• Sexta-feira, 07 Janeiro 2011 / 17:29

EUA confiam em Dilma

     Em entrevista a repórter Leda Balbino, do iG, O embaixador dos EUA no Brasil,
Thomas Shannon, disse que a relação de seu país com a Presidenta Dilma Rousseff é bastante positiva e eles conversam desde a época em que ela ocupava a Secretaria de Minas e Energia no Rio Grande do Sul.
O embaixador falou do Irã, do etanol, do WikiLeaks, da visita de Obama ao Brasil e
revelou que o crescimento econômico do país o levará, em futuro próximo, a dispensa
do visto para quem for visitar os Estados Unidos.
Veja a entrevista:

- A presidente Dilma Rousseff não adotou a praxe de visitar os EUA antes da posse e não manteve um encontro bilateral com Hillary em Brasília em 1º de janeiro. Além disso, até março visitará Argentina, Peru e Paraguai, sem data definida para uma viagem a Washington. Isso indica a continuidade da política de priorizar a América Latina e as relações Sul-Sul em detrimento dos EUA?
- Não. Obama e Dilma conversaram várias vezes quando ela ainda era ministra,
depois como presidenta eleita e antes da posse. O convite para a viagem aos EUA foi
um gesto de nossa parte, para nos aproximar e conversar com ela. O presidente Obama entendeu que naquele momento ela trabalhava para montar seu gabinete, e ficamos satisfeitos com a resposta, que foi: “Sim, mas agora não.” Estamos trabalhando com a Presidência e o Itamaraty para definir uma data, que será dentro dos próximos meses. Mas também entendemos a importância para o Brasil de cuidar das relações com os vizinhos. Historicamente é comum para o presidente dos EUA ir primeiro ao Canadá ou México antes de iniciar outras viagens internacionais. Entendemos se o Brasil dota a mesma prática.
- E uma viagem de Obama ao Brasil?
- Ao falar com Dilma, o presidente Obama mostrou interesse em visitar o Brasil. É
uma questão de agenda. O ano passado impediu a viagem por tudo o que aconteceu,
desde o (vazamento de petróleo no) Golfo do México, a reforma da saúde pública até
as eleições (legislativas dos EUA) em novembro.
- No início de 2010, o sr. escreveu um telegrama diplomático dizendo que Dilma, que então se preparava para iniciar a campanha eleitoral, “claramente não é Lula.” O que queria dizer?
- Não posso fazer comentários sobre esses telegramas (vazados pelo site WikiLeaks).
Mas posso dizer que os EUA começaram uma relação com Dilma Rousseff em 1992, quando ela trabalhava no Rio Grande do Sul e visitou o país em um programa de lideranças internacionais. Em diferentes momentos de sua carreira tivemos uma relação positiva e colaborativa. Temos uma opinião favorável e positiva sobre ela, e muito interesse em trabalhar com seu governo. Eu a conheci quando ela era ministra de Minas e Energia, depois titular da Casa Civil, e ela me recebeu em Brasília várias vezes quando eu era subsecretário, sempre me tratando com muita hospitalidade. Foram nesses encontros que conheci a Dilma superinteligente, muito criativa e com um pragmatismo e uma capacidade de entender problemas e procurar soluções que para nós são essenciais.
- Para o sr., o futuro da relação entre Brasil e EUA não está nas questões bilaterais, mas nas globais. No entanto, nos últimos anos, o relacionamento entre os dois países foi marcado por atritos fora da esfera bilateral, como no caso do Irã. Qual a expectativa com Dilma no poder?
- Minha visão de futuro é bem otimista. Em primeiro lugar, temos interesses e
valores comuns – e eles são mais importantes que as diferenças. Em segundo, a
relação é bem dinâmica por causa das mudanças por que passam o mundo e o Brasil.
Por isso, as possibilidades de colaboração aumentam com a transformação doméstica e global brasileira. Isso não quer dizer que a relação será positiva gratuitamente.
Temos de entender seu dinamismo, o novo espaço onde Brasil e EUA podem trabalhar juntos, e necessitamos de criatividade para identificar as áreas onde podemos colaborar.
- Quais são essas áreas?
- Na segurança energética colaboramos não só em biocombustíveis, mas também em
cidades verdes que diminuam o uso de hidrocarbonetos. Há espaço para expandir a
colaboração no setor alimentar, principalmente porque Brasil e EUA têm capacidade e responsabilidade importantes nessa área por provavelmente serem os mais fortes na produção agrícola e de alimentos. Na área de não-proliferação, há um diálogo
excelente que nos permitirá trabalhar juntos em fóruns internacionais e para
aprimorar a capacidade mundial em proibir a proliferação de certos tipos de armas.
Outra área de cooperação é a da luta contra o crime organizado e a violência
transnacional. Com sua Polícia Federal, o Brasil está assumindo um papel cada dia
mais importante na América do Sul e tem muito interesse em colaborar em nível
internacional. E, finalmente, o Brasil vem se estabelecendo como um país doador de
assistência ao desenvolvimento, sendo o único com a experiência de desenvolver-se
internamente enquanto se transforma em um Estado doador. Isso abre um importante espaço de colaboração entre o Brasil e doadores já estabelecidos – sejam EUA, Canadá, países da União Europeia – por causa da capacidade agrícola e em saúde pública brasileiras. Cooperamos com o Brasil em Moçambique, na luta contra a aids, e no Haiti, no combate à malária.
- Para o sr., o Brasil é um poder global com interesses regionais e
responsabilidades internacionais. A crítica de Dilma à situação de direitos humanos no Irã, especificamente sobre a questão do apedrejamento, seria uma mostra do reconhecimento dela sobre essa responsabilidade?
- Sim, e também expressa sua maneira de ver o mundo como uma pessoa que foi
prisioneira política, sofreu tortura, entende a luta da mulher não somente dentro
de um sistema político, mas na sociedade. Indica que ela tem uma compreensão
especial sobre pessoas vulneráveis por razões de gênero ou posições políticas. É
interessante que antes e depois da entrevista ao “Washington Post”, ela tenha
falado abertamente e com força sobre valores. Na posse, ela defendeu a liberdade
de imprensa, de expressão, os direitos humanos de uma maneira bem clara, e isso é
importante.
- Nessa entrevista, porém, ela não abordou a questão nuclear iraniana. O que se espera do governo Dilma nesse tema?
- É importante entender e lembrar que o Brasil se comprometeu a seguir a resolução
das sanções, e para nós isso é o importante. Nesse momento, o Brasil está com o
resto da comunidade internacional, implementando as sanções e procurando uma
maneira de convencer o Irã a voltar à mesa de negociações de uma maneira a melhorar a confiança mundial sobre seu programa nuclear. Então, os EUA e o Brasil estão no mesmo lugar.
- Mas há expectativa de uma atuação mais comedida, como por exemplo evitando encontros diretos com o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad?
- Essa não é uma questão só entre o Brasil e os EUA. É uma responsabilidade
compartilhada na comunidade internacional. É importante que os países que querem
defender o uso pacífico da energia nuclear, o uso civil, falem claramente sobre o uso ilegal do poder nuclear para fins bélicos. E nesse sentido os países que assumem responsabilidade nessa área, sejam o Brasil, a Rússia, a China, os EUA, Inglaterra, França, Alemanha, têm de falar de uma maneira clara com o Irã. E nossa diplomacia está tentando trabalhar com todos esses países para assegurar uma mensagem clara e compreensível.
- O sr. reconhece a necessidade de reformar a ONU para permitir a ascensão de países como Brasil e Índia. Obama, porém, defendeu a Índia nesse sentido, aceno que o Brasil esperava há tempo. A posição brasileira sobre o Irã prejudicou suas pretensões de integrar o Conselho de Segurança como membro permanente?
- Para considerar a reforma do Conselho de Segurança da ONU (CS/ONU), temos de
falar dos países que historicamente mostraram interesse e compromisso com os temas mundiais e trabalham para fortalecer as regras e práticas do sistema internacional. O Brasil obviamente faz parte dessa categoria. Foi um dos fundadores da ONU e sempre assumiu suas responsabilidades dentro da comunidade internacional com consciência. O papel do País (na liderança das tropas de paz da ONU no) Haiti é uma mostra disso. Claro que às vezes haverá diferenças dos EUA com Brasil, Índia, com outros membros historicamente mais próximos, como o Reino Unido, mas isso em si mesmo não significará um veto. Na atual discussão sobre a reforma do CS/ONU, não importa a posição que o país “X” ou “Z” tomou sobre certo tema, mas como integrar os interesses complicados dos países que querem entrar no CS/ONU com os que já estão lá. Isso não é nada fácil, mas é necessário encontrar uma solução, porque o CS/ONU do século 21 precisa de reforma. O atual conselho reflete algo importante, mas não tudo. Ele não reflete os países emergentes, que procuram voz, e esse é o problema.
- Os EUA foram ultrapassados pela China como principal parceiro comercial do Brasil e também devem ser superados em fluxo de investimentos. Os EUA perdem espaço no Brasil?
- Temos de fazer muita coisa. As relações comerciais entre os dois países são
importantes e significativas – acho que o comércio total é de US$ 50 bilhões –, mas
os dois países poderiam melhorar dramaticamente seu comércio bilateral, e não
devemos aceitar a relação como é hoje. Temos de melhorá-la, promover investimentos nos dois países e a venda de nossos produtos. Mas há algo interessante ocorrendo nessa relação econômica ou comercial que não acontece nas relações do Brasil com a China ou outros parceiros. Há um crescimento da interdependência entre as companhias e as economias americanas e brasileiras, no que é conhecido como “supply chain rate”. Por exemplo, uma companhia nos EUA produz componentes para aviões e os vende a uma empresa no Brasil, que constrói ou o avião ou outro componente para depois vendê-los nos EUA ou em um terceiro mercado, como faz a Embraer. Então, as companhias dependem cada dia mais umas das outras, e vemos isso cada vez mais nos setores de aviação, automobilístico. Esse crescimento é bem interessante e indica que o Brasil está assumindo um papel cada vez mais importante na economia americana e vice-versa. Mas, ainda assim, nosso nível de comércio não é suficiente.
- Qual a razão disso? O crescimento da China é um fator?
- Em termos absolutos, o comércio se manteve ou está crescendo, mas com a
globalização o Brasil construiu uma relação comercial de muita diversidade, o que é
saudável. No entanto, não podemos aceitar um distanciamento. A ascensão da China
não é um problema, mas sim estarmos perdendo oportunidades. Se outros países e
companhias reconhecem isso e vendem mercadorias que queríamos vender não é problema deles, mas nosso. Nós temos a culpa. Não vou culpar os chineses por vender aqui.
- O pacote fiscal aprovado em dezembro pelo Congresso dos EUA prevê a prorrogação da tarifa de importação e do subsídio ao etanol de milho no país. Segundo organizações que defendem o fim dos subsídios, a prorrogação abre a possibilidade de uma batalha do Brasil na Organização Mundial do Comércio. Como o sr. vê isso?
- O futuro do biocombustível depende da capacidade dos EUA e Brasil de encontrar
matérias-primas mais diversas que a cana de açúcar e o milho. Para que os
biocombustíveis se tornem uma commodity que possa competir com os hidrocarbonetos, precisam de uma fonte biológica superior aos dois. O Brasil e os EUA não podem depender de uma fonte de energia que venha só de um produto agrícola. Essa maneira de ver a questão como uma briga pelo acesso ao mercado do etanol de cana ou milho é como, ao princípio do século 20, discutir se um cavalo deveria ser estimulado a andar mais com o chicote ou por outro meio enquanto o carro chegava à economia. Essa disputa é uma controvérsia que causa retrocesso e não se volta para futuro. Mas estamos trabalhando nisso com o acordo sobre biocombustíveis e o trabalho internacional para tentar construir regras para fazer uma commodity confiável de biocombustíveis.
- Como o Brasil está próximo dos 97% de aprovação para seus pedidos de visto, os EUA estudam a possibilidade de isentar o País da exigência do documento?
- Apesar de importante, o nível de aprovação é apenas um dos requisitos para o
programa de isenção. O Brasil vem obtendo avanços muito importantes, mas
obviamente isso é um processo que toma tempo, porque é uma decisão grande eliminar a necessidade de visto. Mas um Brasil que sairá da posição de oitava ou sétima economia do mundo para tornar-se quinta ou quarta, um Brasil onde a classe média cresce a cada dia, seria um candidato excelente.
- Qual é o impacto dos vazamentos de documentos diplomáticos dos EUA pelo WikiLeaks? O episódio é somente um embaraço para Washington, diminuindo sua confiabilidade como parceiro diplomático, ou realmente ameaça o país e seus parceiros?
- Vamos sobreviver ao WikiLeaks. E vamos sair fortalecidos de certa forma, pois
(os vazamentos) indicaram algumas áreas débeis em nosso sistema de proteção de
informação. Mas os países que têm relação conosco vão mantê-la pelo simples fato de
sermos um país importante no mundo. Outros Estados têm interesse em falar e
colaborar conosco e entender o que pensamos. Isso não vai diminuir. Mas o WikiLeaks tem um lado perigoso, porque seu propósito foi reduzir o espaço da conversa privada, confidencial com parceiros, o que na diplomacia é essencial para a troca de ideias e busca de soluções para chegar a um consenso. Abrir todos os espaços de diálogo não é bom, e indica da parte dos “WikiLeakers” um entendimento velho do mundo. Hoje a grande parte de nosso sistema para proteger informação não tem esse
propósito. O objetivo é construir espaços de diálogo dentro de governos e entre eles para chegar a decisões acertadas que não sejam expostas a pressões políticas e públicas.
- O sr. fala em confidencialidade, mas o sistema em que os telegramas eram distribuídos foi criado na década de 90 e podia ser acessado por 2,5 milhões de pessoas. Não houve uma falha dos EUA em não garantir uma melhor segurança de comunicação secreta e confidencial?
- Somos um país e governo grandes, estamos em todas as partes do mundo, e esse
número representa muito menos de 1% da população americana. Essa comunicação
mostra que temos um sistema de governo bastante aberto internamente. Dentro dele não há ilhas superprotegidas. Especialmente depois do 11 de Setembro de 2001,
aumentamos o fluxo de comunicação para melhorar a capacidade das agências de
compartilhar informação. Ou seja, o propósito da confidencialidade não é guardar ou
esconder informação, é usá-lo de uma forma inteligente.

  • Quarta-feira, 29 Setembro 2010 / 19:39

Weslian e a defesa da corrupção

O vídeo foi postado no YouTube pelo jornalista Tales Faria, chefe da sucursal do iG em Brasília.

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:35

Lula e Dilma Rousseff

     ”A Dilma, ela tem inteligência acima da média das pessoas que eu conheço. A capacidade da Dilma de captar as informações que ela recebe é extraordinária. Sabe, eu sempre disse que as pessoas iriam se surpreender, porque quando a Dilma não era política, quando eu propus o nome da Dilma, você vai conversar com político mais experiente eles falam assim: ‘Ah, o Lula tá por fora. Está indicando uma mulher que ninguém conhece, uma mulher que nunca fez política, não tem nenhuma experiência, nunca participou de um debate. Ah, ela vai ser triturada”. Por que as pessoas não a conheciam.
Então, ela é inteligente, tem uma capacidade de captação das coisas e de aprendizado rápido, o que é extraordinário. E tem o aprendizado. Alguém dizia: ‘A Dilma não vai conseguir falar em palanque’. Vai num comício pra vocês verem a desenvoltura. Sabe, ela fala melhor do que o Lula. Eu acho que ela vai entrar numa situação mais confortável do que eu entrei.
Na verdade, ela ajudou a construir isso. Ela…Com a garantia de que eu estarei de prontidão para não permitir que não tentem fazer com ela todas as sacanagens que tentaram fazer comigo.
Eu sou um homem de rua. Eu sou um homem que o meu forte na política não é dentro de um gabinete com ar condicionado, recebendo…Sabe, o meu forte é na rua conversando com as pessoas. É dali que eu extraio a minha energia, é ali que meus adversários ficam preocupados, é dali que algumas pessoas insinuam bobagem, como o Fernando Henrique Cardoso insinuou.
Não sei se vocês..Eu já tive experiência de perda de uma esposa. A gente não sofre muito no primeiro momento, ou seja, um dia cai a ficha que alguém que não existe nunca mais. É o dia que você se dá conta, sabe, que ela não existe mais. O governo, você se não tomar cuidado você sai do governo e fica querendo dar palpite, porque você vai parar de dar autógrafo, vai parar fazer comício, e é importante que seja assim.
Eu quero ensinar para algumas pessoas como é que um ex-presidente tem que se comportar. É fechando a boca e deixando quem foi eleito governar. Quem governou teve a sua chance, fez o que tinha que fazer, dá palpites sem ser pedido. Sem for para ajudar, para atrapalhar nunca. E tem que deixar quem foi eleito governar. Até o direito de errar, que ele tem o direito de errar. Até para aprender com seus olhos.
Quem é eleito presidente da República não precisa de tutor. Só tem que navegar e aprender. No Nordeste, eu não sei se aqui no Sul, aqui em Brasília aconteceu isso. A prioridade é ‘Quem casa, quer casar’. Ou seja, quem ganha quer governar. Vamos ter claro isso em primeiro lugar. Ou seja, se ex-prefeito, ex-governador, ex-presidente ao deixar o mandato quiser influência sobre quem está governando, ele passa a atrapalhar quem está governando. Ele passa a atrapalhar. Como todo mundo tem uma coisa chamada auto-afirmação, como todo mundo tem personalidade, a pessoa precisa exercer essa auto-afirmação e essa personalidade na sua totalidade.
Obviamente que se o presidente, o governador, o prefeito liga para o outro e pede uma sugestão e você souber, você não pode se negar a dar. Agora, você ficar pela imprensa, você ficar na reunião do partido, você ficar nos debates: ‘Não, porque ele devia fazer assim. Não, porque ele devia fazer assim. Porque aquilo não é assim’…Sabe, você precisa ter semancol.
Eu não esqueço nunca do dia 25 de janeiro de 2003 que eu estava conversando com o Bill Clinton e perguntei se o (George W.) Bush iria ou não fazer a guerra do Iraque. Bill Clinton falou: ‘Olha, presidente lá nos Estados Unidos a gente culturalmente não dá palpite em quem está governando’. Ou seja, eu acho aquilo é uma coisa importante. Todas as brigas que aconteceram no Brasil, foi porque quem saiu queria continuar mandando.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:34

Lula e a saída do governo

     “O ritual de ser presidente é muito pesado. Ou seja, você tem um ajudante de ordem que diz o que você tem que fazer a cada hora. Você tem um chefe de cerimonial que escolhe a cadeira para você sentar. Você tem a equipe que prepara, é um negócio que você se sente sufocado. Tem vezes que tem tanta gente fazendo as coisas por você que dá vontade de gritar: ‘Pelo amor de Deus gente, deixa eu respirar. Deixa eu fazer alguma coisa’.”
iG – Então o senhor quer se livrar da agitação?
O que eu quero me livrar mais é da máquina burocrática que toma conta do presidente.
iG – É  incontornável?
Eu não sei, veja. Eu vou terminar o meu mandato, eu nunca fui num restaurante jantar. Eu nunca fui num aniversário, eu nunca fui numa janta, eu nunca fui num casamento. A não ser de um sobrinho meu, num bairro lá em São Bernardo do Campo, sem ninguém saber. Porque eu resolvi fazer do meu mandato um sacerdócio. Eu briguei muito para chegar aqui, eu tenho que me dedicar de corpo e alma ao que eu tenho que fazer aqui.
Noventa e nove por cento do meu tempo com a dona Marisa é eu sair daqui dez horas da noite e ir lá para casa. É passar sábado e domingo sozinho. Eu não convido nem um ministro porque se eu convidar um, o outro vai ficar com ciúmes então eu não convido ninguém.
Mas eu vou gostar de me livrar disso sim. Aqui é ‘Nove horas isso, dez horas isso, onze horas isso’. Não tem um minuto que eu falo: ‘Deixa esse minuto para mim, pelo amor de Deus. As pessoas não se lembram que você tem que ir no banheiro, isso elas não se lembram. Se vocês fizerem uma agenda comigo vocês vão perceber que não é fácil.”
iG – Teve um Presidente que disse: ‘Me esqueça’. Teve outro que disse, ‘Não me deixem só’.
“Eu quero ser lembrado pelas coisas boas que eu fiz. E quero ser lembrado pelas coisas que eu não fiz. Eu quero, eu vou continuar sendo um político, vou continuar andando pelo Brasil, quero entrar num bar e tomar uma cerveja com meus companheiros. Eu quero tentar voltar e levar uma vida normal. Não sei se é possível, levar uma vida sem entourage.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:32

Lula e os planos para depois da presidência

      ”E depois de algum tempo, a gente, então, cai a ficha. Você está fora, já não tem mais o Franklin, não tem mais o Giberto Carvalho que eu xingava, não tem mais ninguém. Não tem mais o Stuckinha para eu berrar com ele. Aí eu vou querer uma fotografia, não tem, vou ter que ir lá numa dessas, como chama? Ótica, tirar uma daquelas de trinta segundos.
Então, quando essa ficha cair aí eu estou preparado para tocar a vida. Eu não quero nem tomar decisão antes de alguns meses, porque eu não quero tomar decisão errada. Então eu tenho que maturar, calejar, para depois tomar decisão.
Quando eu deixar a Presidência da República, eu quero ser chamado de companheiro Lula. Eles que me chamaram de companheiro Lula, antes de eu ser presidente da República. Essa para mim é a maior conquista que eu vou ter na minha vida. E eu tenho a convicção que eu vou ser tratado com carinho na porta da Volkswagen como era tratado nas greves de 80. Eu tenho a convicção que eu vou ser tratado num congresso da Contag como eu era tratado quando eu era oposição. Essa coisa está no sangue. Eu sei meu lado. Sei da minha obrigação como presidente que eu tenho que governar para todos. Eu tenho que tratar o mais rico igual eu trato o outro.
Todo mundo tem direito de cidadania. Agora, eu tenho que governar tentando favorecer os mais pobres. Mas quando eu deixar a Presidência eu sei para onde eu vou. Sei quem são meus companheiros, sei quem vai lembrar de mim. Sei quem vai lembrar quando eu fizer aniversário. Eu não me iludo. Eu não me iludo. A política para mim foi uma lição de vida. Não é por orgulho não, isso aqui é um comportamento. Apenas uma linha de comportamento. Eu vou deixar o meu mandato sem nunca ter precisado almoçar ou jantar com rádio, televisão ou jornal. Coisa que era habitual nesse país.
A turma aqui dizia ‘Põe o presidente para almoçar com o dono da televisão. Agora o presidente vai almoçar com os donos dos jornais’. Desse mal eu não sofrerei. Eu tenho que me preparar psicologicamente para isso. Não é fácil eu ter a vida que eu tenho e no dia 2 de janeiro do ano que vem eu levantar no meu apartamento, não ter mais os meus filhos porque todos dormem fora. Eu e Marisa. Não ter o César para eu chamar ele e xingar por causa da agenda. Não tem mais o Stuckinha para eu berrar com ele. Não ter o Gilberto Carvalho para me xingar por alguma coisa.
Não ter esses meninos para me dar o briefing de manhã aqui, o que a imprensa está falando o que é que você tem que falar amanhã, como é que a imprensa tá se comportando. Eu não olhar para a cara da Marisa, ela não olhar para a minha cara. Eu estou me preparando para isso.”
iG – O senhor quer uma viagem?
“Mas eu quero ficar um tempo sem viajar”
iG – Do que o senhor vai sentir mais saudade? É da agitação? O Fernando Henrique tinha falado que ia sentir saudade da piscina do Alvorada.
“Ele disse que ia sentir saudade da piscina e do helicóptero. Eu não vou sentir saudade de nenhum dos dois. Eu acho que eu vou sentir saudade da agitação do cargo. Eu lembro de quando eu fui preso e voltei para o sindicato, eu tava cassado. Eu levantava de manhã e ficava igual uma barata tonta. Eu não tinha para onde ir.
Eu virei para o meu lado e disse uma coisa que é uma coisa verdadeira. Ex-presidente é que nem vaso chinês. Quando você está no Palácio, você tem muito lugar para colocar o vaso chinês. Mas quando você sai, você estar num apartamentozinho você não tem onde colocar o vaso chinês. O que você faz com o vaso chinês? Um ex-presidente é sempre um vaso chinês. O que você precisa tomar cuidado é para não atrapalhar os outros, ou seja, tem que deixar espaço para os outros.
É por isso que eu não quero tomar nenhuma decisão precipitada. Eu quero primeiro saber aonde é que vai doer. Eu quero voltar a ver jogo do Corinthians no Pacaembu, de preferência junto com a Gaviões ali, com a camisa do Corinthians. Sabe, então eu quero voltar a ser um cidadão normal.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:30

Lula e os piores momentos do governo

     ”Eu troquei, na verdade eu arrisquei todo o meu capital político, para tentar fazer aquele ajuste fiscal para poder dar fôlego e chegar aonde nós chegamos”
iG – O senhor acha que isso aí foi mais importante, ficou como uma marca maior para o senhor do que toda a crise do mensalão?
“Não, veja. Do ponto de vista das relações das políticas do governo. Agora, do ponto de vista da política política, o período do mensalão foi o pior possível. Eu quero estar vivo para ver o desfecho de tudo isso. Porque tem coisa um pouco esquisita que eu não consigo entender. Talvez minha sabedoria não consiga entender. O acusador do mensalão, ele foi cassado por falta de prova. O texto da cassação dele da Câmara dos Deputados diz que o cidadão fundamental (para o caso) ia ser cassado, por falta de decoro parlamentar porque não provou as acusações que fez. E o processo continuou como se nada tivesse acontecido. Ou seja, se criou um clima político no Brasil, eu diria, muito temeroso e muito desconfortável.
Eu um dia comecei a meditar e eu disse o seguinte: ‘Olha, o Getúlio Vargas foi muito forte entre 34 e 45, mas não aguentou quatro anos de democracia e se matou. O João Goulart, o Jânio Quadros que era representante de um setor atrasado da política brasileira, foi lá, presidente da República. Com seis meses, puxou o carro o cargo. O João Goulart foi convidado e falou: ‘Olha, comigo não vão fazer isso’. Vão ter que me vencer, na rua.
Vamos ser francos, os setores mais conservadores do Congresso Nacional pensaram em chegar a impeachment. Não chegaram porque não tiveram coragem. Ou porque acharam que era o meu fim. O que ficou na verdade é que quando em julho ou agosto de 2005 eu dei sinal de que, veja, foi a primeira vez que eu disse que ia para a rua foi no lançamento do plano Safra que eu fui, não sei se no mês de julho, que eu fui em Garanhus lançar o plano Safra. A partir dali eu reuni a Dilma, o Marcio Thomaz Bastos e disse, olha, vocês vão cuidando das coisas aqui que eu vou fazer política agora aonde eu sei navegar bem.
Então eu trouxe aqui os movimentos sociais, me reuni com todos eles, mas foi um momento de muitas verdades, de muitas mentiras, de muitas insinuações, porque tudo isso termina na justiça, que é o bom da democracia. A gente só dá valor à democracia quando a gente está sendo atacado. Quando a gente está sendo atacado, como é bom ter justiça. Agora, quando é a gente que está no ataque, a gente fala: “isso tem que acabar agora”.

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:29

Lula e o humor do presidente

     “Hoje sou muito mais, muito mais bem humorado. Hoje eu acredito em coisas que eu não acreditava. Sou um homem…Eu só tenho motivo pra ter alegria. Todo santo dia, agradeço a Deus pela generosidade que Ele teve comigo. Sou uma pessoa hoje muito, muito, muito feliz. Sairei da Presidência pela porta da frente, sabe, com a consciência tranquila de que eu fiz muito, mas, ao mesmo tempo, de que esse muito que nós fizemos apenas descobrimos que ainda temos muito mais pra fazer.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:28

Lula e as relações com o Congresso

      “Nós, nesse período todo, nós só tivemos uma votação que, na minha opinião, prejudicou o Brasil que foi a da CPMF. Foi uma votação muito mais por ódio, muito mais na perspectiva de me prejudicar e quem foi prejudicado foi o povo pobre deste País, mas nós aprovamos tudo o que tivemos de aprovar, sabe, obviamente, a gente manda alguma coisa para o Congresso, manda um pônei e sai de lá um camelo e, muitas vezes, se manda um camelo e sai um pônei. Tem hora que o Congresso ajusta pra melhor as coisas nossas. Então, eu acho que foi a favor, sou agradecido. Sou agradecido.
Ulysses Guimarães, vocês conviveram um pouco com Ulysses muito jovens ainda na política, mas Ulysses dizia cada vez que o pessoal quer muita renovação no congresso que venha pior do que o que estava. Eu sempre tenho medo, porque as pessoas começam a achar que o Congresso não é sério e vem trair. É verdade que tem gente que não é séria, mas tem muita gente séria no Congresso.
Acho que uma coisa importante que vai acontecer com a Dilma se ela ganhar as eleições, é que ela vai ter um Senado mais arejado. Não tem importância se a pessoa seja de esquerda e de direita, não tem importância, o maior problema não é lidar com a esquerda ou com a direita, o nosso problema é lidar com gente qualificada, gente que faça um debate político. Entende, o que não pode é o processo de desqualificação que aconteceu no Senado, onde valia tudo. Acho que ela vai ter um Senado mais confortável. A Câmara é sempre muito difícil lidar com a Câmara, porque é muita gente.
O que não pode é hoje na medida de que os partidos não têm uma referência na sua direção, nos seus líderes, vá se criando núcleos de deputados, de senadores, então, você não tem com quem negociar. Como eu passei a minha vida inteira aprendendo a fazer negociação, ou seja, se você tiver interlocutor sério, você pactua e está resolvido o problema. Você não tem que ter medo de dizer: não, eu tive uma aliança com o partido dos companheiros do iG e eles, o partido deles, vão ter o ministério tal.
Não tem que ter vergonha de dizer que isso é uma coalizão e esse partido tem tantos deputados e tem direito a ter uma vaga. De repente se vende para a sociedade a ideia de que isso é promiscuidade. E quando você não faz isso e tenta colocar só gente tua, dizem, “ah porque é só o PT”. É humanamente impossível, seja o PT, o PFL, o PSDB, o PMDB ganhar as eleições, encher de gente deles aqui dentro.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:27

Lula e a relação com os empresários

       “Tinha muitos empresários que tinham medo, que tinham dúvidas, e era normal que tivessem dúvidas, que falavam de mim, que falavam do PT ou mesmo do sindicalista, ou mesmo da República sindical. Então, falava-se muito disso, são coisas que num País que tem liberdade, cada um fala o que quer.
E os empresários nunca ganharam tanto dinheiro como ganharam no meu governo, nunca ganharam tanto dinheiro. Ou seja, se você pegar o histórico dessas empresas todas, você vai perceber que as empresa, sobretudo a construção civil, ou seja, esse setor, que desde o final do governo Geisel estava praticamente sem obras públicas neste País. Difícil você lembrar uma grande obra pública feita no País nos últimos 25 anos. Ou seja, eles hoje estão ganhando dinheiro como nunca, porque tem obras como nunca, porque hoje está faltando pedreiro, está faltando maquinista, está faltando uma série de coisas. É uma coisa importante está faltando a gente fazer mais.
E hoje eu posso dizer para você que pode ter ainda empresário que desconfie, que não goste, por que? Aí é uma questão ideológica, às vezes pode ser uma questão de pele. Mas do ponto de vista dessas políticas feitos no meu governo, sinceramente, acho que os empresários nunca tiveram. Falo isso, sei que muita gente pode virar o nariz, mas os cientistas políticos vão ter de explicar porque que é exatamente um operário metalúrgico que chega à Presidência e que mantém uma relação com os empresários que nenhum outro presidente teve, mesmo quando era empresário. Eu ouço isso todo dia dos empresários.
Quando teve a crise econômica, não foi apenas a sabedoria do ministro Guido Mantega, a sabedoria do Meirelles, a sabedoria do presidente Lula, não. Nós tínhamos um comitê de crise e que os empresários participaram conosco para decidir as coisas que a gente ia fazer. Quando que eles participaram? Quando? Nunca, nunca, nunca, nunca. Eu hoje posso dizer para vocês que ainda tem gente que não gosta do PT, que não gosta do Lula. Jesus Cristo está na minha mesa com doze caras, foi lá um e traiu ele,. …. De qualquer forma, Tiradentes também, né? Agora, eu acho que eles sabem que nós fizemos muito, muito, muito, muito.”

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 14:26

Lula e a revolução da internet

     “Um dia quando vocês não tiverem o que fazer ou estiverem de férias, vocês peguem muitas vezes a forma desrespeitosa com que trataram a instituição Presidência da República. Peguem algumas capas de revista, peguem algumas coisas que, sabe, você aí foge da liberdade de imprensa e anda na banalização da democracia.
E eu nunca reclamei. Nunca reclamei porque o meu objetivo não era ficar chorando. Eu não sou de chorar, não sou de reclamar. Se eu dependesse de coisas favoráveis, eu não teria sido, não teria sido eleito presidente do sindicato, não teria sido eleito presidente do PT, não teria sido eleito presidente da República, não teria sido reeleito e não estaria agora como 80% de aprovação. Todos vocês jornalistas sabem que vocês podem escrever o que vocês quiserem, publicar o que vocês quiserem, que não haverá a menor interferência do governo.
No meu governo a gente aprendeu que o juiz é o eleitor, é o telespectador e é o ouvinte. E agora o internauta. Esse é o juiz. E a grande imprensa ainda não aprendeu a lição. Ela tem que hoje, hoje, 68 milhões de brasileiros acessam a internet, onde a informação é mais rápida e ela não aparece com gosto de pão velho, que a imprensa tradicional. Ou seja, aconteceu uma coisa nove horas da manhã, você vai comprar um jornal e ler amanhã nove horas da manhã. Não. A internet é pão pão queijo queijo.
Falou, está lá no dia e na hora, todo mundo vendo, acompanhando. A maior vantagem é que eu acho que é importante, é a vantagem que é uma coisa interativa. O cidadão participa do processo. Ele participa. Quer dizer, eu ainda vou checar, mas o dado concreto é que eu acho uma revolução, que nenhum de nós tinha noção do que iria acontecer.
Se dependesse de algumas capas de jornais, eu nessas alturas do campeonato teria zero nas pesquisas. Ibope: Lula zero. Ruim e péssimo: noventa. Sabe, seria assim, mas não é. Por quê? Porque o povo tem outros instrumentos de comunicação. Eu tenho experiência, como eu sigo em casa, o que eles navegam nessa internet o dia inteiro, o que eles divergem, o que eles debatem política é algo que a gente nunca viu nesse país.
É preciso apenas os donos dos meios de comunicação compreenderem que algo está mudando nesse país e atentem para isso. Vocês já existem há dez anos, desde 2000. E vocês muitas vezes dão coisa na frente de tudo que é meio de comunicação.
Daqui a pouco a gente tem 100 milhões navegando, daqui a pouco a gente tem 120 milhões navegando. Queremos a contribuição de todo mundo no debate que nós vamos fazer sobre o marco regulatório de comunicação. Vocês sabem que não pode ficar do jeito que está porque nós estamos com um marco regulatório de 1962 quando não tinha TV digital, quando não tinha TV a cabo, quando não tinha internet, quando não tinha nada. Nós não podemos continuar com um marco regulatório de 62.
Os velhos padrões da televisão vão ficar cada vez mais cansativos. O velho padrão do jornal vai ter que se modernizar, as revistas semanais vivem um sufoco danado. Eu compreendo a dificuldade de se fazer uma revista semanal. Antigamente você tinha um jornal que superava ela todo dia, a televisão e o rádio todo dia. Mas agora você tem a internet que supera a todo minuto.”

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