• Segunda-feira, 26 Março 2012 / 9:33

Ex-ministro defende Cachoeira

     De Vera Magalhães, do Painel da ‘Folha’:
     “O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos assumiu a defesa do empresário de jogos Carlinhos Cachoeira, preso na Operação Monte Carlo sob acusação de liderar organização que explorava caça-níqueis em Goiás. O criminalista montou equipe para estudar o processo e protocolou memorial em habeas corpus a ser apreciado hoje no Tribunal Regional Federal.
A entrada de Bastos no caso ocorre no momento em que crescia em Brasília o temor de que Cachoeira, pivô do escândalo Waldomiro Diniz, o primeiro do governo Lula, revelasse extensa lista de contatos com políticos, inclusive petistas, documentados em áudio.
Por ora, as investigações da PF demonstraram conexões mais próximas de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), de quem é amigo. Foram gravados 300 telefonemas entre os dois”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:59

Thomaz Bastos defenderá Lula

Do repórter Flavio Ferreira, da ‘Folha’:
“O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, será defendido por Márcio Thomaz Bastos, seu ex-ministro da Justiça e advogado criminalista, em uma das ações apresentadas à Justiça Eleitoral.
Bastos defenderá o presidente em ação por suposto uso da máquina pública e propaganda eleitoral antecipada em favor da pré-candidata do PT Dilma Rousseff, nas festas de 1º de Maio das centrais sindicais.
A atuação de Bastos neste momento sugere que a representação proposta nesta semana pelo DEM causou grande preocupação ao PT, uma vez que a estratégia jurídica do partido para as eleições prevê o aproveitamento do peso jurídico e político do criminalista somente nos casos mais sensíveis que envolvam Lula e Dilma.
O ex-ministro da Justiça também atuará nos próximos meses como consultor do coordenador jurídico da campanha petista, o deputado federal José Eduardo Martins Cardozo.
Na ação em andamento, Lula poderia ser defendido pela AGU (Advocacia-Geral da União), mas será representado em juízo apenas por Bastos.
O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já aplicou duas multas a Lula, nos valores de R$ 10 mil e R$ 5.000, em ações em que o presidente foi acusado de fazer propaganda eleitoral antecipada em favor de Dilma.
Os casos ocorreram em um evento do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) no Rio de Janeiro, em maio de 2009, e na inauguração do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados de São Paulo, em janeiro de 2010.
Além das representações referentes à participação de Lula nas festas de 1º de Maio, a oposição também propôs ações relativas ao pronunciamento do presidente em rede nacional de rádio e TV na semana passada.
A equipe jurídica do PT, que terá seis núcleos de atuação, está praticamente fechada. De acordo com proposta em análise pela direção, o time poderá contar com até 20 advogados.
Faltam apenas alguns detalhes para a contratação formal do advogado especialista em direito eleitoral Márcio Silva, que já trabalhou para o PT nas últimas três eleições presidenciais, ao lado do ex-advogado e atual ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) José Antonio Dias Toffoli. Ele deverá atuar como um dos coordenadores do time jurídico.
O ex-secretário Nacional de Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça da gestão de Bastos, Pierpaolo Cruz Bottini, estará na equipe jurídica do PT.
O advogado Flávio Caetano também fará parte da estrutura jurídica. Ele já cuidou da apresentação de ações à Justiça Eleitoral contra membros do PSDB pelo suposto uso de sites da internet para ofender Dilma e outros petistas”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:44

Ciro: “Lula navega na maionese”

Do repórter Eduardo Oinegue, do IG:
“Na noite da última quinta-feira, o deputado Ciro Gomes estava magoado com a decisão do PSB de abandonar sua candidatura para apoiar a petista Dilma Rousseff, como se pode perceber nesta entrevista concedida ao iG.
As palavras duras empregadas na entrevista que concedeu ao iG, contudo, não vinham acompanhadas de um tom eufórico. Ciro estava sereno, mesmo quando declarou que ?Lula está navegando na maionese?. Na conversa, assumiu pela primeira vez que sua candidatura à presidência da República chegou ao fim. Oficialmente, aguardará a decisão da executiva do partido, marcada para o dia 27 de abril, terça-feira da semana que vem. Mas o próprio teor das declarações que fez ao iG indica o grau de entrosamento entre candidato e legenda. Citando nominalmente o presidente nacional do partido, o governador Eduardo Campos, de Pernambuco, e o vice-presidente da legenda, Roberto Amaral, Ciro disse que os líderes pessebistas ?não estão no nível que a História impõe a eles?.
Pela primeira vez, Ciro admitiu também que pode largar a política partidária neste ano. Ex-prefeito de Fortaleza, ex-governador do Ceará, ex-ministro da Fazenda de Fernando Henrique Cardoso e ex-ministro de Lula, Ciro Gomes tem uma carreira política vitoriosa. Aos 53 anos, poderá se ver obrigado a fazer uma parada técnica e ficar de fora da política por dois anos se se dispuser a voltar na condição de prefeito, ou até quatro anos, se quiser voar mais alto. Terá então 57 anos, jovem para padrões políticos.
A parte mais forte da entrevista concedida ao iG foi reservada ao presidente Lula, a quem acusa pessoalmente de agir de maneira desmedida na tentativa de eleger a candidata Dilma: ?Lula está navegando na maionese. Ele está se sentindo o Todo-Poderoso e acha que vai batizar Dilma presidente da República. Pior: ninguém chega para ele e diz ?Presidente, tenha calma?. No primeiro mandato eu cumpria esse papel de conselheiro, a Dilma, que é uma pessoa valorosa, fazia isso, o Márcio Thomaz Bastos fazia isso. Agora ninguém faz?.
Ciro Gomes afirma que Lula tem a popularidade que merece ter, pois seu governo tem realizações. ?Mas ele não é Deus?. Ciro critica a decisão do Palácio do Planalto de interferir no debate interno do PSB e critica ainda o que classifica de subserviência partidária: ?Tiraram de mim o direito de ser candidato. Mas quer saber? Relaxei. Eles não querem que eu seja candidato? Querem apoiar a Dilma? Que apoiem a Dilma. Estou como a Tereza Batista cansada de guerra. Acompanho o partido. Não vou confrontar o Lula. Não vou confrontar a Dilma.?
Na entrevista, Ciro Gomes diz que sua presença na eleição cumpriria uma missão. ?Trata-se de uma missão estratégica, que não será desempenhada por mais ninguém?. Ciro afirma que não tinha ilusões eleitorais, mas via uma chance de ajudar num debate que, ao seu ver, é urgente. ?Em 2011 ou 2012, o Brasil vai enfrentar uma crise fiscal, uma crise cambial. Como estamos numa fase econômica e aparentemente boa, a discussão fica escondida. Mas precisa ser feita.? Segundo Ciro, a candidatura de Dilma Rousseff tem menos chance de enfrentar o problema do jeito que ele precisa ser enfrentado. ?Como o PT, apoiado pelo PMDB, vai conseguir enfrentar esta crise? Dilma não aguenta. Serra tem mais chances de conseguir?.
Embora prometa acatar a decisão do partido de apoiar a candidata petista, até porque não restam alternativas, Ciro Gomes avisa que não se envolverá na campanha: ?Não me peçam para ir à televisão declarar o meu voto, que eu não vou. Sei lá. Vai ver viajo, vou virar intelectual. Vou fazer outra coisa?. Ciro acredita que a eleição deste ano será marcada por baixarias, entre as quais inclui uma ação de grupos radicais abrigados no PT: ?Sabe os aloprados do PT que tentaram comprar um dossiê contra os tucanos em 2006? Veremos algo assim de novo. Vai ser uma m??

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

A ‘Isto É’ e o ‘Mensalão’ – 2

UMA MALA COM R$ 1 MILHÃO

” Os novos documentos do processo no STF mostram que o caixa 2 do PT não foi usado apenas para o pagamento de dívidas de campanha, como sempre sustentaram o ex-tesoureiro do partido, Delúbio
Soares, e toda a cúpula petista na tentativa de qualificar o caso como crime eleitoral, o que possibilitaria a aplicação de penas mais brandas contra eles. Em 9 de julho do ano passado, às 14 horas, em depoimento prestado na 1ª Vara Federal Criminal de Porto Alegre, o contador David Stival, membro da Executiva
Regional do PT no Rio Grande do Sul, contou, que pelo menos uma boa quantia dos ?recursos não contabilizados pelo partido? viajava livremente pelo País até chegar a destinos improváveis. Eles irrigaram, por exemplo, as contas bancárias de fornecedores do Fórum Social Mundial, criado por movimentos de esquerda para fazer frente ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. No depoimento, Stival afirmou ? numa posição inédita entre os dirigentes do partido ? ter usado esse dinheiro suspeito para pagar ?dívidas históricas? do Fórum, organizado pelo PT de Porto Alegre, que costuma ter o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a estrela maior. O depoimento de Stival é bastante detalhista. Ele diz que, terminada a eleição de 2002, o PT gaúcho estava com uma série de dívidas e que precisou recorrer à direção nacional do partido em busca de recursos. Afirmou que procurou o deputado José Genoino (SP), então presidente do PT, e que foi apresentado ao secretário nacional de Finanças, Delúbio Soares. Uma surpresa esperava Stival no encontro com Delúbio, que prometera lhe repassar R$ 1 milhão”.

?Ele (Delúbio) pediu para buscarmos o dinheiro, mas não nos disse que o dinheiro seria em cash e a gente ficamos (sic) preocupados com isso?, relatou Stival. ?Ele disse que teria que ser assim porque se tratava de um empréstimo feito pela Direção Nacional e que não poderia ser contabilizado. Disse que o empréstimo era do Banco Rural ou do BMG, mas que nós não poderíamos contabilizar aquele dinheiro.? O que seria uma
solução virou então uma fonte de problemas, segundo a versão do dirigente do PT gaúcho, depois que ele desembarcou em Porto Alegre carregando uma mala com R$ 1 milhão. ?Não podíamos pagar as dívidas de campanha com aquele dinheiro. As dívidas estavam todas com notas a pagar, registradas na contabilidade oficial do partido?, afirmou. Ainda diante do juiz, o dirigente regional do PT narrou o que foi feito do dinheiro. ?Acabamos pagando fornecedores de outras dívidas históricas do Fórum Social Mundial, dívidas que não estavam na contabilidade oficial. O dinheiro nem entrou na sede do partido.?
Um dos principais desafios do ministro Joaquim Barbosa em relação ao Mensalão do PT é a identificação da origem dos recursos movimentados irregularmente. Até agora, os principais envolvidos no escândalo diziam que o caixa 2 petista não usava dinheiro público. Os novos depoimentos prestados à Justiça  mostram que o Ministério Público e a Polícia Federal podem ter razão quando afirmam que o ?núcleo empresarial do Mensalão, comandado pelo publicitário Marcos Valério, retirou dinheiro de órgãos administrados pelo PT.?

A FALSA CAMPANHA PUBLICITÁRIA

“Desde o início das investigações, as suspeitas mais fortes nesse sentido levavam à sede do Banco do Brasil, que tinha entre as agências que cuidavam de sua conta publicitária a DNA, de Valério. A CPI dos Correios, que investigou também o Mensalão, chegou a estabelecer um elo entre o BB e o caixa 2 petista,
alegando que o banco pagara por campanhas publicitárias não realizadas para a Visanet, empresa do qual o banco é sócio. Por falta de provas, essa tese acabou não prosperando. Agora, uma testemunha que acompanhou de perto o destino dado na época às verbas publicitárias do BB revela detalhes de como esse esquema de fato funcionou, mas através de outra empresa. Funcionária do Núcleo de Mídia do BB na época do escândalo, a jornalista Danevita Ferreira de Magalhães prestou depoimento à Polícia Federal em 1º de abril de 2008. Nele, descreve um desvio de R$ 60 milhões dessas verbas. Segundo ela, a agência DNA, de
Valério, recebeu o dinheiro do Banco do Brasil para a elaboração e veiculação de uma campanha publicitária BB/Visa Electron. O problema, disse Danevita, é que a campanha jamais foi feita e tampouco veiculada. ?Quando o escândalo explodiu, Marcos Valério mandou queimar as notas frias emitidas contra o Banco do
Brasil?, afirmou a jornalista. No Núcleo de Mídia do Banco do Brasil, durante a gestão do ex-diretor de marketing Henrique Pizzolato, a função de Danevita era exatamente acompanhar a execução dos contratos de publicidade e encaminhar os pagamentos quando as campanhas fossem veiculadas. Ela explicou ao delegado Luís Flávio Zampronha que, no caso do contrato com a DNA, chegou a alertar sobre a não realização dos serviços e acabou sendo afastada de suas funções por causa disso. ?A campanha, no valor aproximado de R$ 60 milhões, de fato nunca foi veiculada?, disse Danevita. ?As notas frias foram feitas
apenas para justificar os pagamentos.? De acordo com Danevita, ?o próprio diretor de mídia da agência DNA Propaganda, Fernando Braga, afirmou que esta campanha do Banco do Brasil/Visa Electron não tinha e nem iria ser veiculada.? Também está entre os novos documentos no processo do STF um laudo do Instituto
Nacional de Criminalística, da PF, de 2009, confirmando que houve outros desvios de dinheiro público nos contratos da DNA com o BB. ?A empresa DNA não repassou aos cofres públicos do BB as bonificações denominadas ?bônus de volume? que recebeu?, diz o laudo. A DNA de Valério recebeu R$ 37,6 milhões a título de bonificações só em contratos com o BB.

AS NOTAS FRIAS DO PTB

A grande força-tarefa de investigação montada em todo o Brasil pelo STF envolveu órgãos de várias esferas, inclusive a Receita Federal. Uma das missões do Fisco foi tentar comprovar a suspeita de que vários partidos políticos envolvidos no esquema fraudavam notas fiscais apresentadas à Justiça Eleitoral. As primeiras provas nesse sentido surgem entre as 69 mil laudas do processo do Mensalão. Em março de 2009, a Procuradoria-Geral da República enviou ao Supremo cópias de representações fiscais da Receita,
entre elas uma de novembro de 2007. O documento mostra notas fiscais fraudadas pelo PTB, justamente o partido do ex-deputado Roberto Jefferson, o histriônico autor das primeiras denúncias da existência do Mensalão (leia quadro na pág. 40). Em seu relatório final, a Receita acrescenta a Jefferson, que foi cassado durante o escândalo do Mensalão, uma nova qualificação: a de responsável pela armação das notas falsas.
Os auditores fiscais comprovaram que o PTB apresentou notas frias para justificar a origem de pelo menos R$ 858 mil. Uma das empresas citadas na representação fiscal é a VideoMaker Produções. José Antônio Sarmento, sócio da empresa, confirmou em depoimento à Receita ter sido procurado pelo advogado do PTB, Itapuã Messias, que lhe apresentou um contrato de prestação de serviços. Mas a VideoMaker, segundo Sarmento, não fechou o negócio com o partido de Jefferson e ?nunca prestou serviços para a referida agremiação política?, diz ele. Notas fiscais da empresa, porém, constavam da prestação de contas do PTB. Outros documentos da Receita mostram que a estratégia das notas frias não é exclusividade do PTB. Várias empresas registradas na escrituração do PP, por exemplo, constam no cadastro da Receita como inativas, omissas ou inaptas. Não poderiam, portanto, ter prestado serviços e emitido documentos fiscais. Um dos
responsáveis citados pela Receita é o deputado distrital Benedito Domingos (PP), também investigado por receber R$ 6 milhões do esquema do Mensalão do DEM, no Distrito Federal. Nos novos documentos encaminhados ao ministro Joaquim Barbosa, a Procuradoria-Geral da República informa ao STF que há também notificações referentes ao PT, ao PMDB e ao extinto PL. Em todos os casos, os partidos foram pilhados usando notas frias em suas prestações de contas.

A VERSÃO DOS EX-MINISTROS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alega com frequência que só soube da existência do Mensalão depois que o escândalo se tornou público. O ex-deputado Roberto Jefferson sempre disse o contrário. Assegura que ele próprio informou o presidente sobre a distribuição de dinheiro que o PT vinha fazendo no Congresso. Nos novos depoimentos já em poder do relator Joaquim Barbosa, três ex-ministros de Lula confirmam a versão de Jefferson. Em 12 de março do ano passado, diante do juiz Alexandre Bulk Madrado
Sampaio, da 4ª Vara Criminal da Justiça Federal em Minas Gerais, o ex-ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia afirmou que em março de 2005, em uma reunião da qual participaram o então ministro Aldo Rebelo, da Coordenação Política, e o líder do PTB José Múcio Monteiro, Roberto Jefferson relatou ao presidente Lula que o PT estaria repassando recursos aos parlamentares em troca de apoio aos projetos do governo. ?O presidente ouviu um breve relato feito por Roberto Jefferson, mas não disse nada a respeito?, afirmou Mares Guia. Em seguida, o juiz perguntou se o ex-ministro poderia dizer exatamente o que ouviu naquela reunião e Mares Guia declarou: ?O presidente perguntou a Jefferson como estava o PTB e o deputado respondeu: estou preocupado porque o PTB não consegue os cargos pleiteados e já negociados e tem essa conversa que tem recursos sendo distribuídos a partidos no Congresso.? Mares Guia deixou o governo em 2007, depois que ISTOÉ revelou seu envolvimento com o chamado Mensalão Tucano”.

Versões semelhantes foram apresentadas em 27 de maio do ano passado, quando os ex-ministros Aldo Rebelo e Márcio Thomaz Bastos (Justiça) também depuseram como testemunhas na 2ª Vara Criminal Federal. ?No final de uma audiência com a direção do PTB, quando todos já estavam em pé, o deputado Roberto Jefferson de alguma forma revelou ao presidente que haveria algo parecido com o que depois ele nominou de Mensalão?, afirmou Rebelo à juíza Sílvia Maria Rocha. Ainda em seu depoimento, o ex-ministro
disse que, terminada a reunião com o PTB, Lula lhe pediu para procurar mais informações sobre a denúncia feita por Jefferson. Thomaz Bastos afirmou que não esteve na reunião, mas soube mais tarde que o presidente havia pedido uma investigação sobre os fatos relatados por Jefferson. O pedido, segundo Bastos, não foi feito a ele, que comandava a Polícia Federal. O juiz pergunta ao ex-ministro se a investigação foi formal ou informal e ele responde: ?Acredito que tenha sido formal, porque foi objeto de resposta formal da Casa Civil.?

É provável que os ex-ministros tenham que fazer novos depoimentos para esclarecer contradições com antigos colegas de governo. Na maioria dos documentos, até agora inédita, em poder do STF estão
também os testemunhos da ministra Dilma Rousseff e do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. O ex-ministro nega que tenha feito qualquer investigação a pedido do presidente Lula e a atual ministra afirmou com todas as letras que na Casa Civil não existem registros sobre suposta investigação. Isso significa que
diante de uma denúncia tão grave o presidente pediu apenas uma investigação informal ou alguém está mentindo, Dilma, Dirceu ou Thomaz Bastos. Como todos, exceto Dirceu ? que é o principal réu no processo do Mensalão ?, prestaram depoimento como testemunhas, aquele que faltou com a verdade poderá ser processado pelo ministro Barbosa.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:16

Thomaz Bastos, sem iluções

De Sonia Racy, no ‘Estadão’
“Depois de 51 anos como advogado e quatro como ministro da Justiça do presidente Lula, o criminalista mais requisitado do País, Márcio Thomaz Bastos,  poderia dar-se ao luxo de evitar saias justas. Mas preferiu correr ao encontro delas ao ser contratado por clientes como Roger Abdelmassih – o médico acusado de abusos contra clientes em sua clínica de reprodução assistida.
Além da remuneração, mais atraente, Márcio faz isso porque é ardoroso defensor do princípio de que todos são inocentes até prova em contrário. Não por acaso, fundou uma ONG, o Instituto de Defesa do Direito da Defesa, que oferece assistência jurídica grátis para casos que desafiam o maniqueísmo. Nesta entrevista à coluna, o discreto ex-ministro fala de política, da relação com Lula e anuncia uma nova bandeira: a defesa da política de cotas.
- Como é a sua relação, hoje, com o presidente Lula?
- Falo com ele com alguma frequência. Adotei uma regra: não ligo para ele, espero ele telefonar. Toda vez que vou a Brasília procuro passar por lá, dar um abraço nas pessoas. Vejo muito a Dilma e o Gilberto Carvalho.
- É uma relação mais intelectual ou mais afetiva?
- Muito afetiva. Gosto dele e tenho certeza de que ele gosta de mim. Rimos muito juntos. A gente se acha engraçado, gosta de conviver.
- O senhor passou muito tempo tentando coibir crimes econômicos. Como é estar do outro lado?
- Essa tensão dialética entre acusação e defesa é fundamental para o regime democrático. Ambos os papéis são relevantes. Eu estive num posto do qual comandava a Polícia Federal e agora voltei para o lado de cá. O Rui Barbosa tem uma frase bonita que diz assim: “Eu tenho o dever de respeitar as instituições, e o direito de criticar seus integrantes.” É o que faço. Tive no começo o bom senso de não atuar enquanto não despressurizasse do serviço público. Passei dez meses sem advogar.
- Como avalia os vazamentos ocorridos no caso da Camargo Corrêa?
- São claramente ilegais. Pedimos ao juiz que apurasse. Mas acho que a imprensa, ao recebê-los, tem o direito de publicar. Quem vazou é que deve ser investigado e punido.
Muita gente acha que são vazamentos políticos… Não acredito. O perigo de vazamentos em geral é que são informações fora de contexto. Pedaços de papel que podem dizer uma coisa e outra ao mesmo tempo. No caso da Camargo, soltaram uma lista, com grande estrépito, de políticos que teriam recebido doações. Depois se viu que todas elas tinham sido declaradas à Justiça Eleitoral.
- Nos contatos com Lula, chegou a falar desse caso?
- Fui contratado pela Camargo num certo dia em que, por coincidência, eu tinha compromisso à noite em Brasília. Lá, resolvi dar uma passada no Palácio para cumprimentar o Gilberto, como faço sempre. Perguntei sobre a Dilma. Ele respondeu que ela estava com o presidente e sugeriu que entrasse, para cumprimentá-los. Havia uma reunião com Carlos Minc, Dilma e Márcio Fortes. Fui até meio inoportuno, interrompi a reunião. Eu disse: “Só vim dar um abraço”. Nunca toquei nesse assunto. Eu faço um chinese wall bem forte sobre isso.
- O sr. tem clientes polêmicos, como Roger Abdelmassih. Como os escolhe?
- Clientes polêmicos sempre vão existir. Trabalhei nisso a vida toda. Quanto mais difícil, mais excitante, joga mais adrenalina no sangue. Não escolho muito, são os clientes que me escolhem. Normalmente aceito, com restrições.
- Quais?
- Casos em que a vítima seja criança, por exemplo. Isso vem desde que minha filha era pequena. Tenho um bloqueio psicológico. Casos de tráfico de drogas também não aceito.
- O sr. vai defender as cotas para negros na UNB?
- Tive uma conversa com o ministro Edson Santos. Provavelmente vou assumir a causa. Sou a favor. São políticas compensatórias. Temos uma carga secular de dívidas. É preciso quitá-las.
- A proposta do Plano Nacional de Direitos Humanos gerou uma grande polêmica. Será que ela foi vazada para distrair a atenção de algo que não se sabe o que é?
- Esse projeto reúne coisas dificilmente compatibilizáveis, mas ligadas pelo tema direitos humanos. Não acho que vazaram por nenhum motivo conspiratório.
- Não seria melhor ter discutido um tema de cada vez? – Talvez taticamente fosse melhor. Não se abririam tantas frentes de disputa. Mas o texto se parece com os do governo FHC.
- No plano, o sr. é mais Vanucci e Genro ou Jobim?
- Eles fazem parte da tensão natural do governo. Cabe ao presidente arbitrar.
- Então, o sr. é Lula…
- Sim, entre todos sou Lula. Mas tenho muito respeito por eles.
- É a favor da revisão da Lei de Anistia?
- Não. Acho que a comissão para descobrir a verdade é uma iniciativa meritória. Essa sim é boa para que o País se reconcilie com sua própria história. Mas não acredito que se possa, nem juridicamente, mexer na Lei de Anistia.
- Com quem o sr. não se dá?
- Me dou com todo mundo. Sou uma pessoa de trato fácil. Não me lembro de ter inimigos.
- Depois de sua saída do governo houve operações da PF acusadas de midiáticas… Quando fomos para o governo a Polícia Federal era uma coisa. Depois de alguns anos do presidente Lula, já era outra. Era uma instituição despreparada e o presidente, logo nos três primeiros meses de governo, praticamente dobrou o efetivo. Depois, foi reequipando. Acho que (o exagero) não passou de uma doença infantil da Polícia Federal.
- O que o sr. aprendeu nos quatro anos de governo?
- Amadureci muito, perdi um pouco as ilusões que tinha. Aprendi que o serviço público é muito difícil. Temos uma tradição ibérica de Estado pesado, cheio de estamentos e categorias. É difícil fazer as coisas andarem. Na iniciativa privada é mais fácil.
- Que saída imagina para isso?
- Não acredito em Estado mínimo, mas em Estado forte. Mas para ele funcionar é preciso reformar o Poder Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O serviço público precisa melhorar muito. Vou dar um exemplo. Logo no começo minha ideia era criar um sistema penitenciário federal. O plano demorou três anos para sair do papel.
- O sr. andou doente. Já se recuperou?
- Quarenta dias depois de sair do ministério fiz um check up e o cardiologista me informou que eu tinha um câncer de pulmão. Levei um susto. Operei em uma semana. Fiz quimio com o Drauzio Varela, dezesseis sessões. Tirei metade do pulmão. O tratamento durou até 21 de novembro. Nunca vou esquecer essa data.
- É a favor da lei antifumo do Serra?
- Totalmente. Acho que cigarro devia ser proibido como droga.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:25

O advogado de Abdelmassih

Marcio Thomaz Bastos é desde ontem o advogado do médico Roger Abdelmassih, de 65 anos, preso desde o dia 17 de agosto acusado de ter cometido 56 estupros.
O ex-ministro vai ficar mais rico, mas pouco poderá fazer por seu cliente.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:17

Kakay, defensor dos poderosos

O ?Valor? publica hoje um excelente perfil do mais famoso advogado de Brasília, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, o maior amigo de José Dirceu e eleitor confesso de José Serra para a Presidência da República: ?Vamos ter pela primeira vez um governo de esquerda no Brasil?.
O perfil é assinado pelos jornalistas Raymundo Costa e Juliano Basile:
?Eleitor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e “grande amigo” do ex-ministro José Dirceu, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro ganhou muito dinheiro no governo do PT, mas também a fama de usar a rede de relações que construiu com os poderosos da República, ao longo dos últimos 30 anos para obter vantagens para seus clientes.
Antonio Carlos de Almeida Castro é o Kakay, que voltou ao noticiário, nas últimas semanas, na qualidade de defensor do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ameaçado por um processo de impeachment, já arquivado. Kakay é o nome certo a ser procurado em Brasília quando o assunto é crime de colarinho branco.
Com a fama e a sucessão de escândalos no país, a clientela de Almeida Castro aumentou, ele reconhece. Mas recusa terminantemente a afirmação de que tenha enriquecido no governo do PT e a pecha de “facilitador” ou de “resolvedor-geral da República”, como já foi chamado.
“Fui advogado de oito ministros do governo de Fernando Henrique Cardoso, além do vice Marco Maciel. Até hoje advogo para o Paulo Renato (ex-ministro da Educação acusado de usar indevidamente jatinhos da FAB em viagens particulares no governo FHC). No governo de Lula, sou advogado apenas de três”, disse Kakay ao Valor, em uma conversa durante almoço no restaurante Piantella, ponto de encontro de políticos, ministros de Estado e do Judiciário, e do qual é um dos sócios.
“Eu sou sócio do Piantella há 15 anos”, conta Kakay. “Nunca trouxe um ministro para almoçar ou jantar aqui. Nunca nenhum ministro de tribunal almoçou ou jantou aqui comigo.” O Piantella ganhou notoriedade como o restaurante preferido do deputado federal Ulysses Guimarães, morto em 1992, que presidiu o PMDB.
Kakay, de fato, está na praça há muito tempo. Já no governo de Fernando Collor de Mello, advogou para a ministra Zélia Cardoso de Melo. E começou a se aproximar de José Dirceu na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Anões do Orçamento. As acusações de Dirceu lhe renderam pelo menos 30 clientes naquela CPI, pela qual passaram as maiores empreiteiras do país.
“Conheci o Zé completamente fora da política. Eu era advogado das empreiteiras nas CPIs. O Zé me deu muitas causas”, diz, referindo-se ao fato de que o então deputado José Dirceu era um dos mais atuantes da bancada do PT.
Outra versão diz que Kakay aproximou-se de Dirceu, em 2003, quando, empossado na Casa Civil, o petista precisava aproximar-se de mais aliados no PMDB e o advogado o teria auxiliado nessa tarefa junto com Sarney.
Até 1994 foi sócio de José Eduardo Alckmin, hoje advogado do PSDB. Na versão de Kakay, Alckmin queria crescer; ele, manter o escritório que ainda tem num shopping da cidade – só ele e duas advogadas. Ao todo, afirma que tem uns 200 processos, mas que o escritório só toca cerca de 30 permanentemente, por conta da morosidade da Justiça. “Os processos levam 10 anos. Eu nunca tive um casamento de 10 anos”, diz ele, que já está na terceira mulher e tem três filhos.
À época, os dois advogados fizeram um acordo: sempre que um arrumasse uma causa para o outro, dividiriam os honorários. Por conta desse acordo, Kakay recebeu a primeira grande bolada já no período do governo Lula – um acordo da direção da Caixa Econômica Federal com o fundo de pensão de seus funcionários. Total dos honorários: R$ 32 milhões. Kakay ficou com R$ 16 milhões, como combinado.
Para um advogado formado na Universidade de Brasília (Unb), sem mestrado ou doutorado, o sucesso de Kakay chama a atenção. Ele começou como todos os advogados de Brasília – correspondente dos grandes escritórios do eixo Rio-São Paulo. Hoje, é o nome certo a ser procurado em casos de crimes financeiros. Em Brasília. Kakay não vai a posses nos tribunais, não frequenta a casa de ministros, nunca vai a coquetéis e diz que não mistura as coisas – votou em Lula, mas não é filiado ao PT.
“Não sou partidário”, diz Almeida Castro. “Só advogo no Judiciário”, afirma, negando que seja frequentador dos corredores de ministérios, da Casa Civil e muito menos dos palácios presidenciais de Brasília.
“Estive duas vezes em Palácio”, diz. A primeira delas, com Fernando Henrique Cardoso, acompanhando o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que fora tratar de assuntos referentes à Copa do Mundo de 2014. A outra, já no governo Lula, foi apresentar outro amigo influente: o senador Marconi Perillo (PSDB-GO), que acabara de ser eleito – mal imaginava que em 2005 Lula colocaria Perillo numa lista de inimigos pessoais, por ter o ex-governador de Goiás dito que avisara o presidente sobre o mensalão.
Kakay hoje se considera “amigo de Sarney”. Mas não era assim em um dia de fevereiro de 2002, quando ele estava no aeroporto de Brasília preparando-se para uma viagem a Goiânia, onde teria uma audiência. O telefone tocou. Do outro lado da linha estava Sarney, a quem Kakay não conhecia e de quem era um crítico. “Eu tinha formação de esquerda”, afirma.
O senador foi direto ao ponto “Um amigo comum me indicou o senhor para advogar para a Roseana”. A filha de Sarney despontava nas pesquisas como uma candidata competitiva à Presidência da República, nas eleições daquele ano, e a Polícia Federal apreendera em um escritório seu e do marido Jorge Murad R$ 1,38 milhão. Dinheiro para a pré-campanha de Roseana.
“Só mudei de lugar, fui para o Maranhão, em vez de Goiânia”, relembra hoje Kakay. “Aí, ganhei o caso dela, estabelecemos um relacionamento ótimo, ficamos muito amigos”. Conversam sobre vinhos, livros. A política não seria um prato forte. “Nunca fui filiado a partido. Fui presidente de centro acadêmico, participei de todos esses movimentos tradicionais (tipo diretas já). Nunca fiz política partidária. Não teria nenhum interesse em me candidatar”, diz o advogado.
Kakay conta que só tomou “liberdade” com Sarney quando o senador foi recentemente jantar em sua casa. Disse que achara uma besteira ele disputar a Presidência do Senado, que não acrescia mais nada à sua biografia. Almeida Castro ficou irritado quando os jornais noticiaram que ele escrevera o discurso no qual Sarney se defendeu no Senado. “Imagina, um ex-presidente da República, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Não quis defender o senador maranhense no Senado por entender que o julgamento seria político. Mas deu boas dicas jurídicas para que as denúncias fossem derrubadas.
Kakay também possui uma parte do sítio do Pericumã, a propriedade mais conhecida de Sarney. A versão corrente em Brasília é a de que ele teria recebido as terras como honorários pelo caso Lunus (a empresa de Roseana e Murad). Almeida Castro, que gosta de dizer que não cobra honorário dos amigos, garante que não houve nada disso. Ele fora procurado por Emílio Odebrecht, da construtora Norberto Odebrecht, que iria tocar um grande empreendimento imobiliário no sítio. E concordou entrar como sócio. Depois disso, nunca foi lá. Sarney continua com uma parte. Alguma coisa entre 10% e 12% das terras.
Seu grande mentor foi José Eduardo Alckmin (primo do ex-governador Geraldo Alckmin, de São Paulo), seguido de José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de FHC. Ele representou outros grandes escritórios em Brasília, como o de Márcio Thomaz Bastos e Nélio Machado. Tem amigos como Sarney e Marconi Perilo, é chegado a Lula e só elogios ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. “Pode-se discordar dele, mas é uma pessoa competente.”
Como diz um amigo, Kakay é um mestre na arte de fazer amigos e influenciar pessoas, além de bom filho e pai de família. Nas contas do próprio Almeida Castro, ele tem uns 20 grandes amigos. Mas não é cobrado por ser amigo de nenhum. “Eu sou muito amigo do Antonio Carlos Sigmaringa, mas ninguém me cobra isso”. O caso é diferente quando o amigo é José Dirceu.
Ele diz que sua amizade com Dirceu é “imensurável”. De fato presenteou o ex-ministro com vinhos caros e viajou com ele a Cuba, em férias. Uma amizade nascida nas CPIs e regada no Piantella, pois a exemplo dele, Dirceu gosta de jantares e vinhos refinados. Dirceu frequenta sua casa para jantares que têm o dedo da mulher de Kakay, Valéria Vieira, gourmet que chegou a dar aulas de culinária no exterior durante 12 anos
Quando houve a denúncia do mensalão seria natural que o advogado de Dirceu fosse Kakay. Ele achou que não. “Zé, você deve pegar um advogado tucano que faça esquecer qualquer questão partidária.” Dirceu pediu uma indicação. “José Carlos Dias foi ministro da Justiça do Fernando Henrique, é um cara competentíssimo, meu amigo, foi quem mais me avalizou na questão profissional, depois do Alckmin.”
Os dois foram para São Paulo e Dirceu teve uma conversa com Dias. O ex-ministro de FHC até se entusiasmou com a causa, mas já era advogado do Banco Rural (que era acusado de envolvimento no esquema do mensalão). Mas da conversa saiu o nome de José Luiz de Oliveira Lima, o Juca, um advogado jovem que subitamente saltou para a fama.
Kakay foi advogado do banqueiro Daniel Dantas no caso em que a empresa Kroll fora acusada de espionar o ex-ministro Luiz Gushiken a mando do dono do Opportunity. Como Dirceu e Gushiken disputavam espaços de poder no início do governo Lula foi logo identificado como um defensor da causa do banqueiro no Palácio do Planalto, pois Gushiken jogava exatamente do outro lado.
Embora diga que só atua no Judiciário, o Valor apurou que Kakay, nesse caso, exerceu o mesmo papel que outros advogados próximos de Lula, mais recentemente: tentar convencer o governo de que Dantas queria vender sua parte na Brasil Telecom e deixar o ramo da telefonia (o que aconteceu este ano com a criação da Oi – a compra da Brasil Telecom pela Oi).
Em outro episódio, quando José Carlos Dias foi convidado para ser ministro da Justiça, pediu para Kakay sondar o delegado Paulo Lacerda para a direção da Polícia Federal. Lacerda não aceitou. Anos mais tarde, Lula eleito, Márcio Thomaz Bastos veio a Brasília avisou Kakay: “Ele vai me convidar para ministro da Justiça e eu não vou aceitar”. Almeida Castro reagiu causticamente: “Se você entrar lá,sai ministro”. Na saída, já ministro escolhido por Lula, Thomaz Bastos comentou que chamaria Paulo Lacerda para a PF. “Ele não vai aceitar”, avisou Kakay. Desta vez, errou. Lacerda mudara de idéia.
Em Minas, segundo Kakay, existe um ditado segundo o qual “fama de rico, valente e namorador você não desmente não”. Mas ele reclama de que passou a ter “uma exposição negativa com a eleição do governo Lula, porque as pessoas pensam que eu sou petista, e o advogado não deve ser partidário. Eu não sou partidário. Advoguei mais para pessoas do PSDB”. Um amigo de longa data diz: “Criou-se uma imagem do Kakay e isso atrai clientes. Mas ele não oferece vantagens aqui em Brasília. Se ele oferecesse vantagens ele comprometeria o ministro do caso”.
“A minha vida mudou. Só que o Brasil também mudou. Acho que o Lula faz um grande governo, votei nele todas as vezes que foi candidato a presidente, agora, provavelmente eu vote no Serra. Eu acho o Serra o cara mais preparado para administrar o país. Eu só não voto no Serra se o candidato do PSDB for o Aécio Neves, porque aí as razões mineiras falam mais alto” – Kakay é de Patos de Minas.
E Dilma Rousseff, a candidata de Lula e do amigão do peito José Dirceu? “Eu não tenho muito entusiasmo em votar na Dilma não”, afirma. “Se o Serra for eleito, nós vamos ter pela primeira vez um governo de esquerda no Brasil”, diz Kakay, antes de arrematar: ” Eu acho que a alternância é positiva. Desde que você não paralise as obras do governo anterior. O Lula não paralisou as obras do FHC.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:15

Kakay, defensor dos poderosos

O ?Valor? publica hoje um excelente perfil do mais famoso advogado de Brasília, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, o maior amigo de José Dirceu e eleitor confesso de José Serra para a Presidência da República: ?Vamos ter pela primeira vez um governo de esquerda no Brasil?.
O perfil é assinado pelos jornalistas Raymundo Costa e Juliano Basile:
?Eleitor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e “grande amigo” do ex-ministro José Dirceu, o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro ganhou muito dinheiro no governo do PT, mas também a fama de usar a rede de relações que construiu com os poderosos da República, ao longo dos últimos 30 anos para obter vantagens para seus clientes.
Antonio Carlos de Almeida Castro é o Kakay, que voltou ao noticiário, nas últimas semanas, na qualidade de defensor do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), ameaçado por um processo de impeachment, já arquivado. Kakay é o nome certo a ser procurado em Brasília quando o assunto é crime de colarinho branco.
Com a fama e a sucessão de escândalos no país, a clientela de Almeida Castro aumentou, ele reconhece. Mas recusa terminantemente a afirmação de que tenha enriquecido no governo do PT e a pecha de “facilitador” ou de “resolvedor-geral da República”, como já foi chamado.
“Fui advogado de oito ministros do governo de Fernando Henrique Cardoso, além do vice Marco Maciel. Até hoje advogo para o Paulo Renato (ex-ministro da Educação acusado de usar indevidamente jatinhos da FAB em viagens particulares no governo FHC). No governo de Lula, sou advogado apenas de três”, disse Kakay ao Valor, em uma conversa durante almoço no restaurante Piantella, ponto de encontro de políticos, ministros de Estado e do Judiciário, e do qual é um dos sócios.
“Eu sou sócio do Piantella há 15 anos”, conta Kakay. “Nunca trouxe um ministro para almoçar ou jantar aqui. Nunca nenhum ministro de tribunal almoçou ou jantou aqui comigo.” O Piantella ganhou notoriedade como o restaurante preferido do deputado federal Ulysses Guimarães, morto em 1992, que presidiu o PMDB.
Kakay, de fato, está na praça há muito tempo. Já no governo de Fernando Collor de Mello, advogou para a ministra Zélia Cardoso de Melo. E começou a se aproximar de José Dirceu na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Anões do Orçamento. As acusações de Dirceu lhe renderam pelo menos 30 clientes naquela CPI, pela qual passaram as maiores empreiteiras do país.
“Conheci o Zé completamente fora da política. Eu era advogado das empreiteiras nas CPIs. O Zé me deu muitas causas”, diz, referindo-se ao fato de que o então deputado José Dirceu era um dos mais atuantes da bancada do PT.
Outra versão diz que Kakay aproximou-se de Dirceu, em 2003, quando, empossado na Casa Civil, o petista precisava aproximar-se de mais aliados no PMDB e o advogado o teria auxiliado nessa tarefa junto com Sarney.
Até 1994 foi sócio de José Eduardo Alckmin, hoje advogado do PSDB. Na versão de Kakay, Alckmin queria crescer; ele, manter o escritório que ainda tem num shopping da cidade – só ele e duas advogadas. Ao todo, afirma que tem uns 200 processos, mas que o escritório só toca cerca de 30 permanentemente, por conta da morosidade da Justiça. “Os processos levam 10 anos. Eu nunca tive um casamento de 10 anos”, diz ele, que já está na terceira mulher e tem três filhos.
À época, os dois advogados fizeram um acordo: sempre que um arrumasse uma causa para o outro, dividiriam os honorários. Por conta desse acordo, Kakay recebeu a primeira grande bolada já no período do governo Lula – um acordo da direção da Caixa Econômica Federal com o fundo de pensão de seus funcionários. Total dos honorários: R$ 32 milhões. Kakay ficou com R$ 16 milhões, como combinado.
Para um advogado formado na Universidade de Brasília (Unb), sem mestrado ou doutorado, o sucesso de Kakay chama a atenção. Ele começou como todos os advogados de Brasília – correspondente dos grandes escritórios do eixo Rio-São Paulo. Hoje, é o nome certo a ser procurado em casos de crimes financeiros. Em Brasília. Kakay não vai a posses nos tribunais, não frequenta a casa de ministros, nunca vai a coquetéis e diz que não mistura as coisas – votou em Lula, mas não é filiado ao PT.
“Não sou partidário”, diz Almeida Castro. “Só advogo no Judiciário”, afirma, negando que seja frequentador dos corredores de ministérios, da Casa Civil e muito menos dos palácios presidenciais de Brasília.
“Estive duas vezes em Palácio”, diz. A primeira delas, com Fernando Henrique Cardoso, acompanhando o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que fora tratar de assuntos referentes à Copa do Mundo de 2014. A outra, já no governo Lula, foi apresentar outro amigo influente: o senador Marconi Perillo (PSDB-GO), que acabara de ser eleito – mal imaginava que em 2005 Lula colocaria Perillo numa lista de inimigos pessoais, por ter o ex-governador de Goiás dito que avisara o presidente sobre o mensalão.
Kakay hoje se considera “amigo de Sarney”. Mas não era assim em um dia de fevereiro de 2002, quando ele estava no aeroporto de Brasília preparando-se para uma viagem a Goiânia, onde teria uma audiência. O telefone tocou. Do outro lado da linha estava Sarney, a quem Kakay não conhecia e de quem era um crítico. “Eu tinha formação de esquerda”, afirma.
O senador foi direto ao ponto “Um amigo comum me indicou o senhor para advogar para a Roseana”. A filha de Sarney despontava nas pesquisas como uma candidata competitiva à Presidência da República, nas eleições daquele ano, e a Polícia Federal apreendera em um escritório seu e do marido Jorge Murad R$ 1,38 milhão. Dinheiro para a pré-campanha de Roseana.
“Só mudei de lugar, fui para o Maranhão, em vez de Goiânia”, relembra hoje Kakay. “Aí, ganhei o caso dela, estabelecemos um relacionamento ótimo, ficamos muito amigos”. Conversam sobre vinhos, livros. A política não seria um prato forte. “Nunca fui filiado a partido. Fui presidente de centro acadêmico, participei de todos esses movimentos tradicionais (tipo diretas já). Nunca fiz política partidária. Não teria nenhum interesse em me candidatar”, diz o advogado.
Kakay conta que só tomou “liberdade” com Sarney quando o senador foi recentemente jantar em sua casa. Disse que achara uma besteira ele disputar a Presidência do Senado, que não acrescia mais nada à sua biografia. Almeida Castro ficou irritado quando os jornais noticiaram que ele escrevera o discurso no qual Sarney se defendeu no Senado. “Imagina, um ex-presidente da República, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Não quis defender o senador maranhense no Senado por entender que o julgamento seria político. Mas deu boas dicas jurídicas para que as denúncias fossem derrubadas.
Kakay também possui uma parte do sítio do Pericumã, a propriedade mais conhecida de Sarney. A versão corrente em Brasília é a de que ele teria recebido as terras como honorários pelo caso Lunus (a empresa de Roseana e Murad). Almeida Castro, que gosta de dizer que não cobra honorário dos amigos, garante que não houve nada disso. Ele fora procurado por Emílio Odebrecht, da construtora Norberto Odebrecht, que iria tocar um grande empreendimento imobiliário no sítio. E concordou entrar como sócio. Depois disso, nunca foi lá. Sarney continua com uma parte. Alguma coisa entre 10% e 12% das terras.
Seu grande mentor foi José Eduardo Alckmin (primo do ex-governador Geraldo Alckmin, de São Paulo), seguido de José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de FHC. Ele representou outros grandes escritórios em Brasília, como o de Márcio Thomaz Bastos e Nélio Machado. Tem amigos como Sarney e Marconi Perilo, é chegado a Lula e só elogios ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. “Pode-se discordar dele, mas é uma pessoa competente.”
Como diz um amigo, Kakay é um mestre na arte de fazer amigos e influenciar pessoas, além de bom filho e pai de família. Nas contas do próprio Almeida Castro, ele tem uns 20 grandes amigos. Mas não é cobrado por ser amigo de nenhum. “Eu sou muito amigo do Antonio Carlos Sigmaringa, mas ninguém me cobra isso”. O caso é diferente quando o amigo é José Dirceu.
Ele diz que sua amizade com Dirceu é “imensurável”. De fato presenteou o ex-ministro com vinhos caros e viajou com ele a Cuba, em férias. Uma amizade nascida nas CPIs e regada no Piantella, pois a exemplo dele, Dirceu gosta de jantares e vinhos refinados. Dirceu frequenta sua casa para jantares que têm o dedo da mulher de Kakay, Valéria Vieira, gourmet que chegou a dar aulas de culinária no exterior durante 12 anos
Quando houve a denúncia do mensalão seria natural que o advogado de Dirceu fosse Kakay. Ele achou que não. “Zé, você deve pegar um advogado tucano que faça esquecer qualquer questão partidária.” Dirceu pediu uma indicação. “José Carlos Dias foi ministro da Justiça do Fernando Henrique, é um cara competentíssimo, meu amigo, foi quem mais me avalizou na questão profissional, depois do Alckmin.”
Os dois foram para São Paulo e Dirceu teve uma conversa com Dias. O ex-ministro de FHC até se entusiasmou com a causa, mas já era advogado do Banco Rural (que era acusado de envolvimento no esquema do mensalão). Mas da conversa saiu o nome de José Luiz de Oliveira Lima, o Juca, um advogado jovem que subitamente saltou para a fama.
Kakay foi advogado do banqueiro Daniel Dantas no caso em que a empresa Kroll fora acusada de espionar o ex-ministro Luiz Gushiken a mando do dono do Opportunity. Como Dirceu e Gushiken disputavam espaços de poder no início do governo Lula foi logo identificado como um defensor da causa do banqueiro no Palácio do Planalto, pois Gushiken jogava exatamente do outro lado.
Embora diga que só atua no Judiciário, o Valor apurou que Kakay, nesse caso, exerceu o mesmo papel que outros advogados próximos de Lula, mais recentemente: tentar convencer o governo de que Dantas queria vender sua parte na Brasil Telecom e deixar o ramo da telefonia (o que aconteceu este ano com a criação da Oi – a compra da Brasil Telecom pela Oi).
Em outro episódio, quando José Carlos Dias foi convidado para ser ministro da Justiça, pediu para Kakay sondar o delegado Paulo Lacerda para a direção da Polícia Federal. Lacerda não aceitou. Anos mais tarde, Lula eleito, Márcio Thomaz Bastos veio a Brasília avisou Kakay: “Ele vai me convidar para ministro da Justiça e eu não vou aceitar”. Almeida Castro reagiu causticamente: “Se você entrar lá,sai ministro”. Na saída, já ministro escolhido por Lula, Thomaz Bastos comentou que chamaria Paulo Lacerda para a PF. “Ele não vai aceitar”, avisou Kakay. Desta vez, errou. Lacerda mudara de idéia.
Em Minas, segundo Kakay, existe um ditado segundo o qual “fama de rico, valente e namorador você não desmente não”. Mas ele reclama de que passou a ter “uma exposição negativa com a eleição do governo Lula, porque as pessoas pensam que eu sou petista, e o advogado não deve ser partidário. Eu não sou partidário. Advoguei mais para pessoas do PSDB”. Um amigo de longa data diz: “Criou-se uma imagem do Kakay e isso atrai clientes. Mas ele não oferece vantagens aqui em Brasília. Se ele oferecesse vantagens ele comprometeria o ministro do caso”.
“A minha vida mudou. Só que o Brasil também mudou. Acho que o Lula faz um grande governo, votei nele todas as vezes que foi candidato a presidente, agora, provavelmente eu vote no Serra. Eu acho o Serra o cara mais preparado para administrar o país. Eu só não voto no Serra se o candidato do PSDB for o Aécio Neves, porque aí as razões mineiras falam mais alto” – Kakay é de Patos de Minas.
E Dilma Rousseff, a candidata de Lula e do amigão do peito José Dirceu? “Eu não tenho muito entusiasmo em votar na Dilma não”, afirma. “Se o Serra for eleito, nós vamos ter pela primeira vez um governo de esquerda no Brasil”, diz Kakay, antes de arrematar: ” Eu acho que a alternância é positiva. Desde que você não paralise as obras do governo anterior. O Lula não paralisou as obras do FHC.”

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 18:41

Vale a pena ver de novo

Kennedy Alencar, competente repórter político da ?Folha de S.Paulo?, comanda atualmente o melhor programa de entrevistas da televisão brasileira.
A fórmula é super simples: ele só convida gente com biografia, que tenha revelações a fazer – mesmo que não faça -  e que esteja meio abandonado pelos jornais. Para se ter uma idéia, os últimos três entrevistados do  ?É Notícia? foram Ciro Gomes, Márcio Thomaz Bastos e José Dirceu. Cada entrevista melhor que a outra.
A emissora Rede TV não é lá grande coisa, e o horário que o programa vai ao ar também não ajuda. Mas o tempo de  duração das entrevistas é mais do que generoso. Leva quase uma hora e meia.
Os programas bem que mereciam ser comercializadas em DVD.

  • Domingo, 06 Junho 2010 / 4:22

Marina: “Somos todos pós-Lula”

Marina Silva, candidata do PV à Presidência, é a capa da ‘Isto É’. Em longa entrevista aos editores Octávio Costa e Sérgio Pardellas, a senadora disse que não está “nem a direita nem à esquerda, mas à frente” e que levará o Brasil à condição de potência ambiental.
“Junto com o candidato a vice, o empresário Guilherme Leal, Marina explicitou seus planos para o Brasil”. Três das respostas foram dadas por Leal. A seguir, os principais trechos da entrevista:
“- A candidata Dilma Rousseff se apresenta ao eleitor como a extensão do governo Lula. Serra como uma espécie de pós-Lula. E a sra., como se define?
- Eu acho que pós-Lula todos somos. O Brasil está fechando um ciclo de 16 anos em que conseguimos estabilidade econômica e quebramos o paradigma de que primeiro tinha que crescer para depois dividir o bolo. Neste período, se distribuiu e cresceu ao mesmo tempo. Mas o que a gente faz com isso? Considera o fim da história ou, em cima desse acúmulo positivo, se transita para o futuro? Temos dito que não estaremos nem à esquerda nem à direita, estaremos à frente. Porque é disso que o Brasil e o mundo precisam: integrar as conquistas do século XX para transitar para o que chamamos de economia do século XXI.
- A sra. acha que temos condições de fazer isto?
- O Brasil é o país que reúne as melhores condições. Já somos um país industrializado, com uma base de conhecimento e um avanço tecnológico razoáveis, e temos a imensa vantagem de nossos recursos naturais. O Brasil pode ser neste século XXI aquilo que foram os EUA no século passado. Mas para isso precisamos, além de ter essa visão generosa de um país capaz de integrar desenvolvimento e preservação dos recursos naturais, criar o processo e as estruturas adequadas para encaminhar esta visão.
- A sra. se considera a candidata ideal para implementar este futuro?
- Seria muito pretensioso eu dizer que sou a candidata que antecipa o futuro. Mas participo deste movimento que acha que é preciso antecipar o futuro. É o futuro das energias limpas.
- Ao final de quatro anos a sra. acredita que poderá se orgulhar de ter feito o quê?
- Já estou orgulhosa por termos feito o Brasil se posicionar de acordo com as exigências deste século, que já sabe que os recursos naturais são finitos. E já sabe que o nosso grande diferencial é contarmos com 11% da água doce do planeta e 22% das espécies vivas. Temos a maior área terrestre isolada do planeta e uma grande parte agricultável. Eu me sentirei orgulhosa se o Brasil for capaz de se colocar no lugar de potência ambiental.
- E como se caminha para isto? – Precisamos criar uma nova narrativa para os nossos produtos. Basta fazer o dever de casa, passando no teste e não mudando o teste como tentaram fazer aqui. Quando as pessoas falavam que o governador Blairo Maggi tinha se convertido ao ambientalismo, eu passava por cética. É que eu sabia o que estava acontecendo em Mato Grosso. Saí do governo porque o governador de Mato Grosso queria contrapor os dados do Inpe, que acompanha desmatamento com altíssima tecnologia, reconhecida no mundo inteiro, aos de uma Secretaria de Meio Ambiente que tinha acabado de ser criada. O secretário, por sinal, foi agora preso numa operação. Eles estavam fazendo apenas fraude política com a questão ambiental e prejudicando o agronegócio do Brasil. Mas saí vitoriosa e quem fez a opção pelo que dizia o Mangabeira, pelo que dizia o Blairo e pelo que dizia o ministro da Agricultura, se não está politicamente derrotado, eticamente está.
- A sra. ficou chocada com o que enfrentou no governo?
- Não consigo me vitimizar nessa relação. Não quero fazer isso. Nunca vou fazer isso. Eu tinha grandes aliados: os ministros Ciro Gomes, Luiz Dulci, Tarso Genro, Márcio Thomaz Bastos. O ministro da Defesa sempre foi meu aliado também. Seria impossível prender 725 pessoas, fazer 25 operações da Polícia Federal, acabar com 1.500 empresas criminosas, inibir 35 mil propriedades de grilagem na Amazônia se não contasse com uma base de apoio.
- Seu maior enfrentamento não foi com a ministra Dilma, então?
- Não posso reduzir a questão à Dilma. Eu discutia as questões de mérito com os ministros dos Transportes, de Minas e Energia, da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário e da Ciência e Tecnologia.
- Nestes momentos a sra. já pensava em sair candidata à Presidência da República?
- Não. Para mim isso se colocou como uma equação a ser resolvida quando o PV me fez oficialmente o convite.
- A sra. guarda alguma mágoa do presidente Lula?
- De jeito nenhum. Aliás, de ninguém, graças a Deus. Tenho carinho, respeito e gratidão por ele. Eu tenho um investimento de 30 anos no presidente Lula, defendendo-o das piores injustiças. Hoje, quando eu vejo minha fé ser atacada como se eu fosse uma pessoa fundamentalista, enxergo a época em que atacavam o Lula.
- Muitos empresários entendem ser incompatível manter a taxa atual de crescimento com essas suas propostas de investir mais em energias limpas, abrindo mão de investimentos como Belo Monte. Como a sra. vê isso?
- É perfeitamente possível. Quem disse que as energias limpas são incompatíveis com a geração de energia?
- Na quantidade necessária?
- Sim, a nossa maior fonte de geração, 64%, é hidroeletricidade.
- E por que não Belo Monte?
- A pergunta é: foram resolvidos os problemas de Belo Monte? Há 20 anos que a índia Tuíra botou o facão no pescoço do diretor da Eletrobras e os mesmos problemas seguem ali presentes. Não ouviram as comunidades indígenas, não resolveram os problemas de impacto ambiental em relação ao rio Xingu. Vai um contingente de 100 mil pessoas só para fazer a obra. E agora ainda apareceu a questão da viabilidade econômica do empreendimento. Ele é praticamente subsidiado pelo governo. Não adianta a gente fazer vista grossa para os problemas reais que Belo Monte tem.
- Há alguma hidrelétrica que a sra. aceita como modelo?
- Todas têm impacto ambiental. O problema é a capacidade de suporte dos ecossistemas em relação a esses impactos. Há um empreendimento pequeno, São Salvador, para 400 megawatts, que levou seis meses para a gente licenciar. Os estudos de impacto ambiental eram exemplares, foram benfeitos.
- Mas há algum exemplo de maior porte?
- Vários empreendimentos que foram viabilizados na minha gestão. O mais complexo foi a usina do Madeira. Quando cheguei tinha 45 obras na Justiça e resolvemos todos. Depois da minha saída, o presidente do Ibama estava com 17 processos.
Guilherme Leal – Eu queria qualificar essa questão do crescimento. Acho que não se advoga crescimento igual ao da China. O Brasil não está preparado para crescer a taxas de 7% a 10%. Nós não temos poupança de investimento para sustentar crescimento a esses níveis. Quem disser que é capaz de virar esta equação é populista.
- O Partido Verde tem quadros suficientes para dar resposta a esses desafios?
- A sociedade brasileira tem e isso é uma das coisas que estamos inovando. Se formos pensar só no nosso partido, obviamente não temos. Mesmo o PT, que possui 1,6 milhão de filiados, precisou buscar quadros como Meirelles, Furlan, Roberto Rodrigues…
- A sra. quer PT e PSDB no seu governo?
- Eu diria que há excelentes quadros em ambos e que ninguém poderia abrir mão deles.
- A sra. teve uma infância duríssima e um histórico de doenças, com cinco malárias, três hepatites, uma leishmaniose e ainda contaminação por mercúrio. Como está sua saúde hoje?
- Graças a Deus está muito bem. Tenho saúde para ser presidente da República. De fato, enfrentei vários problemas na minha vida. Hoje estou bem, graças a Deus e a tantos médicos e à ciência que me ajudou. Eu inclusive tenho uma gratidão enorme pelo Estado de São Paulo. Todas as vezes que os médicos diziam que não tinha jeito para mim, na minha inocência, mas também por intuição, eu pensava: São Paulo tem médico bom que vai me ajudar. Quando, aos 19 anos, um médico previu minha morte, eu, uma menina ainda muito tímida, falei que queria sair do hospital. Assinei os documentos e vim para São Paulo, para o Hospital São Camilo.
- Como o presidente Lula a sra. teve uma origem humilde, mas, diferentemente dele, sempre estudou, buscou se aprimorar. Como a sra. compara estas situações?
- São trajetórias diferentes, com oportunidades diferentes e que não podem ser comparadas. É assim mesmo: os seres humanos são diferentes e únicos no mundo. A vantagem do presidente Lula é que ele é uma pessoa fenomenal ou não estaria onde está. Como lideranças, a gente tem que manejar o tempo todo essa coisa do exemplo que está passando para as pessoas…
- Em alguns discursos, o presidente parece elogiar a falta de estudo…
- Quando ele faz isso obviamente não é educativo. Mas também se eu disser: Olha, é possível, se você estudar, se você se esforçar, virar ministro, virar Pelé igualmente não seria educativo. Sou uma exceção e a educação tem que ser a regra de oportunidade para todas as pessoas. Vim de um seringal que tinha cerca de 300 famílias e apenas uma pessoa, entre todas, conseguiu fazer faculdade, começando pelo Mobral aos 16 anos. Logo, eu não posso usar isso como uma regra. Foi uma pequena fresta que caiu para uma pessoa em um palheiro, o que só prova uma coisa: se as crianças tiverem educação de qualidade, da educação infantil à universidade, todos têm as mesmas potencialidades. Muitas pessoas às vezes tentam até me usar: Eles são preguiçosos, veja você como conseguiu, venceu. Eu não posso me prestar a esse tipo de coisa.
- E em relação ao presidente Lula?
- Às vezes, na tentativa de comunicar, ele simplifica demais as questões e desfavorece essa coisa educativa. Mas não quero ser injusta com Lula. Estamos falando aqui de análise de discurso. Para que não pairem dúvidas sobre o que eu penso: foi no governo Lula que saímos de 600 mil vagas nas universidades para mais de um milhão. O governo dele criou muitas oportunidades para muita gente.
- Um dos papéis do vice na campanha é alinhavar um pouco de apoio empresarial à candidatura. Como isso está acontecendo, qual a receptividade?
Guilherme Leal – Não estou na função de arrecadador para a campanha. Mas obviamente uma campanha não se faz sem recursos. Eu acho que a sociedade brasileira, incluindo o empresariado, percebe na candidatura Marina Silva a relevância de um projeto novo para o País. Acredito que esse empresariado está disposto sim a aportar recursos para fazer com que essa campanha possa prosperar. Claro, não nos consideramos os primos ricos dessa família de competidores. Sabemos que corremos por fora, que temos 12% das pesquisas e isso tem um rebatimento nos recursos de campanha.
- Quanto o sr. vai doar para a campanha?
Guilherme Leal – Esta é uma pergunta que não tem resposta, até porque a doação não está absolutamente definida.
- A sra. vai aceitar doação de bancos e de empreiteiras? Há algum limite estabelecido?
- Temos feito essa discussão. Queremos que tudo seja transparente e, em hipótese alguma, a função do Guilherme nesse processo pode ser reduzida a isso. Ele é uma liderança, um dos melhores filhos do setor empresarial brasileiro.
- E um canal privilegiado para o setor empresarial?
- Exatamente. É alguém que foi capaz de antecipar o futuro, há 30 anos, com uma pequena empresa. Mostrou que era possível juntar valores a um empreendimento próspero. Queremos muitos contribuindo com pouco e alguns, na medida do possível, contribuindo com um pouquinho mais. Toda vez que eu pego carona no avião do Guilherme ele doa a hora-voo para o Partido Verde para não ficar essa história de que Marina está pegando carona no avião do Guilherme.
- Qualquer doador é bem-vindo?
- Se o Blairo Maggi, por exemplo, quisesse doar para mim, eu não ia aceitar.
- Tem que ter ficha limpa para a doação?
- Você também não pode presumir nenhum tipo de condenação. Mas indústrias de armamentos decidimos que não. É uma questão simbólica, porque defendemos uma cultura de paz. A indústria de tabaco também não.
- De uma empresa como a Vale do Rio Doce, a sra. aceitaria contribuições?
- Acho que sim. Aceitei a contribuição da Vale para fazer a conferência do meio ambiente. Não é uma empresa marginal. É uma mineradora que faz coisas de forma correta, sustentável, que não invade terra de índios, não vejo problema.
Guilherme Leal – Quem contribuir para a campanha da Marina não receberá medalha de bom cidadão, nem certificação, nem direito a qualquer retorno. Este é o critério.
- Qual é seu plano para a educação?
- O Brasil está à beira de um apagão de recursos humanos. Faltam engenheiros, geólogos, químicos. Falta gente inclusive para os investimentos do pré-sal. Hoje as empresas já estão cheias de pessoas que vêm da China, da Índia. Um país começa a se desqualificar para o futuro quando não é capaz de suprir os empregos qualificados com seus próprios filhos. Nosso país ainda tem 15 milhões de jovens analfabetos. Aqui o professor não é valorizado, não temos um processo de formação continuada. Se você fizer um concurso para juiz, pode ser no cafundó do Judas, que a pessoa vai lá e toma posse. Agora, um professor não consegue ser deslocado nem para o bairro periférico mais próximo do centro de São Paulo. Na classe média, quando um sonhador diz que quer ser professor, os amigos tentam dissuadi-lo.
- O que é necessário para mudar isto?
- O professor necessita de tripla valorização: uma valorização simbólica do papel do professor, a remuneração e a qualificação. E as escolas precisam ser premiadas pela melhora que conseguem em relação a si mesmas. Com isto se evitaria um ciclo vicioso: só vai dinheiro para qualificação das escolas que já têm melhor desempenho. As de desempenho pior são castigadas. E sem apoio vão ficar ainda piores. Devemos dar uma cesta de oportunidades para todas e se a escola, em relação a si mesma, melhorar, se aumentam os recursos para ela.
- E os recursos para isto?
- Estamos falando em aumentar, de cara, o investimento em educação que hoje é de 4% do PIB para 5%. E até 2014 chegarmos a algo em torno de 10%. Temos um dreno de 3% do PIB só com a corrupção.
- Que métodos a sra. utilizaria para acabar com a corrupção?
- O combate à corrupção depende de duas coisas: de pessoas virtuosas para criar instituições virtuosas e de instituições virtuosas para corrigir as pessoas quando elas falham em suas virtudes, porque todos falhamos. Então é necessário um Tribunal de Contas independente, um Ministério Público atento e um Congresso com autonomia para fazer essa fiscalização.
- A sra. já falou que Dilma, Serra e Lula extrapolam a lei na campanha eleitoral. Essa constante transgressão que se vê está ligada à cultura da impunidade que costuma permear o meio político?
- É isso que eu falo: a virtude das pessoas é a virtude das instituições. Mas temos um problema: o hiato entre a pré-campanha e a campanha. Não há uma lei que regulamente como deve ser o comportamento até a oficialização do nome na convenção. E, na falta do regramento, as pessoas vão pela linha cinzenta de extrapolar, o que não poderia acontecer, principalmente quando se trata do presidente da República.
- Como a sra. vê a política pública de combate às drogas no Brasil?
- No caso do crack, o governo acabou de lançar um programa que é muito baseado nas contribuições que foram apresentadas em setembro do ano passado ao ministro Tarso Genro pelo Luiz Eduardo, que é um dos meus coordenadores na parte de segurança. Eu defendo, inclusive, uma reforma na segurança pública no Brasil. Sem isto vamos ficar fazendo puxadinho em cima de puxadinho, enquanto a base está deteriorada.
- E em relação à maconha?
- Existem pessoas sérias que defendem a liberalização da maconha. Eu defendo que se faça um plebiscito para que a população possa debater esse assunto. Eu não faço um discurso moralista para cima dos que defendem, como se fossem pessoas degradadas que estão propondo destruir os nossos jovens. Não, são pessoas sérias, como o ex-presidente Fernando Henrique, o Gabeira e tantos outros. Mas eu acho que a maconha também é uma porta de entrada para outras drogas.
- Sobre a questão do aborto e da união entre pessoas do mesmo sexo a sra. também fará um plebiscito?
- Essa questão não tem como ser apenas prática. É por isso que entra o plebiscito. O que está colocado aí é a questão da vida da mulher que faz isso e também da vida que a sociedade protege como um princípio. Temos todos esses aspectos filosóficos, morais, éticos, científicos.
- A sra. tem arrebatado muito apoio, mas nas pesquisas seus índices não têm se alterado muito. A sra. acredita numa virada?
- No livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o personagem diz sobre uma moça: Bonita, porém coxa. Mas por que coxa se bonita? Mas por que não bonita se coxa? Parece isso quando falam que eu arrebato, mas não tenho voto. Por que arrebata se não vota? Por que não vota se arrebata? Nós estamos apenas no começo e 12% nesse começo é muita coisa. O presidente Lula está há três anos falando da Dilma. O governador Serra era candidato desde que perdeu e o Ciro Gomes estava até um dia desses empatado comigo. É um bom começo”.

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.