• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:29

Câmara limita em 50 anos sigilo de documentos

 De Maria Clara Cabral, da ‘Folha’:
“A Câmara limitou o prazo do sigilo de qualquer documento em poder dos órgãos e entidades públicas a 50 anos. De acordo com projeto aprovado na noite de ontem, que regula o direito de acesso a informações públicas, papéis passam a ter três diferentes classificações: ultrassecreto, secreto e reservado. Para os primeiros, o prazo de sigilo é de 25 anos, renováveis por igual período.
Para os segundos, de 15 anos e os demais de cinco anos. Há controvérsia com relação à abrangência da lei. Para alguns deputados, o prazo do sigilo passa a contar a partir da produção do documento. Ou seja, papeis relativos à Guerra do Paraguai se tornariam públicos com a aprovação da lei. Para outros, o prazo conta a partir da reclassificação.
O Itamaraty deve tentar aumentar o prazo dos documentos ultrassecretos no Senado, para onde segue o texto. Ele teme a divulgação de alguns documentos, como os de negociação para delimitação de fronteiras internacionais. Quando saiu da Casa Civil para o Congresso, no ano passado, a proposta permitia que papéis classificados como ultrassecretos pudessem ser mantidos em sigilo para sempre -por meio da renovação indefinida do prazo máximo inicial de 25 anos. O texto foi alterado pelo relator, deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS).
Segundo José Genoino (PT-SP), presidente da comissão especial que analisou o tema, documentos relacionados aos direitos humanos não poderão ser protegidos. Serão objetos de classificação papéis que envolvam risco à estabilidade econômica e financeira do país, segredo de Justiça, segurança nacional, política externa e desenvolvimento científico.
Pelo texto, uma comissão do governo será responsável pela classificação dos papéis num prazo máximo de dois anos. Se não forem classificados nesse período, os documentos são automaticamente liberados.
O projeto prevê ainda que qualquer pessoa possa solicitar informações a autarquias públicas sem revelar o motivo, e cada órgão terá que fundamentar ainda a razão de não ter revelado os dados”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:28

Mensalão: Lula é testemunha no STF

Do repórter Juliano Basile, do ‘Valor Econômico’:
“O presidente Luiz Inácio lula da Silva reconheceu formalmente junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) que, em encontro com o então presidente do PTB, Roberto Jefferson, foi informado antecipadamente a respeito da existência de um esquema de compra de votos no Congresso, o chamado mensalão. Ele argumentou ter pedido a auxiliares para verificarem a procedência das acusações.
“Pelo que me lembro, ao final de reunião, no primeiro semestre de 2005, e na presença de Aldo Rebelo, Walfrido dos Mares Guia, Arlindo Chinaglia e José Múcio Monteiro, Roberto Jefferson fez menção ao assunto”, disse Lula, por escrito, em ofício com respostas a questões encaminhadas pelo relator do processo no STF, Joaquim Barbosa.
“Então, solicitei ao Aldo Rebelo (na ocasião, ministro das Relações Institucionais) e ao Chinaglia (na época, líder do governo na Câmara) que verificassem se as afirmações procediam”, continuou Lula, que não esclarece se recebeu alguma resposta.
Boa parte das questões foi pedida pelo Ministério Público Federal, que entrou com a ação denunciando o mensalão. Ao todo, o MPF fez 33 perguntas ao presidente, algumas com dois ou três desdobramentos. Outros réus que ocuparam cargos importantes no governo, como o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, e o ex-titular da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, também fizeram perguntas por escrito a Lula, mas principalmente para obter afirmações de apoio do presidente à defesa.
Dirceu fez oito perguntas. Ele perguntou se o governo enfrentava resistência da base aliada na reforma da Previdência. “Desconheço qualquer ilicitude relacionada à votação da reforma da Previdência”, respondeu Lula. “Sua aprovação foi fruto de acordo com 27 governadores de Estado para votação conjunta com a reforma tributária”, completou.
O presidente disse desconhecer qualquer fato que desabone Dirceu, Gushiken e o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), que foi presidente da Câmara no fim do primeiro mandato do governo Lula. “Desconheço qualquer fato desabonador sobre José Dirceu, que lutou pela democratização do Brasil, pagando com o exílio.”
Lula também elogiou outros réus do mensalão. Além de Dirceu e Cunha, ele disse ser amigo de Sílvio Pereira, ex-secretário-geral do PT, Delúbio Soares, que foi tesoureiro do partido, e José Genoíno, que presidia o PT quando estourou o escândalo e hoje é deputado federal (PT-SP). “Posso dizer que tenho relações de amizade com eles, em graus variados, em função das atividades político-partidárias”, afirmou Lula.
Logo em seguida, o presidente se desvinculou das tendências no PT. “Quando a terminologia campo majoritário passou a ser utilizada no PT, eu, na condição de presidente de honra do partido, já não fazia parte da militância interna mais direta.”
No documento enviado ao STF, o presidente disse que não conheceu o publicitário Marcos Valério, um dos 39 réus do processo do mensalão, acusado de ser o operador do esquema de transferência de dinheiro público para o pagamento de parlamentares.
Em outro momento do ofício ao STF, o presidente negou a participação em reuniões com empresas agendadas por Delúbio.
Em suas últimas respostas ao STF, Lula disse não se recordar da maneira como o PTB ingressou na base aliada do governo. O MPF suspeita que o apoio do partido foi comprado com cargos em estatais e repasses em dinheiro para parlamentares petebistas. “O PTB ingressou na base aliada do governo?”, perguntou o MPF. “Não me recordo”, respondeu Lula. “Quem negociou pelo PTB o ingresso do referido partido na base aliada?” “Não sei”, concluiu Lula.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:21

PT e mineiros minimizam Dilma

Das repórteres Maria Clara Cabral e Ana Flor, da ‘Folha’:
“O governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia (PSDB), afirmou ontem que as expressões “Dilmasia” e “Anastadilma”, usadas pela pré-candidata petista Dilma Rousseff durante visita ao Estado anteontem, não encontram “amparo na realidade” e que o pré-candidato José Serra (PSDB) terá “situação eleitoral favorável” entre os mineiros.
Os dois termos se referem a dobradinhas híbridas no segundo maior colégio eleitoral do país unindo as candidaturas de Dilma à Presidência e de Anastasia ao governo estadual, reeditando o fenômeno do voto “Lulécio”, observado em 2006, que abarcou fatia dos eleitorados de Lula e Aécio.
Ontem, a direção do PT e os pré-candidatos petistas ao governo de Minas minimizaram a declaração de Dilma, afirmando que foi uma brincadeira. Em sua primeira visita “institucional” a Brasília como governador, Anastasia afirmou também que “soou estranha” a visita da ex-ministra ao túmulo de Tancredo Neves, avô de Aécio, pela atitude do PT no colégio eleitoral, em 1985.
“Nós lembramos que, naquela oportunidade, o PT não só não apoiou como até expulsou deputados que votaram no presidente Tancredo”, disse. Da tribuna da Câmara, petistas defenderam Dilma. “Acho estranha essa raiva, espécie de ciúme da oposição. Ela visitou o túmulo do Tancredo a convite da família dele”, disse o deputado José Genoino (PT-SP).
Sobre o mal-estar gerado entre os partidos aliados por causa da expressão “Anastadilma”, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse que a petista telefonou para o ex-ministro Hélio Costa (PMDB), pré-candidato ao governo, para dar explicações e que ele entendeu que “tudo não passou de um chiste da [ex-] ministra”. O coordenador da campanha de Dilma foi na mesma linha.
“É blague”, afirmou Fernando Pimentel, que disputa com o ex-ministro Patrus Ananias a chance de concorrer ao governo do Estado pelo PT.
Pimentel, que acompanhou Dilma na entrevista, afirmou que ela não defendeu um apoio direto ao tucano, mas se referiu àqueles que apoiam Anastasia e preferem, em nível nacional, a continuidade do governo Lula -principal bandeira de campanha da ex-chefe da Casa Civil.
Para definir o imbróglio petista em Minas, deve acontecer no dia 25 uma reunião dos delegados do partido no Estado para definir o pré-candidato. Para o presidente do PT-MG, Reginaldo Lopes, o encontro evitará uma “prévia traumática”.
Carta
Sob orientação de Aécio, o PSDB mineiro prepara uma lista de reivindicações a ser entregue ao pré-candidato do partido, José Serra. O documento, denominado “Agenda de Minas”, enumera as obras “estruturantes” no segundo maior colégio eleitoral do país que carecem de recursos da União no quadriênio 2011-14, como investimentos na ampliação do metrô de Belo Horizonte”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:04

Itamaraty quer sigilo por 75 anos

Da repórter Maria Clara Cabral, na ‘Folha’:
“Por pressão do Itamaraty e consentimento tácito da Presidência da República, deputados do governo já falam em aumentar o prazo de sigilo de documentos ultrassecretos para 75 anos. A proposta da Câmara estipula o prazo em 25 anos, renováveis por igual período.
O temor dos diplomatas é ver revelados papéis referentes à Guerra do Paraguai e à negociação para delimitação de fronteiras internacionais. O projeto de lei que regula o direito de acesso a informações públicas está na pauta de votações desde a semana passada, mas não há acordo sobre a redação final.
“Sou favorável a um prazo de sigilo de 75 anos”, afirmou o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), negando haver qualquer tipo de orientação para mudanças.
O deputado José Genoino (PT-SP), no entanto, disse ter se reunido por diversas vezes na semana passada com técnicos do Itamaraty. O petista presidiu a comissão especial que produziu o texto final da futura lei de acesso. Os diplomatas tentaram convencê-lo da necessidade de um prazo maior para o sigilo de certos dados.
Quando saiu da Casa Civil para o Congresso, o texto permitia que papéis classificados como ultrassecretos pudessem ser mantidos em sigilo para sempre -por meio da renovação indefinida do prazo máximo inicial de 25 anos. Genoino e o relator do projeto, deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS), resolveram retirar o dispositivo que permitia renovações sucessivas, mas o Itamaraty reagiu.
Ontem, a expectativa era a de encontrar um deputado disposto a apresentar, a pedido do Itamaraty, uma emenda aumentando o sigilo, ou propor, durante a votação, um recuo para o texto original. Se tudo falhar, a mudança ainda poderá ocorrer no Senado. Procurado, o Itamaraty não se manifestou.
Outro entrave é o trecho que prevê que qualquer pessoa pode solicitar informações a autarquias públicas sem revelar a razão do interesse. O acesso deve ser imediato. Se os dados não estiverem disponíveis, o agente público terá prazo de 20 dias, renováveis por mais 10 dias, para fornecer as informações. Esse prazo, alegam deputados, é menor do que o estipulado para os próprios congressistas -a quem o prazo para a resposta é de 30 dias, renováveis por igual período.
A Unesco enviou ontem uma nota aos deputados pedindo a aprovação do texto. Diz que a lei “será mais um passo dado pela democracia brasileira”. Cerca de 70 países já têm legislação semelhante. Pela atual proposta brasileira, o princípio geral será a publicidade de todos os documentos públicos, com exceções relacionadas a temas específicos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:45

Ciro: “PT paulista é um desastre”

O deputado federal e ex-ministro Ciro Gomes (PSB), 52, deu uma longa entrevista a repórter Malu Delgado, da ‘Folha’. Ela andou de taxi com o presidenciável, pelo Rio, e pôde constatar a sua popularidade. Mesmo tendo apenas 12% das intenções de voto na pesquisa ‘Datafolha’, Ciro diz que continua candidato, mas que age “em sintonia com Lula e com a direção do PSB”.
Para a repórter, Ciro fez uma profecia:”Dilma cometerá algum erro na campanha, pois é a mais vulnerável e inexperiente entre os candidatos”.
Ao final da entrevista, diz Malu Delgado, “com o gravador já desligado e cercado por correligionários do PSB num hotel no Rio, Ciro confessa que se não for candidato à Presidência e nem disputar o governo de São Paulo, deixará a política”.
Eis os principais trechos da entrevista:
- O sr. afirmou na semana passada que São Paulo não precisa do sr. São Paulo precisa de quem?
- Fulanizar a política é algo ridículo no Brasil. São Paulo precisa de um projeto porque a eficiência medíocre do PSDB deu o que tinha que dar. Os indicadores de violência estão crescendo, o transporte está colapsando, a educação de São Paulo é uma das piores do país. Agora, como o PT é um desastre, lá em São Paulo especialmente, eles têm essa eficiência medíocre posta em relevo.
- Por que o sr. considera o PT um desastre em São Paulo?
- Por tudo o que aconteceu. Eu lamento, mas há uma lista toda, a nominata quase inteira com problema. Estou falando do desastre de confiabilidade, de confiança da população a ponto de o próprio PT, na minha opinião corretamente, pretender lançar um candidato jovem lá, para fazer nome. Os principais quadros do partido [o PT], por essa ou aquela outra, justa ou injustamente, entraram num problema. Não é brincadeira não, rapaz. José Dirceu, Genoino, Mercadante, Marta, João Paulo… Não é brinquedo não. Praticamente isso é a lista inteira.
- O PT pretendia lançar o sr. no Estado.
- Eu fico muito honrado, distinguido com isso, mas veja bem: não é tão artificial essa solução não?
- Então se o sr. for candidato ao governo de São Paulo será uma solução artificial? 
- A minha candidatura naturalmente é artificial. Agora, o que eu posso fazer, eu poderia fazer –e tinha que ser sincero e franco com a população de São Paulo –era dizer: eu não faço rotina aqui, mas acumulei uma experiência de grande sucesso na administração pública, e essa experiência eu me disponho a colocar a serviço de São Paulo. Não é minha pretensão. Todo mundo sabe e eu repito que minha intenção é ser candidato à Presidência.
- Mencionando um ditado dito pelo sr., “quem quer pegar galinha não diz xô!”.
- Eu não estou dizendo xô para ninguém. Eu apenas quero ser sincero, porque não posso parecer indeciso –e eu não estou. Nem posso atrapalhar a responsabilidade dos meus companheiros do PT, do PSB, que têm uma candidatura que pretende ser apresentada lá, que é do Paulo Skaf. É tão remota e exótica essa possibilidade que ninguém tem que esperar por mim. Amanhã, se no limite o meu papel for essencial, se não for eu não dá certo, o mundo se acaba, o projeto brasileiro corre risco, e tal, nesta circustância é evidente que eu iria. Mas não creio.
- O sr. trabalha por alianças do Paulo Skaf com o PT, por exemplo? O sr. vê possibilidade de uma chapa Aloizio Mercadante e Skaf?
- Eu não veto, não atrapalho, não opino contra, mas acho que a melhor opção é o PT ter o seu candidato e nós o nosso.
- Circulam avaliações no meio político e uma delas é que o sr. está numa orquestração com o presidente Lula, agindo conforme interesses do Planalto para impedir que José Serra cresça. Seus movimentos são feitos em consonância com o presidente?
- Todos os movimentos que eu faço são em absoluta consonância com a direção do meu partido, o PSB, e com o presidente Lula.
- Interessa ao presidente que o sr. se coloque neste momento candidato à Presidência?
- Se interessa a ele ou não eu não sei, mas até o presente momento tudo o que eu fiz está em absoluta sintonia com ele e com a direção do meu partido.
- O sr. diz que é o único a ter liberdade para fazer críticas ao governo do presidente Lula, sejam políticas ou econômicas. Esse debate sobre o papel do Estado, com viés anti-privatização, é equivocado?
- Não, a questão não é que esteja equivocado. Embora o Serra tenha sido capaz de quebrar patentes no Ministério da Saúde na questão do coquetel anti-aids (…), ele chega em São Paulo privatiza a conta da prefeitura, hospeda num banco privado. E em seguida bota a Nossa Caixa para vender, um dos últimos ativos que São Paulo tem. Em relação à Dilma eu tenho a vivência que ela não tem.
- Mas qual é a sua posição sobre privatização e o papel do Estado?
- Isso tudo é baboseira ideológica. No mundo inteiro a experiência empírica demonstra, inclusive com a crise recente nos EUA, que o Estado não é máximo, nem mínimo, nem grande, nem pequeno. É o necessário. É o seguinte: a lei do menor esforço. Quem faz melhor, mais rápido e mais barato é quem vai fazer. É o Estado fazendo o que for necessário fazer. Às vezes é Estado regulador, às vezes tem que ser empresário. Não quer dizer que temos que cair no estatismo, na ineficiência, abrir mão de mecanismos modernos de privatização, parcerias público-privada, concessões. Não. A economia moderna é mista, mas a responsabilidade pela dinâmica estratégica de um país é do Estado.
- O sr. sempre menciona eventuais problemas de governabilidade do futuro presidente, seja ele quem for, dado que ninguém terá o capital político e altíssima popularidade de Lula, que de certa forma faz com que ele transite bem no Congresso.
- Mais que transitar. Ele suporta, sem perder legitimidade. O que é um fenômeno absolutamente raro. Só ele. Não conheço nenhum outro. Nem Juscelino [Kubitischek]. Se a coalizão for essa, com o protagonismo desta banda do PMDB que manda no país sem dúvida [haverá crise de governabilidade]. O DEM é muito melhor que o PMDB neste instante. Uma questão é um escândalo, no qual todos nós estamos vulneráveis a ter um companheiro que vai entrar numa dessa. Todos nós. Isso é da política. O problema é que no PMDB, não o coletivo, mas a banda hegemônica, faz desta linguagem o seu instrumento central de luta.
- E como se governa o Brasil com a atual condição de representatividade e o atual sistema político?
- É uma ilusão de ótica que a prostração moral do PT está passando para o país. O problema da situação política da Dilma é que ela fica com a boca travada. Ela não pode falar isso para ninguém. Como o Serra também não pode. Eu posso. Eu posso fazer avançar a bancada do PSB, do PC do B, do PDT, pensando em flancos ideológicos. E posso fortalecer entendimentos com o lado decente e republicano do PMDB e o lado que tem espírito público do PSDB, que é imenso (…) Não tenho problema nenhum em fazer alianças. Imagino governar o Brasil assim: eu encerraria a violenta, paroquial e provinciana radicalização que opõe PSDB e PT. Convocarei um entendimento nacional entre os dois partidos, PT e PSDB, e convocaria todos os outros partidos para influir, me poria como magistrado. Essa é a saída para o país avançar e diminuir a importância de setores clientelistas, fisiológicos, atrasados, corruptos (…) Os brucutus reacionários eles dizem: se for o Serra ou a Dilma tá tudo bem. O que o mercado não quer é o Ciro. O que Wall Street não quer é o Ciro.
- Fazendo uma revisão história de 2002, o mercado ainda teme sua candidatura?
- Teme, mas é injusto. Eu não sou uma invenção. Eu já fui ministro da Fazenda. Eu fui muito bom para a economia brasileira pelos resultados. O país cresceu 5,3%, tivemos superávit primário de 5% do PIB, inflação zero. Agora, tive algumas questões. Fiz a intervenção do Banespa e do Banerj. Fiz a abertura comercial que dissolveu vários cartéis. Tudo bem, a vida é dura. Eu não vou vender a minha alma para ser presidente do Brasil.
- O preço que o sr. paga pode ser inclusive ter dificuldades de financiamento da sua campanha, um fantasma que circunda todas as campanhas. Como o sr. financiará a sua?
- Nós precisamos resolver essa equação do dinheiro com a política. Na democracia representativa, dinheiro é uma essencialidade. E a nossa moral vigente, a ética católica dominante, meio que abomina isso. E aí como a realidade se impõe, você vai na clandestinidade, e mistura ladrão e safado com empresários que não aceitam doar para a sua campanha, mas aceitam doar anonimamente para o partido. Eu advogo o financiamento público de campanha. Advogo mais: a estatização das campanhas, que é uma ideia que jamais vai passar. O TSE conseguiria padronizar as campanhas, equalizaria as linguagens. Vou fazer uma caricatura, porque é mais complexo, mas teria um estúdio e tudo mundo só gravaria lá.
- E como o sr. viabilizará sua campanha?
- Vou lá pedir dinheiro. É o momento mais desagradável de todos. Nas minhas campanhas eu sempre me protegi. Eu não tenho uma só pessoa. Eu normalmente faço a lista dos contribuintes prováveis e possíveis, e monto uma equipe. E nunca vai um só, normalmente vão dois, fazer em meu nome. Quem financiou 100% minha campanha de deputado federal foi a indústria siderúrgica brasileira.
- Há forte especulação no meio político em São Paulo em torno da filiação do Paulo Skaf no PSB, de que ele teria entrado no partido para financiar campanhas.
- Isso é uma completa ilusão. Nenhum indivíduo, nenhum, nem o Eike Batista aguenta financiar campanha individualmente. O Skaf está muito longe de ser um Eike Batista. Ele é um pequeno empresário, a rigor.
- O PT teria que tomar um cuidado especial com essa questão do financiamento nesta campanha, pelos escândalos recentes?
- Tem. Todos nós temos, mas o PT mais que ninguém. Um vetor essencial da história do PT é o moralismo. Aí o pecado do pecador a gente perdoa, mas o pecado do pregador é imperdoável.
- Neste contexto não é um equívoco político escolher um tesoureiro, o João Vaccari Netto, que esteja supostamente ligado ao caso Bancoop, ainda que não tenha nenhuma prova ou sentença?
- Eu não estou suficientemente informado do assunto e acho odiento que alguém pague por uma culpa não demonstrada.
- O sr. já sofreu uma oscilação fortíssima nas pesquisas em 2002. Todos os políticos não estão sujeitos a isso?
- Sim, isso eu acho. Acho que a Dilma cometerá um erro, porque nenhum de nós escapou. O Lula cometeu, eu cometi, o Serra, o Alckmin cometeu. Ela cometerá. Tomara que não. E vai oscilar. Ela é um pouco mais vulnerável, claro. Porque na medida em que você erra, você aprende. O Lula aprendeu para caramba, não é verdade? Eu aprendi muito. O Serra erra menos porque é protegido pela grande mídia.
- A sua liberdade para criticar o presidente Lula não pode lhe trazer problemas? Ou traz votos?
- Criticar o Lula tira voto. E eu não critico o Lula, mas não é porque tira votos. Todo mundo sabe que eu tenho imensa afinidade com ele. Agora, eu tenho mais amor, mais paixão, mais compromisso com o Brasil.
- O sr. foi irônico ao chamá-lo de santo, por exemplo.
- Eu não fiz isso. Eu disse que para mim ele não é um santo. Ele é um grande líder político, extraordinário. Sou amigo dele desde 1989. E no governo tivemos uma relação extraordinária. É uma pessoa pela qual tenho imenso carinho, admiração, respeito. E daí?
- Se criticá-lo tira votos, então podemos esperar uma campanha em que todos vão poupar Lula?
- O Serra que é o capitão da oposição, especialista em câmbio, adora bajular exportador, não fala nada. As contas externas do Brasil se acabando e quem fala sou eu. O Banco Central guiado pela estupidez do tal PIB potencial e quem fala é o Delfim Neto. Então agora estão nesta disputa ridícula de inauguração, se pode inaugurar maquete, anunciar edital. Pelo amor de Deus! Ou eu estou ficando muito cego, ou está na hora de sair da política.
- O país está imerso numa cegueira afetado pela alta popularidade de Lula?
- Está numa brutal cegueira, mas não pela popularidade, que é um legítimo prêmio a um governante que tem feito muito bem ao país. O problema é da vulgaridade dos políticos e dos seus dispositivos de mídia.
- A política externa do Brasil está no rumo correto? Pergunto-lhe em função das últimas polêmicas sobre o relacionamento do governo brasileiro com Cuba e Irã.
- Estrategicamente o governo brasileiro está muito correto. Somos contra a intervenção em assuntos domésticos, seja de quem for, somos pela solução pacífica dos conflitos, e advogamos uma ordem mundial multipolar. Tudo o que o Lula faz guarda coerência com esses princípios. Nós consideramos que o embargo norte-americano a Cuba –e não é o governo Lula, eu estou falando –é a causa de todos os abusos que hoje ainda temos que assistir em Cuba. O embargo, essa coisa anacrônica, prepotente, e injusta dos americanos, que inacreditavelmente continua com o governo Obama, justifica a atitude defensiva de Cuba. O país está acossado por um inimigo externo iminente, a maior potência do planeta. Eu acho odiento o crime político. Mas, o embargo dá ao governo de Cuba a faculdade de dizer que aquilo não é crime de opinião, mas sabotagem, espionagem, serviço ao inimigo externo. Essa é a questão que tem que ser posta em perspectiva. De qualquer forma, não é o Brasil que vai resolver isso. O Brasil deu asilo ao [Alfredo] Stroessner, no que acho que fez muito bem. Isso tira da moral dessa gente, da direita truculenta, esse papo. Quando foi que a direita brasileira teve qualquer apego aos direitos humanos? Que dia? Em que circunstância internacional ou internacional? Esse papo furado é só para quem não tem memória. E o Irã: deixa os americanos fazerem uma aventura militar no Irã para você ver o que vai acontecer com o planeta. O Irã não é o Iraque. O Brasil não é a favor que o Irã desenvolva artefato nuclear. O Brasil tem uma posição contra armamento nuclear no mundo. Ele não é ingênuo. Queremos que o mundo se desarme”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

A ‘Isto É’ e o ‘Mensalão’ – 3

AS TESTEMUNHAS DO CAIXA 2 

A ação penal no STF traz depoimentos inéditos de testemunhas que comprovam definitivamente grandes movimentações de ?dinheiro não contabilizado?, expressão usada pelo petista Delúbio Soares para
justificar o Mensalão. Os testemunhos surpreendem, não apenas pelo seu valor jurídico, mas pela naturalidade com que os envolvidos tratam de uma questão criminal como se fosse algo rotineiro. Ex-presidente do Banco Popular do Brasil, Ivan Guimarães confirmou na Justiça Federal em São Paulo, no dia 27
de maio de 2009, que o PT movimentou dinheiro sujo. ?Boa parte da crise era devido a esses empréstimos que não constaram da contabilidade, o caixa 2?, disse Guimarães, dando detalhes dos empréstimos que o PT fez no Rural e no BMG. ?Tomei conhecimento destes empréstimos. Eu não me lembro o valor total, mas era algo superior a 40 milhões (de reais).? Guimarães afirmou ter participado das reuniões que escolheram a agência de Marcos Valério para trabalhar nas campanhas do Banco do Brasil, mas responsabilizou o conselho diretor e o ex-diretor Henrique Pizzolato.
Pelos depoimentos, fica evidente que práticas ilegais eram cotidianas nos escritórios dos partidos políticos. Funcionários das legendas não se constrangem ao se declarar abertamente como laranjas do esquema. Coordenadora da campanha do PP em 2004 no Paraná e secretária do ex-deputado José Janene (PP), Rosa Alice Valente confirmou à Justiça em 2009 que sua conta bancária foi utilizada pelo PP para receber dinheiro do PT nacional. O dinheiro chegava através da corretora Bônus Banval, que lavava o dinheiro do Mensalão. ?O deputado me disse que foi feito um acordo entre o PT e o PP e que o Enivaldo Quadrado (então dono
da Bônus Banval) iria me ligar e daí iria passar na minha conta pra mim (sic) repassar?, disse Rosa. Entre casos já conhecidos e outros só agora descobertos, as confissões surgem de todo lado. Em Alagoas, o deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), revelou na Justiça ter recebido R$ 80 mil ?não contabilizados? do PT. O dinheiro, segundo ele, era liberado por Delúbio Soares. Presidente do PT no Tocantins na época das fraudes, Divino Nogueira revelou que recebeu dinheiro de caixa 2 do PT nacional,
enviado por Delúbio. O ex-deputado baiano Eujácio Simões, que era do extinto PL, afirmou ter recebido R$ 30 mil de caixa 2 do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), um dos principais protagonistas do esquema.

Em alguns relatos, os detalhes são tão ricos quanto as quantias movimentadas irregularmente pelos políticos. É o caso do testemunho do empresário José Carlos Batista, sócio da Garanhuns Empreendimentos, empresa que ficou conhecida na época do Mensalão como lavanderia do Mensalão. Réu no processo, Batista decidiu contar tudo o que sabe para ser beneficiado pelo instrumento da delação premiada. Foi ouvido na condição de informante. Pela primeira vez, disse que era dono da Garanhuns apenas no papel porque, na verdade, era ?laranja? do verdadeiro dono da empresa, Lúcio Funaro, amigo de Costa Neto. Batista esmiúça como entregou pessoalmente, a pedido de Funaro, quase R$ 3 milhões do esquema do PT para o deputado do PL bancar a campanha eleitoral de 2004. O dinheiro foi entregue na sede do PL em São Paulo. Eram recursos repassados a Funaro por Valério com base em um ?contrato fictício? de compras de certificado de
reflorestamento da Garanhuns para a SMP&B. Já se sabia que a Garanhuns fora usada por Valério para esquentar o dinheiro repassado do caixa 2 do PT para o PL. O publicitário sempre negou. Em seu depoimento, Batista não só se define como ?laranja? como cria dificuldade para aqueles que querem contestar a sua versão do fato pela quantidade de informações que forneceu à Justiça. Ele cita modelos de veículos em que o dinheiro foi carregado em ?caixas de papelão?, horários de voos, nomes de intermediários e destinos do dinheiro, como a cidade de Mogi das Cruzes, no interior paulista. São esses detalhes que irão influenciar o ministro relator na hora de confrontar depoimentos contraditórios.

A PALAVRA DOS PRESIDENTES

Não é comum que presidentes ou ex-presidentes da República sejam sabatinados por juízes, mas entre os novos documentos do Mensalão estão depoimentos de Fernando Henrique Cardoso e do vice-presidente José Alencar. FHC foi arrolado como testemunha de defesa do ex-deputado Roberto Jefferson e prestou um longo depoimento. Suas declarações na 2ª Vara Federal Criminal Especializada em Crimes Contra o Sistema Financeiro Nacional e Crimes de Lavagem, em São Paulo, em junho do ano passado, somam dez laudas. ?O deputado Roberto Jefferson é um batalhador?, disse Fernando Henrique. ?Ele é assim, por bem ou por mal ele toma a posição, ele vai em frente.? Fernando Henrique discorreu sobre as diferenças entre seu governo e o do presidente Lula e aproveitou para dar uma estocada no PT. Ele disse que o partido de Lula costuma ?transformar em escândalo qualquer caso, muitas vezes sem ter sido apurado?. E acha que o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (PT-SP) são responsáveis por ?essa postura?. A provocação de FHC acabou sendo assimilada. Há poucas semanas, o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, admitiu: ?O PT nasceu questionando as instituições tradicionais, mas foi adquirindo vícios. Até o
vício da corrupção, que infelizmente entrou em nosso partido.?

Também prestou depoimento no caso do Mensalão o vice-presidente José Alencar. Na época do escândalo, Alencar estava filiado ao PL, o partido do deputado Valdemar Costa Neto. Alencar recebeu da Justiça as perguntas por escrito e se manifestou rapidamente. Afirmou que só soube dos repasses financeiros do PT para o PL quando o ex-deputado Roberto Jefferson fez a denúncia do Mensalão. Disse que durante as negociações para a formação da chapa presidencial eleita em 2002 em nenhum momento participou
de discussões envolvendo o financiamento da campanha e que nunca tratou sobre o assunto com o presidente Lula. O presidente, ao contrário de Alencar que se prontificou a colaborar com as
investigações e em apenas duas semanas respondeu ao questionário, tem se esquivado de falar sobre o Mensalão. No dia 10 de agosto do ano passado, a juíza Pollyanna Kelly Martins Alves, da 12ª Vara da Justiça Federal de Brasília, enviou ofício diretamente ao Palácio do Planalto, informando que Lula está arrolado como testemunha no ?processo do Mensalão?. E redigiu: ?Conto com a compreensão de Vossa Excelência em colaborar com o Poder Judiciário.? A seguir, a juíza pede a Lula que ?indique dia e hora que melhor lhe convier? para comparecer à Justiça, ou ainda que ?manifeste interesse em encaminhar respostas por escrito, se assim lhe aprouver, observando o intervalo entre 14 de setembro de 2009 e 30 de outubro de 2009?. Já se passaram quatro meses do prazo sugerido pela juíza e Lula não se prontificou até agora a enviar as respostas, nem sequer por escrito.

O Mensalão do PT foi o primeiro a ser descoberto, em 2005, e nos últimos cinco anos vem sendo investigado. Depois dele, surgiram o Mensalão Tucano, revelado por ISTOÉ em setembro de 2007, e o
Mensalão do DEM, no final de 2009. Os esquemas são semelhantes e mostram que a prática do caixa 2 e da compra de apoios políticos não é privilégio de um único partido político. Como todos têm seu mensalão, é até possível que se depender dos políticos esses crimes permaneçam impunes. A boa notícia é que o Judiciário tem dado mostras de que esse quadro poderá ganhar novas molduras. No caso do Mensalão do DEM, um governador está preso preventivamente e, se depender do potencial dos novos documentos
em poder do relator Joaquim Barbosa, o STF tem elementos de sobra para não manter a impunidade no caso do Mensalão do PT, ainda que cinco anos depois.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

A ‘Isto É’ e o ‘Mensalão’ – 2

UMA MALA COM R$ 1 MILHÃO

” Os novos documentos do processo no STF mostram que o caixa 2 do PT não foi usado apenas para o pagamento de dívidas de campanha, como sempre sustentaram o ex-tesoureiro do partido, Delúbio
Soares, e toda a cúpula petista na tentativa de qualificar o caso como crime eleitoral, o que possibilitaria a aplicação de penas mais brandas contra eles. Em 9 de julho do ano passado, às 14 horas, em depoimento prestado na 1ª Vara Federal Criminal de Porto Alegre, o contador David Stival, membro da Executiva
Regional do PT no Rio Grande do Sul, contou, que pelo menos uma boa quantia dos ?recursos não contabilizados pelo partido? viajava livremente pelo País até chegar a destinos improváveis. Eles irrigaram, por exemplo, as contas bancárias de fornecedores do Fórum Social Mundial, criado por movimentos de esquerda para fazer frente ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. No depoimento, Stival afirmou ? numa posição inédita entre os dirigentes do partido ? ter usado esse dinheiro suspeito para pagar ?dívidas históricas? do Fórum, organizado pelo PT de Porto Alegre, que costuma ter o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como a estrela maior. O depoimento de Stival é bastante detalhista. Ele diz que, terminada a eleição de 2002, o PT gaúcho estava com uma série de dívidas e que precisou recorrer à direção nacional do partido em busca de recursos. Afirmou que procurou o deputado José Genoino (SP), então presidente do PT, e que foi apresentado ao secretário nacional de Finanças, Delúbio Soares. Uma surpresa esperava Stival no encontro com Delúbio, que prometera lhe repassar R$ 1 milhão”.

?Ele (Delúbio) pediu para buscarmos o dinheiro, mas não nos disse que o dinheiro seria em cash e a gente ficamos (sic) preocupados com isso?, relatou Stival. ?Ele disse que teria que ser assim porque se tratava de um empréstimo feito pela Direção Nacional e que não poderia ser contabilizado. Disse que o empréstimo era do Banco Rural ou do BMG, mas que nós não poderíamos contabilizar aquele dinheiro.? O que seria uma
solução virou então uma fonte de problemas, segundo a versão do dirigente do PT gaúcho, depois que ele desembarcou em Porto Alegre carregando uma mala com R$ 1 milhão. ?Não podíamos pagar as dívidas de campanha com aquele dinheiro. As dívidas estavam todas com notas a pagar, registradas na contabilidade oficial do partido?, afirmou. Ainda diante do juiz, o dirigente regional do PT narrou o que foi feito do dinheiro. ?Acabamos pagando fornecedores de outras dívidas históricas do Fórum Social Mundial, dívidas que não estavam na contabilidade oficial. O dinheiro nem entrou na sede do partido.?
Um dos principais desafios do ministro Joaquim Barbosa em relação ao Mensalão do PT é a identificação da origem dos recursos movimentados irregularmente. Até agora, os principais envolvidos no escândalo diziam que o caixa 2 petista não usava dinheiro público. Os novos depoimentos prestados à Justiça  mostram que o Ministério Público e a Polícia Federal podem ter razão quando afirmam que o ?núcleo empresarial do Mensalão, comandado pelo publicitário Marcos Valério, retirou dinheiro de órgãos administrados pelo PT.?

A FALSA CAMPANHA PUBLICITÁRIA

“Desde o início das investigações, as suspeitas mais fortes nesse sentido levavam à sede do Banco do Brasil, que tinha entre as agências que cuidavam de sua conta publicitária a DNA, de Valério. A CPI dos Correios, que investigou também o Mensalão, chegou a estabelecer um elo entre o BB e o caixa 2 petista,
alegando que o banco pagara por campanhas publicitárias não realizadas para a Visanet, empresa do qual o banco é sócio. Por falta de provas, essa tese acabou não prosperando. Agora, uma testemunha que acompanhou de perto o destino dado na época às verbas publicitárias do BB revela detalhes de como esse esquema de fato funcionou, mas através de outra empresa. Funcionária do Núcleo de Mídia do BB na época do escândalo, a jornalista Danevita Ferreira de Magalhães prestou depoimento à Polícia Federal em 1º de abril de 2008. Nele, descreve um desvio de R$ 60 milhões dessas verbas. Segundo ela, a agência DNA, de
Valério, recebeu o dinheiro do Banco do Brasil para a elaboração e veiculação de uma campanha publicitária BB/Visa Electron. O problema, disse Danevita, é que a campanha jamais foi feita e tampouco veiculada. ?Quando o escândalo explodiu, Marcos Valério mandou queimar as notas frias emitidas contra o Banco do
Brasil?, afirmou a jornalista. No Núcleo de Mídia do Banco do Brasil, durante a gestão do ex-diretor de marketing Henrique Pizzolato, a função de Danevita era exatamente acompanhar a execução dos contratos de publicidade e encaminhar os pagamentos quando as campanhas fossem veiculadas. Ela explicou ao delegado Luís Flávio Zampronha que, no caso do contrato com a DNA, chegou a alertar sobre a não realização dos serviços e acabou sendo afastada de suas funções por causa disso. ?A campanha, no valor aproximado de R$ 60 milhões, de fato nunca foi veiculada?, disse Danevita. ?As notas frias foram feitas
apenas para justificar os pagamentos.? De acordo com Danevita, ?o próprio diretor de mídia da agência DNA Propaganda, Fernando Braga, afirmou que esta campanha do Banco do Brasil/Visa Electron não tinha e nem iria ser veiculada.? Também está entre os novos documentos no processo do STF um laudo do Instituto
Nacional de Criminalística, da PF, de 2009, confirmando que houve outros desvios de dinheiro público nos contratos da DNA com o BB. ?A empresa DNA não repassou aos cofres públicos do BB as bonificações denominadas ?bônus de volume? que recebeu?, diz o laudo. A DNA de Valério recebeu R$ 37,6 milhões a título de bonificações só em contratos com o BB.

AS NOTAS FRIAS DO PTB

A grande força-tarefa de investigação montada em todo o Brasil pelo STF envolveu órgãos de várias esferas, inclusive a Receita Federal. Uma das missões do Fisco foi tentar comprovar a suspeita de que vários partidos políticos envolvidos no esquema fraudavam notas fiscais apresentadas à Justiça Eleitoral. As primeiras provas nesse sentido surgem entre as 69 mil laudas do processo do Mensalão. Em março de 2009, a Procuradoria-Geral da República enviou ao Supremo cópias de representações fiscais da Receita,
entre elas uma de novembro de 2007. O documento mostra notas fiscais fraudadas pelo PTB, justamente o partido do ex-deputado Roberto Jefferson, o histriônico autor das primeiras denúncias da existência do Mensalão (leia quadro na pág. 40). Em seu relatório final, a Receita acrescenta a Jefferson, que foi cassado durante o escândalo do Mensalão, uma nova qualificação: a de responsável pela armação das notas falsas.
Os auditores fiscais comprovaram que o PTB apresentou notas frias para justificar a origem de pelo menos R$ 858 mil. Uma das empresas citadas na representação fiscal é a VideoMaker Produções. José Antônio Sarmento, sócio da empresa, confirmou em depoimento à Receita ter sido procurado pelo advogado do PTB, Itapuã Messias, que lhe apresentou um contrato de prestação de serviços. Mas a VideoMaker, segundo Sarmento, não fechou o negócio com o partido de Jefferson e ?nunca prestou serviços para a referida agremiação política?, diz ele. Notas fiscais da empresa, porém, constavam da prestação de contas do PTB. Outros documentos da Receita mostram que a estratégia das notas frias não é exclusividade do PTB. Várias empresas registradas na escrituração do PP, por exemplo, constam no cadastro da Receita como inativas, omissas ou inaptas. Não poderiam, portanto, ter prestado serviços e emitido documentos fiscais. Um dos
responsáveis citados pela Receita é o deputado distrital Benedito Domingos (PP), também investigado por receber R$ 6 milhões do esquema do Mensalão do DEM, no Distrito Federal. Nos novos documentos encaminhados ao ministro Joaquim Barbosa, a Procuradoria-Geral da República informa ao STF que há também notificações referentes ao PT, ao PMDB e ao extinto PL. Em todos os casos, os partidos foram pilhados usando notas frias em suas prestações de contas.

A VERSÃO DOS EX-MINISTROS

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva alega com frequência que só soube da existência do Mensalão depois que o escândalo se tornou público. O ex-deputado Roberto Jefferson sempre disse o contrário. Assegura que ele próprio informou o presidente sobre a distribuição de dinheiro que o PT vinha fazendo no Congresso. Nos novos depoimentos já em poder do relator Joaquim Barbosa, três ex-ministros de Lula confirmam a versão de Jefferson. Em 12 de março do ano passado, diante do juiz Alexandre Bulk Madrado
Sampaio, da 4ª Vara Criminal da Justiça Federal em Minas Gerais, o ex-ministro do Turismo Walfrido dos Mares Guia afirmou que em março de 2005, em uma reunião da qual participaram o então ministro Aldo Rebelo, da Coordenação Política, e o líder do PTB José Múcio Monteiro, Roberto Jefferson relatou ao presidente Lula que o PT estaria repassando recursos aos parlamentares em troca de apoio aos projetos do governo. ?O presidente ouviu um breve relato feito por Roberto Jefferson, mas não disse nada a respeito?, afirmou Mares Guia. Em seguida, o juiz perguntou se o ex-ministro poderia dizer exatamente o que ouviu naquela reunião e Mares Guia declarou: ?O presidente perguntou a Jefferson como estava o PTB e o deputado respondeu: estou preocupado porque o PTB não consegue os cargos pleiteados e já negociados e tem essa conversa que tem recursos sendo distribuídos a partidos no Congresso.? Mares Guia deixou o governo em 2007, depois que ISTOÉ revelou seu envolvimento com o chamado Mensalão Tucano”.

Versões semelhantes foram apresentadas em 27 de maio do ano passado, quando os ex-ministros Aldo Rebelo e Márcio Thomaz Bastos (Justiça) também depuseram como testemunhas na 2ª Vara Criminal Federal. ?No final de uma audiência com a direção do PTB, quando todos já estavam em pé, o deputado Roberto Jefferson de alguma forma revelou ao presidente que haveria algo parecido com o que depois ele nominou de Mensalão?, afirmou Rebelo à juíza Sílvia Maria Rocha. Ainda em seu depoimento, o ex-ministro
disse que, terminada a reunião com o PTB, Lula lhe pediu para procurar mais informações sobre a denúncia feita por Jefferson. Thomaz Bastos afirmou que não esteve na reunião, mas soube mais tarde que o presidente havia pedido uma investigação sobre os fatos relatados por Jefferson. O pedido, segundo Bastos, não foi feito a ele, que comandava a Polícia Federal. O juiz pergunta ao ex-ministro se a investigação foi formal ou informal e ele responde: ?Acredito que tenha sido formal, porque foi objeto de resposta formal da Casa Civil.?

É provável que os ex-ministros tenham que fazer novos depoimentos para esclarecer contradições com antigos colegas de governo. Na maioria dos documentos, até agora inédita, em poder do STF estão
também os testemunhos da ministra Dilma Rousseff e do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu. O ex-ministro nega que tenha feito qualquer investigação a pedido do presidente Lula e a atual ministra afirmou com todas as letras que na Casa Civil não existem registros sobre suposta investigação. Isso significa que
diante de uma denúncia tão grave o presidente pediu apenas uma investigação informal ou alguém está mentindo, Dilma, Dirceu ou Thomaz Bastos. Como todos, exceto Dirceu ? que é o principal réu no processo do Mensalão ?, prestaram depoimento como testemunhas, aquele que faltou com a verdade poderá ser processado pelo ministro Barbosa.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:19

Ciro dirá não a SP e duvida de Serra

De Tales Faria, do IG:
“O deputado Ciro Gomes (PSB) antecipou ao iG o que pretende dizer amanhã pela manhã aos representantes dos partidos de oposição ao governo de São Paulo, na reunião marcada para definir se ele aceita ou não ser candidato a governador:
?Agradecerei a todos e direi claramente que não quero disputar o governo de São Paulo. Sou candidato a presidente da República e teria muito prazer em montar uma chapa com todos esses partidos para a eleição presidencial.?
Participarão do encontro no Diretório do PSB, em Brasília, além de representantes do PSB e do PT, o PDT, o PCdoB, o PTC, o PRB, o PSC e o PTN. O PPL (Partido Pátria Livre), surgido do MR8 e ainda sem registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o PHS e o PR também negociam a adesão ao grupo, que poderia chegar a 11 partidos, segundo o presidente do diretório paulista do PT, Edinho Silva. ?Significa um respaldo político inédito em São Paulo?, declarou Silva.
Ciro foi abordado pela reportagem quando entrou no plenário da Câmara  e parou para cumprimentar seu amigo, o deputado Humberto Souto (PPS-MG). O deputado mineiro lembrou que o colega do PSB havia declarado que o governador de São Paulo, José Serra, iria desistir de ser candidato. Mas Ciro não recuou.
?Aposto com você que o Serra vai desistir de ser o candidato do PSDB a presidente. Ele está caindo nas pesquisas. Não aguenta. Vai desistir, sim. E o seu governador, Aécio  Neves (MG), voltará a ser candidato?, disse Ciro.
Humberto Souto, então, retrucou: ?Você sabe que o Aécio só será candidato a presidente se você aceitar ser o vice da chapa. Você aceita, Ciro??
O deputado do PSB, que se diz muito amigo de Aécio, parou por alguns segundos, sorriu e saiu rapidamente do plenário. Com a desistência de Ciro, a cúpula nacional do PT passará a pressionar o senador Aloizio Mercadante para ser o candidato do partido ao governo de São Paulo.
?O Mercadante quer ser candidato ao Senado. Mas acho que, se o Ciro não aceitar, ele terá que ir para o sacrifício?, disse o deputado José Genoino (PT-SP).
Para Genoíno, mesmo que Ciro insista nesta reunião em não aceitar a disputa, uma decisão final só deverá ser tomada em março, quando o deputado do PSB tem encontro marcado com o presidente Lula”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:07

Indefinição do PT prejudica Dilma

Do jornal ‘Valor Econômico’:
A sucessão de vitórias dos candidatos presidenciais do PSDB em São Paulo está lastreada no domínio do seu grupo político sobre o governo estadual de quase três décadas. Ocupantes do Palácio do Bandeirantes desde 1982, com a eleição de Franco Montoro, os tucanos, à época ainda no PMDB, só ficaram fora do poder estadual na administração Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), entre 1991-1995.
Além da máquina estadual, os tucanos têm o maior número de prefeituras do Estado, 205, segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. O PMDB, com 69 prefeituras, está alinhado ao PSDB no Estado. Junto ao DEM, que elegeu 75 prefeitos em 2008, os três partidos controlam 54,1% dos 645 municípios.
Com apenas 64 prefeituras, 10% do total, o PT aposta na divisão do PMDB para aumentar sua capilaridade no interior. O declínio do malufismo ajudou o partido a conquistar mais votos no Estado, com a polarização com o PSDB, mas não foi suficiente para que seus candidatos ao governo ampliassem os votos da faixa dos 30%, registrados em 2002 e 2006.
A dificuldade do PT no Estado é histórica. Sem nunca ter eleito um governador, o melhor desempenho do partido foi em 2002, quando José Genoino foi para o segundo turno impulsionado pela candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência . Foi a única eleição em que Lula ganhou no primeiro turno no Estado e a única em que o candidato a governador chegou ao segundo turno.
Apesar de ainda não ter candidato, o PT já traçou a diretriz do discurso para a disputa estadual. Além de mostrar que vitrines do governador do Estado, José Serra (PSDB), têm recursos do governo federal, o partido focará em vulnerabilidades da gestão tucana: reprovação escolar, aumento de latrocínios e enchentes, segundo enumera documento interno do PT “O projeto neoliberal de Serra”. A atuação dos governos estadual e federal na crise econômica mundial será alvo de comparações. O partido dirá que o governo Lula foi mais agressivo na redução de impostos. Outro ponto a ser explorado pelo PT é a evasão de empresas para outros Estados.
O principal problema do PT estadual hoje é a escolha do candidato.À espera do deputado Ciro Gomes (PSB), o partido avalia que a indefinição já atrapalha a campanha da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência. Depois do Carnaval haverá reunião entre petistas e Ciro, mas o PT já trabalha com a candidatura do senador Aloizio Mercadante como “plano B”. Ele terá destaque nas próximas inserções partidárias estaduais, ao lado de Dilma. O senador resiste à ideia e diz pleitear a reeleição. O PT insiste e para convencê-lo ofereceu até a candidatura à Prefeitura de São Paulo, em 2012.
Na impossibilidade de Mercadante, o PT aposta no ministro da Educação, Fernando Haddad, para nacionalizar o debate com a comparação de suas ações no ministério com os tucanos. O presidente do PT paulista, Edinho Silva, esteve na semana passada em Brasília para conversar com o ministro. Setores petistas resistem a Haddad , por considerá-lo com pouco trânsito na máquina partidária.
O PSDB tentará ampliar os votos em redutos petistas, como a periferia das zonas sul e leste da capital. Exemplos dessa estratégia são a entrega de escolas técnicas estaduais nessas áreas pelo secretário estadual de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, e o uso dos Centros Educacionais Unificados (CEUs) também para o ensino profissionalizante. Até o fim do ano, o governo e a prefeitura, governada pelo DEM, pretendem levar cursos técnicos a 21 CEUs, bandeiras da ex-prefeita Marta Suplicy (PT).
Alckmin deve lançar-se à disputa estadual assim que Serra anunciar sua eventual candidatura à Presidência. Além da atuação na capital paulista, Alckmin intensificou viagens ao interior do Estado, onde concentra seu eleitorado e tem boa relação com os prefeitos.
O problema do PSDB em São Paulo está em montar a chapa estadual. O quadro ideal , segundo tucanos, seria o DEM na vice, com Guilherme Afif Domingos, secretário de Serra, e PMDB e PTB nas vagas para o Senado, com o ex-governador Orestes Quércia e o senador Romeu Tuma. Mas as complicações começam com a indicação do vice, pois Alckmin desgastou-se com o DEM quando concorreu à Prefeitura de São Paulo, em 2008, contra o prefeito, Gilberto Kassab (DEM). Afif, aliado de Kassab, resiste, segundo aliados de Serra. Outro problema é em relação às vagas para o Senado: o deputado José Aníbal pretende lançar-se à disputa pelo Senado. A definição só deve se dar em março. (CA e APG)”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:21

Genoíno dispensa aparição no CQC

 O deputado José Genoíno não quis falar com o repórter Oscar Filho, do programa CQC, da Band, após assistir, em São Bernardo do Campo, a pré-estréia do filme ?Lula ? o Filho do Brasil?. Genoíno teria afastado o repórter com uma cotovelada.
Ele deu uma entrevista a Monica Bergamo, da ?Folha?, explicando a sua posição:
 - O que aconteceu?
 - Eu não dou entrevista pra programa que faz da política humor, desgraça e perseguição às pessoas.
 - O senhor falou que eles foram violentos.
 - É, violência no sentido de atacar as pessoas, de fazer chacota. Eles querem ganhar audiência ridicularizando as pessoas. Isso é um desserviço, eu não me presto a isso. É um direito meu. A liberdade de expressão é pra falar ou não falar. E, como eles insistem, é uma violência. Mas eu respeito eles, eles têm liberdade pra fazer o que quiserem na Câmara.
- O senhor deu uma cotovelada, um empurrão no repórter.
- Não, não dei empurrão nenhum. Não teve nada. Eu só disse: “Vocês estão praticando uma violência”. Violência não é só física, violência também é psicológica, né?
 - Acontece com frequência?
 - Toda semana. Eles me procuram. Eu digo que não quero falar, e eles ficam insistindo. Eu não quero falar com eles, é uma decisão que tomei. Vários deputados que falaram comigo hoje em Brasília disseram: “Você agiu certo”. Porque todos os deputados se sentem… É constrangido, é perseguido, é piada, é chacota… É um absurdo. O cara não quer falar, aí eles botam a tua imagem, botam uma caricatura.
 - Colocaram alguma caricatura ligada ao senhor?
 - Eu não sei. Eu não vejo aquele programa. Não gosto, não vejo, não quero aparecer. Fazer audiência da desgraça, feito urubu, não dá, né? Eu tava lá no filme [sobre Lula] conversando com os amigos, aí os caras botam o microfone. Se você quer fazer uma entrevista, você fala: “Ô, deputado, quando você terminar a conversa aí, vamos bater um papo”. Eu não quero briga. Não quero intriga. Eu só quero preservar o meu direito de não falar com eles.

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