• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:38

Jobim: “Nada muda na Defesa”

De Eumano Silva, da revista Época:
“O ministro da defesa, Nelson Jobim, desfruta uma situação única no governo Lula. Homem de confiança do presidente numa das áreas mais sensíveis da Esplanada, Jobim mantém estreitas relações com o candidato da oposição ao Planalto, José Serra (PSDB). A dupla militância permite a previsão de que, em assuntos de Defesa, o Brasil manterá as diretrizes atuais caso a eleição seja vencida por Serra ou pela ex-ministra Dilma Rousseff. ?Fiz reuniões com PT, PMDB, DEM e com o ex-presidente Fernando Henrique?, diz Jobim, ao explicar as mudanças na área militar, como a subordinação ao poder civil, aprovadas no Congresso. Nesta entrevista a ÉPOCA, Jobim faz um balanço dos acordos internacionais do país e das medidas para tentar organizar a aviação no Brasil”.
                                                        * * *
“? Como vai ficar a defesa nacional do Brasil no futuro?
? Os políticos e os governos civis viam a defesa com certa distância. Na época da Constituinte, a defesa se confundia com repressão política. Com isso, militares tinham de tomar certas decisões que, a rigor, eram decisões de governo civil. Exemplo: quais as hipóteses de emprego (das Forças Armadas) que politicamente interessam ao país? Isso é um misto de política internacional com defesa. Cabe ao poder civil definir o que os militares devem fazer em termos de defesa. Os militares decidem a parte operacional.
? Isso aconteceu no governo Lula?
? Tudo é um processo. Não acontece assim, bum! Começou no governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, nas condições possíveis naquele momento. No governo Lula, avançou-se um pouco no início, com o ministro Viegas (José Viegas, primeiro ministro da Defesa de Lula). Os avanços mais doutrinários são consolidados pelo vice-presidente (José Alencar) que o sucedeu e, depois, pelo Waldir Pires. Quando assumi, decidi que precisávamos realizar uma mudança de concepção para dar mais musculatura ao Ministério da Defesa.
? Como assim?
? O orçamento, por exemplo. Antes, as Forças (Marinha, Exército e Aeronáutica) se acertavam entre si dentro do limite fixado pelo Ministério do Planejamento. O ministro (da Defesa) não tinha participação. Também foi aprovado na Câmara o projeto de alteração da Lei Complementar nº 97. O Estado-Maior de Defesa passa a ser o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Será chefiado por um oficial de quatro estrelas escolhido pelo presidente, indicado pelo ministro da Defesa. Vai ter a mesma precedência dos comandantes de Força. Ao assumir, vai para a reserva. Hoje, ele volta para a Força de origem.
? Qual é o problema?
? Dá constrangimentos. Às vezes, precisa tomar decisão contrária ao interesse da Força de origem e tem dificuldade. Outra mudança é na política de compras, que hoje é fixada pelas Forças, mas será fixada pelo ministério em função do que o poder civil considera relevante. Precisamos de monitoramento e controle, mobilidade e presença. O monitoramento deve ser feito, por satélite, na Amazônia Legal e na Plataforma Continental, onde o Brasil tem soberania.
? São planos de longo prazo?
? Ah, uns 20 anos…
? O senhor, então, não espera grandes mudanças se o próximo presidente for Dilma Rousseff ou José Serra? ? Eu não espero.
? A Defesa está acima das questões políticas?
? Tudo que estou falando foi discutido com todos os partidos. Fiz reuniões com o PT, o PMDB e com o DEM. Fui ao Instituto Fernando Henrique Cardoso. Estava cheio de gente lá, todos os ministros dele, todos meus colegas, e várias outras pessoas, intelectuais também.
? Não há ideologia nessa área?
? Eu quis descolar, mostrar que não é um programa do governo. É um programa do Estado.
? O que mais mudou?
? Tem uma mudança doutrinária. Saímos do conceito de operações combinadas para o conceito de operações conjuntas. Na combinada, cada Força tem seu comando próprio. Na conjunta, tem um comando só para as três Forças. O comandante da operação vai depender do teatro de operações. Se for a Amazônia, o comandante da operação vai ser do Exército. Se for no mar, vai ser um almirante.
? O que, de fato, interessa ao Brasil em termos de defesa?
? O Brasil não é um país com pretensões territoriais, não vamos atacar ninguém. Então, devemos ter um poder dissuasório. Temos três coisas fundamentais. Uma é energia, que tem o pré-sal e também energia alternativa, energia limpa, entre elas a energia nuclear. Segundo, o Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo: a Amazônia e o Aquífero Guarani. E, terceiro, temos a maior produção de grãos. São coisas que, progressivamente, o mundo vai demandar mais.
? Na América do Sul, quais são as maiores preocupações?
? A estabilidade política e econômica. Quanto mais desenvolvido o país, mais estável será. Quando o Brasil paga mais pelo excedente de energia elétrica do Paraguai, ajuda a criar condições para que o Paraguai se estabilize. Um país que tem a dimensão do nosso não pode botar o pé em cima dos outros.
? Qual é sua opinião sobre a relação do Brasil com a Venezuela?
? É boa. A Venezuela viveu sempre do óleo. A elite se apropriou dessa riqueza e não investiu no país. Ficou um conjunto de pessoas muito pobres. Aí, surgiu o presidente Hugo Chávez, que lidera esse setor. Está conseguindo avançar. Agora, o Chávez é um homem, digamos, de uma retórica forte. Isso não atrapalha. Faz parte do hispano-americano. É preciso ter paciência. Boa sorte à Venezuela.
? E com os Estados Unidos?
? Estamos muito bem. Com a vitória do presidente Obama, mudou muito. Concluímos um acordo de defesa para criar novas perspectivas de cooperação bilateral. Vai nos permitir, por exemplo, vender aviões da Embraer para eles sem licitação.
? O Irã é o maior ponto de divergência entre Brasil e Estados Unidos?
? A posição do presidente Obama não é nesse sentido. Há setores nos EUA, principalmente no governo Bush, que demonizam o islã. O islã é pacífico. A posição do Brasil é assegurar a legitimidade do enriquecimento do urânio para fins pacíficos. Nós temos tecnologia para isso e temos urânio. Ainda precisamos completar a parte industrial.
? Qual é sua opinião sobre o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares?
? É assimétrico. Divide os países em nucleares e não nucleares. Os nucleares assumiram compromisso de reduzir as armas e transferir tecnologia nuclear com fins pacíficos para os não nucleares. Não fizeram nem uma coisa nem outra. O Brasil só desenvolveu tecnologia de urânio com luta própria, com cientistas militares brasileiros.
? Quais são os interesses do Brasil na área de defesa em Israel?
- Temos interesses em Veículos Aéreos Não Tripulados, os Vatns, para fazer monitoramento. Algumas empresas israelenses produzem. Estou examinando a possibilidade de produzirmos no Brasil, com uma empresa brasileira associada a uma israelense.
? E a compra dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), quando se resolve?
? Pretendo terminar em abril uma exposição de motivos para o presidente, com uma opção. O presidente convoca o Conselho de Defesa Nacional, que emite um parecer e, aí, o presidente decide.
? Como estão as buscas dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia?
? A segunda etapa já começou.
? A irmã de um guerrilheiro desaparecido encontrou ossadas. Isso ajuda?
? Sim. Qualquer pessoa que encontrar ossos tem de chamar a polícia e identificar. Se isso estiver no âmbito de execução da sentença penal que estamos cumprindo com as buscas, vamos ter de aproveitar isso. Não há um conflito.
? O senhor foi nomeado para resolver o caos aéreo do Brasil. Considera a missão cumprida?
? Vou falar o que fizemos. A primeira medida foi substituir a direção da Infraero, despartidarizar. Formulamos a Política Nacional de Aviação Civil. Ela foi aprovada. Pretendemos oferecer um tratamento diferente para a aviação regional. Vamos enviar um projeto de lei ao Congresso. Em 2005, instituímos liberdade de rota e liberdade tarifária. Esse sistema funciona para a aviação doméstica, mas não para a regional, que precisa de estímulos. Vamos investir nos aeroportos regionais.
? Nossa estrutura de aeroportos estará preparada para as Olimpíadas do Rio em 2016?
? Sim. Tem um calendário da Infraero para as obras necessárias. Temos um crescimento anual médio de 10% na aviação civil. Na Copa do Mundo, terá um aumento de 2% em dois meses. Mas nossa preocupação não é só com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem muito mais gente viajando, os preços caíram. Em 2002, o quilômetro voado custava R$ 0,71. Em 2009, custa R$ 0,49.
? E em relação aos passageiros?
? Incentivamos uma resolução da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre a responsabilidade das empresas em relação a atrasos, overbooking. É o que a Anac podia fazer dentro da legislação. Paralelamente, nós mandamos para o Congresso um projeto que cria um dever de indenização por parte das empresas se os atrasos forem devidos a qualquer agente. Se o atraso for decorrente da Infraero, a empresa se ressarce do que entregou ao passageiro.
? E se for culpa da meteorologia?
? Nesse caso, não tem ressarcimento.
? Dá trabalho ser ministro da Defesa?
? Na época das demissões da Infraero, recebi críticas de amigos meus porque eu demiti pessoas indicadas por eles. Fiz exatamente o que eu precisava fazer. Como não sou candidato a coisa nenhuma e sempre gostei de confusão, não teve problema”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:21

Virgílio condena ação de Dilma na ditadura

 Do repórter Marcio Falcão, da ‘Folha’:
“O líder do PSDB no Senado Federal, Arthur Virgílio (AM), afirmou ontem que a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, “não é bandida, mas lutou de maneira errada contra a ditadura militar”.
A referência à ex-ministra foi feita durante debate de seis comissões do Senado sobre o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos. Para Virgílio, a ministra deveria ter optado por um partido como o MDB (Movimento Democrático Brasileiro), contrário à ditadura.
Dilma foi integrante do movimento Polop (Política Operária) de Belo Horizonte. Mais tarde, ela juntou-se ao Colina (Comando de Libertação Nacional), que em 1969 se fundiu com a Vanguarda Popular Revolucionária, dando origem à VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). A ex-ministra foi presa pela primeira vez em 1970.
Virgílio disse que não guarda rancor do regime militar, mas que chegou a ter sua casa invadida: “Minha casa foi invadida e minha mãe foi obrigada a cantar o Hino Nacional de costas para a parede para mostrar que não éramos comunistas. Eu já era comunista naquela ocasião”. A biografia do líder tucano no Senado avisa que ele “foi ligado ao clandestino PCB”.
A provocação do senador foi dirigida ao ministro Paulo Vannuchi (Secretaria Especial dos Direitos Humanos), que explicava aos senadores a criação da comissão da verdade para investigar violações de direitos humanos durante a ditadura.
“Equivocadas ou não, as ações [armadas] contra o regime fizeram parte de um processo amplo. Eu tenho orgulho de ter feito parte de uma juventude atuante”, disse Vannuchi.
Os oposicionistas criticaram o plano e defenderam que a comissão não saia do papel. Vannuchi adotou um tom conciliador e propôs ajustes no texto.
Segundo ele, a comissão da verdade não é revanchista nem representará a revisão da Lei da Anistia de 1979: “Ela é a favor das Forças Armadas brasileiras, não é contra. Não é justo que as Forças Armadas e a família militar estejam levando nas suas costas violências cometidas por algumas dúzias”.
O ministro disse ainda que o governo vai defender no anteprojeto que o colegiado não tenha em sua composição representantes dos militares nem das pessoas que lutaram contra o regime”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:11

Mujica critica intolerância

Em entrevista ao repórter João Paulo Charleaux, do ‘Estadão’, o  presidente uruguaio, José Mujica, depois de reuniur-se com o Presidente Lula, defendeu o Mercosul e criticou Cuba. Eis a entrevista:
“- Como o sr. avalia o resultado de sua visita ao Brasil?
- Voltamos com avanços para os dois países. Conversamos muito sobre o padrão de TV digital e sobre a fluidez do comércio bilateral. O Brasil pediu que não discriminemos sua carne por razões sanitárias. Ouvimos tudo e vamos equilibrar isso com a preocupação de respeitar nosso mercado interno.
- O sr. pede um espaço maior para o Uruguai no Mercosul?
- Sim, é verdade. O Brasil já é nosso principal cliente (o comércio entre os dois países chegou a US$ 2,6 bilhões em 2009, sendo US$ 1,3 bilhão favorável às exportações brasileiras). O Mercosul tem muitos defeitos, mas o maior de todos seria abandoná-lo. O mundo está globalizado e nós não podemos ficar divididos. Não podemos deixar que nada nos divida. A discussão é como melhorar o Mercosul.
- Como o sr., que foi preso político na ditadura uruguaia, vê a situação, hoje, dos prisioneiros políticos em Cuba?
- O mundo não tem a tolerância que deveria ter. É uma pena. Enquanto existir a possibilidade do recurso à força, à brutalidade, à guerra e à intolerância, estaremos sujeitos ao primitivismo. Toda intolerância deve ser evitada.
- O presidente costa-riquenho e prêmio Nobel da Paz, Oscar Árias, disse que pediria ao sr. que extinguisse as Forças Armadas do Uruguai. O que o sr. tem a responder a ele?
- É uma proposta muito bonita. Não lutaremos contra ninguém, é claro. Mas a verdade é que temos muitos problemas de fronteira, de contrabando e de narcotráfico. Esta é nossa realidade hoje”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:05

Senado deveria barrar general

A retratação do general Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, que criticou a presença de homossexuais nas Forças Armadas, não deveria valer de nada.
Não é possivel criticar em publico e pedir desculpas em particular.
O Senado deveria rejeitar o nome de Cerqueira para ministro do STM, já que ele se recusa a  divulgar o teor da carta que enviou ao Senado, com severas críticas a imprensa – que só fez reproduzir as ofendas que ele dirigiu ao mundo gay.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:42

Os golpistas do PSDB

De Élio Gaspari, com o título “Perigo à vista: vivandeiras do tucanato”:
“A expressão “vivandeira” veio do marechal Humberto Castello Branco, há 45 anos, no alvorecer da anarquia militar que baixou sobre o Brasil a treva de 21 anos de ditadura. Referindo-se aos políticos civis que iam aos quartéis para buscar conchavos com a oficialidade, ele disse:
“Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”.
Desde o início da controvérsia provocada pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, sentia-se o perfume da sedução tucana pelo flerte com a figura abstrata dos militares aborrecidos com a ideia de esclarecer a responsabilidade por crimes praticados durante a ditadura. Uma palavrinha aqui, outra ali, coisa cautelosa para uma corrente política que pretende levar à Presidência da República o governador José Serra, que pagou com 15 anos de exílio o crime de ter presidido a UNE. Serra e os grão-tucanos conhecem um documento de 1973, preparado pela meganha enquanto ele estava preso ou asilado no Chile. A peça vale por uma anotação manuscrita: “Esta é a súmula do que existe sobre o fulano. Como vês, trata-se de “boa gente” que bem merece ser “tratado” pelos chilenos”. A rubrica do autor parece ter três letras. (Ao menos cinco brasileiros foram “tratados” pelos chilenos nas semanas seguintes ao golpe do general Pinochet.) Será que Serra não tem curiosidade de saber quem queria “tratá-lo”?
A vivandagem tucana explicitou-se numa entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao repórter Gary Duffy. No seu melhor estilo, disse a coisa e seu contrário. Referindo-se aos itens do programa de direitos humanos que cuidam do estabelecimento de uma comissão da verdade, o ex-presidente afirmou o seguinte:
“Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político”.
Assunto político, o desaparecimento de pessoas jamais deixará de ser. Não há como dizer que seja um tema climático. O ex-presidente foi adiante e viu na iniciativa de investigar os crimes do Estado um fator de “intranquilidade entre as Forças Armadas”.
Pode vir a ser um fator de indisciplina. “Intranquilidade entre as Forças Armadas”, só se fosse uma ameaça às fronteiras nacionais ou às reservas de petróleo do mar territorial. Fernando Henrique Cardoso já sentiu o gosto amargo da vivandagem quando ampliou a Lei da Anistia e reconheceu a prática, pelo Estado, dos crimes da ditadura. Nesse sentido, na busca da verdade e da compensação das vítimas (reais) da ditadura, deve-se mais a ele e a tucanos como José Gregori do que a Lula e a organizadores de eventos como Tarso Genro e Paulo Vannuchi.
Não se reconhece em Fernando Henrique Cardoso do ano eleitoral de 2010 o presidente de 1995 a 2002. Muito menos o militante das causas democráticas, visto pela tigrada como um “marxista violentíssimo”. Felizmente, pode-se garantir que FHC não sentou praça na tropa da ditadura. Infelizmente, podendo mostrar pelo exemplo que há uma diferença entre os tucanos e as vivandeiras, escolheu o cálice do oportunismo”.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 19:27

Guta por Maria Augusta III

Quando é que você entra na universidade? E para fazer o quê?

Como tive a interrupção e passei um ano nos Estados Unidos… E aí há toda uma outra história também porque a estadia lá nos Estados Unidos teve uma influência muito grande na minha vida. Eu ria depois… Não é possível, mas é verdade. Estou falando dos anos 1964/1965. Aquela época, nos Estados Unidos já se vivia um movimento antiguerra do Vietnã. Aqui, no Brasil, nem se ouvia falar, só se ouvia falar no positivo que havia sido os Estados Unidos invadirem o Vietnã. Tem uma coisa difícil de as pessoas de hoje entenderem: a comunicação era zero. E o fato de sermos o único país de idioma português (ou Brasilis), aqui na América Latina, nos afastava de todo mundo. Espanhol era um idioma que a gente não entendia. Não havia essa comunicação rápida, fácil, imediata que existe hoje em dia. Ficávamos muito isolados do mundo. E a imprensa, como sempre, dizia o que queria. E a gente tinha que ouvir aquilo, ler aquilo, e achar que era aquilo. Não havia outra verdade. Quando saí daqui, abriu-se um mundo que eu não conhecia. Não era só a novidade de estar num país diferente. Era a quantidade de informação que você recebia… de concluir que havia outro lado. Por exemplo, lá fui para a casa de uma família [...] luterana, daquelas tradicionais, em que as pessoas andavam com umas mangas aqui. Não durei nem uma semana lá. Imagina? Eu fumava, já era super liberada. Então, fui para a casa de um professor de história americana ? tive a sorte de ele me acolher. Foi o máximo, esse cara abriu meus horizontes para tudo, entende? Fui para Berkeley, descobri que havia um movimento em que estavam queimando a convocação para ir para o Vietnã! Havia toda uma discussão sobre a importância do Terceiro Mundo, de sua independência, da questão do imperialismo ianque ? coisa de que a gente falava aqui, mas não sabia, não entendia direito o que era. [...] A invasão do Vietnã expressou muito claramente o que era realmente o imperialismo: era chegar e destruir o povo. Você não tem liberdade de escolha. Assim, aquele ano lá virou minha cabeça de tal forma que eu me tornei comunista, atéia e, muito declaradamente, adepta da proposta da luta armada. Voltei dos EUA disposta a isso. Eu brincava e dizia assim: quem me formou para a luta armada foram os Estados Unidos. Lá, estava começando o blackpower, uma coisa que me atingiu muito por causa das minhas raízes negras ? das quais sempre me orgulhei ? e a coisa de que não se resolveria pela paz… como é que se resolveria o impasse político se as Forças Armadas ? Exército, Aeronáutica e Marinha ? estavam tomando conta do país? Só pelas armas! Isso aí ficou muito claro para mim. Então, quando voltei para o Brasil, voltei disposta a me integrar na luta armada, que eu já sabia que estava se organizando de alguma forma. Passei um tempo me preparando; fiz prova de revalidação de diploma, aquelas coisas, eu queria ir para a universidade, pois sabia que a formação intelectual era importante. Sempre defendi muito o estudar, conhecer, e procurava as
pessoas para fazer a luta armada. Por isso, não fui para a AP [Ação Popular], o caminho  natural seria ir para a AP. Todo o pessoal da JEC e da JUC foi para a Ação Popular. Mas a AP era contra a luta armada. Fui procurar a Dissidência Comunista ? na verdade, buscava aquelas pessoas do partidão favoráveis à luta armada, a gente ainda não se chamava de Dissidência Comunista. E fiz contato com eles logo antes de entrar para a faculdade. Fiz vestibular para direito, não porque quisesse ser advogada, mas porque o Caco era uma das referências de militância, não somente universitária, mas também para a luta armada aqui no Rio de Janeiro. E passei ? a gente passava, estudava pra caramba! E quando entrei para a faculdade, entrei
também para a Dissidência, já como militante. Vladimir Palmeira era nosso orientador. Estávamos em 1967.
Como era o Caco nesse momento?
Era uma delícia! O Caco, que era o CA da Faculdade Nacional de Direito, que depois veio a ser parte da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], em 1964 tinha sido fechado, tanto que o Vladimir era o presidente do Caco Livre, e se reunia na rua! Seria no espaço daquele estacionamento ali na frente da Faculdade… hoje é menos animado… e ali se davam todas as reuniões políticas, todas as discussões. E o pessoal do Caco Livre invadia a faculdade para chamar para assembléia… até para fazer bagunça ? havia um pouco disso de desafiar o legal, o que estava imposto. E nós, que éramos calouros, entramos direto. Eu estava apaixonada
por tudo! Achava o máximo ter passado para a faculdade ? passei super bem, em 14° lugar e era difícil passar para a Faculdade Nacional de Direito naquela época. E mais: ali ia encontrar a militância que eu queria. Tinha certeza disso e uma vontade muita grande de começar logo a fazer as coisas. Tanto que eu era a caloura mais metida! Eu não conhecia nada da faculdade e já falava dela como se estivesse ali há cinco anos! Era muito engraçado! Eu era muito prepotente ? a gente é dona da verdade com essa idade ? eu tinha 20, 21 anos. [...] Então, o Caco possibilitava isso de você ter uma discussão política, coisa que para mim era muito importante. Isso é uma marca da Dissidência Comunista; a gente se diferenciava muito do que depois veio a ser o movimento foquista, por nossa formação leninista. A gente era preciosista. Depois, na cadeia,havia muito esse negócio de acusação de um lado e de outro… éramos acusados de intelectualóides… A organização funcionava assim: você começava com GE [Grupo de Estudo], depois passava para uma OPP [Organização Para-partidária], para depois passar a ser militante. Tudo mais ou menos em cima de um grau de conhecimento que você trazia. Isso me fascinava, pra mim era como adquirir minha liberdade de pensamento e de opinião. Em nossas reuniões, a gente podia falar ? até a bobagem que fosse. Mas, você era instigado a pensar, a raciocinar, a ler. Eu me lembro que num feriado, saíamos juntos para ir até a casa de alguém. Líamos os livros do Mao e discutíamos Che Guevara. Enfim, havia esta coisa muito acolhedora na Dissidência, essa questão da instigação intelectual. [...] Embora, já tivesse uma idéia clara da necessidade da luta armada, nunca tive aquela visão imediatista, de que bastava pegar em armas que se derrubava o governo. A gente tinha que pensar o que ia fazer depois… E até hoje penso assim. A gente tem que pensar o que queremos para poder realizar, senão você fica no meio do caminho. Mas voltando… o Caco propiciava isso. Em 1967/1968, a gente estava no meio daquele movimento todo contra o acordo MEC-Usaid, um acordo que a ditadura tentava impor aqui no Brasil. Obviamente, éramos contra, era o começo da tentativa de privatização do ensino! E aquilo acirrou… O acordo MEC-Usaid terminou virando minha tese de graduação lá fora. Terminei me formando em pedagogia e sociologia na Suécia, e minha tese foi em cima da repercussão social desse acordo no Brasil. E é atualíssimo! (Outro dia, a estava relendo vi que está super atual. É verdade. O que hoje a gente critica em nosso ensino é uma conseqüência do MEC-Usaid. A deterioração da qualidade do ensino da escola pública é uma conseqüência disso). A gente tinha uma causa muito clara, que nos atingia diretamente. Aquilo ia contra todos os nossos princípios de socializar a educação ? aí vem minha origem ? de socializar a possibilidade de você chegar a um determinado nível de saber e daí se apropriar da sua própria vida, do seu próprio futuro. Havia muito isso. Então, em 1968, a gente fez a primeira eleição para o Caco oficial, outra vez.
Explique o que foi o acordo MEC-Usaid? Qual era a proposta? Fale um pouco da repercussão dele.
Eu devia ter trazido uma cópia… ainda tenho. Simplificando o que era o MEC-Usaid: era uma proposta que vinha da Usaid, uma instituição norte-americana voltada para o ensino, uma agência de desenvolvimento que propunha uma reforma no âmbito da educação dos países do Terceiro Mundo, abrangendo desde o primário até o nível universitário, com o discurso de que era para fazer o país se voltar mais para o desenvolvimento tecnológico. Na verdade, não era: era para dominar os países pela falta de conhecimento…o que a gente vive até hoje. Você quer dominar um país, então restringe a educação, o conhecimento desse povo. A gente mostrava que aquelas propostas do acordo, essa mitificação do tecnocrata, do tecnológico,era, na verdade, o empobrecimento da nossa formação cultural. Estava muito claro o que a gente dizia. Era verdade. Você tem hoje, por exemplo, alunos da escola pública que não são reprovados. Todo mundo passa por idade. Você sai da escola pública completamente analfabeto. Você tem um ensino universitário caquético, com um nível de pobreza incrível! Na verdade, o que hoje sustenta as universidades são as empresas, e até isso é questionável. Por exemplo, a Petrobras, a empresa na qual estou hoje, mantém o Latec [Laboratório de Tecnologia, Gestão de Negócios e Meio Ambiente], que é o laboratório de conhecimento da UFF. O meu filho, que fez geografia na UFF, questiona uma série de questões ali, e acho que ele tem razão. Quem tem que decidir qual é a orientação científica que a universidade vai dar não é a empresa que está pagando a universidade, e sim o corpo da própria universidade, o estudantil e o professorado. Então, o acordo MEC-Usaid trouxe isso: esse empobrecimento, essa diminuição das possibilidades em termos da formação intelectual que foi muito ruim pra gente. E isso teve uma conseqüência imediata, que é você ver o afunilamento cada vez mais crescente, em termos sociais. Hoje em dia, quem vai para a universidade pública são todos filhos de classe média, porque tiveram pais que puderam pagar um ensino básico bom, que permite que eles façam vestibular e que entrem numa universidade pública. É a coisa mais louca do mundo você ter as pessoas mais pobres tendo que trabalhar e pagar sua universidade ? que em geral têm um preço exorbitante ? para obter um nível de conhecimento baixíssimo. Hoje é conhecida a quantidade de ?adevogados? por aí (você lê as petições e dá vontade de chorar). Os caras são analfabetos e pagaram uma fortuna! São pessoas que passaram cinco anos da sua vida pagando para uma universidade privada, para sair com aquele nível de formação super pobre. Na época em que fiz a universidade ? na verdade, só consegui fazer dois anos ? estudava e trabalhava; minha família
nunca foi rica. Com esse ideário do meu avô de dar escola para todo mundo ele empobreceu ? se é que a família teve dinheiro algum dia ? e endividou a família toda. [risos] Meu pai veio para cá para ser engenheiro e teve cinco filhos! Sempre fui do tipo que tenta ajudar a resolver as coisas; desde que voltei dos Estados Unidos, comecei a trabalhar. Quando passei para a universidade, continuei trabalhando. De vez em quando, brinco com os meus filhos e digo assim: ?Cara, eu trabalhava de oito da manhã até as seis da tarde, em pé,como recepcionista numa loja de jóias. Depois atravessava todo o Centro da cidade até o Campo de Santana para poder economizar o dinheiro da condução… e ainda havia tempo para militar, para fazer uma série de coisas.? Acho que é uma questão de você dar uma oportunidade a si mesmo.
Como sua família via esta sua militância?
Isso foi muito engraçado. Falei para você que papai teve uma formação comunista; que ele foi do Partido Comunista. Acontece que o momento em que comecei a militar, ele começou a se posicionar como ?pai tradicional?. No início, eu chegava em casa, contava as histórias… quando eu estava na JEC e coisa e tal.Quando veio o golpe, ele já sentiu a ameaça em cima e me mandou para os Estados Unidos. Note-se que sempre tive uma relação aberta, fraterna, de dizer as coisas; a gente não os chamava de ?senhor? ou?senhora?, era ?você? mesmo; a gente tinha muita confiança na conversa. O ambiente familiar lá em casa era mais para liberal do que para conservador. Enquanto eram só idéias, vontade, sonho, tudo bem… mas aí,comecei a militância pra valer (exatamente no momento que contei, em 1968, quando saiu a eleição para o primeiro Caco oficial outra vez, uma conquista nossa, saí como primeira vice-presidente ? o Rangel Bandeira como presidente ? e como primeira vice, cargo típico da organização, eu ia tratar da organização dentro da faculdade). E aí começaram certas ações de desapropriação aqui e ali. [...] Era a realização do meu sonho, mas quando meu pai começou a ver um movimento diferente na minha vida ? havia aquilo de chamar os colegas para estudar em casa, reuniões de organização e tal ? ele deu um ?ou vai ou desce?, colocou-me contra a parede. Disse que eu tinha que optar, que ele também tinha passado por aquilo, mas que aquele caminho não levava a nada. (E é engraçado porque, hoje, pensando nisso, estou com 58 anos, tenho três filhos e esse meu segundo que se formou em geografia é o radical dos radicais; ele é a Guta atual. Fico pensando um pouco naquilo, revejo muito aquela história minha também e entendo a postura dele. Mas eu,com certeza, não teria a mesma postura com meu filho… não sei, é difícil avaliar.) Mas é fácil a gente entender que naquele momento, quando havia uma ditadura militar, com ameaça de prisão e até de morte visível para todo mundo ? a pessoa fingia que não viva, mas que era visível ? é fácil entender a postura da família de botar um filho contra a parede, de tentar impedir de todas as formas um envolvimento maior.Bem, saí de casa, fui embora, fui para a clandestinidade. Já fui quase que de vez, porque coincidiu que aumentaram as ações armadas e eu era uma pessoa muito fácil de ser identificada porque sempre fui ?grandona?, facilmente reconhecível. Como era liderança estudantil, era muito marcada. Veja que maluquice: éramos as duas coisas! Liderança estudantil e luta armada! Era uma doideira. Por mais que colocasse peruca, disfarçasse, a gente tinha a mesma cara.

continua…

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