• Quarta-feira, 08 Fevereiro 2012 / 11:21

O tema da eleição

                                     Marcos Coimbra*
       Em todo ano eleitoral, mais cedo ou mais tarde, a imprensa repete uma velha pauta: editores, repórteres e colunistas põem-se a procurar “o tema” da eleição.
Parece que acreditam que é possível identificar um único assunto, uma só preocupação, que os eleitores do país inteiro — ou uma proporção majoritária deles — compartilhariam. Como se houvesse alguma coisa, minimamente relevante, que os mais de 135 milhões de brasileiros em condições de votar possuíssem em comum.
Fora as generalidades mais triviais (amam o Brasil, desejam a felicidade, querem o melhor para seus filhos e coisas do gênero), são muito diferentes. Trabalham em coisas diferentes e ganham quantidades de dinheiro completamente diferentes. Moram em lugares diferentes, de favelas paupérrimas a bairros de alto luxo. Muitos são jovens, outros idosos, e têm necessidades diferentes.
Diferem em outro aspecto fundamental. Além das segmentações socioeconômicas que existem na sociedade brasileira, nosso eleitorado está, crescentemente, dividido em termos políticos.
É verdade que não é grande a parcela com declarada e firme identidade partidária. Mas está longe de ser inexpressiva a proporção dos que se dizem simpatizantes de algum partido, entre os quais se destaca o PT (que tem, sozinho, mais que o dobro da soma dos demais).
À medida que o tempo passa, essa simpatia tende a deixar de ser algo tênue ou puramente atitudinal. Ao longo dos anos, o eleitor começa a traduzi-la em comportamentos eleitorais concretos, renovando seu voto em sucessivas eleições. Com isso, seus vínculos com o partido — ou determinada liderança — se estreitam e se consolidam.
Surgem, assim, eleitores petistas, peessedebistas, peemedebistas e por aí vai. Talvez não estejam inscritos em um cadastro qualquer (como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, onde a maioria do eleitorado tem uma identidade partidária “oficial”), mas isso não os torna menos entusiasmados na defesa de “seu” partido — e de “seus” candidatos —, ou menos previsíveis em suas escolhas.
Faz algum sentido imaginar que uma idosa pobre do interior, admiradora de Lula e do PT, e um jovem rico metropolitano, antipetista e admirador do PSDB, tomam suas decisões eleitorais da mesma maneira, em função de um mesmo “tema”, de uma só agenda?
A pergunta é ainda menos razoável em ano de eleições municipais. Nelas, achar que existe algo semelhante a esse hipotético “tema” apenas mostra desconhecimento a respeito de nossos eleitores.
É possível que, em condições excepcionais, existam eleições tão dominadas por um assunto que as diferenças objetivas e políticas do eleitorado se tornem secundárias. Se o país está frente a uma ameaça externa, se atravessa uma crise econômica, “o tema” da eleição é óbvio.
Isso aconteceu conosco na saída da ditadura e da hiperinflação. E deve ter sido então que nossa imprensa adquiriu o hábito de buscar “o tema” das eleições, mesmo quando ele não existe.
Em uma eleição municipal, como a que faremos este ano, é até difícil imaginar qual poderia ser. São milhares de candidatos a prefeito e a vereador em quase 5,6 mil cidades, que vivem realidades completamente diferentes. Os eleitores os escolhem levando em conta inúmeros aspectos — embora sempre acreditem que votam nos mais qualificados (entre os que conhecem).
Faz parte da normalidade democrática e do amadurecimento político que a eleição municipal seja municipal, a estadual seja estadual, e que a nacional seja nacional. Poucas pessoas, hoje em dia, se confundem com isso.
A imensa maioria dos eleitores não define seu voto local em função de questões nacionais, e nem entenderia se alguém perguntasse que “recado” pretende mandar para Brasília ou a capital de seu estado. Para o cidadão normal, seria absurdo votar em um candidato a prefeito (ou a vereador) sabidamente inferior a outro, apenas para enviar uma esdrúxula mensagem — que ninguém, aliás, decifraria.
Pode dar mais trabalho, mas, em vez de tentar encontrar “o tema” da eleição de outubro, os analistas fariam melhor se tentassem identificar os muitos temas que serão discutidos nas cidades brasileiras.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 05 Fevereiro 2012 / 12:52

Haddad, novo teste para Lula

                                                             Marcos Coimbra*
     

        Em São Paulo, a vida política tem uma característica peculiar: os dois principais partidos nacionais não se renovam. Há anos, em qualquer eleição majoritária, PT e PSDB escalam os mesmos nomes, seja para disputar o governo do estado, o Senado ou a prefeitura da capital.
Entre os tucanos, Serra e Alckmin já foram candidatos a esses cargos, somados, nove vezes (e ainda deveríamos contar suas três candidaturas a presidente da República). No PT, Marta Suplicy e Aloizio Mercadante, oito.
Na definição do que iriam fazer nas eleições da capital este ano, por pouco não tivemos a enésima repetição da presença de José Serra e Marta Suplicy nas opções oferecidas ao eleitor: seria a quarta tentativa de ambos.
Não podemos esquecer que Alckmin está prestes a se tornar, nos tempos modernos, o recordista de permanência no Palácio dos Bandeirantes: ao completar seu mandato atual, totalizará 10 anos lá residindo, mais que Ademar de Barros (mesmo computando seu período como interventor). Se viesse a ganhar a reeleição em 2014, aproximar-se-ia dos governantes do período colonial, com 14 anos de exercício da função.
Na maior parte dos estados, não temos uma rigidez como essa. Novas gerações de políticos petistas e peessedebistas já emergiram no Rio de Janeiro, em Minas, no Paraná, assim como no resto do país. Existem novos senadores, governadores e prefeitos dos dois partidos (e de outros) país afora.
Aécio e Antonio Anastasia, em Minas; Beto Richa e Glesi Hoffmann, no Paraná; Marconi Perillo, em Goiás; no PSB, Eduardo Campos, em Pernambuco, e Cid Gomes, no Ceará; no Rio, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, do PMDB, e Lindberg Farias, do PT. Todos são exemplos do que não acontece em São Paulo.
É nesse contexto que se deve analisar a opção de Lula por Fernando Haddad na escolha do candidato do PT a prefeito de São Paulo. Sem sua intervenção, é muito possível que a dinâmica interna do partido levasse a mais um adiamento da renovação e a insistir na aposta em uma candidatura conhecida — no caso, de Marta Suplicy, que liderava as pesquisas.
Pode ser que Haddad vença a eleição ou não. Para o PT, mais relevante é começar a se apresentar ao eleitorado da maior cidade brasileira com uma nova identidade, de um político com uma trajetória diferente do padrão típico do petismo no estado.
Haddad não é sindicalista na origem, nunca foi da esquerda católica, tinha 5 anos quando o AI-5 foi editado. É um profissional de gestão pública, como alguns tucanos de sua geração.
Existem muitos petistas com essas características. Mas é o primeiro candidato a um cargo de “primeiro escalão” com esse perfil que seu partido vai lançar em São Paulo.
Há quem tenha visto a intervenção de Lula como manifestação de caciquismo e de sua vontade de submeter o PT a seus caprichos e idiossincrasias. Não parece, no entanto, ser uma critica razoável.
Ao bancar a indicação de Haddad, Lula se mostra disposto a submeter seu prestígio popular a um teste nada pequeno. Na verdade, maior até do que ele acabou de enfrentar em 2010, com Dilma.
Uma coisa é apresentar alguém para continuar seu próprio trabalho, algo que o eleitor — brasileiro e de qualquer lugar — compreende e aceita, levando a que a chamada “transferência horizontal” não seja rara. Ela, no entanto, é muito mais incerta quando se aponta uma pessoa para outro cargo.
Com o gesto, Lula aceita a responsabilidade de liderar seu partido, com os riscos que daí decorrem. E coloca sua popularidade a serviço da renovação pela qual o PT precisa passar em São Paulo.
Melhor que se eximir e lavar as mãos. Uma das razões que levam o PSDB paulista a bater cabeça na eleição da capital é que suas lideranças não lideram (ou não conseguem liderar).
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 01 Fevereiro 2012 / 12:42

Olhando para 2014

                                                             Marcos Coimbra*
     

       Enquanto se entretinham na contabilidade das crises nos ministérios e se ocupavam com as escaramuças entre os partidos da base governista, poucos analistas de nossa política perceberam algo que ocorreu em 2011. Trata-se, no entanto, de um fato de consequências mais relevantes que todos esses episódios somados.
Ao longo do ano, Dilma tornou-se uma candidata fortíssima a vencer a eleição em 2014 e a permanecer no cargo até 2018. Com isso, a repetir a performance de Lula e a completar um período de 16 anos de hegemonia petista à frente do governo federal.
A possibilidade sempre existiu. Desde quando foi aprovado o instituto da reeleição (não esquecendo que por iniciativa e intenso trabalho do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso), foram raros os casos de ocupantes de cargos executivos — presidente, governador ou prefeito — que perderam a eleição de renovação do mandato.
São as exceções, governantes cuja gestão era considerada péssima ou que enfrentaram adversários notáveis. A regra é vencer, mesmo quando as administrações não enchem os olhos. Na dúvida entre o razoável, mas seguro, e o ótimo, porém incerto, a maioria das pessoas costuma preferir o conhecido. Sem contar que é comum a convicção de que quatro anos não são suficientes para pronunciar-se sobre o trabalho de alguém.
Dilma tinha o problema dos que venceram mais pelo prestígio de um patrono do que por seus próprios atributos. Sua vitória veio apesar de quase ninguém a conhecer e de não haver vínculos emocionais entre ela e o eleitor. Seu julgamento poderia, portanto, ser mais severo, e maior o risco de muitos se decepcionarem com ela.
Mas era a sucessora de Lula e se beneficiaria da aprovação das políticas que estavam em andamento e que permaneceriam. E seria, em 2014, a presidente em exercício.
Tudo considerado, era fácil imaginar que Dilma poderia, em tese, ser uma candidata com chance de vencer a reeleição. Salvo se seu governo fosse uma catástrofe.
Terminado 2011, o que vimos foi aumentar a avaliação positiva de seu trabalho. As pesquisas de dezembro e janeiro confirmaram o que se podia perceber desde o início do ano passado: uma tendência de melhoria dos índices de satisfação da população com o governo.
Ela atravessou o desgaste de uma série de problemas no ministério e no segundo escalão, atingidos por sucessivas denúncias, das quais algumas eram verdadeiras e exigiram providências. Enfrentou um ano de complicações crescentes na economia mundial, com reflexos relevantes no nosso desenvolvimento.
Foi aprovada pela vasta maioria da opinião pública e, de candidata potencialmente forte, tornou-se forte no sentido concreto.
É claro que é cedo e que muita água ainda vai correr por baixo da ponte até 2014. Mas é assim que ela começa o segundo ano de governo.
Hoje, o PT tem, portanto, dois muito bons candidatos à Presidência: Lula — não se precisa demonstrar — e Dilma. Qualquer um deles, se tivéssemos uma eleição agora, venceria (provavelmente com folga). E ambos têm idade (ele aos 66, ela aos 64) para disputar algumas mais nos próximos anos.
E as oposições?
Como mostram as pesquisas, só há dois nomes nacionais, de políticos que a maioria da população identifica: FHC e Serra. Nenhum, no entanto, em condições de disputar novas eleições: o primeiro diz que não deseja; o segundo não tem apoio sequer em seu estado e entre seus (ex-) amigos.
O mínimo que deveriam fazer era lançar, o quanto antes, seu candidato “óbvio”, como diz Fernando Henrique. Aécio precisa ser logo identificado como o rosto da oposição, o político que vai representar o “outro lado” em 2014.
Os próximos três anos são indispensáveis para alguém que apenas 20% da população conhece um pouco melhor. Talvez não resolvam, mas não podem ser desperdiçados.
*Marcos Coimbra é sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 06 Fevereiro 2011 / 10:24

Dilma no Congresso

                                         Marcos Coimbra*

      Terça-feira, na apresentação da Mensagem ao Congresso Nacional de 2011, Dilma inovou, mesmo mantendo algumas tradições estabelecidas pelos últimos presidentes.
A principal mudança não estava apenas em sua presença para ler e entregar em mãos o documento. Nunca foi hábito de nossos presidentes comparecer ao parlamento na abertura das sessões legislativas, para se pronunciar sobre o Brasil e apresentar suas metas.
Nada de parecido ao costume norte-americano do discurso a respeito do “State of the Union”, feito todos os anos pelo presidente ao Congresso desde a década de 1910, quando Woodrow Wilson o inaugurou. Lá, a Constituição obriga o Executivo a informar anualmente o Legislativo sobre sua visão e prioridades, mas ele foi o primeiro a fazê-lo através de manifestação pessoal. Daí em diante, todos os sucessores repetiram o gesto.
Aqui, temos norma parecida, mas ela não é cumprida dessa forma. A praxe é a Mensagem ser entregue ao presidente do Congresso pelo chefe da Casa Civil, dispensada a leitura. O presidente da República só a leva se quiser. Como Lula, que o fez apenas uma vez, em 2003.
Logo no começo da apresentação, Dilma deixou aberta a possibilidade de que sua ida não fosse a única. Disse que encaminhava a Mensagem “pela primeira vez neste mandato”, o que pode ser interpretado como sinal de sua disposição de voltar.
Essa seria uma mudança significativa no modo como se relacionam os Poderes em nosso sistema político. A solenidade estabelece uma nítida fronteira entre Executivo e Legislativo, ressaltando sua diferença e a independência respeitosa que deve prevalecer na sua convivência.
Embora esses sejam princípios de nossa Constituição, na prática, a regra tem sido outra. Desde a redemocratização, os dois Poderes se misturaram mais do que deveriam, em casamentos sempre indesejáveis. Institucionalizar sua diferenciação é salutar para a democracia e a formação cívica do povo. Todos os passos que Dilma der nessa direção serão bem-vindos.
Ela fez uma coisa que nenhum de seus predecessores havia feito: citou nominalmente o presidente que a antecedeu. Na apresentação da Mensagem, o nome de Lula foi mencionado, ainda que apenas uma vez, algo que poderia surpreender quem esperava que aparecesse mais frequentemente.
Não é estranho que Collor não falasse de Sarney, Itamar de Collor, ou Lula de Fernando Henrique. Mas é curioso que FHC, em 1995, na sua primeira Mensagem, só se referisse ao hoje senador Itamar Franco como “meu antecessor”, sem dizer seu nome (logo acrescentando que ele próprio havia sido o ministro responsável pelo “êxito do programa de estabilização econômica”, assim reivindicando a paternidade exclusiva do Real).
Apesar de várias discrepâncias, as Mensagens de Dilma e Fernando Henrique são semelhantes em um ponto. Na parte relativa à política externa, ambas só deram destaque à América do Sul, com menções ao Mercosul, à ALCSA (ele) e à Unasul (ela). Nenhum dos dois achou que devia pagar tributo a outras regiões ou países, ao contrário do que andaram cobrando de Dilma alguns comentaristas da oposição, que não gostaram de ela não ter mencionado os Estados Unidos na sua fala.
Quem, aliás, leu o que publicou nossa “grande imprensa” sobre a ida de Dilma ao Congresso pode ter ficado com uma impressão equivocada. O que mais vimos foram críticas apressadas e superficiais, de quem, aparentemente, sequer se deu ao trabalho de procurar saber o que ela disse.
As Mensagens ao Congresso Nacional não são obras de filosofia política ou tratados de sociologia. Não se destinam a apresentar interpretações inovadoras de nossa realidade econômica, social ou cultural. Não são feitas para que sejam recebidas com palmas e entusiasmo. São, apenas, uma informação que o Poder Executivo presta ao Legislativo sobre como vê o país e quais seus objetivos no ano.
O governo Dilma mostrou como pretende se relacionar com o Congresso, detalhando seu diagnóstico e suas propostas. A primeira Mensagem que encaminhou, com suas 416 páginas, foi bem mais que o rápido cumprimento de uma formalidade. Apenas na apresentação que a presidente leu, dedicou, por exemplo, cinco parágrafos às enchentes de janeiro no Sudeste e às providências que o governo está tomando para evitar a repetição de tragédias, quatro à educação e quatro à saúde (para comparar: na apresentação da sua primeira Mensagem, FHC usou uma vez as palavras educação e saúde — sem qualquer explicação sobre o que imaginava fazer — enquanto destinou 14 parágrafos para falar da economia, tema fundamental naquele momento).
Cada governo tem suas prioridades. O importante é que as deixe claras para o Congresso.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense”.

  • Domingo, 19 Setembro 2010 / 12:48

A onda de denuncias

                                                      Marcos Coimbra*

     Por uma coincidência extraordinária, denúncias pipocam a toda hora nestes últimos dias de campanha eleitoral. Faltando duas semanas para a eleição do sucessor ou, pelo que parece, da sucessora de Lula, falar delas se tornou uma verdadeira obsessão para nossa grande imprensa.
Se contarmos o tempo transcorrido desde quando surgiu o escândalo da Receita, já faz quase um mês que os grandes jornais de São Paulo e Rio, as maiores revistas de informação e o noticiário da principal emissora de televisão dão cobertura máxima a denúncias de vários tipos contra Dilma, sua campanha, o PT e o governo Lula. O caso da Receita e o mais recente, envolvendo o filho da ex-ministra Erenice Guerra, receberam a atenção de todos. Outros, como a bombástica revelação de que uma falha de Dilma redundara em prejuízo de R$ 1 bilhão aos consumidores de energia elétrica, ficaram reduzidos ao esforço isolado de um veículo. Como ninguém a levou a sério (sequer o jornal que a havia patrocinado), foi logo esquecida.
Essa disposição para denunciar não atinge o universo da imprensa. Brasil afora, jornais e revistas regionais e estaduais mostram-se menos dispostos a fazer coro com os grandes. O mesmo vale na mídia eletrônica, na qual o tom escandaloso não é o padrão de todas.
É curioso, mas nenhuma dessas denúncias nasceu na internet, contrariando tendência cada vez mais comum em outros países. Lá, é nos blogs e sites independentes que coisas assim começam e têm seu curso, muitas vezes enfrentando a inércia da mídia tradicional. Aqui, ao contrário, são os jornalões e os grupos de comunicação mais poderosos os mais afoitos na apresentação e apuração de denúncias.
Não se discute se são falsas ou verdadeiras. É certo que algumas, como o escândalo da eletricidade, são apenas bobagens. Outras são importantes e produzem consequências reais, como a que levou à saída de Erenice. Existem as que estavam na geladeira, ao que parece aguardando um bom momento para vir à tona, como o escândalo da Receita. E há as que, aparentemente, apenas coincidiram com outras, como o escândalo do caseiro, que ressurgiu das cinzas agora que a Caixa Econômica foi condenada a indenizar a vítima.
Também não se discute o que fazer nos casos em que há suspeita fundamentada ou confirmação de que alguma irregularidade foi praticada. Partindo da premissa de que somos um país sério e que as instituições funcionam, qualquer denúncia com verossimilhança precisa ser apurada e os culpados, punidos. Aliás, todas estão sendo acompanhadas pelo Ministério Público, a Polícia Federal e a própria imprensa.
Mas só a velhinha de Taubaté acredita que a coincidência de tantos escândalos é obra do acaso. A onda nasceu em tal momento que é impossível não desconfiar que exista intencionalidade por trás dela.
Os segmentos na sociedade e na mídia insatisfeitos com a possibilidade de vitória de Dilma aguardavam ansiosos o começo da propaganda eleitoral na televisão e no rádio. Sabe-se lá de onde, imaginavam que Serra reagiria a partir de 17 de agosto e que conseguiria reverter suas perspectivas muito desfavoráveis. Não viam que o mais provável era o oposto, que Dilma crescesse quando Lula chegasse à televisão. Como resultado de mais um dos equívocos que cometeram na avaliação das eleições, se surpreenderam quando a vantagem da candidata do PT rapidamente aumentou.
Foi de repente, quando a decepção com a performance de Serra e o susto com o bom desempenho de Dilma se generalizara, que começamos a ter uma denúncia atrás da outra. A temporada de escândalos teve sua largada na última semana de agosto, quando saíram as primeiras pesquisas públicas feitas após o início do horário gratuito, mostrando que a diferença entre eles passava de 20 pontos.
De lá para cá, nada mudou nas intenções de voto. Alguns comentaristas procuram indícios de oscilações, com lupas esperançosas, ansiosos para encontrar sinais de que tanto barulho produza efeitos. Até agora, nada.
Chega a ser engraçado, mas há países em que se proíbe a divulgação de pesquisas eleitorais nos 30 dias que antecedem uma eleição. Tudo para não perturbar as pessoas na fase da campanha em que deveriam pensar mais. Eles acham que ninguém deveria interferir nesse momento de recolhimento e reflexão.
É porque não conhecem o que é capaz de fazer (ou de tentar fazer) nossa grande imprensa.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Estado de Minas’.

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 17:42

Os jornalistas tucanos

                                                      Marcos Coimbra*
 

     Quando, no futuro, for escrita a crônica das eleições de 2010, procurando entender o desfecho que hoje parece mais provável, um capítulo terá de ser dedicado ao papel que nelas tiveram os jornalistas tucanos.
Foram muitas as causas que concorreram para provocar o resultado destas eleições. Algumas são internas aos partidos oposicionistas, suas lideranças, seu estilo de fazer política. É bem possível que se saíssem melhor se tivessem se renovado, mudado de comportamento. Se tivessem permitido que novos quadros assumissem o lugar dos antigos.
Por motivos difíceis de entender, as oposições aceitaram que sua velha elite determinasse o caminho que seguiriam na sucessão de Lula. Ao fazê-lo, concordaram em continuar com a cara que tinham em 2002, mostrando-se ao País como algo que permanecera no mesmo lugar, enquanto tudo mudara. A sociedade era outra, a economia tinha ficado diferente, o mundo estava modificado. Lula e o PT haviam se transformado. Só o que se mantinha intocada era a oposição brasileira: as mesmas pessoas, o mesmo discurso, o mesmo ar perplexo de quem não entende por que não está no poder.
Em nenhum momento isso ficou tão claro quanto na opção de conceder a José Serra uma espécie de direito natural à candidatura presidencial (e todo o tempo do mundo para que confirmasse se a desejava). Depois, para que resolvesse quando começaria a fazer campanha. Não se discutiu o que era melhor para os partidos, seus militantes, as pessoas que concordam com eles na sociedade. Deram-lhe um cheque em branco e deixaram a decisão em suas mãos, tornando-a uma questão de foro íntimo: ser ou não ser (candidato)?
Mas, por mais que as oposições tivessem sido capazes de se renovar, por mais que houvessem conseguido se libertar de lideranças ultrapassadas, a principal causa do resultado que devemos ter é externa. Seu adversário se mostrou tão superior que lhes deu um passeio.
Olhando-a da perspectiva de hoje, a habilidade de Lula na montagem do quadro eleitoral de 2010 só pode ser admirada. Fez tudo certo de seu lado e conseguiu antecipar com competência o que seus oponentes fariam. Ele se parece com um personagem de histórias infantis: construiu uma armadilha e conduziu os ingênuos carneirinhos (que continuavam a se achar muito espertos) a cair nela.
Se tivesse feito, nos últimos anos, um governo apenas sofrível, sua destreza já seria suficiente para colocá-lo em vantagem. Com o respaldo de um governo quase unanimemente aprovado, com indicadores de performance muito superiores aos de seus antecessores, a chance de que fizesse sua sucessora sempre foi altíssima, ainda que as oposições viessem com o que tinham de melhor.
Entre os erros que elas cometeram e os acertos de Lula, muito se explica do que vamos ter em 3 de outubro. Mas há uma parte da explicação que merece destaque: o quanto os jornalistas tucanos contribuíram para que isso ocorresse.
Foram eles que mais estimularam a noção de que Serra era o verdadeiro nome das oposições para disputar com Dilma Rousseff. Não apenas os jornalistas profissionais, mas também os intelectuais que os jornais recrutam para dar mais “amplitude” às suas análises e cobertura.
Não há ninguém tão dependente da opinião do jornalista tucano quanto o político tucano. Parece que acorda de manhã ansioso para saber o que colunistas e comentaristas tucanos (ou que, simplesmente, não gostam de Lula e do governo) escreveram. Sabe-se lá o motivo, os tucanos da política acham que os tucanos da imprensa são ótimos analistas. São, provavelmente, os únicos que acham isso.
Enquanto os bons políticos tucanos (especialmente os mais jovens) viam com clareza o abismo se abrir à sua frente, essa turma empurrava as oposições ladeira abaixo. Do alto de sua incapacidade de entender o eleitor, ela supunha que Serra estava fadado à vitória.
Quem acompanhou a cobertura que a “grande imprensa” fez destas eleições viu, do fim de 2009 até agora, uma sucessão de análises erradas, hipóteses furadas, teses sem pé nem cabeça. Todas inventadas para justificar o “favoritismo” de Serra, que só existia no desejo de quem as elaborava.
Se não fossem tão ineptas, essas pessoas poderiam, talvez, ter impulsionado as oposições na direção de projetos menos equivocados. Se não fossem tão arrogantes, teriam, quem sabe, poupado seus amigos políticos do fracasso quase inevitável que os espera,
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para a ‘CartaCapital’.

  • Quarta-feira, 15 Setembro 2010 / 10:43

Fatos e versões

                                     Marcos Coimbra*

     Nas eleições, como em tudo na vida, uma coisa são os fatos, outra as versões. E, nem sempre, aqueles são mais importantes. Na luta política, uma versão bem defendida vale mais que muitos fatos.
Uma vitória, por exemplo, pode ficar parecida a uma derrota, de tão diminuída e apequenada. Depende do que sobre ela se diz. Por maior e mais extraordinária que seja, os derrotados podem se vingar, ganhando a batalha das versões. Os vitoriosos, em vez de comemorar e receber elogios, ficam na posição de se explicar, se defender. Os perdedores lhes roubam a cena.
Neste fim de campanha eleitoral, à medida que nos aproximamos da data da eleição, a perspectiva de uma vitória de Dilma por larga margem só tem aumentado. Ao que tudo indica, ela vai conseguir o que Lula não conseguiu em nenhuma das eleições que disputou: ganhar no primeiro turno. A crer nos números das pesquisas, ela está prestes a alcançar, jáem3 de outubro, a votação que ele obteve apenas no segundo turno de 2006, quando chegou a 60% dos votos válidos. Não é nada, não é nada, Dilma tem tudo para se tornar, daqui a três semanas, a pessoa mais votada de nossa história.
Enquanto a eleição real avança, a guerra de narrativas sobre seu provável resultado está em curso.
De um lado, a que é formulada pelas forças políticas e as correntes de opinião que não conseguiram apoio na sociedade para levar seu candidato à vitória.
Do outro, a dos vencedores.
Paradoxalmente, são os prováveis derrotados na batalha eleitoral real que estãoemvantagem na briga das versões.Vão perder, ao que parece, na contagem dos votos, mas têm, pelo menos por enquanto, o consolo de fazer que sua interpretação prevaleça.
É o oposto daquilo que o professor Edgar deDecca, daUnicamp, caracterizou há alguns anos. Escrevendo sobre a Revolução de 1930, ele mostrou que ela entrou para nossa história através da narrativa daqueles que a venceram. Tudo aquilo pelo qual se bateramos derrotados foi ignorado ou desconsiderado.
Sobre aquele movimento, nossa historiografia só nos conta a versão dos vencedores. Ninguém mais se lembra do que queria o outro lado. Impôs-se a ele “o silêncio dos vencidos”.
Em 2002, Lula e o PT venceram tanto a eleição quanto a batalha das versões. Quando o resultado objetivo foi proclamado, estava pronto um discurso: era “a vitória da esperança sobre o medo” e o Brasil podia sentir orgulho de sua própria coragem ao colocar na Presidência um metalúrgico. Ninguém deslegitimou o que as urnas disseram.
Se Lula começasse seu segundo mandato depois de uma apertada vitória sobre Alckmin no primeiro turno da eleição de 2006, seria complicado livrar-se da interpretação de que, depois do mensalão, havia diminuído de tamanho.Mas, no segundo turno, cresceu tanto que até seus detratores tiveramque reconhecer que nada indicava que fosse essa a realidade.
Agora, na véspera do que todos calculam ser a eleição de Dilma, está sendo elaborada uma versão que a reduz. Nela, a vitória é apresentada como um misto de manipulação (“usaramo Bolsa Família para comprar o voto dos miseráveis”), ilegalidade (“Lula passou por cima de nossa legislação eleitoral”) e jogo sujo (“montaram um fábrica de dossiês para derrotar José Serra”).
Nesse tipo de combate, não faz a menor diferença se algo é verdade ou não. Como é apenas uma guerra de versões, o que conta é falar alto.
Quem tem meios de comunicação (jornais, revistas, emissoras de televisão) à disposição para propagandear seus argumentos, sempre leva vantagem.
Pode até ganhar.
Que importa se apenas 20% do voto de Dilma vem de eleitoresemcujo domicílio alguém recebe o benefício (ou seja, que ela tem votos suficientes para ganhar no primeiro turno ainda que esses fossem proibidos de votar)? Que importa se nossas leis são tão inadequadas que até uma passeata de humoristas a modifica?Que importa se nada do resultado da eleição pode ser debitado a qualquer dossiê, existente ou imaginado? Mas fatos são sempre fatos. E as versões, por mais insistentes que sejam, não os modificam. Ganhase no grito, mas perde-se no voto. Lá na frente, os fatos terminarão por se impor.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Quarta-feira, 25 Agosto 2010 / 9:04

Pesquisas polêmicas

 
 
 
                                              Marcos Coimbra*

          Pesquisas nas quais não se pode confiar são um problema. Elas atrapalham o raciocínio. É melhor não ter pesquisa nenhuma que tê-las.
Ao contrário de elucidar e ajudar a tomada de decisões, confundem. Quem se baseia nelas, embora ache que faz a coisa certa, costuma meter os pés pelas mãos.
Isso acontece em todas as áreas em que são usadas.
Nos estudos de mercado, dá para imaginar o prejuízo que causam? Se uma empresa se baseia em uma pesquisa discutível na hora de fazer um investimento, o custo em que incorre? Na aplicação das pesquisas na política, temos o mesmo. Ainda mais nas eleições, onde o tempo corre depressa. Não dá para reparar os erros a que elas conduzem.
Pense-se o que seria a formulação de uma estratégia de campanha baseada em pesquisas de qualidade duvidosa. Por mais competente que fosse o candidato, por melhores que fossem suas propostas, uma candidatura mal posicionada não iria a lugar nenhum.
Com a comunicação é igual. Boas pesquisas são um insumo para a definição de linhas de comunicação que aumentam a percepção dos pontos fortes de uma candidatura e que explicam suas deficiências. As incertas podem fazer que um bom candidato se torne um perdedor.
E na imprensa? Nela, talvez mais que em qualquer outra área, essas pesquisas são danosas. Ao endossálas, os veículos ficam em posição delicada.
Neste fim de semana, a Folha de São Paulo divulgou a pesquisa mais recente do Datafolha. Os problemas começaram na manchete, que se utilizava de uma expressão que os bons jornais aposentaram faz tempo: Dilma dispara…. Dispara.., afunda… são exemplos do que não se deve dizer na publicação de pesquisas. São expressões antigas, sensacionalistas.
Compreende-se, no entanto, a dificuldade do responsável pela primeira página. O que dizer de um resultado como aquele, senão que mostraria uma disparada? Como explicar que Dilma tivesse crescido 18 pontos em 27 dias, saindo de uma desvantagem para Serra de um ponto, em 23 de julho, para 17 pontos de frente, em 20 de agosto? Que ganhasse 24 milhões de eleitores no período, à taxa de quase um milhão ao dia? Que crescesse nove pontos em uma semana, entre 12 e 20 de agosto, apenas nela conquistando 12,5 milhões de novos eleitores? O jornal explicou a disparada com uma hipótese fantasiosa: Dilma cresceu esses nove pontos pelo efeito televisão. Três dias de propaganda eleitoral (nos quais a campanha Dilma teve dois programas e cinco inserções de 30 segundos em horário nobre), nunca teriam esse impacto, por tudo que conhecemos da história política brasileira. Aliás, a própria pesquisa mostrou que Dilma tem mais potencial de crescimento entre quem não vê a propaganda eleitoral. Ou seja: a explicação fornecida pelo jornal não explica a disparada e ele não sabe a que atribuí-la. Usou a palavra preparando uma saída honrosa para o instituto, absolvendo-o com ela: foi tudo uma disparada.
É impossível explicar a disparada pela simples razão que ela não aconteceu. Dilma só deu saltos espetaculares para quem não tinha conseguido perceber que sua candidatura já havia crescido. Ela já estava bem na frente antes de começar a televisão.
Mas as pesquisas problemáticas não são danosas apenas por que ensejam explicações inverossímeis.
O pior é que elas podem ajudar a cristalizar preconceitos e estereótipos sobre o país que somos e o eleitorado que temos.
Ao afirmar que houve uma disparada, a pesquisa sugere uma volubilidade dos eleitores que só existe para quem acha que 12,5 milhões de pessoas decidiram votar em Dilma de supetão, ao vê-la alguns minutos na televisão. Que não acredita que elas chegaram a essa opção depois de um raciocínio adulto, do qual se pode discordar, mas que se deve respeitar.
Que supõe que elas não sabiam o que fazer até aqueles dias e foram tocadas por uma varinha de condão.
Pesquisas controversas são inconvenientes até por isso: ao procurar legitimá-las, a emenda fica pior que o soneto. Mais fácil é admitir que fossem apenas ruins.
Boas pesquisas são um insumo para a definição de linhas de comunicação que aumentam a percepção dos pontos fortes de uma candidatura e que explicam suas deficiências. As incertas podem fazer que um bom candidato se torne um perdedor.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Domingo, 22 Agosto 2010 / 15:45

O tempo da decisão

                                                  Marcos Coimbra*

     Os estudos internacionais de ciência política e sociologia do voto mostram que é sempre difícil generalizar a respeito do processo eleitoral, mesmo em países com longa experiência e tradição democrática. Mais complicado ainda naqueles como o Brasil, onde a realização de eleições amplas e livres só passou a ser regra nos últimos 25 anos.
Sobre como esse processo se dá entre nós existem perguntas importantes cujas respostas não conhecemos, até pela ausência de um número razoável de casos comparáveis. Tudo, por exemplo, que se refere às eleições presidenciais tem como referência apenas as cinco que fizemos mais recentemente. As quatro únicas que havíamos realizado entre a Proclamação da República e 1964 ficaram tão distantes que já não nos ajudam a entender o presente.
Uma dessas questões é sobre quando se pode considerar que uma eleição está resolvida. Não no sentido de quando seu resultado se torna inexorável, pois isso, é óbvio, só acontece no momento em que o eleitorado vota. Até lá, temos que admitir que mudanças possam ocorrer, mesmo que sua chance seja pequena. Mas no de quando, pelo que se conhece do comportamento dos eleitores, elas adquirirem suas feições mais prováveis, aquelas que só se alteram se algo de extraordinário suceder.
Essa é uma pergunta que passou a ser cabível depois que as pesquisas de opinião se tornaram parte de nossa realidade política. Antes, as pessoas especulavam sobre o que achavam que aconteceria baseadas em seu faro, sua sensibilidade. Era como adivinhar o sexo dos bebês pela forma do ventre da mãe, em que se podia acertar, mas com chances pouco maiores que 50%, taxa que as pesquisas (embora longe de fornecer certezas) costumam ultrapassar de longe.
As eleições se resolvem quando uma maioria suficiente do eleitorado se decide por uma candidatura. À medida que transcorrem, as pessoas vão tomando contato com as opções existentes, até se fixar naquela que mais perto está do que desejam. Para algumas, é um processo simples: basta conhecer quem representa seu lado, seu partido. Eleitores com alto nível de identificação partidária raramente requerem mais que isso para se decidir.
Essa, no entanto, não é a regra geral. Quem não tem (ou tem baixa) identidade político-partidária precisa saber mais sobre os candidatos. Quanto é que são elas. Ninguém sabe ao certo qual é a quantidade de informação que cada tipo de eleitor necessita para se decidir. Por consequência, ninguém é capaz de dizer quando a maioria do eleitorado resolve o que vai fazer.
Uma hipótese que parece provável é que isso depende da eleição e do sentimento das pessoas a respeito do governo que se encerra. Se o sistema político oferece ao cidadão um cardápio com poucas opções, o tempo se reduz, pois ele só tem que resolver se prefere fulano ou beltrano. Se forem muitas, a decisão se complica e mais tempo pode ser necessário.
Toda vez que o eleitor não está satisfeito com o governo, é lógico esperar que procure a mudança. Inversamente, quando gosta dele, que pense em continuidade. Se tiver elevado apreço pelo governo, quer que o seguinte seja o mais parecido com o cessante quanto possível (o que é máximo quando se pode reeleger o titular).
Quando as pessoas querem mudanças e o número de candidatos é grande, os eleitores precisam ter mais tempo para se decidir. Afinal, são várias as possibilidades de mudar e é preciso compará-las.
Quando querem continuidade e as candidaturas são poucas, tudo fica mais simples. Na hora que percebem quem representa melhor seu desejo, elas se decidem. Para elas, a eleição se resolve.
Nas eleições deste ano, a disseminação da informação de que Dilma é a candidata de Lula foi lenta, mas constante. Suas intenções de voto cresceram do mesmo modo, sem sobes e desces, enquanto aumentava o número de pessoas que a identificavam com Lula e a continuidade.
A eleição está resolvida? Para um contingente muito grande do eleitorado, tudo indica que sim. Mas, como aconselha a prudência, é bom lembrar que a eleição só acaba quando termina.
*Marcos Coimbra, sociólogo, presidente do Instituto Vox Populi, escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Quarta-feira, 18 Agosto 2010 / 10:21

Mitos e verdades sobre as pesquisas

                                                   Marcos Coimbra*

       De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.
É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir ideias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.
Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.
Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.
Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira.
Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.
É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.
Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum.
Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro? As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem.
Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.
Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são fotografias de momento, sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.
Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada.
Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.
Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.
E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra? Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.
Ceticismos (nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido), perplexidades (como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?) e falsas noções (pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro) são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi.

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