• Sábado, 21 Agosto 2010 / 7:42

Política e cultura

                                                 Cesar Maia*

       Brizola dizia que governo investir em cultura cria sempre problema, pois, aí, cada cabeça uma sentença: sempre se desagrada mais do que se agrada.
Parece que, em geral, essa tem sido a motivação dos presidentes da República nestas últimas décadas. Às vezes um ministro silencioso, outras vezes um alegre… e tudo vai ficando na mesma: o patrimônio cultural se deteriorando, os museus do mesmo jeito, e episódicos programas, projetos e eventos. As leis de incentivo fiscal têm sido um alívio para os governos: demonstram que gastam e repassam ao setor privado. Ou se empurra para as empresas estatais.
Eventos ocasionais e em dias-calendário de festas religiosas e folclóricas geram um dissenso muito menor. A defesa do patrimônio histórico e cultural se faz com zelo, mas os recursos para recuperar esse mesmo patrimônio são escassos. Há PAC de tudo, só não há de cultura.
As escolas de música vão sendo fechadas país afora, e o apoio se concentra em percussão, como um sinal da relação de cultura com inclusão social. A formação de plateia para concertos, óperas e balés pouco existe e nada cresceu.
Os promotores têm o cadastro praticamente invariável. No Rio, representa mísero 0,1% da população com mais de 14 anos. Os concertos para a juventude ocupam mais de 60% do uso de salas como a Cité de La Musique em Paris ou a Sala de Luxemburgo.
Do outro lado da rua, os discípulos governistas do filósofo marxista Louis Althusser, morto em 1990, pretendem um Estado expandido (“Aparelhos Ideológicos de Estado”) e, entre estes, a cultura, as letras e as belas artes.
Esses querem regulamentar a cultura, quebrar a sua diversidade intrínseca e ditar regras sobre o que deve ou não deve ser feito. E ficam pensando em conselhos e conferências de todos os tipos, na busca de respostas à passividade dos governos com seu ativismo ideológico.
E, no meio da omissão e do ativismo, segue a cultura como uma subárea dos governos federais, cujas ações são muito mais para acalmar e ganhar tempo, sem que nada de substantivo ocorra. O ministério é, às vezes, dado como presente na compensação partidária de composição de governo. Ou tem um efeito simbólico com nomes de destaque, para despertar otimismo na “classe”.
Às vezes nem isso.
Lá se vai a campanha eleitoral em etapa avançada com a entrada da TV, as entrevistas no “JN”, os debates…
E até aqui nenhum dos candidatos reservou um minúsculo minuto do tempo que tem à disposição para falar de sua política cultural. Nem um minuto. “E La Nave Va”.
*Cesar Maia, ex-prefeito do Rio, escreve para a ‘Folha’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:40

A Imprensa do Rio e as eleições

O ex-governador Anthony Garotinho lançou ontem sua candidatura, pelo PR, ao Governo do Rio de Janeiro, em ato realizado na casa de espetáculos Vivo-Rio, ocasião em que fez um discurso com dois pontos que merecem destaque:
1. Um ataque violento ao atual governador Sergio Cabral, não só no aspecto administrativo, mas também no aspecto pessoal. Ele desafiou o atual governador a provar com quem renda ele adquiriu os dois apartamentos que utiliza no Leblon e mais a casa de praia em Mangaratiba.
2. O candidato apresentou um elenco de promessas, como a construção de 100 mil casas populares, e a redução para R$ 2,50 do Bilhete Único, além da ampliação de duas para três horas para a sua utilização.
Garotinho é ex-governador, ao disputar a Presidência da República, em 2002, obteve mais de 20 milhões de votos, e hoje é o segundo colocado em todas as pesquisas feitas para a sucessão de Sergio Cabral. Mesmo que não tivesse todas essas credenciais, o lançamento de sua candidatura, por si só, já  mereceria um espaço mais generoso da imprensa do Rio.
Pois o maior e mais importante jornal da cidade, ?O Globo?, publicou uma notícia de pé de página,  que mereceu apenas 459 palavras, sendo que 159 eram contra o candidato, e outras 87 foram dedicadas ao líder do PT, que explicou a posição do partido quanto a participação de Dilma Rousseff em Estados onde existe mais de um palanque em apoio a seu nome.
Para Garotinho sobraram 213 palavras ? menos da metade da reportagem.
O jornal não pode alegar que não se interessa pelos assuntos políticos do Rio. Na mesma edição, a notícia de que a Assembléia poderá aprovar, essa semana, a criação do 93º município fluminense, ganhou manchete de página e 1.031 palavras, ocupando mais de uma meia página da edição de hoje. Isso é quase cinco vezes mais do que o noticiário sobre o lançamento de Garotinho.
Três vezes mais do que o congresso do PR, é o artigo assinado pelo  líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen, a favor da abertura dos bingos e cassinos. São 213 palavras de Garotinho, contra 616 pró jogatina.
?O Dia? também não ficou atrás: dedicou apenas 217 palavras. Já a notícia de que os comandantes das UPPs receberão uma gratificação mensal no valor de R$ 1 mil, mereceu  287.
Bem ou mal, os jornais de São Paulo deram mais espaço a Garotinho do que os jornais do Rio: a ?Folha? tem 304 palavras, o ?Estadão? 397 e o ?Valor Econômico? que, como o próprio nome diz, dedica-se prioritariamente a outros temas, publicou 539 palavras.
Pelo andar da carruagem, o pobre do (e)leitor do Rio terá de se contentar, mesmo, com o horário gratuito de radio e TV para que possa saber o que pensam os candidatos, quais suas críticas aos adversários e quais seus programas de governo.
Uma ultima curiosidade: com exceção de Moreira Franco – que teve na sua eleição o apoio do chamado ?arco da sociedade? -  desde que foi instituído o voto direto para escolha dos governadores, todos os candidatos apoiados pelo ?Globo? foram derrotados. Contra a opinião do jornal foram vencedores Leonel Brizola (em 1982 e, depois, em 1990), Marcelo Alencar (1994), Anthony Garotinho (1998), Rosinha Garotinho (2002), e o próprio Sergio Cabral (2006).
Será que esse ano será diferente?  
Quem viver verá…

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:39

Três momentos de Gabeira

De Renata Lo Prete, no Painel, da ‘Folha’:
“- Não saio.
De Fernando Gabeira (PV), negando a hipótese de abdicar da candidatura no Rio em virtude das dificuldades de acomodação em sua aliança:
- Quem gostaria que eu desistisse é o governador, que aí poderia sair em viagem e nem fazer campanha”.
                            * * *
De Ilimar Franco, no Panorama Político, de ‘O Globo’:
“O cerco está se fechando em torno do candidato do PV ao governo do Rio. A cúpula nacional do PSDB recebeu um ultimato do DEM: para apoiar Gabeira para governador, ele tem que aceitar a candidatura de Cesar Maia ao Senado. Os tucanos estão convencidos de que não podem abrir mão de um candidato majoritário que pedirá votos para José Serra em favor de um candidato que fará campanha para Marina Silva”.
                           * * *
De Luiz Carlos Azedo, no ‘Correio Braziliense’:
“Desde a eleição de 1989, quando o ex-governador Leonel Brizola apoiou a candidatura de Lula contra Collor de Mello, o Rio de Janeiro tem simpatia pelo ?sapo barbudo?. Não foi à toa que o governador Sérgio Cabral (PMDB) engoliu cobras e lagartos para manter sua aliança com o PT. A ponto de andar de braços dados com o ex-prefeito de Nova Iguaçu Lindberg Faria, seu ex-desafeto, e se agastar com o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), velho aliado de Cabral que vive às turras com o petista e também é candidato ao Senado.
Já a oposição precisa desenterrar uma caveira de burro. Não consegue erguer o seu palanque no Rio de Janeiro. O candidato do PV, Fernando Gabeira, que fez bonito na disputa pela Prefeitura carioca, dá sinais evidentes de que está com um pé fora da disputa. Criou caso com César Maia (DEM), por causa do índice de rejeição do ex-prefeito, mas isso pode ser apenas um pretexto para não correr o risco de ficar sem mandato. Gabeira sabe que é complicado para o PSDB e o PPS excluírem Maia da coalizão.
Refém de Gabeira, os caciques da oposição estudam alternativas caso fiquem sem o candidato a governador. Mas não conseguem encontrar alguém para enfrentar o governador Sérgio Cabral (PMDB) e o ex-governador Anthony Garotinho(PR). A ex-juíza Denise Frossard (PPS), amiga dos Maia, não quer nem ouvir falar do assunto”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:22

Zé Dirceu responde a Virgílio

Do ex-ministro José Dirceu em seu blog:
“O líder do PSDB, senador Artur Virgilio (AM) é conhecido por sua retórica vazia e seus rompantes no Senado. Ninguém dá muita importância à sua verborragia, exceção da Folha de S.Paulo que lhe dá espaço hoje com uma matéria de página interna com a chamada ?Tucano ataca luta de Dilma contra a Ditadura?.
Claro, essa é uma agenda cara à Folha que faz de tudo para caracterizar como ?bandida? a luta contra a ditadura e segregar os democratas que resistiram com armas, mesmo em autodefesa. O jornal esconde que todos nós que pegamos em armas viemos da luta política institucional que foi proibida, reprimida e eliminada.
E que todos – isso mesmo, todos – que lutaram contra a ditadura foram vítimas das torturas e assassinatos, independente da forma de luta em que se engajaram, se apenas política ou militar. O tucano – que já foi comunista como ele mesmo diz no discurso que fez – afirmou que Dilma “não é bandida, mas lutou de maneira errada contra a ditadura militar?.
É uma afirmação sem nenhum sentido histórico. Os tenentes que se levantaram em 22 e 24, na Coluna Prestes, e depois triunfaram na Revolução de 30, erraram em 1922 quando 18 deles enfrentaram de peito aberto a repressão e todos, menos Eduardo Gomes, foram assassinados pelas balas covardes das tropas federais?
Erraram aqueles que levantaram São Paulo em 1924, sob a liderança de Miguel Costa, e depois conformaram a Coluna Prestes? Erraram os Inconfidentes? Erraram os que lutaram contra as ditaduras na República Velha?
Claro que não. Não venceram naquela fase, como também Nelson Mandela não venceu na África do Sul e ficou 27 anos na cadeia. Mas, o próprio Mandela nunca renegou a luta armada. Não faltam exemplos no mundo para refrescar a memória do senador tucano”.

Na nota seguinte, diz Zé Dirceu:

“(Dilma) lutou contra a ditadura. Com as armas, a concepção, as limitações que tinha, e eu também. A análise políica daquele momento nos levou, tanto ela quanto a mim, a uma posição de ultraesquerda. Tanto ela quanto eu e outros agimos como a nossa consciência ditava na época(…) Lutar contra a ditadura da forma mais radical era uma exigência ética e moral”.
Ao invés de ficar com destempero verbal, o líder tucano no Senado, Artur Virgílio (PSDB-AM) deveria era ler – e com muita atenção – o trecho acima, de entrevista ao Estadão de hoje de seu companheiro de partido, o deputado e ex-chefe da Casa Civil de Serra em São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira Filho. Ele fala exatamente sobre a resistência de Dilma Rousseff à ditadura e de um momento que Virgílio claramente não compreende.
Nas acusações que faz contra a candidata do presidente Lula, governo, PT e aliados, Dilma Rousseff, o  senador Artur Virgílio (PSDB-AM) erra quando diz que ela devia ter optado por um partido como o MDB. Ora, ela optou.
Atuou no MDB em Porto Alegre e não só coordenou, junto com outros democratas, a campanha do vereador eleito em 1976, Marcos Klassmann – cassado pela ditadura dois anos depois – como ajudou a fundar o IEPS e, depois, a Associação de Debates do então PTB brizolista.
Dilma ainda se filiou ao PDT depois que a ditadura tirou de Leonel Brizola a legenda do PTB, no final da década de 70 e o general Golbery do Couto e Silva entregou a legenda à deputada Ivete Vargas. Atuou no Movimento Feminino pela Anistia e no Comitê Brasileiro pela Anistia.
Também foi secretária da Fazenda de Alceu Colares na Prefeitura de Porto Alegre e em seu governo no Rio Grande do Sul. Como toda democrata Dilma lutou a luta que era possível. Dilma não faltou à convocação da história. Quando necessário enfrentou a ditadura na tradição rebelde e insurgente de toda as lutas democráticas de nosso povo”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:22

Ode ao bigode, de José Sarney

Do presidente do Senado para a ‘Folha’:
“Sou superticioso e acho que sempre me dei bem com o meu bigode. Não o trato com cuidado. Às vezes o deixo grande, outras, pequeno. Não mantenho coerência em sua tonalidade, que clareia e escurece sem que eu conserve a cor estável. Já foi maior, indo além dos lábios, e outras vezes foi menor e mais cheio.
Ele me acompanha desde os 16 anos, quando, para parecer mais velho, o adotei, abandonando a cara de criança que não achava combinar com meu serviço: contínuo da Polícia Civil do Maranhão, servindo café e distribuindo correspondência.
Começando a trabalhar em jornal, logo me colocaram o apelido de “bigodinho”. “Ê tu do bigodinho, faz a revisão deste texto”. E por aí passei a integrar-me a ele, companheiro da vida inteira.
Uma noite, em São João Del Rey, encontrei o Chico Caruso e lhe disse: “Eu ajudo muito os chargistas”.
E ele replicou: “Em quê?”. “Com meu bigode, que facilita o trabalho de vocês”.
Mas meu bigode teve outras ameaças. O Brizola, num daqueles rompantes de frases cruas, disse uma vez: “Vou raspar o bigode do Sarney”. E Vitorino Freire, meu adversário duro e violento do Maranhão, também, em momento de fúria agressiva, em vez de querer raspar, ameaçou: “Vou arrancar o bigode do Sarney a pinça, fio por fio”. Pediram-me a resposta.
Calmamente, como é do meu feitio, apenas comentei: “Vai doer muito…”.
O certo é que ele resistiu a tudo e a todos.
Não é que agora, eu tranquilo, fui ao médico para retirar uma lesão que encontraram em meu lábio superior, que foi novamente examinada, e o médico relatou os procedimentos a fazer: o primeiro deles, raspar o bigode. Eu quase desmaio.
“Doutor, este bigode já sofreu muita agressão e foi gozado em prosa e verso, o senhor acha que vou raspá-lo? A medicina está tão atrasada que não pode manter um bigode?”.
Quem se deu bem quando colocou bigode foi Caxias. Chegou ao Maranhão coronel, para pacificar a Balaiada, em 1840, sem bigode. Como sempre fez, agiu com a espada firme numa mão e a bandeira da anistia na outra. Concluiu a tarefa, veio a Maioridade e ele viajou ao Rio para a coroação de dom Pedro 2º já com um farto bigode, que deixara crescer no Maranhão. Chegando à Corte, foi eleito deputado e feito Barão de Caxias. A partir daí, foram só vitórias e aumentar o bigodão até chegar a Duque.
Eu, graças a Deus, preservei o meu e apenas fiquei uns dias com dificuldade na articulação da palavra. Melhor assim, porque hoje, com 50 anos de Parlamento, cheguei à conclusão de que ali não é lugar de falar, e sim de ouvir. O Mão Santa já fala por todos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:21

A política pós-Lula

O historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro disse a Diego Viana, do ‘Valor Econômico’, em Paris, que “os cenários políticos que podem emergir das urnas, em outubro, contêm elementos preocupantes, seja quem for o vencedor. Michel Temer, como eventual vice-presidente de Dilma Rousseff, tenderia a comandar um PMDB fortalecido demais, a ponto de comprometer o poder da presidente. Quanto a José Serra, Alencastro entende que o ex-governador de São Paulo, embora tenha “muita experiência” e seja “um grande líder”, tem “um problema sério”, derivado da dificuldade de formular uma proposta que se diferencie de políticas que se mostraram bem-sucedidas no governo Lula. Essa situação pode trazer certo conforto para a candidata do PT, mas está aí outro motivo de inquietação”, pois “não é sadio para país nenhum a ausência de alternância política”.
“Tendo acompanhado de perto a formação dos novos partidos, nos anos 1980, Alencastro conhece a dinâmica interna das principais legendas. No PT, vê o risco de transformação do lulismo no varguismo que o partido combateu em sua origem. Já o PSDB pode ficar circunscrito a São Paulo, enquanto a direita passa por um processo de radicalização semelhante ao dos republicanos nos Estados Unidos.
Exilado em 1968, Alencastro, então estudante da Universidade de Brasília, foi recebido na França pelo economista Celso Furtado e Raul Ryff, secretário de Imprensa do governo João Goulart. Na Europa, completou a graduação, o mestrado e o doutorado, antes de voltar ao Brasil para lecionar na Unicamp.
Titular da cadeira de História do Brasil na Sorbonne desde 2001, o autor de “O Trato dos Viventes” [Companhia das Letras, 2000] conversou com o Valor num café próximo de sua residência parisiense”.

                                                                   * * *

A seguir, trechos da entrevista.

“- A revista “The Economist” fez uma matéria de capa sobre o Brasil, dizendo que o futuro chegou para o país do futuro. O sr. compartilha desse otimismo?
- Até a oposição compartilha desse otimismo. Dentro e fora do país há um consenso favorável sobre a economia brasileira, sobretudo com a entrada da China no mercado mundial, com uma forte demanda por matérias-primas. O lado negativo é que o comércio externo fica parecido com o que era no século XIX. Há um risco nessa divisão internacional do trabalho que vai se criando, em que o Brasil vira exportador de matérias-primas novamente.
- E a perspectiva política?
- O que me assusta é a ideia de ter Michel Temer como vice-presidente. Ele é deputado há décadas e foi presidente da Câmara duas vezes. Controla a máquina do PMDB e o Congresso à perfeição. Vai compor chapa com uma candidata que nunca teve mandato e é novata no PT. O presidencialismo pressupõe um vice discreto, porque ele é eleito de carona, para trazer alianças e palanques. Aos trancos e barrancos, instaurou-se um sistema presidencialista que tem dado certo no Brasil. O fato de haver dois turnos, associado à integração do vice na chapa do presidente, deu estabilidade ao sistema. Foi assim com Fernando Henrique e Marco Maciel. Foi assim com Lula e José de Alencar. Dilma e Temer formam uma combinação inédita: uma candidata até então sem mandato associada a um político cheio de mandatos e dono do PMDB, que é o maior partido do Brasil, mas nunca elegeu um presidente e vai com sede ao pote. O PMDB pode estabelecer um vice-presidencialismo, com um papel de protagonista que seria descabido.
- Dilma é considerada uma administradora eficiente, mas não tem uma carreira política como a de Lula. Isso pode comprometer seu governo?
- Ela assumiu a Casa Civil num momento difícil. O governo e o país estavam em crise e, por muito tempo, não se falou nela, o que é um indício de grande eficácia. Num cargo exposto como esse, não ser notícia é um grande feito. Isso prova que não é ficção sua fama de boa administradora. Mas acho problemático ela não ter a experiência de um mandato eletivo.
- Lula, quando eleito, só tinha passado pela Assembleia Constituinte.
- Mas era o fundador de um importante partido político e um grande líder sindical. O lado conciliador de Lula vem daí, da experiência de conversar no botequim com os companheiros, negociar com o patronato, avaliar relações de força na fábrica e na política. Se ele errasse, dirigindo uma greve furada, a sanção não seria perder um mandato, mas ter no dia seguinte dezenas de trabalhadores no olho da rua. Sem contar as campanhas, as três que perdeu para presidente e uma para governador de São Paulo, em 1982. Dilma foi secretária estadual no Rio Grande do Sul, um Estado muito politizado, mas isso não equivale a um cargo eletivo.
- Serra, o sr. conhece melhor.
- Serra tem muita experiência e é um grande líder. Mas tem um problema sério. Vou formulá-lo de maneira abrupta: e se Serra for um blefe? Explico: ele é apresentado desde 1982, quando foi secretário de Planejamento em São Paulo, como o reformador do Brasil, o homem que vai racionalizar a economia e dar jeito no país. Quando Fernando Henrique ganhou, ele foi ministro do Planejamento, mas ficou fora da política econômica. Como se dizia, Serra era o candidato da Fiesp, da indústria, e Fernando Henrique, da Febraban, dos banqueiros. Serra foi parar na Saúde e até hoje não quer ser associado àquela política econômica, de que era crítico acerbo.
- Já em 2002 ele tentava se apresentar como ruptura.
- As pesquisas mostravam uma rejeição ao candidato indicado por Fernando Henrique. Isso continua. É curioso esse excesso de impopularidade. Chega a ser injusto. Não tem um vereador do PSDB que faça santinho dizendo ser candidato do partido de Fernando Henrique. Pergunto às pessoas, quando vou ao Brasil, o que as incomoda em Fernando Henrique. Fala-se das privatizações: “Vendeu tudo e não se viu o dinheiro”. Ou nos bilhões de dólares queimados na gestão temerária da paridade cambial. Ou coisas mais subjetivas, misteriosas: “O jeito como ele ri”…
- Voltando a Serra, e se ele for um blefe, como o sr. diz?
- O problema dele é esse: com a expectativa em torno de seu nome, ele vai fazer o quê no governo? A própria Fiesp, que mais ela quer, senão seguir com a política de Lula? E os banqueiros, que se entopem de dinheiro? Sem contar os 26 milhões de pessoas que subiram na escala social. Não dá para saber o que Serra vai fazer. Não pode entrar com o discurso de acabar com a corrupção, porque isso não dá muito refresco e depende mais da Justiça, dos tribunais de contas.
- Essa situação parece confortável para Dilma.
- Esse pode ser outro motivo de inquietação. Não é sadio para país nenhum a ausência de alternância política. A transição de Fernando Henrique para Lula foi a primeira alternância que houve no Brasil dentro da legalidade democrática. Era a última hipoteca que pesava sobre a democracia brasileira. Uma democracia não é só ter partido político e eleição. É preciso que a oposição também possa ganhar. Isto posto, no Chile a “Concertación” ficou 20 anos no poder, só perdeu agora. Se o Lula voltar em 2014, e ficar 8 anos, aí vamos ter 20 anos de PT na Presidência. Penso que será mais complicado que o ocorrido no Chile.
- De todo modo, é uma projeção.
- É uma projeção, mas está no horizonte de gente como Aécio Neves, que deve estar inquieto. E não é uma perspectiva nova. Em 2006, a candidatura de Fernando Henrique estava na pauta. Na época, Serra teria dito: “Se for para perder, o candidato sou eu. Se for para ganhar, é Fernando Henrique.” Essa projeção não é irracional. Os dois mandatos de Lula criaram algo novo. O cientista político André Singer mostra [em artigo para a revista "Novos Estudos"] que Lula foi eleito no primeiro mandato pelos operários sindicalizados e pela classe média. No segundo, perdeu uma parte da classe média e ganhou entre trabalhadores não organizados e subempregados, graças aos programas sociais. Isso resultou num novo populismo. Segundo Singer, esse eleitorado é conservador, não quer mudanças, quer que o governo tome conta dele. Acho essa interpretação um pouco estática, porque pressupõe que a ascensão social desse subproletariado não incomoda ninguém, e que a ameaça de perder o que ganhou não o levará a uma politização ativa.
- A classe média também pode gerar instabilidade, ao sentir que perde privilégios?
- Isso já está acontecendo. É o que alimenta a agressividade anti-Lula de certos jornais e revistas, que retratam a perplexidade de uma camada social insegura: os pobres estão satisfeitos e os ricaços também, mas a velha classe média não acha graça nenhuma. Ter doméstica com direito trabalhista, pobres e remediados comprando carro e atrapalhando o trânsito, não ter faculdade pública garantida para os filhos matriculados em escola particular. Tudo isso é resultado da mobilidade social, que provoca incompreensão e ressentimento numa parte da classe média. Daí o furor contra o ProUni, as cotas na universidade, o Bolsa Família. Leio a imprensa brasileira pela internet e às vezes fico pasmo com os comentários dos leitores, a agressividade e o preconceito social explícitos. O discurso de gente como o senador Demóstenes Torres no DEM [contra o sistema de cotas raciais nas universidades públicas] indica uma guinada à direita da direita parecida com a dos republicanos nos Estados Unidos. Lá, esse extremismo empolgou o partido inteiro e pode desestabilizar o país. A falta de perspectiva da oposição cria um vácuo para o radicalismo.
- A oposição está desarticulada?
- Desarticulada e sem discurso político coerente, e isso é ruim para o Brasil. Como ela vai se reorganizar? E vamos extrapolar: se perder São Paulo e o Rio Grande do Sul, acaba como força política nacional. Um desequilíbrio tamanho entre os partidos é problemático. Novamente, o exemplo americano: fico impressionado não só com o radicalismo, mas com a histeria. Obama é chamado de Anticristo… O Brasil pode enveredar por aí. Brasil e Estados Unidos são países conservadores e precisam ter um partido conservador à altura. A desarticulação da direita não é bom sinal. É preciso uma alternativa conservadora que mantenha a insatisfação no jogo eleitoral. Foi isso que o PT fez na esquerda. Ainda no tempo da ditadura, recolheu o sindicalismo apartidário, a franja próxima da luta armada, que tinha sido desmantelada, e a militância cristã, que não tinha onde se expressar eleitoralmente. Isso fez a força do PT.
- Depois de 2003, muitos desses foram embora, como os fundadores do PSOL.
- Foram, mas não saíram do quadro institucional. No México ainda tem gente fazendo política com capuz e arma na mão, como o subcomandante Marcos [porta-voz do comando militar do grupo indígena chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional]. Na Argentina, não houve alternância completa: não conseguiram se livrar do peronismo até hoje. A China é uma ditadura que explora brutalmente sua classe operária. A Índia tem atentados a bomba. A Rússia está envolvida numa guerra colonial na Tchetchênia. O Brasil é o único dos Bric [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China] sem bomba atômica, sem encrencas com os vizinhos e com uma prática democrática bem enraizada.
- A tendência, então, é Serra liderar uma direita radicalizada?
- O problema é que, a princípio, Serra não é o candidato que a direita gostaria de ter. Ele é um democrata com trânsito numa parte da esquerda. Também é meio estatizante, adepto de uma política tarifária protecionista e por aí vai. Não é a mesma direita de Demóstenes Torres, Ronaldo Caiado ou mesmo Geraldo Alckmin. Por quê? Porque Serra teve a experiência da perseguição política, da ditadura, do exílio. Companheiros dele foram mortos, outros torturados. Isso até o aproxima de Dilma: os dois principais candidatos à presidência correram o risco de ser assassinados pela direita mais radical. Serra ainda escapou de Pinochet quando estava no Chile. De Paris, acompanhei com atenção sua volta ao Brasil em 1977, antes da anistia. Eduardo Kugelmas [sociólogo e cientista político, morto em 2006], quando soube que Serra tinha voltado sem ser preso, me disse: “Todo mundo pode voltar agora. Serra é um elefante de piranha. Se ele passou, todo mundo pode voltar”. Hoje, o que torna sua candidatura difícil é não ter um discurso mais abrangente, além do anti-PT, para atrair outros setores.
- A aliança possível para Serra seria talvez a direita radical, com que não se identifica. E sua adversária é uma esquerda que se aproximou das ideias que ele defendia…
- Serra está confrontado a um impasse. Não pode elogiar Fernando Henrique e não pode atacar Lula. Que candidato ele pode ser? Qual é seu terreno? Ele pode ser um blefe nesse sentido. Na campanha, vai ter de prometer continuidade para os programas do PT. Quando Sérgio Guerra disse que o PSDB faria tudo diferente, foi um desastre. Disse que ia mexer no câmbio e nos juros. Falou disparates e levou um cala-boca do partido.
- Isso pode fazer com que a campanha se torne virulenta?
- Na blogosfera, já começou. É terrível, a começar pelo episódio da ficha policial falsa de Dilma. É um sinal do que está por vir. Vai ser um vale-tudo monumental. Embora o impacto disso seja limitado no grande eleitorado, é forte entre os chamados “formadores de opinião”. Sobretudo, cria um clima de tensão e de irresponsabilidade na campanha presidencial.
- A presidente da Associação Nacionais de Jornais, Judith Brito, disse que a fraqueza da oposição leva a imprensa a agir como partido. O que significa a imprensa se comportar como partido político?
- Normalmente, a imprensa defende a Constituição, reformas políticas, ideias. Não há nada errado, por exemplo, em apoiar candidatos. O “New York Times” apoiou Obama, mas tem um trabalho jornalístico sério e equilibrado. Esse é o papel da imprensa, o que é diferente de querer substituir partidos políticos. Fiquei perplexo com o texto de uma coluna regular num grande jornal carioca que continha uma proposta partidária para o PSDB. O papel do jornalista não é redigir programas partidários.
- Aécio Neves fala de um voto antipaulista que poderia prejudicar Serra.
- Aécio vem falando nisso desde 2002. A política nacional sempre foi perturbada pela política paulista. São Paulo não consegue se arrumar internamente por razões objetivas: é o maior Estado industrial, mas também o maior Estado agrário. Tem alta tecnologia, mas grandes favelas. Pesa economicamente do Oiapoque ao Chuí, no Paraguai e na Bolívia. Tudo isso cria rivalidades fortes na esfera estadual e a influência do Estado no país faz com que essa desordem repercuta nacionalmente.
- O PSDB é cada vez mais dependente desse Estado. Ele pode se tornar uma versão moderna dos partidos paulistas de antigamente?
- É uma possibilidade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Tarso Genro já empatou com José Fogaça. Se o PT toma o Rio Grande, sobra pouco para o PSDB fora de São Paulo. Fernando Henrique disse numa entrevista quando percebeu que a eleição de 1994 estava ganha: na Bahia, foi mais ovacionado que Antonio Carlos Magalhães. As pessoas agitavam notas de um real. Qual é o real do Serra? O real da Dilma são o Bolsa-Família, o PAC, o ProUni. Serra vai vender o quê? A grande mudança trazida pela ditadura eram os partidos nacionais, tanto na direita quanto na esquerda. Mas isso está acabando. O último partido nacional é o PT, os outros são fragmentos de costuras locais. Com isso, o que acontece? O desabamento do PFL, hoje DEM, à direita. Um PDMB que virou essa massa informe, que permeia tudo com clientelismo e é o maior partido do país. O PSDB pode se tornar um partido ilhado.
- Como fica o PT nessa configuração?
- Como partido no poder, o PT se aguenta, porque tem financiamento também do patronato, empreiteiras, grupos que antes não o financiavam. O PT tem ainda uma máquina partidária bem operacional, tempo de televisão e, claro, a disciplina partidária. Mal ou bem, eleições para a direção do PT têm atraído dezenas de milhares de militantes. Que outro partido brasileiro tem essa participação? Todo mundo se lembra da “convenção do Massimo”, que reuniu Serra, Aécio, Fernando Henrique e Tasso Jereissati, em fevereiro de 2006, num dos restaurantes mais caros do Brasil, em São Paulo, para discutir a candidatura do PSDB às eleições presidenciais daquele ano.
- O PT sofreu mutações desde que Lula foi eleito.
- O aparelho, que se mexia sozinho, foi decapitado com a derrocada de [Luiz] Gushiken, [Antonio] Palocci e [José] Dirceu. Lula tomou conta e o partido perdeu sua independência. Tarso Genro disse que a candidatura Dilma cresceu no vazio que se criou dentro PT, e tem razão. O próprio Tarso, em 1997, foi pré-candidato contra Lula. Imagine se hoje isso seria possível! Existe um problema de sobrevivência para o PT pós-Lula. O movimento mais forte do Brasil no século XX, o varguismo, esgotou-se quando Lula foi para o segundo turno em 1989, batendo Brizola e puxando o eleitorado trabalhista. O PT também pode se desarticular porque perdeu o debate interno. Em 2005, com o escândalo do mensalão, Raul Pont propôs uma refundação do partido e enfrentou [Ricardo] Berzoini nas eleições internas. Perdeu, depois sumiu. Ninguém mais ouve falar nele, nem se sabe o que ele pensa. A ausência de debate interno pode transformar o PT num partido amorfo, corroído pelo empreguismo e o clientelismo político.
- A política brasileira caminha para a fragmentação?
- O que está acontecendo é a fagocitose das estratégias partidárias nacionais pela política estadual. É um efeito das reeleições nos Estados e nos municípios. Isso também coloca outros problemas. Seria necessário que os tribunais de contas estaduais e municipais fossem mais fortes, mais independentes – como o Tribunal de Contas da União – para escapar ao sobrepeso de um governador ou prefeito que é reeleito. As contas do Maluf, por exemplo, sempre foram aprovadas, e hoje ele está na lista vermelha da Interpol. Isso deveria levar a um questionamento maior no Brasil. Primeiro, nos partidos. Eles têm comissões de ética, mas abrigam eleitos acusados de diversos crimes. Depois, na imprensa, que deveria questionar tribunais de contas que aprovam o exercício de governadores e prefeitos delinquentes. Os editores deveriam pautar repórteres para recuperar os documentos, interrogar os membros desses tribunais. Como pode alguém ser perseguido pela Interpol, podendo ser preso em 181 países por causa disso, mas passar pelas regras da gestão pública brasileira?
- A política externa brasileira tem recebido elogios no exterior, mas críticas pesadas no país. A que o sr. atribuiria essa disparidade?
- Pela primeira vez, desde 1850, quando a marinha de guerra inglesa bloqueava a baía de Guanabara por causa do tráfico negreiro, a diplomacia brasileira entrou na agenda da campanha eleitoral nacional. Acho uma coisa muito boa. Durante a ditadura, política externa era um assunto secundário. Depois, com a internet, os jornais desistiram de ter sucursais e correspondentes no exterior. Ora, a política externa virou um assunto complexo, mas o Brasil não tem especialistas suficientes nos jornais ou nas universidades. A imprensa não segue política internacional de maneira adequada. Exige-se mais conhecimento específico dos jornalistas esportivos que de quem cobre o setor internacional. Há um quarteto de embaixadores aposentados que estão sempre na televisão, batendo em Celso Amorim e Lula. Repetem que a política externa é um desastre. Desastre? Os jornais americanos e europeus discordam. Nunca vi o Brasil com tanto prestígio. É até desproporcionado, dado o peso ínfimo do país no comércio internacional. Ao contrário da Índia e da China, potências atômicas com peso comercial enorme. Em maio, Lula vai ao Irã e está sendo criticado no Brasil. Já a “Economist” diz que é bom, porque abre novos canais de comunicação entre Estados Unidos e Irã. Nos últimos dias, a diplomacia brasileira usou com habilidade as regras da OMC e as manobras políticas para rebater o protecionismo americano na questão do comércio do algodão. Tenho certeza de que esse assunto, que começou em 2002 e ainda não terminou, ficará como um marco na história diplomática”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:45

Cristovam, o xerife e o estadista

O senador Cristovam Buarque, do PDT, deu uma entrevista a repórter Raquel Ulhôa, do ‘Valor Econômico’, a quem admitiu vir a se candidatar ao governo de Brasília, embora preferissse concorrer a reeleição para o Senado: “Eu queria terminar a vida como estadista e o GDF é tarefa para xerife”, comentou.
Eis a entrevista:
- O senhor já decidiu se será candidato a governador?
- Acho que a melhor posição que eu posso exercer na política a serviço do Brasil e do Distrito Federal é no Senado. Tenho mais de cem projetos em andamento, um deles é o mais revolucionário do Brasil: cria a carreira nacional do magistério. Não gostaria vê-los parados. As crises do Senado passaram a idéia de que aqui é casa de mordomia, boa vida. Fica parecendo que estou fugindo da luta por interesse pessoal. Eu continuo olhando para o Senado, mas não posso fazer isso de costas para a população. E, quando a população diz que estou querendo abandonar Brasília, fica difícil.
- O que vai pesar em sua decisão?
- Primeiro, o ex-governador Joaquim Roriz não ser candidato. Se ele não for, não precisam de mim para ganhar eleição. Os candidatos quer representam o passado estão tão enfraquecidos, salvo o Roriz, que qualquer um que a gente apresentar vence. E a renovação virá, que é o que o povo quer. O segundo fato que, se acontecer, me libera para disputar o Senado, é as esquerdas se unirem. Se a gente fizer uma frente com oito, nove partidos, incluindo o PT, vamos ter força suficiente até para bater o Roriz. Acho que ele não vai ser candidato, mas só deve decidir isso lá para junho.
- Essa aliança depende do PT?
- No dia 21, o PT vai escolher um candidato (entre Agnelo Queiroz e Geraldo Magela, que disputarão prévias). Espero que saia unido e no outro dia venha conversar conosco, com sete partidos que estão trabalhando juntos (PDT, PSB, PCdoB, PPS, PV, PRB e PMDB).
- Esses sete apoiariam o candidato do PT?
- Nós vamos discutir isso, mas o PT é o mais forte. Eu, pessoalmente, defendo que seja do PT e unifique as forças de esquerda. Qual é o meu medo? Que o PT escolha o candidato e, para se unificar, se feche contra os outros partidos. Ou seja, forme uma chapa só deles: o que perder as prévias vai indicar o vice ou o candidato ao Senado. Isso nos dividirá. Por que, para ficarmos unidos, nós, desses sete partidos, queremos que os outros três cargos majoritários (vice e dois de senador) sejam dessegrupo. O PT seria apenas cabeça de chapa.
- Por que o senhor acha que Roriz vai acabar não se candidatando?
- Primeiro, porque vai se expor a um bombardeio da Justiça e da mídia. Além disso, seria governador pela quinta vez, em condições muito negativas. Ele é um homem fortíssimo. Erra quem menospreza o Roriz. Mas ele está num partido sem tempo de televisão, sem militância na rua.Terá dificuldade de comprar cabo eleitoral. A Justiça vai estar de olho. O que ele poderia é ter voto de gratidão, de quem recebeu lote no primeiro governo dele, que terminou em 94. Mas acho que essa gratidão não vai pesar tanto, porque os que receberam já estão velhos e os filhos não têm a mesma gratidão.
- Então seu destino em outubro está nas mãos do PT e do ex-governador Roriz?
- Se a esquerda se dividir e Roriz estiver na disputa, eu vou ter que ser candidato, porque pelo menos não vai ficar a marca de que o Roriz ganhou sem eu brigar com ele. Ele pode até ganhar, mas ninguém vai poder me acusar de virar as costas. Essa é minha tragédia hoje. Olhar para o Senado de costas para o povo.
- O PMDB era aliado de Arruda. Com ele nesse grupo dos sete, dá para falar em união das esquerdas?
- A palavra esquerda é realmente muito forte. Na verdade, é a união das forças que desejam a mudança. Você pode dizer que o PMDB era o partido do Roriz até pouco tempo. Mas o PMDB conseguiu tirar o Roriz dele. E essa crise do Arruda, eu trabalho como sendo crise de pessoas, não de partidos. Até o Democratas está se recuperando bem, na medida que tirou Arruda, Paulo Octávio (ex-vice-governador) e deputados envolvidos.
- Esse escândalo que levou Arruda para a cadeia atingiu também a Câmara Legislativa. A política aqui está contaminada?
- Você já comparou nossa Câmara, com toda sua fragilidade – não estou desculpando -, a todas as 5.563 Câmaras de Vereadores do Brasil para saber se a nossa é pior?
- O senhor está tratando-a como Câmara de Vereadores mesmo?
- Assim como trato o governador como prefeito. Governador aqui é um prefeito. Quando fui governador, cheguei a discutir a possibilidade de a polícia ser comandada do Palácio do Planalto. Sabe por que? Por uma questão de estadismo. Um dia, pode haver um governador, comandando a PM, com mais tropa que o exército em Brasília, que queira invadir o palácio. Essas mudanças têm que ser discutidas. Realmente, são duas coisas diferentes: a capital e a cidade. Brasília hoje é muito maior que a capital. Brasília tem uma peculiaridade. Todo mundo que faz política aqui entrou na política recentemente. Eu não conseguiria ser eleito governador na primeira eleição que disputasse em nenhum outro Estado. Brasília ainda é um faroeste. Um lugar a ser desbravado. Em algumas áreas evoluiu, como em medicina e na ciência e tecnologia. Na política, a gente chegou atrasada. Aqui não tinha líderes, até porque os governantes eram nomeados. Eram interventores. Ficamos mais tempo da história sem direito a voto do que com voto. Temos existência pequena.Tivemos apenas quatro governadores e quatro Câmaras Legislativas até aqui. A primeira não foi ruim. Mas o fisiologismo chegou lá também. A política virou questão de marketing, compra.
- O fato de ser a capital estimula a corrupção, o fisiologismo?
- Não. É por ser nova, não ter tradição nem lideranças consolidadas. Aqui não teve um Miguel Arraes, um Leonel Brizola, um Antonio Carlos Magalhães, que levaram décadas para criar suas carreiras. Eu saí de uma reitoria para ser governador. Eu me filiei só em 90. Isso é fruto do fato de a cidade ainda estar sendo desbravada em todas as áreas,inclusive na política.
- O senhor acha que o escândalo atual vai forçar uma mudança, uma ruptura em relação à prática política de Brasília?
- Essa é minha esperança: que Brasília, daqui a quatro anos, seja a cidade com o melhor sistema governamental do ponto de vista ético. Não acredito que seja possível o eleitor repetir erros e que os governantes cometam os erros que Arruda cometeu, mesmo que tenham vocação para cometer esses erros. Por uma questão de sobrevivência. Brasília vai poder construir uma novidade na forma de administrar. Aliás, acho até que na campanha. Espero não ser candidato a governador, mas, se for,penso em algumas inovações. Exemplo: divulgar todas as contribuições imediatamente na internet e não receber contribuição para a campanha acima de R$ 10 mil ou R$ 20 mil. Ao estabelecer um teto por doador você não fica com débito. Quando vier um empresário disputar uma licitação de R$ 500 milhões, não vai poder cobrar nada. Se doou R$ 200 mil já começa a querer cobrar. Coisas como essa podem inovar Brasília.
- Uma intervenção federal não poderia ser uma solução para o momento em que nenhuma instituição é confiável?
- A possibilidade de intervenção está na Constituição. Esse negócio de dizer que é a falência da democracia não é verdade. A intervenção se dá dentro da democracia. Seria falência se fosse o comandante da PM que indicasse o governador ou um empresário rico. Mas não, é a justiça. Mas minha opção é que o governador para esse final de mandato seja eleito pela Câmara Legislativa. Mas, para ter legitimidade, o eleito tem queter cara, cabeça, coração e mão de interventor. Isso é uma das coisas que também me fazem temer ser candidato. Eu queria chegar nessa idade como estadista. O próximo governador vai ser um xerife. A principal prioridade não vai ser a educação. Vai ser a ética. A grande tarefa é construir uma máquina exemplar de governo, em que mesmo ladrão não consiga roubar e nem os desonestos possam ser corruptos. Essa vai ser a obrigação. Por isso não sou entusiasmado em ser candidato a governador.Não é o que eu gostaria de deixar como marca: construir um governo ético. Queria deixar como marca a mudança na sociedade e não na máquina do governo. Repito: não gostaria de terminar a vida como xerife, queria terminar como estadista.
- Sua proposta significa uma intervenção legalizada pela Câmara.
- É isso. E por que essa sutileza? Por que a intervenção não é um abalo na democracia, mas é um abalo na classe política. É o fracasso da política. E o fracasso da política é ruim pedagogicamente. A ideia que  vai passar é que foi preciso a Justiça intervir, porque os líderes daqui não foram capazes de encontrar uma saída. Falo da autonomia de 2 milhões de habitantes. É uma população do porte de outros Estados. A gente vai cortar a autonomia do Acre, de Rondônia? Por que cortar autonomia da população do DF?
- Mas essa Câmara, que tem entre seus deputados pessoas envolvidas no escândalo, tem condições de eleger uma pessoa com o perfil que o senhor defende?
- Essa é uma pergunta que não dá para responder ainda. Ninguém dizia, há duas ou três semanas atrás, que eles iriam aceitar o processo de impeachment do Arruda. E votaram por 17 a 0. E eu acho que vão cassar o Arruda.
- Há quem diga que ele pode apoiar um candidato em outubro. Acredita que ele ainda tenha alguma influência política no GDF?
- Tem. A gente fala muito dos lotes. Mas esquece que, como Brasília é Estado e prefeitura, o número de cargos comissionados é muito grande.Acho que são 35 mil num total de 150 mil servidores, mais ou menos.Aqui o governador se fortalece dando aumento salarial e distribuindo lotes. Um candidato apoiado por ele não teria chance de ganhar, mas teria muitos votos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:36

25 anos de democracia

De Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasileira de Notícias, no ‘Correio Braziliense’:
“A passagem do centenário de nascimento de Tancredo Neves, no último dia 4, chamou a uma reflexão sobre os 25 anos contínuos de democracia que estamos vivendo desde que ele foi eleito, em 15 de janeiro de 1985, e que José Sarney tomou posse em seu lugar, em 15 de março, após a espantosa noite em que o presidente eleito acabou sendo operado na véspera da posse, vindo a morrer em 21 de abril. Tinha 75 anos, exercitara a conciliação como saída para as crises e provara sua coragem política nos momentos cruciais. Com Getúlio até o fim, sustentou a posse do vice João Goulart após a renúncia de Jânio, não votou no primeiro general presidente, deu a mão a JK quando a ditadura cassou seus direitos políticos e o empurrou para o exílio.
Na quarta-feira, o Congresso realizou sessão especial em homenagem a Tancredo e na quinta o governador Aécio Neves, seu neto e herdeiro, inaugurou a cidade administrativa que leva seu nome, um novo conjunto arquitetônico de Niemeyer. As duas solenidades, sobretudo a última, reuniram boa parte dos atores ainda vivos daquela memorável passagem: o fim da ditadura, pelo caminho possível, a eleição indireta do primeiro presidente civil, mas com forte e decisiva participação do povo brasileiro. Lá estava Fafá de Belém, remexendo emoções com a interpretação do Hino Nacional que fazia nos palanques. Cristiane Torloni apresentando o evento como nos comícios das diretas e da campanha de Tancredo. Milton Nascimento cantando ?Coração de estudante? , música-tema daqueles atos memoráveis. Pude chorar, como naquele tempo em que jornalistas podiam ter sentimento cívico.
No discurso de Aécio, a lembrança dos timoneiros que já se foram, como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Richa, Brizola. E também os que, rompendo com o partido oficial e apoiando Tancredo, possibilitaram a vitória. ACM e Aureliano Chaves, entre os que já se foram. Muita gente mais jovem que ali estava, entretanto, não entendeu as simbologias reunidas por Aécio para lembrar não apenas Tancredo, mas a gloriosa travessia que fizemos, após 21 anos de arbítrio, usurpação dos direitos civis, prisões, torturas, desaparecimentos, exílios. Não temos conseguido transmitir às novas gerações o que foi a ditadura, não temos contado como saímos dela e, mais importante, não temos reiterado o quanto tem valido a pena a democracia.
A transição concluiu-se com a Constituinte e dela é o legado que tem permitido os nossos avanços. Exercitamos a cidadania como nunca antes em 500 anos. As políticas sociais que têm afortunadamente reduzido nossa desigualdade têm base na Constituição, que fixou as obrigações do Estado e alargou os direitos sociais. As liberdades foram asseguradas e, apesar de algumas fobias, a liberdade de imprensa e de expressão nunca foi tão plena nestas plagas. Muitas determinações a Constituinte deixou para a regulamentação posterior. O Sistema Público de Comunicação, que inclui a TV Pública, assegurando equilíbrio e complementaridade na exploração do bem coletivo que é espectro eletromagnético, tem previsão no artigo 223, embora alguns tentem caracterizá-lo como arroubo estatista. Na semana que vem teremos o centenário do Dia Internacional da Mulher. Elas foram protagonistas importantes na resistência e na ditadura, mas a democracia é que tem permitido a redução, ainda que incompleta, da histórica desigualdade de gêneros. Dezenas de artigos ainda pedem regulamentação.
Este ano haverá eleições e, apesar das mazelas políticas, muito pior é não poder votar e ser votado. Mais uma vez, votarão também os analfabetos e os jovens com 16 anos completos, num sufrágio admiravelmente amplo. A urna eletrônica nos livrou da fraude na contagem. A identificação digital do eleitor, que o TSE testa este ano em alguns municípios, nos livrará de outro tipo de fraude, o voto com título alheio e até de eleitores mortos. Na política, o que falta é a reforma do sistema, tornando-o mais adequado à disputa democrática e à escolha da representação popular. Mas devemos recordar Tancredo festejando a democracia, seu quarto de século que não há de ser interrompido”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:31

Lula, vítima só se fortalece

  ?O Globo? não se emenda.
Seu oportunismo continua a mil.
O jornal publica, diáriamente, uma página de opinião. Poderiam ser duas, três, mas seus editores acreditam que dois editoriais por dia estão de bom tamanho.  Isso ocorre por falta de assuntos, ou de articulistas, ou para economizar papel, ou para não chatear os leitores ? a razão mais plausível, já que o jornal sabe, e sabe muito bem, que sua liderança no Rio deve-se, única e exclusivamente, a qualidade de seus repórteres e colaboradores. E não de seus editoriais. Há anos, a ?voz do dono? não forma a opinião de absolutamente ninguém, embora isso não seja um fenômeno exclusivo de jornal carioca.
Como ninguém lê seus editoriais, o jornal decidiu editorializar algumas reportagens. E raro o dia em que ele não encontra nada para criticar o Presidente da República. E sempre em meio ao noticiário, o que não é bom para uma publicação que, há 85 anos, luta para conquistar credibilidade.
O interessante é que, apesar de fazerem parte de uma mesma organização, a linha editorial do jornal, nada tem a ver com a da televisão, que é diferente linha adotada na radio.  Mas isso não é assunto para hoje. O fato é que ?O Globo? é atualmente o jornal mais reacionário do país e, por conseqüência, o maior crítico do Presidente,
Ulysses Guimarães tinha uma bela imagem sobre o seu MDB. E Lula poderia se utilizar dela, para ironizar as críticas que recebe do jornal:
- Assim como o PMDB de Ulysses, Lula é igual a pão-de-ló. Quanto mais ele apanha, mais ele cresce.
                                                 * * *
O Presisente esteve ontem em Santiago  – em ?uma visita relâmpago? – para encontrar-se com Michelle Bachelet,  e conhecer suas reais necessidades, depois que parte do Chile foi devastado por um terremoto que matou centenas de pessoas, e feriu outras milhares, além de destruir cidades inteiras no interior do país.
?O Globo? não gostou da viagem de Lula, e decidiu reclamar, na primeira página e, também, num  ?box? na página 26, de sua ausência nas “tragédias domésticas”.
Vejam a reportagem:
?A prontidão com que o presidente Lula se dispôs a se deslocar para o Chile para prestar solidariedade às vítimas do terremoto que atingiu o país no sábado se contrapõe à atitude que adotou em outras catástrofes no Brasil. Em dois acidentes aéreos, por exemplo, que vitimaram cerca de 350 pessoas, o presidente sequer foi ao local para prestar condolências aos familiares.
No caso do voo 1907, da GOL, que em setembro de 2006 caiu após se chocar com um Legacy da Embraer pilotado por dois americanos, Lula divulgou uma nota de pesar. No acidente da TAM, em julho de 2007, o presidente demorou três dias para fazer um pronunciamento na TV, lastimando a tragédia e prestando solidariedade às vítimas. Ele só recebeu uma comissão de familiares em agosto.
Com enchentes, ocorreu o mesmo. Em novembro de 2008, por exemplo, 84 pessoas morreram em Santa Catarina.
As cheias atingiram 14 cidades. O presidente demorou pelo menos uma semana para ir ao estado e sobrevoar as áreas. Isso também ocorreu em maio do ano passado, quando a chuva deixou mais de sete mil famílias desabrigadas em 21 municípios do Piauí e também no Maranhão?.
Vamos lá.
O Presidente Lula foi ao Chile, e prometeu enviar um hospital de campanha, além de quatro equipes de resgates para tentar salvar sobreviventes, muitos ainda embaixo dos escombros. E mais: ajudará na reconstrução do Chile.
                                            * * *
Agora vejam os exemplos do ?Globo?.
Primeiro ele reclama da ausência do Presidente em dois episódios de desastres aéreos, um da Gol e outro da TAM, quando, como se sabe, lamentávelmente, não houve sobreviventes. Mas o  que ?O Globo? queria? Que o Presidente descesse, por uma corda, no meio da selva amazônica para ajudar no regaste dos corpos? O que ele iria fazer lá? E em São Paulo, no desastre da TAM onde os corpos foram carbonizados? Será que o jornal queria que o Presidente participasse do reconhecimento das arcadas dentárias ou ele deveria prometer ajuda a TAM na reconstrução do galpão onde o Airbus caiu?
Há quem possa argumentar que Sarkosy apressou-se a ir ao Aeroporto Charles De Gaulle,  quando soube do desaparecimento do vôo da Air France, que havia saído do Rio, e não pousara em Paris. Mas esse é um caso totalmente diferente.
1 ? Além de ter a sua bandeira, o Airbus era de fabricação francesa. Sarkosy foi ao aeroporto menos pelas vítimas, e mais pela indústria francesa.
2 ? Na hora que Sarkosy foi ao aeroporto, ainda havia a esperança de sobreviventes, já que o avião estava desaparecido e não se tinha noticia da explosão do aparelho.
Lula, ao contrário do que pensa ?O Globo?, não foge de seus cadáveres, embora saiba que, como todo mortal, ele é impotente diante deles. Mas não se furta a homenageá-los e reverenciá-los.
Há dias, ele fez isso com o grupo de soldados e oficiais do Exército mortos no terremoto do Haiti. Antes já havia ido ao velório da Dra. Zilda Arns, em Curitiba. Ao longo de seus dois mandatos, ele compareceu ao velório dos governadores Leonel Brizola e Miguel Arraes, dos deputados Carlos Wilson e João Hermann Filho ? os dois no mesmo dia, um no Recife e o outro em Campinas ? se emocionou, às lagrimas, no de Dona Ruth Cardoso, compareceu a outros protocolares, como o do Papa João Paulo II, e até mesmo de adversários, como foi o caso do Dr. Roberto Marinho, que ainda ganhou luto oficial por três dias.
O que ?Globo? quer mais? Que o Presidente fosse a cada um dos 350 sepultamentos dos que morreram na Gol e na TAM?  Por que deveria comparecer? Porque viajavam de avião? Por que não cobram a presença do Presidente em enterros dos que morrem  em naufrágios em rios da Amazônia, em acidentes de ônibus nas estradas brasileiras  (normalmente ônibus de excursões), ou nos de motoboys atropelados diariamente no país?
Reclamam que o Presidente demorou uma semana para sobrevoar áreas que sofreram enchentes em Santa Catarina. Mas ao que se saiba, no primeiro dia não houve enchente, houve uma chuva forte, assim como no segundo. Os rios foram enchendo e aos poucos transbordando. Lula esteve lá quando as enchentes estavam no seu ápice. Ele não foi nem na cheia, nem quando o problema estava diminuindo.  O mesmo vale para as chuvas do Piauí e do Maranhão.
Lula viajou para o Chile, pois lá existem sobreviventes, e muitos ainda estão debaixo dos escombros. E é preciso encontrá-los e resgatá- los.
Lula viajou para o  Chile, pois o país perdeu quatro mil leitos hospitalares, e eles precisam de um hospital de campanha para que possam continuar salvando vidas. 
Lula viajou para o Chile, pois parte do país precisa ser reconstruído. E ele não poderia reconstruir nem o Boeing da Gol que se espatifou na Amazonia, e muito menos o Airbus da TAM que ardeu em Congonhas. O Presidente não tinha o que fazer em nenhum desses lugares.
É pena que ?O Globo?, jornal editado no Rio de Janeiro, não tenha a mesma disposição para criticar as ausências do governador Sergio Cabral, em muitas das tragédias que assolaram o Estado nesses três anos de seu governo. Mesmo quando o jornal trata de assuntos corriqueiros da cidade, a preocupação de preservar o chefe do Executivo é notória e, na maioria das vezes, desavergonhada. Aqui, Cabral não tem nada a ver, com absolutamente nada. E esse é o único ponto que une ?O Globo? e o Presidente Lula. Os dois estão unidos, de mãos dadas, para preservar Cabral.
No Rio, o que não falta é a ausência do governador do Estado, mas ?O Globo? finge que não vê.
Haverá o dia em que, por puro entusiasmo, ?O Globo? publicará um editorial reclamando, por hipótese,  da ausência de Lula na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde morreram 90 toneladas de peixes, num dos maiores acidentes ecológicos do Rio, enquanto o governador continuará sem ser entrevistado sobre o assunto. Nem sobre esse, nem sobre nenhum outro.
São poucas as vezes que Cabral emite alguma opinião. Mas, nessas horas, ele manda avisar àqueles a quem ele patrocina.
Lula, por sua vez, continuará apanhando pelo o que fez, pelo o que deveria ter feito, pelo o que deixou de fazer, pelo o que pensou em fazer e não fez, pelo o que fizeram por ele em seu nome, ou mesmo sem o seu conhecimento, e por tudo o mais.
E  o pão-de-ló continuará crescendo ? deixando perplexos àqueles que ainda se julgam poderosos, e se imaginam capazes de dominar corações e mentes.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:24

Polícia do Rio admite falência

 

Quando o ‘Extra’ exibiu ontem a bandidagem armada no Jacarezinho, o secretário José Mariano Beltrame se confessou entristecido:
- A imagem fala por si. Aquilo nos entristece. A nossa proposta é ir de encontro àquela situação. Exatamente daquele ponto, não tinha conhecimento, mas o fuzil existe no Rio desde a década de 80. Naquela área e naquele horário, no embrião do cruzamento de duas favelas perigosas, de duas áreas historicamente deflagradas, acredito que aquelo tipo de cena aconteça há anos. E em outros lugares também seja assim.
Então vamos lá:
1 – “A imagem fala por si”, diz ele. É o mesmo que ver o deputado colocando dinheiro na meia, outro rezando pela bolada recebida ou o governador de Brasília recebendo um pacote. Tem razão o secretário: “A imagem fala por si”.
2 – “Aquilo nos estristece”. Se estristesse o secretário, que é pago para combater o crime, imagina qual o sentimento das pessoas que pagam impostos e, consequentemente, o seu salário?
3 – “A nossa proposta é ir de encontro àquela situação”. E por que ainda não foi?
4 – “Exatamente daquele ponto, não tinha conhecimento”. Como não? Não existe investigação, inteligencia  policial?
5 – “O fuzil existe no Rio desde a década de 80″. O secretário quer fazer história. Ele quer dizer que o culpado pela bandidagem no Jacarezinho são os Srs. Leonel Brizola, Moreira Franco, Brizola de novo, Marcelo Alencar e  Anthony Garotinho. E a Sra. Rosinha Matheus, agora Garotinho. Sergio Cabral não tem nada a ver com isso, embora já tenha concluido mais de 75% de seu mandato.
6 – “Naquela área e naquele horário, no embrião do cruzamento de duas favelas perigosas, de duas áreas historicamente deflagradas, acredito que aquele tipo de cena aconteça há anos”. O secretário disse antes que não tinha conhecimento daquele ponto, e agora se contradiz ao afirmar ali são “suas áreas historicamente deflagradas”, além de acreditar que “aquele tipo de cena aconteça há anos”. E por que a polícia não toma providência? Seria porque ali é uma área de pobreza? E os pobres que se danem?
7 – E finalmente: ele acredita que “em outros lugares também seja assim”.
Essa é a falencia confessada.
Hoje pela manhã, o pobre Mariano deve ter acordado mais estristecido ainda com o jornal ‘Extra’, que exibiu na primeira página:
Polícia admite não ter controle no Jacarezinho, secretário fala em UPP

                        TRAFICANTES VIRAM ÍDOLOS PARA
                        CRIANÇAS NA ESQUINA DO  MEDO 

                   Há seis meses PM sabia do desfile de armas
Por email, cidadão denunciou farra do tráfico na Dom Hélder Câmara. Polícia disse que agiria, mas nada fez.

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