• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:43

A Igreja e as esquerdas

 

Marina Silva, beneficiária

Marina Silva, beneficiária

    Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econômico’, assina a reportagem mais interessante do dia:
“O PT foi fundado, em 1980, de uma costela dos movimentos populares ligados à Igreja da Teologia da Libertação. A ligação entre ambos, todavia, não é mais a mesma. Houve uma “despetização” desses movimentos. O setor progressista católico botou o pé para fora do partido que hoje está no governo da União e se move com mais desembaraço nos movimentos sociais do que fora do circuito de poder, e nos movimentos políticos suprapartidários, como o que resultou na aprovação do projeto Ficha Limpa, no dia 19 de maio.
As bases católicas progressistas ainda votam de forma majoritária no PT, mas não se misturam com o partido e são proporcionalmente menores que nos anos 80 e 90. Primeiro, porque a própria instituição perdeu a sua centralidade, com a redemocratização. “Nos anos 70 e 80, a Igreja era o guarda-chuva para a sociedade civil na defesa de direitos, um abrigo para os movimentos sociais e um centro de atividade política. Quando abriu o regime, não precisou mais exercer esse papel, porque floresceram outras institucionalidades”, analisa o padre José Oscar Beozzo, da Teologia da Libertação – o veio de reflexão da Igreja de esquerda latino-americana que foi condenado à proscrição nos papados de João Paulo II e Bento XVI, acusado de tendências materialistas, mas que resiste nas bases sociais católicas de forma mais tímida e “de cabelos mais brancos”, segundo Beozzo, e com mais dificuldades de reposição de quadros, na opinião de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um de seus teóricos.
Na democracia, a atividade partidária não precisa estar mais abrigada na Igreja, nem a Igreja tem a obrigação de ser o grande protagonista de movimentos políticos civis: “No movimento do Ficha Limpa, houve um trabalho conjunto com setores laicos. É melhor trabalhar assim”, afirma Beozzo. “Sem a capilaridade da Igreja, dificilmente o movimento conseguiria reunir 1,6 milhão de assinaturas para a proposta de iniciativa popular”, relativiza o juiz Márlon Reis, um dos organizadores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
De outro lado, também foi gradativamente se reduzindo o espaço de atuação da Igreja progressista nas bases sociais. Isto se deve à evasão dos setores mais pobres das igrejas católicas, que rumam celeremente para templos evangélicos, e à política sistemática de esvaziamento dos setores católicos progressistas por Roma. A igreja da Teologia da Libertação ocupa um espaço, junto às classes menos favorecidas, a que os tradicionalistas não conseguem acesso. Quando esse setor tem seu acesso reduzido a estas bases, a adesão ao catolicismo também diminui. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, 89,2% declaravam filiação ao catolicismo em 1980; em 2000, eram 73,8%. Em 1990, esse índice era de 83% – um ritmo de queda muito aproximado a 1% ao ano nos dez anos seguintes. As religiões evangélicas eram a opção de 6,7% da população em 1980; já trafegavam numa faixa de 15,4% dos brasileiros em 2000. Segundo dados do Censo, subiu de 1,6% para 7,3% os brasileiros que se declaram sem religião.
O IBGE parece confirmar a teoria de Frei Betto em relação à origem dos que saem do catolicismo em direção às igrejas evangélicas: enquanto, na população total, 73,8% se declaravam católicos no Censo de 2000, esse número subia para 80% nas regiões mais ricas e entre pessoas de maior escolaridade.
Segundo Beozzo, a Igreja Católica encolheu nas comunidades onde viscejava o trabalho pastoral da igreja progressista. “Hoje a igreja é minoritária nas comunidades. Para cada três igrejas católicas, existem 40 pentecostais.” Além da perda de fiéis para as igrejas católicas nas periferias urbanas, a Igreja católica tem perdido também para os que se declararam sem religião. É a “desafeição no campo religioso” a que se refere Beozzo.
Para Frei Betto, todavia, as perdas respondem diretamente à ofensiva da hierarquia católica contra a Teologia da Libertação. Essa é uma posição que foi expressa também pelo bispo emérito de Porto Velho, dom Moacyr Greghi, na 12ªInterclesial, no ano passado, quando as comunidades eclesiais de base surpreenderam ao reunir cerca de 3 mil delegados num encontro cujo tema era “CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”. “Onde existirem as CEBs, os evangélicos não entram e os católicos não saem de nossa igreja”, discursou dom Moacyr.
Segundo teólogos, padres e especialistas ouvidos pelo Valor, processos simultâneos mudaram as feições da ação política da igreja. A alta hierarquia católica fechou o cerco contra a Teologia da Libertação, quase que simultaneamente à redemocratização do país e à emergência de instâncias livres de participação democrática – partidos, sindicatos, organizações não-governamentais e movimentos organizados.
O PT, principal beneficiário dos movimentos de base da Igreja, se autonomizou e absorveu quadros originários das CEBs, das pastorais e das ações católicas especializadas (JEC e JUC, por exemplo). Ao tornar-se poder, pelo voto, incorporou lideranças católicas, mas também decepcionou movimentos que estavam à esquerda do que o partido conseguia ir administrando o país e mediando interesses de outras classes sociais. “As bases estão insatisfeitas, mas têm medo de fazer o jogo da oposição, que está à direita do governo”, analisa Frei Betto. “Tem uma parte dessa militância que tem pavor da volta do governo tucano”, relata o candidato do P-SOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio.
O espaço do PT nas bases católicas ficou menor depois da ascensão do partido ao poder e da crise do chamado Escândalo do Mensalão, em 2005 – quando foi denunciado um esquema de formação de caixa 2 de campanha dentro do partido. Hoje, a relação dos católicos progressistas com a legenda não é mais obrigatória e os militantes de movimentos católicos de base são menos mobilizados e em menor número. Os partidos de esquerda acabaram incorporando um contingente da base católica que continua partidarizada, embora o PT ainda seja majoritário.
“O PT continua sendo o partido que tem mais preferência dos militantes das Comunidades Eclesiais de Base, mas existem partidários do P-SOL e tem gente que saiu do PT para militar com a Marina Silva, do Partido Verde”, conta o padre Benedito Ferraço, um ativo militante . Em alguns Estados, como o Maranhão, onde existia uma militância histórica do antigo MDB autêntico, da época da ditadura, ainda se encontram bases católicas progressistas pemedebistas, segundo padre Ferraço. O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, que milita junto a setores da Igreja na defesa da reforma agrária – e assessora a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o tema – tem a adesão de líderes de movimentos da Igreja ligados à questão agrária. Contabiliza o apoio do ex-presidente da Comissão Pastoral da Terra, o bispo emérito Dom Tomás Balduíno. Marina – que, embora tenha abraçado a religião evangélica, tem na sua origem política a militância nas CEBs – recebeu a adesão do guru da Teologia da Libertação, Leonardo Boff.
Na avaliação do ex-vereador Francisco Whitaker, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, as bases da igreja progressista têm saído da militância petista, mas engrossam mais as fileiras dos “sem-partido” do que propriamente as legendas mais à esquerda ou opções mais radicais pela ecologia, embora isso aconteça. “Hoje, a militância partidária é apenas uma das possibilidades”, afirma Whitaker, que foi um dos líderes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral que esteve à frente da campanha pelo projeto dos Ficha Limpa.
Whitaker e Frei Betto – este, junto com Boff, é um dos expoentes da Teologia da Libertação – apontam também um outro fator para a “despetização” das bases da Igreja: a absorção de quadros originários das CEBs e das pastorais sociais pelo próprio governo. “O movimento de base foi muito desarticulado, ou porque os seus líderes foram cooptados pelo governo do PT, ou porque foram incorporados à máquina partidária”, diz Frei Betto. Isso quer dizer que o militante católico absorvido pelas máquinas partidárias e do governo deixou de ser militante e passou a ser preferencialmente um quadro petista.
A incorporação à máquina não é apenas a cargos de confiança em Brasília. “As representações estaduais do Incra e da Funasa, por exemplo, absorveram muita gente que veio dos movimentos de base da Igreja Católica”, conta Frei Betto. Também a máquina burocrática do partido atraiu os militantes que antes atuavam nas bases comunitárias de influência católica.
A “laicaização” do PT foi mais profunda, todavia, após 2005. “O mensalão bateu forte nas bases católicas”, avalia Whitaker. Sob o impacto do escândalo, centenas de militantes petistas aproveitaram o Fórum Social Mundial, que naquela ano acontecia em Porto Alegre, para anunciar a primeira debandada organizada de descontentes, que saíram denunciando a assimilação, pelo PT, das “práticas e a maneira de fazer política usuais no Brasil”, conforme carta aberta divulgada por Whitaker. “Eu tomei a decisão de integrar o partido dos sem-partido”, conta o ex-vereador. A aposta, naquele momento, era que esses dissidentes criassem um forte partido ligado à esquerda católica. O P-SOL nasceu, mas pequeno e fraco – uma reedição, em tamanho reduzido, da aliança entre esquerda católica e grupos marxistas que, 15 anos antes, havia criado o PT.
Os “sem-partido”, no cálculo de quem saiu, são em maior número. Whitaker chama essa “despetização” de “saída para a sociedade”: o contingente se incorporou ao movimento dos Ficha Limpa, agora reforça a briga pela aprovação da Emenda Constitucional de combate ao trabalho escravo e tem atuação na luta pela reforma agrária. Tem forte atuação também – e quase definitiva – na organização dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) que ocorrem todo ano, de forma quase simultânea ao Fórum Econômico Mundial de Davos, como uma opção de debate econômico dos excluídos das generosidades do capitalismo mundial. Exercem uma militância de certa forma invisível na política institucional, mas muito atuante nas bases, de questionamento da legitimidade das dívidas interna e externa.
O secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Daniel Seidel, afirma que esse setor católico vive hoje em estado de ebulição, depois de um período de recuo, imposto especialmente pela ofensiva de Roma contra os setores mais progressistas da Igreja da América Latina. No caso brasileiro, esse novo período de eferverscência é atribuído a Dom Dimas Lara, secretário-geral da CNBB, de um lado; e de outro lado, ao papel desempenhado pelas Assembleias Populares, um formato de organização das bases mobilizadas da Igreja. As Assembleias têm definido uma ação política fora dos partidos e engrossado as mobilizações dos movimentos populares. São um espaço para onde tem convergido a atuação da Igreja cidadã: é onde se definem questões de atuação conjunta com outras igrejas, leigos, movimentos sociais e partidos políticos, embora jamais vinculados a eles.
Embora a “saída para a sociedade” tenha se dado num quadro de frustração com o governo, existe cautela em relação a ações contra o governo Lula. “Tem uma parte das bases católicas que acha que, ruim com ele (Lula), pior sem ele. Essa parte tem pavor da volta de um governo tucano”, analisa Arruda Sampaio. “Embora as bases estejam insatisfeitas, têm medo de denunciar o governo e fazer o jogo da oposição”, diz Frei Betto. Isso ocorre também com os movimentos sociais que já estão descolados da Igreja, como o MST, que foram criminalizados nos governos de FHC, não concordam com os rumos tomados pelos governos de Lula, mas ainda assim preferem a administração petista, numa situação eleitoral de polarização entre o PT e o PSDB”.

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

EX-MILITANTES ESTÃO COM MARINA E PLÍNIO

 ”A Igreja progressista já não produz quadros para a política na quantidade que o fazia antigamente, mas a política brasileira pós-redemocratização está repleta de suas crias.
No início do governo, no comando do programa Fome Zero, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, contabilizou-s em artigo no “Correio Braziliense”: Marina Silva, ex-militante das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja; Benedita da Silva, líder comunitária cujo primeiro marido, o Bola, militou no movimento Fé e Política; o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi da Juventude Estudantil Católica (JEC) de Anápolis (GO); Dilma Rousseff, companheira de cárcere de Frei Betto e de outros religiosos, no presídio Tiradentes; José Graziano, formado politicamente na JEC; Olívio Dutra e Gilberto Carvalho, que vieram da Pastoral Operária; José Dirceu, que no período de clandestinidade foi abrigado no convento São Domingos; e o jornalista Ricardo Kotscho, com quem Frei Betto criou grupos de oração, base do trabalho evangelizador da Teologia da Libertação .
Muita água rolou por baixo da ponte, mas nessas eleições presidenciais pelo menos dois candidatos beberam dela. A evangélica Marina Silva, candidata a presidente pelo PV, é uma. “Nós crescemos na batina do dom Moacyr (Grechi)”, afirma a candidata. Militante desde cedo das comunidades eclesiais de base do Acre, atribuiu à Igreja católica, em especial de dom Moacyr, o fato de o Estado ter encontrado caminhos políticos diferentes ao do narcotráfico. Foi o pessoal do dom Moacyr que ganhou eleições para governos e Senado e forneceu quadros para secretarias e estrutura burocrática,
O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi um incansável militante, dentro e fora da Igreja, pela reforma agrária. Era um quadro do PT até o racha de 2005. Acha que, em algum momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve liderança incontestável nas bases da Igreja, mas hoje não lidera mais “gregos e troianos”.
A deputada e ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSB), embora não seja candidata à Presidência, é um exemplo de política que se criou nas bases da Igreja. Em Pernambuco, onde dava os seus primeiros passos na luta política, a Igreja progressista ajudava a organizar sindicatos rurais numa região em que as ligas camponesas – movimentos sociais muito atuantes antes do golpe de 64 – foram destroçadas pela ditadura. “Havia uma grande repressão às ligas e aos camponeses, mas a Igreja tinha uma relativa liberdade de transitar por esses espaços e aproveitava disso para organizar sindicatos”, conta a deputada. Erundina veio para cá ameaçada pela repressão militar. Elegeu-se prefeita em 1989 – e foi a sua relação com a Igreja progressista que a protegeu nos momentos mais difíceis”. (M.I.N)

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:49

Nordeste dará uma surra no DEM

Líder da bancada do DEM, Agripino está com dificuldades em se reeleger

Líder da bancada do DEM, Agripino está com dificuldades em se reeleger

De Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econônico’:
“Um lento processo de esvaziamento do DEM no Nordeste, a região que manteve o partido, desde a sua criação, em 1985, com grande bancada no Senado, pode ser consumado em outubro. Do total de 14 senadores do partido, oito encerram seus mandatos – cinco eleitos pelo Nordeste e três pelo Centro-Oeste. Os senadores Gilberto Goellner (MT), Antonio Carlos Júnior (BA) e Adelmir Santana (DF) são suplentes e não disputarão em outubro.
O DEM pode reduzir sua bancada para oito ou nove, na previsão do diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz – o que significaria eleger dois ou três apenas nessas eleições. Ou vai perder apenas um ou dois senadores – o que significaria ficar com 12 ou 13, na avaliação do presidente nacional do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ). Os dois concordam, no entanto, que a sangria do partido ocorre no seu reduto tradicional, o Nordeste.
A longa duração do mandato de senador – que corresponde a dois mandatos de deputados – manteve o partido forte no Senado quando já havia entrado em declínio na Câmara. Em 1998, o então PFL elegeu 105 deputados, a maior bancada; quatro anos depois, com a vitória do petista Luiz Inácio Lula da Silva, obteve 84 deputados nas urnas; em 2006, fez 65 deputados e, até a posse, já havia perdido três. Tornou-se a quarta bancada. No Senado, o declínio foi mais lento: a bancada de 19 senadores do período 1995-1998 baixou para 17 no período seguinte (1999-2002) e hoje são 14.
“Em 2000 administrávamos 1200 cidades; em 2004, 700 e poucas; hoje são apenas 497. Estamos perdendo nas cidades menores e com menor renda”, diz Maia. Para ele, quanto maior for a população beneficiada pelo programa Bolsa Família em relação ao número de eleitores – caso das comunidades menores -, menor é a chance de acesso da oposição a esse eleitor. “A máquina do governo impede o acesso da oposição aos eleitores mais pobres”, afirma o presidente do partido. Para Queiroz, esse processo ocorreu porque a opção do DEM pela oposição foi contra a natureza do partido, cuja razão de ser, até então, era a de “suprir de recursos e benefícios” do governo seus redutos eleitorais.
“Estamos pagando uma decisão partidária, de ser oposição ao governo Lula”, concorda Maia. “Todo mundo sabia que o resultado seria o de retração do partido nos Estados em que historicamente éramos bem posicionados, com os do Nordeste.” Para o dirigente, a forma de reverter essa tendência será não apenas a opção pela candidatura do tucano José Serra à Presidência, reeditando a aliança que deu certo nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, como se empenhar pelo máximo desempenho do candidato no primeiro turno. É em 3 de outubro que o eleitor define a composição do Congresso. Quanto mais o partido conseguir se identificar, perante o eleitor, com um candidato a presidente com perspectiva de poder, maior será a sua chance de reverter a tendência de esvaziamento, segundo esse raciocínio”.

AS DIFICULDADES DE CASA UM

Demóstenes Torres é um dos que tem chances na reeleição

Demóstenes Torres é um dos que tem chances na reeleição

“Será difícil para o DEM manter uma forte bancada no Senado, na avaliação do diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz. Para ele, apenas o senador Demóstenes Torres (GO) é franco favorito nas eleições de outubro e tem reeleição garantida, e só o senador Heráclito Fortes (PI) desponta com chances objetivas de obter um segundo lugar, entre os cinco senadores do ex-PFL que disputam a reeleição. Este ano, serão renovados dois terços do Senado – são duas vagas por Estado. Segundo levantamento feito pelo diretor do Diap, terão dificuldades para renovar o mandato os senadores Marco Maciel (PE), Agripino Maia (RN) e Efraim Morais (PB).
Para Queiroz, o DEM tem também chances reduzidas de eleger senadores em outros Estados. As exceções ficam por conta de Santa Catarina, onde um candidato forte a governador, o senador Raimundo Colombo, pode ajudar a eleger um senador, e o Rio, onde disputará o ex-prefeito César Maia. O presidente do DEM, Rodrigo Maia, garante que as pesquisas internas do partido indicam uma bancada semelhante à atual na próxima legislatura. “Podemos perder dois senadores, mas temos três novos com condições de ganhar”, diz.
Se for confirmada a tendência de declínio do partido nos Estados em que disputa a reeleição ao Senado, os atuais parlamentares terão uma campanha muito dura. Em Pernambuco, o senador Marco Maciel está em primeiro lugar nas pesquisas de opinião – na última, estava pouco acima de João Paulo (PT), que desistiu em favor do ex-ministro Humberto Costa (PT), também considerado um forte concorrente. Mas Queiroz considera que esse é só o começo. Maciel tem como adversária uma chapa fechada e muito forte: o governador Eduardo Campos (PSB) é o favoritíssimo candidato à reeleição e os dois candidatos ao Senado na chapa dele são Costa e o ex-presidente da CNI Armando Monteiro (PTB). Este último disputa na faixa de eleitorado do senador do DEM.
Nas últimas eleições, o avanço do PT e do PSB tem acontecido, como no resto do Nordeste, sobre o eleitorado do ex-PFL. Em 1998, o partido elegeu 46 prefeitos; em 2000 eles eram 19. Os oito deputados federais do Estado eleitos em 1998 foram reduzidos a dois em 2006.
Não é favorável também a situação do DEM no Piauí, onde Heráclito Fortes disputa mais um mandato. Em 2002, quando fazia campanha para o Senado, ele tinha o apoio de cinco deputados federais eleitos em 1998. Hoje são apenas dois. Nas eleições municipais de 2008, o DEM viu seus 59 prefeitos serem reduzidos a nove. “O partido diminuiu por conta do Bolsa Família e do poder da caneta. O Estado é pobre e depende de transferências do governo federal”, diz.
Wellington Dias (PT), que saiu do governo para disputar o Senado, está em primeiro lugar nas pesquisas, 10 pontos à frente de Heráclito. Conta a favor do senador do DEM o fato do terceiro concorrente, Mão Santa, ser candidato sem partido: ele saiu do PMDB e montou um partido só para ele, o PSC, sem expressão.
No Rio Grande do Norte, o líder do DEM no Senado, José Agripino Maia, disputa a reeleição numa coligação que foi considerada como genial porque teria potencial de isolar a governadora que deixou o cargo, Vilma Maia (PSB), candidata ao Senado, e de esvaziar o palanque de Dilma no Estado. Maia disputa numa chapa encabeçada pela senadora Rosalba Ciarlini (DEM), com chances de se eleger governadora, e pelo senador Garibaldi Alves (PMDB). Para Queiroz não existe hipótese, todavia, de a mesma coligação levar as duas vagas ao Senado. “A tendência é de renovação de 50%: ou Agripino perde, ou Alves perde. A candidatura de Vilma vai começar a crescer”, afirma.
Foi-se o tempo em que o Rio Grande do Norte era um paraíso para o DEM. Em 2000, elegeu 35 prefeitos no Estado; em 2004, apenas 17. Em 1998 fez três federais; em 2006, apenas um.
O candidato à reeleição pela Paraíba, o senador Efraim Morais reconhece que a situação não é boa para o DEM no seu Estado. No ano 2000 foram eleitos 59 prefeitos; hoje são 38. O partido fechou uma coligação com o ex-prefeito Ricardo Coutinho (PSB). A outra vaga do Senado será disputada pelo ex-governador Cássio Cunha Lima (PSDB). “A tendência é que Cunha Lima leve uma vaga e o candidato da coligação liderada pelo governador José Maranhão (PMDB) fique com a segunda”, avalia Queiroz. Por enquanto, Morais figura na segunda colocação, atrás de Cunha Lima e na frente dos candidatos do PMDB, Vital do Rego Filho e Manoel Júnior, segundo informa Maia, com base nas pesquisas internas do DEM nacional .
O senador Demóstenes Torres é o favorito da disputa em Goiás num Estado em que o DEM está longe de ser forte. A explicação dele para isso é o fato de ser conhecido. Foi procurador-geral do Estado, secretário de Segurança do governo Marconi Perillo (PSDB), o favorito na disputa desse ano ao governo e também candidato ao governo. Depende mais de sua imagem nacional e de sua identificação regional com Perillo do que propriamente da estrutura partidária.
Por circunstâncias variadas, os atuais suplentes do DEM cujo mandato termina esse ano não vão disputar. O chamado Mensalão do DEM, que pôs na cadeia o único governador que conseguiu eleger em 2006, José Roberto Arruda, eliminou as chances do partido em pleitos majoritários no Distrito Federal, pelo menos nessas eleições. O senador Adelmir Santana disse ao Valor que considera a hipótese de se candidatar; Maia, todavia, não leva isso em conta. No Mato Grosso, o senador Gilberto Goellner foi eleito suplente do senador Jonas Pinheiro, que morreu em 2008. Não vai se candidatar.
O senador Antônio Magalhães Júnior (BA) é filho e suplente do senador Antonio Carlos Magalhães, que morreu em 2007. A direção do DEM disse que ele não será candidato por razões pessoais. Queiroz não acredita que o DEM – que concorrerá com o ex-prefeito de Feira de Santana José Ronaldo de Carvalho, ou com o deputado José Carlos Aleluia – consiga uma das vagas. O DEM também tem dúvidas quanto a isso. Para o diretor do Diap, uma das vagas ficaria com o candidato da chapa do governador Jaques Vagner (PT) e a outra, de César Borges (PR).
É uma realidade dramática a da Bahia, que foi quase uma capitania hereditária de ACM. Em 1998, o então PFL elegeu um senador, que se somou aos dois eleitos em 1994, e uma bancada de 20 deputados federais e 23 estaduais, além do governador. Em 2006, perdeu as eleições para o governo e para o Senado e elegeu 13 federais e 16 estaduais. 125 prefeitos assumiram em 2001. Em 2008, foram eleitos só 43. (MIN)”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:28

Dirceu quer ser exemplo para o PT

Da repórter Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econômico’:
“Para ministros petistas, o ex-presidente do PT José Dirceu tornou-se a “Geni” da política brasileira – uma referência à música de Chico Buarque que narra a história do alvo preferido de uma cidade, “feita para apanhar, boa de cuspir”. Não é um juízo de valor, apenas uma constatação: em todos os momentos mais delicados para o partido, em primeiro lugar é a figura de José Dirceu que emerge no centro de ataques dos adversários. Para o público interno do PT, no entanto, desde 2005, quando Dirceu tornou-se o principal alvo das investigações sobre o chamado mensalão do PT, ele passou a ser o símbolo de resistência. A imagem de perseguido, mais um intenso trabalho que fez nos Estados, garantem ao ex-ministro popularidade entre militantes.
Essa posição dúbia do ex-presidente do PT o torna uma presença incômoda na campanha da candidata a presidente do partido, Dilma Rousseff, à medida que ele tem uma capacidade ilimitada de atrair a atenção dos inimigos; mas ao mesmo tempo importante, já que se mantém como referência para uma militância que, pretende-se, deve estar mobilizada para uma campanha que promete ser dura. O ideal seria que fosse discreto. “Essa não é a sua personalidade”, ressalva uma figura do governo.
Dirceu, que havia sido um centralizador presidente do partido, com domínio sobre as realidades regionais do PT, saiu percorrendo as sessões estaduais para evitar o isolamento, durante e depois do processo que levou à cassação de seu mandato de deputado pela Câmara, em dezembro de 2005, na esteira das denúncias de um mensalão que alimentaria o caixa dois de campanha do PT. “Desde 2005, o Zé se move pelo Brasil inteiro”, lembra um ministro. Teve sucesso não apenas no seu objetivo individual, o de obter apoio da militância do PT, mas, segundo avaliação de uma parcela da legenda, acabou desempenhando indiretamente uma função partidária: o PT estava acuado por uma crise sem similar na sua história e sob um comando considerado “fraco” – era presidente do partido o deputado Ricardo Berzoini (SP).
Outra parte do PT, todavia, se incomoda profundamente com a desenvoltura com que Dirceu transita nos diretórios estaduais. “Ele sempre dá a impressão de que fala pelo partido”, diz uma fonte do governo, ressaltando que esse tipo de postura fragiliza a autoridade do comando partidário, ao mesmo tempo que o grande público identifica permanentemente o partido e sua candidata à Presidência, Dilma Rousseff, com uma figura que está sempre sob ataque.
Um papel adicional que Dirceu continua cumprindo, embora informalmente – também para desconforto da direção – é o de manter contatos com os aliados regionais do PT. Foi no período em que presidiu o partido, de 1995 a 2002, que o PT saiu do isolamento. O trabalho de centralização e formação de maioria interna feito por Dirceu levou o PT a uma política mais consistente de alianças eleitorais. Dirceu articulou intensa e meticulosamente as alianças regionais, enquanto esteve na presidência do PT. Já ministro da Casa Civil (2003-2005), trabalhou para levar o PMDB para a base de apoio do governo. Conhece profundamente os protagonistas da política regional de cada Estado. E tem trânsito junto a aliados e possíveis aliados do partido.
A excessiva popularidade interna do ex-ministro e seu trânsito junto a políticos regionais que podem se aliar ao governo, todavia, contrastam com a imagem que ele desfruta junto ao público externo – e esse é o problema político da campanha da ministra Dilma Rousseff. “Não adianta, se ele bota a cara de fora, o partido todo apanha”, constata outro ministro do governo Lula. Segundo um auxiliar do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve um acordo para que Dirceu assuma uma posição mais discreta na campanha eleitoral. A assessoria de Dirceu não confirma o acordo, mas diz que o ex-ministro se prepara para trabalhar na campanha de Dilma, na “forma e intensidade” que o PT decidir. Para tanto, vai reduzir suas atividades profissionais – inclusive na JD Consultoria, que é a atividade que toma mais o seu tempo. Foi como consultor que voltou aos jornais há cerca de um mês, devido ao interesse comercial de um cliente seu de reativar a Eletronet.
Nem as pessoas mais próximas a Dilma no governo Lula, no entanto, acreditam que Dirceu consiga a façanha da discrição. “Não adianta, é da personalidade dele: tudo tem que ser grandioso”, observa um ministro com ligações antigas com Dirceu. Prova de que isso é uma tarefa difícil para Dirceu foi a comemoração do seu aniversário, no dia 16 de março. Não foi a festa de alguém que está disposto a ir para a cocheira, pelo menos até terminar as eleições. Foi, de fato, um evento político.
Segundo um dos assessores do ex-ministro, todavia, não há razões para que Dirceu se exponha, já que sua maior contribuição à candidatura de Dilma, segundo ele, foi dada no ano passado, quando percorreu o país e transitou o nome da candidata tanto nos partidos regionais como entre aliados nos Estados. A homologação desses acordos que teriam sido iniciados por ele, agora, é tarefa do PT Nacional. O que não quer dizer que vá ficar no seu canto nas eleições. A ideia de reduzir suas atividades de consultoria atendem ao objetivo de ter mais tempo para se dedicar ao seu blog e às atividades partidárias de campanha, inclusive de viagens aos Estados”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:48

Ciro: “Aécio salvou Lula”

De Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econômico’:
“O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), teve um papel fundamental no desmonte de uma “articulação golpista” em 2005 que, por meio da CPI dos Correios que investigava denúncias do mensalão, pretendia levar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao impeachment. É o que revela, em entrevista ao Valor, o deputado Ciro Gomes (PSB-CE). Aécio mandava um avião buscar Ciro, então ministro da Integração Nacional de Lula, e os então deputados Gustavo Fruet (PSDB-PR) e Eduardo Paes (PSDB-RJ), integrantes da CPI. “Íamos para o hangar lá em Belo Horizonte e brigávamos muito, mas chegávamos a um acordo que era avalizado pelo Aécio. Ele nos ajudou a salvar o mandato de Lula”, garante Ciro.
Candidato a presidente pelo PSB, Ciro não quer abrir mão da candidatura para preservar espaço para críticas ao segundo mandato do presidente petista, quando ocorreu uma erosão “dramática” das contas externas, afirma. “Esse debate foi abolido da cena política por oportunismo político-eleitoral, inclusive do Serra”, acusa.
Com discurso superlativo, aponta o dedo para “figuras tenebrosas” e “almas penadas” da política: são os mesmos a quem se aliou o presidente anterior, Fernando Henrique Cardoso. Cita os deputados do PMDB Eduardo Cunha (RJ), Michel Temer (SP) e Eliseu Padilha (RS), e o deputado Felipe Bornier, do PHS do Rio.
Ao ser perguntado das chances de desistir da candidatura à Presidência para disputar o governo de São Paulo, Ciro primeiro é enfático – é candidato a presidente, para ganhar ou perder – e depois faz a ressalva: só se for em torno de um projeto. O projeto de Brasil e a negociação entre as forças políticas contrárias ao “clientelismo” e ao “patrimonialismo” são a chave para entender as entrelinhas do deputado cearense. A chave auxiliar – uma ironia para alguém que transferiu o seu domicílio eleitoral para São Paulo – é uma severa crítica à política paulista. Abaixo, a entrevista ao Valor:
- O senhor recuou ou continua candidato a presidente?
- Continuo candidato. E, dessa, saio vitorioso ou derrotado: nem desistência, nem recuo são possíveis. Uma motivação da minha candidatura é o imperativo moral do flanco onde eu faço política – e sou eu, pelas circunstâncias, quem tem melhor condição de não permitir que a agenda do país se reduza ao plebiscito despolitizado, com personalismos exacerbados, uma disputa entre a turma do Lula, à qual eu pertenço, contra a do Fernando Henrique Cardoso. O imperativo moral é apresentar o que importa.
- E o que importa?
- Importa, a partir do avanço que o país está experimentando – aliás, extraordinário -, apresentar uma agenda complexa para o país. O Brasil vem melhorando sob todos os ângulos, mas apenas se você olhar pelo retrovisor, porque olhando para o futuro e comparando o país com os estandes internacionais, mesmo em renda similar à brasileira, o Brasil está ainda por fazer.
- O senhor acha que a crise é uma oportunidade?
- Nas grandes questões contemporâneas que se projetam para o próximo meio século, o Brasil pode ser protagonista. Em bioenergia, biocombustíveis especialmente, na questão ambiental, na questão étnico-religiosa, o país tem sementes extraordinárias de um ambiente civilizatório. Mas, mesmo conseguindo sair da estagnação a que fomos condenados pelo mito neoliberal – a crença que nos esmagou a imaginação -, ainda não nos libertamos totalmente dele. O neoliberalismo não foi para a lata do lixo porque poderosos sustentam o defunto e inibem o enterro.
- Essa é uma elaboração que parte da crítica ao governo. É essa a base de sua candidatura?
- Não, eu sou entusiasmado pelo Lula. Eu vi o Brasil decadente e hoje o vejo progredindo. A experiência mais ruinosa, sob o ponto de vista das contas públicas foi patrocinada pelo FHC. Quando eu era ministro da Fazenda [no governo Itamar Franco] e ajudei a fazer o Plano Real, o Brasil tinha uma carga tributária de 27% do PIB. FHC elevou a carga tributária para 35% do PIB; a dívida pública brasileira, que era de 35% do PIB, alcançou 68%; desmobilizamos US$ 100 bilhões de patrimônio; a taxa de investimento foi a menor; perdemos um terço dos mestres e doutores do ensino público superior brasileiro; fez-se os dois maiores acordos com o FMI. O Brasil deu o ouro e a prata nos governos FHC. A taxa de crescimento do país naqueles oito anos foi de 2%, 3%; nas contas externas, produziu-se um buraco de US$ 180 bilhões de dólares em oito anos. Com o Lula, a dívida desceu de 68% para para 40% do PIB; nos primeiros quatro anos de mandato, o Brasil fez US$ 46 bilhões de superávit; saímos da taxa de reserva negativa para reservas líquidas superiores a 100% do passivo externo público e privado; a carga tributária não subiu e quase dobrou a taxa de crescimento.
- Se há entusiasmo tão grande de sua parte, por que disputar contra a candidata de Lula?
- Neste segundo mandato, as contas externas brasileiras estão erodindo de forma dramática. Esse debate foi abolido da cena política por oportunismo político-eleitoreiro, inclusive do [José] Serra [candidato do PSDB à Presidência], principal voz de oposição e que sumiu com essa discussão. Além de desalinhamento de câmbio, a perda de dinamismo das nossas exportações é flagrante. A proporção de manufaturados nas exportações brasileiras está despencando.
- Os problemas se concentram na área econômica?
- Olhando pelo retrovisor, tudo melhorou: a educação, a saúde, a questão da universidade. Mas na saúde pública, por exemplo, não foi feito nada estratégico. A educação pública brasileira está melhorando, mas ainda é uma tragédia. E o imperativo moral é impedir o plebiscito que o PT e o PSDB acertaram para confinar o país nas suas miudices e projetar um futuro. Se melhorou, o passado não deve voltar.
- E qual é o projeto?
- Nós temos que apresentar um projeto nacional de desenvolvimento. É preciso que se garanta minimamente que a eleição seja o debate do futuro do país, e não esse debate despolitizado. Isso tem feito mal demais ao Brasil. A briga vem do provincianismo paulista.
- Como uma situação paulista pode contaminar o país?
- O FHC foi para a Presidência com uma obra extraordinária iniciada, o Plano Real. O PT foi contra o Real; recusou-se a dar apoio ao Itamar Franco no momento delicadíssimo do impeachment do Collor; não assinou a Constituição de 1988. Quando o FHC chegou ao poder, encontrou na intransigência do PT o pretexto para angariar a maioria na escória da política brasileira. Era o exercício do clientelismo e conservadorismo sem qualquer limite ético. Quando andou a roda da história e o PT ganhou a Presidência, contra Lula, o PSDB de São Paulo puxou o PSDB nacional para uma intransigente, mesquinha ruptura com o governo.
- Isso não justifica a aliança do governo com o PMDB?
- No segundo mandato, o PSDB deu ao Lula a crença de que, para governar, é preciso se alinhar – e com quem? O Brasil é tão medíocre nesta questão que são as mesmas pessoas – não são só os mesmo valores – que trabalham ao largo de qualquer moralidade. O Renan Calheiros [PMDB-AL], que foi ministro da Justiça do FHC, é lugar-tenente do Lula no Senado. Eduardo Cunha [PMDB-RJ], que já conhecia como ligado ao esquema do PC Farias, é quem está dando as cartas aqui, com a delegação do Michel Temer [PMDB-SP], também ex-aliado do FHC. Eliseu Padilha, ex-ministro do FHC, é o presidente da Comissão de Justiça da Câmara. O Felipe Bornier [PHS-RJ] é presidente da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle. É a seleção é às avessas: quanto mais decência e qualificação têm as pessoa, mais distante estarão dos cargos importantes no parlamento.
- Se São Paulo é responsável por isso, por que o senhor transferiu seu título para lá?
- Porque o Lula pediu.
- Mas, em São Paulo, estará fortalecendo essa política?
- A política estadual não precisa ser assim. O Aécio não é assim: ele elegeu um companheiro do PSB para a prefeitura de Belo Horizonte. O Aécio estende a mão e vai lá todo mundo. As diferenças não vão sumir, mas a forma de fazer política não é destrutiva. No Ceará, há tempo a gente se entende, daí se diminui a importância relativa dessas figuras tenebrosas, almas penadas não saem nunca do poder. Mas, em São Paulo, é picareta para um lado, picareta para outro.
- O senhor é contra alianças mais amplas?
- Não sou contra, eu vi debilidade do governo Sarney. Eu conheço a tradição federativa, a tradição multipartidária brasileira; eu reconheço que a aliança é necessária. A questão é: para quê? Se a aliança é só para conservar o poder e suas bases são o assalto à máquina pública, não faz sentido.
- Então, quanto mais ampla for uma aliança, mais relativizado é o poder desses setores?
- Mais do que isso, é parte da luta para acabar com a hegemonia moral e intelectual desses setores. Isso será um avanço institucional para o país. Qual é a razão dessas maiorias malucas [no Congresso]? Mera conservação do poder. Estritamente mercado secundário de minuto de televisão, inclusive na base da grana.
- Na política paulista, como quebrar essa hegemonia?
- Eu não estou na política paulista. Esse negócio de domicílio eleitoral é uma invenção da ditadura, não existia isso antes. Sou o deputado federal mais votado no país pela mão do eleitorado cearense. Esse mandato pertence aos cearenses.
- Se fosse para quebrar a hegemonia do PSDB paulista, o senhor seria candidato ao governo?
- Ajudar a construir o design dessa bomba, eu acho uma das mais gratas tarefas. Não precisa ser derrotando ninguém, pode ser articulando entendimento.
- É isso que você e o Aécio tentam fazer, quando conversam?
- Eu, Aécio, Tasso, Geraldo Alckmin.
- Alckmin tem peso no PSDB para fazer entendimento?
- O Alckmin está esperando para ver se o Serra deixa ele ser candidato a governador. Porque as coisas são assim: o Serra acabou de trair o seu próprio partido e elegeu o DEM para a prefeitura de São Paulo, contra o PSDB. E para ele tudo pode. O Nordeste praticamente varreu o ex-PFL e Serra elegeu Kassab em São Paulo. E aí, eu pergunto: quem elegeu o DEM em São Paulo vem me falar em modernidade?
- Com Lula o senhor chegou a vislumbrar a possibilidade de um entendimento para excluir o patrimonialismo das alianças?
- Lula diz que concorda comigo, que o sonho dele, quando deixar a Presidência, é organizar um movimento como o da Frente Ampla do Uruguai; que não compreende como estou num partido e ele em outro. Tudo bem, eu sei que, também eu, se for presidente, terei que tocar a rotina do país, mas é preciso que o povo ajude a diminuir o custo impagável dessa hegemonia frouxa, dessa hegemonia moral, que o conservadorismo do PT com o PMDB impuseram na agenda do país.
- Qual o interesse na formação de maiorias, se não se aprova matérias de interesse do governo?
- Acho que o interesse é só o horário eleitoral. Fora isso, não vejo nenhuma outra razão, porque não tem nenhuma agenda correndo no Congresso. Se tivesse, os parlamentares não seriam tão irresponsáveis. Veja a PEC 300, que institui o piso nacional para policiais. A emenda foi aprovada em primeiro turno, enganando os policiais, porque é impossível aprovar uma coisa dessa no segundo turno. É lambança, é só teatro. Lula mandou para a Câmara R$ 1,7 bilhão para um projeto de construção de um milhão de moradias. Eduardo Cunha apresentou emenda criando um crédito pleno de R$ 86 bilhões. Esculhambação que, sozinha, derruba o Brasil. Aí o Paulo Paim [PT-RS], no Senado, junto com o Renan, Sarney e tal, aprova o fim do fator previdenciário; ato contínuo, define o percentual de reajuste pelo salário mínimo. Quebra a Previdência. Votação unânime. Daí vem para a Câmara. Na hora em que pautar, vota-se a favor. E o Lula tem que vetar. Essa é a coalizão do Lula – e isso é coalizão? É de uma aliança para governabilidade que nós estamos tratando, ou é um mercado secundário de minuto de televisão?
- O Congresso é todo ele irresponsável, então?
- Não. O presidencialismo de impasse faz do Congresso Nacional um apêndice. Você precisa ver a quantidade de gente séria, trabalhadora, decente, que desiste, vai embora. O problema não é do Congresso, é da coalizão hoje dominante. Esse mesmo Congresso cassou Collor e fez a Constituinte.
- O senhor quer dar protagonismo para parlamentares decentes?
- Não é isso. Nossas regras de representação dizem respeito a pessoas que têm o monopólio de alterar essas regras. Por que essa representação vai alterar a institucionalidade que lhe legitima? Isso não acontece em lugar nenhum. É hora do Brasil se livrar de seus temores elitistas e começar a adotar a prática dos países avançados de convocar plebiscitos e referendos para superar determinados impasses.
- Até 2005, o senhor era o candidato de Lula à sua sucessão. O que é que aconteceu para o presidente ter lançado a ministra Dilma?
- Até 2007. Cada vez que Lula dizia isso para mim, eu dizia que o PT teria de ter candidato. O PT não ter candidato é o escorpião sobre o sapo.
- Sem entrelinhas: o senhor pode ser candidato ao governo de São Paulo?
- Quando Lula me fez o convite, deixei a decisão para o meu partido. O Eduardo Campos [presidente do PSB e governador de Pernambuco] me disse: “Se você quer ser candidato a presidente, por que não fica com domicílio em São Paulo e ajuda a gente a arrumar as coisas por lá?” Eu concordei. E fui para o Ceará para me explicar: Lula me pediu, o partido determinou que eu fizesse, se tentasse ser candidato com domicílio lá poderia ser impugnado por causa de meu parentesco com o Cid [Gomes, governador do Estado e irmão de Ciro]. Candidato a deputado não sou e no Ceará sou inelegível para tudo o mais.
- O senhor pode se candidatar ao governo de São Paulo na hipótese de Aécio Neves ser candidato do PSDB a presidente?
- Não. Eu disse ao presidente é que eu faço política por amor. Se, amanhã, alguém me diz: “o projeto está aqui mas nós vamos perder essa eleição porque Serra, em São Paulo, vai levar 6 milhões de votos e isso definirá a sua vitória a presidente”, aí é outra coisa. Mas eu não vejo esse cenário.
- E por que a situação com Aécio poderia ser diferente?
- Vou fazer uma justiça a Aécio. Quando a CPI dos Correios começou a arquitetar o golpe contra o presidente Lula, o Aécio teve um envolvimento estratégico. No meio da crise, eu, Dilma, Márcio Thomaz Bastos [então ministro da Justiça] e Jaques Wagner [então ministro das Relações Institucionais] nos reuníamos diariamente às 7h para definir uma estratégia que era “Infantaria e Diplomacia” – eu dei o nome. Nós iríamos fazer o diálogo, a diplomacia. Fizemos uma lista daqueles nomes importantes da República e escalamos quem falaria com cada um. Bastos e [Antonio] Palocci ficaram escalados para conversar com o Fernando Henrique e com o Serra, e eu, com Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Fernando Gabeira [PV-RJ], José Carlos Aleluia [DEM-BA] – esta era a estratégia de diplomacia. E como infantaria, nós estimulamos um movimento para ocupar as ruas. O trabalho da diplomacia era dizer: “Daqui para trás: nós estamos vendo um componente golpista nisto, o presidente da República não será alcançado e nós não vamos tolerar isso”. Acabamos fazendo a manifestação na rua, só para mostrar que não estávamos blefando. O Aécio entendeu. Passou não só a concordar, mas a agir para desarmar a bomba. Muitas vezes ele mandou um avião para me buscar em Brasília às 9h da manhã, mandava o avião para pegar fulano, ciclano e beltrano da CPI e íamos para o hangar lá em Belo Horizonte. Lá brigávamos muito, mas chegávamos a acordos avalizados pelo Aécio. Ele nos ajudou a salvar o mandato do Lula. Invoco o testemunho de Gustavo Fruet [PSDB-PR] e Eduardo Paes [na época, PSDB-RJ]. O Aécio nos ajudou a desmontar a indústria da infâmia movida a partir do PSDB de São Paulo.
- Existe a hipótese de Aécio ser candidato a presidente?
- Acho que sim. Com grandes chances. Se ele for o candidato, é porque Serra terá recuado voluntariamente, e daí Serra garante a ele o eleitorado em São Paulo. O segundo colégio é Minas, e Aécio tira 70% ou mais; o terceiro é o Rio, e ele entra melhor que o Serra; depois é o Nordeste. O Sul está hostil para nós. No Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, o eleitorado é contra o PT, eu ainda entro, mas o Aécio entra com mais leveza. O problema é o Serra e o carreirismo dele, só pensa em si. O problema do PSDB é o seguinte: eles [os tucanos] vivem embaixo de uma redoma, quando saem da rede de proteção da mídia, encontram um Brasil que não conhecem.
- FHC também?
- O Fernando Henrique tem um ciúme infantil do Lula, uma inveja feminil do Lula”.

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