• Terça-feira, 06 Março 2012 / 13:45

Testemunhas do Araguaia sofrem ameaça

     Dos repórteres João Carlos Magalhães e Lucas Ferraz, da ‘Folha’:
    “Testemunhas da guerrilha do Araguaia (1972-1975) e ouvidores do grupo governamental que busca corpos do conflito vêm sendo ameaçados de morte, segundo relatou a juíza Solange Salgado, responsável pelo caso. A Polícia Federal abriu inquérito para apurar as ameaças.
“Essa questão do Araguaia está ficando muito preocupante, as ameaças são recorrentes, há indícios concretos”, disse a juíza à Folha.
Ela é responsável pela sentença que condenou a União em 2003 a buscar as ossadas dos militantes assassinados na região da Amazônia, o que vem sendo feito pelo grupo composto por familiares de guerrilheiros, membros do governo e do Exército.
Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos condenou o Brasil a identificar e punir os responsáveis pelas mortes.
Organizado pelo PC do B, o conflito foi o maior foco da luta armada contra a ditadura. Cerca de 70 dos guerrilheiros foram mortos. Só dois corpos foram identificados até hoje.
Em decisão de dezembro, a juíza disse que “as pessoas que viveram naquele momento triste da história nacional e que hoje tentam colaborar com a Justiça estão sendo ameaçadas de morte”.
Pelo menos quatro relataram ameaças. Dois são ouvidores do grupo de trabalho, Paulo Fonteles e Sezostrys Alves, que trabalham em campo buscando testemunhos.
Um camponês que contribuiu com as buscas e um ex-motorista de Sebastião Rodrigues de Moura, o major Curió, um dos líderes militares da repressão à guerrilha, também sofreram ameaças.
Um dos suspeitos de promovê-las é o próprio Curió. À Folha ele disse: “Nunca ouvi falar nisso”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:38

Jobim: “Nada muda na Defesa”

De Eumano Silva, da revista Época:
“O ministro da defesa, Nelson Jobim, desfruta uma situação única no governo Lula. Homem de confiança do presidente numa das áreas mais sensíveis da Esplanada, Jobim mantém estreitas relações com o candidato da oposição ao Planalto, José Serra (PSDB). A dupla militância permite a previsão de que, em assuntos de Defesa, o Brasil manterá as diretrizes atuais caso a eleição seja vencida por Serra ou pela ex-ministra Dilma Rousseff. ?Fiz reuniões com PT, PMDB, DEM e com o ex-presidente Fernando Henrique?, diz Jobim, ao explicar as mudanças na área militar, como a subordinação ao poder civil, aprovadas no Congresso. Nesta entrevista a ÉPOCA, Jobim faz um balanço dos acordos internacionais do país e das medidas para tentar organizar a aviação no Brasil”.
                                                        * * *
“? Como vai ficar a defesa nacional do Brasil no futuro?
? Os políticos e os governos civis viam a defesa com certa distância. Na época da Constituinte, a defesa se confundia com repressão política. Com isso, militares tinham de tomar certas decisões que, a rigor, eram decisões de governo civil. Exemplo: quais as hipóteses de emprego (das Forças Armadas) que politicamente interessam ao país? Isso é um misto de política internacional com defesa. Cabe ao poder civil definir o que os militares devem fazer em termos de defesa. Os militares decidem a parte operacional.
? Isso aconteceu no governo Lula?
? Tudo é um processo. Não acontece assim, bum! Começou no governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, nas condições possíveis naquele momento. No governo Lula, avançou-se um pouco no início, com o ministro Viegas (José Viegas, primeiro ministro da Defesa de Lula). Os avanços mais doutrinários são consolidados pelo vice-presidente (José Alencar) que o sucedeu e, depois, pelo Waldir Pires. Quando assumi, decidi que precisávamos realizar uma mudança de concepção para dar mais musculatura ao Ministério da Defesa.
? Como assim?
? O orçamento, por exemplo. Antes, as Forças (Marinha, Exército e Aeronáutica) se acertavam entre si dentro do limite fixado pelo Ministério do Planejamento. O ministro (da Defesa) não tinha participação. Também foi aprovado na Câmara o projeto de alteração da Lei Complementar nº 97. O Estado-Maior de Defesa passa a ser o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Será chefiado por um oficial de quatro estrelas escolhido pelo presidente, indicado pelo ministro da Defesa. Vai ter a mesma precedência dos comandantes de Força. Ao assumir, vai para a reserva. Hoje, ele volta para a Força de origem.
? Qual é o problema?
? Dá constrangimentos. Às vezes, precisa tomar decisão contrária ao interesse da Força de origem e tem dificuldade. Outra mudança é na política de compras, que hoje é fixada pelas Forças, mas será fixada pelo ministério em função do que o poder civil considera relevante. Precisamos de monitoramento e controle, mobilidade e presença. O monitoramento deve ser feito, por satélite, na Amazônia Legal e na Plataforma Continental, onde o Brasil tem soberania.
? São planos de longo prazo?
? Ah, uns 20 anos…
? O senhor, então, não espera grandes mudanças se o próximo presidente for Dilma Rousseff ou José Serra? ? Eu não espero.
? A Defesa está acima das questões políticas?
? Tudo que estou falando foi discutido com todos os partidos. Fiz reuniões com o PT, o PMDB e com o DEM. Fui ao Instituto Fernando Henrique Cardoso. Estava cheio de gente lá, todos os ministros dele, todos meus colegas, e várias outras pessoas, intelectuais também.
? Não há ideologia nessa área?
? Eu quis descolar, mostrar que não é um programa do governo. É um programa do Estado.
? O que mais mudou?
? Tem uma mudança doutrinária. Saímos do conceito de operações combinadas para o conceito de operações conjuntas. Na combinada, cada Força tem seu comando próprio. Na conjunta, tem um comando só para as três Forças. O comandante da operação vai depender do teatro de operações. Se for a Amazônia, o comandante da operação vai ser do Exército. Se for no mar, vai ser um almirante.
? O que, de fato, interessa ao Brasil em termos de defesa?
? O Brasil não é um país com pretensões territoriais, não vamos atacar ninguém. Então, devemos ter um poder dissuasório. Temos três coisas fundamentais. Uma é energia, que tem o pré-sal e também energia alternativa, energia limpa, entre elas a energia nuclear. Segundo, o Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo: a Amazônia e o Aquífero Guarani. E, terceiro, temos a maior produção de grãos. São coisas que, progressivamente, o mundo vai demandar mais.
? Na América do Sul, quais são as maiores preocupações?
? A estabilidade política e econômica. Quanto mais desenvolvido o país, mais estável será. Quando o Brasil paga mais pelo excedente de energia elétrica do Paraguai, ajuda a criar condições para que o Paraguai se estabilize. Um país que tem a dimensão do nosso não pode botar o pé em cima dos outros.
? Qual é sua opinião sobre a relação do Brasil com a Venezuela?
? É boa. A Venezuela viveu sempre do óleo. A elite se apropriou dessa riqueza e não investiu no país. Ficou um conjunto de pessoas muito pobres. Aí, surgiu o presidente Hugo Chávez, que lidera esse setor. Está conseguindo avançar. Agora, o Chávez é um homem, digamos, de uma retórica forte. Isso não atrapalha. Faz parte do hispano-americano. É preciso ter paciência. Boa sorte à Venezuela.
? E com os Estados Unidos?
? Estamos muito bem. Com a vitória do presidente Obama, mudou muito. Concluímos um acordo de defesa para criar novas perspectivas de cooperação bilateral. Vai nos permitir, por exemplo, vender aviões da Embraer para eles sem licitação.
? O Irã é o maior ponto de divergência entre Brasil e Estados Unidos?
? A posição do presidente Obama não é nesse sentido. Há setores nos EUA, principalmente no governo Bush, que demonizam o islã. O islã é pacífico. A posição do Brasil é assegurar a legitimidade do enriquecimento do urânio para fins pacíficos. Nós temos tecnologia para isso e temos urânio. Ainda precisamos completar a parte industrial.
? Qual é sua opinião sobre o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares?
? É assimétrico. Divide os países em nucleares e não nucleares. Os nucleares assumiram compromisso de reduzir as armas e transferir tecnologia nuclear com fins pacíficos para os não nucleares. Não fizeram nem uma coisa nem outra. O Brasil só desenvolveu tecnologia de urânio com luta própria, com cientistas militares brasileiros.
? Quais são os interesses do Brasil na área de defesa em Israel?
- Temos interesses em Veículos Aéreos Não Tripulados, os Vatns, para fazer monitoramento. Algumas empresas israelenses produzem. Estou examinando a possibilidade de produzirmos no Brasil, com uma empresa brasileira associada a uma israelense.
? E a compra dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), quando se resolve?
? Pretendo terminar em abril uma exposição de motivos para o presidente, com uma opção. O presidente convoca o Conselho de Defesa Nacional, que emite um parecer e, aí, o presidente decide.
? Como estão as buscas dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia?
? A segunda etapa já começou.
? A irmã de um guerrilheiro desaparecido encontrou ossadas. Isso ajuda?
? Sim. Qualquer pessoa que encontrar ossos tem de chamar a polícia e identificar. Se isso estiver no âmbito de execução da sentença penal que estamos cumprindo com as buscas, vamos ter de aproveitar isso. Não há um conflito.
? O senhor foi nomeado para resolver o caos aéreo do Brasil. Considera a missão cumprida?
? Vou falar o que fizemos. A primeira medida foi substituir a direção da Infraero, despartidarizar. Formulamos a Política Nacional de Aviação Civil. Ela foi aprovada. Pretendemos oferecer um tratamento diferente para a aviação regional. Vamos enviar um projeto de lei ao Congresso. Em 2005, instituímos liberdade de rota e liberdade tarifária. Esse sistema funciona para a aviação doméstica, mas não para a regional, que precisa de estímulos. Vamos investir nos aeroportos regionais.
? Nossa estrutura de aeroportos estará preparada para as Olimpíadas do Rio em 2016?
? Sim. Tem um calendário da Infraero para as obras necessárias. Temos um crescimento anual médio de 10% na aviação civil. Na Copa do Mundo, terá um aumento de 2% em dois meses. Mas nossa preocupação não é só com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem muito mais gente viajando, os preços caíram. Em 2002, o quilômetro voado custava R$ 0,71. Em 2009, custa R$ 0,49.
? E em relação aos passageiros?
? Incentivamos uma resolução da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre a responsabilidade das empresas em relação a atrasos, overbooking. É o que a Anac podia fazer dentro da legislação. Paralelamente, nós mandamos para o Congresso um projeto que cria um dever de indenização por parte das empresas se os atrasos forem devidos a qualquer agente. Se o atraso for decorrente da Infraero, a empresa se ressarce do que entregou ao passageiro.
? E se for culpa da meteorologia?
? Nesse caso, não tem ressarcimento.
? Dá trabalho ser ministro da Defesa?
? Na época das demissões da Infraero, recebi críticas de amigos meus porque eu demiti pessoas indicadas por eles. Fiz exatamente o que eu precisava fazer. Como não sou candidato a coisa nenhuma e sempre gostei de confusão, não teve problema”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:28

FAB entrega papéis da ditadura

Dos repórteres Felipe Recondo e Marcelo de Moraes, do ‘Estadão’:
“Após quatro anos de pressão do governo, a Aeronáutica entregou ao Arquivo Nacional, no início do mês, pelo menos parte dos documentos secretos que produziu durante a ditadura militar. A própria Aeronáutica informara anteriormente que esses itens haviam sido destruídos, o que reaviva a suspeita de que as Forças Armadas mantêm escondidos papéis sigilosos da ditadura.
O arquivo inédito faz parte do acervo do Centro de Segurança e Informação da Aeronáutica (Cisa). São 189 caixas, com aproximadamente 50 mil documentos acumulados nos governos militares, entre 1964 e 1985. O lote inclui informações sobre Ernesto Che Guevara, Fidel Castro e Carlos Lamarca. Mas há indícios de que registros importantes tenham sido retirados antes de efetivada a entrega, no último dia 3.
No acervo estão fichas pessoais, relatórios de monitoramento, segredos diplomáticos, instruções a militares e papéis referentes à Guerrilha do Araguaia, tudo o que a Aeronáutica negou existir em 2006.
Foi preciso a intervenção da Casa Civil, chefiada pela pré-candidata à Presidência Dilma Rousseff, exigindo a entrega dos arquivos para que ocorresse a liberação. A Aeronáutica acatou a ordem, mas não aceitou a entrega por civis. Oficiais de alta patente comandaram a transferência dos documentos, sob a proteção de soldados.
A Aeronáutica chegou a comunicar à Casa Civil, em 2006, a existência de um acervo com “documentação genérica” e conteúdo “de fortuito componente histórico”. Além disso, negou existir qualquer papel que tratasse de monitoramento, infiltração de agentes, perseguição política e estratégias de ação. Mesmo assim, a documentação não foi entregue à época.
O conteúdo só apareceu depois que o Ministério Público Militar cobrou das três Forças informações sobre a destruição de papéis secretos. Mas a disponibilização, autorizada pelo próprio comandante da Aeronáutica, Juniti Saito, ficou inicialmente restrita ao Ministério Público Militar.
A informação de que esses documentos não foram queimados e estão agora no Arquivo Nacional intrigou o Planalto e levou a Casa Civil a pedir oficialmente ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, a apuração dos fatos. Em 2006, o então comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro Luiz Carlos da Silva Bueno, enviou ofício ao então ministro da Defesa, o vice-presidente José Alencar, negando a existência dos papéis – não foram entregues nem mesmo os documentos “inofensivos” que estão no Arquivo Nacional e que não envolvem ações de repressão interna contra brasileiros.
Segundo Bueno, parte do acervo foi deliberadamente destruída, como permitia a legislação da época. Os termos dessa destruição, porém, também teriam sido inutilizados. Outra parte dos arquivos foi eliminada em incêndio no Aeroporto Santos Dumont, onde funcionava o Ministério da Aeronáutica.
Quando assumiu o ministério, mais de um ano depois de os militares terem negado a existência dos papéis, Jobim perguntou às três Forças se, de fato, não havia documentos escondidos. A resposta do Exército, Marinha e Aeronáutica foi a mesma: todo o material foi destruído. A informação foi repassada pelo ministro à Casa Civil.
Depois disso, a pedido do Palácio do Planalto, o ministro da Defesa criou uma comissão para apurar as condições em que isso ocorrera. A lei permitia que certos papéis fossem destruídos, mas impunha condições, como a presença de testemunhas e a produção de um termo de destruição. Agora, a comissão criada na Defesa terá de avaliar se houve insubordinação dos militares e desrespeito à ordem dada por Dilma e amparada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de recolher todos os arquivos da ditadura.
A análise de alguns dos informes do Cisa indica que documentos importantes podem ter sido retirados antes da entrega ao Ministério Público Militar. Um desses sinais está presente no arquivo cujo título é “Top Secret”. A folha, com marca de um grampo retirado, faz referência a documento que seguia em anexo. Esse anexo, porém, não seguiu para o Arquivo Nacional.
O acervo, em fase de catalogação, não está disponível para consulta. O Estado, porém, teve acesso aos papéis, que revelam, por exemplo, a busca da ditadura pelo paradeiro de Guevara no Brasil. Incluem cartas inéditas escritas por Carlos Lamarca para colegas de guerrilha”.

FORÇAS ARMADAS PODEM TER MAIS ARQUIVOS

“A entrega dos documentos que a Aeronáutica dizia não existir é o mais novo capítulo do embate entre civis e militares no governo e indica que as Forças Armadas podem ter mais arquivos secretos. A evidência de que a FAB descumpriu ordem dada pela Casa Civil e de que documentos foram omitidos do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e do vice-presidente José Alencar, que chefiou a pasta, deve gerar novos embates entre ministros. Desta vez, no entanto, até a ala do governo que mais critica os militares se surpreendeu.
O episódio surge depois da crise em torno do lançamento do Plano Nacional de Direitos Humanos e da demissão, no início do mês, do chefe do Departamento Geral de Pessoal do Exército, Maynard Marques da Santa Rosa. Ele criticou a criação da Comissão da Verdade – cuja meta inicial era identificar e punir torturadores do período do regime militar.
A busca pelos arquivos secretos da ditadura começou de forma silenciosa, em 2005, assim que a ministra Dilma Rousseff assumiu o comando da Casa Civil. Em novembro daquele ano, ela determinou o recolhimento de todos os arquivos produzidos pelos extintos Conselho de Segurança Nacional (CNS), Comissão Geral de Investigações (CGI) e Serviço Nacional de Informações (SNI).
Em 30 dias, todos os 230 mil microfilmes, 13 arquivos de aço e 1.000 caixas com documentos foram levados pela Polícia Federal ao Arquivo Nacional.
No ano seguinte, a Casa Civil pediu a todos os órgãos do governo, inclusive às Forças Armadas, que encaminhassem seus arquivos ou, se fosse o caso, os termos de destruição da papelada. Exército, Marinha e Aeronáutica comunicaram, oficialmente, ao então ministro da Defesa, o vice-presidente José Alencar, não haver documentos secretos ou os termos de destruição a repassar.
Depois disso, uma comissão foi criada para investigar a legalidade desse processo de destruição, mas ainda não chegou a nenhuma conclusão.
No ano passado, outra negociação com os militares levou o governo a mandar para o Congresso um novo projeto de Lei de Acesso à Informação. A legislação reduz o prazo para que documentos sejam mantidos sob sigilo.
Inicialmente, o governo aventava a possibilidade de acabar com o sigilo eterno da papelada. Os militares reagiram de imediato e o Planalto teve de chegar a uma proposta de consenso.
A crise piorou com a iniciativa, apoiada pelo Ministério da Justiça, de questionar no Supremo Tribunal Federal (STF) o alcance da Lei de Anistia, de 1979. E chegou ao ápice no final do ano passado, com o decreto assinado por Lula que criou o Plano de Direitos Humanos.
Os ministros da Defesa, Nelson Jobim, e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, ameaçaram pedir demissão durante a discussão do programa”.

FAB INFORMA QUE ‘PARTE’ DOS PAPÉIS FOI QUEIMADA

“A descoberta do lote de documentos da Aeronáutica levou o comando da Força a rever os argumentos usados em 2006. Se naquele ano a Aeronáutica afirmou que todos os documentos já haviam sido destruídos, agora informou que, na verdade, “grande parte da documentação” foi queimada.
A Aeronáutica alega, ainda, que o acervo de aproximadamente 200 mil documentos “compõe-se de documentação genérica, entendida como de fortuito componente histórico, retratando a ambiência nacional então vigente”.
O Ministério da Defesa informou que a justificativa da Aeronáutica, em 2006, de que teria destruído todo o acervo, “referia-se a outros documentos, além desses que foram entregues ao Arquivo Nacional”. E repetiu que a existência desse lote agora revelado “foi informada às autoridades naquele mesmo momento”.
Os documentos tidos por “genéricos” pela Aeronáutica foram produzidos pelo órgão responsável pela atividade de inteligência da Força Aérea Brasileira, o Centro de Segurança e Informação da Aeronáutica (Cisa) e à época classificados como secretos e confidenciais.
Mesmo que a Força considerasse esses documentos como de pouca relevância histórica, a ordem dada pelo governo era para que toda a documentação produzida à época fosse repassada ao Arquivo Nacional.
O Ministério da Casa Civil informou ao Estado que na quinta-feira passada pediu ao Ministério da Defesa a apuração dos fatos”.

BRASIL FEZ CAÇADA A CHE ENTRE 1966 e 1967

“Arquivos secretos da Aeronáutica revelam que o governo brasileiro fez uma caçada silenciosa por todo o território nacional, de 1966 a 1967, para achar Ernesto Che Guevara, um dos principais líderes da revolução cubana. Em pelo menos um dos informes enviados ao Arquivo Nacional, o serviço de inteligência da Aeronáutica colheu relatos de que Che teria estado em Mato Grosso disfarçado de “comprador de couros”.
Na expectativa de que entrasse no Brasil por algum ponto da fronteira com Paraguai ou Uruguai, o governo chegou a determinar ordem para sua prisão, caso fosse identificado e encontrado, como revela o Informe 386, emitido e classificado como “secreto” pelo Quartel General da Quarta Zona Aérea da Aeronáutica, em 21 de julho de 1966. “Se realmente identificado, solicita-se a prisão imediata”, diz a ordem, que nunca foi revogada e inclui cópia de quatro fotos de Che, com e sem barba, de terno e com trajes militares.
Em pelo menos uma ocasião, o governo teve a certeza de sua entrada no Brasil. Segundo a Informação 038, classificada como confidencial e emitida em 30 de junho de 1967, ele teria sido visto no mês de março em Pirizeiro (MT), conforme relato do Comando da 9ª Região Militar. Um oficial foi enviado para a região num avião Regente e ouviu pessoas. Mostrando a foto do guerrilheiro, o militar brasileiro teve a confirmação de que Che estivera no Estado.
“O referido oficial interrogou diversos moradores e trabalhadores locais, todos unânimes na afirmação de que um elemento branco, alto, barbado, trajando marrom com platinas e portando arma (não se conseguiu apurar o tipo da mesma), tendo uma cavalo como montada, esteve naquela região em fins de março, dizendo-se comprador de couros”, relata o informe.
“O elemento considerado era alto, cabelos aloirados, permaneceu dois dias no local, dizendo que seguia para San Matias e Roboré – Bolívia; falava português bastante arrastado. Ao ser mostrada a fotografia de Che Guevara aos depoentes, mesmo sendo a priori esclarecido que só afirmassem com plena convicção, todos foram unânimes em apontá-lo como o verdadeiro elemento que lá estivera”, acrescenta o relatório do governo.
Nascido na Argentina em 1928, Che se juntou a Fidel Castro em Cuba nos anos 50, até a vitória da revolução socialista que derrubou o presidente Fulgencio Batista, em 1959. Che se tornou um dos principais líderes do novo governo cubano, ocupando cargos estratégicos como o de ministro da Indústria e presidente do Banco Nacional.
Em 1961, esteve no Brasil em visita oficial, quando recebeu do presidente Jânio Quadros a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. O governo cubano se tornou cada vez mais próximo da União Soviética e, com a chegada dos militares ao poder no Brasil, a ruptura de relações com os cubanos foi imediata. Qualquer assunto referente a Che ou Fidel passou a ser considerado subversivo pelo governo brasileiro.
A partir de 1965, com apoio de Fidel, Che decidiu que correria o mundo para espalhar os ideais da revolução cubana e ajudar na montagem de guerrilhas em outros países, ao lado de voluntários.
Fracassou na primeira operação, realizada no Congo, na África, e decidiu fazer nova investida na Bolívia, onde acabou sendo morto em 9 de outubro de 1967. Sua figura se tornou mitológica entre os integrantes dos grupos de esquerda de todo o mundo, incluindo o Brasil. Um dos grupos, o MR-8 foi batizado dessa maneira em referência ao dia 8 de outubro, quando Che foi preso na Bolívia.
Por causa disso, a simples possibilidade de sua passagem pelo território nacional já provocava mobilização na área de inteligência do governo militar. A partir de 1966, suas “viagens” pelo Brasil passaram a assombrar o governo, que recebeu vários informes desse gênero. Ouviu histórias sobre um suposto encontro entre Che e Carlos Marighella em São Paulo. Recolheu histórias sobre uma possível passagem pelo Rio. Mas nunca esteve perto de encontrar ou capturar o guerrilheiro”.

BOLÍVIA REPASSOU INFORMAÇÕES ANTIGUERRILHA

“A experiência de combate aos guerrilheiros de Che Guevara foi repassada pelo Estado-Maior do Exército da Bolívia para o governo brasileiro no fim de 1967. Com detalhes das operações, o modelo bem-sucedido desse enfrentamento foi um dos primeiros documentos a chegar às mãos dos militares como forma de se preparar para situações semelhantes que poderiam acontecer no Brasil – como de fato ocorreu, por exemplo, no Araguaia.
O envio do “Resumen informativo nº 11/67 do Estado Mayor del Ejercito Departamento II /Seccion II/B-Bolívia” deixa evidente a cooperação entre os dois países na estratégia de reação aos grupos de esquerda que combatiam os dois governos.
Em dezembro, o documento já estava com a Aeronáutica, foi traduzido e resumido. Logo no início, anuncia como sua finalidade “fornecer subsídios”, baseados na experiência do Exército da Bolívia, “para o estudo de guerrilhas”.
A primeira lição ensinada pelos militares bolivianos aos brasileiros é a de infiltrar informantes entre os guerrilheiros, estratégia que acabou sendo adotada. “Com referência aos últimos episódios que se desenrolaram na Bolívia em sua luta com as guerrilhas comunistas, assinala-se que tornava-se bastante difícil aos órgãos de informação conhecer com precisão a situação do inimigo”, informa o texto. “Foi dada ênfase especial, dinamizando ao máximo as informações, a importância dos informantes civis. Atuaram positivamente sobre os elementos simpatizantes dos guerrilheiros, elementos participantes (recrutadores de novos guerrilheiros, contatos, sabotadores, agitadores, etc) em todo o país.”
No documento, são descritos os tipos de operações executadas pelos grupos rebeldes, com detalhamento da modalidade de ação, número de pessoas envolvidas e outras táticas adotadas na Bolívia.
O material, classificado como secreto, lista uma série de vulnerabilidades apresentadas pelos rebeldes bolivianos em suas ações desenvolvidas no interior do país. Segundo a análise, os locais escolhidos para desencadear as operações contra o governo, sempre no campo, não eram favoráveis para esse tipo de ação.
Ainda de acordo com texto, outra vulnerabilidade era o “desgaste excessivo pelo tempo de permanência na região e das condições atmosféricas adversas”.
Mais um ponto frágil registrado foi o “baixo moral, ante a não obtenção de apoio da população rural, bem como da classe média”. Também foi destacada a “destruição dos pontos de apoio”, como correios, contatos e elementos recrutadores”.

FIDEL TERIA COBRADO AÇÕES EM SP E NO RIO

“Em encontro no Chile com representantes de grupos clandestinos brasileiros, o líder cubano Fidel Castro teria cobrado a realização de operações de sabotagens no Rio de Janeiro e em São Paulo como forma de desestabilização do governo militar (1964-1985). Em novembro de 1971, Fidel esteve no Chile, presidido na época por Salvador Allende, e acabou se encontrando com exilados brasileiros para discutir a situação do governo brasileiro e a estratégia de resistência.
Com um governo de esquerda, o país tinha se tornado o principal refúgio para os exilados brasileiros, enquanto Allende se manteve no poder – seria deposto no fim de 1973. Por conta disso, os serviços de inteligência brasileiro mantinham monitoramento constante sobre os passos dos exilados. Não demoraram a descobrir que Fidel se encontraria com um grupo deles quando estivesse no Chile.
Segundo o Informe 0027 feito pelo Exército, em 29 de fevereiro de 1972 (era um ano bissexto), Fidel “teria perguntado por que no Brasil as organizações ainda não desfecharam ataques no setor econômico, que seria considerado fundamental do governo brasileiro, através de sabotagens, trabalho que, com gente especializada e poucos quadros, poderia ser feito com eficiência e sem risco de combatentes”.
O informe relata que, segundo Fidel teria dito, “uma sabotagem em grande escala na faixa industrial São Paulo-Rio de Janeiro, sustentação econômica do governo, abalaria seus alicerces”. O documento mostra que a proposta não foi bem recebida pelos brasileiros presentes ao encontro. Foi explicado ao líder cubano que seria necessária a realização de um trabalho prévio a esse tipo de ação para preparar a população e evitar que a imagem dos combatentes do governo ficasse desgastada por causa dessas sabotagens.
Na conversa, quis saber como estava o desenvolvimento das ações desses grupos e teria “reafirmado ser partidário da luta no campo”. Ouviu dos brasileiros que ainda não existiam condições disponíveis para uma operação desse tipo.
Na prática, os integrantes dos grupos de esquerda estavam sob forte cerco e pressão nas cidades e não conseguiam sequer se deslocar para o interior. Carlos Lamarca tentou um movimento desse tipo e acabou sendo preso e morto pelos militares em setembro de 1971, no interior da Bahia.
O arquivo secreto não informa que Lamarca já estava morto, mas dá a entender que Fidel sabia disso porque cita perguntas feitas pelo cubano sobre o ex-capitão. Segundo o documento, Fidel quis saber por que Lamarca deixara a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) – ele passou a fazer parte do MR-8. Perguntou também por que o ex-capitão não foi para Cuba, em vez de permanecer no Brasil, uma vez que tinha sido “chamado com insistência”.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 22:07

A volta do Major Curió

 O jornalista Élio  Gaspari publica hoje, na ‘Folha’ e no ‘Globo’, um artigo intitulado “O Major Curió não é “uma pessoa comum”.
Eis o seu texto:
“O repóter Leonencio Nossa trouxe o major Curió de volta ao palco. Aos 74 anos, com os cabelos pintados de vermelho, ele vive seu último ato no interior da Amazônia. Agarrado a uma velha mala, conta mais uma vez sua história da Guerrilha do Araguaia. Nesse conflito se chocaram comandantes militares ineptos, seduzidos pelo banditismo, e uma liderança do Partido Comunista do Brasil que jogou cerca de 70 jovens numa “guerra popular” iniciada em 1972 com a fuga do chefe político (João Amazonas) e terminada dois anos depois, com a fuga do chefe militar (Angelo Arroyo).
Numa região de lendas superlativas, Curió se tornou um dos brasileiros que marcam a história da segunda metade do século 20. Numa desgraça dessas que descem do além, o tempo que viu JK viu Curió também. Sem se conhecer o Brasil das luzes de Juscelino não se entende o que veio a ser o país. Conhecendo-se o país das sombras de Curió, aprende-se porque muitas coisas ainda são como são.
Seu nome é Sebastião Rodrigues de Moura, cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, oficial do Centro de Informações do Exército, agente do SNI, senhor de baraço e cutelo do maior garimpo a céu aberto do mundo, em Serra Pelada; deputado federal e prefeito (pelo PMDB), da cidade brotada de um casario de bordéis, hoje denominada Curionópolis. Em suma, um daqueles sujeitos que, não sendo “uma pessoa comum”, patrocinam desditas com a bolsa e o aparato da Viúva.
Curió participou do massacre dos militantes do PC do B que se renderam ou foram capturados pelas tropas do Exército a partir de outubro de 1973. Felizmente apresentou informações e documentos que ajudam a comprovar uma política de extermínio que só teve paralelo em Canudos ou na Guerra do Contestado. Ele poderá ajudar a reconstituir o cenário de delinquência no qual oficiais do Exército matavam pessoas que se haviam rendido, com quem haviam se familiarizado e, possivelmente, de quem recebiam até mesmo serviços domésticos. Ao contrário dos demais oficiais que participaram da matança, Curió foi muito mais que isso, sempre movendo-se nas beiradas da fronteira da expansão social e geográfica do Brasil. Aí está o aspecto instrutivo de sua figura.
A serviço da ditadura, comandou ações repressivas e negociadoras em regiões de conflitos fundiários. Esteve no Rio Grande do Sul quando amanhecia o MST, mas foi na região do Bico do Papagaio que se tornou uma espécie de vice-rei. Até aí, teria sido mais um coronelzinho de castanhais. Em 1977, quando caçava guerrilhas inexistentes em busca das diárias do CIE, acharam ouro por perto, em Serra Pelada.
Curió coroou-se imperador das crateras e, em nome do governo federal, organizou o trabalho de 30 mil garimpeiros. (É possível que de Serra Pelada tenham saído cerca de 30 toneladas de ouro e uma parte foi mandada por via expressa para o Banco Morgan, na tentativa de segurar um governo quebrado.) Quando Brasília tentou impedir o garimpo manual, o major que perseguira guerrilheiros instrumentalizou a maior revolta popular ocorrida na Amazônia. Prevaleceu e elegeu-se deputado federal.
O Curió das degolas de prisioneiros é o mesmo líder de garimpeiros miseráveis que se elegeu deputado federal e prefeito. Não é “uma pessoa comum”, parece pertencer ao passado, mas nunca abandona por completo o presente”.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 21:50

Isso é reportagem investigativa

É do ‘Estadão’ a melhor reportagem desse domingo. E certamente uma das melhores do ano. 
Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, abriu seu baú de documentos sobre a guerrilha do Araguaia e revelou que o Exército executou 41 guerrilheiros, e não 25 como se imaginava. No total foram 67 os mortos mas, oficialmente, não houve nenhuma execução: todos “morreram em combate”, fato desmentido agora por Curió, 34 anos depois.
O depoimento do militar faz revelações, esclarece dúvidas, dá detalhes como alguns deles foram assassinados, inclusive com datas, e indica locais onde estão enterrados.
Curió avança enormemente, mas não conta tudo o que sabe. Diz, por exemplo, que as cabeças de alguns guerrilheiros foram cortadas ?para fins de reconhecimento?. Resta saber reconhecimento por parte de quem. Pelo que se tem notícia, algumas cabeças foram perduradas, em árvores da região, para intimidar os que ainda resistiam ao cerco e, principalmente, alguns moradores/simpatizantes do movimento do Araguaia.
Na década de 80, Curió exerceu o mandato de deputado federal, pela Arena do Pará. Sempre se mostrou um cidadão afável, educado e atencioso. Nunca se recusou a falar sobre o Araguaia. Só que nunca contou a verdade - o que fez agora ao repórter Leonencio Nossa,  autor da extraordinária revelação, depois de sete anos de trabalho e 45 encontros com o major.
Curió diz  que abriu seus arquivos, pois havia feito uma promessa a si próprio. O pacto que fizera com os colegas do Exército, era de não contar nada nos primeiros 30 anos, e já se passaram 34.
A reportagem tem ainda uma curiosidade:  ?O arquivo pessoal do agente da reserva abrange um período extenso, que vai da década de 60 à década de 90?.
Ou seja: ele tem documentos que datam de antes do Golpe de 64, até 10 anos depois dele ter dado baixa no Exército.
Só não se sabe se ele fez algum pacto de silencio sobre a papelada que ele ainda guarda.

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