• Domingo, 25 Março 2012 / 9:13

Cabral, exemplo do ‘painho’

    Do repórter Italo Nogueira, da ‘Folha’:
    “Cabral circula pelo Senado, pelo PMDB e em palanques. Inaugura obras e acompanha momentos cruciais do Rio no Palácio Guanabara, sede do governo fluminense.
Compromissos do governador Sérgio Cabral (PMDB), 49, se encaixam na agenda do filho, Marco Antônio, 20, que acompanha de perto a gestão do pai e até já o substituiu em campanha eleitoral.
Sob supervisão paternal, ele ascende na política. No último dia 16, ele assumiu a presidência nacional da Juventude do PMDB.
Estudante do 6º período de Direito na PUC, herdou trejeitos e bandeiras do pai. Defende a legalização do aborto, jogo, casamento homossexual e maconha -que diz ter experimentado há dois anos e não usado mais.
A desenvoltura no palanque o levou a ter seu nome sugerido à Câmara dos Deputados em 2014. Marco Antônio admite ser esse seu desejo, mas o pai faz ressalvas.
Por restrições da lei eleitoral, o governador teria que deixar o cargo caso o filho se candidatasse, mas poderia concorrer a presidente, vice-presidente ou ao Senado.
Cabral diz, no entanto, que sua principal preocupação é a de que o filho possa deixar os estudos um pouco de lado.
“Ele foi excelente aluno no Santo Inácio (colégio de elite na zona sul), onde participava do grêmio. Mas vou ficar sempre no pé dele”, disse Cabral. O pai tem suas razões.
Além de estudar e presidir a juventude do PMDB-RJ, Marco Antônio é funcionário na Prefeitura do Rio -tem cargo comissionado com salário de R$ 2.500, em que acompanha a execução de obras. Em 2011, repetiu duas de oito matérias da PUC.
“Seria maluco meu pai se licenciar para eu sair candidato. Sou jovem, posso esperar”, afirma Marco.
Além da invasão do Complexo do Alemão, acompanhou ao lado do pai, em tempo real no Palácio Guanabara, os desdobramentos da greve de bombeiros. Foi ao lado do filho, o segundo dos cinco de dois casamentos, que Cabral viveu a maior crise dos dois mandatos.
Em junho de 2011, Marco Antônio perdeu a namorada, Mariana, em um acidente aéreo de helicóptero no litoral da Bahia. Os dois se conheciam desde os 12 anos.
O acidente revelou a relação do governador com os empresários Fernando Cavendish (dono da empreiteira Delta) e Eike Batista.
Marco Antônio diz que o pai errou ao viajar no jatinho de Eike, o que Cabral reconhece. Mas considera “babacas” as críticas à amizade com Cavendish, cuja empresa tem mais de R$ 1 bilhão em contratos com o governo.
“A amizade antecedia o mandato. O cara é governador e só pode ter amizade com gente pobre?”, diz ele, que namora há cinco meses uma estudante de psicologia.
Em 2010, quando o pai não foi às ruas para a campanha de reeleição, ele acompanhou o vice Luiz Fernando Pezão em agendas para defender o pai. Discursava e liderava militantes no interior.
Em 2009, chegou à presidência regional da Juventude no Rio, substituindo Clarissa Garotinho, 29 -filha do ex-governador Anthony Garotinho, rival de seu pai.
“Ele pediu que eu renunciasse. Mas faltavam três meses para o fim do mandato. Depois fui destituída e ele foi nomeado. Mas é um garoto gente boa”, diz Clarissa, hoje deputada estadual.
Marco a considera “boa deputada”, mas “muito raivosa” na oposição ao pai. E não poupa críticas a Anthony Garotinho: “É corrupto”.
Primo em segundo grau, por parte de mãe, do senador Aécio Neves, Marco repete o pai no elogio tanto a membros do PT como do PSDB.
Aécio, diz, é “referência”. “Foi o primeiro a fazer trabalho de gestão da máquina pública.” E defende o governo na rebelião do PMDB no Congresso. “É crise instaurada por poucos que não querem ver o crescimento do país.”

  • Quinta-feira, 12 Agosto 2010 / 11:10

Leandro esnoba o governador

     Do repórter Italo Nogueira, da ‘Folha’:
“Autor e personagem de um vídeo que tomou conta da internet, em que é chamado de “otário” e “sacana” pelo governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), além de ouvir do presidente Lula que tênis é “esporte da burguesia”, o estudante Leandro dos Santos de Paula, 18, não tem ideia da repercussão da gravação.
Na favela onde mora, as imagens foram comentadas por “meia dúzia” de pessoas, mas ontem à noite o vídeo contabilizava mais de 430 mil exibições no YouTube.
“Não foi muita gente que viu não. Pouca gente tem internet”, diz o jovem, que costuma gravar todos seus encontros com gente “famosa” e se tornou uma dor de cabeça na campanha de Cabral.
O estudante abordou o governador e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em dezembro do ano passado, após inauguração de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em Manguinhos, onde mora.
O vídeo trouxe à tona uma visão dos políticos muito diferente daquela de quando estão diante de repórteres.
Primeiro, o rapaz reclama da ausência de uma quadra de tênis no local, e Lula diz que isso é “esporte da burguesia”. Leandro conta que precisou consultar o dicionário para entender o recado. “Acho que ele quis dizer que é coisa de gente rica.”
O presidente então pergunta por que ele não “nada”. Ao ouvir que a piscina fica fechada, Lula se dirige a Cabral: “O dia que a imprensa vier aí e vir isso fechado, o prejuízo político é infinitamente maior do que colocar dois guardas aí”.
Em seguida, Leandro reclama do barulho do “Caveirão”, o blindado da Polícia Militar, em sua rua. Cabral o interrompe e pergunta se “lá não tem tráfico não”. Quando o jovem diz que não, o governador rebate: “Deixa de ser otário, está fazendo discurso de otário”.
“Burguês” Leandro não é. Mora num barraco na favela Nelson Mandela, com três irmãos, a mãe, auxiliar de serviço gerais, e o padrasto, que é caminhoneiro.
Mas joga tênis nas ruas da favela. Tem três raquetes de madeira -uma delas com a tela furada- , compradas numa feira de antiguidades em São Cristóvão quando ainda tinha 14 anos.
“Para jogar, a gente molha o chão da rua e marca a quadra”, diz Leandro, que tem a companhia de outros quatro “burgueses” da favela.
O estudante do 9º ano -repetiu três vezes- diz que não ouviu as ofensas do governador. “A conversa não era com ele. Era com o Lula.”
Desde aquele dia, o jovem persegue Cabral em eventos. Pede que o governador cumpra a promessa, feita no palanque no mesmo dia da gravação, de lhe dar um laptop.
Na quinta-feira da semana passada, Leandro aguardava Cabral no Shopping Leblon, a cerca de 20 km de sua casa, para cobrar a dívida.
Abordou Benedita da Silva, candidata a deputada, que em vídeo gravado por ele confirma a promessa. Ela também estava no palanque e, segundo Leandro, anotou seu telefone e endereço.
Foi no shopping que conheceu Ricardo Gama, blogueiro crítico a Cabral e que apoia o candidato Fernando Peregrino (PR), lançado por Anthony Garotinho.
O jovem contou que tinha filmado a visita com uma pequena câmera que costuma carregar. O blogueiro viu as imagens e pôs em seu site.
Leandro diz não ter vinculações político-partidárias, como acusa Cabral. O vídeo do governador divide espaço da memória da câmera com fotos do jovem com artistas. A última clicada foi a atriz Regina Duarte. “Gravo para guardar de recordação.”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:49

PF investigam empreiteiras do PAC no Rio

Do repórter Italo Nogueira, da ‘Folha’:
“Documento feito a pedido da construtora Norberto Odebrecht para habilitar-se à licitação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio, também foi usado por suas concorrentes para participar da mesma disputa.
A Odebrecht, líder do Consórcio Rio Melhor, venceu a disputa da obra, avaliada em R$ 493 milhões. Os consórcios liderados por Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão ganharam, respectivamente, as concorrências para as obras do PAC em Manguinhos (avaliada em R$ 232 milhões) e na Rocinha (R$ 175,6 milhões), objeto da mesma licitação.
A Folha revelou nesta semana que cruzamento de documentos apreendidos em várias operações da Polícia Federal mostram que empreiteiras formam consórcios “paralelos” antes da disputa de licitações com a finalidade de superfaturar obras públicas.
Duas construtoras (Odebrecht e Andrade Gutierrez) líderes de consórcios concorrentes negaram a troca de documentos entre elas. A Secretaria de Obras do Rio e a Queiroz Galvão não quiseram se pronunciar sobre o caso.
A licitação ocorreu em 2008. O edital exigia que os consórcios apresentassem termo de compromisso de fornecimento de material com uma empresa com experiência na instalação de teleféricos urbanos. Todos apresentaram a companhia francesa Pomagalski, que executou obra semelhante em Medellín, na Colômbia.
A documentação que comprovava a experiência da empresa no serviço estava em inglês, o que exige a tradução juramentada. Este último documento revelou o compartilhamento entre os concorrentes.
A Folha apurou que a tradução juramentada do documento da empresa do Metrô de Medelín foi pedida à empresa BTS Traduções por uma funcionária da Odebrecht.
A tradução I-67411/07 (número que serve como “identidade” de traduções juramentadas), assinada pelo tradutor Manoel Antônio Schimidt, aparece na habilitação dos três consórcios concorrentes.
O reconhecimento de firma de Schimidt foi feito no mesmo dia (7 de janeiro de 2008) e os selos das três cópias do documento têm números sequenciais, o que indica que foram enviadas juntas ao cliente da BTS, a Odebrecht.
Há outra tradução juramentada, assinada por Mariana Erika Heynemann, que aparece da mesma forma: sob o mesmo número na papelada dos três consórcios concorrentes.
A licitação das obras do PAC no Complexo do Alemão ocorreu juntamente com as das obras em Manguinhos e na Rocinha, mas uma empresa não poderia acumular, ao mesmo tempo, duas obras.
Apenas três consórcios foram habilitados. A Construcap, que foi desclassificada, acusou em 2008, por meio de recurso à Secretaria de Obras do Rio, existência de direcionamento na licitação do PAC.
Segundo a Construcap, o edital fazia exigências desnecessárias, o que limitava o número de participantes na concorrência. Um dos itens pedia comprovação de experiência em “fornecimento e assentamento de tubo flexível estruturado de PVC para drenagem de águas pluviais, com diâmetro mínimo de 400 milímetros”.
A Secretaria de Obras afirmou à época que a complexidade das obras em favelas aumentava a exigência na disputa.
A diferença nos preços propostos pelos consórcios não superou 0,23%. Os preços de obras de urbanização nas favelas ficaram 4,8% mais caros (R$ 41 milhões acima do previsto).
A Secretaria de Obras autorizou propostas de até 5% acima do preço definido no edital -que tinha sido publicado dias antes. Mais uma vez, a secretaria fundamentou sua decisão tomando por base a complexidade das obras”.

EMPRESAS NEGAM TER PARTILHADO DOCUMENTAÇÃO

“As construtoras Norberto Odebrecht e a Andrade Gutierrez negaram o compartilhamento de documento na licitação das obras do PAC nas favelas do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A Queiroz Galvão não se manifestou sobre o caso.
Em resposta encaminhada à reportagem, a Norberto Odebrecht, empresa que conquistou a licitação, negou que tenha auxiliado suas concorrentes na disputa.
Uma tradução juramentada feita a pedido da empresa reapareceu nos documentos dos consórcios liderados pelas empreiteiras Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão.
“A Odebrecht não disponibilizou nenhuma informação aos participantes da referida licitação e não tem conhecimento dessa ocorrência”, afirmou a assessoria de imprensa da empreiteira.
A empresa afirmou que enviou à companhia francesa Pomagalski a tradução com reconhecimento de firma “para serem usadas de acordo com sua necessidade”.
Esse documento reapareceu na habilitação das concorrentes da Odebrecht na licitação.
A construtora Andrade Gutierrez, por sua vez, afirmou que “recebeu da própria Pomagalski o documento já traduzido para o português”.
O documento traduz ofício em inglês do Metrô de Medellín atestando a experiência da Pomagalski na instalação de teleféricos urbanos, exigência feita pela licitação.
A Secretaria de Obras do Rio de Janeiro afirmou que não comentaria o caso porque não teve participação na coleta de documentos das empresas que concorreram na licitação”.

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.