• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:50

PP quer apostar na neutralidade

Dos repórteres Christiane Samarco e Marcelo de Moraes, do ‘Estadão’:
“Além dos tropeços na campanha da pré-candidata Dilma Rousseff (PT), o governo federal deverá amargar a declaração de independência do PP na sucessão presidencial. Alvo do assédio da oposição, que deseja seu apoio para a candidatura do tucano José Serra, a Executiva do PP se reúne hoje para dar o primeiro passo oficial rumo à neutralidade.
A despeito de o PP integrar a base governista e comandar o poderoso Ministério das Cidades, seus dirigentes já avisaram que o partido só formalizará a decisão em junho e tende a dizer não para os dois candidatos. Isso facilitaria a montagem de suas alianças regionais, ora com o PT, ora com o PSDB.
Ontem mesmo, o governo já acusou o golpe. E reagiu. Os recursos federais para bancar as emendas dos parlamentares aliados começaram a ser pagos, numa tentativa de acalmar a base. A liberação da cota de R$ 3 milhões por parlamentar estava atrasada havia um mês.
“Não há o que fazer agora. A hora é de paciência, canja de galinha e sangue de barata”, diz o líder do PP na Câmara, João Pizzolatti (SC), que aposta na neutralidade do partido, mas adverte que o que move todas as legendas é a expectativa de poder.
“Não morremos de amor por ninguém. Vamos ver o que é melhor para o projeto do partido e isso vale nas parcerias estaduais e para a aliança nacional “, conclui o deputado Antônio Cruz (MS), que ontem discutiu a questão das coligações com o líder.
Frustração. Se for confirmada, a neutralidade frustrará os planos dos dois candidatos. Do lado de Dilma, o governo já dava como certa a coligação com o PP de Márcio Fortes, que comanda a pasta das Cidades, dona de um orçamento de R$ 15,2 bilhões para este ano, incluindo muitas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Do lado da oposição, os tucanos vinham acenando com a vaga de vice na chapa de Serra para o presidente nacional do PP, senador Francisco Dornelles (RJ), de olho na fatia que o partido terá no horário de propaganda eleitoral gratuita. Sozinho, o PP deverá ter direito a 1 minuto e 20 segundos no tempo de TV destinado às candidaturas presidenciais.
Como a aliança em torno de Dilma reúne os dois maiores partidos do Congresso (PMDB e PT), além de outras legendas, sua campanha na televisão disporá de algo em torno de dez minutos em cada um dos dois blocos diários de propaganda em rede nacional. Sem o acordo com o PP, Serra terá cerca de sete minutos. Além disso, por Dornelles ser parente do ex-governador de Minas Aécio Neves, sua entrada na chapa ajudaria a colar mais a campanha de Serra no político mineiro.
“É claro que houve uma aproximação do PSDB. A oportunidade de termos o Dornelles na vice deixa o partido muito envaidecido, até porque, dessa forma, não entramos em uma aliança como coadjuvantes”, admite Pizzolatti, que participa da coordenação da campanha de Dilma.
Na prática, o PP caminhou para a solução da neutralidade pela diversidade de seus acordos regionais. Do lado de Dilma, estão, por exemplo, Márcio Fortes que participou domingo, no Rio, do lançamento da candidatura ao Senado do petista Lindberg Faria. Com Serra, já é possível contabilizar o diretório mineiro, que deverá ocupar a vaga de vice-governador na chapa tucana que terá como candidato o governador Antônio Anastasia.
Outros diretórios do PP que têm pesado contra o apoio explícito ao PT são os dos Estados do Sul. Ontem, foi aberta negociação em Santa Catarina, em busca de acordo unindo os palanques da senadora Ideli Salvatti (PT) e da deputada Ângela Amin (PP).

A IMPORTÂNCIA DO MINISTÉRIO DAS CIDADES

Minha Casa Minha Vida
Um dos principais programas lançados no ano passado, alcançou 408.674 contratações de moradias em um ano, o que representa um volume de investimentos de R$ 21,5 bilhões
PAC para a Copa
O PAC destinará cerca de R$ 7,78 bilhões para obras de mobilidade urbana que facilitem a realização da Copa de 2014
PAC Cidade Melhor
Incluído no PAC 2, terá investimentos de R$ 57,1 bilhões, tendo seus programas voltados para saneamento, prevenção em áreas de risco, mobilidade urbana e pavimentação de 2011 a 2014
Urbanização de Favelas
O PAC inclui R$ 8,7 bilhões para urbanização de favelas
Água e Luz Para Todos
Terá R$ 13 bilhões em obras de ampliação dos sistemas de abastecimento de água, com construção de adutoras, estações de tratamento, reservatórios, além de substituição de redes de distribuição e da modernização dos sistemas de medição
CBTU
O Ministério das Cidades controla a Companhia Brasileira de Transportes Urbanos (CBTU), presidida por Elionaldo Magalhães, indicado para o cargo na cota do PP de Alagoas
Trensurb
O ministério controla também a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre S.A., responsável pelo transporte de 44,4 milhões de passageiros em Porto Alegre e na região metropolitana
em 2009″.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:29

Aeronáutica tem cartas de Lamarca

 Mais revelações dos repórteres Felipe Recondo e Marcelo de Moraes, do ‘Estadão’, sobre os documentos que a Aeronáutica entregou ao Arquivo Nacional:
“Os arquivos do Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica (CISA) contêm três cartas inéditas escritas em 26 de novembro de 1970 por Carlos Lamarca e apreendidas num aparelho da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), no Rio de Janeiro. Nas cartas, destinadas a companheiros de guerrilha, Lamarca mostra preocupação com o que chama de “parada” de outros grupos de combate à ditadura militar.
Ex-capitão do Exército, Lamarca tinha trocado a vida do quartel para integrar grupos de combate ao governo militar que comandava o Brasil. Acabou sendo morto pelas tropas do Exército em 17 de setembro de 1971, na cidade de Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia.
As cartas estão entre os documentos entregues pela Aeronáutica ao Arquivo Nacional, conforme o Estado noticiou ontem. A força aérea havia informado antes que esses papéis haviam sido destruídos.
Na época em que escreveu os textos, Lamarca tinha se tornado o principal líder dos grupos armados, principalmente depois da morte de Carlos Marighella. Ele reclamava, porém, da resistência de outras siglas, que desejavam mais tempo para organização política e montagem de sua infraestrutura.
Nas cartas, Lamarca faz críticas pesadas a esse tipo de comportamento da esquerda e informa, por código, que nos próximos dias seria feito um novo sequestro de diplomata.
De fato, isso aconteceu 15 dias depois, com a ação tendo como alvo o embaixador da Suíça Enrico Buscher. Depois de muita discussão, o governo aceitou libertar 70 prisioneiros em troca do embaixador, mas vetou vários nomes pedidos pelos guerrilheiros.
Segundo o informe número 079, transmitido pelo CISA em 15 de janeiro de 1971, as cartas comprovam que “persistem as divergências entre as esquerdas, continuando a VPR a ser acusada de militarista, ou seja, continua a ser acusada de relegar para um segundo, terceiro ou quarto plano o trabalho de massas e a organização do Partido do Proletariado que, segundo os marxistas-leninistas é indispensável para fazer a revolução”, narra o documento guardado pela Aeronáutica.
Os textos de Lamarca foram redigidos à maquina e ele se identifica como “Cláudio”, um dos codinomes que usava. É um momento especialmente difícil para a guerrilha, uma vez que o governo intensificara as prisões e vinha conseguindo obter informações sobre a identidade de seus integrantes, com tortura e infiltração.
O próprio Lamarca enfrentava problemas com o cerco pesado da ditadura. A despeito disso, Lamarca cobrava mais ações, lamentando que seus colegas preferissem ter tempo para fortalecer uma recém-formada frente reunindo várias siglas de combate ao governo.
“Penso que a solução para o impasse da esquerda seria o estabelecimento de uma Frente que se fortalecesse na prática. Não vejo como se fortalecer parada”, escreve Lamarca num dos textos. “Estamos vivendo um momento histórico fundamental para o processo. A classe dominante está em ofensiva política – temos de desmascarar essa ofensiva. Não podemos dar o tempo à burguesia, tempo que ela precisa para, através da propaganda, neutralizar o proletariado”, acrescenta.
E nos textos expõe todo o racha que os grupos de esquerda vinham enfrentando, reflexo, especialmente, da prisão e desaparecimento de alguns de seus principais militantes.
“A colocação que a VPR faz do sequestro um fim e não um meio não aceitamos. Mas não vamos acusar nenhuma Org (organização) de fazer da ação de numerário um fim e não um meio. Não vamos acusar porque seria jogada. Colocamos a questão em votação aqui, apenas um militante discordou. Estamos pois de cabeça erguida – vamos executá-la porque politicamente é correta”, diz, em referência aos preparativos para o sequestro do embaixador.
“Esta questão de parar para montar infra existe desde março – é conversa antiga – e não vamos entrar nessa. A infraestrutura nunca será permanente, terá sempre de ter flexibilidade. No mais, não se executa ação todos os dias, sempre será hora de montagem de infra estrutura – e sempre é hora de ação”", afirma. E dispara, preocupado com os efeitos negativos da propaganda do governo: “como a massa vai ver essa questão só de assalto? O governo vai acabar conseguindo nos projetar como bandidos”.
Em seguida, Lamarca anuncia que pretende continuar com as ações armadas, apesar da resistência de alguns grupos.
“É hora de avançar e vamos avançar. O povo deu a demonstração de que está descontente, pelo grande número de votos em branco, nulos e abstenções. Essa de dizer que a massa não entende nada não cola mais. A prova que entende está aí. Agora está na hora de explorarmos isto – ficar parado numa hora dessa é imaturidade. Quando teremos uma oportunidade como essa?”, escreveu ele”.

“GUERRILHEIRO VIVIA MOMENTOS DE EXTREMA AFLIÇÃO”


O deputado Emiliano José (PT-BA) é autor, juntamente com Oldack Miranda, de ‘Lamarca, o capitão da guerrilha’, principal biografia sobre a vida do líder guerrilheiro. Ao ler as cartas de Lamarca, ele disse que elas refletem um momento de “extrema aflição” que o ex-capitão sofria na época. Aos repórteres do ‘Estadão’, ele deu a seguinte entrevista:
- O senhor conhecia essas cartas que estão nos arquivos da Aeronáutica?
- Não conhecia. Talvez elas tenham sido interceptadas até antes de terem sido enviadas. O aparecimento de novos arquivos militares é muito importante.
- Nas cartas, Lamarca reclama que outros grupos de esquerda queriam dar uma espécie de “parada” nas atividades militares para se reorganizar. Que momento era esse pelo qual estava passando?
- Ele estava passando por um momento de extrema aflição. Não aguentava essa vida em aparelhos e estava bastante angustiado com a situação. Até porque estamos falando de um militar. Ele tinha rasgado a farda para assumir sua posição de marxista, mas era uma pessoa com formação militar. Era um capitão. E um capitão quer ação.
- Em determinado trecho, ele pede que seus companheiros produzam uma contra informação, dizendo que ele está no Rio Grande do Sul, em vez de no Rio de Janeiro. Ele precisava de mobilidade. Isso já refletia essa ansiedade por voltar à ação?
- Sem dúvida. Ele tinha o espírito militar. Queria atividade. Por isso ele cobra tanto dos outros grupos. E o combate? Como vamos fazer? E nas cartas ele reclama que sua organização estava sendo criticada por ser militarizada demais. Ora, com exceção do PCB, que priorizava a ação política, todos os grupos eram militarizados, tinham a cabeça foquista. Se essa estratégia foi errada ou não, ninguém tinha como saber na época. É o que foi feito.
- Menos de um ano depois de escrever essas cartas, Lamarca acabou sendo morto pelas tropas do governo no interior da Bahia. O sr. acha que ele poderia ter tentado deixar o País para se preservar, já que o cerco tinha se intensificado?
- Tanto Lamarca como (Carlos) Marighella preferiram ficar no Brasil, levando à frente a luta armada. Foi uma opção deles, talvez para dar o exemplo aos companheiros. Na época em que escreveu essas cartas, ele vivia o dilema do cerco profundo que estava sendo imposto pelo governo militar à esquerda. A esquerda estava sob cerco tático do governo nas cidades. Quando saiu para Brotas de Macaúbas, onde acabou morrendo, foi uma espécie de fuga para a frente. Fico orgulhoso com o fato que a cidade tornou feriado municipal o dia de sua morte, como forma de homenagear sua memória.
- O que o sr. acha de a Aeronáutica ter mantido fechados por tanto tempo esses arquivos?
- As Forças Armadas deveriam abrir tudo o que têm guardado. Até como forma de dizer que não têm nada a ver com a repressão que foi feita naquele tempo. Os tempos mudaram. Comprovei isso acompanhando o excelente trabalho feito pelas tropas brasileiras no Haiti.

PANFLETO CITA INFLAÇÃO PARA DESESTABILIZAR GOVERNO MILITAR
 
“Além das cartas, o acervo de documentos secretos da Aeronáutica contém três propostas de panfletos redigidos por Carlos Lamarca em 26 de novembro de 1970 e encontrados pelo governo num apartamento usado pela VPR. Neles, Lamarca sugere que seja capitalizado o alto número de votos nulos, brancos e abstenções das últimas eleições como tentativa de desestabilizar o governo.
O primeiro dos panfletos tem o título de “O povo venceu uma batalha – E vai vencer todas”. Lamarca começa citando indicadores econômicos que o governo estaria usando para comprovar o desenvolvimento do País. Em seguida, enumera índices de inflação para contestar o argumento governista.
“O próprio governo declarou ainda que, de janeiro a outubro, a carne aumentou 55% de preço, o feijão 26%, o pão 23%, o café 40%, ovos 20%. Não falou no aumento do preço da energia elétrica, condução, roupas, calçados, remédios e tudo o mais. Então, perguntamos: onde está o desenvolvimento?”, escreve.
E aumenta o tom das críticas: “Esse governo é um vaselina. Fala macio, mas violenta o povo. Fala em nacionalismo, mas entrega-se ao americano”.
Lamarca, então, aproveita para associar o resultado das eleições de 1970, usando os índices de votos nulos, brancos e de abstenções, a uma espécie de protesto da população contra o governo. “O povo deu uma demonstração nas eleições que discorda de tudo isto que aí está. Os que anularam o voto, votaram em branco e os que nem foram votar são a maioria do povo. É (sic) 60% da população. Esses nós chamamos de povo consciente. Há os que não concordam com o governo, mas ainda estão iludidos e votaram no MDB. O povo consciente sabe que a única maneira de mudar tudo isto é pela luta armada.”

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