• Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 16:46

A trinca e o coringa

                                             Eliane Catanhêde*

         O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi salvo na última hora pelo desabamento de prédios no Rio. Não fosse a tragédia, as principais imagens e conversas políticas pelo país afora seriam sobre Kassab levando ovos no dia do aniversário da capital paulista.
Com Kassab virando omelete, o PSDB dividido irrecuperavelmente e Dilma fazendo bonito nas pesquisas, o PT recupera fôlego e sai a galope para a prefeitura, onde joga o seu futuro. Como já dito aqui, se Fernando Haddad -que fez 49 anos- se eleger prefeito da principal capital do país, estará automaticamente na lista de presidenciáveis de 2018.
Quando FHC diz que Aécio Neves é a opção “óbvia” para a Presidência, empurra Aécio para uma arena inglória. Em 2014, será a chance de o PSDB paulista fazer com Aécio o que ele fez com Serra e Alckmin em 2002, 2006 e 2010: jogá-lo aos leões -ou leoas. Dilma não terá mais só a aura de Lula. Tenderá a ter também a sua própria popularidade e, no rastro dela, a união dos governistas.
O jogo que está sendo jogado é, sobretudo, para 2018, com um trio que tem o impulso da renovação natural e se destaca desde já: Aécio pelo PSDB, Haddad pelo PT e Eduardo Campos (PSB) como um pêndulo entre os dois, mas na verdade querendo ele próprio concorrer.
Os três apontam para o futuro da política, mas há diferenças: Aécio é neto de Tancredo, e Campos, de Miguel Arraes. Enquanto eles têm a articulação política no sangue e a liderança nos seus partidos, Haddad tem que comer na mão de Lula, aprender os primeiros passos com Dilma e evitar acidentes “em casa” – no PT.
Kassab circula bem entre PSDB, PSB e PT, como um coringa que pode reforçar a cartada de um dos três. Deve, porém, ajustar sua (ótima) capacidade política e sua (medíocre) popularidade. A questão geracional ajuda a definir o jogo e os jogadores, mas não é o único fator. É apenas uma imposição da política, como da vida.
*Eliane Catanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:46

Os covardes socialistas

 O presidente do PSB, Eduardo Campos, oficializou, há pouco, a decisão do partido de não apresentar candidato a sucesão do Presidente Lula.
Esses são os responsáveis pela covardia impetrada contra o deputado Ciro Gomes, que se vê impedido, definitivamente, de concorrer à Presidência, por ação direta ou omissão dos seguintes políticos:
Eduardo Campos, presidente
Roberto Amaral, 1º vice-presidente
Beto Albuquerque, 2º vice-presidente
João Alberto Capiberibe, 3º vice-presidente
Alexandre Cardoso, vice-presidente de Mobilização e Formação Política
Wilma de Faria, vice-presidente de Relações Federativas
Renato Casagrande, secretário-geral
Carlos Siqueira, 1ºsecretário
Antônio Carlos Valadares, 2º secretário
Márcio França, 1º secretário de Finanças
Severino Nunes de Araújo, 2º secretário de Finanças
Luiza Erundina, secretário especial
Milton Coelho, secretário especial
Jaime Cardoso, secretário especial
Sérgio Gaudenzi, secretário especial
Rodrigo Rollemberg, secretário especial
Sérgio Novais, secretário especial
William Dib, secretário especial
Mari Machado, secretário especial
José Antonio Almeida, secretário especial
Ademir Andrade, secretário especial
Isaias Silvestre, secretário especial
Dora Pires, secretária de Mulheres
Alex Nazaré, secretário de Juventude
Joilson Antonio Cardoso do Nascimento, secretário Sindical
Rodrigo Rollemberg, líder na Câmara dos Deputados
Antônio Carlos Valadares, líder no Senado Federal
Cristina Almeida, coordenadora do Movimento Negro
Maria de Jesus Matos (Natividade), coordenadora do Movimento Popular
Ao negar legenda ao deputado Ciro Gomes, eles decidiram cassar a preferência de cerca de 15 milhões de eleitores que, em princípio, acreditavam na proposta do candidato.
Tudo leva a crer que o PSB, ao entrar menor nas eleições de outubro, sairá dela ainda mais diminuto.
Hoje, ele tem cerca de dois minutos, no horário gratuito de TV, para oferecer ao PT.
Nas próximas eleições, seu tempo será menor e o partido menos importante.
Dr. Arraes com certeza ficou triste com o episódio.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:25

Memórias de Jarbas na briga com Arraes

Da repórter Cecília Ramos, do ‘Jornal do Commércio’, do Recife:
“Amigos brigam. Amizades terminam. Mas quando os personagens são dois importantes nomes da política de Pernambuco e do Brasil a história começa a ficar mais interessante. Os ex-governadores Miguel Arraes (PSB) e Jarbas Vasconcelos (PMDB) passaram de aliados a inimigos ferrenhos sem sequer terem o direito à última briga presencial e definitiva, de troca de insultos, acusações. Nada. E por essas curiosidades da vida, o motivo teria sido o governador Eduardo Campos (PSB), neto de Arraes. Jarbas, em meio a definições do seu futuro político próximo, que inclusive tem Eduardo, de novo, no destino, contou sua versão para um dos rompimentos políticos mais emblemáticos do Estado.
A versão, diga-se, casa com o que o JC já ouviu também pelo outro lado. Os detalhes (que, sim, fazem a diferença) sofrem variações. Mas sobre o mesmo tema: o motivo era pôr ou não Eduardo, então jovem deputado estadual, na chapa de Jarbas a prefeito. Óbvio que anterior a essa celeuma, houve desgaste de lado a lado. Era uma segunda-feira de setembro de 1992, 17h, quando Dudu foi à minha casa, no Rosarinho. Ele usava uns ternos claros, lembro como se fosse hoje. Tirou e colocou na cadeira. Ai disse que Doutor Arraes e Luciano Siqueira (hoje vereador), que comandava o PCdoB, queriam ele (Eduardo) como vice-prefeito (na chapa de Jarbas). E que não era ele, Dudu, que queria, mas que precisava ouvir minha opinião.
Ai eu disse a ele que Doutor Arraes ia ser candidato em 94, e assim foi. E que naquele momento, eu me apresentando como candidato a prefeito do Recife e Dudu como vice, pareceria que ele estava de conchavo. Eu estava botando um neto de Arraes para ser meu vice para eu ficar amarrado e não poder concorrer com Arraes ao governo em 94. E Dudu balançava a cabeça, concordando com todas minhas ponderações. E eu disse: Dudu, você é novo. Está com uma bela atuação na Assembleia, vai dar saltos mais altos… E outra coisa, Arraes tem dificuldade (de voto) no Recife. Não ganhava. Como eu ia justificar eu agarrado com o neto dele? E Dudu concordou. Só que eu soube que depois que ele saiu lá de casa e seguiu para a casa do avô, em Casa Forte, e disse que eu vetei ele. Pronto. Foi a desgraceira. Dali em diante não falei mais com Dudu. E a relação com Arraes ficou péssima de 92 até ele falecer em 2005.
A reflexão que Jarbas fez do episódio é o de que não sente orgulho disso. Foi muito ruim, guardo lembranças surreais, como quando eu ganhei para Arraes no governo e ele não foi transmitir o cargo e não botou ninguém, ficou lá o Palácio abandonado. Ou quando ele não me cumprimentava. Ora, eu, prefeito, e ele governador (1985), a gente almoçava no Palácio toda quinta. Ele mandava fazer um cabrito para mim. Doutor Arraes tinha muita sensibilidade.
Jarbas, então deputado federal, conta que viajou até Paris em 1977, para conhecer Arraes, a convite do próprio, que estava exilado na Argélia. A partir daí, começou a relação de admiração mútua, porém conflituosa. Jarbas organizou o comício que marcou o retorno de Arraes do exílio, em 1979. Duas coisas me marcaram em Arraes, antes de eu conhecê-lo pessoalmente: o que o governo dele fez na Zona da Mata, de cumprir a lei federal para pagar salário ao trabalhador rural, e a saída de Arraes do Palácio, preso em abril de 1964. Arraes caiu com extraordinária dignidade. Muitos ali teriam intransigido.
Jarbas diz que Arraes sempre teve um pé atrás com ele. Arraes dava uma dimensão muito grande essa coisa de espaço político. Eduardo herdou. Jarbas disse ter convivido muito pouco com Eduardo. Quantos anos Dudu tem?. Informado que era 44, fez as contas. Jarbas tem 67 e ambos aniversariam em agosto. São 23 anos de diferença entre ele e eu. E de mim para Arraes, 27 anos, mas éramos de outra geração. Os caminhos de Jarbas e Eduardo, porém, sempre se cruzaram. Na gestão Jarbas na prefeitura, em 1985, o hoje governador foi oficial de gabinete do então secretário de Governo, Fernando Correia (conselheiro do TCE). Eu vim conhecer Dudu, quem ele era mesmo, em 92 (ano da briga).
Por conta desse histórico, há implícito que a disputa de outubro pode ser um acerto de contas, caso Jarbas seja o candidato. A chance de Eduardo dar um troco à campanha ao governo em 1998. Eu ganhei para Arraes com 1 milhão e 80 mil votos de diferença. Tive no Recife 400 mil votos e Arraes 80 mil. E ganhei no interior por 200 e poucos mil votos. Foi uma campanha bonita, relembra Jarbas, com a votação de cor. Indagado se acha, então, que esta eleição pode ter gosto de revanche, Jarbas fez um silêncio, mas depois disse: Não sei. E o que Dudu acha disso eu também não sei. Não me importa”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:25

Jarbas: angustia e indefinição

Da repórter Cecília Ramos, para o ‘Jornal do Commércio’, do Recife:
“Era uma terça-feira à tarde, quando a reportagem do JC chegou ao gabinete do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB), no Congresso, sem avisar. Informado pela secretária, atendeu de pronto. Estava sozinho, lendo uns papéis sobre a mesa. Era o clipping feito por sua assessoria com notícias sobre ele e outras que o interessam. A primeira página estampava uma matéria com uma foto do senador ao lado da do governador Eduardo Campos (PSB). ?Repare só… Olha quem está aqui??, disse, apontando para a foto-montagem e soltando um sorriso. Conversa vai e conversa vem sobre o cenário político, ele topou conceder uma entrevista que começou naquele dia, tomou a tarde seguinte e o pedaço de uma manhã.
Em pleno almoço-entrevista, já na quarta, em um restaurante de Brasília, Jarbas pediu: ?Posso fazer uma confissão boba? Todo mundo sabe que eu sou amante de futebol. Mas você sabia que eu, duas vezes prefeito, duas vezes governador, nunca fui para uma copa do mundo por conta de eleição?? E contou nos dedos que perdeu a da Alemanha, Espanha, França… E este ano, a Copa na África do Sul? Respondeu com os ombros indicando não saber. ?Este mês é decisivo para mim.? E falou que gostaria de cuidar mais da sua vida, parar de fumar, viajar mais. Depois, retomou o assunto político. Se empolgava ao falar, ano por ano, desde 1970, de todas as suas vitórias e derrotas. ?Em 2002 eu já não queria disputar o governo?, pontuou.
Jarbas está a poucos dias de decidir ser ou não candidato ao governo. Estava disposto a falar. Contou sobre como está sua cabeça, hoje. Fez mea culpa sobre a ?oposição desarticulada? em Pernambuco, ao mesmo tempo que mostrou porque é uma liderança no grupo. Sem amarras e até de forma saudosa, falou (e muito) da sua relação de admiração e disputas com o ex-governador Miguel Arraes (falecido em agosto de 2005) e com o neto do mito, o governador Eduardo Campos (PSB), a quem Jarbas deve enfrentar em outubro, se for candidato. Eles não se falam, como aliados, desde a noite de uma segunda-feira de setembro de 1992. Foi o ano do rompimento de Jarbas com o grupo de Arraes e o pivô teria sido Eduardo. Ou melhor, ?Dudu? ? como Jarbas chamou o adversário em boa parte da entrevista. ?Não me orgulho disso (da briga) e nem acho um negócio arretado. Foi ruim.?
Memória política à parte, o senador teceu comentários fortes sobre o governo Eduardo. Mas o foco do senador, ao menos por hora, pareceu cravar, desde já, um discurso que justifique sua candidatura ao governo do Estado. Jarbas está indo para o sacrifício, pois, além de não ter o desejo de disputar, a oposição vive uma adversidade brutal, fora do poder nos três níveis e sem organização. Eduardo é considerado favorito e tem o presidente Lula como cabo eleitoral. O que resta? Tentar convencer o presidenciável do PSDB, José Serra, principal interessado no projeto Jarbas, a declinar da ideia de empurrar o senador para o pleito. O senador poderia ser mais útil fora da eleição de Pernambuco. Ele é a voz da oposição a Lula em um Estado onde o petista é rei. E se isso não colar, a oposição vai defender a candidatura de Jarbas como um projeto nacional para ajudar o presidenciável que ela julga ser o melhor para o País.
?Este é um mês de definição para mim, de expectativa, de angustia?, desabafou”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:07

Câncer mata filho de Arraes

Do ‘Jornal do Commercio’, do Recife:
 ”O empresário e físico Carlos Augusto Arraes, 59 anos, terceiro dos dez filhos do ex-governador Miguel Arraes (falecido em 2005) foi enterrado ontem no Cemitério de Santo Amaro, no Recife, no jazigo da família. Ele foi vítima de complicações decorrentes de um câncer, diagnosticado em 2007, que atingiu o fígado e a coluna. Tinha se internado no início do mês para tratar de uma pneumonia química, no Hospital São Vicente, no Rio de Janeiro.
O irmão Marcos Arraes lembrou a luta de Carlos Augusto. Estava internado há 20 dias. Esteve no Recife pela última vez em outubro do ano passado. Para combater o câncer, procurou tratamento na China, Inglaterra e Estados Unidos. Chegou a se submeter a um transplante de fígado.
Apesar de nunca ter disputado um mandato ou ocupado cargo público, os familiares revelaram que Augusto teve participação ativa na carreira política do pai, atuando nos bastidores. Aconselhava Arraes e integrava o grupo que definia as estratégias das campanhas. Morava no Rio desde que voltou do exílio, em 1979, mas fazia questão de votar no Recife, onde sempre aparecia para ajudar Arraes. Teve papel importante no apoio financeiro às campanhas, em função da relação que mantinha com grupos empresariais. Trabalhava com exportação e importação.
Com o governador Eduardo Campos, Augusto tinha uma convivência próxima. Hospedava o sobrinho em sua casa, e seus dois filhos têm a mesma idade dos dois filhos mais velhos de Eduardo. Quando a doença do tio se agravou, o governador prometeu acompanhar de perto a educação dos primos.
Muitos políticos foram ao velório e ao enterro de Augusto. O prefeito de São Lourenço da Mata, Ettore Labanca, lembrou qualidades do amigo de infância. Era muito inteligente. Tinha muitos amigos. Sempre trabalhou para sustentar a família, mas nunca quis se envolver diretamente na política. Emocionado, Eduardo Campos não quis conversar com a imprensa. Augusto deixa a mulher, Sandra Leote Arraes, e dois filhos. Um deles chama-se Miguel Arraes de Alencar Neto”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:45

Cristovam, o xerife e o estadista

O senador Cristovam Buarque, do PDT, deu uma entrevista a repórter Raquel Ulhôa, do ‘Valor Econômico’, a quem admitiu vir a se candidatar ao governo de Brasília, embora preferissse concorrer a reeleição para o Senado: “Eu queria terminar a vida como estadista e o GDF é tarefa para xerife”, comentou.
Eis a entrevista:
- O senhor já decidiu se será candidato a governador?
- Acho que a melhor posição que eu posso exercer na política a serviço do Brasil e do Distrito Federal é no Senado. Tenho mais de cem projetos em andamento, um deles é o mais revolucionário do Brasil: cria a carreira nacional do magistério. Não gostaria vê-los parados. As crises do Senado passaram a idéia de que aqui é casa de mordomia, boa vida. Fica parecendo que estou fugindo da luta por interesse pessoal. Eu continuo olhando para o Senado, mas não posso fazer isso de costas para a população. E, quando a população diz que estou querendo abandonar Brasília, fica difícil.
- O que vai pesar em sua decisão?
- Primeiro, o ex-governador Joaquim Roriz não ser candidato. Se ele não for, não precisam de mim para ganhar eleição. Os candidatos quer representam o passado estão tão enfraquecidos, salvo o Roriz, que qualquer um que a gente apresentar vence. E a renovação virá, que é o que o povo quer. O segundo fato que, se acontecer, me libera para disputar o Senado, é as esquerdas se unirem. Se a gente fizer uma frente com oito, nove partidos, incluindo o PT, vamos ter força suficiente até para bater o Roriz. Acho que ele não vai ser candidato, mas só deve decidir isso lá para junho.
- Essa aliança depende do PT?
- No dia 21, o PT vai escolher um candidato (entre Agnelo Queiroz e Geraldo Magela, que disputarão prévias). Espero que saia unido e no outro dia venha conversar conosco, com sete partidos que estão trabalhando juntos (PDT, PSB, PCdoB, PPS, PV, PRB e PMDB).
- Esses sete apoiariam o candidato do PT?
- Nós vamos discutir isso, mas o PT é o mais forte. Eu, pessoalmente, defendo que seja do PT e unifique as forças de esquerda. Qual é o meu medo? Que o PT escolha o candidato e, para se unificar, se feche contra os outros partidos. Ou seja, forme uma chapa só deles: o que perder as prévias vai indicar o vice ou o candidato ao Senado. Isso nos dividirá. Por que, para ficarmos unidos, nós, desses sete partidos, queremos que os outros três cargos majoritários (vice e dois de senador) sejam dessegrupo. O PT seria apenas cabeça de chapa.
- Por que o senhor acha que Roriz vai acabar não se candidatando?
- Primeiro, porque vai se expor a um bombardeio da Justiça e da mídia. Além disso, seria governador pela quinta vez, em condições muito negativas. Ele é um homem fortíssimo. Erra quem menospreza o Roriz. Mas ele está num partido sem tempo de televisão, sem militância na rua.Terá dificuldade de comprar cabo eleitoral. A Justiça vai estar de olho. O que ele poderia é ter voto de gratidão, de quem recebeu lote no primeiro governo dele, que terminou em 94. Mas acho que essa gratidão não vai pesar tanto, porque os que receberam já estão velhos e os filhos não têm a mesma gratidão.
- Então seu destino em outubro está nas mãos do PT e do ex-governador Roriz?
- Se a esquerda se dividir e Roriz estiver na disputa, eu vou ter que ser candidato, porque pelo menos não vai ficar a marca de que o Roriz ganhou sem eu brigar com ele. Ele pode até ganhar, mas ninguém vai poder me acusar de virar as costas. Essa é minha tragédia hoje. Olhar para o Senado de costas para o povo.
- O PMDB era aliado de Arruda. Com ele nesse grupo dos sete, dá para falar em união das esquerdas?
- A palavra esquerda é realmente muito forte. Na verdade, é a união das forças que desejam a mudança. Você pode dizer que o PMDB era o partido do Roriz até pouco tempo. Mas o PMDB conseguiu tirar o Roriz dele. E essa crise do Arruda, eu trabalho como sendo crise de pessoas, não de partidos. Até o Democratas está se recuperando bem, na medida que tirou Arruda, Paulo Octávio (ex-vice-governador) e deputados envolvidos.
- Esse escândalo que levou Arruda para a cadeia atingiu também a Câmara Legislativa. A política aqui está contaminada?
- Você já comparou nossa Câmara, com toda sua fragilidade – não estou desculpando -, a todas as 5.563 Câmaras de Vereadores do Brasil para saber se a nossa é pior?
- O senhor está tratando-a como Câmara de Vereadores mesmo?
- Assim como trato o governador como prefeito. Governador aqui é um prefeito. Quando fui governador, cheguei a discutir a possibilidade de a polícia ser comandada do Palácio do Planalto. Sabe por que? Por uma questão de estadismo. Um dia, pode haver um governador, comandando a PM, com mais tropa que o exército em Brasília, que queira invadir o palácio. Essas mudanças têm que ser discutidas. Realmente, são duas coisas diferentes: a capital e a cidade. Brasília hoje é muito maior que a capital. Brasília tem uma peculiaridade. Todo mundo que faz política aqui entrou na política recentemente. Eu não conseguiria ser eleito governador na primeira eleição que disputasse em nenhum outro Estado. Brasília ainda é um faroeste. Um lugar a ser desbravado. Em algumas áreas evoluiu, como em medicina e na ciência e tecnologia. Na política, a gente chegou atrasada. Aqui não tinha líderes, até porque os governantes eram nomeados. Eram interventores. Ficamos mais tempo da história sem direito a voto do que com voto. Temos existência pequena.Tivemos apenas quatro governadores e quatro Câmaras Legislativas até aqui. A primeira não foi ruim. Mas o fisiologismo chegou lá também. A política virou questão de marketing, compra.
- O fato de ser a capital estimula a corrupção, o fisiologismo?
- Não. É por ser nova, não ter tradição nem lideranças consolidadas. Aqui não teve um Miguel Arraes, um Leonel Brizola, um Antonio Carlos Magalhães, que levaram décadas para criar suas carreiras. Eu saí de uma reitoria para ser governador. Eu me filiei só em 90. Isso é fruto do fato de a cidade ainda estar sendo desbravada em todas as áreas,inclusive na política.
- O senhor acha que o escândalo atual vai forçar uma mudança, uma ruptura em relação à prática política de Brasília?
- Essa é minha esperança: que Brasília, daqui a quatro anos, seja a cidade com o melhor sistema governamental do ponto de vista ético. Não acredito que seja possível o eleitor repetir erros e que os governantes cometam os erros que Arruda cometeu, mesmo que tenham vocação para cometer esses erros. Por uma questão de sobrevivência. Brasília vai poder construir uma novidade na forma de administrar. Aliás, acho até que na campanha. Espero não ser candidato a governador, mas, se for,penso em algumas inovações. Exemplo: divulgar todas as contribuições imediatamente na internet e não receber contribuição para a campanha acima de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. Ao estabelecer um teto por doador você não fica com débito. Quando vier um empresário disputar uma licitação de R$ 500 milhões, não vai poder cobrar nada. Se doou R$ 200 mil já começa a querer cobrar. Coisas como essa podem inovar Brasília.
- Uma intervenção federal não poderia ser uma solução para o momento em que nenhuma instituição é confiável?
- A possibilidade de intervenção está na Constituição. Esse negócio de dizer que é a falência da democracia não é verdade. A intervenção se dá dentro da democracia. Seria falência se fosse o comandante da PM que indicasse o governador ou um empresário rico. Mas não, é a justiça. Mas minha opção é que o governador para esse final de mandato seja eleito pela Câmara Legislativa. Mas, para ter legitimidade, o eleito tem queter cara, cabeça, coração e mão de interventor. Isso é uma das coisas que também me fazem temer ser candidato. Eu queria chegar nessa idade como estadista. O próximo governador vai ser um xerife. A principal prioridade não vai ser a educação. Vai ser a ética. A grande tarefa é construir uma máquina exemplar de governo, em que mesmo ladrão não consiga roubar e nem os desonestos possam ser corruptos. Essa vai ser a obrigação. Por isso não sou entusiasmado em ser candidato a governador.Não é o que eu gostaria de deixar como marca: construir um governo ético. Queria deixar como marca a mudança na sociedade e não na máquina do governo. Repito: não gostaria de terminar a vida como xerife, queria terminar como estadista.
- Sua proposta significa uma intervenção legalizada pela Câmara.
- É isso. E por que essa sutileza? Por que a intervenção não é um abalo na democracia, mas é um abalo na classe política. É o fracasso da política. E o fracasso da política é ruim pedagogicamente. A ideia que  vai passar é que foi preciso a Justiça intervir, porque os líderes daqui não foram capazes de encontrar uma saída. Falo da autonomia de 2 milhões de habitantes. É uma população do porte de outros Estados. A gente vai cortar a autonomia do Acre, de Rondônia? Por que cortar autonomia da população do DF?
- Mas essa Câmara, que tem entre seus deputados pessoas envolvidas no escândalo, tem condições de eleger uma pessoa com o perfil que o senhor defende?
- Essa é uma pergunta que não dá para responder ainda. Ninguém dizia, há duas ou três semanas atrás, que eles iriam aceitar o processo de impeachment do Arruda. E votaram por 17 a 0. E eu acho que vão cassar o Arruda.
- Há quem diga que ele pode apoiar um candidato em outubro. Acredita que ele ainda tenha alguma influência política no GDF?
- Tem. A gente fala muito dos lotes. Mas esquece que, como Brasília é Estado e prefeitura, o número de cargos comissionados é muito grande.Acho que são 35 mil num total de 150 mil servidores, mais ou menos.Aqui o governador se fortalece dando aumento salarial e distribuindo lotes. Um candidato apoiado por ele não teria chance de ganhar, mas teria muitos votos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:31

Lula, vítima só se fortalece

  ?O Globo? não se emenda.
Seu oportunismo continua a mil.
O jornal publica, diáriamente, uma página de opinião. Poderiam ser duas, três, mas seus editores acreditam que dois editoriais por dia estão de bom tamanho.  Isso ocorre por falta de assuntos, ou de articulistas, ou para economizar papel, ou para não chatear os leitores ? a razão mais plausível, já que o jornal sabe, e sabe muito bem, que sua liderança no Rio deve-se, única e exclusivamente, a qualidade de seus repórteres e colaboradores. E não de seus editoriais. Há anos, a ?voz do dono? não forma a opinião de absolutamente ninguém, embora isso não seja um fenômeno exclusivo de jornal carioca.
Como ninguém lê seus editoriais, o jornal decidiu editorializar algumas reportagens. E raro o dia em que ele não encontra nada para criticar o Presidente da República. E sempre em meio ao noticiário, o que não é bom para uma publicação que, há 85 anos, luta para conquistar credibilidade.
O interessante é que, apesar de fazerem parte de uma mesma organização, a linha editorial do jornal, nada tem a ver com a da televisão, que é diferente linha adotada na radio.  Mas isso não é assunto para hoje. O fato é que ?O Globo? é atualmente o jornal mais reacionário do país e, por conseqüência, o maior crítico do Presidente,
Ulysses Guimarães tinha uma bela imagem sobre o seu MDB. E Lula poderia se utilizar dela, para ironizar as críticas que recebe do jornal:
- Assim como o PMDB de Ulysses, Lula é igual a pão-de-ló. Quanto mais ele apanha, mais ele cresce.
                                                 * * *
O Presisente esteve ontem em Santiago  – em ?uma visita relâmpago? – para encontrar-se com Michelle Bachelet,  e conhecer suas reais necessidades, depois que parte do Chile foi devastado por um terremoto que matou centenas de pessoas, e feriu outras milhares, além de destruir cidades inteiras no interior do país.
?O Globo? não gostou da viagem de Lula, e decidiu reclamar, na primeira página e, também, num  ?box? na página 26, de sua ausência nas “tragédias domésticas”.
Vejam a reportagem:
?A prontidão com que o presidente Lula se dispôs a se deslocar para o Chile para prestar solidariedade às vítimas do terremoto que atingiu o país no sábado se contrapõe à atitude que adotou em outras catástrofes no Brasil. Em dois acidentes aéreos, por exemplo, que vitimaram cerca de 350 pessoas, o presidente sequer foi ao local para prestar condolências aos familiares.
No caso do voo 1907, da GOL, que em setembro de 2006 caiu após se chocar com um Legacy da Embraer pilotado por dois americanos, Lula divulgou uma nota de pesar. No acidente da TAM, em julho de 2007, o presidente demorou três dias para fazer um pronunciamento na TV, lastimando a tragédia e prestando solidariedade às vítimas. Ele só recebeu uma comissão de familiares em agosto.
Com enchentes, ocorreu o mesmo. Em novembro de 2008, por exemplo, 84 pessoas morreram em Santa Catarina.
As cheias atingiram 14 cidades. O presidente demorou pelo menos uma semana para ir ao estado e sobrevoar as áreas. Isso também ocorreu em maio do ano passado, quando a chuva deixou mais de sete mil famílias desabrigadas em 21 municípios do Piauí e também no Maranhão?.
Vamos lá.
O Presidente Lula foi ao Chile, e prometeu enviar um hospital de campanha, além de quatro equipes de resgates para tentar salvar sobreviventes, muitos ainda embaixo dos escombros. E mais: ajudará na reconstrução do Chile.
                                            * * *
Agora vejam os exemplos do ?Globo?.
Primeiro ele reclama da ausência do Presidente em dois episódios de desastres aéreos, um da Gol e outro da TAM, quando, como se sabe, lamentávelmente, não houve sobreviventes. Mas o  que ?O Globo? queria? Que o Presidente descesse, por uma corda, no meio da selva amazônica para ajudar no regaste dos corpos? O que ele iria fazer lá? E em São Paulo, no desastre da TAM onde os corpos foram carbonizados? Será que o jornal queria que o Presidente participasse do reconhecimento das arcadas dentárias ou ele deveria prometer ajuda a TAM na reconstrução do galpão onde o Airbus caiu?
Há quem possa argumentar que Sarkosy apressou-se a ir ao Aeroporto Charles De Gaulle,  quando soube do desaparecimento do vôo da Air France, que havia saído do Rio, e não pousara em Paris. Mas esse é um caso totalmente diferente.
1 ? Além de ter a sua bandeira, o Airbus era de fabricação francesa. Sarkosy foi ao aeroporto menos pelas vítimas, e mais pela indústria francesa.
2 ? Na hora que Sarkosy foi ao aeroporto, ainda havia a esperança de sobreviventes, já que o avião estava desaparecido e não se tinha noticia da explosão do aparelho.
Lula, ao contrário do que pensa ?O Globo?, não foge de seus cadáveres, embora saiba que, como todo mortal, ele é impotente diante deles. Mas não se furta a homenageá-los e reverenciá-los.
Há dias, ele fez isso com o grupo de soldados e oficiais do Exército mortos no terremoto do Haiti. Antes já havia ido ao velório da Dra. Zilda Arns, em Curitiba. Ao longo de seus dois mandatos, ele compareceu ao velório dos governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes, dos deputados Carlos Wilson e João Hermann Filho ? os dois no mesmo dia, um no Recife e o outro em Campinas ? se emocionou, às lagrimas, no de Dona Ruth Cardoso, compareceu a outros protocolares, como o do Papa João Paulo II, e até mesmo de adversários, como foi o caso do Dr. Roberto Marinho, que ainda ganhou luto oficial por três dias.
O que ?Globo? quer mais? Que o Presidente fosse a cada um dos 350 sepultamentos dos que morreram na Gol e na TAM?  Por que deveria comparecer? Porque viajavam de avião? Por que não cobram a presença do Presidente em enterros dos que morrem  em naufrágios em rios da Amazônia, em acidentes de ônibus nas estradas brasileiras  (normalmente ônibus de excursões), ou nos de motoboys atropelados diariamente no país?
Reclamam que o Presidente demorou uma semana para sobrevoar áreas que sofreram enchentes em Santa Catarina. Mas ao que se saiba, no primeiro dia não houve enchente, houve uma chuva forte, assim como no segundo. Os rios foram enchendo e aos poucos transbordando. Lula esteve lá quando as enchentes estavam no seu ápice. Ele não foi nem na cheia, nem quando o problema estava diminuindo.  O mesmo vale para as chuvas do Piauí e do Maranhão.
Lula viajou para o Chile, pois lá existem sobreviventes, e muitos ainda estão debaixo dos escombros. E é preciso encontrá-los e resgatá- los.
Lula viajou para o  Chile, pois o país perdeu quatro mil leitos hospitalares, e eles precisam de um hospital de campanha para que possam continuar salvando vidas. 
Lula viajou para o Chile, pois parte do país precisa ser reconstruído. E ele não poderia reconstruir nem o Boeing da Gol que se espatifou na Amazonia, e muito menos o Airbus da TAM que ardeu em Congonhas. O Presidente não tinha o que fazer em nenhum desses lugares.
É pena que ?O Globo?, jornal editado no Rio de Janeiro, não tenha a mesma disposição para criticar as ausências do governador Sergio Cabral, em muitas das tragédias que assolaram o Estado nesses três anos de seu governo. Mesmo quando o jornal trata de assuntos corriqueiros da cidade, a preocupação de preservar o chefe do Executivo é notória e, na maioria das vezes, desavergonhada. Aqui, Cabral não tem nada a ver, com absolutamente nada. E esse é o único ponto que une ?O Globo? e o Presidente Lula. Os dois estão unidos, de mãos dadas, para preservar Cabral.
No Rio, o que não falta é a ausência do governador do Estado, mas ?O Globo? finge que não vê.
Haverá o dia em que, por puro entusiasmo, ?O Globo? publicará um editorial reclamando, por hipótese,  da ausência de Lula na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde morreram 90 toneladas de peixes, num dos maiores acidentes ecológicos do Rio, enquanto o governador continuará sem ser entrevistado sobre o assunto. Nem sobre esse, nem sobre nenhum outro.
São poucas as vezes que Cabral emite alguma opinião. Mas, nessas horas, ele manda avisar àqueles a quem ele patrocina.
Lula, por sua vez, continuará apanhando pelo o que fez, pelo o que deveria ter feito, pelo o que deixou de fazer, pelo o que pensou em fazer e não fez, pelo o que fizeram por ele em seu nome, ou mesmo sem o seu conhecimento, e por tudo o mais.
E  o pão-de-ló continuará crescendo ? deixando perplexos àqueles que ainda se julgam poderosos, e se imaginam capazes de dominar corações e mentes.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:15

Prisão de Arruda é marco histórico

Do jornalista e professor da USP, Gaudêncio Torquato, no ‘Estadão’:
“A prisão do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, é um marco na História brasileira. Nos nossos ciclos democráticos não há caso de detenção de uma autoridade com tão alto grau de responsabilidade. Seixas Dória, governador de Sergipe, e Miguel Arraes, governador de Pernambuco, foram apeados do poder em 1964 e presos, mas por uma ditadura. Mais recentemente, Jackson Lago, do Maranhão, Marcelo Miranda, do Tocantins, e Cássio Cunha Lima, da Paraíba, tiveram o mandato cassado, mas não foram presos. Se a detenção de Arruda não gerou impacto à altura da magnitude do evento foi porque os tambores do carnaval abafaram este último samba de Brasília. E também porque o desfile de gente importante na entrada de cadeias, seguido da soltura dos detidos após algumas semanas, passou a ser corriqueiro no cotidiano da agenda social e política. Mas a dança que o governador ensaiou – a partir de cenas explícitas de recebimento de dinheiro e corrupção de testemunha – tende a arrastar para o mesmo salão deputados distritais, secretários e assessores, num dos maiores imbróglios de nossa política, e, para complicar, em pleno ano eleitoral, quando o eleitor está mais atento ao comportamento de atores no palco.
O principal mandatário da capital federal é o governador. E o símbolo mais elevado da política nacional é Brasília, cuja estética se finca no sistema cognitivo dos brasileiros pela arquitetura de Niemeyer, que se expressa nas curvas dos palácios do Planalto e da Alvorada e nas cúpulas côncava e convexa do Congresso Nacional. Parcela desse traçado modernista, exibido como cartão-postal do País, se impregna nas vestes do governante da capital federal, também visto como anfitrião. Ora, ao ser trancafiado, o condômino-chefe de Brasília corrobora a ideia de que a velha política não é requisito de grotões e fundões, onde os costumes são regrados pela lei do toma-lá-dá-cá. E assim o governador, envolvido no episódio da violação do painel do Senado, que redundou na renúncia ao mandato de senador em 2001, contribui para expandir a descrença social na representação política. Mas o affaire, sob outra leitura, melhora a percepção de uma das mais repudiadas mazelas nacionais, a impunidade. A tolerância à corrupção e a falta de castigo para os delitos estão por trás das causas da má fama dos políticos. Se a sinalização é de que as mazelas “não são mais passíveis de ser escamoteadas”, como lembra o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, que rejeitou o pedido de libertação de Arruda, renasce a esperança de que a Justiça finalmente bate à porta de todos os brasileiros.
A verdade é que o Poder Judiciário tem dado sua contribuição para o crescente distanciamento entre sociedade e esfera política. Por aqui, desde o passado mais longínquo, se cultiva a ideia de uma Justiça leve com os ricos e pesada com os pobres, na lição do filósofo Anacaris: “As leis são como as teias de aranha, os pequenos insetos prendem-se nelas e os grandes rasgam-nas com facilidade.” Não se trata apenas da incapacidade ou disposição do Estado de fazer cumprir a lei, mas da existência de normas consideradas benevolentes ou inconsequentes para com os crimes. Benevolência, aliás, sempre fez parte de nossa cultura normativa, principalmente quando voltada para assistir os habitantes mais elevados da pirâmide social. Em 1549, para dar exemplo de que a lei chegava para valer, Tomé de Souza, o governador-geral, mandou amarrar um índio na boca de um canhão, que o atirou pelos ares em pedaços. Encheu de pânico os tupinambás, mas as atrocidades eram tantas na época que o perdão acabava chegando aos criminosos – com exceção dos crimes de “heresia, sodomia, traição, moeda falsa e morte de homem cristão”. O instituto do perdão, da tradição portuguesa, era usado para fins de povoamento. O velho Tomé chegou a confessar, em carta ao rei, a dificuldade de mandar enforcar pessoas de que necessitava – “e que não me custem dinheiro”, escreveu. Precisava delas para os ofícios cotidianos.
Quem se der ao exercício de examinar a balança da Justiça vai perceber que a balbúrdia, o jogo de conveniências e o descumprimento do estatuto legal – que descambam para a insegurança institucional – fertilizaram o solo jurídico desde os tempos idos. Práticas coloniais, regadas com água das fontes do mandonismo, inviabilizaram ou fizeram curvas na aplicação da lei, acompanhando o ritmo do progresso. Códigos como o Criminal e o de Processo Criminal, implantados no Império, resistiram ao tempo, chegando quase incólumes à atualidade. Por mais que o império da lei seja hoje a palavra de ordem, a moldura d”outrora se faz presente no “abandono de princípios, na perda de parâmetros, na inversão de valores, no dito que passa pelo não dito, no certo pelo errado”, conforme palavras do ministro Marco Aurélio. Daí a importância, neste momento, do papel do STF, porquanto dele se espera o regramento definitivo que balizará comportamentos e atitudes. Figurões de todos os naipes terão de se curvar diante do altar da Justiça. Só assim será possível quebrar a corrupção banalizada que devasta a gestão pública.
No ano do 50º aniversário de Brasília, a figura do seu governador no xadrez é emblemática. A imagem é a do último fio de um rolo que vem sendo puxado por gente de diferentes calibres partidários – incluindo os mensaleiros do PT – flagrada pela tecnologia a serviço da moralidade. Ao fundo vê-se um corpo cívico que clama por ética na classe política. José Roberto Arruda sai do governo para entrar na História como o primeiro governador preso por corrupção. Em 1860, o viajante suíço Johan Jakob von Tschudi, ao passar por aqui, indagava: “Quantas vezes aconteceu no Brasil de um homem rico e influente sentar-se no banco dos réus a fim de se justificar por seus crimes?”
Se, naquela época, fidalgos fossem condenados à forca, como escravos, índios e peões, hoje seguramente não teríamos episódio tão degradante quanto este que mancha o Palácio do Buriti”.

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