• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:55

Datena: Lula virou um Padre Cícero

   O apresentador de TV José Luiz Datena ficou famoso e ganhou audiência como repórter policial.
Mas foi a ele que José Serra decidiu anunciar que seria candidato à Presidência da República.
Em seguida, ele entrevistou Dilma Rousseff, que cantou para os telespectadores da Rede Bandeirantes, o tango ‘El dia que me quieras’.
Datena – apresentador do programa popular ‘Brasil Urgente’, de audiência média -  acabou virando uma estrela. Nessa segunda-feira, é ele o entrevistado da ‘Folha’, onde revela ao repórter Marcio Aith: “O Serra estaria mais preparado, mas a minha ligação com o Lula é um negócio muito legal. Acho que ele é um divisor de águas. Virou um Padre Cícero”. Por isso ele deve votar em Dilma. 
- Quem teve a ideia de entrevistar candidatos à Presidência num programa policial?
- Era um sonho antigo que eu tinha, mas, na verdade, fui procurado para entrevistá-los. Parece finalmente que os marqueteiros de plantão pegaram as caravelas e estão fazendo o que Cabral fez em 1500. Estão descobrindo o Brasil de novo, como eu tenho dito e escrito por aí. Como apresentador popular, quase sempre fui relegado a um segundo plano nas campanhas. Um jornalista de segunda classe. Mas os gênios se esqueciam de que quem vota é o povo que vê a televisão, ouve rádio e lê jornal.
- Como é que você conseguiu tirar do Serra a admissão de que seria candidato à Presidência?
- A assessoria dele chegou a perguntar pra mim: “você não vai abordar política na entrevista, não é?”. Eu respondi: “O que eu vou perguntar para ele não lhes interessa”. No meio da entrevista, ele deu uma brecha. Era o aniversário dele, e tinha uma criançada cantando os parabéns. Vi que quase chorou, porque gosta do neto pra caramba. Pensei: “nossa, o Serra chora”. Ali ele abriu a guarda e eu perguntei: “Se o sr está beijando criancinha é porque é candidato.” Ele respondeu: “Ainda não, Datena.” Eu disse: “Ainda não? Então o senhor vai ser candidato?” Ele: “Eu só pretendo lançar minha candidatura depois, em abril.” Pronto. A candidatura estava lançada.
- Mas por que ele teria dito isso ao senhor, naquele momento?
- Ninguém tira do cara o que ele não quer falar. Num momento ou outro ele falaria. Acho que o momento adequado foi criado para que ele abrisse a guarda. Alguém me perguntou: por que ele não falou para o William Bonner e falou para o Datena? Ora, quem estava ali era o Datena, não o Bonner.
- Qual é a estratégia para tirar mais revelações de candidatos?
- Se você deixa o cara à vontade, o cara fala mais. Se você começa a falar empolado, dá espaço para ele te enrolar.
- Qual dos dois candidatos foi melhor nas entrevistas?
- As duas foram legais. Falaram que o Lula não tinha gostado do desempenho da Dilma. Parece que isso não é a verdade absoluta. Não foi isso o que o Lula disse. O presidente recomendou a ela que se preparasse melhor. Mas o presidente não viu a entrevista. Algum cara disse a ele que ela estava insegura. Eu tenho outra impressão. Achei que a entrevista da Dilma a aproximou do povo do que estava antes. Ela foi mais solta do que de costume. Tive uma ótima impressão dela.
- E o Serra?
- O Serra é um avião. A Dilma tem que se preparar para enfrentar o Serra porque, no pau a pau, num debate político, o Serra está muito mais acostumado do que ela. Se ela descomplicar o palavreado dela, falar simples, pode até levar. Vai ser um páreo duro. Essa eleição pode ser decidida no primeiro turno, para um lado ou para o outro. Os dois foram muito bem. O Serra foi mais seguro. Aprendi a gostar do Serra.
- Em quem você vai votar?
- Ainda não decidi. Mas acho que vou votar na Dilma, por causa do Lula. Acho que a Dilma tem a capacidade para governar o país. O Serra estaria mais preparado, mas minha ligação com o Lula é um negócio muito legal. Acho que ele é um divisor de águas. Ele deu ao país a noção absolutamente exata de que um pobre pode ser presidente da República. O Lula virou um Padre Cícero. Mas, mesmo se o Serra ganhar, o país estará bem servido. Muito bem servido. Porque o Serra é um cara preparado.
- Qual deles é mais de esquerda?
- O Serra é muito mais socialista do que a Dilma diz que é. Explico: a Dilma hoje é socialista porque não tem comunismo. Se tivesse comunismo ela estaria com arma na mão. Eu sou um cara de esquerda. Mas não aquele cara bobão, o comunista que escorregou para o socialismo de vergonha. Eu, ao contrário de outros, tenho plena consciência de que Stálin matou 50 milhões de pessoas, de que Mao Tsé-tung matou outros 70 milhões.
- Entrevistar políticos é uma novidade para você?
- De jeito nenhum. Quando eu trabalhava na Globo, fazia de tudo. Apresentava um programa político chamado “A Palavra é Sua” e também fazia entrevistas variadas em outros espaços. Desde a Cicciolina ao Pavarotti, passando pelo Rei Juan Carlos, entrevistei todo mundo. Aprendi a fazer entrevistas descontraídas. Então, quando um político fala comigo, ele não tem as amarras que teria com um repórter político. O problema é que o preparo do jornalista político, que tende a ser intelectual, apesar dos poucos imbecis na área, é um preparo de muita leitura, filosofia e formalismo. Ele tem vergonha de flertar com o ridículo. Como eu atuei por muito tempo no limiar do sensacionalismo, consigo descontrair muito mais.
- A leitura é um problema?
- Não. Também leio. Também gosto de literatura, história, filosofia. Só não fico me exibindo. Não fico citando autor. Quando Sêneca [um dos mais célebres escritores e intelectuais do Império Romano] fala que o verdadeiro problema é justamente a forma de lidar com os problemas, eu simplesmente uso isso na vida real. Não preciso falar quem é o autor. Os candidatos estão perdendo o preconceito, falando mais fácil, chegando perto do povo. Que se danem os intelectualóides e até os verdadeiros intelectuais.
- Você gosta de apresentar programas policiais?
- Veja que ironia. Sou rotulado como apresentador sensacionalista, mas ganhei dois prêmios Herzog [ Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos]. Não gosto de fazer jornal de polícia. Nunca gostei. Gostaria muito de parar de fazer jornal de polícia. Mas, dá audiência, os caras não me tiram. Quando entrevistamos o Lula recentemente, o presidente falou. “Olha, Datena, tem muita bala, muito tiro na televisão”. Eu respondi: “presidente, você tem que tirar a violência da rua, não da televisão.” Disse também: “Olha, presidente, o meu medo de o senhor controlar os meios de comunicação é o seguinte: como o sr. não vai falar em política se grande parte da política está envolvida com corrupção?” A metros de onde estávamos havia um governador preso, o babaca do Arruda.
- Sua saída da Globo em 1989 ocorreu quando você subiu no palanque do Lula na eleição contra o Collor. Conte como isso ocorreu.
- Fiz o comício do Lula porque achava que esse Collor era um xarope. Achava, não. Tenho certeza de que ele é. Por isso perdi o emprego na Globo. O diretor da época me chamou e falou: “Olhe, Datena, você sabe por que eu estou te mandando embora, né?” Eu falei: “evidente que sei”. Três meses depois da eleição, após a derrota do Lula, o cara me chamou e me deu a carta de demissão.
- A audiência cai quando se reduz a parte policial do programa?
- A audiência é a mesma, mas, quando há crimes pontuais, como esse de Goiás, que todas as emissoras exploram, a audiência sobe muito. Moral da história: a humanidade não mudou nada. Quando colocavam leões para comer os cristãos no Coliseu, ele lotava. Hoje, se pegarmos o Pacaembu, o Morumbi e colocarmos leões para comer estupradores e assassinos, vai lotar mais do que final de campeonato. Isso é triste. Eu sei. Mas, infelizmente a sociedade tem essa demanda de Justiça. O ser humano em geral”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:51

Duda critica campanha de Dilma

Do ‘Valor Econômico’:
“O publicitário Duda Mendonça afirmou na noite de segunda-feira que a campanha da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, erra na forma que tenta apresentá-la ao eleitor. “Não adianta desvirtuar a Dilma. Tem que deixar a Dilma ser como ela é. As pessoas vão entender como ela é ou não. Pegá-la e fazer outra pessoa…Vai ficar numa vestimenta que não é confortável, vai ficar escorregando volta e meia”, disse Duda, em palestra de duas horas na Casa do Saber, em Ipanema, zona sul do Rio.
Para um público de assessores de marketing, pré-candidatos e jornalistas, Duda procurou explicar como trabalha. “Por que eu votaria na Dilma? Ou por que eu votaria no Serra? É a primeira pergunta fundamental. Tudo começa aí. Acabou-se o tempo em que a formação de opinião era de cima para baixo. O povo na base, e os artistas e intelectuais tinham uma opinião e saía na imprensa. A pirâmide virou de cabeça para baixo. Quem gera a opinião marcante que muda o voto é um igual, um colega de trabalho. A palavra mais importante é argumento. A palavra mágica em eleição hoje é argumento.”
O publicitário tentou se mostrar imparcial, apesar da simpatia a Dilma. “Com a eleição de Serra ou de Dilma, acho que a gente [sic] está bem servido de qualquer lado. Sinceramente, independentemente da torcida ser para este ou aquele candidato, não há risco de retrocesso. Cada um pode sua tendência aqui ou ali. O Serra é um baita governador, a Dilma está comprometida a prosseguir o que Lula está fazendo e dando certo.”
Responsável pela campanha de Lula em 2002 e pelo marketing do governo até o escândalo do mensalão em 2005, Duda afirmou acreditar que Dilma deve vencer, graças ao apoio do presidente.
“A Dilma é de uma geração nova de política. Tenho o privilégio de conhecê-la. Tem chance numa eleição muito disputada. Acho que Dilma ganha a eleição. O palco mais importante vai ser Minas”, opinou. “Se não fosse o Lula, seria a vez do Serra. Serra é um baita de um quadro. Se não fosse o Lula, era a vez dele. Mas Lula é igual Padre Cícero ou está ali perto.”
Duda afirmou não ter certeza se devia ter confessado que recebeu R$ 10,5 milhões do PT numa conta secreta no exterior como fez na CPI do Mensalão. “Fiz meu trabalho, recebi e paguei meu imposto. Tenho um livro pronto, que vomitei na época. Não sei o título será ” Vale a Pena Falar a verdade ” ou Não Vale a pena Falar a Verdade.”
Comentou as dificuldades de Dilma de obter apoio entre as mulheres, contingente em que as pesquisas a mostram mais frágil. “O PT tem uma camada de homens maior do que de mulheres. Talvez porque as mulheres sofrem mais com aquele momento inicial de greve, de apitaço…Ficou um pouco deste distanciamento. É possível melhorar? Sim. Na campanha do Lula melhorou. Ficou esta pontinha, sobretudo a ideia de radicalismo.”
Duda procurou vender-se como um vencedor. “Na eleição de prefeito, dei consultoria para 11 campanhas, tive a sorte de ganhar nove. Procuro pegar candidatos competitivos. É claro que as melhores propostas vêm de candidatos na UTI. Mas se você for pegar assim ganha muito dinheiro e perde todas. Vai ganhar uma e perder muitas. Tem que fazer um mix.”
Duda afirmou que a imprensa dimensiona erradamente o papel do marqueteiro. “É uma profissão dura, para quem gosta de competir. É uma responsabilidade enorme lidar com a imagem dos outros. Quando você lida com a sua [imagem], você corre os riscos de dizer uma bobagem ou não. É exagerada a capacidade de poder que a imprensa dá a gente. É um trabalho de sensibilidade, de buscar conhecer a alma do povo.”
O publicitário disse que não é mágico. “Marketing é uma ferramenta de apoio. Importante, mas nada mais do que isso.” Lembrou pesquisa que saiu na Folha dizendo que o eleitor escolhe por emoção. “Faço isso há 20 anos. Por quê? Não sei. É a minha cara.”
Duda negou que seja marqueteiro de si mesmo “Nunca fiz nada por estratégia nem pelo meu próprio marketing. Nunca corri atrás de dinheiro. O dinheiro é que correu atrás de mim.”
Respondeu à velha questão sobre se eleger um candidato é semelhante a vender sabonete: “Não existe um público eleitor e um público consumidor. Existe um público, que pensa, que sofre, que tem ambições, expectativas. A velha polêmica: trabalhar para um candidato é a mesma coisa que vender um sabonete? Sim e não. O sabonete não fala, esta é a vantagem. Pode mudar o perfume. O candidato você não pode modificá-lo demais. Pode até ajeitá-lo com a roupa, fazer a barba direitinho. Mas não pode mudar tudo.”
Duda procurou contestar o mito de que Obama foi eleito mais pela força da web do que pela TV. “Obama foi eleito pela internet? Não é verdade. Não temos nada lá para aprender. Eles é que aprenderam com a gente. Usaram um discurso emocional, Obama não atacou ninguém e o slogan deles foi o nosso aqui: a esperança venceu o medo. Como ele foi um fenômeno em tudo, ele virou um fenômeno na internet. Mas o dinheiro que eles arrecadaram na internet, eles colocaram na televisão.”
Acredita que a internet trará para a eleição o público jovem. “Ele é arredio, mas vai participar, meio próximo da esculhambação, mas vai participar. A eleição chegou ao instrumento dele. Nas grandes cidades. Esta garotada vota, vai haver uma mudança. Qual é? Não sei exatamente.”

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