Brasil a filha de um amigo, ameaçada de prisão. Rubens Paiva não tinha ligação com grupo clandestino. Mais de 40 anos depois, Muniz recebeu a GloboNews e O GLOBO.
- Eu era o Adriano. Sou um sobrevivente. Rubens foi barbaramente torturado e não me entregou. Ele não era pombo-correio, não pertencia a grupo armado, não conhecia Lamarca. Rubens era uma referência, por sua grande experiência política. Gostava de trocar ideias com todos que estavam na oposição, inclusive os mais jovens, sobre a redemocratização e ajudava perseguidos a sair do Brasil.
Naquele dia, Muniz ligou para Rubens Paiva e confirmou que iria lá. Eunice (mulher do deputado) o protegeu.
- Ela, sempre afetuosa, atendeu nervosa e disse “Não, Rubens não está”, e me passou a sensação de que algo estava acontecendo. Era a polícia dentro da casa – diz Muniz.
Homens da Aeronáutica mantinham Eunice e filhos sob a mira de metralhadora, ouvindo os telefonemas pela extensão. Rubens já estava apanhando na 3ª Zona Aérea do notório brigadeiro João Paulo Burnier. De lá, foi levado para a PE da Barão de Mesquita ouvindo pelo rádio do carro instruções: “Na casa da Delfim Moreira há uma senhora e quatro crianças. Quem está dentro não sai, quem está fora pode entrar, mas é grampeado”. Rubens sabia: era a sua casa e sua família sob ameaça”.

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:51

Eliana: “Fui presa com 15 anos…”

     

     “Há muitas histórias perdidas e famílias sem respostas no Brasil. Os pedaços de informação que se tem sobre os desaparecidos políticos exibem a face de um regime que torturou, matou e ocultou cadáveres. A democracia, em 27 anos, não conseguiu romper o impedimento dos militares às investigações. No caso Rubens Paiva, fica clara a culpa das Forças Armadas.
Feriado no Rio, dia ensolarado aquele 20 de janeiro de 1971. Rubens Paiva viu a filha Eliana, de 15 anos, descer as escadas do sobrado à beira-mar, no número 80 da Delfim Moreira, no Leblon, enquanto conversava com o amigo Raul Riff. Pediu à filha um beijo.
Eliana viveria o próprio horror. Quando voltou da praia, a casa já havia sido invadida, e o pai estava preso. Foi ameaçada por um militar com um cabo elétrico. No dia seguinte, foi levada presa, encapuzada, junto com sua mãe, para o DOI-Codi. Ela falou pela primeira vez depois de 40 anos para a GloboNews.
- Eliana, o que você lembra do seu pai?
- Meu pai era uma figura muito alegre, muito viva, muito feliz. Ele tinha sido cassado em 1964. A partir daí, sofreu nove meses no exílio. Quer dizer, ele ficaria mais, mas, em determinado momento, ele chegou em casa, em São Paulo. Ele tinha pego um avião via Buenos Aires ou Uruguai, não me lembro direito, e conseguiu sair com o passaporte de diplomata ou diplomático, que é um passaporte vermelho. Então, dessa maneira, ele foi passando pelos aeroportos, até chegar em São Paulo. Eu me lembro no final de 64… quer dizer, a cassação dele foi na primeira ou na segunda listas de cassação de deputados federais. O exílio dele foi a partir de junho. Depois de 31 de março, da intentona revolucionária ou golpe militar, ele ficou na embaixada iuguslava até junho, julho… Ele foi para Iuguslávia, a partir daí ele foi para outros países da Europa. Nove meses depois ele chega em casa pela porta dos fundos, as empregadas tomaram o maior susto e era o jeito dele. De repente, ele decidiu “vou voltar pra casa. Chega, já fiquei no exílio muito tempo, ninguém vai fazer nada pra mim. Eu estou livre de processos, enfim.”
- Até porque ele não tinha nenhuma atuação assim…
- Tinha. Ela tinha tido uma atuação na época do processo contra o Ibad..
- Uma atuação parlamentar…
- Parlamentar. Mas atuação política, de esquerda, que realmente agredisse os militares, a não ser isso, que foi uma coisa séria, denuciar o Ibad. Aquilo era uma coisa muito séria dentro do governo militar, que provava uma série de verbas mal utilizadas por gente que depois assumiu o regime. Mas, a partir disso, ele não tinha tantos problemas. A personalidade dele era viver. “Não estou conseguindo ficar longe da minha família na Europa, tá tudo muito chato aqui, eu vou voltar pra casa”. E foi assim que aconteceu
- E em casa, como ele era como pai?
- Papai trabalhava muito. Ele era uma pessoa participante de todo tipo de grupo social em que ele estava envolvido, inclusive na própria profissão de engenheiro civil. Ele tinha uma firma de engenharia. E quando se tornou deputado federal, ele tinha um grupo de amigos, de deputados bastante ativos, E como pai ele estava presente, junto conosco, os cinco irmãos. A vida pública, todo mundo sabe disso, qualquer político, qualquer deputado principalmente na década de 60, tinha uma vida muito intensa. A geração dele era muito exigente em relação a discussões, a conversas, a debates. Apesar da pouca idade de todo mundo. Foi uma geração muito importante para o Brasil. Geração dos anos 50, do Celso Furtado, do Fernando Henrique Cardoso e, enfim, de todas essas pessoas…
- Você viu a prisão do seu pai?
- Pois é. Antes, você me perguntou sobre a personalidade dele…Exatamente por ser uma pessoa muito viva, ele começou a se sentir cerceado em São Paulo. Papai não podia trabalhar mais do jeito que estava trabalhando, aí ele conseguiu um emprego no Rio de Janeiro, como engenheiro civil, mas, mesmo assim, não podia assinar porque ele era um deputado cassado. Todas as contas dele como engenheiro civil eram ligadas ao governo, porque ele fazia pontes e estradas. As obras envolviam verbas federais, então ele não podia aparecer. Ele conseguiu um emprego no Rio, entrou como sócio de uma empresa lá. Nós mudamos pro Rio. A primeira coisa que ele fez foi alugar uma casinha em frente à praia do Leblon, um sobradinho e mudamos pra lá. De novo volta essa personalidade da alegria, da vontade de viver, da praia, do Rio de Janeiro. O Rio de Janeiro de 65 em diante foi uma cidade muito especial. Aconteciam muitas coisas no Rio de Janeiro que não aconteciam em São Paulo. Pra ele, era muito importante. Tanto que ele foi preso no Rio de Janeiro. Isso é que estou tentando chegar. Como foi essa prisão? Raul Ryff, jornalista e assessor de imprensa de João Goulart, também cassado, já morava, já tinha voltado pro Rio de Janeiro, depois de ficar um tempo na Europa. Raul Ryff morava perto, no condomínio dos Jornalistas, que existe até hoje no Leblon. Quer dizer: uns jornalistas, uma série de jornalistas moram ali, compraram apartamento nesse lugar. E ficava a três quarteirões de casa. Então, Raul Ryff de manhã saia da casa dele, passava em casa, pegava papai e iam pra praia andar, conversar, encontrar gente. Era o que mais eles gostavam de fazer. Então, quando acordei e levantei, era feriado, estavam os dois sentados numa poltrona, numa espécie de jardinzinho que a gente tinha. O Ryff e meu pai, os dois conversando. Então botei biquini, botei saída de praia, peguei minhas coisas. Eu tinha uma turma de praia, como todo mundo tinha na adolescência, eu tinha 14, 15 anos de idade. Eu me lembro de estar saindo correndo e ele me disse: “ué, você não vai me dar um beijo?”. Eu disse: “vou, claro”. Dei um beijo nele e o Raul pediu um beijo. Dei um beijo no Ryff e fui embora pra praia. Fui embora pra praia, com minha turma, fiquei um tempo lá, e quando eu voltei…isso devia ser o quê? Dez horas, onze horas da manhã…Quando voltei uma, duas horas da tarde, eu entro em casa e mamãe, até hoje vem muito essa memória, estava com olho muito arregalado, quer dizer, uma coisa que eu nunca tinha visto nela. Ela estava muito arregalada, falando muito baixo, muito contida. Perguntei: O que aconteceu? Ela me falou: “Teu pai foi preso”. Chamou de lado. Eu não tinha visto os militares à paisana, que estavam lá. Quando.tinha entrado na casa, mamãe parecia estar me esperando. Porque minha irmã mais velha estava em Londres, quer dizer, eu era a segunda mais velha. Eu acho que pela idade. Ela disse: “seu pai foi preso, você vai tentar sair e avisar ao seu tio”. Era o cunhado do meu pai, casado com uma irmã da minha mãe, Cássio Mesquita Barros, que é um advogado, ainda é advogado até hoje. “Você vai tentar telefonar pra ele e avisar à família que seu pai foi preso.” Eu jogava vôlei pelo Botafogo, na equipe do juvenil. Então, o que eu fiz: me vesti de Botafogo, peguei minha mochila, tomei banho, aí que eu vi, quando fui entrando, vi que tinha uns três ou quatro homens dentro de casa. Me vesti inteirinha, a caráter, de jogadora de vôlei, desci. Disse: “estou indo pro clube, tenho compromisso, não posso deixar. E fui saindo, quer dizer, não vão me impedir de sair. .E fui exatamente até o condomínio dos Jornalistas onde estava a maioria da minha turma, na casa do Ronaldo Pacheco e pedi para telefonar. O Ronaldo Pacheco é um amigo meu até hoje. O Ronaldo deixou eu telefonar. Telefonei pro meu tio, consegui falar com ele. Depois não sabia se voltava pra casa, mas tinha que fazer uma hora pelo menos pra dizer que tinha ido até o Botafogo, jogar e voltar. Fiz uma hora, uma hora e meia, mais ou menos. Não sei se o Ronaldo ficou comigo, mas a gente ficou andando um pouco. Eu pedi para ele pra não aparecer, inclusive. Eu falei um pouco pra ele do que eu sabia. Voltei pra casa, e aí que comecei a perceber que a barra era muito pesada. Quando eu cheguei em casa, um deles, o mais fortão, estava com um cabo elétrico na mão e perguntou: “o que você foi fazer na rua?” Eu olhei pra ele e falei assim: “Eu fui jogar”. “Não, você não foi jogar, você foi avisar às pessoas que teu pai foi preso. Ou seja, meu tio, ingenuamente, tinha ligado pra casa da minha mãe, pra perguntar o que tinha acontecido. E o telefone estava grampeado. Como é que grampeavam o telefone naquela época? Havia várias extensões na casa. Cada um ficava numa extensão. Na hora que tocava, alguém atendia, alguém ouvia na extensão. Ainda era uma coisa rudimentar. Não sei se eram realmente grampos. Foi muito difícil, porque eu consegui sentar na sala com este sujeito que estava completamente transtornado – eu nem vi minha mãe na sala – e tentei acalmar o cara. Falei: “olha, eu fui avisar ao meu tio porque a gente não sabe o que está acontecendo, e o senhor, por favor, abaixe esse cabo elétrico, porque o senhor não vai fazer nada com isso.” E aí a sensação que eu tive foi que ele se acalmou. Eu acho que esse ambiente familiar é absolutamente isento dessa culpabilidade de militância. Mamãe com empregadas, enfim, meu pai era um burguês, um empresário bem sucedido. E a coisa acalmou. Então, nós pudemos dormir. Eu tenho a impressão de que os meus três irmãos Marcelo, pela ordem, Ana Lúcia, que é a do meio, e Beatriz. Ana Lúcia tinha ido pra casa de uns amigos, eu acho. Marcelo e a caçula Beatriz, a Babiu, estavam em casa.
- Você chegou a ser presa. Como foi esse episódio?
- Pois é. Nos dias 20 e 21, a gente ficou em casa. Prisão domiciliar. Ninguém mais entrava, ninguém mais saía. Dois amigos nossos, jovens, Nelson Prado, filho da dona Yolanda Secchin Prado, mais o namorado da minha irmã mais velha, passaram em casa e foram presos e levados. Não aconteceu muita coisa com eles. Parece que só foram interrogados. Eu não sei se foi nesse dia, é um testemunho que gostaria de dar, porque já houve uma série de consequências: o Ronaldo Pacheco, que me acolheu na casa dele, também foi levado. Tinha minha idade, tinha 15 anos. Parece que foi bastante maltratado, foi muito torturado. Aos 15 anos. Fiquei sabendo disso muito tempo depois, porque, enfim, uma série de ciircustâncias fez com que a gente não se encontrasse ou ele não contasse. Fiquei sabendo disso há pouco tempo, quando ele me pediu um documento pra ver se ele não conseguia entrar com um processo. Tive que documentar que ele realmente tinha sido preso, porque não havia testemunhas. Só não sei por que o Ronaldo exatamente. Talvez pela circunstâncias de ser um meninão. Ele chegou lá em casa preocupado comigo, e o pegaram. Nem vi ele ser pego. Acho que ele foi pego na entrada de casa. E eu soube o que aconteceu. Isso foi no dia 21. Do dia 20 pro dia 21. No dia seguinte, minha mãe acorda, eu dormi normalmente, não me lembro do clima ter ficado tenso, enfim….eu era uma garota, não conseguia encaixar muito as coisas…e no dia seguinte, minha mãe me acorda e me diz: “se veste, que a gente vai ter que dar depoimento.” Eu falei assim; “Eu?”…É…Eu me vesti, me lembro de ter colocado uma túnica bem preta, uma calça bem discreta. Aí, de novo, mamãe começou a ficar muito nervosa. Isso mais ou menos às 11h, 11h30 nos colocaram num fusca. Depois, se soube que eles andavam de fuscas pra cá e pra lá, os fusquinhas. Nos colocaram num fusca e nos levaram pra Tijuca, pra Barão de Mesquita, na Tijuca, onde funcionava o Doi-Codi no Rio de Janeiro. Nessa ida para a Tijuca, eles pararam em frente ao Maracanã e nos encapuzaram. Um capuz que vinha daqui até aqui, na altura do peito. A gente estava sentada atrás nesse fusca, um fusca azul, e o rádio o tempo todo passando todas as conversas entre os militares, o código, enfim, a guerra para eles, que eles mesmo falam que a guerra era uma guerra, né? Que eles venciam ou não venciam.
- Você se lembra do que eles falavam no rádio?
- Falavam em código. Sempre em código. Havia uma movimentação paralela ao que estava acontecendo em casa, havia um controle dentro de casa. Eles por fora já viam uma movimentação. Mas sempre me pareceu uma coisa muito ingênua. Você dentro de um fusca, encapuzada, parece um teatro, né? Bom, aí nós paramos na Barão de Mesquita, fomos levados para o Doi-Codi, e me separaram da minha mãe. Nós fomos separadas. Eu fui revistada de alto a baixo, em todos os sentidos, uma coisa desagradabilíssima. Fui revistada por um homem inclusive.
 

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:48

…levei choque e abusaram de mim”

- Ele pegou no seu corpo?
- Inteirinho, em todos os cantos possíveis. Eu estava ainda encapuzada. Tinha um cheiro muito ruim esse capuz. A partir daí, fomos separadas, eu e minha mãe. Eu vi uma vez só minha mãe durante 24 horas em que eu fiquei presa. A gente foi colocada numa espécie de corredor. Esse corredor, aos poucos, foi se tornando um corredor polonês. Então, passavam os guardinhas e, ou davam um choque na minha cabeça, e me chamavam de comunista, ou tentavam abusar de mim. E eu não sabia onde estava a minha mãe. Mas o mais terríivel desse momento foi quando comecei a ouvir as torturas horríveis que aconteceram nesse país. As pessoas pediam pelo amor de Deus que parassem de bater.
- Você estava de capuz?
- Estava de capuz…
- Mas estava ouvindo…
- Estava ouvindo. Ouvindo tudo. E eram torturas, assim, monstruosas…As pessoas berravam….
- O que você ouvia?
- Berros. “Pelo amor de Deus parem com isso”, `Pelo amor de Deus, não façam mais isso”.E berros, berros, berros.. Isso era intermitente… Mas a coisa que mais me chocou, isso me chocou também, mas a coisa que me deixou mais anestesiada foi a violência que vi na frente. Havia pessoas sentadas no chão, acho que meninos universitários. Toda vez que passavam um militar dava um chute neles. Eu não sei em que região, mas davam um belo dum chute, ao ponto de eles berrarem ou tentarem se controlar, mas berravam. E eu comecei a ver esse castigo do meu lado, quer dizer, já não era um castigo na sala ao lado. Então, fui levada para o interrogatório. O primeiro interrogatório foi bastante cruel. O interrogador era um sujeito que se chamava “o Cirurgião”. Nesse momento, tinha pau de arara do lado, sangue no chão. Eu não conseguia saber, era uma sala pequena, fechada, sem janelas. Havia uma mesa entre mim e ele. Ele tinha uma grande planilha na frente, onde ele organizava, talvez, a vida de todas as pessoas amigas de papai e de mamãe. Então, ele foi me perguntando de algumas pessoas amigas de papai, entre elas Waldir Pires, Raul Riff, o grupo do papai no Rio de Janeir, o Bocayuva Cunha, se não me falha a memória…esses três eram mais ligados a papai:Waldir, Bocayuva e o Ryff. Havia mais algumas outras pessoas. “Quem são essas pessoas?”, perguntou. Eu falei: “São amigos de meu pai”…”São terroristas?” “Não, não são terroristas”,respondi.”Você sabe que seu pai era comunista?” Não sei se meu pai é comunista, mas ele devia conhecer alguma coisa de Marx” . Eu me lembro que o interrogatório foi nesse nível. Até que surgiu nesse lugar, na minha frente, uma coisa absolutamente absurda, que foi um trabalho. Eu tinha uma professora de História, eu estudava no Notre Dame de Sion, que é um colégio bastante careta, no Rio de Janeiro, bastante tradicional.E a gente tinha uma professora de História bárbara e, nessa época, era a revolução tcheca. Eu tinha feito um trabalho imenso sobre a revolução da Tchecoslováquia, sobre a liberação ou a tentativa de liberação da Tchecoslováquia, que alíás foi uma coisa muito linda, a Primavera de Praga. Fiz junto com o Raul Ryff no departamento de pesquisa do JB. O Ryff me abriu muita coisa. Eles pegaram esse trabalho e viraram pra mim e falaram assim: “Então você também é comunista”. Primeiro, perguntaram se meu pai era comunista. Puseram o trabalho na minha frente e falaram isso.
- Um trabalho escolar?
- Um trabalho de 15 anos de idade para o primeiro colegial. Isso. Sobre a Primavera de Praga, que na verdade é até uma coisa muito romântica, mas muito interessante, que todos os jornais noticiaram. Não havia segredo em relação à Primavera de Praga. Eu olhei para o interrogador. Lembro-me que eu fiquei realmente muito brava, muito humilhada, foi uma série de sensações que, enquanto eu estava me anestesiando naquele corredor, nesse momento a coisa me atingiu pessoalmente, porque estava mexendo num trabalho que tinha feito.
- Você se sentiu ameaçada pessoalmente?
- Não chegou a isso nesse momento. Ainda era uma ameaça em relação à minha professora, ao conhecimento que eu estava adquirindo e às coisas que eu estava aprendendo. Foi a primeira vez que comecei a ver o que era a realidade da prisão, da tortura, enfim de cerceamento de expressão. Eles estavam pegando o meu trabalho escolar, bonito, muito bem feito. Por que não poderia falar disso se havia saido em todos os jornais?
- Eles trataram um trabalho escolar como uma prova contra você
- Contra mim. Eu fiquei quieta. Tudo o que estou falando era meu pensamento de menina na época mesmo. Pensei: como vou responder a isso? Era uma sensação que vinha direto na tua expressão. Vinha aqui na garganta. Na hora que ele botou o trabalho, a coisa vinha aqui. Como é que eu vou responder uma coisa que faz parte da minha vida? Uma coisa absolutamente natural na minha vida. A segunda reação foi imaginar o que aconteceria coma Ilma, a minha professora. Fiquei preocupada e me calei. Quer dizer, não falei mais nada, resolvi não falar mais nada, porque não sabia quais seriam as consequências. E o clima foi ficando pior até o momento em que alguém entrou na sala e falou para o interrogador: “Doutor Cirurgião, estamos precisando do senhor na outra sala…” Aí, ele olhou pra mim e falou: “É, vai embora…” Fui embora de novo. Eles me encapuzaram. Aí o tal de Cirurgião acho que atuou, porque os berros, os gritos dessa sala ficaram enlouquecedores…
- E você perto da sala?
- Não era tão perto. Mas eram tão fortes os berros que eu ouvia.
- Eram gritos de voz masculina ou feminina?
- Masculina. Voz feminina, não ouvi, Nem um momento. A não ser a minha. Depois houve um segundo interrogatório, e comecei a chorar. Começaram a escorrer lágrimas. Ficou violento demais. Ou porque eu já tinha entendido onde estava, não sei…
- Mas você sabia onde estava, que seu pai estava lá, que sua mãe estava lá…
- Uma menina de 15 anos queria entender onde estava. De mamãe e de papai, eu não sabia. Os meus pais teriam discernimento para saber onde estavam. Eu, não.
- Mas você não os viu lá?
 Encontrei minha mãe uma vez, vou te contar. Mas durante esse primeiro instante, até ser levada para uma cela, eu não sabia onde estava, o que estava acontecendo comigo. Por que eu tô tomando choque na cabeça? Quando você está encapuzada, fica atentando para outros sentindos que funcionam. Então, você faz com que teus outros sentidos funcionem e fica em função deles. Eu comecei a chorar. Uma certa hora depois, acho que durou uma hora e meia ou duas, teve um segundo interrogatório. Fui levada de novo. Então cruzei com a minha mãe encapuzada, e ela encapuzada, na porta dessa sala, me disse.”Filhinha, tudo bem?” “Tudo bem, mamãe, e você?” “Tudo bem, filhinha…” E aí ela saiu quando entrei. Eu não vivi mamãe, porque estava encapuzada…E não sei se ela me viu. Ela não chegou nem a me tocar… Foi uma voz de mãe…”Filhinha”…tudo bem? Uma voz muito doce e aí eu entrei e sentei na mesa já com uma segunda pessoa, uma segunda pessoa bastante mais tranquila, agradável, mais madura, cabelos mais brancos. Eles não tinham identificação, eles tinham uma placa de metal branca.
- Para poder tapar o nome, será?
- Ele estava à paisana e a insígnia sugeria uma patente, alguma coisa. Ou seja, que eles teriam uma patente de interrogador. Não sei, é até bom saber que tipo de patente tinha um interrogador. Era uma curiosidade. Bom, enfim… Aí, nessa hora falei pro sujeito: “Escuta, eu tenho 15 anos de idade, a única coisa que eu sei dessa história é que vocês não têm direito de me prender e – não sei como sabia disso – vocês podem me prender até 24 horas. A partir daí não existe essa prisão. Gostaria que você tirasse esse capuz, porque está me incomodando, reclamei. Reclamei durante 15 minutos e o sujeito me ouviu. Ele era bem mais manso do que o anterior. Contei que estavam passando a mão em mim, me dando choques. Ele prometeu que daria um jeito. E me ouviu. O meu trabalho escolar continuava em cima da mesa. De novo me assustei, por mim e pela minha professora. Então rolou uma conversa: “Quem é seu pai? Quem são os amigos do seu pai? Quem é que ele recebe em casa?” A coisa foi bem mais amena. E fui contando pra ele. Não podia dizer quem não era amigo e quem não frequentava a minha casa. Aí, era uma loucura
- Aí era uma questão pública também…
- Era uma loucura. Não pude esconder, Tanto que depois que sai da prisão, avisei a todas as pessoas que eu tinha falado os nomes. Eu falei de vocês, porque foi perguntado e eu tinha que lembrar quem era. Voltei pro corredor. Ele tirou o capuz, e me colocou uma venda. Foi a maior felicidade do mundo, porque eu pude respirar melhor e pude entender melhor onde eu estava. Eu já via as botas ou sapatos passando, eu já via as fardas, quem estava fardado, quem não estava…Eu já via o tamanho do corredor…Eu já via as pernas dos meninos, dos universiitários, jovens que estavam sentados e relaxados.E já pude ter uma sensação de que a vida tinha voltado um pouco… Quer dizer, eu não estava numa situação de morte. Se você anda com aquele capuz, anda com uma sensação de morte. Aí, de novo nesse corredor, até às seis horas da tarde, mais ou menos, começaram os berros de novo. Pela terceira vez e com bastante violência. Cada vez mais violento.
- O que você sentia ouvindo estes berros?
- Horrível. Eu não sei a sensação… Não conseguia entender que berros eram. Mas eu conseguia sentir que eram coisas muito ruins. Que era uma coisa muito ruim. Eu nunca tinha visto alguém. A sensação de que..eu não consigo ver filme de tortura, nada, acho que em função desses berros… Eu… Se eu não vi, todos os meus sentidores sentiram aquilo… E aí, eu entrei num choro convulsivo. Essa hora realmente eu comecei a chorar e me pegaram, alguém passou e avisou que eu estava chorando… Uma criança chorando aos prantos, menina, né? Loira, vida da praia, apesar de… acho que alguém percebeu que tinha alguma coisa errada. Aí, me pegaram e me levaram pra uma cela… Me tiraram a venda, fiquei dentro de uma cela. Eram várias celas… Todas meio abertas, só tinha em cima um pouco fechado com uma coisinha… Tinha um banheiro e um colchãozinho nojento na cama… E eu fiquei nessa cela das seis horas da manhã até o dia seguinte, não fui interrogada. E durante a noite se tornou uma espécie de depositário, em frente… não dava pra ver porque estava escuro, mas tinha a impressão de que as pessoas estavam com as mãos amarradas, de capuzes e colocadas nessa espécie de dispensário. Como não havia cela pra todo mundo, eu graças a Deus estava sozinha nessa cela… Não sei se graças a Deus ou não, mas ali na frente era um despensáro de pessoas que tinham sido presas naquele dia. Não sei se dormi, não me lembro…sei que de amanhã acordo também com uma coisa muito simbólica, porque começaram a cantar aquela música do Roberto Carlos…Jesus Cristo eu estou aqui… começaram a acordar todo mundo com isso… o quartel acordou com essa música…Aquele meu setor acordou com essa música… Loucura, total e absoluta. E nesse momento comecei a ver…acho que levaram as pessoas que estavam em frente a cela, ficou claro quando o dia clareou um pouco, e eu pude ver os guardinhas, e aí eu estava sem capuz, sem nada…os guardinhas que estavam patrulhando…eu  não sei se celas… eu nunca mais voltei lá pra saber. Não sei se ainda existem,…mas essas celas estavam sendo patrulhadas por jovens todos loiros, de olhos azuis. Inclusive me falaram depois que eram todos recrutas do Paraná e de Santa Catarina. Todos loiros de olhos azuis… Alguém me falou isso depois que sai da prisão…que os recrutas que ficavam no DOI-Codi eram de outros estados…pra evitar confusão. E esses guardinhas…eu era menina…eles deviam ter 18, 19 anos, sei lá…a gente começou a conversar e eu disse: “Escuta, você consegue saber onde está minha mãe?” aí, ele: “Peraí, vou ver.” E foi e disse que mamãe estava estendida no colchão. Ela não se mexia. Isso, a minha mãe. Minha mãe quando está em perigo ou quando tem alguém da família…ou uma mãe quando tem alguém da família…você é mãe…você não se mexe. Eu falei: “ela não se mexe?”…É…”Ela não se mexe, tá muito estranha a sua mãe, tá completamente imóvel…” Bom, você sabe do meu pai? “Ah, teu pai não sei, não” Mas você tem ideia de onde ele esteve? “Olha vou tentar perguntar, mas acho que ele já foi…”Eu falei…ele já foi”. Nesse momento me veio a sensação de que meu pai estava morto. Quer dizer: a sensação de que ele não estava mais com vida. As pessoas já me perguntaram…parece uma coisa meio esotérica, meio mística…A sensação que eu tenho é que não sentia mais a vida dele. E que a partir daí minha grande preocupação passou a ser minha mãe. Quer dizer: eu meio que já estava apagando a figura do meu pai…E muito preocupada com a minha mãe., porque apesar de depois ter se tornado uma pessoa muito forte, ela tinha a fragilidade de uma mãe de família, de cinco filhos, que se dedicava ao marido. Apesar de mamãe já ter diploma universitário, de ser uma pessoa estudada, enfim, de ser uma pessoa bastante relacionada ao seu marido e vivendo a vida dele, quer dizer, era uma mãe de família. E eu estava presa, eu tinha 15 anos. Nessas horas, depois você fica imaginando o que pode ter passado pela cabeça dela. Tudo, né? Aí, chegou exatamente ao meio-dia, que foi a hora em que eu entrei no Doi-Codi, me levaram encapuzada pra uma outra sala, uma sala que não era uma sala de interrogatório…uma sala…me fizeram sentar e foram muito sarcáticos…Aí que comecei a ter a sensação de que papai não estava mais vivo, ou tinha alguma coisa com ele… porque a sensação que eles tinham é que a coisa foi…
- Eles falavam sobre seu pai mas falavam como?
- Não, comigo é como se pronto, acabou, pode embora não tem mais nada aqui pra você… Como quem diz: acabou a história… A sensação de que papai tinha morrido foi ficando cada vez mais forte, porque uns guardinhas falaram que houve alguma coisa durante a noite… de manhã, parece que foi transportado… Eu ouvia pedaços do que eles conseguiam colocar….Bom aí, também, foi uma cena muito ruim. Quer dizer, foi nessa cena que, dando meu depoimento pro doutor Bravo de ter parado e chorado, porque é uma cena…pode ser que eu venha chorar agora de novo..Eles pegaram a bolsa da minha mãe, bolsa de mulher, com tudo dentro. mamãe fumava, cigarro, documento, entregaram pra mim e falaram assim. Você vai…Eu falei: “Não vou”. Abraçada na bolsa da minha mãe, eu falei eu não vou. Pelo menos, o cigarro vocês deixam pra ela. Não vou sair com essa bolsa aqui de dentro. Eu não tinha aquela bolsa. Aquela bolsa era branca, bege, eu nã me lembro. Tudo dela: óculos, protetor de sol, cigarro…..
- Você acha que eles queria dizer com isso que ele tinha morrido?
- Pois é. Você percebe a sequência de fatos? Quer dizer, a sequência de fatos tá muito clara.
- Tortura psicológica.
- Também. Mas a sensação de que me dá a bolsa da mamãe…e de que “você não tem mais nada aqui dentro, acabou… O que a gente tinha que pegar a gente pegou…” Agora, o que a gente tá tentando resolver é o que ficou. E realmente foi essa a cronologia de fatos que depois aconteceu, foi essa…A tentativa o tempo todo de despistar… ou seja, entrega a bolsa da sua mãe, você leva a bolsa da sua mãe e já começa a despistar por aí, entendeu? Eu me lembro que eu sentava e falava… louca de vontade de sair daquele lugar…e eu disse assim: “Eu não saio”. “A bolsa da minha mãe não vai comigo”. Ela fica essa bolsa. Ele disse: “Não, você vai levar essa bolsa.” Eu disse: “Mas nem o cigarro? A mamãe fuma”…Não, nem o cigarro. Dinheiro? Não, não pode. Aí, vem a coisa da menina de 15 anois. Eu disse: “Tá bom. Aí, falei, Vou embora, porque não aguentava mais ficar ali. Mais meia hora, eu ia enlouquecer ali. Não sei o que ia acontecer. Queria que levasse embora a tal da bolsa da mamãe, que me levasse embora, que fosse embora…Eu saí e me puseram de novo a facha. A facha se tornou minha, inclusive. Eu saí e assinei qualquer coisa. Tirei a faixa, e eles mandaram assinar qualquer coisa, no mesmo galpão onde eu tinha sido revistada, né? Entrei de novo dentro do fusca. E alguem virou pros dois, que sempre era uma dupla, o motorista e o carona, e deixem ela em algum lugar. E me deixaram na praça Saens Peña, na Tijuca. Eu me lembro que olhei prum lado, olhei pro outro e tinha uma padaria na minha frente. Entrei na padaria.
- Nesse momento você sentiu desamparo? O que você sentiu?
- Não, eu me senti muito…Eu não me senti desamparada em momento nenhum… Gozado… Desde o começo até hoje… Eu me sentia forte. Porque eu tinha tido um pai e uma mãe muito fortes. Eles eram, essa exposição que teve aqui. você pode ver, eles eram um casal bastante feliz, bastante unido e acho que isso…já era uma estrutura que eu tinha e usei essa estrutura. Tanto que eu entro nessa padaria, nesse bar, telefonei para o Bocayuva Cunha pra ele vir me buscar, porque era o melhor amigo do meu pai. Sentei no balcão e pedi um milk shake. Um sundae, pedi um sundae…Adorava sorvete…Sundae é uma coisa…Eu estava com a bolsa da minha mãe, com o dinheiro dela, podia comer um sundae…Entendeu? Me lembro que comi esse… Comi nada, lembro que chegou o sundae, dei uma colher, mas estava assim. De repente eu tinha saido de um lugar horrível, horrível, do inferno…e com a bolsa da minha mãe, agarrada nela, continuava agarrada na bolsa da mamãe e tinha ligado pra um amigo do meu pai, que estava vindo me buscar…aí, que vi que alguma coisa já sabia, quer dizer as coisas estavam caminhando …quer dizer, ele estava vindo me buscar, eu estava solta, estava comendo um sundae, estava me alimentando, que eu não tinha comido o tempo todo…e estava agarrada na bolsa dela, quer dizer, alguma coisa eu tinha, né? Aí chegou o Bocayuva com um médico, que era um médico de família…eu me esqueci o nome dele, acho que já é falecido também….
- Aí você chega em casa e não tinha nem pai nem mãe.
- Aí, o Bocayuva foi me pegar. Era um carrinho pequeninho do Baby… E nessa hora, também, tive uma crise de choro. Ele me perguntou você está bem? Eles viram que eu estava bem e me levou direto, não me lembroi se ele me levou direto pra casa dele. A casa do Bocayuva, o apartamento do Bocayuva, ficava a alguns quarteirões na mesma praia do Leblon, na frente, mais pra perto…do final da praia do Leblon. Eu acho que ele me levou pra casa. Meus avós maternos estavam em casa… Eu não estava entendendo absolutamente nada, mas algum devia ter avisado, porque eu estava com dois irmãos menores dentro de casa. O Marcelo tinha 10 anos e a Beatriz tinha 9 anos, a Babiu. E estava minha avó materna, que é deliciosa, e meu avô também estava lá. Fui pra casa e entrei, assustada, com aquela bolsa da mamãe agarrada…
- E o que eles falaram para você?
- Eu não posso…Sabe que eu não tenho…Acho que é por isso que a coisa aí bloqueia entre irmãos, porque eu não tenhoi lembranças nenhuma de conversa com os dois.
- Mas os policiais te disseram alguma coisa do que aconteceu com seu pai?
- Não. Só me falaram: “leva embora a bolsa da sua mãe”…A partir daí, aconteceram… Mamãe ficou 12 dias presa….e eu dentro da cadeia consegui fazer com que o guardinha mandasse recado pra ela de que eu estava bem. Parece que aí ela deu uma relaxadinha.. Quando ela saiu da prisão, fiquei. sabendo que ela ficou sabendo dois dias depois que eu tinha sido solta. Então durante dois dias mamãe ficou, deve ter ficado completamente imobilizada.
- Sem saber o que tinha contecido com a filha dela, de 15 anos… aí veio uma longa espera
- Aí vieram doze dias, em que gostaria de contar essa parte, que gostaria de agradecer essas pessoas…apesar de todos eles, a não ser Waldir Pires, que está vivo…ex-governador da Bahia, que está vivo… Mas esse grupo de papai se reunia na casa do Bocayuva Cunha, que também tinha sido deputado federal, e pra tentar tirar papai da cadeia e mamãe também… A primeira ação foi através de uma ação na imprensa internacional, onde o Raul Ryff comigo escrevemos uma carta..essa carta está na exposição Rubens Paiva…eu vi essa carta depois de muito tempo..eu escrevi três ou quatro vezes…O Ryff foi lendo e me dando…Não, aqui você precisa explicar melhor…Eu fui explicando melhor o que era, o que tinha acontecido…Essa carta foi publicada na imprensa internacional inteira…muito legal, a ação que eles queriam fazer foi feita…Raul Ryff foi um herói o tempo todo…Waldir Pires e Bocayuva Cunha tentaram mobilizar embaixadores americanos e o pessoal no exterior. Então, era a única forma de tentar do exterior saber o que estava acontecendo, porque por dentro a experiência que eles tinham é que, através das informações internas, não se conseguia nada. O que era importante, e foi a estratégia deles que foi muito boa, tentar liberar os dois o mais rápido possível, porque tudo poderia acontecer. Mamãe e papai presos. Eu continuo a dizer que a partir desse momento eu não me preocupava mais com papai, não sei por quê. Minha grande preocupação era mamãe. Eu durante esses doze dias fiquei em suspensão…Eu não me lembro de dormir, não me lembro de conversar com meus irmãos…Eu lembro de todos os dias eu punha meu maiô, era férias e ia pela praia até a casa do Bocayuva, nós tinhamos uma reunião e eu voltava, E não saía quase de casa…com meus avós…Até um dia que mamãe aparece na porta de casa, muito magra, eu senti aquele cheiro de prisão nela, você sente de novo aquele cheiro. Subiu, tomou banho e eu relaxei. Virei uma adolescente de 15 anos de novo e, a partir daí, sim começou a longa espera… começou a longa espera mais para os pais do meu pai, que perceberam que a coisa era grave, que eles poderiam estar perdendo um filho, e pra eles foi muito triste, foi muito duro…E eles começaram a mobilizar tanto que acho que seis meses depois a gente se muda para Santos, onde moravam os pais dos meus pais e meus avós me receberam numa espécie de palácio, eles alugaram, compraram uma casa imensa…E esse meu avô se chama Jayme de Almeida Paiva…Ele tentou de todas as maneiras comprar informantes de dentro do Exército, o que ele podia, o que ele conseguia… O que ele conseguia, eu sei que ele dava muita grana, porque ele era rico… Era bem sucedido….A reposta era espera…O teu filho vai ser solto, não se preocupe .E via minha avó. Minha avó era uma pessoa muito alegre também, muito parecida com meu pai. Vovó Cici…Uaraci Beyruth…era de origem alemã, muito alegre, muito esperta, muito feliz… era bem meu pai… quando via minha vó chorando, pra mim era uma coisa rara… e voltou a vida de famíla, só que com meu avô…o que não era desconhecido, porque meu avô tinha uma fazenda no Vale do Ribeira e a gente passava as férias inteiras com ele. Minha avó e meu avô, então era fácil
- O que era, o que foi… chegavam essas informações desencontradas… você em algum momento teve esperança de ver seu pai de novo?
- Sim, sim. Porque eles tinham muita esperança. Eu não sabia muito bem, na verdade eu estava muito confusa. Essa sensação de que meu pai tinha morrido era uma coisa muito minha, muito pessoal, muito intransferível. Não podia contar para as pessoas. Eu conto hoje em dia. Já contei para alguns amigos, mas eu nunca contei pros meus irmãos. Pra minha mãe, eu nunca contei isso. Tanto que na hora que vinha as informações eu pensava, cá comigo, isso é inútil, isso é inútil….mas é uma coisa de sensação. Não tinha realidade, não tinha nenhuma realidade. A relidade se construiu com meu avô, quer dizer, quanto mais ele tentava penetrar nesse mundo, mais ele tinha contra-informação, informação cruzada, informação que não era verdadeira…. Houve um certo abuso, mas o próprio Exército tentou tanto esconder isso, esse fato, que as próprias pessoas que estavam tentando informar o meu avô, acabavam se afastando…a impressão é essa…eles tentavam informar o meu avô, um ou outro levava dinheiro e imediatamente eles se afastavam
- Nessa história em suspense, quando é que você realizou o luto pelo seu pai?
- Eu nunca realizei…Eu fui realizar no inicio desse ano, quando o Vladimir Sacheta cria uma exposição chamada…nome muito bonito até…aqui nesse lugar onde a gente está fazendo essa entrevista, que é o antigo Deops de São Paulo… E que todas as imagens do meu pai, da minha mãe e todas as coisas que tinham acontecido estavam pelos muros e pelas paredes desse lugar… Aí foi muito dificil…Tanto que não vim na inauguração, eu chorava muito… Eu estava no Rio de Janeiro e chorava muito. E os meus irmãos, meus tios, todos me ligavam… venha, venha, venha… eu não tive coragem de vir… porque eu chorava muito, no Rio de Janeiro, eu chorava 24 horas por dia, sem ainda ter visto a exposição, mas foi exatamente quando houve… acho que tudo, a partir dos 15 anos, uma resistência que fui adquirindo… a resistência se rompeu aí, em um dique de choro de menina…não consegui…só consegui vir no último dia da exposição… continuei de mão dada com a minha irmã e chorava muito. Mas o Vladmir, que é o curador da exposição, sujeito muito sério, estava presente e foi me mostrando algumas coisas. Coisas, inclusive, documentos bastante importantes, que ele conseguiu reunir e eu fui entendendo o histórico…aí, o histórico contado de uma maneira objetiva, e aí eu fui acalmando…Foi aí que,,,,Não é que eu realizei o luto…Foi aí que realizei o que tinha acontecido…O luto eu nunca vous saber o que é, do meu pai,. Como a gente não tem o corpo dele, a gente nunca teve o corpo dele, nem informação, é uma coisa que não sei, não vi meu pai morto. Nenhum de nós viu o pai morto, meus avós não viram o filho morto. Então, nenhum de nós realizou o luto até hoje. O luto pra cada um foi sendo realizado de uma maneira muito particular. A minha foi na exposição, quando veio à tona a carta que eu escrevi…e a minha madrinha, que foi…tem uma história muito sutil…..A gente só conseguiu provar que papai tinha sido preso, porque a minha madrinha, que foi ao Rio de Janeiro… papai foi com o próprio carro pro Doi-Codi e o carro estava no estacionamento do Doi-Codi. A minha madrinha, Reneé Paiva Guimarães, irmã mais velha dele, foi buscar o carro e ao buscar o carro ela teve que assinar um recibo de que ela tinha pego o carro… E com essa cópia de recibo conseguiu se provar que papai tinha sido preso. É a única prova que existe. Isso tudo, o Vladimir, como curador colocou nessa exposição Epitáfio, que teve um nome muito bonito…Até esse recibo tava…nas paredes do… Aí a gente começa a contar a história, que vira linear, vira objetiva, vira concreta, quer dizer papai, mamãe, os filhos, os avõs, a prisão, a minha carta, o recibo da minha tia, isso aí deu pra realizar…Ou pelo menos, o que aconteceu, não sei se a gente pode chamar de luto, mas luto acho que a gente só realiza na hora que a gente vê, não sei…Mas na hora que a gente vê a pessoa morta e enterra essa pessoa…É uma coisa que nunca me questionei muito…´É o que eu falo…Já sabia que ele estava morto, isso sempre foi de certa forma pra mim já era revelado…”

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:44

Promotor: “Crime de sequestro permanece”

        “Rubens Paiva, Mário Alves de Souza, Stuart Angel Jones e Carlos Alberto Soares de Freitas foram presos pelos órgãos de segurança em 1971 e desapareceram. Os dois primeiros, segundo testemunhas, foram torturados e mortos no DOI-Codi, na Rua Barão de Mesquita. Stuart Angel foi espancado e arrastado por um carro com a boca no cano de escape na Base Aérea do Galeão. Carlos Alberto, o Beto, morreu na Casa da Morte, centro de tortura clandestino das Forças Armadas em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Os corpos nunca apareceram. Os quatro casos estão entre os 39 do Rio e do Espírito Santo reabertos no Rio pelo promotor da Justiça Militar Otávio Bravo. Ele achou um novo caminho jurídico.
- O Supremo Tribunal Federal equiparou o desaparecimento forçado, quando é feito por agentes do Estado, ao crime de sequestro, que permanece. Só se encerra quando aparece a pessoa ou o corpo. O crime aconteceu antes de 1979, mas será que terminou antes de 79? Como essas pessoas, inclusive Rubens Paiva, continuam desaparecidas, o raciocínio jurídico é que o sequestro continua em curso. Se o corpo aparecer, então é crime de ocultação de cadáver.
Ele sustenta, com base nisso, que nesses casos não se aplica a Lei da Anistia, que encerrou os crimes praticados antes de 1979. Bravo está tentando recuperar no Supremo Tribunal Militar arquivos antigos, como o inquérito de 1986 sobre o caso Rubens Paiva. Ele foi aberto logo após a redemocratização. Os militares pressionaram e, por decisão da Procuradoria Geral Militar na época, o inquérito foi arquivado. Bravo ainda não obteve os originais desse inquérito.
Para apurar o caso de Carlos Alberto, o Beto, o promotor ouviu como testemunha Inês Etienne Romeu, que, milagrosamente, sobreviveu à Casa da Morte e, depois, conseguiu localizar o imóvel. Ela declarou que ouviu dos militares que estavam lá que Beto desapareceu na Casa.
- Mandei um documento aos comandos militares pedindo informações e todos os documentos existentes sobre a Casa da Morte. Os comandantes militares entendem que ainda têm status de ministros e me informaram que eu não podia requisitar. Encaminhei o pedido à Procuradora Geral da Justiça Militar, que enviou o pedido. Eles responderam que não há informação – diz o procurador.
O promotor acha que há documentos dentro das Forças Armadas sobre esses fatos ou, pelo menos, informação sobre como foram destruídos.
- O militar destruir documento é crime. Quando um militar destrói um documento, ele tem que fazer um termo explicando a decisão.
Bravo foi a primeira autoridade a ouvir, após 40 anos, Eliana Paiva, uma das filhas de Rubens, que, aos 15 anos, foi presa, agredida e interrogada no DOI-Codi, no dia seguinte à prisão do pai. Portanto, testemunha-chave.
- Nem no IPM de 1986 a Eliana foi ouvida. Isso é inacreditável – comenta o promotor.
Bravo lamenta que o Brasil tenha a “mácula” de ser o único país da América Latina que não investigou crimes do regime de exceção, mas diz estar confiante com a instalação da Comissão da Verdade. O promotor de 43 anos, filho e neto de militares, rejeita o argumento de que há dois lados a serem investigados”.

  • Sexta-feira, 02 Março 2012 / 13:41

General: “Dilma não foi torturada”

 

           ”O general Luiz Eduardo Rocha Paiva acha que a Comissão da Verdade, para não ser “parcial e maniqueísta”, tem que convocar também os que participaram de ações armadas, direta ou indiretamente. Não hesita em perguntar até se a presidente Dilma Rousseff não tem que depor:
- Ela era da VAR-Palmares, que lançou o carro-bomba que matou o soldado Mario Kozel Filho. A comissão não vai chamá-la, por quê?
Rocha Paiva se refere ao atentado ocorrido em 26 de junho de 1968 no Quartel-General do II Exército, em São Paulo. Até 2007 Rocha Paiva ocupava posição de destaque no Exército. Foi comandante da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército e secretário-geral do Exército. Abaixo, trechos da entrevista:
- Por que o senhor é contra a Comissão da Verdade?
- Ela busca a reconciliação nacional depois de 30 anos, e não há mais cisão alguma que tenha ficado do regime militar. Se há alguma coisa a investigar, é só usar a Polícia Federal, e, com vontade política, a presidente tem autoridade para ir até onde ela quiser, respeitada a Lei de Anistia. A Comissão da Verdade não é imparcial. É maniqueísta. O objetivo é promover o esclarecimento de torturas, mortes, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres. Por que não promover também o esclarecimento de atentados terroristas e sequestros de pessoas e aviões, e de execução e justiçamento até de companheiros da luta armada?
- Quem era contra o regime foi punido, preso, torturado, exilado. O que o senhor acha desse argumento?
- Acho que não cola. Nem todos os assassinos, terroristas, sequestradores são conhecidos. Os que planejaram ou estiveram no apoio logístico e no financiamento, não são conhecidos. O ministro Ayres Britto, do STF, reconheceu, em parecer, à revelia da Lei da Anistia, o direito dos que se sentiram vítimas do regime militar de mover ações civis indenizatórias contra ex-agentes do Estado. No momento em que se abre esse precedente, quem for ouvido na Comissão da Verdade poderá estar produzindo provas contra si próprio. Os que sofreram com a luta armada também deveriam ter o mesmo direito.
- O ex-deputado Rubens Paiva sumiu dentro de um batalhão do Exército. A família há 41 anos busca informação e não tem. O Exército não tem a obrigação de dar informação?
- É emblemático o caso Rubens Paiva. Por quê? O homem foi deputado, das classes favorecidas, e todos se preocupam com ele e com Stuart Angel, também. Agora, por que os crimes do PCdoB no Araguaia, de perseguição e morte de mateiros, que eram guias das forças legais, não são emblemáticos?
- O senhor não acha que tortura é um desvio?
- Isso é um desvio, ninguém está dizendo que não. Agora, não foi anistiado? Não é desvio também aqueles grupos armados revolucionários da esquerda, que seguiam linha maoísta, linha soviética, linha cubana, que queriam implantar uma ditadura nos moldes dos países responsáveis pelos maiores crimes contra a Humanidade no século passado? Existiu uma luta, foram cometidos desvios pelos dois lados.
- Um lado foi punido. A presidente Dilma ficou presa três anos e foi submetida a tortura.
- Ela diz que foi submetida a torturas. A senhora tem certeza?
- Ah, eu acredito nela…
- Ah, e eu não sei.
- O senhor acha que essas suas opiniões contra a Comissão da Verdade são compartilhadas por pessoas na ativa?
- Olha, não tenho dúvida de que é geral. Agora, a gente tem que ver o seguinte: o que um militar na ativa pode falar? Não pode falar contra o governo. Os chefes militares cultuam hierarquia, disciplina e também justiça. Ante a iminência de uma injustiça que vai ser perpetrada contra seus subordinados, eles têm obrigação moral e funcional de – com franqueza, disciplina, dentro da lei – levar sua posição a seus comandantes superiores. Se não fizerem isso, não são dignos de serem chefes.
- Acha justo que os torturadores não sejam conhecidos?
- Não vejo por que eles têm que aparecer agora, porque estão anistiados. Por que não tem que aparecer também quem sequestrou, quem planejou? Se uma autoridade de hoje tiver participado; até a presidente Dilma tiver participado, seja diretamente ou indiretamente, que aí é cor-responsável, de um crime que tenha deixado sequelas com vítimas, vai haver a Comissão da Verdade? A presidente vai aparecer? É isso que a senhora quer depois de 30 anos?
- O senhor nunca ouviu sequer falar que havia tortura dentro do Exército?
- Miriam, sempre se falou. Agora, quando é que não houve tortura no Brasil? Quer fazer um cálculo comigo? A senhora pega o livro “Brasil, nunca mais”, da insuspeita Arquidiocese de São Paulo, de dom Paulo Evaristo Arns. Fizeram pesquisas nos arquivos do STM. Levantaram 1.918 torturados. Se a senhora dividir isso pelo tempo da luta armada, são dez anos. Doze meses no ano e 30 dias, a senhora vai ter menos de um torturado por dia. Aí esse número de 1.918, depois que sai o bolsa-ditadura, sobe pra 20 mil torturados. Se a senhora fizer essa mesma conta que eu fiz, a senhora vai chegar a seis torturados por dia. Então uma média de meio torturado por dia, se é que se pode dizer assim, e seis. A senhora vai ter em torno de quatro torturados por dia por conta da luta armada.
- O senhor não acha que é mais inteligente da parte das Forças Armadas admitirem que houve o erro? Até para preservar a instituição?
- Não vejo por que pedir perdão se não houve nenhuma cisão social remanescente do regime militar. Quando saiu o regime militar, e começaram a fazer pesquisas, as Forças Armadas já estavam no topo das instituições de maior credibilidade do país, acima até da imprensa. Então, por que essa instituição precisa pedir perdão?
- Porque é crime, general.
- Foi anistiado, insisto nisso. Não tem que pedir perdão coisa nenhuma.
- Vladimir Herzog foi se apresentar para depor e morreu.
- E quem disse que ele foi morto pelos agentes do Estado? Nisso há controvérsias. Ninguém pode afirmar.
- Por que os militares que estavam lá naquele momento não esclarecem tudo na Comissão da Verdade?
- Existe um inquérito e está escrito no inquérito. Chame os oficiais que estão ali. Chame a pessoa e escute. Agora, chame também quem pode ter mandado matar ou quem pode ter dado a ordem para assassinar o capitão Chandler, assassinado na frente do seu filho. Quem fez, a gente sabe. Foi a ALN. O senador que foi relator da Comissão da Verdade, do projeto de lei. Aloysio Nunes Ferreira era da ALN. Será que ele não tem alguma coisa? Vamos chamar o senador na Comissão da Verdade? Sim. Por que não? Vamos chamar a presidente Dilma? Ela era da VAR-Palmares. E a VAR-Palmares foi a que lançou o carro-bomba que matou o soldado Mario Kozel Filho. Ela era da parte de apoio. Será que ela participou do apoio a essa operação? A Comissão da Verdade não vai chamá-la, por quê? Entende? Minha posição é essa”.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 18:55

O despropósito do PPS

O deputado Raul Jungmann  (PPS-PE) ? ministro de Fernando Henrique e patrocinador da viagem da Sra. Julia Pinto a Paris, pago com dinheiro da Câmara ? brindou os telespectadores, no horário gratuito de propaganda eleitoral, com a afirmação de que Lula age como Collor na questão da poupança.
Aqui a análise da competente e insuspeita jornalista Miriam Leitão em seu blog:
?É um despropósito a propaganda do partido PPS que tem sido veiculada, como foi na noite de sábado.
Ela acusa o governo Lula de querer “mexer”na poupança como o governo Collor.
O que o governo Lula pretende fazer com a poupança não tem nada a ver com o que fez o governo Collor.
Collor fez “confisco” e prendeu as aplicações nos bancos por dois anos.
Lula pretende diminuir a rentabilidade da poupança alegando que precisa abrir espaço para queda dos juros. Sobre o assunto, o próprio Lula não é sincero quando diz que faz isso para “proteger” os pequenos poupadores. A verdade é que ele pretende fazer isso para que a poupança não fique mais atrativa que os fundos de investimento que compram títulos públicos e que são os produtos oferecidos aos poupadores com maior poder de poupança.
O confisco do Collor e a mudança de remuneração da poupança não podem ser comparados e fazer isso é manipular um velho trauma brasileiro.
A maioria dos economistas acredita que hoje a remuneração da poupança em TR mais 6% e sem recolhimento de IR é um teto para a queda dos juros. A queda da Selic torna menos rentáveis os títulos públicos. Com isso, os investidores podem passar a botar o dinheiro na poupança. E o Tesouro terá dificuldades em rolar a dívida. Está criado um desajuste macro. Por outro lado, os bancos bem que poderiam reduzir suas taxas de administração dos fundos para, pelo menos, garantir mais rentabilidade nos fundos.
A briga política quando chega na economia provoca muitas distorções e seria lamentável a manipulação desse fantasma agora. É preferível que os partidos de oposição avaliem o que será feito e em cima disso critiquem.
O que temos criticado aqui é a insistência com que Lula e Mantega dizem que vão mudar a poupança, sem explicar as novas regras. Isso eles não devem fazer porque cria incerteza no pequeno investidor?.

  • Terça-feira, 18 Maio 2010 / 4:10

O debate de Dilma e Miriam Leitão

‘O Globo’ de hoje publica reportagem sobre a entrevista de Dilma Rousseff na rádio CBN, e diz que “como aconteceu com o tucano José Serra, Dilma também discutiu com a jornalista Míriam Leitão, que participou da entrevista de ontem da radio”. O jornal reproduz o diálogo entre elas, mas o fato de terem discutido é normal, já que tratava-se de um debate.
Mas de maneira alguma pode-se comparar a entrevista de Dilma com a de José Serra. O tucano disse que Miriam estava falando “bobagem”. E repetiu. Depois disse que não poderia ser bem humorado às 8 horas da manhã. Vejam o debate:
“MÍRIAM: A grande dúvida em relação à senhora é que a senhora nunca demonstrou apoiar políticas que garantiriam a estabilidade da moeda. Por exemplo, controle de gastos. Quando os ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo propuseram reduzir e zerar o déficit público, a senhora considerou a ideia rudimentar. E eles estavam certos. Tanto estavam certos, que a dívida pública, de lá para cá, passou de R$ 1,2 trilhão para R$ 2,2 trilhões. Agora, a senhora tem defendido estabilidade da moeda. Como a senhora mudou de ideia?
DILMA: Oh, Míriam, deixa eu te falar uma coisa: a nossa visão naquela época de ajuste de longo prazo, ela não estava completa. Não estava completa porque a questão do ajuste fiscal de longo prazo é algo que você constrói em relações complexas. Nós mantivemos sempre a trajetória e perseguimos… Aliás, eu queria te esclarecer: eu sou integrante da Junta Orçamentária, era. Todos os cortes de gastos aprovados por este governo foram aprovados com o meu acordo. Todos os superávits primários, e as metas de superávit primário, foram aprovados com o meu acordo. Aliás, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) mostra da nossa parte uma maturidade maior, porque não posso prever um plano de ajuste fiscal de longo prazo em que o PIB começa mais alto e acaba mais baixo. É o inverso. Tenho que prever um plano de ajuste fiscal de longo prazo em que o PIB começa mais baixo e passa para um patamar mais alto. O próprio plano de ajuste fiscal é um fator de elevação do nível de crescimento…
MÍRIAM: Ministra, eu tenho que te interromper. Porque a minha pergunta não está sendo respondida.Está indo por um outro caminho…
DILMA: Estou tentando viu, Míriam. Estou fazendo o melhor dos meus esforços para te responder.No caso do PAC, nós trabalhamos com metas de superávit primário, de queda do déficit nominal e de taxa de juros. Tanto é assim que só porque o valor do PAC, o primeiro valor, R$ 500 e poucos bilhões, era consistente com essa trajetória e você há de convir comigo que o único governo nos últimos (anos) que perseguiu quedas sistemáticas do endividamento foi o governo do presidente Lula…
MÍRIAM: Ministra, os números mostram o contrário. A dívida pública cresceu…
DILMA: É isso (falando alto). Houve queda sistemática do déficit fiscal. É isso que é ajuste fiscal de longo prazo… Você está falando a bruta.
MÍRIAM: A bruta que é a mais importante.
DILMA: Então, vamos discutir porque a dívida bruta cresceu…
MÍRIAM: Deixa eu terminar minha pergunta. O governo Lula, a partir do momento que a senhora assume, e o ministro Palocci sai, começa a aumentar muito os gastos públicos. A senhora estava errada quando atropelou a proposta do ministro Palocci?
DILMA: Me desculpa, Míriam. Você está falando uma coisa que não é correta.
MÍRIAM: Por que não é correta?
DILMA: O momento (em) que nós fizemos o maior superávit primário, tão grande que nós podemos constituir o fundo soberano, foi em 2008. Você está errada no que se refere a números. Além disso, você falou em dívida bruta, sabe por que cresceu? A nossa dívida líquida, você concorda que é cadente? Nós fizemos um pequeno desvio diante da crise, muito necessário para a gente poder sair da crise sem grandes consequências. Aliás, o Brasil tem um dos menores déficits nominais, é uma das menores dívidas/PIB, a relação dívida líquida sobre PIB.
MÍRIAM: A senhora estava errada quando atropelou o ministro Palocci, a minha pergunta inicial?
DILMA: Só um pouquinho, me desculpa, eu acho que você está errada no conceito. Não houve essa questão. Nós temos perseguido cada vez mais, aprimorado, a nossa política de ajuste de longo prazo. Tanto é assim que, no caso da dívida bruta, as razões pelas quais ela cresce são o fato de a gente ter construído US$ 250 bilhões em reservas. Você sabe tão bem quanto eu que, se eu quiser reduzir a dívida, as reservas têm liquidez imediata, o compulsório que nós liberamos US$ 100 bilhões. O Banco Central liberou US$ 100 bilhões para os bancos e, ao fazê-lo, isso foi diante de crise. E por fim liberamos US$ 180 bilhões para o BNDES, um pouco menos do que isso, a título de garantir empréstimo e investimento de longo prazo e impedir que as empresas brasileiras tivessem menos oferta de crédito. Então, não se pode discutir dívida bruta no Brasil sem dizer por que ela aconteceu. Senão, é como a gente lançar plumas ao vento. Eu digo que a dívida bruta subiu e não digo porque ela é, por exemplo, completamente diferente da dívida bruta da Grécia, que está quebrando. Nós não estamos quebrando, estamos cada dia mais robustos. Agora, que é importante entender, você está pegando uma discussão de 2005, que era como faremos. Sabe como fizemos? Colocamos o investimento na ordem do dia, mantivemos talvez nessa trajetória a maior queda nos últimos tempos da dívida líquida sobre PIB, e do déficit nominal. Fomos interrompidos pela crise? Fomos. Para sairmos de 3,6%, 3,3% do superávit primário e só fizemos 2,1%. Este ano, estamos repondo. A mesma coisa houve também no déficit nominal. Nós estávamos numa trajetória de queda do endividamento. Acho que a grande conquista fiscal do Brasil foi desindexar a dívida externa brasileira das moedas externas. Foi altamente relevante”.

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