• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:59

Tuma Jr. só sai se surgir fato novo

Dos repórteres Kennedy Alencar, Fábio Amato e Lucas Ferraz, da ‘Folha’:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá manter Romeu Tuma Jr. no cargo de secretário nacional de Justiça. Nas palavras de um ministro, só um “fato novo” poderia levar Lula a demiti-lo.
Investigação da Polícia Federal obteve gravações telefônicas e troca de e-mails entre Tuma Jr. e Li Kwok Kwen, o Paulo Li, que foi preso em 2009 sob acusação de contrabando.
Nas gravações, Tuma Jr., que também é presidente do Conselho Nacional de Combate à Pirataria, trata da compra de um celular, de videogame e até de regularização da situação de chineses que viviam clandestinamente em São Paulo. Embora tenha sido flagrado nos grampos da PF, o secretário não foi alvo do inquérito.
Na visão presidencial, não há nessa investigação uma ilegalidade cometida por Tuma Jr., a quem o presidente considera “um bom policial”, de acordo com um auxiliar direto.
Lula se considerou satisfeito com as explicações de Tuma Jr., oferecidas anteontem, quando o jornal “O Estado de S. Paulo” divulgou reportagem vinculando-o à máfia chinesa.
No entanto, o presidente pediu ao ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, que buscasse mais informações.
Até ontem, Barreto não obtivera, segundo a cúpula do governo, um dado que comprometesse Tuma Jr. Barreto confirmou ontem em Buenos Aires que fez à PF “um pedido formal de informações” sobre o caso, “a fim de poder fazer uma avaliação mais precisa”, mas descartou afastar Tuma Jr. imediatamente.
A Folha apurou que o presidente deverá voltar a tratar do tema hoje com o ministro. Sem o tal “fato novo”, a posição presidencial será manter Tuma Jr. Se surgir algo desabonador, o secretário perderá o cargo.
Um ministro disse que, no máximo, houve um pedido de favor de Paulo Li, mas não uma ilegalidade. Segundo ele, ficaram claras as relações de amizade da família Tuma com Li. Sobre a prisão de Li em 2009 sob acusação de contrabando, um auxiliar direto do presidente diz que Tuma Jr. não pode ser demitido por ter trocado telefonema e pedido favores. O ex-ministro da Justiça Tarso Genro disse ontem, em Porto Alegre, que as gravações de conversas de Tuma Jr., “se forem verdadeiras”, o “inabilitam” para o cargo.
Por telefone, Tuma Jr. disse ontem conhecer Li há 30 anos e nunca ter comprado produtos piratas. Afirmou ter ficado surpreso quando Li foi preso.
“Nunca imaginei isso. Como vou cuidar ou saber o que meus amigos fazem? Muitas vezes não tenho condições de saber o que minha filha está fazendo.”
Li conheceu Tuma Jr. quando este ainda era adolescente. Eles trabalharam juntos -Li o assessorou na Assembleia de São Paulo quando o filho do senador Romeu Tuma (PTB-SP) era deputado estadual. “Não há nada contra mim. Não cometi nenhum crime. Não fui nem sequer denunciado.”
Sobre a conversa em que trata com Li de mercadorias, o secretário, responsável no governo por combater a pirataria, disse não haver ilegalidade.
“Não há nada demais. Consultei algumas coisas com ele, coisas de amigo para amigo. Nem sei se existe esse videogame pirata. O videogame foi comprado e há nota.”
O secretário ocupa um dos cargos mais importantes do Ministério da Justiça.
A Secretaria Nacional de Justiça é responsável por assuntos que tratam da situação de estrangeiros, da repatriação de dinheiro de brasileiros bloqueado no exterior e da lavagem de dinheiro. Tuma Jr. garante que não deixa o cargo. “Posso cometer erros, mas não crime. Ninguém está acima da Justiça.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:14

DF: intervenção inevitável

Do repórter Daniel Pereira, do ‘Correio Braziliense’:
   “Momentos antes de receber o governador em exercício Paulo Octávio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu, na última quinta-feira, com cinco ministros e um conselheiro para discutir a crise no Distrito Federal. Estavam à mesa Nelson Jobim (Defesa), Franklin Martins (Comunicação Social), Alexandre Padilha (Relações Institucionais), Luiz Paulo Barreto (Justiça) e Luís Adams (AGU), além de Sepúlveda Pertence, comandante da Comissão de Ética Pública e ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). Em uma hora de conversa, o grupo chegou à conclusão de que Octávio avisaria Lula da renúncia ao cargo, o que não ocorreu. Ainda.
Além disso, concluiu que a saída para a crise no DF é a intervenção federal. No encontro, nem Lula nem os ministros se disseram a favor da medida. Pelo contrário, comentaram como a intervenção seria traumática para Brasília e desgastante políticamente para o Palácio do Planalto. Feita a ressalva, concordaram que não há alternativa viável na praça. Para o presidente e os ministros, Brasília foi tomada por ?um esquema pesado de corrupção? e tem ?uma linha sucessória contaminada política e administrativamente?, segundo o relato de um dos participantes da reunião. Por isso, só restaria ao STF acatar o pedido de intervenção apresentado pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel.
Antes de desenhar um cenário de falência do Executivo e do Legislativo locais, Lula e auxiliares se debruçaram sobre dados do GDF. Um dos presentes afirmou que o governo do Distrito Federal emprega 3 mil comissionados que não prestaram concurso público. Proporcionalmente, seria como se a União pagasse salários a quase 200 mil comissionados, em vez dos cerca de 20 mil atuais. Repetindo: 20 mil atuais ? ou 10 vezes menos.
?Havia um grande escoadouro de recursos públicos?, disse, assombrado, um ministro ao Correio. O espanto poderia ser maior, já que, na verdade, são 7,8 mil os comissionados pendurados no GDF que não prestaram concurso público. ?A gente ouvia falar da existência de um grande esquema, mas não tinha a dimensão do tamanho dele?, acrescentou o ministro.
Políticos e empresários de Brasília são contrários à intervenção federal. Como o presidente da República, alegam que a suspensão da autonomia do DF representaria um retrocesso. O problema é que não agem a fim de desmontar o quadro de falência institucional desenhado por Lula e por Roberto Gurgel. Pegue-se a bancada de senadores do Distrito Federal. Cristovam Buarque (PDT), que é ex-governador, não abre mão da candidatura à reeleição, um caminho mais fácil e cômodo. Não quer saber de bola dividida. Sempre presente nas discussões de escândalos nacionais, submergiu justamente quando o debate interessa ao eleitorado que lhe garantiu o direito de exercer mandatos.
Já Gim Argello (PTB) trabalha em silêncio. Ou parado. Sumiu do mapa. Finge de morto na esperança de que esqueçam seu passado, e os serviços prestados a Joaquim Roriz (PSC), dando-lhe a oportunidade de, em outubro, vender-se como a solução para o governo. De Adelmir Santana (DEM) não se ouve uma palavra. O escândalo do panetone, ao que parece, assola Roraima. Ou Rondônia. Entre os deputados federais, a situação é a mesma. Prevalecem projetos pessoais. Não há tentativa de construção de uma solução institucional que salve Brasília. É a boa e velha lei de Murici: no aperto, cada um cuida de si.
Mantida a toada, só dois ?agentes? têm condições, em teoria, de convencer o Supremo a rechaçar a intervenção. Um deles é o presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Nívio Geraldo Gonçalves. Ele, no entanto, já disse que não assumirá o comando do Executivo se o governador, o vice e o presidente da Câmara Legislativa, Wilson Lima, forem rifados do posto. Com José Roberto Arruda preso, Paulo Octávio à beira da renúncia e a omissão de senadores e deputados federais, o destino político da capital está hoje nas mãos dos distritais. Cabe à turma dos maços de dinheiro em meias, bolsas e paletós guiar os brasilienses rumo à redenção.
É por essas e outras que não será surpresa se ? num futuro próximo ? as vozes contrárias à intervenção façam romaria em defesa da medida. E com ?o prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos e o banqueiro com um milhão?, como na clássica saga da Geni de Chico Buarque”.

  • Terça-feira, 11 Maio 2010 / 4:02

Governo quer se livrar de Tuma Jr.

Da ‘Folha’:
“A Comissão de Ética Pública da Presidência decidiu investigar a conduta do secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., levando o governo a pressioná-lo a deixar o cargo.
Segundo a Folha apurou, o presidente Lula espera que Tuma Jr. peça ao menos uma licença até que o caso envolvendo seu nome seja esclarecido.
Um auxiliar do presidente disse que a situação do secretário está ficando “difícil” e que o ideal seria ele deixar o governo por conta própria, evitando a saída mais traumática que seria sua demissão. Esse desfecho, segundo a equipe de Lula, será o mais provável caso Tuma Jr. não peça a licença.
Na avaliação de Lula, Tuma Jr. não cometeu crime, “não pegou dinheiro de ninguém”, mas suas conversas com o chinês Li Kwok Kwen, conhecido como Paulo Li, acusado de contrabando, são inadequadas para o cargo que ele ocupa. Além de secretário nacional de Justiça, ele preside o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
O ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, tentou convencer seu subordinado a pedir a licença -o que ontem Tuma Jr. resistia, alegando que “sempre esteve do lado que combate o crime” e que sair do cargo seria o mesmo que admitir culpa.
Barreto e o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, se reuniram por duas vezes com Lula para discutir a situação de Tuma Jr., que ficou de dizer hoje se pede ou não licença.
Nas gravações reveladas pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, o secretário trata com Paulo Li da compra de celular e videogame e até da regularização de chineses que viviam no país.
Naquele momento, o governo avaliou que os motivos expostos não eram suficientes para a saída dele, mas que o surgimento de novos fatos poderia mudar a situação -o que ocorreu na sexta e no sábado.
Primeiro, um relatório da PF o apontou como suspeito de ter usado o cargo para liberar mercadorias de outro contrabandista. Tuma Jr. também teria tentado evitar o flagrante de familiares de uma deputada levando para o exterior dólares acima do que a lei permite.
A Comissão de Ética da Presidência vai dar cinco dias para Tuma Jr. apresentar esclarecimentos e também requisitou à PF e à 3ª Vara de Justiça de São Paulo informações.
Com base nas respostas, a comissão decidirá se abrirá processo disciplinar contra ele -nesse caso, o órgão pode recomendar punição que varia de advertência até a demissão. Tuma Jr. nega qualquer irregularidade”. (SIMONE IGLESIAS, FÁBIO AMATO, LUCAS FERRAZ e VALDO CRUZ)

  • Quinta-feira, 06 Maio 2010 / 3:58

PF liga Tuma Jr. a máfia chinesa

Do repórter Rodrigo Rangel, do ‘Estadão’:
“Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal (PF) durante investigação sobre contrabando ligam o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, apontado como um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo.
A relação de Tuma Júnior com Kwen, conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.
Paulo Li foi preso com mais 13 pessoas, sob acusação de comandar quadrilha especializada no contrabando de telefones celulares falsificados, procedentes da China.
Ao ser preso, Paulo Li telefonou para Tuma Júnior na frente dos agentes federais que cumpriam o mandado. Dias após a prisão, ao saber que seu nome poderia ter aparecido no inquérito, Tuma Júnior ligou para a Superintendência da PF em São Paulo, onde corria a investigação, e pediu para ser ouvido. O depoimento foi tomado num sábado, para evitar exposição. Ele declarou que não sabia de atividades ilegais de Li. O surgimento do nome Tuma Júnior no inquérito seguia em segredo até agora.
O esquema, estimou a PF à época, girava R$ 1,2 milhão por mês. Os aparelhos eram vendidos no comércio paralelo de São Paulo e no Nordeste. Denunciado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de formação de quadrilha e descaminho, Paulo Li seguia preso até ontem.
Além de ocupar um dos postos mais importantes da estrutura do Ministério da Justiça, Tuma Júnior preside, desde o último dia 23 de abril, o Conselho Nacional de Combate à Pirataria.
Foi investigando Paulo Li, a quem a PF se refere nos relatórios como comandante de “uma das maiores organizações criminosas de São Paulo e do Brasil”, que os policiais descobriram seus laços com Tuma Júnior. Entre os telefonemas gravados com autorização judicial, são frequentes as conversas de Li com o secretário nacional de Justiça.
Paulo Li, que de acordo com as investigações também ganhava dinheiro intermediando a emissão de vistos permanentes para chineses em situação ilegal no País, tinha livre trânsito na secretaria. Segundo o inquérito, Li conseguia agilizar processos em tramitação no Departamento de Estrangeiros, órgão subordinado diretamente ao secretário. Os telefonemas também revelam Tuma Júnior como cliente assíduo do esquema: sem hesitar, ele fazia encomendas por telefone de aparelhos celulares, computador e até videogame.
As gravações mostram Li especialmente interessado nos bastidores da aprovação da lei que deu anistia a estrangeiros em situação irregular no País. Assim que a lei foi sancionada, em julho passado, o chinês logo passou a intermediar a aprovação de processos de anistia.
As demandas de Paulo Li eram transmitidas abertamente a Tuma Júnior ? muitas delas, por telefone. Nos contatos, o secretário se mostrava diligente, de acordo com a PF. Num deles, em 1.º de agosto de 2009, ele convida Li para uma conversa em Brasília ou em Ribeirão Preto, onde daria palestra dias depois. “Eu tenho um monte de respostas daqueles negócios. Se você quiser vir…”, disse. Tuma afirmou que a conversa com Li tem de ser “pessoalmente”.
Tuma demonstra ter proximidade com Li, a ponto de convidá-lo para dividir o quarto de hotel caso quisesse encontrá-lo durante seu compromisso oficial em Ribeirão Preto. “Mesmo que você tenha que dormir lá, você dorme comigo no quarto. Não tem problema. E você não paga hospedagem”, afirmou.
Durante busca e apreensão no escritório de Li, os policiais federais apreenderam cartões de visita, com brasão da República e tudo, em que o chinês se apresentava como “assessor especial” da Secretaria Nacional de Justiça, comandada por Tuma Júnior.
Nos contatos com o secretário, Li se mostrava ansioso pela aprovação da anistia. “Está todo mundo esperando a anistia, hein, caramba!”, disse, em 29 de maio. “Eu sei, eu vou ver esta semana”, respondeu Tuma.
Assim que a lei foi aprovada no Congresso, semanas depois, Tuma se encarregou de dar a notícia ao amigo chinês. “Já aprovou, viu?”, anunciou. “Ih, caramba! Coisa boa!”, festejou Li. “Só que mantiveram a data de 1.º de fevereiro”, ressalvou o secretário, referindo-se ao fato de a lei beneficiar imigrantes que ingressaram no Brasil até 1º de fevereiro de 2009.
“Agora vai pro presidente, ele vai marcar uma data pra assinar”, diz Tuma. O chinês pede: “Me avisa, hein”. Tuma não só avisou mas colocou Li, à época já investigado pela PF, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia em que a lei foi sancionada, em 2 de julho.
Li fez questão de guardar a foto com o presidente. O arquivo foi interceptado pela PF na caixa de e-mails do chinês”.
Nomeação política criou desconforto na secretaria

“Nomeado secretário nacional de Justiça como resultado de uma equação política que culminou com a migração de seu pai, o senador Romeu Tuma, do oposicionista DEM para o PTB, integrante da base aliada, o delegado Tuma Júnior criou arestas no ministério.
No início de sua gestão, em 2007, foi acusado de desmantelar por interesses políticos o Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI). Na época, em carta renúncia ao então ministro da Justiça, Tarso Genro, a diretora-geral do órgão, Maria Rosa Guimarães Lola, atacou a politização do DRCI.
Suspeitava-se que Tuma Júnior comandava investigações sensíveis, envolvendo políticos e empresários, para extrair supostos benefícios. O hoje ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto, na ocasião secretário executivo da pasta, defendeu o subordinado.
A Secretaria Nacional de Justiça é um braço operacional do ministério, com atribuições que vão das investigações de contas de brasileiros no exterior, tocadas pelo DRCI, a assuntos relacionados à naturalização de estrangeiros.
Recentemente, Tuma Júnior também foi um dos destinatários do dossiê sobre supostas contas no exterior do senador Marconi Perillo (PSDB-GO). Na ocasião, como revelou o Estado em abril, começou a tramitar no DRCI um processo destinado a mapear existência das contas, que, de acordo com papéis em poder do governo, seriam mantidas em bancos dos Estados Unidos, Suíça e paraísos fiscais do Caribe”.

 

Li mandava e-mail a Tuma Jr. com lista de processos
“O chinês Paulo Li costumava mandar números de processos em tramitação no Ministério da Justiça direto para o e-mail particular do secretário Romeu Tuma Júnior. Suas demandas, indicam os documentos obtidos durante a investigação da Polícia Federal, tinham tratamento especial.
Num dos casos, em e-mail a Tuma Júnior, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério da Justiça, Luciano Pestana Barbosa, festeja após atender a mais um pedido do chinês: “É o caso do Paulinho!! Mais um caso resolvido. É nóisssssss!!!!.”
A demanda havia sido enviada a Pestana pelo próprio Tuma Júnior, seu superior imediato. A sequência de mensagens revela o empenho do diretor. Num e-mail anterior, enviado a Tuma, ele faz um pedido para facilitar a solução do problema na burocracia da pasta: “Será que ele (Paulinho) poderia digitalizar os documentos e encaminhar?”
As encomendas de Tuma a Li também eram frequentes. Num telefonema em 22 de maio, o secretário pergunta: “Sabe onde tem aquela mala marrom? (…) É igual àquela marrom e bege, sabe, que você levou (…) em Brasília. Tem uma que é preto e cinza. Será que tem?”
Li promete conseguir a mala. Dois dias depois, Tuma, em viagem ao exterior, pede para o chinês saber o preço de uma câmera Sony em São Paulo. “Se aí for mais barato, eu não vou comprar.” Ao saber que custa R$ 1.200, autoriza que Li compre.
A relação de Tuma Júnior com Paulo Li levou a PF a propor a abertura de um inquérito específico para investigar indícios de crimes praticados pelo secretário.
Em expedientes internos, os investigadores sugerem haver indícios de advocacia administrativa e prevaricação – o primeiro pelos favores ao chinês e o segundo por não ter adotado providências ao saber das atividades ilegais de Li. O inquérito também investigará indícios de corrupção e tráfico de influência.
Anistia. Os contatos entre os dois indicam, segundo documentos da PF, que o secretário sabia da existência de um mercado ilegal destinado a agenciar processos de anistia de estrangeiros.
Em mensagem datada de 29 de julho, com a anistia já em vigor, Li dá conhecimento ao secretário de um esquema similar ao que, segundo a PF, ele próprio mantinha. “Eles estão cobrando R$ 350 para a realização do agendamento, incluindo taxa e xerox. Os telefonemas revelam que, na comunidade chinesa, Tuma se esforçava para ser reconhecido como responsável pela aprovação da anistia, numa disputa com o deputado William Woo, autor do projeto original”.
Diálogos interceptados

“27 de julho de 2009
20h16min09s
Por telefone, Tuma Jr. dá satisfação a Paulo Li sobre um dos processos de seu interesse. Trata-se de um pedido de legalização de permanência no Brasil, em trâmite no Ministério da Justiça, de um imigrante chinês. Li aproveita para cobrar de Tuma Jr. providências sobre o andamento de outro procedimento. O secretário afirma que transmitirá a demanda a um de seus subordinados, o diretor do Departamento de Estrangeiros do Ministério, Luciano Pestana.
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: você tinha pedido um negócio pro Luciano de “Uang Hualin Chen Ian”.
Paulo Li – Caramba. O que que é isso?
Tuma Jr. – Ah, não sei. Era uma permanência. Já tá publicado já, tá?
Li – Ah, é. Daquele negócio lá (…) Tá bom, tá bom, joia. Que mais?
Tuma Jr. – Publicou dia 16 de julho (…)
Li – Como é que chama o cara? Tuma Jr. – É. Uang Haulin…
(…) Como é que é o nome do Tomas?
Li – Tomas?
Tuma Jr. – É. É Fang “Tche”, é isso?
Li – Fang Ze? Fang Ze é o Tomas. Fang Ze. É.
Tuma Jr. – Como é que fala? Como é que escreve? Fang?
Li – É, verificar quando que ele chegou aqui no Brasil. Publicou no (ininteligível) permanente dele. Quinze anos contando aquele data.
Tuma Jr. – Quinze anos de permanência. Tá. Eu vou ver aqui.
Li – Ah, tá bom, tá bom. Você vai ver negócio pra mim, né? Tá bom, então.
Tuma Jr. – Tô vendo tudo já.
Li – Pelo amor de Deus! Porque…
Tuma Jr. – Eu vou passar pro Luciano. Ele vai ver… Vai esclarecer isso aqui.
Li – Esclarecer… E o, e o… Não, não é só esclarecer, né?
25 de julho de 2009
11h05min26s
Tuma Jr. diz a Li que precisa encontrá-lo. Li diz estar com muitos problemas e que também gostaria de falar com o secretário.
Tuma Jr. – Vamos encontrar à noite pra gente conversar e ver como é que tá as coisas.
Paulo Li – P., precisa conversar, viu? Muito problema, precisa conversar.
Tuma Jr. – Quer ir sete e meia?
Li – Sete e meia, tá bom? (…)
Tuma Jr. – Escuta, aquele telefone do Fran chegou, não?
Li – P. que pariu! Chegou uma que não é aquele lá! Chegou preto.
Tuma Jr. – Igual aquele?
Li – Igual aquele lá, mas preto.
Tuma Jr. – É 1.600 também?
Li – Eu trazer pra você ver.
Tuma Jr. – Traz pra mim (sic) ver.
Li – Chegou, mas ninguém tem no Brasil. Ninguém tem. Só esse aqui.
Tuma Jr. – Se for igual, eu troco e dou o meu pra ele. Fica frio.
Li – É, mas não fica bonito. É preto, né caralho!
Tuma Jr. – Deixa eu te falar: lá na Vinte e… lá na Paulista vende aquele jogo Wii? (…)
Tuma Jr. – Dá pra saber quanto é que é? Eu preciso comprar pra Renata mas na Europa tava caro.
Li – Eu vou, vou dar uma passadinha lá pra ver, tá bom?
Tuma Jr. – Tá bom (…) Daí me fala, aí eu já levo o dinheiro pra você.
Li – Tá bom, Tá bom.
Tuma Jr. – Até já, tchau.

Ministério nega que Tuma Jr. seja alvo da investigação

“Procurada pelo Estado, a assessoria do Ministério da Justiça diz, em nota, que não há investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário Romeu Tuma Júnior, mas sim “trechos de conversas do secretário com um alvo da Polícia Federal”.
“A Assessoria de Comunicação do Ministério da Justiça informa que não há, na Polícia Federal, investigação nem pedido de interceptação telefônica contra o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, mas que trechos de conversas do secretário com um alvo investigado foram captadas pela PF, em inquérito que corre sob sigilo”, limitou-se a dizer o ministério.
Horas antes, depois de contato telefônico informando o teor da reportagem, o Estado havia enviado 15 perguntas destinadas a Tuma Júnior e ao diretor do Departamento de Estrangeiros, Luciano Pestana. O ministério não informou a razão pela qual preferiu não responder às indagações.
Tuma Júnior e Pestana caíram na investigação porque mantinham conversas com pessoas que, como Paulo Li, estavam com telefones grampeados por ordem judicial. Também foram interceptadas conversas de Paulo Guilherme Mello, o Guga, um dos assessores de Tuma Júnior na secretaria”.

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