• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:59

Maria Buarque, Memélia

O jornalista Cláudio Renato publicou, em seu blog Passavante, certamente o melhor de Maria Amélia Buarque de Holanda, morta hoje, aos 100 anos.
Aqui vocês verão um resumo do que foi postado nos dias 13, 19 e 26 de novembro, apenas com o tempo verbal no passado.Mas vale a pena dar uma lida no seu site, para quem quiser saber mais sobre Memélia.
Peço desculpas ao autor, se não estiver assinalado os principais pontos de seus post – todos baseados em apurações feitas para a reportagem ‘A construção do clã” (no Caderno ‘Fim de Semana’, da Gazeta Mercantil, em 2000), “Dossiê Sérgio Buarque de Hollanda” (na Revista Bravo, em 2002) e “Os 60 anos de Chico Buarque” (para os telejornais da TV Globo, em 2004).
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“O segredo estava guardado, delicadamente, no sétimo andar do Edifício Alcazar, construído na década de 1930, na pequenina rua Almirante Gonçalves 4, em Copacabana, ao lado do botequim Bip Bip. Maria Amélia Cesário Alvim Buarque de Hollanda completara 100 anos em 25 de janeiro. Ela garantiu, com temperamento estoico e simplicidade franciscana, a união e a prosperidade intelectual da família Buarque de Hollanda (…)
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Austera e sensível, Maria Amélia trabalhou à moda antiga para perpetuar a família. Ajudou nas pesquisas e datilografou os originais do clássico ‘Raízes do Brasil’ (1936). Viajava de trem com os filhos, na ponte ferroviária Rio-São Paulo, ensinava-lhes a cantar sambas, frequentava com eles o Maracanã e até participava de coros em gravações. Para quem não sabe, a voz de Maria Amélia está ao fundo de ‘O Meu Guri’, no registro de Cristina Buarque, anterior ao disco Almanaque, de Chico Buarque (1981). Raras vezes precisou pôr os pés fora de casa para receber o carinho incondicional dos sete filhos, 14 netos, 13 bisnetos, intelectuais, compositores, poetas e políticos.
Em comum com a musa do saudoso amigo Mario Lago, a Amélia em questão desdenhava luxo e riqueza. Era um ser alegremente monástico em” cujo templo se aceitam, eventualmente, uma cachacinha, um chope, e manifestações entusiasmadas a favor da Mangueira e do Fluminense.
Era aconselhável, no entanto, que não a chamasse de viúva do historiador e crítico literário Sérgio Buarque de Hollanda (1902-1982). Seria gafe imperdoável. O telefone emudecia, a conversa murchava, ela ficava uma fera.
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Quando fazia reservas em restaurantes, a mãe de Chico Buarque era lacônica. Pedia “uma mesa para a dona Maria” ou, no máximo, “para dona Maria Buarque”. Gostava mesmo era do apelido Memélia, inventado pela neta Bebel Gilberto, filha da primogênita Heloísa Maria, a Miúcha, com o cantor e compositor João Gilberto.(…)
Foi Bebel, xodó da casa, quem também criou o apelido familiar de Sérgio: Papioto, corruptela de “papai outro”, como ele preferia ser chamado por todos os netos.
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O Partido dos Trabalhadores era a paixão política de Maria Amélia.(…) Sérgio Buarque de Hollanda assinou a ficha número 2 do PT em 1980. A número 1 é do crítico de arte pernambucano Mário Pedrosa (1900-1981). “Minha mãe sempre acompanhou o velho, mas não é muito entusiasmada com o PT do Rio”, dizia Chico Buarque. “Meu marido atendeu a um convite do Mário Pedrosa e foi ao Colégio Sion para fundar o PT”, lembra Maria Amélia. Para eleições proporcionais, sempre votou em amigos como Chico Alencar ou Eliomar Coelho. Quando o partido do coração fazia algo que não concordava, como, por exemplo, rejeitar a candidatura de Vladimir Palmeira, ela votava em Leonel Brizola.
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Maria Amélia foi a primeira pessoa a contribuir com a campanha presidencial de Lula em 1989, com um cheque da pensão de viúva a que tem direito. Quem nos contou a história, em 2002, foi o próprio Lula. Ele disse que, no aniversário de 90 anos de Maria Amélia, tentou, com o escritor Frei Betto e o crítico literário Antônio Candido, fazer-lhe uma surpresa. Ela preferiu jantar com os filhos no Jardim Botânico, no Rio. “Um metalúrgico de São Bernardo filiar-se ao PT é quase obrigação, mas uma pessoa como dona Maria Amélia só faz isso por solidariedade.”, dizia Lula. O ex-petista Chico Alencar, de 60 anos, amigo de Maria Amélia e atualmente deputado federal pelo PSOL, testemunha tamanha boa vontade. “Memélia, ativíssima, comparecia à sala alugada pelo PT no Rio para conversar com eleitores e envelopar cartas.”
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Mulher altiva, que recusava ajuda até para carregar pacotes de compra em supermercados, Maria Amélia jamais abandanou a fé religiosa, nem mesmo pelo marido, irreverente e ateu. Miúcha, aliás, adora falar sobre a união aparentemente improvável de Memélia e Papioto. “Papai era um intelectual boêmio; e mamãe, católica, de uma família mineira tradicional de Ubá.” Eles se conheceram no carnaval de 1934, embalados pelos sambas e marchinhas de Noel Rosa e Braguinha, em frente à sede do Jockey Club do Rio. Foram apresentados por Afonso Arinos de Mello Franco, primo-irmão de Maria Amélia e amigo de Sérgio. Para Miúcha, “não fosse a admiração e a organização de minha mãe, papai não teria escrito ‘Raízes do Brasil’.” A própria Memélia confirma que, “para bancar a noiva boazinha, datilografava o que Sérgio escrevia à mão.”
A casa de 600 metros quadrados na Rua Buri, construída em 1929, foi a primeira que a família conseguiu comprar (a prestações). Sérgio e Maria Amélia recebiam nela os amigos Vinícius de Moraes, Antônio Candido, Caio Prado Jr, Manuel Bandeira, Prudente de Moraes Neto, Carybé, Jorge Amado, Paulo Vanzolini, Florestan Fernandes, Clóvis Graciano, Dorival Caymmi, Fernando Sabino e tantos outros que aportavam em São Paulo.(…)
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O casarão dos Buarques de Hollanda em São Paulo foi de festa na era de ouro, mas, também, de resistência, nos anos de chumbo. Nos períodos negros da ditadura, a casa da rua Buri se transformava em “aparelho.” Sérgio pedira aposentadoria da universidade, a USP, em solidaridade a Florestan Fernandes e outros professores afastados. O telefone da família foi grampeado. Maria Amélia conhecia as senhas. “Fulano no hospital” significava prisão de alguém. Nos confrontos de estudantes com a polícia na rua Maria Antônia, em São Paulo, levava comida para a meninada. E ajudava os proscritos, como o deputado cassado Márcio Moreira Alves, cujo discurso anódino contra os militares fora, em 1968, o pretexto para a decretação do AI-5, que restringiria todas as liberdades constitucionais dos cidadãos brasileiros. Maria Amélia é uma católica esclarecida, que frequentava a igreja São Paulo Apóstolo, em Copacabana, bairro carioca onde morava. A simpatia contagiava a vizinhança. Alfredo Jacinto Mello, o Alfredinho, de 66 anos, proprietário do botequim Bip Bip, era fã de carteirinha. “Memélia é a mãe e a avó que todos gostaríamos de ter: uma ativista da esquerda católica que jamais se entrega à depressão”, conta Alfredo, que frequenta a mesma igreja da mãe de Chico. Além do Bip Bip, Maria Amélia, sempre que pode, faz uma propaganda subliminar do Carioca da Gema, uma das principais casas de espetáculo da Lapa, no centro do Rio, administrada por um dos sobrinhos, Carlos Thiago Cesário Alvim. Filha do desembargador mineiro Francisco de Cesário Alvim e da paulista Maria do Carmo da Costa Carvalho, Maria Amélia nasceu em 25 de janeiro de 1910 – no mesmo ano de Noel Rosa, da passagem do cometa Harley e da Revolta da Chibata, na qual marinheiros se amotinaram contra a semiescravidão imposta pelos oficiais da Armada aos subalternos e quase bombardearam toda a cidade. Ela veio à luz no elegante bairro do Cosme Velho, no Rio. Era a mais velha de dez irmãos. O avô paterno, José de Cesário Alvim, foi o primeiro presidente de Minas Gerais e o materno, Álvaro de Carvalho, senador e ministro. Quando Memélia tinha 6 anos, a família mudou-se para Copacabana. A menina estudou no Sacré Couer de Marie. Depois, fez curso de enfermagem. Aprendeu a falar francês, italiano e inglês. Para a educação dos filhos, exigiu colégios excelentes: o Des Oiseaux, o Santa Cruz e o Caetano de Campos.      Socialista de corpo e alma, Maria Amélia procurava distribuir o afeto equitativamente por cada filho, neto, bisneto ou amigo. “Sucesso é palavra de consumo externo e o importante é o amor que sentimos por cada um deles, não que saiam ou deixem de sair na imprensa. Até porque o amor de verdade dificilmente é publicado nas páginas dos jornais.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:45

João Gilberto, três novas canções

Enfim uma boa notícia.
Do repórter Sergio Torres, da ‘Folha’:
“O recluso João Gilberto, 78, começa a gravar ainda neste mês três canções para “O Gerente”, filme de Paulo César Saraceni recém-finalizado. Serão novas interpretações para “Louco” (Wilson Batista/Henrique de Almeida) e “Insensatez” (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) e um tema inédito, de autoria do cantor, um compositor bem eventual.
Essa música já começou a ser esboçada pelo artista no apartamento em que vive no Leblon, na zona sul carioca. A canção será instrumental, possivelmente cantarolada. Apenas ele e o violão, como nos registros de algumas de suas poucas músicas autorais.
São ao menos 12 as canções compostas por João Gilberto gravadas ao longo de uma carreira que já dura 61 anos. Ele começou em 1949, na Rádio Sociedade da Bahia. Baiano de Juazeiro, na margem direita do rio São Francisco, veio trabalhar no Rio no ano seguinte.
João e Saraceni, 76, são amigos desde os anos 80, quando o cineasta filmou, em parceria com Leon Hirszman (1937-1987), o documentário “Bahia de Todos os Sambas”.
Realizadas em 1983 em Roma, as filmagens mostram espetáculos ao ar livre em que se apresentaram artistas da Bahia. Estiveram lá João Gilberto, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Tom Zé, Moraes Moreira e Gilberto Gil, entre outros. O material filmado gerou o documentário, lançado em 1996, em VHS e, depois, em DVD. Já foi exibido pelo Canal Brasil na TV paga, mas é artigo raro. No filme, João Gilberto canta quatro músicas: “Estate” (Martino/ Brighetti), “Wave” (Tom Jobim), “Insensatez” e “Louco”.
O reencontro de João e Saraceni aconteceu no ano passado. Mesmo cético, o cineasta telefonou para o cantor e pediu autorização para usar as gravações romanas de “Insensatez” e “Louco” em “O Gerente”. Essas interpretações jamais constaram de CDs.
“Eu queria muito o “Louco” na interpretação do João. Combina bem com o filme”, disse Saraceni à Folha.
Na conversa telefônica, João surpreendeu, ao propor que fossem feitas novas gravações, em estúdio, sem as imperfeições do ao vivo e da orquestra que o acompanhava no concerto das termas de Caracalla.
A surpresa foi ainda maior quando João disse que faria uma música nova para o filme. Saraceni não esperava -e está esperando até hoje, porque o filme ficou pronto, falta apenas a inserção das três canções.
Para que João as grave, Cláudia Faissol, mãe de Luísa, filha caçula de João, monta um estúdio em seu apartamento na zona sul, com alguns equipamentos trazidos dos EUA. Segundo ela, ainda neste mês as gravações serão iniciadas.
“João teve simpatia pela ideia [de gravar para o filme]. E também quer gravar outras coisas para ele. Até junho estará tudo pronto”, previu Cláudia, diretora de um documentário sobre João Gilberto, “Bossa Brasil”, ainda inédito.
A admiração de João Gilberto pelo poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) pode ter contribuído para que ele decidisse participar do projeto de Saraceni. “O Gerente” é baseado em um conto do poeta. Foi o primeiro roteiro de Saraceni, pronto desde 1952 -logo, inédito por 58 anos.
Em “Chega de Saudade, a História e as Histórias da Bossa Nova” (editora Companhia das Letras), o autor Ruy Castro narra o episódio em que João, ainda um desconhecido, ao avistar Drummond no centro do Rio, abordou-o, chamou-o de mestre e pediu um autógrafo, firmado em um envelope pardo, perdido tempos depois.
Para o elenco do longa-metragem Saraceni chamou artistas com quem já trabalhara, como sua mulher, Anna Maria Nascimento e Silva, e Ney Latorroca (em “Anchieta, José do Brasil”, de 1978)”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:36

Nova bossa na nossa bossa

De João Donato, no ‘Globo’:
“Em 1962, voltei ao Brasil para gravar um disco, depois de dois anos morando nos Estados Unidos. Era uma tarde quente e um produtor entrou no estúdio falando em voz alta: ?Mas isso não é Bossa Nova?. Retruquei: ?Eu não disse que é, só estou gravando um disco.? Era o meu primeiro 12 polegadas: João Donato e seu Trio Muito à Vontade, com os saudosos Milton Banana (bateria) e Tião Neto (baixo).
Um ano depois retornava à América, em seguida o disco foi lançado pela Pacific Jazz com o nome de ?Sambou Sambou? e se tornou o responsável pelo meu ingresso definitivo no mercado fonográfico americano. No auge da Bossa Nova, eu, que desembarcara na terra de Frank Sinatra antes da chegada dos meus amigos João Gilberto e Tom Jobim, assistia à euforia dos músicos de jazz com a novidade.
O jornal ?São Francisco Chronicle? chegou a anunciar que o novo gênero musical brasileiro era a melhor coisa que tinha acontecido na música americana.
Cansados de tocar a música exageradamente popular da época, os músicos passaram a usufruir do prazer de viajar pelos ricos acordes do samba-jazz e da sua versão mais suave, a Bossa Nova.
O improviso andava solto e por caminhos nunca antes percorridos. A carreira de Stan Getz, estacionada, ganhou fôlego com a chegada da Bossa Nova. Bud Shank e Chet Baker, meus parceiros de estrada, queriam tocar, gravar e se aprofundar nos ritmos deste país da América Latina que contribuía com algo diferente do mambo, da salsa e da rumba dos imigrantes da América Central.
Mais de meio século depois do marco da exportação da Bossa Nova para o mundo, após fazer música com parceiros de tantas gerações e estilos musicais variados, e de ver minhas canções interpretadas por brasileiros do samba, do bolero e do hip hop, pela Orquestra Sinfônica da Rússia, por um grupo vocal de cubanas, de tocar na Líbia e de ser tratado como um artista popular no Japão, tais lembranças me fazem refletir sobre como talvez eu tenha dado ouvidos àquele produtor e passado a vida resistindo à minha participação e influência no ritmo que veio a se chamar Bossa Nova.
Hoje, tenho consciência de que negar minha participação na história da Bossa Nova seria deletar um trecho da história da música popular brasileira e de minha história pessoal. Em 2002, quando a Dubas relançou ?Muito à Vontade? em CD, o escritor Ruy Castro lembrou que o disco me abriu novos horizontes e, nas palavras dele, ?devolveu a Donato, sem ele saber, um movimento que ajudara a construir?.
Em 2008, nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, convidado pelo meu parceiro musical Nelson Motta a receber uma homenagem da nova geração de intérpretes da música, já cansado do peso das viagens ? rodei 11 países em quatro continentes, fui duas vezes a Cuba no mesmo ano ? acabei desabafando em uma entrevista: ?Não aguento mais falar em Bossa Nova.? Eu sou mesmo assim.
Para lembrar um grande músico brasileiro, Eloir de Morais, ?envaideçome? ao ser convencido de integrar uma história tão bonita pelo desenrolar da própria história. Mas devo confessar que, como acreano-pianista-compositorintuitivo, o que me encanta são as infinitas possibilidades que a música me oferece de experimentar novos sons, novos rumos, novas combinações, novos acordes, novas vozes, numa constante renovação.
Algo que foi percebido há muito tempo por gente como Stan Kenton, Miles Davis, mais recentemente por Diana Krall e ? por que não? ? Black Eyed Peas. Algo que o mundo inteiro reconhece e modernamente aprecia. Percebo que na atualidade há um improviso do improviso.
Uma nova bossa dentro da Bossa e é um patrimônio que, quanto mais se transforma, mais herdeiros faz ao longo do caminho e de uma estrada rumo à imortalidade.
Faltava o Rio, berço da Bossa, valorizar e dar o suporte para que novos compositores, músicos e intérpretes possam fazê-la ecoar e ser recriada a partir da sua maternidade. Um bom começo é o Circuito da Bossa Nova que a prefeitura lançou na segunda-feira, na festa dos 445 anos do Rio, no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico.
Agora, Leny Andrade, Joyce, João e Bebel Gilberto, Pery Ribeiro, Carlos Lyra, Milton Nascimento, Os Cariocas, Emílio Santiago, Roberto Menescal, Cris Dellano, Zé Renato, Mariana Aydar, Wanda Sá, Thaís Fraga, Mário Adnet, Augusto Martins, Miúcha, Sérgio Mendes, Sandra de Sá, Fernanda Takai, Johnny Alf, Adriana Calcanhoto, Marcos Valle, Francis e Olivia Hime, Jaques e Paula Morelenbaum, Roberta Sá ? nosso catálogo é infinito ? poderão mostrar com ternura, amor e sem temer contradições que a boa música é celestial, é de todos, é nossa e se re-NOVA”.

  • Quinta-feira, 04 Março 2010 / 2:34

Johnny Alf (1929 – 2010)

  A semana vem sendo dura com a música.
Hoje morreu Johnny Alf,  80 anos, o mais inventido compositor e intérprete da Música Popular Brasileira.
Alf, se cantasse 10, 20 vezes seguidas uma mesma canção, daria uma interpretação diferente a cada uma delas, e sempe com uma divisão melódica diferente.
Ele era um dos últimos gênios - junto com João Gilberto e João Donato - em atividade.
Antonio José da Silva, seu nome de batismo, era filho de um cabo do Exército, que morreu quando ele tinha apenas três anos. Sua mãe foi então trabalhar como doméstica, em uma casa de família, que o criou e custeou seus estudos.
Aos 9 anos, começou a apreender piano clássico e, no Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, participou de um grupo artístico. Foi lá que uma amiga norte-americana sugeriu que ele adotasse o nome artístico de Johnny Alf.
Autor de inúmeros sucessos, Alf foi o mais jazzístico de todos os compositores brasileiros. Por conta disso, e mais o nome em inglês, foi acusado inúmeras vezes de ser americanizado.
Uma semana após a queda das Torres Gêmeas, em 2001, Johnny Alf viajou para Nova York.
Durante o vôo, pouco antes da aterrisagem, ele foi reconhecido pelo violonista Marco Pereira. Pouco conversam, Ele explicou que estava indo aos Estados Unidos,  atendendo ao convite de uns amigos que queriam gravar com ele.
Marco então perguntou:
- Você vem sempre para cá?
E o americanizado Alf, na época com 71 anos, respondeu:
- Não. Essa é a minha primeira vez.
O autor de ‘Ilusão a Toa’, ‘Eu e a Brisa’, ‘Rapaz de Bem’, ‘O que é amar’, ‘Olhos Negros’, ‘Seu Chopin, desculpe’ e inúmeros outros sucessos, merecia muito mais honras do que recebeu em vida.
Existe uma coleção, em CD, e que agora, aos poucos, vem saindo em DVD, intitulada  ‘Ensaio’,  onde o artista responde e canta, sem que o expectador ouça a pergunta.
A única exceção até hoje foi com Johnny Alf.
As perguntas foram feitas por um fã, que decidiu mostrar a cara para fazer sua entrevista: o nada americanizado Paulinho da Viola – um sambista amante da musicalidade desse genial rapaz de bem chamado Johnny Alf.

  • Segunda-feira, 24 Agosto 2009 / 18:50

Viva o João Donato!!!

Certa vez o jornalista Sergio Augusto perguntou ao gênio João Gilberto, de onde ele havia tirado a inspiração para criar a batida da bossa-nova:
- Aprendi vendo o João Donato tocar piano.
O maior músico brasileiro fará, em agosto, 75 anos de idade e 60 anos de música. Ele tinha 15 anos quando entrou, pela primeira vez, em um estúdio para tocar acordeon no disco de estréia do flautista Altamiro Carrilho.
E a data começou a ser comemorada ontem, no Espaço Tom Jobim, do Jardim Botânico, num show de Donato e três convidados: Paulinha e Jacques Morelenbaum e Paulo Jobim, que descobriu, no baú do pai, uma música até agora inédita assinada pelos dois: ?Quando a lembrança me vem?, composição de Donato e  letra de Jobim.
A chuva, que caiu ontem à noite no Rio, não foi problema para as mais de 600 pessoas que lotaram o espaço para assistir a um espetáculo memorável de duas horas. Aliás, memoráveis são todas as apresentações de João.
Como ontem foi  Dia de São Jorge, ele vestiu uma camiseta com a imagem do santo (ou seria de Ogum?),  presente do mais recente amigo Zeca Pagodinho que, em seu último disco, gravou “Sambou, sambou”, uma velha musica de Donato, também presente na faixa.
No roteiro do show, houve um momento para o solo de piano. Certamente em homenagem ao ?dono? do Espaço, ele executou ?É de manhã?; ?Garota de Ipanema? e ?Chega de Saudade?, que deixou de ser musica instrumental para servir de base para o coro da platéia. O que vem ocorrendo todas as vezes em que a canção é executada. Até mesmo quando quem está no palco é João Gilberto. Foi assim no Teatro Municipal do Rio. João Gilberto gostou tanto da participação do público, que elogiou a afinação da platéia e ele próprio pediu bis. 
A banda com Robertinho Silva (bateria); Luiz Alves(contrabaixo), Ricardo Pontes (sax e flauta) e Jessé Sadoc (trumpete), ganhou agora a participação de  Sidinho Moreira (percussão). E para a atual  fase de João, Sidinho estará integrado ao grupo para o todo sempre. A música de João Donato está cada dia mais latina. ?Até pensei?  e  ?Brisa do Mar? viraram boleros definitivos; ?A Paz? é mambo; e ?Flor de Maracujá? (assista o vídeo) tem um quê de salsa. E o  futuro do sambolero, se enraíza com sua nova composição e letra de Nelson Motta: ?Bolero Digital?.
A som de João Donato é tão bom que ele deveria se apresentar todos os dias.
Viva o João! Viva o Brasil!
Viva o Samba! Viva a música latina! Viva o Bolero!

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