• Quinta-feira, 01 Março 2012 / 16:44

Responsabilização

                                                                                                         Verissimo*

             O Cristopher Hitchens disse certa fez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. O Hitchens já morreu, o Kissinger continua escrevendo (seu último livro é sobre a China) e são poucas as probabilidades de que venha a ser julgado, o que dirá preso, pelo que aprontou – no Chile e no Vietnã, por exemplo. Sua posteridade como estrategista geopolítico e conselheiro de presidentes está assegurada, ele morrerá sem ser responsabilizado por nada e não serão seus inimigos que escreverão seu epitáfio.
O juiz espanhol Garzón, aquele que mandou prender o Pinochet, estava mexendo com o passado franquista da Espanha, também atrás de responsabilização, e bateu de frente com a reação. Recorreram a um tecnicismo de legalidade duvidosa para barrá-lo. Lá também se invoca uma Lei da Anistia para impedir uma investigação dos crimes da ditadura. Anistia não anula responsabilização. A partir do tribunal de Nuremberg que julgou a cúpula nazista no fim da Segunda Guerra Mundial, passando pelos julgamentos de tiranos em cortes internacionais desde então, o objetivo buscado é a responsabilização, que não tem nada a ver com retribuição, vingança ou mesmo justiça. Até hoje discute-se a legalidade formal, de um ponto de vista estritamente jurídico, dos processos em Nuremberg, mas era impensável, diante da enormidade do que tinha acontecido, e sob o impacto das primeiras imagens dos corpos empilhados nos campos de concentração nazistas recém-liberados, que eles não se realizassem. Alguma forma de responsabilização era uma necessidade histórica. Com alguma grandiloquência se poderia dizer que a consciência humana a exigia.
A tal Comissão da Verdade que se pretende no Brasil responderia à mesma exigência histórica, além da necessidade de completar a história individual de tantos cujo destino ainda é desconhecido. A julgar pela rapidez com que, aos primeiros protestos de evangélicos e bispos católicos, o Gilberto Carvalho correu para lhes dizer que a posição do governo em relação ao aborto continuaria retrograda como a deles, pode-se duvidar da disposição do governo para enfrentar a reação que virá, como na Espanha do Garzón, ao exame do nosso passado e à responsabilização dos seus desmandos. Vamos torcer para que, neste caso, a espinha do governo seja mais firme.
Pois sem responsabilização as histórias ficam sem fim, soltas no espaço como fiapos elétricos, e o passado nunca vai embora.
*Luiz Fernando Veríssimo é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e o ‘Estadão’

  • Sexta-feira, 17 Setembro 2010 / 9:54

Erenice quis partir pra briga

     De Renata Lo Prete, no ‘Painel’ da ‘Folha’:
“As horas finais de Erenice Guerra na Casa Civil evidenciaram as resistências que a ministra, elevada ao cargo a pedido da antecessora, Dilma Rousseff, despertava em quadros do governo historicamente próximos ao presidente. Vários lulistas instalados no Planalto colecionaram atritos com Erenice. Agora, nos bastidores, sentem-se à vontade para relatá-los.
Ao longo da jornada eleitoral, a “turma” de Lula tem prevalecido sobre a de Dilma. Depois do afastamento de Fernando Pimentel, o comando da campanha ficou nas mãos de pessoas ligadas ao presidente, ainda que bem relacionadas com a candidata.
A breve Romero Jucá (PMDB-RR), derrubado da Previdência com 122 dias de cargo, foi o único a durar menos do que Erenice no ministério de Lula. Ela caiu após 170 dias na Casa Civil.
O chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, esteve com o ministro Franklin Martins na casa de Erenice pela manhã, na reunião “preparatória” do pedido de demissão levado mais tarde ao Planalto.
Quando os dois chegaram à residência oficial, ela estava com o filho Israel, protagonista das denúncias que a derrubaram, e com o marido, José Roberto Camargo Campos.
Além da sucessão de notícias negativas, a paciência de Lula com Erenice foi se esgotando porque ela, no dizer de um auxiliar do presidente, “queria ir pra briga”.
Gilberto Carvalho chegou a conversar com Miriam Belchior sobre a perspectiva de ela herdar a pasta. Foi a ele que a petista, ex-mulher de Celso Daniel, disse temer se tornar alvo.
                       * * *
José Dirceu, cuja loquacidade preocupa o comando da campanha de Dilma, tinha marcado entrevista coletiva ontem em Foz do Iguaçu (PR). Desmarcou”.
                       * * *
Aliás, Zé Dirceu não fez ontem nenhum comentário sobre o caso Erenice.
Quem sabe, ele fala hoje…

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:43

A Igreja e as esquerdas

 

Marina Silva, beneficiária

Marina Silva, beneficiária

    Maria Inês Nassif, do ‘Valor Econômico’, assina a reportagem mais interessante do dia:
“O PT foi fundado, em 1980, de uma costela dos movimentos populares ligados à Igreja da Teologia da Libertação. A ligação entre ambos, todavia, não é mais a mesma. Houve uma “despetização” desses movimentos. O setor progressista católico botou o pé para fora do partido que hoje está no governo da União e se move com mais desembaraço nos movimentos sociais do que fora do circuito de poder, e nos movimentos políticos suprapartidários, como o que resultou na aprovação do projeto Ficha Limpa, no dia 19 de maio.
As bases católicas progressistas ainda votam de forma majoritária no PT, mas não se misturam com o partido e são proporcionalmente menores que nos anos 80 e 90. Primeiro, porque a própria instituição perdeu a sua centralidade, com a redemocratização. “Nos anos 70 e 80, a Igreja era o guarda-chuva para a sociedade civil na defesa de direitos, um abrigo para os movimentos sociais e um centro de atividade política. Quando abriu o regime, não precisou mais exercer esse papel, porque floresceram outras institucionalidades”, analisa o padre José Oscar Beozzo, da Teologia da Libertação – o veio de reflexão da Igreja de esquerda latino-americana que foi condenado à proscrição nos papados de João Paulo II e Bento XVI, acusado de tendências materialistas, mas que resiste nas bases sociais católicas de forma mais tímida e “de cabelos mais brancos”, segundo Beozzo, e com mais dificuldades de reposição de quadros, na opinião de Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, um de seus teóricos.
Na democracia, a atividade partidária não precisa estar mais abrigada na Igreja, nem a Igreja tem a obrigação de ser o grande protagonista de movimentos políticos civis: “No movimento do Ficha Limpa, houve um trabalho conjunto com setores laicos. É melhor trabalhar assim”, afirma Beozzo. “Sem a capilaridade da Igreja, dificilmente o movimento conseguiria reunir 1,6 milhão de assinaturas para a proposta de iniciativa popular”, relativiza o juiz Márlon Reis, um dos organizadores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.
De outro lado, também foi gradativamente se reduzindo o espaço de atuação da Igreja progressista nas bases sociais. Isto se deve à evasão dos setores mais pobres das igrejas católicas, que rumam celeremente para templos evangélicos, e à política sistemática de esvaziamento dos setores católicos progressistas por Roma. A igreja da Teologia da Libertação ocupa um espaço, junto às classes menos favorecidas, a que os tradicionalistas não conseguem acesso. Quando esse setor tem seu acesso reduzido a estas bases, a adesão ao catolicismo também diminui. Segundo o Censo Demográfico do IBGE, 89,2% declaravam filiação ao catolicismo em 1980; em 2000, eram 73,8%. Em 1990, esse índice era de 83% – um ritmo de queda muito aproximado a 1% ao ano nos dez anos seguintes. As religiões evangélicas eram a opção de 6,7% da população em 1980; já trafegavam numa faixa de 15,4% dos brasileiros em 2000. Segundo dados do Censo, subiu de 1,6% para 7,3% os brasileiros que se declaram sem religião.
O IBGE parece confirmar a teoria de Frei Betto em relação à origem dos que saem do catolicismo em direção às igrejas evangélicas: enquanto, na população total, 73,8% se declaravam católicos no Censo de 2000, esse número subia para 80% nas regiões mais ricas e entre pessoas de maior escolaridade.
Segundo Beozzo, a Igreja Católica encolheu nas comunidades onde viscejava o trabalho pastoral da igreja progressista. “Hoje a igreja é minoritária nas comunidades. Para cada três igrejas católicas, existem 40 pentecostais.” Além da perda de fiéis para as igrejas católicas nas periferias urbanas, a Igreja católica tem perdido também para os que se declararam sem religião. É a “desafeição no campo religioso” a que se refere Beozzo.
Para Frei Betto, todavia, as perdas respondem diretamente à ofensiva da hierarquia católica contra a Teologia da Libertação. Essa é uma posição que foi expressa também pelo bispo emérito de Porto Velho, dom Moacyr Greghi, na 12ªInterclesial, no ano passado, quando as comunidades eclesiais de base surpreenderam ao reunir cerca de 3 mil delegados num encontro cujo tema era “CEBs: Ecologia e Missão – Do ventre da terra, o grito que vem da Amazônia”. “Onde existirem as CEBs, os evangélicos não entram e os católicos não saem de nossa igreja”, discursou dom Moacyr.
Segundo teólogos, padres e especialistas ouvidos pelo Valor, processos simultâneos mudaram as feições da ação política da igreja. A alta hierarquia católica fechou o cerco contra a Teologia da Libertação, quase que simultaneamente à redemocratização do país e à emergência de instâncias livres de participação democrática – partidos, sindicatos, organizações não-governamentais e movimentos organizados.
O PT, principal beneficiário dos movimentos de base da Igreja, se autonomizou e absorveu quadros originários das CEBs, das pastorais e das ações católicas especializadas (JEC e JUC, por exemplo). Ao tornar-se poder, pelo voto, incorporou lideranças católicas, mas também decepcionou movimentos que estavam à esquerda do que o partido conseguia ir administrando o país e mediando interesses de outras classes sociais. “As bases estão insatisfeitas, mas têm medo de fazer o jogo da oposição, que está à direita do governo”, analisa Frei Betto. “Tem uma parte dessa militância que tem pavor da volta do governo tucano”, relata o candidato do P-SOL à Presidência, Plínio de Arruda Sampaio.
O espaço do PT nas bases católicas ficou menor depois da ascensão do partido ao poder e da crise do chamado Escândalo do Mensalão, em 2005 – quando foi denunciado um esquema de formação de caixa 2 de campanha dentro do partido. Hoje, a relação dos católicos progressistas com a legenda não é mais obrigatória e os militantes de movimentos católicos de base são menos mobilizados e em menor número. Os partidos de esquerda acabaram incorporando um contingente da base católica que continua partidarizada, embora o PT ainda seja majoritário.
“O PT continua sendo o partido que tem mais preferência dos militantes das Comunidades Eclesiais de Base, mas existem partidários do P-SOL e tem gente que saiu do PT para militar com a Marina Silva, do Partido Verde”, conta o padre Benedito Ferraço, um ativo militante . Em alguns Estados, como o Maranhão, onde existia uma militância histórica do antigo MDB autêntico, da época da ditadura, ainda se encontram bases católicas progressistas pemedebistas, segundo padre Ferraço. O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, que milita junto a setores da Igreja na defesa da reforma agrária – e assessora a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o tema – tem a adesão de líderes de movimentos da Igreja ligados à questão agrária. Contabiliza o apoio do ex-presidente da Comissão Pastoral da Terra, o bispo emérito Dom Tomás Balduíno. Marina – que, embora tenha abraçado a religião evangélica, tem na sua origem política a militância nas CEBs – recebeu a adesão do guru da Teologia da Libertação, Leonardo Boff.
Na avaliação do ex-vereador Francisco Whitaker, membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, as bases da igreja progressista têm saído da militância petista, mas engrossam mais as fileiras dos “sem-partido” do que propriamente as legendas mais à esquerda ou opções mais radicais pela ecologia, embora isso aconteça. “Hoje, a militância partidária é apenas uma das possibilidades”, afirma Whitaker, que foi um dos líderes do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral que esteve à frente da campanha pelo projeto dos Ficha Limpa.
Whitaker e Frei Betto – este, junto com Boff, é um dos expoentes da Teologia da Libertação – apontam também um outro fator para a “despetização” das bases da Igreja: a absorção de quadros originários das CEBs e das pastorais sociais pelo próprio governo. “O movimento de base foi muito desarticulado, ou porque os seus líderes foram cooptados pelo governo do PT, ou porque foram incorporados à máquina partidária”, diz Frei Betto. Isso quer dizer que o militante católico absorvido pelas máquinas partidárias e do governo deixou de ser militante e passou a ser preferencialmente um quadro petista.
A incorporação à máquina não é apenas a cargos de confiança em Brasília. “As representações estaduais do Incra e da Funasa, por exemplo, absorveram muita gente que veio dos movimentos de base da Igreja Católica”, conta Frei Betto. Também a máquina burocrática do partido atraiu os militantes que antes atuavam nas bases comunitárias de influência católica.
A “laicaização” do PT foi mais profunda, todavia, após 2005. “O mensalão bateu forte nas bases católicas”, avalia Whitaker. Sob o impacto do escândalo, centenas de militantes petistas aproveitaram o Fórum Social Mundial, que naquela ano acontecia em Porto Alegre, para anunciar a primeira debandada organizada de descontentes, que saíram denunciando a assimilação, pelo PT, das “práticas e a maneira de fazer política usuais no Brasil”, conforme carta aberta divulgada por Whitaker. “Eu tomei a decisão de integrar o partido dos sem-partido”, conta o ex-vereador. A aposta, naquele momento, era que esses dissidentes criassem um forte partido ligado à esquerda católica. O P-SOL nasceu, mas pequeno e fraco – uma reedição, em tamanho reduzido, da aliança entre esquerda católica e grupos marxistas que, 15 anos antes, havia criado o PT.
Os “sem-partido”, no cálculo de quem saiu, são em maior número. Whitaker chama essa “despetização” de “saída para a sociedade”: o contingente se incorporou ao movimento dos Ficha Limpa, agora reforça a briga pela aprovação da Emenda Constitucional de combate ao trabalho escravo e tem atuação na luta pela reforma agrária. Tem forte atuação também – e quase definitiva – na organização dos Fóruns Sociais Mundiais (FSM) que ocorrem todo ano, de forma quase simultânea ao Fórum Econômico Mundial de Davos, como uma opção de debate econômico dos excluídos das generosidades do capitalismo mundial. Exercem uma militância de certa forma invisível na política institucional, mas muito atuante nas bases, de questionamento da legitimidade das dívidas interna e externa.
O secretário-executivo da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Daniel Seidel, afirma que esse setor católico vive hoje em estado de ebulição, depois de um período de recuo, imposto especialmente pela ofensiva de Roma contra os setores mais progressistas da Igreja da América Latina. No caso brasileiro, esse novo período de eferverscência é atribuído a Dom Dimas Lara, secretário-geral da CNBB, de um lado; e de outro lado, ao papel desempenhado pelas Assembleias Populares, um formato de organização das bases mobilizadas da Igreja. As Assembleias têm definido uma ação política fora dos partidos e engrossado as mobilizações dos movimentos populares. São um espaço para onde tem convergido a atuação da Igreja cidadã: é onde se definem questões de atuação conjunta com outras igrejas, leigos, movimentos sociais e partidos políticos, embora jamais vinculados a eles.
Embora a “saída para a sociedade” tenha se dado num quadro de frustração com o governo, existe cautela em relação a ações contra o governo Lula. “Tem uma parte das bases católicas que acha que, ruim com ele (Lula), pior sem ele. Essa parte tem pavor da volta de um governo tucano”, analisa Arruda Sampaio. “Embora as bases estejam insatisfeitas, têm medo de denunciar o governo e fazer o jogo da oposição”, diz Frei Betto. Isso ocorre também com os movimentos sociais que já estão descolados da Igreja, como o MST, que foram criminalizados nos governos de FHC, não concordam com os rumos tomados pelos governos de Lula, mas ainda assim preferem a administração petista, numa situação eleitoral de polarização entre o PT e o PSDB”.

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

Plínio de Arruda Sampaio, beneficiário

EX-MILITANTES ESTÃO COM MARINA E PLÍNIO

 ”A Igreja progressista já não produz quadros para a política na quantidade que o fazia antigamente, mas a política brasileira pós-redemocratização está repleta de suas crias.
No início do governo, no comando do programa Fome Zero, Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, contabilizou-s em artigo no “Correio Braziliense”: Marina Silva, ex-militante das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja; Benedita da Silva, líder comunitária cujo primeiro marido, o Bola, militou no movimento Fé e Política; o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi da Juventude Estudantil Católica (JEC) de Anápolis (GO); Dilma Rousseff, companheira de cárcere de Frei Betto e de outros religiosos, no presídio Tiradentes; José Graziano, formado politicamente na JEC; Olívio Dutra e Gilberto Carvalho, que vieram da Pastoral Operária; José Dirceu, que no período de clandestinidade foi abrigado no convento São Domingos; e o jornalista Ricardo Kotscho, com quem Frei Betto criou grupos de oração, base do trabalho evangelizador da Teologia da Libertação .
Muita água rolou por baixo da ponte, mas nessas eleições presidenciais pelo menos dois candidatos beberam dela. A evangélica Marina Silva, candidata a presidente pelo PV, é uma. “Nós crescemos na batina do dom Moacyr (Grechi)”, afirma a candidata. Militante desde cedo das comunidades eclesiais de base do Acre, atribuiu à Igreja católica, em especial de dom Moacyr, o fato de o Estado ter encontrado caminhos políticos diferentes ao do narcotráfico. Foi o pessoal do dom Moacyr que ganhou eleições para governos e Senado e forneceu quadros para secretarias e estrutura burocrática,
O candidato do P-SOL, Plínio de Arruda Sampaio, foi um incansável militante, dentro e fora da Igreja, pela reforma agrária. Era um quadro do PT até o racha de 2005. Acha que, em algum momento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve liderança incontestável nas bases da Igreja, mas hoje não lidera mais “gregos e troianos”.
A deputada e ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSB), embora não seja candidata à Presidência, é um exemplo de política que se criou nas bases da Igreja. Em Pernambuco, onde dava os seus primeiros passos na luta política, a Igreja progressista ajudava a organizar sindicatos rurais numa região em que as ligas camponesas – movimentos sociais muito atuantes antes do golpe de 64 – foram destroçadas pela ditadura. “Havia uma grande repressão às ligas e aos camponeses, mas a Igreja tinha uma relativa liberdade de transitar por esses espaços e aproveitava disso para organizar sindicatos”, conta a deputada. Erundina veio para cá ameaçada pela repressão militar. Elegeu-se prefeita em 1989 – e foi a sua relação com a Igreja progressista que a protegeu nos momentos mais difíceis”. (M.I.N)

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:28

Governo procura conta de tucano no exterior

 Do repórter Rodrigo Rangel, do ‘Estadão’:
“O governo federal abriu investigação oficial para apurar supostas movimentações bancárias do senador goiano Marconi Perillo (PSDB) no exterior. O tucano é inimigo político declarado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Formalmente, a investigação teve início no dia 12 de março, quando começou a tramitar no Departamento de Recuperação de Ativos (DRCI) do Ministério da Justiça um processo destinado a mapear a existência das contas. De acordo com os papéis em poder do governo, as movimentações teriam ocorrido em bancos da Suíça e dos Estados Unidos e em paraísos fiscais do Caribe.
Antes de chegar ao Ministério da Justiça, os documentos que dão base à investigação passaram pelo Palácio do Planalto – mais precisamente, pelas mãos de Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula. Perillo tornou-se desafeto do Planalto após o escândalo do mensalão, quando disse ter alertado pessoalmente o presidente Lula sobre os pagamentos a parlamentares da base aliada no Congresso em troca de apoio a projetos do governo.
Há dois meses o Estado acompanha o caso, que ganhou no governo prioridade absoluta. De um lado, a reportagem esmiuçou os bastidores da operação montada em Brasília para comprovar a existência das contas, o que poderia significar um tiro de morte nas pretensões políticas do tucano, pré-candidato a governador em Goiás. De outro, apurou as medidas oficiais destinadas a comprovar as supostas transações de Perillo no exterior.
Vice-presidente do Senado, Perillo nega possuir contas no exterior. Ontem, em meio a rumores sobre a existência de um dossiê com informações sobre contas bancárias abertas em seu nome em paraísos fiscais, o senador foi ao Ministério da Justiça pedir investigação sobre a origem dos papéis, que diz serem “falsos”. Não sabia ele que, um mês antes, os documentos já haviam chegado ao ministério e dado origem a um procedimento formal – não para investigar sua veracidade, mas seu conteúdo.
O procedimento instaurado no DRCI sob o número 08099.001131/2010-54 teve origem num relatório apócrifo, produzido originalmente em inglês, com tarja de “top secret”. Junto dele, há extratos das supostas contas, registradas em nome da Aztec Group, offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas. Os documentos apontam Perillo como um dos dirigentes da empresa. Um dos papéis anexados ao relatório, com timbre do banco suíço UBS e datado de 2003, diz que o Aztec Group tinha na instituição uma aplicação de 200 milhões – o equivalente, à época, a R$ 667,5 milhões.
O relatório “top secret” com o detalhamento das supostas transações inclui o contrato social do Aztec Group, cujo presidente, de acordo com o documento, seria Paulo S. Jusus – que os investigadores identificam no processo instaurado no DRCI como Paulo Silva de Jesus, primeiro suplente de Marconi Perillo no Senado.
Também foram anexadas ao relatório, obtido pelo Estado, o que seria a cópia do passaporte do senador e uma procuração registrada nas Ilhas Virgens Britânicas em que Jusus dá poderes a Marconi Perillo, apontado como diretor da Aztec Group para Projetos Especiais, para assinar contratos e fazer acordos em nome da empresa.
Há ainda cópias de mensagens enviadas por fax, nas quais Perillo teria ordenado transferências da conta da Aztec. Um desses papéis, que leva uma assinatura semelhante à do tucano, autoriza movimentação de US$ 3,5 milhões de uma agência do banco Wachovia para uma agência do Citibank no paraíso fiscal de Nassau, no Caribe.
Com aval do Planalto, o DRCI deu início aos procedimentos para tentar confirmar a existência das contas. O primeiro passo foi contatar as autoridades financeiras da Suíça, para onde teria sido remetida parte significativa dos valores.
Até ontem, o DRCI não havia recebido resposta às consultas sobre as contas da Aztec em território suíço. A expectativa é de que a resposta chegue a Brasília nas próximas semanas”.
 
 
Dossiê circulou no Planalto antes de investigação oficial

“Antes de dar origem à investigação oficial, o dossiê com as supostas contas de Marconi Perillo no exterior já circulava por gabinetes de Brasília. Foi o líder do PR na Câmara, Sandro Mabel (GO), adversário de Perillo na política goiana, quem levou os papéis à antessala do presidente Lula. Ontem, em entrevista ao Estado, Mabel admitiu ter tratado com Gilberto Carvalho da existência das supostas contas de Perillo no exterior. “Como o presidente (Lula) tem um desgaste com o Marconi, eu falei com ele (Gilberto) sobre o assunto”, disse Mabel.
Apesar de terem em mãos os papéis, nem Mabel nem o chefe de gabinete de Lula tomaram providências imediatas. No início de 2010, o Dossiê Perillo foi encaminhado para o gabinete do promotor goiano Fernando Krebs, que instaurou o Procedimento Investigatório Criminal n.º 01/2010. Com sinal verde do Planalto, as portas do Ministério da Justiça e do DRCI já estavam abertas para auxiliar o Ministério Público goiano no que fosse necessário.
Em 12 de março passado, de acordo com documentos obtidos pelo Estado, o promotor formalizou o chamado “pedido de assistência jurídica”, para que o DRCI buscasse informações sobre as contas. Na mesma data, foi preenchido o “formulário de auxílio jurídico em matéria penal”, que o DRCI traduziria dias após para remeter à Autoridade Central da Suíça. O procedimento do Ministério Público não relaciona o nome de Perillo, que tem foro privilegiado e só pode ser investigado criminalmente pelo STF. “Suspeita-se, fortemente, que Paulo S. de Jesus seja um “laranja” da quadrilha que operou na Celg entre os anos de 2000 e 2008″, diz o documento.
Por meio da assessoria de imprensa da Presidência, Gilberto Carvalho disse que, de fato, conversou sobre o assunto com Sandro Mabel, mas na ocasião “os elementos trazidos pelo deputado não tinham a menor consistência”.
Em nota, o Ministério da Justiça confirmou a existência do procedimento no DRCI, mas disse ter agido atendendo a uma demanda do Ministério Público de Goiás. “O número citado pelo jornal identifica um ofício proveniente do Ministério Público de Goiás que foi protocolado no sistema de protocolo do Ministério da Justiça e que não tem por objeto qualquer investigação envolvendo o nome do senador”.

Perillo vai a tribuna do Senado reclamar de falsificação

“O primeiro vice-presidente do Senado, Marconi Perillo (PSDB-GO), encaminhou ontem representação ao presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), solicitando que a Corregedoria do Senado investigue falsificação de procuração e passaporte em seu nome, que teriam sido utilizados para abertura de conta bancária no exterior.
Perillo subiu à tribuna do Senado para afirmar que um dossiê anônimo contra ele foi encaminhado para sua residência na semana passada, no mesmo dia em que sua pré-candidatura ao governo de Goiás foi lançada pelo microblog Twitter.
“Não tenho nenhuma conta bancária fora de Goiânia. Estou sendo vítima de mais uma cilada daqueles que estão utilizando ferramentas do mal”, discursou o senador goiano da tribuna. “Trata-se de um dossiê fajuto”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:10

Alguma coisa está fora da ordem

  Do repórter Cássio Bruno, de ‘O Globo’:
“Um dia depois de vencer as prévias do PT no Rio e conquistar o direito de ser indicado pelo partido para disputar o Senado, o prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, disse ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedirá votos nas ruas e em programas eleitorais na televisão para ele e para o senador Marcelo Crivella (PRB), pré-candidato à reeleição. Segundo Lindberg, o anúncio foi feito por Lula em encontro reservado logo após o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2), em Brasília.
Até então, Lula só tinha tentado um espaço na coligação para Crivella, nos bastidores, em conversas com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que tentará a reeleição. Agora, o impasse ganha ainda mais força.
Lindberg faz parte da chapa do presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Jorge Picciani (PMDB), outro postulante ao Senado. Na aliança de Cabral, Picciani e o petista seriam os dois indicados.
O Lula vai pedir votos para mim e para o Crivella, inclusive nos programas eleitorais de TV. Vai dizer aos eleitores que, se ele votasse no Rio de Janeiro, votaria em nós dois afirmou Lindberg.
O prefeito ainda acusou Picciani de tentar minar sua indicação para o Senado, atuando em favor da secretária estadual de Assistência Social, Benedita da Silva, derrotada nas prévias. Assim, o presidente da Alerj, teoricamente, aumentaria as chances de conquistar uma cadeira no Senado, caso concorresse com ela. Com a polêmica, Lindberg avalia que, agora, ficará nas mãos do PMDB e de Picciani a decisão de haver uma campanha pacífica ou com atritos.
Podemos ter uma dobradinha ou não para o Senado.
Não tem nada definido. Vai depender do PMDB e dele se isso tudo será pacífico ou com atritos.
Se não houver acordo, cada um segue o seu caminho.
Essa aliança ainda está aberta revelou Lindberg.
Picciani, por meio de sua assessoria, disse que não comentaria as afirmações do petista.
Benedita nega ser précandidata a deputada No encontro, além de Lula, estavam a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata à Presidência; o chefe de Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho; e o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha. Segundo Lindberg, Lula também pediu a ele e ao presidente do diretório regional do PT no Rio, deputado Luiz Sérgio, que tentem convencer Benedita a disputar as eleições de outubro para deputada federal.
Ontem, Benedita lamentou a derrota e disse que não disputará uma vaga para a Câmara.
- O resultado foi horroroso.Mas é a vida. Agora, faremos campanha para o Lindberg.Nunca discuti isso (précandidatura a deputada). Sempre quis o Senado, e o Lula sabia muito bem disso.
A apuração das prévias realizadas domingo foi finalizada ontem à tarde. Ao todo 28.011 filiados votaram no estado.
Lindberg ficou com 18.639 votos (67,4%) e Benedita, com 9.014 (32,6%). Brancos chegaram a 193 e, nulos, 165″.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:05

Divisão do PT no Rio é inevitável

Do ‘Globo’:
“A cúpula do PT não conseguiu evitar a realização da prévia que escolherá, no próximo domingo, o candidato do partido ao Senado, no Rio. Ontem, o presidente nacional do PT, José Eduardo Dutra, desistiu de obter acordo entre os dois postulantes: Benedita da Silva,secretária estadual de Assistência Social, e Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu.
Os últimos telefonemas para ambos, segundo Dutra, foram feitos anteontem:
- Em várias conversas com os dois, trabalhei para um consenso. Já desisti. As bases do PT é que vão deliberar sobre a melhor opção.Prévias costumam deixar sequelas e divisões. Por isso, a determinaçãode evitá-las. Agora, temos que cuidar para que essas consequências sejam as mínimas possíveis.
O diretório nacional mobilizou figuras influentes, como o deputado federal Ricardo Berzoini e o chefe de Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, para tentar fazer Benedita e Lindberg recuar. Amanhã haverá um debate entre eles no Sindicato dos Bancários, no Centro do Rio, às 19h. A expectativa da direção regional é que cerca de 20 mil filiados participem do pleito”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:26

A ‘Isto É’ e o ‘Mensalão’ – 3

AS TESTEMUNHAS DO CAIXA 2 

A ação penal no STF traz depoimentos inéditos de testemunhas que comprovam definitivamente grandes movimentações de ?dinheiro não contabilizado?, expressão usada pelo petista Delúbio Soares para
justificar o Mensalão. Os testemunhos surpreendem, não apenas pelo seu valor jurídico, mas pela naturalidade com que os envolvidos tratam de uma questão criminal como se fosse algo rotineiro. Ex-presidente do Banco Popular do Brasil, Ivan Guimarães confirmou na Justiça Federal em São Paulo, no dia 27
de maio de 2009, que o PT movimentou dinheiro sujo. ?Boa parte da crise era devido a esses empréstimos que não constaram da contabilidade, o caixa 2?, disse Guimarães, dando detalhes dos empréstimos que o PT fez no Rural e no BMG. ?Tomei conhecimento destes empréstimos. Eu não me lembro o valor total, mas era algo superior a 40 milhões (de reais).? Guimarães afirmou ter participado das reuniões que escolheram a agência de Marcos Valério para trabalhar nas campanhas do Banco do Brasil, mas responsabilizou o conselho diretor e o ex-diretor Henrique Pizzolato.
Pelos depoimentos, fica evidente que práticas ilegais eram cotidianas nos escritórios dos partidos políticos. Funcionários das legendas não se constrangem ao se declarar abertamente como laranjas do esquema. Coordenadora da campanha do PP em 2004 no Paraná e secretária do ex-deputado José Janene (PP), Rosa Alice Valente confirmou à Justiça em 2009 que sua conta bancária foi utilizada pelo PP para receber dinheiro do PT nacional. O dinheiro chegava através da corretora Bônus Banval, que lavava o dinheiro do Mensalão. ?O deputado me disse que foi feito um acordo entre o PT e o PP e que o Enivaldo Quadrado (então dono
da Bônus Banval) iria me ligar e daí iria passar na minha conta pra mim (sic) repassar?, disse Rosa. Entre casos já conhecidos e outros só agora descobertos, as confissões surgem de todo lado. Em Alagoas, o deputado Paulo Fernando dos Santos, o Paulão (PT), revelou na Justiça ter recebido R$ 80 mil ?não contabilizados? do PT. O dinheiro, segundo ele, era liberado por Delúbio Soares. Presidente do PT no Tocantins na época das fraudes, Divino Nogueira revelou que recebeu dinheiro de caixa 2 do PT nacional,
enviado por Delúbio. O ex-deputado baiano Eujácio Simões, que era do extinto PL, afirmou ter recebido R$ 30 mil de caixa 2 do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP), um dos principais protagonistas do esquema.

Em alguns relatos, os detalhes são tão ricos quanto as quantias movimentadas irregularmente pelos políticos. É o caso do testemunho do empresário José Carlos Batista, sócio da Garanhuns Empreendimentos, empresa que ficou conhecida na época do Mensalão como lavanderia do Mensalão. Réu no processo, Batista decidiu contar tudo o que sabe para ser beneficiado pelo instrumento da delação premiada. Foi ouvido na condição de informante. Pela primeira vez, disse que era dono da Garanhuns apenas no papel porque, na verdade, era ?laranja? do verdadeiro dono da empresa, Lúcio Funaro, amigo de Costa Neto. Batista esmiúça como entregou pessoalmente, a pedido de Funaro, quase R$ 3 milhões do esquema do PT para o deputado do PL bancar a campanha eleitoral de 2004. O dinheiro foi entregue na sede do PL em São Paulo. Eram recursos repassados a Funaro por Valério com base em um ?contrato fictício? de compras de certificado de
reflorestamento da Garanhuns para a SMP&B. Já se sabia que a Garanhuns fora usada por Valério para esquentar o dinheiro repassado do caixa 2 do PT para o PL. O publicitário sempre negou. Em seu depoimento, Batista não só se define como ?laranja? como cria dificuldade para aqueles que querem contestar a sua versão do fato pela quantidade de informações que forneceu à Justiça. Ele cita modelos de veículos em que o dinheiro foi carregado em ?caixas de papelão?, horários de voos, nomes de intermediários e destinos do dinheiro, como a cidade de Mogi das Cruzes, no interior paulista. São esses detalhes que irão influenciar o ministro relator na hora de confrontar depoimentos contraditórios.

A PALAVRA DOS PRESIDENTES

Não é comum que presidentes ou ex-presidentes da República sejam sabatinados por juízes, mas entre os novos documentos do Mensalão estão depoimentos de Fernando Henrique Cardoso e do vice-presidente José Alencar. FHC foi arrolado como testemunha de defesa do ex-deputado Roberto Jefferson e prestou um longo depoimento. Suas declarações na 2ª Vara Federal Criminal Especializada em Crimes Contra o Sistema Financeiro Nacional e Crimes de Lavagem, em São Paulo, em junho do ano passado, somam dez laudas. ?O deputado Roberto Jefferson é um batalhador?, disse Fernando Henrique. ?Ele é assim, por bem ou por mal ele toma a posição, ele vai em frente.? Fernando Henrique discorreu sobre as diferenças entre seu governo e o do presidente Lula e aproveitou para dar uma estocada no PT. Ele disse que o partido de Lula costuma ?transformar em escândalo qualquer caso, muitas vezes sem ter sido apurado?. E acha que o ex-ministro José Dirceu e o deputado José Genoino (PT-SP) são responsáveis por ?essa postura?. A provocação de FHC acabou sendo assimilada. Há poucas semanas, o chefe de gabinete da Presidência da República, Gilberto Carvalho, admitiu: ?O PT nasceu questionando as instituições tradicionais, mas foi adquirindo vícios. Até o
vício da corrupção, que infelizmente entrou em nosso partido.?

Também prestou depoimento no caso do Mensalão o vice-presidente José Alencar. Na época do escândalo, Alencar estava filiado ao PL, o partido do deputado Valdemar Costa Neto. Alencar recebeu da Justiça as perguntas por escrito e se manifestou rapidamente. Afirmou que só soube dos repasses financeiros do PT para o PL quando o ex-deputado Roberto Jefferson fez a denúncia do Mensalão. Disse que durante as negociações para a formação da chapa presidencial eleita em 2002 em nenhum momento participou
de discussões envolvendo o financiamento da campanha e que nunca tratou sobre o assunto com o presidente Lula. O presidente, ao contrário de Alencar que se prontificou a colaborar com as
investigações e em apenas duas semanas respondeu ao questionário, tem se esquivado de falar sobre o Mensalão. No dia 10 de agosto do ano passado, a juíza Pollyanna Kelly Martins Alves, da 12ª Vara da Justiça Federal de Brasília, enviou ofício diretamente ao Palácio do Planalto, informando que Lula está arrolado como testemunha no ?processo do Mensalão?. E redigiu: ?Conto com a compreensão de Vossa Excelência em colaborar com o Poder Judiciário.? A seguir, a juíza pede a Lula que ?indique dia e hora que melhor lhe convier? para comparecer à Justiça, ou ainda que ?manifeste interesse em encaminhar respostas por escrito, se assim lhe aprouver, observando o intervalo entre 14 de setembro de 2009 e 30 de outubro de 2009?. Já se passaram quatro meses do prazo sugerido pela juíza e Lula não se prontificou até agora a enviar as respostas, nem sequer por escrito.

O Mensalão do PT foi o primeiro a ser descoberto, em 2005, e nos últimos cinco anos vem sendo investigado. Depois dele, surgiram o Mensalão Tucano, revelado por ISTOÉ em setembro de 2007, e o
Mensalão do DEM, no final de 2009. Os esquemas são semelhantes e mostram que a prática do caixa 2 e da compra de apoios políticos não é privilégio de um único partido político. Como todos têm seu mensalão, é até possível que se depender dos políticos esses crimes permaneçam impunes. A boa notícia é que o Judiciário tem dado mostras de que esse quadro poderá ganhar novas molduras. No caso do Mensalão do DEM, um governador está preso preventivamente e, se depender do potencial dos novos documentos
em poder do relator Joaquim Barbosa, o STF tem elementos de sobra para não manter a impunidade no caso do Mensalão do PT, ainda que cinco anos depois.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:16

Thomaz Bastos, sem iluções

De Sonia Racy, no ‘Estadão’
“Depois de 51 anos como advogado e quatro como ministro da Justiça do presidente Lula, o criminalista mais requisitado do País, Márcio Thomaz Bastos,  poderia dar-se ao luxo de evitar saias justas. Mas preferiu correr ao encontro delas ao ser contratado por clientes como Roger Abdelmassih – o médico acusado de abusos contra clientes em sua clínica de reprodução assistida.
Além da remuneração, mais atraente, Márcio faz isso porque é ardoroso defensor do princípio de que todos são inocentes até prova em contrário. Não por acaso, fundou uma ONG, o Instituto de Defesa do Direito da Defesa, que oferece assistência jurídica grátis para casos que desafiam o maniqueísmo. Nesta entrevista à coluna, o discreto ex-ministro fala de política, da relação com Lula e anuncia uma nova bandeira: a defesa da política de cotas.
- Como é a sua relação, hoje, com o presidente Lula?
- Falo com ele com alguma frequência. Adotei uma regra: não ligo para ele, espero ele telefonar. Toda vez que vou a Brasília procuro passar por lá, dar um abraço nas pessoas. Vejo muito a Dilma e o Gilberto Carvalho.
- É uma relação mais intelectual ou mais afetiva?
- Muito afetiva. Gosto dele e tenho certeza de que ele gosta de mim. Rimos muito juntos. A gente se acha engraçado, gosta de conviver.
- O senhor passou muito tempo tentando coibir crimes econômicos. Como é estar do outro lado?
- Essa tensão dialética entre acusação e defesa é fundamental para o regime democrático. Ambos os papéis são relevantes. Eu estive num posto do qual comandava a Polícia Federal e agora voltei para o lado de cá. O Rui Barbosa tem uma frase bonita que diz assim: “Eu tenho o dever de respeitar as instituições, e o direito de criticar seus integrantes.” É o que faço. Tive no começo o bom senso de não atuar enquanto não despressurizasse do serviço público. Passei dez meses sem advogar.
- Como avalia os vazamentos ocorridos no caso da Camargo Corrêa?
- São claramente ilegais. Pedimos ao juiz que apurasse. Mas acho que a imprensa, ao recebê-los, tem o direito de publicar. Quem vazou é que deve ser investigado e punido.
Muita gente acha que são vazamentos políticos… Não acredito. O perigo de vazamentos em geral é que são informações fora de contexto. Pedaços de papel que podem dizer uma coisa e outra ao mesmo tempo. No caso da Camargo, soltaram uma lista, com grande estrépito, de políticos que teriam recebido doações. Depois se viu que todas elas tinham sido declaradas à Justiça Eleitoral.
- Nos contatos com Lula, chegou a falar desse caso?
- Fui contratado pela Camargo num certo dia em que, por coincidência, eu tinha compromisso à noite em Brasília. Lá, resolvi dar uma passada no Palácio para cumprimentar o Gilberto, como faço sempre. Perguntei sobre a Dilma. Ele respondeu que ela estava com o presidente e sugeriu que entrasse, para cumprimentá-los. Havia uma reunião com Carlos Minc, Dilma e Márcio Fortes. Fui até meio inoportuno, interrompi a reunião. Eu disse: “Só vim dar um abraço”. Nunca toquei nesse assunto. Eu faço um chinese wall bem forte sobre isso.
- O sr. tem clientes polêmicos, como Roger Abdelmassih. Como os escolhe?
- Clientes polêmicos sempre vão existir. Trabalhei nisso a vida toda. Quanto mais difícil, mais excitante, joga mais adrenalina no sangue. Não escolho muito, são os clientes que me escolhem. Normalmente aceito, com restrições.
- Quais?
- Casos em que a vítima seja criança, por exemplo. Isso vem desde que minha filha era pequena. Tenho um bloqueio psicológico. Casos de tráfico de drogas também não aceito.
- O sr. vai defender as cotas para negros na UNB?
- Tive uma conversa com o ministro Edson Santos. Provavelmente vou assumir a causa. Sou a favor. São políticas compensatórias. Temos uma carga secular de dívidas. É preciso quitá-las.
- A proposta do Plano Nacional de Direitos Humanos gerou uma grande polêmica. Será que ela foi vazada para distrair a atenção de algo que não se sabe o que é?
- Esse projeto reúne coisas dificilmente compatibilizáveis, mas ligadas pelo tema direitos humanos. Não acho que vazaram por nenhum motivo conspiratório.
- Não seria melhor ter discutido um tema de cada vez? – Talvez taticamente fosse melhor. Não se abririam tantas frentes de disputa. Mas o texto se parece com os do governo FHC.
- No plano, o sr. é mais Vanucci e Genro ou Jobim?
- Eles fazem parte da tensão natural do governo. Cabe ao presidente arbitrar.
- Então, o sr. é Lula…
- Sim, entre todos sou Lula. Mas tenho muito respeito por eles.
- É a favor da revisão da Lei de Anistia?
- Não. Acho que a comissão para descobrir a verdade é uma iniciativa meritória. Essa sim é boa para que o País se reconcilie com sua própria história. Mas não acredito que se possa, nem juridicamente, mexer na Lei de Anistia.
- Com quem o sr. não se dá?
- Me dou com todo mundo. Sou uma pessoa de trato fácil. Não me lembro de ter inimigos.
- Depois de sua saída do governo houve operações da PF acusadas de midiáticas… Quando fomos para o governo a Polícia Federal era uma coisa. Depois de alguns anos do presidente Lula, já era outra. Era uma instituição despreparada e o presidente, logo nos três primeiros meses de governo, praticamente dobrou o efetivo. Depois, foi reequipando. Acho que (o exagero) não passou de uma doença infantil da Polícia Federal.
- O que o sr. aprendeu nos quatro anos de governo?
- Amadureci muito, perdi um pouco as ilusões que tinha. Aprendi que o serviço público é muito difícil. Temos uma tradição ibérica de Estado pesado, cheio de estamentos e categorias. É difícil fazer as coisas andarem. Na iniciativa privada é mais fácil.
- Que saída imagina para isso?
- Não acredito em Estado mínimo, mas em Estado forte. Mas para ele funcionar é preciso reformar o Poder Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O serviço público precisa melhorar muito. Vou dar um exemplo. Logo no começo minha ideia era criar um sistema penitenciário federal. O plano demorou três anos para sair do papel.
- O sr. andou doente. Já se recuperou?
- Quarenta dias depois de sair do ministério fiz um check up e o cardiologista me informou que eu tinha um câncer de pulmão. Levei um susto. Operei em uma semana. Fiz quimio com o Drauzio Varela, dezesseis sessões. Tirei metade do pulmão. O tratamento durou até 21 de novembro. Nunca vou esquecer essa data.
- É a favor da lei antifumo do Serra?
- Totalmente. Acho que cigarro devia ser proibido como droga.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:15

Dilma, a mulher que furou a fila do PT

Da repórter Vera Rosa, do ‘Estadão’:
“A mulher escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como sua herdeira política atravessou o caminho do PMDB, que hoje tenta conquistar, na transição de governo, em 2002. Foi no fim daquele ano que Lula, então presidente eleito, desfez um acordo para dar ao PMDB o Ministério de Minas e Energia, entre outros cargos, e anunciou que o comando da pasta ficaria com Dilma Vana Rousseff.
Estava selado ali o destino da ex-guerrilheira que encantou Lula, furou a fila do PT na disputa pela cadeira do chefe e, anos depois, viu personagens da mesma história se cruzarem na cena política. Em 2005, Dilma substituiu José Dirceu na Casa Civil e, na cerimônia de transmissão do cargo, foi chamada por ele de “companheira de armas e de lutas”.
Abatido pelo escândalo do mensalão, Dirceu foi o homem que, na direção do PT, fechou o acordo com o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), para entregar ministérios ao partido em troca do apoio ao novo governo. Temer é o deputado que estranhou a entrada de Dilma na vaga prometida ao PMDB e hoje é cotado para dividir com ela, na condição de vice, a chapa abençoada por Lula ao Palácio do Planalto.
Cristã nova no PT, desconhecida no próprio partido e sem nunca ter enfrentado uma eleição nem quando estava no PDT de Leonel Brizola, a mineira Dilma desbancou petistas históricos dizimados por uma sucessão de escândalos, como Dirceu e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci.
Nunca teve jogo de cintura política – tanto que ganhou um “bambolê” do PMDB -, mas não fez sombra para Lula. Com essa credencial, ela hoje se prepara para representar o PT na primeira eleição disputada pelo partido sem Lula na cédula justamente com a ajuda de Dirceu e de Palocci, o ministro com quem teve ruidosos embates no governo por causa do superávit primário.
Mesmo sem força para se contrapor à vontade de Lula, o PT chegou a esboçar resistência a uma candidatura que não passou pelo crivo do partido, mas acabou se rendendo. Dilma se aproximou do PT em meados do ano passado, após enfrentar um câncer no sistema linfático. “Muita gente diz que ela é dura, mas, numa negociação, tem de ser assim mesmo”, ameniza Lula. “Logo que eu ganhei a primeira eleição, em 2002, avisei aos companheiros que Minas e Energia não ia entrar na negociação partidária com o PMDB porque eu tinha encontrado a ministra ideal. Daí para a Dilma passar à Casa Civil foi uma coisa natural.”
Filha de pai búlgaro e mãe mineira, Dilma faz o estilo “gerentona”: é implacável com os subordinados, cobra prazos e resultados e quer tudo pronto “para ontem”. “O presidente não dá bronca em ninguém. Ele fala para a Dilminha. Aí ela vai lá e resolve”, conta o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que chama a chefe da Casa Civil pelo apelido de infância.
Aos 62 anos, Dilma está acostumada a cuidar de um cardápio variado de assuntos, da banda larga aos temas econômicos, passando por licenças ambientais. Há poucos dias chegou à sua mesa um relatório com “sinais de alerta” do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Dizia que a “implementação” do plano está “problemática”, pois recursos disponibilizados têm sobrado. Desembarcam em seu gabinete, ainda, pedidos de governadores, ávidos por resolver pendências com a União.
“O Serra me liga e me dá tarefas”, confidencia Dilma, rindo, numa referência ao governador de São Paulo, José Serra (PSDB), provável adversário do PT na corrida ao Planalto. “Eu o conheço há 30 anos e temos a melhor relação.” Quando Dilma era militante de uma organização de extrema-esquerda chamada Colina (Comando de Libertação Nacional), em Belo Horizonte, o hoje deputado José Aníbal (PSDB-SP) também conviveu com a garota que amava os Beatles, a música clássica, os livros e os filmes de Glauber Rocha. “Ela sempre foi inteligente, mas está contaminada pelo PT”, avalia o tucano.
Lula quebrou o protocolo político na divisão de seu espólio, jogou o PT para escanteio e ignorou o mosaico ideológico das tendências abrigadas no partido fundado por ele há 30 anos. Além disso, convencido de que é possível eleger a primeira mulher presidente do Brasil, escalou um time de sua confiança para cuidar da campanha e moldá-la como candidata.
“O presidente acha que carisma e contato com o povo se constroem e ouso dizer que ele a escolheria mesmo que Dirceu e Palocci estivessem no governo. Para ele, é muito importante o fato de Dilma não ter projeto político pessoal, porque percebeu o quanto as ambições criam problemas”, constata Gilberto Carvalho, chefe de gabinete de Lula.
Em março de 2008, a ministra sofreu seu primeiro revés na Casa Civil: foi acusada de montar um dossiê sobre gastos sigilosos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e da ex-primeira-dama Ruth Cardoso com cartões corporativos. Ela negou e disse que se tratava de um “banco de dados” com informações a serem enviadas ao Tribunal de Contas da União (TCU) e à CPI dos Cartões.
A crise só terminou depois que um funcionário posto na Casa Civil por Dirceu caiu, apontado como autor do vazamento para o PSDB. No ano passado, novo problema: embora Dilma não tenha concluído nem mestrado nem doutorado em economia, o site da Casa Civil informava que ela é “mestre em teoria econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp) e doutoranda em economia monetária e financeira”. A Casa Civil foi obrigada a mudar o texto e a ministra, furiosa, responsabilizou assessores pelo erro.
Quem convive com Dilma sabe que há coisas que ela não suporta. Uma delas é o erro dos encarregados por determinadas tarefas. Além disso, odeia ser rotulada como “estatizante” – apesar de pregar o maior papel do Estado na economia – e “dama de ferro”. Perdeu a conta, porém, de quantas vezes a compararam com Margareth Thatcher, a ex-primeira-ministra da Inglaterra. “Mulheres em posição de mando sempre ficam com essa pecha”, reclama. “Ronald Reagan, nos Estados Unidos, era duríssimo, e ninguém fala nada.”
Conhecida por ler tudo o que cai em suas mãos, a chefe da Casa Civil se interessou por um artigo no The New York Times, de Thomas Friedman, enviado a ela no penúltimo dia de janeiro. Diz o texto que a equipe do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deixou morrer o trabalho de mobilização de jovens – construído a duras penas durante a campanha de 2008, com a ocupação de espaços na internet – e pagou alto preço por isso.
“Se você pensa que a resposta correta (para enfrentar a crise) é dar uma chibatada populista nos bancos, está errado”, escreve Friedman no artigo, numa espécie de conselho a Obama. “Por favor, regule os bancos de forma inteligente. Mas lembre-se: no longo prazo, os americanos não se congregam em torno de políticos raivosos, que não deixam aflorar o melhor de nós. Eles se congregam em torno dos que inspiram, dos que são esperançosos (…)”
A cúpula do PT quer fazer da esperança a marca da campanha de Dilma – assim como foi a de Lula, em 2002 -, mas sabe que, desta vez, terá de recorrer a nova embalagem para o apelo emocional. O mote não será mais a “esperança contra o medo”. Agora, o desafio consiste em convencer o eleitor de que a melhoria das condições de vida dos brasileiros está na continuidade do PT no Planalto.
Da mesma forma que Obama, a equipe de Dilma está de olho nos “guerrilheiros da blogosfera” e pretende dedicar um capítulo do programa de governo aos jovens. “Mas não vai ser uma paginazinha só para cumprir tabela”, promete o novo presidente do PT, José Eduardo Dutra.
Estrategista da campanha online de Obama, Ben Self tem sido consultado pelo marqueteiro João Santana, que assinará a propaganda eleitoral da ministra. O maior esforço do staff petista é para suavizar a imagem de Dilma. De um ano e meio para cá ela já fez curso de dicção, substituiu os pesados óculos por lentes de contato, recorreu a uma plástica no rosto, mudou o guarda-roupa e tenta cada vez mais ser simpática.
Nos anos 60, Dilma usava os codinomes “Stela” e “Marina”, para fugir da repressão. Agora, na versão Dilminha paz e amor, l “virou palanqueira”, como definiu Lula. Tudo para subir a rampa do Planalto”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:49

“Lula é Lula, Dilma é Dilma”

Do repórter Fabio Fabrini, em ‘O Globo’:
“Ex-guerrilheiro que militou com Dilma Rousseff contra a ditadura militar e tem com ela uma ligação de 42 anos, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT) afirma que terá papel de destaque na coordenação da campanha da ministra à Presidência, mesmo que seja candidato ao governo de Minas Gerais.
Ele vincula sua candidatura ao Palácio da Liberdade a uma decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
E, a despeito disso, já trabalha na construção da candidata à Presidência que se apresentará ao eleitor. Para o petista, a Dilma que emergirá nas eleições presidenciais, a partir de julho (início oficial da campanha), deve ser como ela é, sem tentar esconder a fama de durona nem reproduzir a linguagem do presidente e sua forma de cativar o público.
? Isso de fazê-la parecida com Lula é ilusão. Ela não é operária, não passou fome e não nasceu no Nordeste. Nunca vai ser igual. Se for assim, vai soar falso ? avalia Pimentel, que tem se reunido semanalmente com Dilma e integra o ?estado-maior? da campanha governista.
Assim é chamada a comissão provisória que traça a estratégia eleitoral. Além dele, participam do núcleo o ex-ministro Antônio Palocci; o chefe do Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho; o presidente do PT, Ricardo Berzoini; e os ministros Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Franklin Martins (Comunicação Social).
Desempenho de Dilma foi testado por eleitores Com o marqueteiro João Santana ? que fez a campanha de Lula em 2006 e cuidará da imagem da candidata ?, Dilma tem treinado a postura e o discurso.
Na visão de Pimentel, as origens e o temperamento da ministra não serão problema: o que falta é escolher temas mais populares para tratar publicamente, deixando de lado o tom técnico.
Foi ideia dele testar o desempenho de Dilma com eleitores, ainda em 2008. Um conjunto de entrevistas a programas de TV, dos tempos em que a ministra ainda não era pré-candidata, foi mostrado a 18 grupos país afora.
Em 12 minutos, a chefe da Casa Civil apresenta-se a seu modo: não só diz ser mineira de classe média, mas de classe média alta; explica que o pai era búlgaro; e acrescenta que foi educada nos melhores colégios de BH.
? Nada ajudava, mas o resultado foi positivo. Passou uma ideia de mulher verdadeira, de um político que não se faz de coitado para conseguir voto ? diz Pimentel.
Nas reuniões, fala-se da agenda e dos temas a serem trabalhados na précampanha.
O ex-prefeito diz que a ministra é boa estrategista.
Segundo ele, veio de Dilma a sugestão de explorar a entrevista do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, que disse que os tucanos acabariam com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e mudariam a política econômica. A reação de Dilma às críticas de Guerra detonaram uma crise entre os partidos esta semana.
? Aquilo foi uma bola bem colocada para chutarmos.
Em 1968, ano da publicação do Ato Institucional no5, Pimentel era um secundarista engajado no movimento estudantil quando conheceu Dilma. Estudava no Colégio Estadual Central, reduto de subversão à ditadura, por onde ela passara antes de iniciar o curso de economia na UFMG.
Eles militavam no Comando de Libertação Nacional (Colina), organização que aderira à luta armada.
O ex-ministro Nilmário Miranda (Direitos Humanos) se lembra da ascendência da ministra sobre os demais estudantes.
Com pouco mais 15 anos, ela era referência da Política Operária (Polop) no Estadual Central. Pimentel conviveu com ela mais tarde, já no Colina. Dilma estava casada com o primeiro marido, Cláudio Galeno Linhares, que viraria amigo do ex-prefeito e, décadas depois, seu assessor na Prefeitura de BH. O apartamento do casal era aberto a reuniões com militantes.
? Durante muito tempo, Dilma foi o contato de minha célula estudantil com a cúpula da organização.
Frequentei muito a casa dela e também a da mãe. O ambiente era de crescimento cultural, trocávamos livros e discutíamos ? diz Pimentel, acrescentando que Dilma se destacava pela capacidade intelectual e de liderança: ? Há 40 anos, o espaço da mulher era muito menor e ela já era chefe de uma organização.
Ela tinha uma capacidade de análise invulgar.
Aliança do PT com Aécio, em 2008, é criticada Com o desmantelamento do Colina pela repressão, Dilma e Pimentel fugiram para o Rio, no início de 1969. Em seguida, ele partiu para o Rio Grande do Sul, já na VPR, e ela, para São Paulo, na VAR-Palmares. Ambos foram presos no ano seguinte. Em 1972, a ministra foi solta. Proibida de continuar o curso na UFMG pelo Decreto 477, mudouse para o Rio Grande do Sul. O ex-prefeito foi solto no ano seguinte, cursou economia e cuidou dos negócios da família. Os dois se reencontraram em 2002, na coordenação da campanha de Lula à Presidência.
Libertado sob condicional, Pimentel manteve militância discreta até 1978. No início dos anos 80, fundou o PT em Minas.
? Em BH, fui fiador do aluguel da primeira sede do partido.
Até se candidatar a vice-prefeito da capital na chapa de Célio de Castro, em 2000, deu aulas na UFMG e foi secretário municipal de Fazenda. Assumiu a prefeitura dois anos depois, quando Célio (morto em 2008) adoeceu. Em 2004, reelegeu-se.
Apesar da militância histórica e da proximidade com Dilma, o ex-prefeito tem relação conflituosa com setores petistas e da base aliada. É apontado como um dos articuladores do chamado ?Lulécio? em 2006, estratégia para que os mineiros votassem em Lula para presidente e Aécio Neves para governador.
Em 2008, a aliança com Aécio para eleger Marcio Lacerda (PSB) prefeito de BH estremeceu mais a relação com parte da militância.
O acordo favoreceu o racha no PT, que hoje se divide entre as pré-candidaturas de Pimentel e do ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social).
? A composição política feita pelo Pimentel só dividiu o partido. Em nível nacional, o PSDB é oposição ao PT. Aliança com os tucanos não soma ? critica a prefeita de Betim, Maria do Carmo Lara”.

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