• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:30

Miro: “País quer propostas”

Do Deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para ‘O Globo’:
“Referência da esquerda entre os principais nomes da política, Lula exerce o poder como um presidente conciliador e deixará ao país um modelo de equilíbrio entre as forças e interesses nacionais, que poderá representar um novo momento em nossas vidas.
A boa novidade começa a se exibir, depois que nossa história, no pós-guerra, viveu sobressaltada pelo suicídio de Getúlio, renúncia de Jânio, deposição de João Goulart, a frustração do Plano Cruzado e o impeachment de Collor.
Hoje temos candidatos à Presidência da República com a honradez testada no exercício de cargos públicos que ensejavam práticas de corrupção, de demagogia, de ofensas eleitoreiras a adversários, e a elas não se entregaram.
Tal plantel de pessoas honradas remete-nos a uma campanha eleitoral civilizada, com a exibição de programas de governo a orientar o voto dos cidadãos.
Os fracassos e as culpas estarão ausentes do cardápio de campanha como se antevê no bate-boca preliminar entre Dilma e Serra, que chega a ser ingênuo diante das imprecações que candidatos dirigiam aos concorrentes, em tempos idos.
?O Brasil pode mais?, de Serra, pareceu uma grande novidade até mesmo para Lula, que chamou o tucano para a briga, como que ofendido pelo óbvio.
É claro que o Brasil pode mais e, espera-se, sempre deverá buscar este ?mais?, por todos os séculos dos séculos.
E como que a demonstrar que também é de briga, Serra atribui a Dilma uma ofensa aos exilados, por conta de um desabafo da candidata, seguidamente apontada como terrorista.
?Eu não fugi à luta? me parece mais a explicação de quem exerceu o direito de insubordinação diante da ditadura.
Mineira, com trajetória política no Rio Grande do Sul, Dilma não cometeria o desatino do sarcasmo diante da deposição de João Goulart, marco da ditadura de 1964.
A sofreguidão no aproveitamento de frases de efeito revela a falta de melhor munição dos contendores, ambos candidatos a continuar o governo Lula, com os avanços possíveis graças à plataforma de lançamento que herdarão para suas metas.
Porque assim tem sido. Da ênfase anti-inflacionária do Plano Real de Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula foram seguidores, e quem os suceder o mesmo fará, sem alcançar a perfeição, como Lula não alcançou como demonstram as altas taxas de juros.
O Bolsa Família foi precedido pelo ticket do leite e pelo Bolsa Escola, porque ?quem tem fome tem pressa?, como explicavam Betinho e Dom Mauro Morelli, a bater em portas, com a ajuda de Zuenir Ventura, para mobilizar governos contra os bolsões de miséria.
Passada a refrega dos fraseados, os candidatos terão que explicar como resolverão problemas que se tornam crônicos.
Os trabalhadores acompanham atemorizados a situação dos aposentados, com os proventos reduzidos em comparação ao saláriomínimo.
As famílias continuam surpreendidas pela falta de cobertura dos planos de saúde. As cidades, à míngua de obras e ser viços, se equilibram entre enchentes, gripes, dengue e assaltos. Sobram impostos e faltam soluções.
Deixamos a era do risco de violações governamentais a direitos fundamentais. A sociedade conquistou a liberdade de uma vez por todas. Temos instituições a assegurála, qualquer que seja o governo.
Os brasileiros merecem conhecer desde logo as propostas dos candidatos, para conferi-las, debatêlas, criticá-las. É o que esperamos de todos.
E, para temperar a polêmica sobre a frase de Dilma, mesmo com a indelicadeza de lhe retirar a originalidade, os candidatos podem cantar em coro, do nosso Hino, ?verás que um filho teu não foge à luta?.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:16

José Serra não é Carlos Lacerda

Do jornalista Elio Gaspari:
“Como era previsível, uma única palavra ? ?roubalheira? ? deu o tom do discurso de despedida de José Serra. Pena. Foi uma fala tediosa, mas uma só palavra desviou o curso de uma reflexão em torno de ideias, honradez e sobriedade administrativas.
Ela não caiu como cabelo na sopa. Foi um flerte com ?a busca da notícia fácil? que o próprio Serra criticaria no mesmo discurso.
Com suas pressões e ansiedades, as campanhas moldam os candidatos. Quando entrou na disputa pela Presidência, Barack Obama não tinha proposta para a reforma dos planos de saúde. Juscelino Kubitschek nunca pensara em construir Brasília até que, meses antes da eleição, um estudante chamado Toniquinho perguntoulhe se cumpriria o dispositivo constitucional que previa a transferência da capital para o Planalto.
Na atual campanha, há uma energia interna no mandarinato oposicionista que procura um foco na denúncia da amoralidade do governo de Lula. Foi essa força que levou o ?roubalheira? para o discurso de Serra.
Se essa tática prevalecer, acarretará vários riscos, todos lesivos ao nível político do país e à biografia do candidato. O combate à corrupção não deve ser plataforma de governo, mas pressuposto.
O país sofre com o desembaraço dos mensaleiros e com a proteção paternal que Lula lhes dá, assim como padece com o silêncio tucano diante da cassação do mandato, pela Justiça, de seu governador da Paraíba. O mais ilustre detento do sistema carcerário nacional é o ex-governador José Roberto Arruda, o queridinho do DEM, que chegou a aspirar à vice-presidência na chapa de Serra.
Dois presidentes chegaram ao Planalto montados na bandeira da moralidade: Jânio Quadros (seu símbolo de campanha era uma vassoura) e Fernando Collor. Nenhum dos dois concluiu o mandato, e Jânio tornou-se o único governante nacional com conta secreta no exterior disputada em juízo. Esses exemplos não devem estimular complacência, apenas ilustram que o moralismo é um refúgio habitual do corrupto.
Serra nada tem a ver com Jânio e Collor. Faltam-lhe até mesmo a teatralidade, o oportunismo e a mediocridade administrativa. Pelas obsessões, pelo estilo e pela visão de governo, ele se parece com Carlos Lacerda, seu adversário juvenil. Lacerda foi o maior governante da História do Rio de Janeiro (1960-1965). Fez a adutora do Guandu e resolveu o problema secular do abastecimento de água da cidade. Urbanizou o Aterro do Flamengo, abriu o túnel Rebouças e remendou a rede escolar pública. Desse Lacerda, o ?Carlos? dos amigos, pouco se fala. O personagem da História foi outro, o ?Corvo? dos inimigos, que carimbava ?roubalheira? nos adversários. Demolidor audaz, escondia em ímpetos de calculada agressividade um temperamento egocêntrico e depressivo. Carregava nas costas o suicídio de Getulio Vargas (cujos capangas tentaram matá-lo em 1954), assim como carregou a deposição de João Goulart e um pedaço da ditadura que se instalou em 1964.
Vale ouvi-lo: Sobre Vargas: ?Getulio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência.
Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse.
Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar?.
Sobre Juscelino Kubitschek: ?Um político notoriamente desonesto, cujo enriquecimento, seu e de seus amigos, constitui uma afronta ao país?.
Sobre João Goulart: ?Eu agarro o touro pelos chifres?. Diante dos risos da plateia, fez um adendo infame: ?E ele os têm?.
Sobre o presidente Castello Branco: ?O marechal é um anjo da rua Conde Lages?. (Numa referência aos santos colocados nas salas de estar dos bordéis da Lapa.) Nada a ver com Serra. Numa trapaça do tempo, ele recorreu ao ?roubalheira? no dia 31 de março, exatos 46 anos depois do levante militar que o levou ao exílio e deu a Lacerda um breve período de esplendor.
Uma campanha desqualificadora que fecha seu foco na denúncia da corrupção alheia precisa que o candidato puxe o samba. Para aprender esse papel, Serra tem idade demais e treino de menos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:36

25 anos de democracia

De Tereza Cruvinel, presidente da Empresa Brasileira de Notícias, no ‘Correio Braziliense’:
“A passagem do centenário de nascimento de Tancredo Neves, no último dia 4, chamou a uma reflexão sobre os 25 anos contínuos de democracia que estamos vivendo desde que ele foi eleito, em 15 de janeiro de 1985, e que José Sarney tomou posse em seu lugar, em 15 de março, após a espantosa noite em que o presidente eleito acabou sendo operado na véspera da posse, vindo a morrer em 21 de abril. Tinha 75 anos, exercitara a conciliação como saída para as crises e provara sua coragem política nos momentos cruciais. Com Getúlio até o fim, sustentou a posse do vice João Goulart após a renúncia de Jânio, não votou no primeiro general presidente, deu a mão a JK quando a ditadura cassou seus direitos políticos e o empurrou para o exílio.
Na quarta-feira, o Congresso realizou sessão especial em homenagem a Tancredo e na quinta o governador Aécio Neves, seu neto e herdeiro, inaugurou a cidade administrativa que leva seu nome, um novo conjunto arquitetônico de Niemeyer. As duas solenidades, sobretudo a última, reuniram boa parte dos atores ainda vivos daquela memorável passagem: o fim da ditadura, pelo caminho possível, a eleição indireta do primeiro presidente civil, mas com forte e decisiva participação do povo brasileiro. Lá estava Fafá de Belém, remexendo emoções com a interpretação do Hino Nacional que fazia nos palanques. Cristiane Torloni apresentando o evento como nos comícios das diretas e da campanha de Tancredo. Milton Nascimento cantando ?Coração de estudante? , música-tema daqueles atos memoráveis. Pude chorar, como naquele tempo em que jornalistas podiam ter sentimento cívico.
No discurso de Aécio, a lembrança dos timoneiros que já se foram, como Ulysses Guimarães, Franco Montoro, José Richa, Brizola. E também os que, rompendo com o partido oficial e apoiando Tancredo, possibilitaram a vitória. ACM e Aureliano Chaves, entre os que já se foram. Muita gente mais jovem que ali estava, entretanto, não entendeu as simbologias reunidas por Aécio para lembrar não apenas Tancredo, mas a gloriosa travessia que fizemos, após 21 anos de arbítrio, usurpação dos direitos civis, prisões, torturas, desaparecimentos, exílios. Não temos conseguido transmitir às novas gerações o que foi a ditadura, não temos contado como saímos dela e, mais importante, não temos reiterado o quanto tem valido a pena a democracia.
A transição concluiu-se com a Constituinte e dela é o legado que tem permitido os nossos avanços. Exercitamos a cidadania como nunca antes em 500 anos. As políticas sociais que têm afortunadamente reduzido nossa desigualdade têm base na Constituição, que fixou as obrigações do Estado e alargou os direitos sociais. As liberdades foram asseguradas e, apesar de algumas fobias, a liberdade de imprensa e de expressão nunca foi tão plena nestas plagas. Muitas determinações a Constituinte deixou para a regulamentação posterior. O Sistema Público de Comunicação, que inclui a TV Pública, assegurando equilíbrio e complementaridade na exploração do bem coletivo que é espectro eletromagnético, tem previsão no artigo 223, embora alguns tentem caracterizá-lo como arroubo estatista. Na semana que vem teremos o centenário do Dia Internacional da Mulher. Elas foram protagonistas importantes na resistência e na ditadura, mas a democracia é que tem permitido a redução, ainda que incompleta, da histórica desigualdade de gêneros. Dezenas de artigos ainda pedem regulamentação.
Este ano haverá eleições e, apesar das mazelas políticas, muito pior é não poder votar e ser votado. Mais uma vez, votarão também os analfabetos e os jovens com 16 anos completos, num sufrágio admiravelmente amplo. A urna eletrônica nos livrou da fraude na contagem. A identificação digital do eleitor, que o TSE testa este ano em alguns municípios, nos livrará de outro tipo de fraude, o voto com título alheio e até de eleitores mortos. Na política, o que falta é a reforma do sistema, tornando-o mais adequado à disputa democrática e à escolha da representação popular. Mas devemos recordar Tancredo festejando a democracia, seu quarto de século que não há de ser interrompido”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:06

“Lulismo pode durar 30 anos”

 Em entrevista a Mariana Sanches, da revista ?Época?, o ex-porta-voz do governo, Andre Singer, disse que a conquista dos eleitores pobres levará o PT à hegemonia política, já que alia um projeto de redistribuição de renda à manutenção da ordem social. Singer acredita que o lulismo reorganizou o eleitorado brasileiro e poderá virar uma força política hegemônica por décadas. Eis a entrevista: 
“? Como o senhor define o lulismo?
? O lulismo é a execução de um projeto político de redistribuição de renda focado no setor mais pobre da população, mas sem ameaça de ruptura da ordem, sem confrontação política, sem radicalização, sem os componentes clássicos das propostas de mudanças mais à esquerda. Foi o que o governo Lula fez. A manutenção de uma conduta de política macroeconômica mais conservadora, com juros elevados, austeridade fiscal e câmbio flutuante, foi o preço a pagar pela manutenção da ordem. Diante desse projeto, a camada de baixa renda, cerca de metade do eleitorado, começou a se realinhar em direção ao presidente.
? Quando isso aconteceu?
? Em 2006. Houve um realinhamento eleitoral, um deslocamento grande de eleitores que ocorre a cada tantas décadas. A matriz desse tipo de estudo é americana. Lá, eles acham que aconteceu um realinhamento eleitoral em 1932, quando (Franklin) Roosevelt ganhou a eleição presidencial. Ele puxou uma base social de trabalhadores para o Partido Democrata que não havia antes. Aqui, em 2006 a camada de baixíssima renda da população, que sempre tinha votado contra o Lula, votou a favor dele. A diferença entre 2002 e 2006 foi que Lula perdeu base na classe média, seu eleitorado tradicional, e ganhou base entre os eleitores de baixa renda.
? O lulismo pode sobreviver sem o Lula? Não é preciso uma liderança carismática à frente desse projeto político?
? No lulismo existe um elemento de carisma, mas isso não é o mais importante. A importância do carisma é maior nas regiões menos urbanizadas do país, onde se tende a atribuir a capacidade de execução de um projeto a características especiais da liderança. Em regiões urbanizadas existe uma adesão mais racional ao programa político. Se minha análise estiver correta, o lulismo sobreviverá sem o Lula. Uma hipótese é que o lulismo vá desaguar no PT. Essa camada social que aderiu ao Lula pode lentamente começar a votar nos candidatos do PT a prefeito, governador, senador. Vejo indícios de que isso começou a ocorrer nas eleições municipais de 2008. O PT foi mal nas capitais, mas foi bem nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte. Isso pode sinalizar que o voto da camada de menor renda da sociedade está caminhando para o PT.
? Dilma Rousseff será a herdeira do lulismo? O que acontecerá em 2010?
? Mantidas as condições atuais, a tendência é que, à medida que ficar claro para o eleitor que a Dilma é a candidata de continuidade do lulismo, ela aumentará suas intenções de voto com chances consideráveis de ganhar a eleição.
? Se o lulismo desaguar no PT, o partido terá de abrir mão de bandeiras históricas de esquerda?
? O PT poderá ser uma fusão de duas forças, o petismo e o lulismo, que têm projetos com pontos de contato e diferenças. O PT continua sendo o partido do proletariado organizado, sindicalizado, com carteira de trabalho assinada. Pode vir a ser também o partido do subproletariado. Quando a gente vê a força do PT na periferia de São Paulo pode ser a expressão da confluência dessas duas forças.
? Se essa convergência ocorrer, haverá uma hegemonia do PT?
? Pode ser. É possível que estejamos assistindo a um realinhamento como foi na época do Roosevelt, que trouxe segmentos da classe trabalhadora para o Partido Democrata por cerca de 30 anos.
? Essa camada que era anti-Lula, antiesquerda e a favor da ordem não teria dificuldades em se associar ao PT?
? Com adaptações de parte a parte parece possível, mas será um processo lento. Não é tão simples porque o PT tem formação ideológica de esquerda e, embora tenha se transformado, mantém a identidade de um partido de esquerda. O PT é herdeiro de uma tradição de crítica ao populismo. Se o partido vier a ser caudatário desse movimento, vai haver o encontro de águas bem diferentes.
? O que aproxima o lulismo do populismo de Getúlio Vargas?
? Em ambos há uma política de governo voltada para os setores de menor renda. Mas há uma diferença importante. Getúlio Vargas, ao fazer a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criou direitos para o setor urbano da classe trabalhadora, em um país predominantemente rural. Deixou de fora um vasto setor da classe trabalhadora que foi incorporado agora.
? O lulismo pode prejudicar as instituições democráticas?
? O presidente Lula tomou uma decisão fundamental ao não aceitar a proposta do terceiro mandato. Colocou um ponto final nessa questão. O Brasil sai desse processo com instituições democráticas fortalecidas. Há problemas na política partidária, cada vez mais pragmática e menos programática. Isso cria a sensação de que a política diz respeito aos políticos, e não à sociedade.
? Lula e o PT, em sua estratégia eleitoral, fizeram uma guinada ao centro. A política econômica ortodoxa não tem a ver com esse caminho que o partido já vinha tomando antes de chegar ao poder?
? O PT foi se institucionalizando, mas a ida ao centro é relativa se você olhar o aspecto programático. O partido manteve um programa com mudanças relativamente pequenas. E é isso que faz com que o PT mantenha a identidade de esquerda. Onde houve mudança foi na política de alianças do PT. Antes ele recusava alianças até o ponto de, em 1989, não querer o apoio do PMDB no segundo turno, sem contrapartida. Hoje o PT dá prioridade à aliança com o PMDB. Isso é compreensível do ponto de vista eleitoral, por causa do tempo de televisão, do tamanho do PMDB. Mas é também um problema porque não se sabe qual é a base programática dessa aliança.
? Com Dilma na Presidência, crescem as chances de o PT aplicar um programa de governo mais à esquerda?
? Depende da política de alianças. Se você tiver um vice-presidente como o Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), as probabilidades caem muito. Mas o sentimento do PT é ter um governo mais à esquerda.
? A emergência dos pobres significará a marginalização da classe média?
? A entrada em cena dessa força nova tirou a centralidade das decisões políticas da classe média. Se o lulismo se consolidar, teremos o setor de baixa renda em um campo político e a classe média tradicional em outro. A nova classe média é dúvida. A oposição em 2010 vai fazer tudo para não se isolar dos eleitores de baixa renda. Vai tentar a mágica de convencer os lulistas de que seu candidato é melhor para dar continuidade ao projeto do que a candidata da situação?.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:01

FHC e o PT

Do jornalista Élio Gaspari:
“Fernando Henrique Cardoso está em grande forma. Num artigo intitulado ?Para onde vamos?? mostrou que é a única voz articulada com coragem para acertar a testa de Nosso Guia. É um texto astucioso, chega a ter ginga.
Apocalíptico e insinuante, tem a gravidade de uma Cassandra e a amnésia de personagem de novela barata.
Seu argumento central faz todo sentido: Lula está construindo uma teia de alianças e interesses que desembocará num ?subperonismo?. O que vem a ser essa praga, não se sabe, mas ela junta o PT, sindicatos de empregados e de patrões, fundos de pensão, BNDES e triunfalismo. Essas seriam as ?estrelas novas? às quais se abraçam ?nossos vorazes, mas ingênuos capitalistas?. O ex-presidente adverte para a formação de um novo ?bloco de poder?, interessado num continuísmo que deve ser contido, pelo voto, ?antes que seja tarde?.
As críticas pontuais do ex-presidente passam da dúzia e ele pode ter razão em quase todas. Em dois casos o professor chegou à verdade com o auxílio de lapsos da memória. Num, criticou a compra de caças pela Força Aérea.
Logo ele, que comprou um portaaviões.
No outro, denunciou o poder dos fundos de pensão das empresas estatais e suas relações incestuosas com o governo e empresários-companheiros.
Tem toda razão, mas quem deu forma a esse bicho foi ele, quando moldou e deixou que moldassem a engenharia financeira das privataria.
Em dois momentos o ex-presidente teve a infelicidade de comparar atitudes do atual governo com práticas do tempo do ?autoritarismo militar?.
Lula, com seus ?impropérios? é capaz de ?matar moralmente empresários, políticos (e) jornalistas?. O ex-presidente exagerou.
Logo ele, que conheceu pessoas assassinadas sem advérbio. No seu esforço para tornar mais pesada a carga dos petistas, Fernando Henrique torna mais leve a mochila dos crimes da ditadura militar.
A alma dos receios de Fernando Henrique Cardoso está no que ele chama de ?autoritarismo popular? (entre aspas no original, sem que se saiba por que). O que é isso, não se sabe.
Trata-se de uma construção em cujo hermetismo está uma parte do seu significado.
Referindo-se à democracia constitucional brasileira o ex-presidente informou que ?esta supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente?.
Faltou a palavra voto, mas tudo bem pois o ex-presidente jamais teve o pé no golpismo. Ganha um livro de discursos de Fidel Castro quem souber como se distingue uma ?deliberação consciente? de outra, inconsciente.
(Os liberais de 1945 imolaram suas biografias no altar da ditadura de 1964.
Pode-se dizer que o golpismo da segunda metade do século passado nasceu no dia em que os liberais da redemocratização perderam a eleição de 1950 para o ex-ditador Getúlio Vargas.) O artigo de Fernando Henrique Cardoso chama-se ?Para onde vamos??, mas indica apenas para onde ele, com bons argumentos, acha que não se deve ir. Se o tucanato não souber dizer para onde se deve ir, o PT ganhará a eleição do ano que vem.
Culpa de quem? De uma oposição que não se opõe? De um partido que não consegue ter candidato? Ou do povo, como em 1950? l Tudo o que foi dito acima só vale alguma coisa para quem leu ou vier a ler o artigo do ex-presidente. Passandose no Google ?Fernando Henrique Cardoso? e ?Para onde vamos??, chega-se a ele.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:48

Lula dá uma de Cabral

Isso é que dá ter muita proximidade com Sergio Cabral.
Fica trocando as bolas.
Lula, ao empossar ontem o novo secretário de Assuntos Estratégicos, embaixador Samuel Guimarães -  que acabou virando Salomão – afirmou, em certo momento, que “o Gabeira não está aqui. Está certamente em Chicago, porque ele voltou para a universidade”.
Não era o Gabeira, e sim o Mangabeira Unger. E não era Chicago, é Boston.
Igualzinho ao governador do Rio.
Logo no início do governo, Cabral aceitou o convite para dar uma aula inaugural. Cometeu oito erros históricos.
O mais extraordinário deles foi que Getulio Vargas se “matou com um tiro na cabeça”.
Cabral tinha tanta certeza disso, que repetiu o bestialógico três vezes.
Sua mãe, a doce Magaly, é diretora do Museu da República, o antigo Palácio do Catete, onde Vargas deu um tiro no peito.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 0:17

Cabral no dia de Vargas

O governador Sergio Cabral poderia aproveitar a tarde de hoje, já que não tem nada agendado, para visitar o Museu da República.
Há 55 anos o presidente Getúlio Vargas suicidou-se ali, no Palácio do Catete, e o pijama de seda que ele trajava no dia 24 de agosto de 1954 voltou a ser exposto, depois de restaurado.
Como ele ainda tem manchas de sangue e o buraco do tiro, Cabral aprenderá, de uma vez por todas, que Vargas suicidou-se com um tiro no peito.
Logo que tomou posse, o governador deu uma Aula Magna na Univercidade. Para os alunos, ele disse que o Presidente havia se matado com ?um tiro na cabeça?.
Cabral tinha tanta certeza que Vargas dera um tiro na cabeça, que ele repetiu a baboseira.
Na tal Aula Magna, o Governador cometeu oito erros históricos.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 23:21

De Arinos para Sarney

O jornalista Élio Gaspari publica hoje na ‘Folha’ e no ‘Globo’ o seguinte artigo:

“José,
Renuncie, homem. Aqui somos três a pedi-lo. Eu, o Milton Campos e o Pedro Aleixo, três amigos, velhos companheiros a quem você admirava com sorriso encantado quando chegou à Câmara, em 1959, aos 29 anos.
Todos três passamos por momentos em que nos enganamos quando as circunstâncias se confundiram com a existência. Na renúncia do Jânio eu era ministro das Relações Exteriores e deveria ter defendido, desde o primeiro momento, a posse do doutor João Goulart. Em 1964, diante dos primeiros casos comprovados de tortura, o Milton deveria ter renunciado ao Ministério da Justiça. O Pedro Aleixo reconhece que naquela reunião que editou o AI-5 ele devia ter devolvido a Vice-Presidência. Um ano depois, apearam-no. Nos três casos, as circunstâncias indicavam que devíamos fazer o que fizemos.
Confundidos, pensávamos que não havia opção melhor. Você sabe que a modéstia nunca foi um
dos meus atributos: não percebemos quão grandes éramos.
Com justos motivos você avalia suas opções levando em conta o que diz o presidente Lula, o apoio do senador Renan Calheiros e até mesmo a agressiva defesa representada por Fernando Collor. Você pensa até no PMDB. Tudo circunstancial. Em 1988, Lula te chamou de “incapaz” cinco vezes em 43 segundos. O que haveria de pensar o jovem José Sarney se visse a mim, ao Milton e ao Pedro almoçando no Bife de Ouro com o Tenório Cavalcanti e o Amaral Neto? Claro que pouca gente sabe quem são esses dois (nem estamos aqui para reapresentá-los). Assim como os jovens de hoje não lembram o que foi a UDN, os de amanhã não lembrarão o que foi o PMDB.
Renuncie, homem. Saia desse contratempo e carregue seus penares. A crise é sua, mas a essa altura ela interessa aos outros. Ao Lula convém um Congresso desmoralizado. Aos aliados do PMDB interessa mostrar que têm os poderes dos embalsamadores. Fuja do sarcófago.
Censurar jornal, José? Chantagear o Pedro Simon, Sarney? Esse não é nosso patrimônio. O presidente que ficou impassível enquanto seu ônibus era apedrejado e riscou com o traço da bonomia sua passagem pela vida pública está se apedrejando.
Orgulhamo-nos da tua alvorada. Não compartilhe o crepúsculo com os senadores Calheiros e Collor. O Antonio Carlos Magalhães diz que isso é feitiço de um certo Bita do Barão, com seus tambores de Codó.
Milton Campos e Pedro Aleixo pediram-me que escrevesse porque insistem em lembrar a qualidade do meu discurso de 9 de agosto de 1954. Até hoje sofro por esse ataque ao Getúlio Vargas. Não que devesse poupá-lo, mas padeço pelo que sucedeu 15 dias depois. (Ele evita encontrar comigo, nunca me dirigiu a palavra e, na chegada do d. Helder Câmara, negou-me a mão.) Sei que você memorizou trechos dessa fala e sei que você jamais viu malícia na minha alma.
Como o Pedro e o Milton insistiram ao ponto da impertinência, repito-me:
“Senhor presidente Getúlio Vargas, eu lhe falo como presidente (…) tome afinal aquela deliberação, que é a última que um presidente, na sua situação, pode tomar. (…) E eu falo ao homem Getúlio Vargas e lhe digo: lembre-se da glória de sua terra (…) lembre-se homem, pelos pequeninos, pelos humilhados, pelos operários, pelos poetas”.
Com as recomendações de Annah e os votos pela recuperação de Marly, deixa-lhe um abraço e a certeza da amizade, o seu,
Afonso”

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 21:44

Cesar Maia e a política do Rio

  O ex-prefeito Cesar Maia abre hoje o seu blog com a “História da política carioca”, onde analisa os governos que passaram pelo Rio, dos anos 30 até os dias de hoje – com o Prefeito Eduardo Paes que, para ele, governa usando como exemplo o modelo europeu daquela década.
Lá não está dito, mas o grave da administração Paes até o momento, tem sido o seu discurso.
Compreende-se sua lealdade ao governador Sergio Cabral, que lhe proporcionou toda a estrutura de campanha, além dos recursos infinitivos.
O ruim dessa história é que, que mesmo sendo mais brilhante e mais trabalhador que o governador, ele tenha aderido também às idéias do chefe.
A médio e longo prazo, persistindo nessa linha, é provável que ele venha a perder o apoio daqueles que o elegeram, e não ganhe a simpatia dos que já votaram contra ele na eleição passada.
Mas vamos a análise de Cesar:

“1. Desde o início da República a política carioca é polarizada entre dois vetores. De um lado, os que entendem que a questão social passa pela informalidade, do trabalho ao solo. No lado oposto, os que entendem que o progresso passa pela estrita observância da ordem e da propriedade. No primeiro, estiveram sempre os populistas sociais, trabalhistas, o populismo de clientela, os socialistas, os comunistas e recentemente, os populistas evangélicos. No início dos anos 30 constituiu-se um amplo arco de convergências entre todos estes grupos, e o partido autonomista obteve 70% dos votos em 1934. Em 1947 o partido comunista venceu as eleições no Rio com 34% dos votos e afirmou uma sólida base nas associações de melhoramentos nas favelas. Colocado na ilegalidade, avançaram sobre suas bases um setor católico, o ademarismo lastreado no jornal popular (A Notícia) e o trabalhismo de Vargas.
2. O vetor oposto, ordem e propriedade, se afirmou principalmente com a convergência entre o setor imobiliário/construção, o higienismo, a direita católica e a classe média dos bairros mais valorizados. O setor imobiliário/construção alterna seus empresários como dirigentes municipais por toda a República Velha. Mas sobrepõe a lógica do lucro imobiliário, focalizando a ordem e propriedade na dinâmica espacial que lhe interessa. A moradia/transporte da mão-de-obra mais barata (favelas) não incomodava enquanto cumpria alguma distância. No início dos anos 60, com Lacerda, afirma sua hegemonia na cidade. Mas este caminha ao centro, priorizando a administração pública ao lado da ordem no solo dos bairros valorizados. A eleição de 60 havia ensinado.
3. Esses processos constituem bases de voto ou opinião pública em torno de 30% para cada lado. A direita com uma dificuldade extrema de avançar além disso. O próprio Lacerda vence a eleição nessa faixa de voto. E, apesar de um governo com atuação exemplar na infraestrutura urbana e na administração pública, não consegue levar seu sucesso para fora desse patamar. Vence a oposição com Negrão de Lima, que realiza um governo híbrido, concluindo as ações de infraestrutura e a política de remoções de Lacerda, e mantendo a plasticidade exigida pelos setores populares.
4. O regime autoritário procura o caminho de menor atrito, numa cidade/estado com forte mobilização popular. Entrega o poder ao ademarismo renovado com Chagas, o populismo de clientela com base em um jornal popular. A fusão dos estados apenas retarda cinco anos este processo, que retorna crismado pelo regime autoritário. O debilitamento completo da direita política dá sequência ao vetor que se apóia na informalidade, com Brizola, com características socialmente mais orgânicas.
5. Do início dos anos 90 ao ano passado, assume a hegemonia política um vetor intermediário, mas não híbrido, que faz convergir políticas urbanas nos bairros e favelas (nestas, com apoio do BID) e destaca a administração pública. Afasta-se das posições polares e, em 2004, chega à maioria absoluta na maior votação distribuída espacialmente de todos os tempos.
6. Neste ano, um novo poder municipal é assumido a partir do voto popular. Mas perigosamente se afasta do eleitor e passa a governar na fórmula mais extrema da radicalidade. Retorna o higienismo e a expectativa imobiliária. Se vale a história política carioca, retorna a um nicho minoritário como nos anos 60. Provavelmente menor, pelo uso da repressão como forma de se exaltar a si mesmo, num modelo europeu dos anos 20 e 30 e pelo desprezo ao servidor público. Acompanhemos

  • Terça-feira, 08 Junho 2010 / 4:23

Presidência será de quem vencer em MG

Está aí uma bela curiosidade mineira, divulgada pelo repórter Paulo Peixoto, da ‘Folha’:
“De todos os presidentes eleitos no país a partir de 1945, após o declínio do Estado Novo, somente Getúlio Vargas, em 1950, não foi o mais votado pelos eleitores mineiros. Todos os demais presidentes eleitos venceram a disputa eleitoral em Minas.
O Estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, com 14,5 milhões de eleitores. Por isso tem peso importante na disputa presidencial, a ponto de PSDB e aliados pressionarem o ex-governador Aécio Neves para ser vice na chapa de Serra.
Na exceção que aconteceu com Vargas, a derrota foi por uma margem de 1,8 ponto percentual dos votos válidos, ou 23.496 votos. Desde 1945 aconteceram nove disputas.
Tanto Fernando Collor (1989) quanto Lula (2002 e 2006) se mantiveram na frente nos dois turnos das disputas que venceram.
Nas eleições após a redemocratização, a maior diferença de votos registrada foi em 1994, quando Fernando Henrique Cardoso abriu 42,9 pontos sobre Lula. A menor ocorreu no primeiro turno da eleição de 2006, quando Lula abriu 10,2 pontos sobre Geraldo Alckmin (PSDB).
Mas, no segundo turno, Alckmin viu a diferença subir para 30,4 pontos.
O fato de haver um candidato do Estado concorrendo à Presidência pode influir. Por isso há esforço da pré-candidata Dilma Rousseff (PT) em reafirmar sua “mineiridade”. Essa influência aconteceu em SP, onde Alckmin bateu Lula em 2006 e no Rio, quando Anthony Garotinho venceu Lula em 2002″.

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