• Domingo, 22 Abril 2012 / 9:57

De quem é a CPI?

                                              Marcos Coimbra*

    Faz tempo que, na política, não temos um caso tão estranho como esse da CPI do Cachoeira. Quanto mais se leem os jornais, menos se compreende o que está acontecendo.
Dão voltas extraordinárias.
Não faz mais que dias, a CPI era apresentada como fruto exclusivo das movimentações dos partidos governistas.
Como em um passe de mágica, no entanto, na foto dos congressistas saudando a coleta do número suficiente de assinaturas para instalá-la, só havia figuras da oposição. E todas sorriam, com cara de quem celebrava uma vitória.
Primeiro, diziam que PT e PMDB estavam unidos na disposição de viabilizá-la. Atualmente, o que se lê é que o PMDB foge da CPI. Que pretende, mantendo-se distante, garantir-se como aliado de Dilma (estaria, por acaso, arriscado a perder essa condição?).
Em um esforço de imaginação, pintam agora um quadro em que o PMDB teria decidido permanecer na espreita, apostando no “desgaste do PT” (?) perante a presidente, para assim “aparecer como salvador da pátria”. Que suas principais lideranças planejam carimbar a CPI como “invenção do PT”.
Por que precisariam fazê-lo? Não foi o próprio Lula quem, pessoalmente, pôs a comissão em marcha?
Passaram dias apregoando que o PT tinha entrado em pânico e estudava a melhor opção para se desembaraçar dela. Na hora em que os votos da bancada foram contados, o que se viu foi que a endossava por unanimidade.
Quem procura entender o caso recorrendo à leitura de alguns colunistas famosos fica perplexo. Chegam a caracterizar a CPI como uma espécie de apocalipse petista, sua “hora da verdade”, o momento em que se defrontará com tudo que evitou em sua história.
Afinal, a CPI é a “cortina de fumaça” que o lulopetismo inventou para esconder os malfeitos do mensalão — como estampou, na capa, a revista Veja —, ou o Dia do Julgamento Final para o PT?
São análises engraçadas. Por elas, parece que Lula não passa de um principiante, um aprendiz de feiticeiro, que deixa livres forças que é incapaz de controlar. Que teria cometido um erro infantil, ignorando a verdade acaciana — que muitos adoram repetir — que “todo mundo sabe como começa uma CPI, mas ninguém sabe como termina”.
Achar isso de alguém como Lula — que já deu as mais óbvias provas de que é tudo, menos tolo — é pura pretensão. E não há, na política, erro maior que subestimar o outro lado.
E os rostos dos parlamentares da oposição? De onde vinha tanta alegria?
Do fato de que o inquérito que envolve Demóstenes Torres se tornará público? De que as relações entre Cachoeira e o PSDB de Goiás serão reveladas?
Ou será da satisfação de saber que as conversas entre Cachoeira e a redação da Veja serão conhecidas? Que o papel do bicheiro na fabricação de dossiês usados para criar crises políticas será exposto?
Pelo que se sabe até agora, há muita gente e algumas grandes empresas envolvidas nos negócios de Cachoeira. Alguns são petistas de alto coturno. Entre as empresas, estão fornecedores graúdos do governo federal (assim como de governos estaduais e prefeituras administradas por quase todos os partidos).
Só um ingênuo imaginaria que Lula e as lideranças petistas ignoravam isso quando resolveram criar a CPI. E só quem não conhece Brasília supõe que deixarão que ela seja transformada em palco para que sejam questionados.
Quando Lula afirma que a CPI deve ser feita “doa a quem doer”, podemos apostar que sabe o que diz. E que já calculou em quem doerá mais.
Em matéria de previsões políticas, a taxa de acerto de Lula é muitas (mas muitas) vezes maior que a de nossos comentaristas e colunistas.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 08 Abril 2012 / 13:05

Eleições sem emoções

                                                   Marcos Coimbra*


         Daqui a seis meses, vamos votar para prefeito e vereador. No domingo, 7 de outubro, temos — menos os eleitores do Distrito Federal — um encontro marcado com as urnas.
Pelo andar da carruagem, das 5.565 eleições que acontecerão, apenas uma será de interesse geral. Para os observadores da cena brasileira, somente essa desperta curiosidade.
É a eleição de prefeito de São Paulo, que tem tudo para ser emocionante. O que não quer dizer que possuirá significado real na sucessão de Dilma.
Ela adquiriu importância simbólica mais pelo comportamento das oposições do que pelas decisões tomadas por Lula e pelo PT. Se o PSDB e seus aliados tivessem deixado que a eleição seguisse seu curso natural, haveria consequências menores.
O enfrentamento entre Fernando Haddad e um candidato tucano novo — independentemente de quem fosse o vencedor das prévias partidárias — seria acompanhado com atenção na sociedade e no meio político. É improvável, contudo, que despertasse paixões.
Agora, as coisas ficaram diferentes.
O PSDB paulista deve saber o que faz, escalando um alquebrado Serra para medir forças com Lula e Dilma. Sua performance medíocre no embate interno não sugere a vigorosa candidatura que os amigos imaginavam.
Mas isso fez com que a eleição adquirisse um sim
bolismo que não tinha. Ela se tornou um capítulo — mais um — na velha peleja entre Lula e os tucanos paulistas.
Concretamente, qualquer que seja seu desfecho, o panorama nacional em pouco — ou nada — vai mudar. Na hipótese de Serra vencer, o PT e o governo pouco — ou nada — perderão de suas chances de permanecer por mais quatro anos no Planalto. O mesmo vale para a possível vitória de Fernando Haddad, que em pouco — ou nada — afeta a perspectiva de alternância no governo federal.
Das eleições modernas na capital, nenhuma sugere de maneira mais eloquente que a de 1996 quanto seu resultado pode ser irrelevante para o Brasil. A vitória do malufismo e de Celso Pitta não mudou uma vírgula do jogo político nacional (e, a rigor, sequer do estadual: revigorado pelo sucesso, Maluf voltou a se candidatar ao governo em 1998 e voltou a perder, dessa feita para Covas).
Assim como Fernando Henrique ganhou com Marta na prefeitura, Lula venceu com Serra lá instalado. O que apenas sublinha que são eleições diferentes, com pequeno efeito recíproco.
Excluindo São Paulo, as eleições para prefeito serão, como sempre, relevantes em cada cidade. A escolha de quem se encarregará, durante os quatro anos seguintes, das políticas municipais nunca é trivial para a população, especialmente a que mais depende dos serviços públicos.
Nas capitais, elas são significativas pelo papel que têm na formação de lideranças. Disputar a eleição de prefeito da capital sempre qualifica um político em ascensão. Sequer é indispensável vencê-las, como atestam os casos de Fernando Henrique e Aécio: ambos perderam eleições de prefeito e continuaram crescendo.
Mas tudo sugere que teremos eleições sem emoção nas principais cidade. No Rio e em Belo Horizonte, por exemplo, parece que serão resolvidas quase que por w.o. Em diversas, prefeitos no exercício do cargo ou ex-prefeitos são favoritos destacados.
O que não quer dizer que todas serão tranquilas, pois a briga será boa em algumas. Mas de pequeno impacto além dos limites municipais.
No fim das contas, fora São Paulo, com sua importância simbólica acrescida, todas as outras são parecidas: fundamentais na política local, significativas — às vezes — no jogo estadual e secundárias — para dizer muito — no nacional.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’

  • Quarta-feira, 04 Abril 2012 / 16:49

Kassab e o PSD na eleição

                              Marcos Coimbra*

Existem políticos cuja ascendência deriva de sua capacidade de estabelecer laços afetivos com o eleitorado. Por razões às vezes misteriosas, conseguem que milhões de pessoas gostem deles, sem, aparentemente, despender qualquer esforço. Têm aquilo que Max Weber chamava carisma.
Em nossa história, conhecemos alguns. Os mais velhos se lembram de Juscelino. E há hoje um exemplo maior: Lula.
Outros adquirem liderança sem contar com o carinho da população, apenas através do exercício do poder. Mandam e são obedecidos. Mais que respeitados, são temidos, pois as pessoas supõem que, assim como fazem o bem quando querem, podem fazer o mal — e o fazem.
Na Bahia, havia quem sentisse genuíno amor por Antonio Carlos Magalhães, mas sua força vinha, principalmente, do controle que mantinha da vida do Estado. O cidadão comum acreditava que aborrecê-lo custava caro.
A imagem de alguns está lastreada na inteligência e no saber. Não despertam afeições ou submetem pela autoridade. São técnicos habilidosos, que estudaram as respostas aos problemas que a sociedade enfrenta. As pessoas os seguem por pragmatismo: porque funcionam.
Há uns anos, Jaime Lerner entrou por essa porta na vida política. Foi prefeito de Curitiba, governador, e chegou a ser cogitado para a presidência. Até hoje, é citado como especialista em gestão.
Grandes são os políticos que reúnem todos esses elementos. Quando carisma, autoridade e competência — em graus variáveis — se combinam, surgem os líderes verdadeiros, os que influenciam o resultado das eleições.
E quando faltam os três? Que tamanho tem um político que não consegue que as pessoas o queiram, sigam ou admirem?
O prefeito de São Paulo é um desses. Hoje — apesar de ser percebido como articulador astuto —, a população da cidade não acha que ele seja um bom administrador, não deseja a continuidade de seu trabalho e não pretende levar em conta sua indicação na escolha do sucessor. Pelo que dizem nas pesquisas, se pudessem, não votariam para que permanecesse.
Que influência eleitoral pode ter um político com essa imagem? Que papel pode ter Gilberto Kassab nas eleições na cidade? E em outros municípios? Modesto, para dizer o mínimo.
E o PSD?
Depende. Fundamentalmente de uma coisa: se terá tempo de televisão. E as chances de que o obtenha são incertas.
Admitir que o PSD faça jus ao tempo a que teria direito se tivesse eleito a bancada que hoje possui equivale a considerar que o dono exclusivo do mandato é o eleito e não a legenda. Algo que a legislação em vigor e as decisões do STF e do TSE não reconhecem. Pelo contrário.
Os peesedistas sustentam que a criação de um novo partido equivale à fusão de dois ou mais existentes, situação em que a legislação admite que o que surgir terá seu tempo somado. Os casos são, porém, diferentes: na fusão, nenhum partido diminui.
O tempo total de televisão é finito, o que quer dizer que, se o PSD ganhar algum, outros perderão. Ou seja: o tempo deles deixaria de ser calculado do modo que a legislação prescreve, pelo tamanho das bancadas no início da legislatura — e não a cada momento, exatamente para coibir o troca-troca de partidos.
Mas, com a tradição de complacência de nossos tribunais em questões desse tipo, é possível que o PSD acabe tendo o tempo que deseja.
Só assim terá significado nos arranjos eleitorais deste ano. Senão, será apenas uma curiosidade identificar o candidato que recebe “o apoio de Kassab”.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 28 Março 2012 / 17:44

Serra candidato

                                                                        Marcos Coimbra*

                O PSDB paulista poderia ter comemorado no último domingo um grande dia. Um dia de olhar para a frente e se renovar. Poderia.
Mas foi um domingo sem brilho, em que velhos personagens encenaram uma antiga história. Ao invés de rejuvenescer, a seção paulista do partido reenvelheceu. A vitória de Serra na prévia tucana foi a derrota da mudança — por mais que alguns tenham tentado fazer do limão uma limonada, apregoando que suas correntes saíram dela unificadas.
No terreno do realismo político, não haveria por que lamentar o ocorrido. Suas lideranças são adultas e sabem o que fazem — ou deveriam sabê-lo. Se é assim que querem ser, que o sejam.
Para quem olha o sistema político brasileiro de fora, no entanto, o episódio é de lamentar. Ele ilustra a imensa dificuldade que nossos partidos têm de passar de instituições fechadas a abertas. De evoluir de organizações de quadros para organizações de massa, na consagrada terminologia de Maurice Duverger.
Chegou a parecer que o PSDB paulista teria a coragem de fazer a transição. Até o início do ano, tudo indicava que era para valer o desejo de reinventar-se.
Quatro pretendentes ofereceram o nome e entraram em campo. Arregaçaram as mangas e foram fazer campanha, percorrendo bairros e comparecendo a debates com apoiadores e militantes, alguns de intensa participação.
Pela primeira vez, o PSDB estava a caminho de prévias partidárias em uma eleição grande, de importância nacional. Não que nunca tivesse realizado alguma, mas não de tal significado.
O que acontecia era a realização de algo que, até então, os tucanos apenas imaginavam. Quando, por exemplo, em 2009, Aécio sugeriu que o partido escolhesse o candidato a presidente por meio de prévias, todos sabiam que a proposta era inexequível — ele incluído. O PSDB não tinha condições operacionais de realizá-las em âmbito nacional, pela simples razão de que não dispunha de instrumentos para fazê-las nos estados e em quase nenhum município.
Se tivesse avançado, o processo paulista deste ano seria um marco na história do partido. Depois dele, seria difícil evitar que surgissem pré-candidatos “independentes” — isto é, não ungidos pelos líderes — e que as bases partidárias — mesmo que não sejam lá tão grandes — quisessem ser ouvidas na escolha de candidatos a qualquer cargo.
Mas, movidos, pela enésima vez, pela sua peculiar maneira de ler as pesquisas de intenção de voto — em que o que importa é de quanto parte um candidato e não aonde pode chegar —, os próceres peessedebistas não admitiram que o processo fosse adiante. Na última hora, melaram o jogo e resolveram que o candidato seria Serra.
Bem que eles — a começar pelo próprio — preferiam cancelar as prévias, marcadas para dias depois do “lançamento” da candidatura. Mas seria traumático demais para aqueles que haviam acreditado nelas, que ficariam com cara de bobo. Foram apenas adiadas, dando tempo ao candidato para que reunisse apoio entre os filiados.
Domingo, Serra teve a vitória mais pífia de sua carreira: o comparecimento foi decepcionante e sua votação, surpreendentemente baixa. Ganhou de José Aníbal por pouco mais de mil votos.
Mais relevante, porém, é a marcha ré que levou ao resultado — e que o explica. Na hora em que as portas estavam abertas para que o PSDB deixasse de ser um típico partido de quadros, recuou.
Parece que os tucanos não aprendem a lição: o PT só é o que é por ser um partido. De verdade, e não uma agremiação de notáveis — que há tempo deixaram de ser fortes.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 25 Março 2012 / 9:02

Quem fala demais…

                                                     Marcos Coimbra*
          O ex-governador José Serra é um homem de declarações polêmicas. Não era. Mas tornou-se.
Sua marca mais notável sempre foi a discrição. Fazia questão de estar sério, a ponto de muitos o considerarem excessivamente fechado. Para dizer o mínimo.
Essa sisudez ajudava a preservar a imagem de alguém de tal maneira voltado para as obrigações que não lhe sobrava tempo para amabilidades. Um obcecado pelo trabalho. Uma máquina competente, que varava madrugadas debruçado sobre estudos e relatórios, impaciente com tudo que o desviava deles.
Quem se apresentava assim não podia se deixar levar pela língua. Quanto menos cedesse aos apelos para se pronunciar, melhor. Evitava os riscos em que incorrem os que não conseguem calar-se.
Agora, não. Volta e meia, emite juízos inusitados. Fala coisas sem pensar.
É possível que esteja assim pelo desconforto de ter que fazer o que não queria. A candidatura a prefeito de São Paulo, além de desviá-lo da rota que havia traçado para seu futuro, revelou-se uma dor de cabeça.
Hoje, deve vencer as prévias partidárias a que, a contragosto, teve que se submeter. Mas a candidatura, lançada para aglutinar o PSDB da cidade, ficou longe de consegui-lo.
Um levantamento feito, semana passada, entre presidentes de diretórios zonais do partido, mostrou o tamanho da resistência a seu nome: 51 foram consultados — de um total de 58 — e apenas 20 disseram que votariam nele.
Seja causado por esses novos ou por antigos dissabores, o fato é que tem dito coisas que, nos bons tempos, não se ouviam dele.
Como a respeito do compromisso de não deixar a prefeitura, assumido de livre e espontânea vontade durante a campanha de 2004. Ao longo dela, em diversas oportunidades, assegurou que não sairia — chegando a afirmar que só não completaria o mandato se “Deus me tirar a vida”. Até assinou um “papelzinho” com esse teor.
Agora, diz que o compromisso era não disputar a Presidência em 2006, e que o teria honrado. Ou seja, largar a prefeitura para concorrer ao governo do estado não representaria quebra de palavra.
Seria bonito se fosse verdade, mas ele se esquece que, no mundo de hoje, é fácil ter acesso às imagens da época. Nelas, aparece garantindo que não sairia em nenhuma hipótese.
Não é inteligente evitar ser considerado pouco verdadeiro com outra inverdade. Não parece coisa de Serra.
E o que pensar de sua declaração de que “em matéria de parceria, o parceiro fundamental da prefeitura é o estado e não a União”, que contraria tudo que sabemos sobre a concentração de recursos e poderes na esfera federal?
À primeira vista, parece um modo habilidoso de sugerir que a ligação de Fernando Haddad com Dilma é pouco importante para a cidade e que a dele com Alckmin é que é “fundamental”. Mas o que faz é jogar no colo dos governadores tucanos — que, ele incluído, se sucedem no Palácio dos Bandeirantes desde 1994 — a responsabilidade pelo que falta na capital.
Mas nenhuma de suas recentes declarações é tão sem sentido quanto a de que “o governador de São Paulo é um prefeitão”. O que será que imagina?
Que Alckmin é um prefeitão? Ou que Mário Covas e Franco Montoro foram prefeitões, para ficar com dois correligionários? Que ele mesmo foi, à frente do governo do mais rico estado brasileiro, apenas um prefeitão da capital? Que o papel nacional do governador de São Paulo é de prefeitão?
Falando coisas desse tipo, vê-se que Serra não atravessa mesmo uma boa fase.
Vamos aguardar seus pronunciamentos, agora como candidato oficial ao posto que não desejava. Promete.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 04 Março 2012 / 10:27

Nacionalizando São Paulo

                                       Marcos Coimbra*
          Chega a ser comovente a satisfação com que alguns setores da sociedade paulista receberam a decisão de Serra de disputar as eleições este ano. Desde o dia em que ele fez o anúncio, estão em êxtase.
Foi nítido o aplauso de alguns veículos da grande imprensa da cidade. Editoriais e colunistas celebraram o gesto “de estadista” do ex-governador, com o entusiasmo de quem noticia um fato de importância capital para o Brasil.
Na internet, seja nos blogs da direita, seja nas manifestações “espontâneas”, viu-se um clima que misturava júbilo e animosidade. Vinha daqueles que se sentiam-se órfãos de uma candidatura que “enfrentasse” o “lulopetismo”. Ficaram felizes quando seu campeão se dispôs a entrar no páreo.
Serra — não fosse ele quem é — parece estar se sentindo bem no papel que lhe está sendo oferecido. Tudo que mais quer é (re)assumir o posto de “líder nacional que luta contra Lula e o PT”.
É como se o passado recente, o presente e o futuro se entrelaçassem em uma só história. Nela, 2012 é apenas uma etapa — em si desimportante — no meio do caminho entre 2010 e 2014.
No discurso em que comunicou a decisão de concorrer, Serra foi explícito: seria candidato para, eleito, impedir, com o “peso e a importância que tem São Paulo”, o “avanço da hegemonia de uma força política no país”, assim solucionando os “dissabores que o processo democrático tem enfrentado” (seja lá o que chama de “dissabor”).
A proclamação de que entrou na disputa para “conter o avanço do PT” foi logo recompensada. No dia seguinte, o maior jornal conservador da cidade saudou a “federalização” da eleição, dizendo que o gesto de Serra “reanima (sic) a possibilidade (…) de existência de uma alternativa ao lulopetismo no comando dos destinos nacionais”. Para o ex-governador, rasgou seda: “José Serra cria um fato político que transcende os limites do município”.
Enquanto prosperava essa troca de amabilidades sob a luz dos holofotes, nos desvãos da internet o tom era mais pesado, ainda que com conteúdo semelhante. Depois de meses amuados, também os ciber-brucutus do serrismo se sentiram “reanimados” pela perspectiva de derrotar os adversários. Os radicais se alvoroçaram.
Parece perfeito: um político que se oferece para fazer aquilo que um segmento da sociedade almeja e diz o que essas pessoas querem ouvir. Serra deseja ser candidato para derrotar o “lulopetismo” e há quem torça para que a eleição de São Paulo seja isso. Qual o problema?
O problema é que nem ele, nem seus amigos veem a eleição de prefeito como um fim (mas os eleitores sim).
Ou faria sentido “enfrentar o lulopetismo” tomando conta da prefeitura? Administrando a Guarda Municipal, a merenda escolar, o transporte público? Lidando com camelôs e perueiros? Distribuindo uniformes escolares? Tentando acabar com os congestionamentos no trânsito? Construindo piscinões?
Pode haver — e há — quem queira ver sangue no embate PSDB vs. PT. A dúvida é se o ringue apropriado é uma prefeitura — mesmo a de São Paulo, que é, apenas, maior que as outras.
Na hora em que a campanha levar o ex-governador ao Jardim Elba, em Sapopemba, o que ele vai dizer aos moradores? Que vai conter o “avanço do PT”? Como? Brigando com o governo federal, com Dilma e seus programas?
Ou vai fazer como em 2010, prometendo que manterá e melhorará iniciativas como o Bolsa-Família, o Prouni, o Minha Casa, Minha Vida? Que vai fazer tudo aquilo com que Fernando Haddad se comprometerá, só que com mais “competência”, pois tem mais “experiência”?
E na hora em que seu vigor anti-lulopetista arrefecer? Na hora em que voltar a ser o Serra de 2010, o “Zé que vai continuar a obra do Lula”?
Só há um jeito de Serra manter a contundência oposicionista que tanto agrada a seus amigos: convencer-se de que a eleição está perdida. Só nessa hipótese será coerente com o que esperam dele.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 8:28

De volta ao passado

                 Marcos Coimbra*

      Depois de um longo percurso, do qual parecia que sairia mudado, o PSDB de São Paulo acabou no mesmo lugar. Com o anúncio de que José Serra disputará a eleição de prefeito da capital este ano, o partido voltou à estaca zero.
Nada de prévias, nada de renovação, nada de formar quadros para o futuro. Se o ex-governador mantiver a disposição de hoje — o que, com ele, nunca é certo —, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes.
Para Serra, é a quarta tentativa de chegar à prefeitura da cidade e a oitava eleição majoritária desde 1988. Dessas, venceu três — o que não chega a configurar uma carreira de vitórias.
Pela enésima vez, o PSDB torna as pesquisas de intenção de voto seu critério fundamental de decisão. É como se a coisa mais importante do mundo fosse a posição dos candidatos na “corrida”.
Não deixa de ser curioso que um partido tão cheio de sociólogos e cientistas políticos — que deveriam saber avaliá-las — se comporte dessa maneira. Mais do que ninguém, têm a obrigação de conhecer os alcances e limitações de pesquisas desse tipo e a esta distância da eleição.
Pelo que estávamos vendo nas últimas semanas, uma parte do tucanato sofreu um ataque de pânico pré-eleitoral. Imaginaram que seriam derrotados, no primeiro turno, por Fernando Haddad.
Outra coisa engraçada: com toda razão, não se preocuparam com a posição de Haddad nas pesquisas de agora. O que os interessava era onde poderia chegar.
Se tinha 4% ou 5%, não importava. Por ser bom candidato, porque deverá fazer boa campanha e, especialmente, por contar com o apoio de Lula e Dilma, apostaram no seu crescimento.
Mas não raciocinaram assim em relação a seus pré-candidatos. Talvez por não acreditar no potencial de nenhum e não levar fé na influência de seus líderes, enxergaram somente que os quatro estavam “mal” nas pesquisas — embora empatados com o candidato do PT.
Não foi difícil obter de Serra que se desdissesse. Sua jura de que não seria candidato tinha o valor de outras coisas com as quais havia se comprometido no passado.
É lógico que aceda ao “apelo dos correligionários”. Depois do que dele andou falando, FHC e em meio a denúncias cada vez mais fortes de seus adversários, participar da eleição, mesmo que para perder, é positivo.
Contando com a simpatia quase unânime das grandes corporações da mídia, ele será mais bem tratado que o petista. De agora a outubro, terá oito meses de visibilidade, com a imensa exposição que apenas as eleições de prefeito oferecem aos candidatos, dadas as peculiaridades de nossa legislação eleitoral.
Melhor que a penumbra a que estava condenado a partir do momento em que Aécio foi sagrado “candidato óbvio” das oposições em 2014.
As pesquisas foram, outra vez, soberanas no ninho tucano, mas devem ser olhadas com atenção, antes de fazer planos para os próximos anos levando em conta que Serra ganhará.
Sem Marta, ele, de fato, lidera. Mas alcança uma vantagem diminuta para alguém com seu currículo: com 20%, conhecido por quase 100% dos eleitores e sendo o mais rejeitado, quanto conseguirá crescer – considerando que, com o que obtém hoje, não vai a lugar nenhum?
Seus amigos comemoraram que Kassab resolveu apoiá-lo. O problema é que isso faz com que ele se torne o “candidato óbvio” da continuidade de uma administração que vai (muito) mal.
É evidente que pode vencer. Haddad e Chalita são políticos jovens, menos conhecidos, e ele talvez receba o voto do eleitor despolitizado e desinteressado, para quem é mais cômodo votar em nomes familiares.
Não é isso, no entanto, que indicam as pesquisas. O petista e o peemedebista possuem larga perspectiva de crescimento, mesmo no eleitorado conservador, o atual bastião do serrismo.
Para ele — que não tem, a esta altura, nada a perder —, o resultado disso tudo pode não ser ruim. Para o PSDB, no entanto, é pouco provável que seja bom. Vencendo, nem Aécio, nem Alckmin terão um aliado sincero na prefeitura de São Paulo. Perdendo, o partido permanecerá sem opções para os próximos anos”.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 26 Fevereiro 2012 / 21:56

Um projeto já

                                                Marcos Coimbra*

       Não faz muito tempo, brincava-se, nos meios políticos, com a mania que os petistas tinham de criar complicações para si mesmos. Complicações desnecessárias, que podiam perfeitamente evitar.
Era um que falava demais, outro que dizia inconveniências, alguns que não sabiam se comportar. Por uma razão ou por outra, expunham suas desavenças e criavam embaraços para todos. O que devia ficar entre quatro paredes saía no jornal.
Os próprios petistas eram seus maiores inimigos.
Hoje, depois de oito anos de Lula, e neste início de segundo ano de Dilma, o PT parece estar pacificado. As futricas internas e as clivagens entre seus grupos e correntes não desapareceram, mas foram apaziguadas. Ninguém dá caneladas nos companheiros, seja por descuido ou de propósito (a não ser com discrição, longe dos holofotes).
Enquanto isso, o PSDB, em sua mais tradicional cidadela e na eleição de maior visibilidade nacional, age de maneira oposta. Nos últimos quinze dias, fez tudo que podia fazer de errado.
A escolha do candidato tucano a prefeito de São Paulo se tornou um espetáculo de forte desgaste para o partido. Que poderia ter sido evitado, pois quem o inventou e encenou foi o próprio PSDB.
Seria um exagero dizer que a secção paulista do partido define sua imagem nacional. Afinal, apenas 20% de bancada parlamentar do PSDB vem do estado e o “candidato óbvio” a presidente em 2014 — nas palavras de seu mais ilustre expoente, o ex-presidente Fernando Henrique — é o mineiro Aécio Neves.
Mas é impossível negar o peso que os paulistas têm no partido. Apenas para ilustrar: desde sua criação, em 1988, todos seus candidatos à Presidência da República vieram de São Paulo — Mário Covas, Fernando Henrique, Serra e Alckmin.
Nas idas e vindas do episódio de agora, o PSDB paulista só emitiu sinais negativos. Que não é capaz de definir como prefere escolher seu candidato, hesitando entre fazer prévias com seus filiados ou deixar que os “notáveis” decidam. Que está fragmentado e confuso, dividido em alas que mal conseguem dialogar. Que não tem lideranças que exerçam, com legitimidade, a função de liderar.
Nas palavras de Arnaldo Madeira, peessedebista paulista de alta plumagem — foi líder do governo Fernando Henrique na Câmara e secretário da Casa Civil de Geraldo Alckmin: “O partido não sabe para aonde vai. Essa falta de rumo afeta o PSDB há alguns anos, não é de agora (…). O partido está sem direção, perdido nacionalmente e em lugares como São Paulo, único em que o partido existe para valer”.
Fora os exageros, a irritação de Madeira talvez decorra da crise atual — pois parece não engolir a submissão de seu partido aos vacilantes humores de José Serra, em sua hamletiana dúvida entre ser ou não ser candidato —, mas o diagnóstico que faz sobre o PSDB é mais profundo — e verdadeiro.
No momento em que o PSDB mais precisaria mostrar-se capaz de se tornar (ou de voltar a ser) um meio de expressão e um canal de representação para uma parcela importante da sociedade brasileira — contrapondo-se ao PT, a Lula e a Dilma —, marca passo e retrocede em São Paulo.
Seus líderes locais parecem fortes, mas estão “perdidos”, como diria Arnaldo Madeira. As lideranças nacionais tucanas assistem de longe. Deixam nítido que o partido não tem uma instância de articulação nacional para evitar que conflitos paroquiais o afetem como um todo.
E ainda tem gente que não entende por que Lula e o PT se tornaram o que são no Brasil.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 15 Fevereiro 2012 / 10:00

A prévia na Venezuela

                    Marcos Coimbra*

         Já se disse que, com a qualidade da oposição que enfrentava, não era mistério que o governo Lula tivesse tanta aprovação e que sua maioria no Parlamento fosse folgada.
Seria um exagero tudo atribuir aos erros dos adversários, mas a explicação tem algo de verdade – pelo menos para o que aconteceu no segundo mandato. E continua a valer para o governo Dilma.
Embora sempre repita que precisa se repensar e mudar, a oposição brasileira se mostra incapaz de passar da teoria para a prática. Fala muito e faz pouco.
Suas principais lideranças se comportam como se ainda estivéssemos na era da notícia impressa. Como se, para fazer política com competência, bastasse conquistar a simpatia de editores e colunistas, e aparecer bem nos jornais e revistas (algo que conseguem até com sobra, mas não adianta).
Apequenadas e desanimadas, gastam seu tempo em brigas e conclamações à unidade. Falta-lhes acordo sobre o que dizer, pois não sabem se querem apresentar-se como proposta de futuro ou de retorno ao tempo glorioso – que só existe para elas – em que estavam no poder.
Seu problema, no entanto, não é de discurso (ou de falta dele). O que precisam é de uma estratégia para (re)conquistar a Presidência da República, claramente elaborada e à qual se dediquem sem preguiça e salto alto.
Estamos vendo na Venezuela um exemplo de ação oposicionista que elas deveriam analisar. Vindo justo de um país que tem sido tão depreciado pelos “formadores de opinião” brasileiros.
Acabou de ser realizada, domingo, uma prévia eleitoral única naquele país. Pela primeira vez, o conjunto do eleitorado venezuelano foi convocado a se manifestar sobre quais candidatos preferia para diversos cargos, entre os muitos que a oposição poderia lançar.
A escolha mais importante foi, obviamente, do candidato oposicionista que vai enfrentar Hugo Chávez na eleição presidencial de outubro. Venceu o favorito, Henrique Capriles, governador do estado de Miranda.
Ao contrário do que gostariam alguns no Brasil, ele se apresenta como candidato de centro-esquerda, e diz que pretende fazer um governo inspirado no brasileiro, com a mesma visão da economia e atuação social. Nada indica, portanto, que professe as ideias de nossos “liberais”.
Isso é o de menos. O relevante, para nós, é o caminho que as oposições venezuelanas trilharam para chegar a essas prévias.
Em primeiro lugar, se entenderam. Perceberam que, sozinhos, os diferentes partidos e facções oposicionistas não chegariam a lugar nenhum. Resolveram formar o que chamaram Mesa da Unidade Democrática, MUD, que teria um candidato único.
Foram além. Propuseram uma prévia “aberta”, na qual poderia votar qualquer eleitor do país, independentemente de filiação. Seria uma maneira de dar lastro popular ao nome que lançassem e mobilizar o eleitorado, aquecendo os ânimos para outubro.
Também ao contrário do que imaginaríamos – pois somos permanentemente levados a ver o “chavismo” como ditadura –, as prévias foram realizadas com ampla colaboração da Justiça Eleitoral (que cedeu à MUD listas eleitorais e alugou urnas) e apoio logístico e de segurança das Forças Armadas. Ninguém, no governo, as impediu ou mesmo dificultou – ainda que, naturalmente, fossem contra. Nenhum eleitor denunciou o cerceamento de seu direito de votar.
As prévias foram um sucesso, especialmente pelo comparecimento. Cerca de 2,9 milhões de pessoas saíram de casa – sem obrigação – para votar, o que representa quase 17% do eleitorado total. (Apenas para comparar: nos Estados Unidos, na maioria das já realizadas, a participação nas prévias republicanas tem oscilado entre 10% e 23% – lembrando que a maioria é fechada, isso é, restrita a eleitores registrados do partido).
A premissa institucional para tudo foi haver uma legislação eleitoral que não impedisse o processo político de seguir seu curso. O inverso do que temos no Brasil.
Se nossas oposições quisessem pensar em algo semelhante, enfrentariam a rigidez e o burocratismo da legislação (e da Justiça Eleitoral) que temos. Com seu artificialismo e seu viés desmobilizador, prevaleceria o entendimento de que prévias abertas, feitas sete meses antes da eleição, seriam “propaganda antecipada”.
É (bem) possível que Chávez vença, no voto, a eleição. Mas a oposição venezuelana deu provas de maturidade e de inventividade estratégica que renderão bons frutos. Se não agora, mais para adiante.
Enquanto isso, no Brasil, as oposições…”
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve no ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 12 Fevereiro 2012 / 21:38

Prévias tucanas em São Paulo

                                                                          Marcos Coimbra*
       As prévias partidárias estão na moda. Nos Estados Unidos, os pré-candidatos a presidente do Partido Republicano se engalfinham. No Brasil, o PSDB paulista anda às voltas com elas em diversas cidades, tentando fazê-las para escolher seus candidatos a prefeito.
Em São Paulo, a discussão é especialmente relevante na capital, pelo motivo óbvio de ser a mais importante cidade do estado e a maior do Brasil. A disputa pela sua prefeitura sempre desperta interesse nacional, apesar de ter consequências tênues nas eleições presidenciais — e mesmo nas estaduais — seguintes.
Teremos, este ano, uma eleição aberta na cidade, sem medalhões de qualquer lado. No PT, por escolha do Diretório Municipal, que acatou a orientação de Lula e sua indicação de Fernando Haddad. No PSDB, pelo esvaziamento de Serra, que fez com que ele mesmo preferisse não correr o risco de uma derrota.
O prefeito vai mal de imagem — aliás, muito mal — e tampouco tem um nome forte para lançar. Kassab terminou 2011 como vitorioso no front político, depois que seu PSD cresceu além do imaginado, mas amargando índices fortemente negativos de avaliação. A ideia de continuidade, bandeira inevitável de um candidato ligado a ele, tem poucos adeptos.
Nada mais natural que o PSDB procure novos rostos. E existem vários em condições de representá-lo em outubro. Mais novos e mais velhos; mais ligados a Alckmin ou a Serra; com atuação na prefeitura ou no governo do estado; com e sem experiência no Legislativo.
Em condições como essa, no mundo inteiro, é comum que os partidos façam prévias. É o que está acontecendo, nos Estados Unidos, com os republicanos. São, atualmente, quatro candidatos, dentre os quais sairá o adversário de Obama.
Lá, é um processo totalmente institucionalizado, tão antigo quanto a democracia — mesmo que seja confuso e misterioso para os não iniciados.
Aqui, o problema é que nossa legislação a respeito das prévias é simples, mas restritiva. E nossos partidos, com exceção do PT, não têm experiência com elas.
Falar em prévias, no Brasil, é mais fácil do que realizá-las. Como está vendo o PSDB de São Paulo.
A legislação admite apenas prévias “fechadas”, em que só filiados podem votar. E aí começam os problemas. De um lado, a vasta maioria dos eleitores identificados com o PSDB não está inscrita, pois filiar-se a um partido — a qualquer partido — não é comum em nossa cultura política. De outro, uma proporção nada irrelevante dos que preencheram ficha de inscrição não tem vínculo com ele.
Nem o PSDB sabe, com certeza, quantos são seus filiados em São Paulo. Até 2009, trabalhava-se com uma estimativa de 40 mil, quando Serra, preocupado com a movimentação de Aécio em favor de prévias na eleição do ano seguinte, mandou fazer uma recontagem. O número caiu pela metade, mas continuava incerto.
O partido contratou, então, uma empresa de telemarketing para checar seu cadastro. Que, até agora, a um mês da data marcada para que as prévias aconteçam, só conseguiu contatar 8,5 mil pessoas.
Quantos eleitores tucanos haverá em São Paulo? Difícil responder, mas sabemos, por exemplo, que Serra teve 3,4 milhões de votos na cidade em 2010. Que Alckmin teve 3,2 milhões para governador, no mesmo ano.
Embora imensa, não seria tão grave a discrepância entre eleitores e filiados (que são, somente, 0,003% dos primeiros) se esses fossem uma espécie de “vanguarda tucana”, cidadãos de tal maneira motivados e dispostos a participar que seria natural que sua decisão fosse acolhida pelos demais.
Quando, porém, se vai à procura dos filiados ao PSDB, o que se encontra, em muitos casos — como registrou a reportagem de um dos mais importantes jornais paulistas —, são pessoas que nem sabiam que o eram, pois acreditavam que haviam “preenchido fichas” para se cadastrar no Minha Casa, Minha Vida, ou para receber leite em programas estaduais. Que não têm qualquer intenção de se envolver nas questões do partido. Que foram arregimentadas por cabos eleitorais ou filiadas por amigos, algumas até simpatizantes do PT.
É bom e salutar que os partidos façam prévias. Elas oxigenam a vida partidária e os fortalecem.
Mas nossos partidos têm que fazer muito para que elas sejam mais que uma ficção. Partidos que nasceram na elite — e permaneceram sendo organizações de quadros — precisam se reinventar se quiserem se abrir à efetiva participação popular.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

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