• Sexta-feira, 30 Março 2012 / 3:09

Candidatos, tremei!

                                                             Eliane Cantanhêde*

        Passada a Semana Santa, Lula entrará com tudo na política. Não cabe aí o verbo “voltar”, porque não se volta para o lugar em que sempre esteve. Ele apenas emerge dos bastidores, onde vinha atuando apesar de radioterapia, quimioterapia, infecção pulmonar e internações, para reassumir os palcos.
Com sua já altíssima popularidade potencializada ainda mais pela doença, seu carisma inegável e sua liderança única não apenas no PT mas em toda a base aliada do governo, Lula desequilibra qualquer jogo político. Onde entra, é para ganhar.
Seus dois alvos são as suas duas maiores invenções: Fernando Haddad, que patinava nos 3% nas últimas pesquisas, e Dilma Rousseff, que demonstra não ter a menor paciência nem para a política nem para os políticos -sobretudo os aliados.
Para Haddad, Lula é fundamental e não terá o menor prurido de submeter o PT a derrotas e constrangimentos em outras ou até em todas as capitais e grandes cidades, desde que reúna o máximo de apoios e de tempo de TV em São Paulo.
O PSB é o melhor exemplo do que pode acontecer com os demais: a seção paulista até gostaria de ficar com Serra, mas o comandante Eduardo Campos acertou com Lula que o partido prefere ir com Haddad em troca do apoio do PT nos outros Estados.
Já para Dilma, Lula é uma faca de dois gumes. Fundamental como respaldo político, mas também um entrave para os rumos que ela quer e já vem dando a seu governo.
Dilma sabe muito bem o tanto de coisas que encontrou fora do eixo, mas pisa em ovos quando tem de desfazer, refazer ou dar guinadas no que encontrou, para não evidenciar erros nem parecer crítica ao ex-chefe, padrinho e antecessor.
De toda forma, os efeitos mais ostensivos da “volta” de Lula serão menos em Brasília, onde ele era e continua sendo consultor, e mais em São Paulo, onde tende a ser o principal fator da eleição de outubro.
José Serra e Gabriel Chalita, tremei!
*Eliane Cantanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Domingo, 05 Fevereiro 2012 / 12:52

Haddad, novo teste para Lula

                                                             Marcos Coimbra*
     

        Em São Paulo, a vida política tem uma característica peculiar: os dois principais partidos nacionais não se renovam. Há anos, em qualquer eleição majoritária, PT e PSDB escalam os mesmos nomes, seja para disputar o governo do estado, o Senado ou a prefeitura da capital.
Entre os tucanos, Serra e Alckmin já foram candidatos a esses cargos, somados, nove vezes (e ainda deveríamos contar suas três candidaturas a presidente da República). No PT, Marta Suplicy e Aloizio Mercadante, oito.
Na definição do que iriam fazer nas eleições da capital este ano, por pouco não tivemos a enésima repetição da presença de José Serra e Marta Suplicy nas opções oferecidas ao eleitor: seria a quarta tentativa de ambos.
Não podemos esquecer que Alckmin está prestes a se tornar, nos tempos modernos, o recordista de permanência no Palácio dos Bandeirantes: ao completar seu mandato atual, totalizará 10 anos lá residindo, mais que Ademar de Barros (mesmo computando seu período como interventor). Se viesse a ganhar a reeleição em 2014, aproximar-se-ia dos governantes do período colonial, com 14 anos de exercício da função.
Na maior parte dos estados, não temos uma rigidez como essa. Novas gerações de políticos petistas e peessedebistas já emergiram no Rio de Janeiro, em Minas, no Paraná, assim como no resto do país. Existem novos senadores, governadores e prefeitos dos dois partidos (e de outros) país afora.
Aécio e Antonio Anastasia, em Minas; Beto Richa e Glesi Hoffmann, no Paraná; Marconi Perillo, em Goiás; no PSB, Eduardo Campos, em Pernambuco, e Cid Gomes, no Ceará; no Rio, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, do PMDB, e Lindberg Farias, do PT. Todos são exemplos do que não acontece em São Paulo.
É nesse contexto que se deve analisar a opção de Lula por Fernando Haddad na escolha do candidato do PT a prefeito de São Paulo. Sem sua intervenção, é muito possível que a dinâmica interna do partido levasse a mais um adiamento da renovação e a insistir na aposta em uma candidatura conhecida — no caso, de Marta Suplicy, que liderava as pesquisas.
Pode ser que Haddad vença a eleição ou não. Para o PT, mais relevante é começar a se apresentar ao eleitorado da maior cidade brasileira com uma nova identidade, de um político com uma trajetória diferente do padrão típico do petismo no estado.
Haddad não é sindicalista na origem, nunca foi da esquerda católica, tinha 5 anos quando o AI-5 foi editado. É um profissional de gestão pública, como alguns tucanos de sua geração.
Existem muitos petistas com essas características. Mas é o primeiro candidato a um cargo de “primeiro escalão” com esse perfil que seu partido vai lançar em São Paulo.
Há quem tenha visto a intervenção de Lula como manifestação de caciquismo e de sua vontade de submeter o PT a seus caprichos e idiossincrasias. Não parece, no entanto, ser uma critica razoável.
Ao bancar a indicação de Haddad, Lula se mostra disposto a submeter seu prestígio popular a um teste nada pequeno. Na verdade, maior até do que ele acabou de enfrentar em 2010, com Dilma.
Uma coisa é apresentar alguém para continuar seu próprio trabalho, algo que o eleitor — brasileiro e de qualquer lugar — compreende e aceita, levando a que a chamada “transferência horizontal” não seja rara. Ela, no entanto, é muito mais incerta quando se aponta uma pessoa para outro cargo.
Com o gesto, Lula aceita a responsabilidade de liderar seu partido, com os riscos que daí decorrem. E coloca sua popularidade a serviço da renovação pela qual o PT precisa passar em São Paulo.
Melhor que se eximir e lavar as mãos. Uma das razões que levam o PSDB paulista a bater cabeça na eleição da capital é que suas lideranças não lideram (ou não conseguem liderar).
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 01 Fevereiro 2012 / 12:13

Lula, a voz do Brasil

                                               Frei Betto*

      Lula é, hoje, a voz do Brasil. De modo especial, a voz dos que não têm voz. Nenhum brasileiro tem, no exterior, tanta audiência. Os chefes de Estado prestam atenção no que ele diz, inclusive Dilma Rousseff.
Universidades dos cinco continentes o homenageiam com o diploma de doutor “honoris causa”. Empresários, dentro e fora do Brasil, querem conhecer seu ponto de vista sobre a conjuntura. Organismos internacionais se interessam pelo modo como o seu governo combateu a fome e reduziu a desigualdade social no Brasil.
A vida é imprevisível. Frágil como uma folha seca. E o futuro a Deus pertence. Súbito, Lula vê-se afetado por um câncer na laringe. Até parece que a natureza decidiu atingi-lo em seu calcanhar de Aquiles. Como ocorreu ao pianista João Carlos Martins, cujos dedos das mãos, afetados por uma sucessão de problemas de saúde, quase o obrigaram a se afastar da música. Hoje, ele é reconhecidamente um exímio regente.
O câncer parece perseguir os chefes de Estado: Lugo, Chávez, José Alencar… Lula é feito da mesma matéria-prima de Alencar. Os dois foram dotados de um imbatível otimismo frente à vida, sustentado por consistente fé cristã. Como Alencar, Lula se sabe predestinado – não no sentido messiânico que o termo possa sugerir, e sim como resultado de uma convergência de fatores que o levaram à vida pública e, graças à sensibilidade social trazida de berço, se empenha em minorar a desigualdade social e promover uma ampla política de inclusão dos empobrecidos.
Todo o poder de comunicação de Lula se centra na voz. Ele nasceu brindado pelo dom da oratória. Lembro do início de nossa amizade, nas grandes assembleias metalúrgicas do ABC, no estádio da Vila Euclides, nos primeiros anos da década de 1980. Lula, antes de sair de casa, elencava num pedaço de papel os temas a serem abordados em seu discurso de encerramento da concentração operária. Era sempre o último a falar. Seu discurso marcava a culminância da assembleia.
Ocupado o palanque, iniciava-se a sucessão de pronunciamentos: diretores do sindicato dos metalúrgicos, líderes operários, advogados trabalhistas, políticos… À medida que o ato avançava, os pontos elencados por Lula brotavam da boca dos oradores que o precediam. Eu me sentia aflito por ele, preocupado se, ali no palanque, ele teria ideia de outros temas que ninguém tivesse abordado.
Terminada a lista de oradores, a palavra de coroamento da manifestação cabia a Lula. Todos prestavam silenciosa atenção, como se cada uma de suas frases devesse ser absorvida pela multidão. Então, Lula surpreendia. Não por arrancar da cartola retórica, como um mágico, temas inéditos. A pauta era a mesma. A novidade consistia no modo como a abordava.
Não falava com a cabeça, e sim com o coração. Não proferia teorias nem se perdia na ênfase de frases demagógicas. Discursava a partir de experiências oriundas de sua trajetória pessoal, criava parábolas, contava “causos”. Exortava, advertia, expressava metáforas bem humoradas, destilava ironias em torno da ditadura, caricaturava ministros e empresários, cobrava de cada grevista empenho na mobilização, atiçava os brios éticos da massa trabalhadora. Seu pronunciamento soava mais moral do que político. Sua voz inflamava a assembleia.
Agora, a voz padece. Descansa. Exige cuidados. Lula, como ocorre às águias ao atingirem 40 anos de idade, se recolhe à montanha para adquirir novo vigor. E, em breve, retomar seu voo por uma política, no Brasil e no mundo, centrada no fim da miséria e da pobreza – onde a sua vida teve início.
*Frei Betto é escritor e publicou esse artigo no ‘Granma’, orgão oficial do Partido Comunista de Cuba. A publicação foi em novembro do ano passado, mas hoje ele foi reproduzido na versão eletrônica do jornal cubano.

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 16:46

A trinca e o coringa

                                             Eliane Catanhêde*

         O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi salvo na última hora pelo desabamento de prédios no Rio. Não fosse a tragédia, as principais imagens e conversas políticas pelo país afora seriam sobre Kassab levando ovos no dia do aniversário da capital paulista.
Com Kassab virando omelete, o PSDB dividido irrecuperavelmente e Dilma fazendo bonito nas pesquisas, o PT recupera fôlego e sai a galope para a prefeitura, onde joga o seu futuro. Como já dito aqui, se Fernando Haddad -que fez 49 anos- se eleger prefeito da principal capital do país, estará automaticamente na lista de presidenciáveis de 2018.
Quando FHC diz que Aécio Neves é a opção “óbvia” para a Presidência, empurra Aécio para uma arena inglória. Em 2014, será a chance de o PSDB paulista fazer com Aécio o que ele fez com Serra e Alckmin em 2002, 2006 e 2010: jogá-lo aos leões -ou leoas. Dilma não terá mais só a aura de Lula. Tenderá a ter também a sua própria popularidade e, no rastro dela, a união dos governistas.
O jogo que está sendo jogado é, sobretudo, para 2018, com um trio que tem o impulso da renovação natural e se destaca desde já: Aécio pelo PSDB, Haddad pelo PT e Eduardo Campos (PSB) como um pêndulo entre os dois, mas na verdade querendo ele próprio concorrer.
Os três apontam para o futuro da política, mas há diferenças: Aécio é neto de Tancredo, e Campos, de Miguel Arraes. Enquanto eles têm a articulação política no sangue e a liderança nos seus partidos, Haddad tem que comer na mão de Lula, aprender os primeiros passos com Dilma e evitar acidentes “em casa” – no PT.
Kassab circula bem entre PSDB, PSB e PT, como um coringa que pode reforçar a cartada de um dos três. Deve, porém, ajustar sua (ótima) capacidade política e sua (medíocre) popularidade. A questão geracional ajuda a definir o jogo e os jogadores, mas não é o único fator. É apenas uma imposição da política, como da vida.
*Eliane Catanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 25 Janeiro 2012 / 10:50

Dilma, esqueça Yoany Sánchez

       O ex-deputado Fernando Gabeira, um dos sequestradores do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, é proibido de entrar nos Estados Unidos.
Certa vez, a Câmara quis incluí-lo na delegação de parlamentares brasileiros que, anualmente, participam da Assembléia Geral da ONU.
Mas não obteve êxito.
Quando o filme “O que é isso, companheiro?”, baseado no livro de Gabeira, foi indicado para o Oscar, nova tentativa e nada feito.
Isso tudo ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso.
                                * * *
No segundo governo Lula, o ministro de Comunicação Social do Governo chamava-se Franklin Martins -  assim como Gabeira, participante ativo no sequestro do embaixador norte-americano.
Franklin, mesmo como ministro, nunca conseguiu acompanhar Lula nas viagens do Presidente aos EUA.
O Governo norte-americano negou, sistemáticamente, o visto diplomático à autoridade, mesmo estando ele em missão oficial.
                                * * *
Agora cobram uma posição de Dilma Rousseff em favor de Yoany Sanchez, “dissidente” cubana que quer vir ao Nordeste fazer propaganda anti-castrista.
Se nem FHC, nem Lula conseguiram êxito na defesa de seus nacionais, junto aos EUA, por que diabos Dilma deve defender a vinda de uma estrangeira ao Brasil?
A tentativa de emparedar Dilma não é apenas uma falta de respeito ou cobrança fútil da mídia brasileira com a Chefe do Governo, e mais do que isso: é uma tentativa de desmoralizá-la perante a opinião pública.
Dilma vai a Cuba tratar assuntos de Estado, e não se imiscuir em assuntos internos da Ilha.
Poderia até, em conversas informais, tratar da questão dos presos políticos, de uma maneira mais ampla - assim como já fizeram, com êxito, a Espanha e o Vaticano.
Mas não cuidar de um assunto isolado - de uma blogueira que reclama não poder sair do país, mas que já viveu anos na Europa, e hoje está em Cuba, a soldo sabe-se lá de quem, sem trabalhar, com liberdade suficiente para escrever o que bem entende, e com tradução em 18 idiomas.

  • Sábado, 14 Janeiro 2012 / 12:00

Voz do dono, dono da voz

     Da colunista Monica Bergamo, da ‘Folha’:
    ”Dez dias depois de começar o tratamento com radioterapia, a voz de Lula ainda não apresenta alterações. Pelo contrário: até melhorou graças aos exercícios de fonoaudiologia que ele está fazendo duas vezes ao dia”.

  • Quinta-feira, 05 Janeiro 2012 / 11:54

Moraes fará livro sobre Lula

     Da colunista Monica Bergamo, da ‘Folha’:
     “O escritor Fernando Morais, autor de livros como “A Ilha” e “Chatô”, deposita nesta semana a última parcela do R$ 1,6 milhão que havia recebido do selo Benvirá, da Saraiva, para trocar de editora. Permanece, assim, na Companhia das Letras.
Deste total, R$ 1,2 milhão era de adiantamento de royalties e R$ 400 mil a fundo perdido. Morais diz que teve “certa paúra” quando, depois de assinar com a Saraiva, percebeu que ficaria preso a ela por contrato por mais dez anos, “até os meus 75 anos”.
Morais agora escreve um livro sobre Lula. Chegou a entrevistar o ex-presidente depois que ele começou o tratamento contra o câncer. Mas as conversas estão interrompidas até o petista terminar a radioterapia”.
                               * * *
Fernando Morais começou a escrever um perfil do ministro José Dirceu, logo depois que ele perdeu o mandando de deputado, mas sabe-se lá porque “abandonou” o projeto.
Ele tem outro livro pronto, há anos: um perfil do senador Antonio Carlos Magalhães.
O livro foi concluído há seis anos e ACM já morreu há quatro.
A obra certamente é um poço de revelações, mas Morais deve ter feito algum acordo com o líder baiano para que só o publicasse x anos após a sua morte.
Se forem 10 anos, ele irá às livrarias em 2017.

  • Quarta-feira, 01 Dezembro 2010 / 10:00

Cara do Governo

                                                      Marcos Coimbra*

     A reação de parte da imprensa às informações sobre a composição do governo Dilma é curiosa. Em alguns veículos, chega a ser cômica.
Outro dia, um dos jornais de São Paulo estampou em manchete que Dilma estava “montando o núcleo de seu ministério com lulistas”. O que será que o editor imaginava? Que ela fosse recrutar “serristas” para os postos-chave de sua administração?
Como ensinam os manuais do jornalismo, essa não é uma notícia. Ou será que algo tão óbvio merece destaque? “Cachorro come linguiça” não é um título para a primeira página. No dia em que a linguiça comer o cachorro, aí sim a teremos uma notícia (que, aliás, deverá ser impressa em letras garrafais).
Na mesma linha, um jornal carioca achou que era necessário alertar os leitores para o fato de que “Lula está indicando várias pessoas para o governo Dilma”. Em meio a estatísticas sobre quantos nomes já havia emplacado, a matéria era de franca desaprovação.
Na verdade, tanto nessa, quanto na manchete do jornal paulista, estava implícita quase uma denúncia, como se um duplo malfeito estivesse sendo cometido. Por Lula, ao “se meter” na formação do novo governo, ao “tentar interferir” onde, aparentemente, não deveria ter voz. Por Dilma, ao não reagir à intromissão e o deixar livre para apontar nomes.
Quem publica coisas assim dá mostras de não ter entendido a eleição que acabamos de fazer. Não entendeu como Lula, seu principal arquiteto, a concebeu, como Dilma encarnou a proposta, e como a grande maioria do eleitorado a assimilou.
Tudo mundo sabe que, quando Lula formulou o projeto da candidatura Dilma, a ideia central era de continuidade: do governo, de suas prioridades, de seu estilo. Ele nunca disse o contrário e insistiu no uso de imagens que caracterizavam, com clareza, o que ela representava. Para que ninguém tivesse dúvidas, chegou a afirmar que votar em Dilma era a mesma coisa que votar nele. Foi explícito nos palanques, nas declarações, na televisão.
Dilma sempre falou a mesma coisa. Mostrou-se à vontade como representante de Lula e do governo, seja por sua lealdade para com o presidente, seja pela boa razão de que o governo era dela também. Apresentar-se ao país como candidata de continuidade nunca a deixou desconfortável, pois significava defender aquilo a que havia se dedicado nos últimos oito anos.
Isso foi bem entendido pelos eleitores. Desde o primeiro momento e até o fim da eleição, as pessoas olharam para Dilma sabendo qual era a natureza de sua candidatura. Muitas descobriram suas qualidades pessoais, mas o núcleo da decisão de votar em seu nome foi outro, como mostraram as pesquisas.
Ninguém votou em Dilma para que o “dilmismo” vencesse o “serrismo”. Só quem quis que a eleição fosse essa foi o próprio Serra, que sabia que perderia se o foco da escolha se alargasse, se os eleitores olhassem para o que cada candidato representava e não se limitassem a fazer a velha comparação de biografias.
Agora, quando Dilma escuta Lula na montagem do governo, ela apenas cumpre a promessa fundamental de sua candidatura, a razão principal (para alguns eleitores, a única) de ela ter sido votada. Quando dá mostras de que manterá ministros e dirigentes, faz apenas o natural. Se, por exemplo, se comprometeu durante a campanha com a preservação de determinada política, porque razão não seria adequado que o responsável permanecesse?
O governo que está sendo organizado terá a cara da continuidade, política e administrativa. Terá a cara de Lula, do PT e das outras forças partidárias que venceram a eleição. Terá a cara da atual administração, que é aprovada pela maioria da sociedade. Terá a cara de Dilma, pois é ela que o chefiará.
É isso que foi combinado com o país.
*Marcos Coimbra, sociólogo, presidente o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Terça-feira, 17 Agosto 2010 / 11:50

TV não mudará resultado

    É dura a vida do candidato José Serra.
Veja o que diz a reportagem da ‘Folha’, assinada por Ranier Bragon e Fernanda Odilla:
“A campanha na TV tem histórico de relevantes movimentações na intenção de voto dos candidatos à Presidência, mas até hoje não teve impacto suficiente para tirar a vitória daquele que iniciou o período na dianteira.
Nas cinco eleições presidenciais após a redemocratização -de 1989 a 2006-, saiu vitorioso o candidato que liderava as pesquisas imediatamente antes da entrada da campanha na TV.
A análise das planilhas do Datafolha mostra que se encontravam nessa situação Fernando Collor (PRN) em 1989, Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, e Lula (PT) em 2002 e 2006 -em 94, FHC dividia a ponta com Lula, em empate técnico, mas em ascensão.
Apesar disso, a propaganda televisiva coincidiu com períodos de movimentações que em dois casos levaram um cenário de vitória em primeiro turno para o segundo.
Em 1989, Collor abriu o período da propaganda com sete pontos de vantagem sobre todos os principais oponentes somados. No final, havia caído de 40% para 26% na pesquisa. Embolado na terceira posição, Lula praticamente dobrou seu índice e, por margem estreitíssima, derrotou Leonel Brizola (PDT) e foi ao segundo turno.
Nas vitórias de 1994 e 1998, ambas no primeiro turno, FHC tinha mais minutos na programação eleitoral e assistiu no período televisivo a uma ampliação da vantagem em relação a Lula. Já em 2002, Lula iniciou a TV com Ciro Gomes (PPS) como seu principal oponente. Entretanto, Ciro derreteu de 27% para 11% das intenções de voto, desempenho em parte atribuído à exploração na TV de frases polêmicas e da discussão com um eleitor.
José Serra (PSDB), dono da maior fatia eletrônica, acabou indo ao segundo turno.
“O horário eleitoral sepultou as chances de Ciro por conta das bobagens que ele falou”, disse o cientista político Marcus Figueiredo, professor da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), Autor de estudos sobre o tema, ele diz que a propaganda na TV constrói a imagem dos candidatos e pauta debates, mas que está longe de ser a única variável para que o eleitor defina seu voto.
Na disputa de Lula pela reeleição, em 2006, o petista vencia o conjunto dos principais oponentes por dez pontos no início da propaganda.
Em meio à repercussão do episódio em que petistas foram presos tentando comprar um dossiê antitucano e após faltar ao último debate, na TV Globo, teve que disputar o segundo turno com Geraldo Alckmin (PSDB).
As planilhas do Datafolha mostram não haver padrão sobre o momento da campanha na TV em que as intenções de voto se estabilizam. Houve mudanças, no entanto, no resultado final de outras eleições. Um dos exemplos mais claros é o da eleição de Gilberto Kassab (DEM) à Prefeitura de São Paulo, em 2008. Em 22 de agosto, na semana de início da propaganda na TV, ele tinha 14%, contra 41% de Marta Suplicy (PT) e 24% de Geraldo Alckmin (PSDB)”.

  • Sábado, 24 Julho 2010 / 10:50

Lula volta a cidade onde nasceu

    

A casa onde Lula nasceu

 Do ‘Jornal do Comércio’, de Recife:
“Encravada nas serras do Agreste Meridional, esta pequena cidade a 252 km do Recife jamais viveu dias tão agitados. Tudo por causa da visita do seu filho mais ilustre, que migrou com a família aos sete anos para tentar a vida em São Paulo, e ontem retornava pela primeira vez na condição de presidente da República. Motivo mais que suficiente para provocar a ansiedade dos conterrâneos, que desde a terça-feira viram as ruas da pequena cidade serem invadidas por policiais, faixas e carros de som, que alardeavam a visita.
Com quase uma hora de atraso, um presidente Luiz Inácio Lula da Silva sorridente subia ao palco armado no Centro de Eventos da cidade. Estava lá para lançar o programa nacional Um computador por aluno, que tem como objetivo melhorar o acesso dos jovens estudantes de escolas públicas à informática e à internet. O presidente entregou os primeiros notebooks a 20 alunos de quatro escolas da cidade, mas fez questão de dizer que, antes de deixar o governo, serão entregues os computadores para as 41 escolas da zona rural. Ao todo, serão distribuídos 15 mil computadores em 300 escolas pelo País.
Lula poderia ter indicado qualquer cidade do País para o piloto do programa. Mas a escolha de Caetés foi pessoal. Adotei o critério Lula!, brincou. Depois, os estudantes foram chamados um a um para receber o laptop das mãos do presidente.
O momento emocionante ficou por conta da estudante Damires Lopes, que falou em nome dos colegas. Você é uma pessoa que, assim como eu, sempre acreditou em si, e jamais apostou no fracasso. É um exemplo de que posso ir além dos meus limites, disse Damires, levando o presidente às lágrimas.
Ao discursar, Lula se referiu a Caetés ainda como Vargem Comprida, nome dado ao sítio onde nasceu, quando Caetés ainda era distrito de Garanhuns. Saí daqui com sete anos e só voltei pela primeira vez 27 anos depois, em 1979. Só fiquei decepcionado porque o açude na frente da minha casa, que me parecia o mar, diminuiu, ficou parecendo uma poça, brincou, elogiando, porém, o desenvolvimento da cidade, e prometendo voltar após deixar o cargo. Vou ter mais tempo de vir aqui quando não for mais presidente. E agora que o governador Eduardo Campos me convidou pra ficar na casa dele, venho mesmo, completou. (S.M.F.)”

            LULA REUNE TODOS OS SILVAS
 
     “Na sua primeira e provavelmente última visita à terra natal desde que assumiu o poder no País, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez questão de se reunir reservadamente com seus familiares, antes de iniciar o ato oficial no palanque. No grupo que o aguardava, em um espaço exclusivo no Centro de Eventos de Caetés, estavam primos da primeira, segunda e até terceira gerações, que não escondiam a ansiedade de rever o parente ilustre.
A emoção tomou conta, por exemplo, de figuras como Cícero Cardoso, Tio do PT, primo legítimo do presidente, que, aos 65 anos, não conseguia conter as lágrimas simplesmente ao ouvir a menção do nome de Lula, de quem ganhou o apelido, óbvio, de Chorão. Já os caçulas da família, Emanuel Melo (10) e Vitória Melo (8), eram só sorrisos. Já estivemos com ele (Lula) antes, na inauguração do Senai de Garanhuns (2007). Mas foi a única vez que vimos ele, explicou a pequena Vitória, nascida no mesmo ano em que o primo presidente venceu sua primeira eleição.
Já o veterano Tio Cardoso, fundador do PT em Caetés, lembra bem daquela eleição. Ele foi, inclusive, um dos primos que integraram a Caravana dos Silvas, que viajou dois dias num ônibus de Garanhuns a Brasília para assistir à posse de Lula, em 1º janeiro de 2003.
Entusiasmado, Cardoso fez uma análise nada modesta dos oito anos de gestão do primo: Lula encontrou um trem virado. Ele refez os trilhos, botou o trem neles e agora esse trem está andando como nunca andou antes, comparou, elogiando a gestão petista. O problema é que a oposição não se contenta. Mas eles precisam admitir que saímos de 500 anos de recessão, e hoje os grandes líderes mundiais dizem que em 2016 o Brasil não vai mais ter miséria, emendou.
Ao lado do Tio do PT estavam os primos mais chegados do presidente: Antônio, Cleonice, Manoel de Sérgio, Gilberto e José Cazuca. Todos ex-integrantes da Caravana dos Silvas. Dilma Rousseff vai ser a continuidade do governo de Lula. Ela é corajosa como ele, só que é mais dura ainda, analisou outro primo, José Maria de Melo. Se Dilma perder, voltaremos à estagnação, acrescentou o professoral Cardoso.
O encontro, que durou 40 minutos, contou com a apresentação do forrozeiro Mourinha, que cantou a música O menino que virou presidente, de sua autoria. Lula conhecia Mourinha de outras passagens por Pernambuco.
Embora a lista do cerimonial do Palácio do Planalto indicasse 25 familiares convidados, apareceram cerca de 50 parentes, que tentavam a todo custo falar com o primo presidente. Foi o caso, por exemplo, de Nelsina de Souza (61). De acordo com ela, sua mãe, Maria Rodrigues (87), prima legítima de Lula, precisava urgentemente ir a São Paulo para uma cirurgia de vesícula, mas não tinha condições financeiras de bancar a viagem. Vou tentar pedir ajuda. Afinal, nós somos parentes de um presidente e estamos vivendo na lama!, protestou. Nelsina, no entanto, não conseguiu entrar com o grupo de familiares para o encontro com o primo ilustre. (S.M.F.)”.

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