• Domingo, 19 Setembro 2010 / 14:21

Três notas sobre Tiririca

 

PALHAÇO EM TEMPO INTEGRAL
       Do repórter Amauri Segalla, da ‘Isto é’:
“O palhaço da foto ao lado não tira a peruca de jeito nenhum. Candidato do Partido da República (PR) a deputado federal por São Paulo, o sujeito, que atende pelo apelido de Tiririca, recusou-se a atender a reportagem de ISTOÉ na condição de Francisco Everardo Oliveira Silva, seu nome de batismo. Alegou falta de tempo, mas a verdade é que, na reta final de campanha, não quer correr o risco de expor o seu verdadeiro eu. Segundo o Ibope, Tiririca deve amealhar um milhão de votos, o que vai transformá-lo num dos maiores fenômenos eleitorais da história do Brasil. Personagem criado pelo cearense Francisco, Tiririca fez certo sucesso em um programa humorístico da tevê e vendeu milhares de cópias de um CD graças à música burlesca Florentina. Por que resolveu ser candidato? “Minha mãe disse que era uma boa”.
Não tem graça nenhuma o real motivo que o levou à política. Um ano antes das eleições, uma pesquisa do PR concluiu que Tiririca tinha enorme potencial nas urnas. Seu desempenho avassalador vai puxar outros integrantes do PR para o Congresso. Como o número de vagas de cada partido é definido pelo quociente eleitoral (a soma de votos dos candidatos e da legenda dividida pelo número de vagas a que cada Estado tem direito), ele traz consigo candidatos nem tão queridos assim pela população. Se chegar a um milhão de votos, Tiririca pode eleger Valdemar Costa Neto, ex-presidente do PL e que renunciou ao cargo de deputado em 2005 por seu envolvimento no caso do Mensalão, e o delegado Protógenes Queiroz, que liderou barulhentas operações da Polícia Federal, como a Satiagraha. É da natureza da democracia admitir que qualquer cidadão possa disputar uma eleição. Mas o caso Tiririca é diferente. O candidato não é um brasileiro comum, mas um personagem do mundo da fantasia. Isso introduz um elemento fraudulento ao caso, diz o cientista político Fábio Wanderley Reis. O problema está no disfarce. Tira a peruca, Tiririca.
- Você vai responder a entrevista na condição de Tiririca ou de Francisco, seu nome de batismo?
- Então, cara, o Tiririca é o Francisco e o Francisco é o Tiririca.
- Você deve receber um milhão de votos. Como conquistou tanta gente?
- É o tempo de trabalho que tenho como artista, esse lance da Florentina. O pessoal se identifica com a minha história de vida, aquele cara que veio de baixo e deu a volta por cima.
- Como surgiu a ideia de sua candidatura?
- É engraçado. Recebi o convite do partido, o PR, há um ano. Aí fui falar com a minha mãe e ela achou uma boa.
- Quem está bancando a sua campanha?
- O partido.
- Quanto ela vai custar?
- Uns R$ 3 milhões. A campanha está bem pra caramba, tem muito material, tem de tudo.
- Quais são suas as propostas?
- A gente quer ajudar os menos favorecidos e os nordestinos também. Mas é complicado pra caramba. Por isso eu não divulgo proposta, não prometo nada.
- Você já disse que não tem ideia do que faz um deputado. Acha correto esse tipo de discurso?
- Do fundo do coração, acho bacana tudo o que o Tiririca fala. É uma coisa que um deputado jamais falaria. Ele não vai dar a cara para bater. O público gosta desse lance de sinceridade. As pessoas querem ver o Tiririca brincando. Essa é a maneira que achamos de fazer política. O Tiririca fala o que vem na cabeça, o que a galera quer ouvir. É por isso que a campanha deu 100% certo.
- No Congresso, você vai ser o Tiririca ou o Francisco?
- Eu queria estar vestido de Tiririca, mas não pode. Pelo menos foi o que o pessoal da parte jurídica disse. O que pode é terno diferente, colorido, mas a peruca não posso usar.
- Você quer ir para Brasília para fazer política séria ou piada?
- Vou ser o que eu sou. Vou ajudar muita gente, ajudar pra caramba. Graças a Deus, tenho meu trabalho. Já cheguei num ponto em que estabilizou a minha vida. Se eu quiser parar hoje, posso parar. Não sou candidato pela grana que o deputado ganha.
- Você se incomoda com as críticas?
- Não. Os adversários batem pra caramba, mas acho isso engraçado.
- Vai votar em quem para presidente?
- Do fundo do coração, posso falar em quem não vou votar. Não vou votar no Mercadante (Aloizio Mercadante, candidato ao governo de São Paulo pelo PT). Ele partiu para um lance infantil, bateu de frente comigo. Quando estou no ar, aparece o nome de quem apoio. O Mercadante pediu para tirar o nome dele, falou que não queria se associar a esse tipo de política. Voto na Dilma, mas no Mercadante não voto.
- É você vai ter paciência para política partidária, para o trabalho formal no Congresso?
- Já pensei nesse lance e acho que vou tirar de letra. Vai ser bacana mesmo.
VAI, TIRIRICA

      De Renata Lo Prete, da ‘Folha’:
“Sondagens eleitorais em curso indicam que o palhaço Tiririca (PR), provável recordista de votos em São Paulo, virou trunfo do PT para assegurar a presidência da Câmara em 2011. Puxador da coligação encabeçada pelos petistas, o dono do bordão “pior que está não fica” permitirá, caso as projeções se confirmem, que o partido de Lula e Dilma Rousseff conquiste até quatro cadeiras adicionais. Isso desempataria a acirrada disputa com o PMDB pela maior bancada.
As duas siglas trabalham para atingir a meta de cem deputados. Embora não exista regra, a base mais numerosa tem mais chances de comandar a Casa”.
JERÔNICO E TIRIRICA

    Do crítico Artur Xexéo, de ‘O Globo’:

“As pesquisas anunciam que Tiririca deve ser o candidato a deputado federal mais votado em São Paulo. Entendo perfeitamente o que leva um Tiririca a se candidatar a deputado federal. O que não entendo é o que leva um eleitor a votar em Tiririca.
Já fui adepto do voto nulo, e isso num tempo em que votar era coisa rara. Lembrome da primeira eleição popular durante a ditadura. Eu deveria escolher um candidato para fazer parte da Câmara dos Vereadores de Juiz de Fora. Não acreditava na eleição. Para quem chegou agora, estou falando de um tempo em que a gente votava em cédulas. Para que pareça mais distante ainda, era um tempo em que a gente escrevia na cédula o nome do candidato. Quer dizer, para presidente, governador, acho que até mesmo para senador, bastava preencher uns quadradinhos.
Mas, como a gente não votava para presidente, governador ou senador, tinha mesmo é que escrever o nome do vereador ou dos deputados. Cravei na cédula: Jerônimo Coragem.
Jerônimo Coragem não era um candidato de verdade. Era um candidato de ficção, interpretado por Claudio Cavalcanti na novela ‘Irmãos Coragem’, de Janete Clair. É meio difícil imaginar uma questão política envolvendo uma novela de Janete Clair.
Logo ela que sempre foi associada a trabalhos alienantes. Mas acho que, durante a ditadura, a televisão não produziu trabalhos mais engajados do que as novelas de Janete. Dizia-se que Sucupira, a cidade que Dias Gomes inventou em ‘O bem amado’, era um microcosmo do Brasil. Mas, antes de Sucupira, havia Coroado, a cidade dos ‘Irmãos Coragem’.
Na ficção, Jerônimo candidatava-se a prefeito em eleições, que, como acontecia com as eleições de verdade no Brasil, eram só para inglês ver. Jerônimo Coragem foi meu primeiro e único voto nulo. Um voto de protesto.
É impossível fazer um voto de protesto hoje em dia. Com as eleições eletrônicas, não há mais espaço para Jerônimo Coragem.
Ficou pior. Sobrou espaço para Tiririca.
O protesto é em Tiririca. Só que Jerônimo Coragem nunca teria uma cadeira na Câmara Federal. Tiririca vai ter.
Há quem justifique a candidatura de Tiririca dizendo que ela é representativa de parcela da população. Bobagem. Se fosse assim, teríamos que ter também candidatos ladrões, candidatos corruptos… bem, nós temos candidatos ladrões, candidatos assassinos e candidatos corruptos, mas não escancaradamente. Eles se disfarçam, e quem vota neles não sabe que são ladrões ou corruptos. Em Tiririca, vota-se sabendo quem ele é. O eleitor escolhe um palhaço para eleger acreditando que está sendo esperto. No fundo, está sendo mais palhaço que o candidato. Na campanha, Tiririca usa o slogan Vote em Tiririca, pior do que está não fica. Ledo engano. As pesquisas estão mostrando que pode ficar bem pior”.

  • Quinta-feira, 29 Julho 2010 / 21:32

Collor quer “enfiar a mão” em jornalista

    Do repórter Eduardo Neco, do ‘Portal Imprensa’
“O senador e ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB-AL) ligou para a redação da sucursal de Brasília (DF) da revista IstoÉ, na tarde desta quinta-feira (29), e ameaçou esbofetear o jornalista Hugo Marques por conta de uma nota na edição de 21 de julho sobre o pedido de impugnação da candidatura do político alagoano.
“Quando eu lhe encontrar, vai ser para enfiar a mão na sua cara, seu filho da puta”, vociferou Fernando Collor após explicar ao repórter o motivo de sua ligação.
Em entrevista ao Portal IMPRENSA, Marques declarou que, ao constatar o teor da ligação, desligou o telefone imediatamente. “Eu não queria ouvir insultos e nem responder. Fico preocupado dele tentar arrancar alguma agressividade minha. Se eu criar um conflito com ele, fico impedido de cobrir. Então não falei nada”, contou.
Sobre o fundamento das ameaças do ex-presidente – que concorre ao governo de Alagoas -, Marques pontuou que os dados sobre a candidatura de Collor estão no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Ele tem que convencer a Justiça Eleitoral, não a mim”. 
Marques afirmou que não irá se manifestar contra Collor, tampouco acionar entidades de classe, mas pontuou ser “lamentável” a atitude do ex-presidente “em um regime democrático”. “Não tenho nada contra ele, mas é lamentável que um sujeito desses ligue para uma redação e ameace uma pessoa. Ele poderia ter mais cautela, poderia respeitar os direitos humanos”.
De acordo com o repórter, Collor estaria desgostoso com a revista por conta de outras matérias em que o político é citado. Sobretudo a respeito de uma entrevista  com sua ex-mulher, Rosane Malta, em que é indicado como sonegador de impostos.
A respeito de um eventual encontro com o ex-presidente, Marques disse não estar temeroso. “Sou faixa roxa de Karatê (risos)”, afirmou. “Estou há 22 anos denunciando bandidos de peso pesado e essa deve ser a décima ameaça, e isso não me intimida”, finalizou.
A reportagem tentou contato com o diretório nacional e regional do PTB e com a coordenação de campanha de Collor e não obteve retorno. A assessoria de imprensa de seu gabinete no Senado declarou que não tem relação com as atividades do senador fora de seu mandato, e por isso não poderia se pronunciar”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:01

Dilma: “Fizemos e sabemos fazer”

A candidata Dilma Rousseff deu uma longa entrevista aos editores da revista ‘Istol É’. Eis o seu texto:
- Por que a sra. acha que o presidente Lula a escolheu para sucedê-lo e quando exatamente se deu isso?
- O presidente Lula me escolheu quatro vezes. A primeira foi na transição do governo de Fernando Henrique para o governo Lula, em 2002. O presidente me chamou para fazer a coordenação da área de infraestrutura porque me conhecia das reuniões do Instituto de Cidadania. Depois ele me escolheu para ser ministra de Minas e Energia. E, em 2005, para ser ministra da Casa Civil. Por último, me escolheu para ser pré-candidata para levar à frente o projeto de governo. Acho que me escolheu porque acompanhei com ele a construção de todos os grandes projetos. O presidente sabe que nós conseguimos, juntos, fazer estes projetos.
- Ser presidente era uma ambição pessoal da sra.?
- É um momento alto da minha vida, talvez o maior. Tem gente que passou uma vida inteira querendo ser presidente da República. Eu era mais modesta. Fui para a atividade pública porque queria servir. Pode parecer uma coisa falsa, mas acho que se pode servir à população brasileira no setor público. Sempre acreditei que o Brasil podia mudar, mas isto era uma questão longínqua. Quando o Lula me chamou para a chefia da Casa Civil, ele pretendia que o governo entrasse na trilha do crescimento e da distribuição de renda para que o Brasil desse um salto, e vi nisso uma grande oportunidade.
- A sra. se considera preparada para o cargo?
- Tenho clareza, hoje, de que conheço bem o Brasil e os escaninhos do governo federal. Então, sem falsa modéstia, me acho extremamente capacitada para o exercício desse cargo. E acredito que o fato de não ser uma política tradicional pode incutir um pouco de novidade na gestão da coisa pública. Uma novidade bem-vinda. Na minha opinião, critérios técnicos se combinam com políticos. Escolher onde aplicar é sempre um ato político. Por exemplo, eu acho que a grande missão nossa é erradicar a pobreza e que é possível erradicá-la nos próximos anos. Isto é um ato político. Outra pessoa pode escolher outra coisa.
- No horizonte de um governo, é possível erradicar a pobreza?- Tem um estudo do Ipea mostrando que até 2016 é possível erradicar a pobreza extrema, a miséria. Mas o empresário Jorge Gerdau costuma dizer que meta que se cumpre é meta errada. Metas não são feitas para cumprir, mas para estabelecer um objetivo, criar uma força. Assim, acredito que o prazo de 2016 é viável, mantido o padrão do governo Lula. Nossa meta pode ser ainda mais ousada. Só não vou dizer qual porque, se passar dois dias sem cumpri-la, vão dizer: Não cumpriu a meta, como fazem com o PAC. Atrasar uma obra de engenharia em seis meses é a catástrofe no Brasil.
- O presidente Lula também trabalhou com metas quando foi candidato. Ele falava em dez milhões de empregos…
- Acho que a gente fecha em 14 milhões. Falei com a área econômica de dois bancos e ambos consideram que o crescimento do PIB será de 6,4%, podendo chegar a 7%, o que dá condições para se chegar a estes 14 milhões de empregos. Os dados da produção industrial que fechamos em março apontam um crescimento muito robusto e sustentável porque são os bens de capital que estão puxando esse desempenho.
- O Banco Central está preocupado com este crescimento…
- Não, o Banco Central está preocupado com outra coisa. Ele não pode estar preocupado com a expansão dos bens de capital porque isso é virtuoso.
- Parece que há uma visão dissonante entre o Banco Central e a Fazenda sobre o desempenho da economia. Como a sra. vê essa questão?
- Os dois trabalham em registros diferentes. O BC faz uma análise necessariamente de curto prazo, porque ele trabalha com questões inflacionárias conjunturais, mais imediatas. Ele olha a pressão na hora que ela acontece. Já a Fazenda tem uma visão de mais médio e longo prazo. É outro registro. A Fazenda tem consciência de que o Brasil está em uma trajetória de estabilidade e de sustentabilidade. Agora, isso não é incompatível com o fato de você ter pressões inflacionárias imediatas. Acho que foi importante o aumento dos juros na última reunião do Copom.
- Isso não dá munição para os seus adversários?
- Nós já tivemos duas experiências muito ruins de, durante a eleição, fingir que é uma coisa e, depois, virar outra. Uma na virada do primeiro para o segundo mandato do Fernando Henrique Cardoso e outra no Plano Cruzado. Hoje somos perfeitamente capazes de elevar a taxa de juros e assumirmos as consequências, sem que isso signifique uma perda. Temos integral compromisso com a estabilidade.
- A sra. concorda com a política de juros do BC?
- Concordo. Acho que, da ótica do BC, ele fez o que precisava fazer. Nos Estados Unidos, onde há um histórico maior de estabilidade, o Federal Reserve tem dois olhos: um que olha a inflação e outro o emprego.
- O nosso só olha a inflação.
- No meu governo acho que, mais para o final, teremos condições de olhar as duas coisas: inflação e emprego.
- Teremos um BC diferente?
- Teremos uma política e uma realidade diferentes. Porque, para o BC fazer isto, é preciso uma redução da dívida líquida em relação ao PIB. O Brasil converge para condições monetárias de estabilidade que permitirão a combinação de outras variáveis. Criamos robustez econômica suficiente para fazer isso.
- A sra. vai enfrentar um candidato que também se apresenta como um pós-Lula. O que a diferencia dele?
- Só se acredita em propostas para o futuro de quem cumpriu suas propostas no presente. O que nos distingue é que nós fizemos, nós sabemos o que fazer e como fazer. Mais do que isso, os projetos dos quais eu participei 24 horas por dia nos últimos cinco anos são prova cabal de que somos diferentes.
- A sra. não acha importante o fato de o PT ter assumido o governo com um quadro de estabilidade da moeda?
- Eu não queria fazer isso, mas, se vocês insistem, vamos lá: recordar é viver. Nós assumimos o governo com fragilidades em todas as áreas. Taxas de inflação acima de dois dígitos, déficit fiscal significativo e, sobretudo, uma fragilidade externa monstruosa. Tínhamos um empréstimo com o FMI de US$ 14 bilhões. A margem de manobra nessa situação é zero. Você se coloca de joelhos junto aos credores internacionais. Quem fala com você é o sub do sub do sub. Isso não foi momentâneo. Foi uma década de estagnação, de desemprego e desigualdade. Nós tivemos, claro, coisas boas. Uma delas é a Lei de Responsabilidade Fiscal.
- Mas já cogitam mudá-la. A sra. é favorável a isto?
- Depende. Acho que para mexer em coisas que têm dado certo é recomendável caldo de galinha e muita calma. Mas, voltando ao recordar é viver, o Plano Real também teve mérito. Já em outros pontos fomos salvos pelo gongo. O País deve dar graças a Deus por não terem partido a Petrobras em pedaços, não terem privatizado o setor elétrico, Furnas, Eletronorte, Eletrosul. A privatização da telefonia foi correta, mas não acho hoje muito relevante. Hoje a banda larga é mais importante que a telefonia.
- A sra. acha que Serra seria a continuidade de FHC?
- Não tenho nenhum comentário a fazer sobre a pessoa José Serra. Tenho respeito por ele. Mas nós representamos projetos políticos distintos. Nós temos uma forma diferente de olhar o Estado.
- Ele também se apresenta como um economista da linha desenvolvimentista.  Acho muito significativa essa tentativa de borrar diferenças. Duvido que estariam borrando diferenças se o governo do presidente Lula tivesse menos que 76% de aprovação. Duvido. Há, neste processo, a tentativa de esconder o fato de que somos dois projetos. Tenho orgulho de ter sido ministra do presidente Lula. Devemos comparar as experiências de cada um. Eles diziam que não sabíamos governar, que só tivemos sorte. A gente gosta muito de ter sorte. Graças a Deus não somos um governo pé-frio. Mas quando chegou essa crise, muito maior que a de 1929, mostramos enorme competência de gestão, capacidade de reação e ousadia.
- O governo FHC foi incompetente?
- O governo FHC representa um processo em que não acredito. Não acredito num projeto de privatização de rodovias que aumenta o custo Brasil por causa dos pedágios, que embute taxas de retorno de 26% ao ano. Em estradas federais, a qualidade melhorou muito com pedágios bem menores por uma razão muito simples: nós não cobramos concessão onerosa. Logística é igual a competitividade na veia.
- O que a sra. faria diferente do atual governo?
- Nós tivemos que trocar o pneu do carro com ele andando. Algumas coisas concluímos, em outras não conseguimos avançar. Acho imprescindível, para o patamar de crescimento atingido, fazer a reforma tributária. Não é proposta, é uma exigência. Se quisermos aumentar nossa produtividade e, consequentemente, nossa competitividade, precisamos acabar com coisas absurdas como a tributação em cascata.
- O governo atual também diz que tentou fazer isto.
- Não deu agora porque reforma tributária significa conflito federativo. Aprendemos que é inviável fazer reforma tributária sem compensações porque ela tem tempos diferentes. Para neutralizar o efeito negativo da perda de arrecadação, vamos criar um fundo de compensação. Este é o único mecanismo negociável.
- Os acordos políticos resultarão ainda em loteamento de cargos?
- Não. O apoio político é totalmente legítimo. Em todos os países há uma composição política que governa. O que você tem que exigir é padrões técnicos. Lutei muito para implantar isso no governo.
- Está satisfeita com o que foi feito?
- Acho que podemos melhorar.
- A sra. será avó, em breve. E provavelmente seu neto nascerá num hospital privado e se educará numa escola particular. Em que momento a sra. acha que o Brasil estará pronto para mudar isso?
- Quero muito que isso aconteça porque me esforcei muito para estudar numa excepcional escola pública, que era o Colégio Estadual de Minas Gerais. A gente fazia um vestibularzinho para passar ali. Era difícil. Este é o grande desafio do Brasil. Para a educação ser de qualidade, não é só prédio, laboratório, banda larga nas escolas. É, sobretudo, professor bem remunerado e com formação adequada.
- Seu neto vai ter uma superavó, moderna, talvez presidente da República. Essa avó moderna também namora?
- Olha, eu não namoro atualmente, apesar de recomendar para todo mundo. Acho que faz bem para a pele, para a alma, faz todo o bem do mundo.
- Uma vez eleita, a sra. assumiria um relacionamento? A sra. casaria no meio do mandato?
- A vida não é assim, tem que se confluírem os astros…Eu não sou uma pessoa carente propriamente dita, tive uma vida afetiva muito boa, muito rica. Mas nos relacionamentos há uma variável que é estratégica, que é com quem eu vou casar. Essa variável estratégica eu tenho que saber, porque assim, no genérico, isso não existe. Agora, vamos supor que a pessoa seja maravilhosa e eu esteja apaixonadíssima…
- A sra. está fechada para isso?
- Não, ninguém pode estar na vida. Mas para mim é uma coisa muito distante. E depende dessa variável: que noivo é esse?
- Qual a sua posição em relação ao aborto? A sra. passou pela experiência de fazer um aborto?
- Eu duvido que alguma mulher defenda e ache o aborto uma maravilha. O aborto é uma agressão ao corpo. Além de ser uma agressão, dói. Imagino que a pessoa saia de lá baqueada. Eu não tive que fazer aborto. Depois que minha filha nasceu, tive uma gravidez tubária, eu não podia mais ter filho. E antes disso só engravidei uma vez, quando perdi o filho por razões normais. Tive uma hemorragia, logo no início da gravidez, sem maiores efeitos físicos.
- Isso foi antes de sua filha nascer?
- Foi antes. Tanto é que eu fiquei com muito medo de perder minha filha, quando fiquei grávida. Mas todas as minhas amigas que vi passarem por experiências de aborto entraram chorando e saíram chorando. Eu acho que, do ponto de vista de um governo, o aborto não é uma questão de foro íntimo, mas de saúde pública. Você não pode hoje segregar mulheres. Deixar para a população de baixa renda os métodos terríveis, como aquelas agulhas de tricô compridas, o uso de chás absurdos, de métodos absolutamente medievais, enquanto as mulheres de renda mais alta recorrem a clínicas privadas para fazer aborto. Há muita falsidade nisto.
- A sra. defende uma legislação que descriminalize o aborto?
- Que obrigue a ter tratamento para as pessoas, para não haver risco de vida. Como nos países desenvolvidos do mundo inteiro. Atendimento público para quem estiver em condições de fazer o aborto ou querendo fazer o aborto.
- A Igreja Católica se opõe a isto.
- Entendo perfeitamente. Numa democracia, a Igreja tem absoluto direito de externar sua posição.
- A sra. é católica?
- Sou. Quer dizer, sou antes de tudo cristã. Num segundo momento sou católica. Tive minha formação no Colégio Sion.
- A sra. passou por um tratamento para curar um câncer e precisa submeter-se a revisões periódicas. O que deu sua revisão dos seis meses?
- Agora faço de seis em seis meses. Fiz há pouco, em abril, e deu tudo perfeito.Existe na sociedade e em cada um de nós uma visão ainda muito pesada sobre a questão do câncer. E isso provoca nas pessoas muita dificuldade em tratar a doença Eu tive a sorte de descobrir cedo. Estava fazendo um exame no estômago e resolveram ver como estavam minhas coronárias. Eu fui para fazer um exame de coronária e descobri um linfoma.
- Como a sra. reagiu?
- A notícia é impactante. Na hora eu não acreditei, estava me sentindo tão bem. Há uma contradição entre o que você sente e o que te falam. Para combater o câncer você precisa encontrar forças em você mesma. Tem que se voltar para você, não pode, de jeito nenhum, se entregar. Depois, você combate porque conta com apoio. Eu tive uma sorte danada, recebi apoio popular. Chegavam perto de mim e falavam que estavam rezando. A gente se comove muito. E também tive apoio dos amigos, do presidente, de meus colegas no governo.
-  A sra. rezava?
-  Ah, você reza, sim. E reza principalmente porque não é o câncer que é ruim, é o tratamento.
- A sra. tem medo que o câncer volte?
- Hoje não.
- Como a sra. encara a vida depois disso?
- A gente dá mais valor a coisas que costumam passar despercebidas. Você olha para o sol e fica pensando se você vai poder continuar vendo esta coisa bonita. Você fica mais alerta. Só combate isso se tiver força interna. Vou contar uma coisa. Eu não conhecia a Ana Maria Braga e um dia ela me ligou e conversou comigo explicando como tinha vencido o câncer dela, que o dela era mais difícil, diferente, e que superou. Vou ter sempre uma dívida com ela, porque, de forma absolutamente solidária e humana, ela me ligou naquele momento.
- Mudando de assunto, o Lula é um bom chefe?
- Sim. O Lula é uma pessoa extremamente afetiva. Ele não te olha como se você fosse um instrumento dele. Te olha como uma pessoa, te leva em consideração, te valoriza, brinca. Ele tem uma imensa qualidade: ele ri, ri de si mesmo.
- A sra. também será assim como chefe? Porque dizem que a senhora é o contrário disto, durona…
- Você não pense que o Lula não é duro não, hein. É fácil até para você cobrar, em função disto. Basta dizer: amanhã tem reunião com o Lula. Simples…
- As reuniões são muito longas?
- A busca de um consenso é um jeito que criamos no governo. Algumas vezes o presidente chamava isto de toyotismo. Não é a linha de montagem da Ford, onde cada um vai olhando só uma parte. É aquele método de ilha da Toyota, porque você faz tudo em conjunto. Outra coisa é que a gente sempre discute com os setores interessados. Sabe como saiu o Minha Casa, Minha Vida? Porque nós sentamos com eles (empresários da construção civil) e conversamos. Eles criticando o que se fazia, os 13 grandes mais a Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil. Se você não fizer isso, se não for absolutamente exaustivo no debate do detalhe, o projeto não fica em pé. Na curva ele cai.
- Hoje todo mundo comenta, inclusive dentro do partido, que, a partir da entrada do presidente na campanha, suas chances de vitória aumentam. A sra. traz essa expectativa também?
- Do nosso ponto de vista já é dado que o presidente participa. Nós nunca achamos que ele vai chegar um dia e participar depois. O presidente é a maior liderança do PT, a maior liderança da coligação do governo, uma das maiores lideranças do País, uma das maiores lideranças do mundo…
- O fato de ter duas mulheres pela primeira vez concorrendo dará um tom diferente à campanha?
- Acho que as mulheres estão preparadas para pleitear as suas respectivas candidaturas e o Brasil está preparado para as mulheres agora. Penso que é muito importante que haja um olhar feminino sobre o Brasil. As mulheres são sensíveis e isso é uma grande qualidade. As mulheres são sensatas e objetivas até porque lidam na vida privada com condições que exigem isto. Ou você não conseguiria botar filho na escola, providenciar comida, mandar tomar banho, ir trabalhar… As mulheres também são corajosas: a gente segura dor, a gente encara.
- A sra. é a favor ou contra a reeleição?
- Sou a favor. Acho muito importante.
- A sra. cederia a possibilidade de uma reeleição para o presidente Lula, no caso de ele querer se candidatar em 2014?
- Ele já me disse para não responder a essa pergunta.
- Até quando a sra. vai obedecer cegamente o que ele manda?
- Lula não exige obediências cegas.
- A sra. acompanha futebol como o presidente Lula?
- Quero o Neymar e o Ganso na Seleção. Tenho muita simpatia pelo Ganso, aquele jeito meio desconcertado de falar. Mas gosto dos dois. Eles trouxeram alegria de volta para o futebol. Jogam de forma desconcertante e atrevida.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:44

Mantega:”Crescer 7% é exagero”

De Yan Boechat, da ‘Isto É’:
“O ministro da Fazenda, Guido Mantega, é um otimista, como ele próprio admite. Mesmo com o repique inflacionário do primeiro trimestre, Mantega está confiante de que o País encerrará o ano com a inflação dentro da meta estipulada pelo governo. Para ele, não faltam instrumentos do governo para conter a alta de preços sem precisar, necessariamente, ampliar a taxa de juros. Não opi­no sobre as decisões do Comitê de Política Monetária, diz. Re­ticente quanto à política monetária, Mantega é enfático sobre os resultados de sua gestão à frente do Ministério da Fazenda e não aceita insinuações de que a atual política econômica é um continuísmo dos anos de Pedro Malan. Que fique claro, é tudo diferente.
Disposto a ficar no governo até o último dia, garante que não pretende se envolver na campanha da ex-ministra Dilma Rousseff. Mas, mesmo assim, não perde a chance de cutucar o principal adversário do PT: Serra só conseguiu fazer os investimentos que fez porque nós permitimos que São Paulo ampliasse seu limite de endividamento.”
- Na última semana o sr. disse que o governo estaria disposto até a zerar a alíquota de importação do aço se houvesse aumento abusivo de preços. Existe uma pressão da indústria para recuperar as margens de lucro perdidas no ano passado?
- É natural que em um ano de aquecimento econômico alguns setores queiram recuperar suas margens. Agora, é preciso fazer isso dentro de certos parâmetros, porque, se exagerar na dose, a inflação volta mesmo e aí o governo terá que tomar medidas que vão impactar a economia.
- O governo já identificou esse problema?
- A indústria siderúrgica deu indicativos de que pretende aumentar os preços. Como sabemos que o minério de ferro está para sofrer reajustes altos no mercado internacional, não gostaríamos que isso contagiasse o aço porque ele é um insumo importante para uma grande cadeia produtiva: carros, máquinas e equipamentos, indústria naval.
- Há outros setores que preocupam o governo?
- Há uma atenção com a  construção civil, pesada e leve, mas até agora os principais insumos da cadeia não estão pressionando os preços.
- Muitos investimentos foram postergados por conta da crise e agora a economia está aquecida. Corremos risco de ter inflação de demanda?
- Antes da crise, os investimentos estavam crescendo quase 14% ao ano. Já houve uma retomada desse investimento. Há ainda capacidade ociosa e a indústria não retornou ao nível de produção do período de pré-crise. A inflação está sendo gerada na parte de alimentos, principalmente por conta das chuvas do início do ano. Mas agora que as coisas estão voltando ao normal a inflação já está cedendo. Posso garantir que nos próximos meses os preços dos alimentos irão cair.
- Então o sr. acredita que não haja necessidade de alta de juros para segurar a inflação?
- Se houver um surto inflacionário causado por demanda, não por um choque de oferta passageiro, aí devemos tomar medidas. Além dos juros, o governo tem muitos mecanismos para combater a inflação.
- O sr. ficaria surpreso se o Copom anunciassse na quarta-feira 28 uma elevação de um ponto percentual ou mesmo 0,75 ponto percentual, como está esperando o mercado?
- Não costumo me manifestar sobre o Copom. Ele tem autonomia, faz as análises e chegará a uma conclusão. O que posso dizer é que os índices que estão sendo divulgados nesta semana mostram uma queda da inflação.
- Mas qual é a sua opinião? É necessário um aumento dos juros?
- Não vou opinar na véspera da reunião do Copom. Quem sabe, depois.
- Há quem diga no mercado que podemos crescer 7%. O País tem capacidade para crescer a uma taxa dessa?
- Acho esse número exagerado. Estão projetando o crescimento do último trimestre do ano passado, que é um período de recuperação, mas não estão levando em consideração que estamos retirando vários estímulos que a economia tinha. Acabou a redução do IPI para automóveis, está acabando a redução do IPI para móveis, acabou o estímulo para a linha branca, enfim, as vendas não serão as mesmas.
- Há um otimismo exacerbado ou isso faz parte de uma pressão do mercado para ver os juros subirem com mais intensidade e rapidez?
- Acho que o mercado costuma exagerar, tanto para mais quanto para menos. Eles são ciclotímicos, às vezes exageram para menos, às vezes exageram para mais. Neste momento, o exagero é para cima. Acho que podemos crescer 5,5% ou 6%, sem inflação maior, o que é importante.
- O PSDB e o próprio ex-governador José Serra têm batido na tecla de que os ganhos econômicos e sociais do governo Lula são uma continuidade do governo FHC. O sr. se sente dando continuidade à gestão de Pedro Malan?
- Não vou fazer comparações, mas quem quiser comparar vai ver que a economia está crescendo muito mais do que antes. Crescemos o dobro do que crescíamos no passado, então algo deve ter mudado. Em sete anos vamos ter dez milhões de empregos com carteira assinada criados. É claro que o governo anterior deu uma contribuição. Agora, em termos de modelo de crescimento, mudamos por completo. É uma nova política econômica, que fique bem claro. O Estado tem um outro papel, agora ele incentiva e impulsiona a economia, o que não acontecia. Muita coisa mudou. Não é uma continuidade simplesmente.
- Uma das principais bandeiras do ex-governador José Serra será a questão do ajuste fiscal, e ele deve mostrar que investiu um volume considerável de recursos em obras de infraestrutura e manteve um superávit fiscal igual ou superior ao do governo federal. As contas públicas e o inchaço da máquina são o calcanhar de aquiles do governo nessa eleição?
- Os governos estaduais só conseguiram ter uma melhoria em sua gestão, em primeiro lugar, pelo impulso de crescimento que nós demos. Crescimento é o melhor antídoto para as contas públicas. Se não houvesse um crescimento do PIB como tivemos, não haveria aumento do ICMS, do ISS, do IPTU. A segunda razão é que o governo federal abriu um espaço fiscal para os Estados se endividarem. Sem o aval do Ministério da Fazenda, os Estados não podem contrair novas dívidas para investimento com organismos como o BNDES ou o Banco Mundial. Só em São Paulo demos quase R$ 14 bilhões de espaço fiscal para o Estado contrair empréstimos para investir em infraestrutura.
- O sr. entende então que as grandes obras realizadas por José Serra são mérito também do governo federal?
- Eu diria que metade dos investimentos de São Paulo se deu por conta da Secretaria do Tesouro, com a minha autorização. Não sei ao certo quanto foi investido em São Paulo, mas pelo menos metade vem dessa autorização que nós demos. Além disso, as obras também têm participação do PAC. Sem a ampliação do espaço fiscal, duvido que São Paulo e os outros Estados tivessem o desempenho que tiveram. Além disso, em São Paulo o governo injetou mais R$ 4 bilhões ou R$ 5 bilhões nos cofres do Estado ao comprar a Nossa Caixa e permitiu ao governador Serra fazer os investimentos que fez. O que é ótimo, nós trabalhamos de forma republicana. Então, ele teve todo o apoio necessário para fazer as obras que fez. No Rodoanel foi mais de R$ 1 bilhão de recursos federais.
- E a questão das contas públicas? São Paulo de fato conseguiu equilibrar suas contas, enquanto as críticas aos gastos de custeio do governo federal são crescentes.
- As contas públicas federais são dez vezes melhores do que no governo anterior. A nossa dívida pública é menor. É só comparar. O Serra foi ministro do Planejamento, assim como eu fui. Então, ele sabe muito bem como era a dívida pública. Era 54% do PIB. Agora, por causa da crise, chegou a 42%, mas vai voltar a cair e será entregue em torno de 35%.
- A economia será o cartão de visitas e a principal bandeira da ex-ministra Dilma Rousseff como candidata à Presidência. O sr. será um cabo eleitoral atuante?
- Vou me dedicar à gestão da economia. Estarei ocupado com a economia e não vou me dedicar à campanha política. Ajudarei nas horas livres, nos fins de semana ou com uma interlocução. Dilma é minha amiga, minha companheira.
- O esboço do plano de governo apresentado pelo PT fala muito em fortalecimento do papel do Estado e recebeu críticas fortes do setor produtivo. O sr. pretende fazer algum tipo de interlocução entre empresários e a candidata do governo para aparar possíveis arestas?
- O que tende a acontecer em caso de uma vitória da candidata situacionista é uma continuidade do que está acontecendo agora. É claro que em um outro patamar. A estratégia básica é a mesma, o papel do Estado será o mesmo. Não li esse documento do PT, mas acho que ele foi distorcido. Certamente o Estado em nossa gestão teve papel diferente, é isso o que estamos vendo. Um Estado que fomenta o crescimento, faz parceria com o setor privado e transferência de renda. Esse é o Estado que temos e não há choque com o setor privado, pelo contrário. Enfim, será a mesma coisa.
- Mas quais são as garantias de que não haverá uma mudança de rumo no papel do Estado em um eventual governo de Dilma?
- Eu posso garantir. Conheço o pensamento da ministra Dilma e tenho certeza de que essa é a linha que ela vai seguir.
- O sr. pretende dar essa garantia ao setor produtivo, convencê-lo de que nada vai mudar?
- Não cabe a mim fazer o trabalho político. Estou dedicado à gestão. Mas estou esclarecendo, conheço o pensamento dela, trabalhamos juntos todos esses anos. E sei que a proposta dela é continuar exatamente nessa linha, porque é uma linha de sucesso”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:24

Eleições e o futuro da internet

Sam Graham-Felsen, blogueiro responsável pela campanha de Barack Obama, esteve no Brasil há duas semanas e concedeu uma entrevista a Claudio Dantas Sequeira, da ‘Isto É’. Veja o seu texto:
“A eleição do presidente Barack Obama em 2008 foi um divisor de águas na forma de se fazer campanha política pela internet. Sites, blogs e o Twitter, além de permitirem maior interação com os eleitores, tornaram-se uma poderosa ferramenta de arrecadação. Quem conhece a fundo essa história é o jornalista americano Sam Graham-Felsen, que foi diretor da área de blogs da campanha online do candidato democrata, coordenada pela Blue State Digital. Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, Graham-Felsen conta que “mais de três milhões de doadores individuais contribuíram cada um com pouco mais de US$ 100, resultando num montante de US$ 500 milhões”. Segundo ele, “as campanhas nos Estados Unidos eram marcadas por grandes doações de um grupo de interesses, mas Obama rompeu com essa tradição”. Com base na experiência americana, Graham-Felsen acredita que em pouco tempo a televisão deixará de ser fundamental nas campanhas eleitorais. Quem assumirá seu papel, é claro, será a internet.
Na lógica do blogueiro, que esteve no Brasil há duas semanas, quando um grande número de pessoas comuns financia a campanha, o governo sente “uma obrigação maior de servir à população”. Formado em ciências sociais na Universidade de Harvard, Graham-Felsen se auto-define como um “estrategista digital”. Aos 28 anos, ele dirige a ONG de ativismo on-line “Aliança para Movimentos Juvenis” (Allyance for Youth Movements). Em sua opinião, a internet também pode ajudar candidatos que nunca disputaram uma eleição, como a petista Dilma Rousseff. “Quem usar a internet para envolver as pessoas na campanha certamente será beneficiado”, diz o blogueiro de Obama”.
                        * * *
- Como responsável pelo blog de Obama, o sr. tinha liberdade ou o comando da campanha interferia no processo?
- Eu era muito independente como blogueiro. A coordenação da campanha confiou em mim totalmente para transmitir suas mensagens com minha própria voz. Eu fiquei muito agradecido pela liberdade que eles me deram no blog e isso me ajudou a dar mais autenticidade ao discurso na internet. A ênfase na autenticidade do que você publica é o melhor caminho para construir um relacionamento com a base.
- E como era sua relação com Barack Obama?
- Obama vinha ao escritório ocasionalmente e tive algumas oportunidades de me reunir com ele. Mas ele passava a maior parte do tempo falando com os eleitores e tentando obter apoio.
- Fale um pouco da estrutura do blog. O sr. precisou montar uma equipe grande?
- Essa questão da estrutura é importante. A campanha investiu pesado na equipe de novas mídias. Tínhamos 85 pessoas no total. Ou seja, éramos um dos maiores departamentos de toda a campanha. Eu tinha três blogueiros trabalhando comigo diretamente, além de uma dúzia ou mais de blogueiros regionais que postavam especificamente sobre alguns Estados onde a disputa entre democratas e republicanos era mais acirrada. Eu mantinha contato diário com muitos dos melhores blogueiros em nível nacional e estadual, fornecendo a eles o que precisavam para cobrir a eleição.
- Aqui no Brasil, os políticos estão aderindo cada vez mais às novas mídias. O candidato tucano José Serra faz questão de postar pessoalmente seus comentários. Mas muitos admitem que postar no Twitter, por exemplo, toma-lhes muito tempo…
- De fato. Eu costumava trabalhar sete dias por semana, geralmente mais de 12 horas por dia. Com tantas coisas em jogo nessa eleição, nós sentíamos que tínhamos o dever de trabalhar por quantas horas fossem necessárias para causar impacto.
- O sr. acha que a televisão continuará a ter papel dominante nas campanhas políticas por muito tempo ainda?
- Em algum momento, a televisão deixará de ter esse papel e quem vai assumi-lo é a internet. A rede está provando ser uma arma poderosa para campanhas, porque com ela é muito mais fácil testar mensagens e público-alvo. Além disso, com a internet se gasta bem menos que com a tevê. Por outro lado, tevê e internet estão confluindo. Em poucos anos será possível ligar a tevê e ser imediatamente transportado para uma página de doação, como ocorre hoje nos sites.
- Uma das diferenças básicas entre a campanha da tevê e da internet é certamente a possibilidade de o eleitor interagir. Como era a interação com o blog? Vocês deixavam as pessoas comentarem o que era postado?
- Certamente. O blog recebia geralmente cerca de mil comentários para cada postagem. Nós sempre tentamos responder a esses comentários tanto quanto possível, mas não dava para atender todo mundo. Além disso, a maioria dos comentários era de apoio à campanha, em tom amigável. Mas também havia aqueles que aproveitavam o blog para atacar Obama.
- Mas vocês permitiam que as ofensas fossem publicadas?
- A menos que fossem comentários realmente ofensivos, nós geralmente permitíamos que as pessoas pudessem se expressar livremente no blog.
- Qual o real impacto que o blog e todas as ferramentas de internet podem ter em termos percentuais na conquista de votos?
- No caso de Obama, o blog ajudou a contar a história, não apenas dele, mas do movimento que ele inspirou. Nós criamos uma narrativa, a de que pessoas comuns podem realmente fazer a diferença em seu país. Isso foi muito inspirador. E o povo respondeu acima das expectativas. Nós conseguimos US$ 500 milhões em doações individuais e também reunimos milhares de voluntários. Eu acredito absolutamente que a internet foi decisiva para o sucesso de Obama.
- A campanha de Obama foi baseada numa forte mensagem: Yes, we can, que basicamente significa esperança. O segredo é apostar num único mote?
- Acredito que tivemos sucesso porque insistimos numa mensagem básica: pessoas comuns podem causar a mudança. Outras campanhas mudaram suas mensagens frequentemente, enquanto nós fomos consistentes e nunca oscilamos, mesmo quando as coisas não iam tão bem nas pesquisas de intenção de voto.
- A internet pode ajudar a tornar o financiamento eleitoral mais transparente ao estimular doações individuais?
- Eu realmente acredito que pequenas doações podem ter um poderoso impacto nas campanhas. No passado, as campanhas nos Estados Unidos eram marcadas por gran­des doações de um pequeno grupo de doadores. Mas a campanha de Obama rompeu com essa tradição. O meio bilhão de dólares arrecadados veio de três milhões de doadores individuais que doaram cada um pouco mais de US$ 100.
- É a tal história do grão em grão…

- Exatamente. A campanha de Obama mostrou que pequenos doadores, em grande quantidade, podem ter um peso maior que grandes doações de poucos doadores. Eu acredito também que, quando um grande número de pessoas financia uma campanha, o governo eleito sente uma obrigação maior de servir aos interesses da população de forma geral, em vez de servir a um grupo de interesses. Afinal, essas pessoas ajudaram o político a chegar lá.
- No Brasil, onde menos de 25% da população tem acesso à internet, essas ferramentas virtuais não tendem a ter um impacto limitado?
- Mesmo 25% da população pode trazer uma mudança significativa, caso se envolva mais nas eleições por causa da internet. Além disso, não podemos esquecer da interação dessa plataforma digital com os telefones celulares e há mais de 170 milhões de celulares em uso no Brasil. Isso também pode ter um grande impacto.
- Como a internet pode ajudar, por exemplo, a eleger alguém que   nunca disputou uma única eleição presidencial?
- Bem, os candidatos que usarem a internet para permitir que as pessoas comuns se envolvam em suas campanhas podem certamente se beneficiar dessas ferramentas. As pessoas se engajarão no processo político se elas sentirem que são levadas a sério por seus candidatos, que não estão sendo manipuladas, mas, sim, ouvidas no processo. E que esses mesmos candidatos lhes dão as ferramentas para poderem se envolver e se organizar em sua própria vizinhança.
- A que ferramentas o sr. se refere exatamente?
- A melhor maneira de mobilizar as pessoas é dar a elas tecnologias para que possam se organizar. Como disse antes, em vez de dizer a elas exatamente o que devem fazer, forneçam as ferramentas para que organizem comitês e eventos de arrecadação de fundos em suas próprias vizinhanças. Deixe-as toma a campanha em suas próprias mãos, fornecendo o suporte necessário.
- No Brasil haverá cerca de dez candidatos nestas eleições, mas apenas dois têm chances reais de vitória. A internet pode ajudar os pequenos a crescer durante a campanha?
- Definitivamente, a internet pode ajudar os candidatos menos conhecidos. Por exemplo, nos Estados Unidos, um candidato republicano pouco conhecido chamado Ron Paul usou a internet para ganhar visibilidade. Conseguiu arrecadar dezenas de milhares de dólares e teve destaque significativo nas primárias do Partido Republicano.
- O sr. acha que o blog pode ser usado para deter ou contrapor a repercussão negativa de eventuais escândalos envolvendo algum candidato?
- Bem, nós geralmente tentávamos usar o blog do Obama para transmitir suas propostas políticas e amplificar a mensagem de que a campanha em si era um movimento pela mudança. Nós não estávamos ali para responder a ataques a Obama porque não tínhamos tempo para mais nada.
- Mas vocês não reagiam aos boatos, que são um fenômeno inerente à internet?
- Sim, ocasionalmente nós respondíamos a falsos ataques, de modo que a verdade pudesse vir à tona. Por exemplo, nós criamos o site fightthesmears.com para combater mentiras e falsos rumores sobre Obama.
- Depois das eleições, Obama continua usando a plataforma da internet para conseguir apoio às suas políticas?
- Sim. O site whitehouse.gov é um grande exemplo de como governos podem ser mais transparentes e manter o diálogo com o público, mesmo depois do fim da campanha eleitoral”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:40

Na política, mulher é igual a homem

 Entrevista da historiadora Mary Del Priore à repórter Claudia Jordão, da ‘Isto É’:
“Em 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de Nova York declararam guerra aos patrõe s. Elas exigiam trabalhar dez horas por dia, em vez de 16, e ganhar mais do que apenas um terço do salário dos colegas do sexo masculino. Como resposta, foram trancadas no imóvel, incendiado em seguida. Resultado: 130 delas mor­­reram. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) fez da data o Dia Internacional da Mulher. Trata-se de uma homenagem a essas que foram as primeiras mártires da luta feminista, movimento que ganhou força nos anos 1960 e 1970 nos Estados Unidos e na Europa e que mudaria a vida das brasileiras a partir da década de 80.
Desde então, uma grande parcela da população feminina foi absorvida pelo mercado de trabalho, conquistou liberdade sexual e hoje, cada vez mais, se destaca na iniciativa privada, na política e nas artes ? mesmo que a total igualdade de direitos entre os sexos ainda seja um sonho distante. Mas, para a historiadora Mary Del Priore, uma das maiores especialistas em questões femininas, apesar de todas as inegáveis conquistas, as mulheres não se saíram vitoriosas. Autora de 25 livros, inclusive ?História das Mulheres no Brasil?. Mary, 57 anos, diz que a revolução feminista do século XX também trouxe armadilhas

chamada.jpg?Mulheres na política – Elas roubam igual, mentem igual, fingem igual. São tão cínicas quanto nossos políticos”

- Neste 8 de março, há motivos para festejar?
- Não tenho nenhuma vontade. O diagnóstico das revoluções femininas do século XX é ambíguo. Ele aponta para conquistas, mas também para armadilhas. No campo da aparência, da sexualidade, do trabalho e da família houve benefícios, mas também frustrações. A tirania da perfeição física empurrou a mulher não para a busca de uma identidade, mas de uma identificação. Ela precisa se identificar com o que vê na mídia. A revolução sexual eclipsou-se diante dos riscos da Aids. A profissionalização, se trouxe independência, também acarretou stress, fadiga e exaustão. A desestruturação familiar onerou os dependentes mais indefesos, os filhos.
- Por que é tão difícil sobreviver a essas conquistas?
- Ocupando cada vez mais postos de trabalho, a mulher se vê na obrigação de buscar o equilíbrio entre o público e o privado. A tarefa não é fácil. O modelo que lhe foi oferecido era o masculino. Mas a executiva de saias não deu certo. São inúmeros os sacrifícios e as dificuldades da mulher quando ela concilia seus papéis familiares e profissionais. Ela é obrigada a utilizar estratégias complicadas para dar conta do que os sociólogos chamam de ?dobradinha infernal?. A carga mental, o trabalho doméstico e a educação dos filhos são mais pesados para ela do que para ele. Ao investir na carreira, ela hipoteca sua vida familiar ou sacrifica seu tempo livre para o prazer. Depressão e isolamento se combinam num coquetel regado a botox.
- A mulher também gasta muita energia em cuidados com a aparência. Por que tanta neurose?
- No decorrer deste século, a brasileira se despiu. O nu, na tevê, nas revistas e nas praias incentivou o corpo a se desvelar em público. A solução foi cobri-lo de creme, colágeno e silicone. O corpo se tornou fonte inesgotável de ansiedade e frustração. Diferentemente de nossas avós, não nos preocupamos mais em salvar nossas almas, mas em salvar nossos corpos da rejeição social. Nosso tormento não é o fogo do inferno, mas a balança e o espelho. É uma nova forma de submissão feminina. Não em relação aos pais, irmãos, maridos ou chefes, mas à mídia. Não vemos mulheres liberadas se submeterem a regimes drásticos para caber no tamanho 38? Não as vemos se desfigurar com as sucessivas cirurgias plásticas, se negando a envelhecer com serenidade? Se as mulheres orientais ficam trancadas em haréns, as ocidentais têm outra prisão: a imagem.
- Na Inglaterra, mulheres se engajam em movimentos que condenam a ditadura do rosa em roupas e brinquedos de meninas. Por que isso não ocorre aqui?
- Sem dúvida, elas estão à frente de nós. Esse tipo de preocupação está enraizado na cultura inglesa. Mas aproveito o mote para falar mal da Barbie. Trata-se de impor um estilo de vida cor-de-rosa a uma geração de meninas. Seus saltos altos martelam a necessidade de opulência, de despesas desnecessárias, sugerindo a exclusão feminina do trabalho produtivo e a dependência financeira do homem. Falo mal da Barbie para lembrar mães, educadoras e psicólogas que somos responsáveis pela construção da subjetividade de nossas meninas.
- O que a sra. pensa das brasileiras na política?
- Elas roubam igual, gastam cartão corporativo igual, mentem igual, fingem igual. Enfim, são tão cínicas quanto nossos políticos. Mensalões, mensalinhos, dossiês de todo tipo, falcatruas de todos os tamanhos, elas estão em todos!
- Temos duas candidatas à Presidência. A sra. acredita que, se eleitas, ajudarão na melhoria das questões relativas à mulher no Brasil?
- Pois é, este ano teremos Marina Silva e Dilma Rousseff. Seria a realização do sonho das feministas dos anos 70 e 80. Porém, passados 30 anos, Brasília se transformou num imenso esgoto. Por isso, se uma delas for eleita, saberemos menos sobre ?o que é ter uma mulher na Presidência? e mais sobre ?como se fazem presidentes?: com aparelhamento e uso da máquina do Estado, acordos e propinas.
- Pesquisa Datafolha divulgada no dia 28 de fevereiro apontou que a ministra Dilma é mais aceita pelos homens (32%) do que pelas mulheres (24%). Qual sua avaliação?
- Estamos vivendo um ciclo virtuoso para a economia brasileira. Milhares saíram da pobreza, a classe média se robusteceu, o comércio está aquecido e o consumo de bens e serviços cresce. Sabe-se que esse processo teve início no governo FHC. Para desespero dos radicais, o governo Lula persistiu numa agenda liberal de sucesso. Os eleitores do sexo masculino não estarão votando numa mulher, numa feminista ou numa plataforma em que os valores femininos estejam em alta, mas na permanência de um programa econômico. Neste jogo, ser ou não ser Dilma dá no mesmo. No Brasil, o voto não tem razões ideológicas, mas práticas.
- Ou seja, o sexo do candidato não faz a menor diferença?
- O governo criou um ministério das mulheres (a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres) que não disse a que veio. A primeira-dama (Marisa Letícia), hábil em fazer malas e sorrir para o marido e para as câmaras, se limita a guardar as portas do escritório do presidente, sem estimular nenhum exemplo. O papel de primeira-dama é mais importante do que parece. É bom lembrar que, embora elas não tenham status particular, representam um país. Daí poderem desenvolver um papel à altura de seus projetos pessoais e sua personalidade. A francesa Danielle Mitterrand, que apoiou movimentos de esquerda em todo o mundo e nunca escondeu suas opiniões políticas, ou Hillary Clinton, pioneira em ter uma sala na Casa Branca, comportando-se como embaixatriz dos EUA, são exemplos de mulheres que foram além da ?cara de paisagem?.
- Por que as políticas brasileiras não têm agenda voltada para as mulheres?
- Acho que tem a ver com a falta de educação da mulher brasileira de gerações atrás e isso se reflete até hoje. Tem um pouco a ver com o fato de o feminismo também não ter pego no Brasil.
- Por que o feminismo não pegou no Brasil?
- Apesar das conquistas na vida pública e privada, as mulheres continuam marcadas por formas arcaicas de pensar. E é em casa que elas alimentam o machismo, quando as mães protegem os filhos que agridem mulheres e não os deixam lavar a louça ou arrumar o quarto. Há mulheres, ainda, que cultivam o mito da virilidade. Gostam de se mostrar frágeis e serem chamadas de chuchuzinho ou gostosona, tudo o que seja convite a comer. Há uma desvalorização grosseira das conquistas das mulheres, por elas mesmas. Esse comportamento contribui para um grande fosso entre os sexos, mostrando que o machismo está enraizado. E que é provavelmente em casa que jovens como os alunos da Uniban aprenderam a ?jogar a primeira pedra? (na aluna Geisy Arruda).
- O que nos torna tão desconectadas?
- As mulheres brasileiras estão adormecidas. Falta-lhes uma agenda que as arranque da apatia. O problema é que a vida está cada vez mais difícil. Trabalha-se muito, ganha-se pouco, peleja-se contra os cabelos brancos e as rugas, enfrentam-se problemas com filhos ou com netos. Esgrima-se contra a solidão, a depressão, as dores físicas e espirituais. A guerreira de outrora hoje vive uma luta miúda e cansativa: a da sobrevivência. Vai longe o tempo em que as mulheres desciam às ruas. Hoje, chega a doer imaginar que a maior parte de nós passa o tempo lutando contra a balança, nas academias.
- Há saída para a condição da mulher de hoje?
- Em países onde tais questões foram discutidas, a resposta veio como proposta para o século XXI: uma nova ética para a mulher, baseada em valores absolutamente femininos. De Mary Wollstonecraft, no século XVIII, a Simone de Beau­voir, nos anos 50, o objetivo do feminismo foi provar que as mulheres são como homens e devem se beneficiar de direitos iguais. Todavia, no final deste milênio, inúmeras vozes se levantaram para denunciar o conteúdo abstrato e falso dessas ideias, que nunca levaram em conta as diferenças concretas entre os sexos. Para lutar contra a subordinação feminina, essa nova ética considera que não se devem adotar os valores masculinos para se parecer com os homens. Mas que, ao contrário, deve-se repensar e valorizar os interesses e as virtudes feminina s. Equilibrar o público e o privado, a liberdade individual, controlar o hedonismo e os desejos, contornar o vazio da pós-modernidade, evitar o cinismo e a ironia diante da vida política. Enfim, as mulheres têm uma agenda complexa. Mas, se não for cumprida, seguiremos apenas modernas. Sem, de fato, entrar na modernidade.
- O que as mulheres do século XXI devem almejar?
- O de sempre: a felicidade. Só com educação e consciência seremos capazes de nos compreender e de definir nossa identidade”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:27

Zé Dirceu e Jefferson, sem comentários

José Dirceu e Roberto Jefferson, os dois principais figurantes da novela que ficou conhecida como ‘Mensalão’, tem blogs.
Normalmente, eles escrevem de segunda a sexta, e descansam sábado e domingo.
Hojes, entretanto, os dois trabalharam.
Mas não escreveram uma única linha sobre a reportagem da revista ‘Isto É’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

Pimentel sofre ataque especulativo

De Renata Lo Prete:
“Embora não exista denúncia do Ministério Público contra Fernando Pimentel (PT), a reportagem da revista “IstoÉ” ligando-o ao empresário Glauco Diniz, por sua vez suspeito de remeter dinheiro a Duda Mendonça no exterior dentro do esquema do mensalão, enfraquece a posição do ex-prefeito de Belo Horizonte no jogo da pré-campanha em Minas Gerais.
Aliados de Pimentel enxergam na denúncia a digital de adversários externos (o peemedebista Hélio Costa) e/ou internos (o ministro Patrus Ananias). A história colhe o ex-prefeito num momento em que Lula já trabalhava para retirar os petistas de cena e fazer de Costa o candidato único do governo no Estado.
Glauco Diniz Duarte, que segundo denúncia do Ministério Público Federal usou sua empresa para enviar dinheiro a Duda Mendonça na época do mensalão, é filho de Haroldo Duarte, dirigente do PDT de Anápolis (GO). Haroldo vem a ser primo do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles (PMDB).
O convênio da empresa de Glauco Diniz com a Prefeitura e BH se referia à instalação de câmeras de monitoramento pela capital mineira. Segundo o Ministério Público, o material foi superfaturado, e as notas fiscais saíram de empresas fantasmas”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

Indignado, Pimentel nega envolvimento

O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT), um dos coordenadores da campanha da ministra-candidata Dilma Rousseff, negou nesta sexta (26), para o blog do jornalista Claudio Humberto que teria sido um dos principais operadores do mensalão petista, como afirmou a revista IstoÉ. Segundo a reportagem, com base numa investigação promovida pela 4ª Vara Criminal Federal de Minas Gerais, Pimentel é apontado como um dos responsáveis pela remessa ilegal de recursos ao exterior. Pimentel negou que tenha sido inquirido, indiciado ou denunciado no processo e classificou as denúncias de ?absurdas e descabidas”.

                                   * * *
Para a repórter Clarissa Oliveira, do ‘Estadão’, Fernando Pimentel deu uma entrevista mais ampla:
- Como o sr. recebeu a reportagem?
- Com indignação. É claramente uma tentativa de jogar suspeição sobre mim, em um momento em que estou vinculado diretamente à campanha presidencial da ministra Dilma. É um jeito de desviar a
atenção do foco principal hoje, que são os escândalos do Democratas em Brasília. Fiquei indignado porque o que está posto na matéria é absurdo, não tem qualquer fundamento, como o futuro comprovará. Mas na vida pública, hoje, estamos sujeitos a esse tipo de calúnia.
- O sr. fala em calúnia, mas há uma investigação concreta contra o sr. em Minas, que é mencionada.
- Deixa eu explicar. Nunca houve qualquer ação judicial envolvendo a CDL de Belo Horizonte e a prefeitura. Esse inquérito civil público ao qual eles se referem não virou uma ação. Nunca entrou na Justiça, nunca houve procedimento judicial. É uma investigação do Ministério Público Estadual que concluiu que não tinha nada. Simplesmente não virou ação. Então, nunca houve questionamento judicial com relação a esse convênio. É simples assim. Trata-se de um convênio para colocar câmaras no centro da cidade, o chamado Projeto Olho-Vivo. Foi feito, as câmaras foram colocadas, quem fez a instalação foi a Câmara dos
Diretores Lojistas e a prefeitura entrou financiando essa instalação. Depois, foi repassado o convênio à Polícia Militar de Minas Gerais, que é quem o gerencia atualmente. O projeto existe, funciona, é um grande sucesso. Não há nenhuma suspeição sobre o convênio, tanto é que não houve uma ação. A ilação que
está sendo feita, uma forçação de barra completa, é porque um dos diretores da CDL à época do convênio depois foi arrolado no  inquérito do mensalão como doleiro. Como tendo uma empresa offshore que fazia remessas ao exterior.
- O sr. fala do Glauco Diniz. Qual é seu relacionamento com ele?
- Nenhum. Nunca estive com ele na minha vida. Ele simplesmente assinou, entre outros tantos diretores da CDL. O sujeito, naquele ‘a fin’ de querer envolver mais um homem público, prefeito do PT, mais alguém, ele fala: ‘Ah, olha, esse Glauco Diniz, agora apontado como doleiro, assinou um dia um convênio com um prefeito do PT. E quem fez a campanha desse prefeito foi o Duda Mendonça. Então olha, tá vendo, estão mandando dinheiro ao exterior’. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. É uma ilação absurda, falsa, inaceitável, e evidentemente não virou nada. Nunca fui inquirido, arrolado, intimado, indiciado nem
denunciado em qualquer processo desses muitos processos do mensalão.
- O sr. disse que isso está sendo colocado porque o sr. está na campanha de Dilma. O sr. acha que é uma operação da oposição?
- Não vou ser leviano a esse ponto, mas acho que é muita coincidência que justamente no momento em que estou com uma exposição grande, não como prefeito, mas como supostamente um dos coordenadores da campanha de Dilma, vem um vazamento de um documento carimbado como sigiloso, o que não é, a meu ver, prova de nada. Esse procurador diz ‘há indícios de que…’. E esse vazamento serve para que a revista diga de maneira malévola que sou operador do mensalão. De onde tiraram essa coisa absurda?

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

A ‘Isto É’ e o ‘Mensalão’ – 3

AS TESTEMUNHAS DO CAIXA 2 

A ação penal no STF traz depoimentos inéditos de testemunhas que comprovam definitivamente grandes movimentações de ?dinheiro não contabilizado?, expressão usada pelo petista Delúbio Soares para
justificar o Mensalão. Os testemunhos surpreendem, não apenas pelo seu valor jurídico, mas pela naturalidade com que os envolvidos tratam de uma questão criminal como se fosse algo rotineiro. Ex-presidente do Banco Popular do Brasil, Ivan Guimarães confirmou na Justiça Federal em São Paulo, no dia 27
de maio de 2009, que o PT movimentou dinheiro sujo. ?Boa parte da crise era devido a esses empréstimos que não constaram da contabilidade, o caixa 2?, disse Guimarães, dando detalhes dos empréstimos que o PT fez no Rural e no BMG. ?Tomei conhecimento destes empréstimos. Eu não me lembro o valor total, mas era algo superior a 40 milhões (de reais).? Guimarães afirmou ter participado das reuniões que escolheram a agência de Marcos Valério para trabalhar nas campanhas do Banco do Brasil, mas responsabilizou o conselho diretor e o ex-diretor Henrique Pizzolato.
Pelos depoimentos, fica evidente que práticas ilegais eram cotidianas nos escritórios dos partidos políticos. Funcionários das legendas não se constrangem ao se declarar abertamente como laranjas do esquema. Coordenadora da campanha do PP em 2004 no Paraná e secretária do ex-deputado José Janene (PP), Rosa Alice Valente confirmou à Justiça em 2009 que sua conta bancária foi utilizada pelo PP para receber dinheiro do PT nacional. O dinheiro chegava através da corretora Bônus Banval, que lavava o dinheiro do Mensalão. ?O deputado me disse que foi feito um acordo entre o PT e o PP e que o Enivaldo Quadrado (então dono
da Bônus Banval) iria me ligar e daí iria passar na minha conta pra mim (sic) repassar?, disse Rosa. Entre casos já conhecidos e outros só agora descobertos, as confissões surgem de todo lado. Em Alagoas, o deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), revelou na Justiça ter recebido R$ 80 mil ?não contabilizados? do PT. O dinheiro, segundo ele, era liberado por Delúbio Soares. Presidente do PT no Tocantins na época das fraudes, Divino Nogueira revelou que recebeu dinheiro de caixa 2 do PT nacional,
enviado por Delúbio. O ex-deputado baiano Eujácio Simões, que era do extinto PL, afirmou ter recebido R$ 30 mil de caixa 2 do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), um dos principais protagonistas do esquema.

Em alguns relatos, os detalhes são tão ricos quanto as quantias movimentadas irregularmente pelos políticos. É o caso do testemunho do empresário José Carlos Batista, sócio da Garanhuns Empreendimentos, empresa que ficou conhecida na época do Mensalão como lavanderia do Mensalão. Réu no processo, Batista decidiu contar tudo o que sabe para ser beneficiado pelo instrumento da delação premiada. Foi ouvido na condição de informante. Pela primeira vez, disse que era dono da Garanhuns apenas no papel porque, na verdade, era ?laranja? do verdadeiro dono da empresa, Lúcio Funaro, amigo de Costa Neto. Batista esmiúça como entregou pessoalmente, a pedido de Funaro, quase R$ 3 milhões do esquema do PT para o deputado do PL bancar a campanha eleitoral de 2004. O dinheiro foi entregue na sede do PL em São Paulo. Eram recursos repassados a Funaro por Valério com base em um ?contrato fictício? de compras de certificado de
reflorestamento da Garanhuns para a SMP&B. Já se sabia que a Garanhuns fora usada por Valério para esquentar o dinheiro repassado do caixa 2 do PT para o PL. O publicitário sempre negou. Em seu depoimento, Batista não só se define como ?laranja? como cria dificuldade para aqueles que querem contestar a sua versão do fato pela quantidade de informações que forneceu à Justiça. Ele cita modelos de veículos em que o dinheiro foi carregado em ?caixas de papelão?, horários de voos, nomes de intermediários e destinos do dinheiro, como a cidade de Mogi das Cruzes, no interior paulista. São esses detalhes que irão influenciar o ministro relator na hora de confrontar depoimentos contraditórios.

A PALAVRA DOS PRESIDENTES

Não é comum que presidentes ou ex-presidentes da República sejam sabatinados por juízes, mas entre os novos documentos do Mensalão estão depoimentos de Fernando Henrique Cardoso e do vice-presidente José Alencar. FHC foi arrolado como testemunha de defesa do ex-deputado Roberto Jefferson e prestou um longo depoimento. Suas declarações na 2ª Vara Federal Criminal Especializada em Crimes Contra o Sistema Financeiro Nacional e Crimes de Lavagem, em São Paulo, em junho do ano passado, somam dez laudas. ?O deputado Roberto Jefferson é um batalhador?, disse Fernando Henrique. ?Ele é assim, por bem ou por mal ele toma a posição, ele vai em frente.? Fernando Henrique discorreu sobre as diferenças entre seu governo e o do presidente Lula e aproveitou para dar uma estocada no PT. Ele disse que o partido de Lula costuma ?transformar em escândalo qualquer caso, muitas vezes sem ter sido apurado?. E acha que o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (PT-SP) são responsáveis por ?essa postura?. A provocação de FHC acabou sendo assimilada. Há poucas semanas, o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, admitiu: ?O PT nasceu questionando as instituições tradicionais, mas foi adquirindo vícios. Até o
vício da corrupção, que infelizmente entrou em nosso partido.?

Também prestou depoimento no caso do Mensalão o vice-presidente José Alencar. Na época do escândalo, Alencar estava filiado ao PL, o partido do deputado Valdemar Costa Neto. Alencar recebeu da Justiça as perguntas por escrito e se manifestou rapidamente. Afirmou que só soube dos repasses financeiros do PT para o PL quando o ex-deputado Roberto Jefferson fez a denúncia do Mensalão. Disse que durante as negociações para a formação da chapa presidencial eleita em 2002 em nenhum momento participou
de discussões envolvendo o financiamento da campanha e que nunca tratou sobre o assunto com o presidente Lula. O presidente, ao contrário de Alencar que se prontificou a colaborar com as
investigações e em apenas duas semanas respondeu ao questionário, tem se esquivado de falar sobre o Mensalão. No dia 10 de agosto do ano passado, a juíza Pollyanna Kelly Martins Alves, da 12ª Vara da Justiça Federal de Brasília, enviou ofício diretamente ao Palácio do Planalto, informando que Lula está arrolado como testemunha no ?processo do Mensalão?. E redigiu: ?Conto com a compreensão de Vossa Excelência em colaborar com o Poder Judiciário.? A seguir, a juíza pede a Lula que ?indique dia e hora que melhor lhe convier? para comparecer à Justiça, ou ainda que ?manifeste interesse em encaminhar respostas por escrito, se assim lhe aprouver, observando o intervalo entre 14 de setembro de 2009 e 30 de outubro de 2009?. Já se passaram quatro meses do prazo sugerido pela juíza e Lula não se prontificou até agora a enviar as respostas, nem sequer por escrito.

O Mensalão do PT foi o primeiro a ser descoberto, em 2005, e nos últimos cinco anos vem sendo investigado. Depois dele, surgiram o Mensalão Tucano, revelado por ISTOÉ em setembro de 2007, e o
Mensalão do DEM, no final de 2009. Os esquemas são semelhantes e mostram que a prática do caixa 2 e da compra de apoios políticos não é privilégio de um único partido político. Como todos têm seu mensalão, é até possível que se depender dos políticos esses crimes permaneçam impunes. A boa notícia é que o Judiciário tem dado mostras de que esse quadro poderá ganhar novas molduras. No caso do Mensalão do DEM, um governador está preso preventivamente e, se depender do potencial dos novos documentos
em poder do relator Joaquim Barbosa, o STF tem elementos de sobra para não manter a impunidade no caso do Mensalão do PT, ainda que cinco anos depois.

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