• Terça-feira, 24 Janeiro 2012 / 9:39

FHC afasta Serra e lança Aécio

    De Uirá Machado, da ‘Folha’:
    “Em entrevista na qual faz diversas críticas ao PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso atribui a José Serra parte da responsabilidade pela derrota tucana nas eleições de 2010 e afirma que o “candidato óbvio” do partido para disputar a Presidência em 2014 é o senador mineiro Aécio Neves.
As declarações foram publicadas pelo blog “Americas View”, da revista britânica “The Economist”.
Para o ex-presidente, Aécio está mais apto a formar alianças, e Serra deveria abrir espaço para outros.
“No caso do PSDB, o ex-governador Serra faz o papel do Lula: ele tem coragem, gosta de competir. Eu não sei até que ponto ele vai se convencer de que [a disputa] não é para ele, a abrir espaço para outros”, diz o
tucano.
FHC prevê também uma “briga interna muito forte no PSDB, entre Serra e Aécio” na corrida para 2014. Ele, no entanto, diz que o cenário estará mais claro apenas depois das eleições municipais.
Outra avaliação de FHC é que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), não está no páreo.
As declarações representam uma mudança de tom do ex-presidente.
Em maio do ano passado, em entrevista ao portal iG, FHC já havia afirmado que Aécio tinha uma vantagem sobre Serra, mas dizia que a questão não estava fechada e ainda considerava Alckmin no cenário.
A entrevista de FHC deve aumentar a tensão entre Serra e Aécio, que disputam a indicação do partido para concorrer à Presidência em 2014.
No final do ano passado, quando Aécio disse publicamente que queria disputar a Presidência em 2014, Serra rebateu pelo microblog Twitter: “Querer colocar o carro adiante dos bois só atrapalha e desorganiza a oposição”.
Ao rever o desempenho tucano em 2010, FHC avalia que o PSDB cometeu “erros enormes” na campanha. Não fosse por isso, afirma, seu partido poderia ter vencido a disputa com a hoje presidente Dilma Rousseff. “O que estou tentando dizer é que era possível ter vencido. Foi falha nossa”, diz FHC na entrevista, que foi publicada na última quinta.
O ex-presidente é então questionado se o PSDB poderia ter vencido com “o mesmo candidato”.
“Bem, talvez não”, diz.  Para FHC, um dos fatores que pesaram contra os tucanos foi o isolamento do partido, em parte provocado pelas características de Serra. “Não formamos alianças. Foi uma espécie de arrogância. Nosso candidato estava isolado, mesmo internamente”, diz FHC, que concorda quando a entrevistadora pergunta se Serra afastou as pessoas: “Sim. E foi muito ruim”.
Procurado, Serra afirmou por meio de sua secretária que não havia lido a entrevista e não poderia comentá-la.
Na entrevista, FHC conta que teve um sonho recente com o ex-presidente Lula: “Sonhei que nós, Lula e eu, estávamos propondo juntos consenso nacional [risos]“.
Na vida real, o tucano propõe que o petista se afaste um pouco para permitir a chegada de novos líderes.
“Deixe-me falar sem personalizar: nos últimos 20 anos, houve apenas dois líderes”, diz, logo após concordar que ele ainda é uma das vozes mais importantes do PSDB, “pela falta de alternativas”.
FHC pondera, porém, que há uma nova geração: “É uma questão de tempo. Provavelmente, se Lula não estivesse envolvido -o mesmo se aplica a mim-, seria melhor”.
Quanto a 2014, FHC diz que ninguém sabe qual será o papel de Lula. Porém, ele afirma que o petista deve querer disputar a eleição, porque é “um animal muito competitivo, um animal político”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 4:02

FHC parece não acreditar em Serra

Fernando Henrique Cardoso foi o entrevistado do excelente ‘É Notícia’, de Kennedy Alencar, na Rede TV.
O ex-presidente previu difuldades para José Serra, em caso de vitória, por achar que o governo não tem tomado medidas para conter gastos públicos e regular o câmbio.
             * * *
É por essas e outras que Serra quer distância de FHC.
Parece até que o ex-governador de São Paulo não é competente o suficiente para corrigir o rumo do país, caso vença as eleições, e encontre dificuldades.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:55

Dutra: ‘Imprensa tem má vontade”

O presidente do PT, José Eduardo Dutra, é o entrevistado da ‘Veja’. Aos repórteres Otávio Cabral e Daniel Pereira, Dutra disse que acha “errado produzir uma Dilma artificial. O problema são as inevitáveis comparações com o Lula”. Mas admite que é difícil encontrar uma marca para Dilma Rousseff. Na entrevista, ele reclama da má vontade da imprensa com relação a candidata do PT.
Eis a entrevista:
“- O ex-governador José Serra propõe fazer mais, acelerar os avanços, e a ex-ministra Dilma Rousseff adota um discurso agressivo. A campanha presidencial não começou com os papéis invertidos?
- Nós, dirigentes do PT, não temos adotado nenhuma postura agressiva em relação ao candidato José Serra. As principais lideranças da oposição é que estão muito agressivas. Vêm tentando desqualificar a Dilma. É só ver as entrevistas do presidente do PSDB. Por outro lado, a oposição descrevia o governo Lula há até pouco tempo como uma tragédia para o Brasil. Como estava trombando com a realidade, seu candidato tenta agora atenuar esse discurso beligerante dizendo que vai continuar o que é bom e corrigir o que está ruim. Se o governo está tão bom, se deve ser tão elogiado, por que mudar, por que eleger alguém da oposição? Vamos eleger alguém do governo que assumidamente é a continuidade desse projeto.
- A campanha tende a ser agressiva e com baixaria?
- Espero que não, mas vamos dançar de acordo com a música. O que me preocupa é a postura das principais lideranças do PSDB, do DEM, do PPS contra a Dilma. É uma postura agressiva, desqualificadora, preconceituosa, atrasada. E isso acaba contaminando a militância. Quando um dirigente partidário chama a Dilma de terrorista, dá margem à militância e ao pessoal de baixo para radicalizar ainda mais. Nosso site já foi invadido. É claro que não foi a mando da direção do PSDB. Mas foi invadido por pessoas no mínimo simpatizantes do partido. Vamos lembrar que, em 2006, na reta final da campanha, uma eleitora do Alckmin arrancou o dedo de uma eleitora do Lula em um bar no Leblon. Preocupa-me as coisas já estarem tão acirradas, porque isso pode levar a um ponto em que você não tem mais controle.
- O PT acredita mesmo em uma conspiração da imprensa contra a ex-ministra Dilma Rousseff a ponto de fazer propaganda subliminar?
- Há uma profunda má vontade de setores da imprensa contra a Dilma. Existem articulistas que transformaram suas colunas em libelos contra a nossa candidatura. Mas há uma coisa da qual a gente não pode fugir: a Globo está fazendo 45 anos, e 45 é o número do PSDB. Quando vi a propaganda, naturalmente me veio uma associação entre a campanha da Globo e a do Serra que a própria Globo acabou admitindo, tanto é que tirou a campanha do ar para evitar maiores polêmicas. Não acho que tenha havido uma associação intencional. Com relação à imprensa, da mesma forma que somos criticados, queremos ter o direito de responder a manifestações que considerarmos preconceituosas, que nos ataquem ou sejam inadmissíveis do ponto de vista de uma relação civilizada. Não vamos fazer nenhuma ação contra a imprensa em geral, mas vamos responder aos ataques que recebermos.
- Políticos têm dito que as novas regras eleitorais, como o fim da doação oculta, tornam o caixa dois quase obrigatório.
- Não acho que as novas regras vão incentivar ou diminuir o caixa dois. Acho, inclusive, que não haverá caixa dois nas eleições presidenciais. As ações do Ministério Público e da Polícia Federal estão inibindo o caixa dois. Então, as empresas e os candidatos vão pensar cinco vezes antes de operar doações por fora. Eu posso garantir que na nossa campanha presidencial receberemos todas as doações absolutamente dentro da lei. A tesouraria do PT estima que a campanha presidencial custará entre 150 milhões e 200 milhões de reais. Ainda não tenho elementos para aferir se é isso mesmo.
- Até o episódio do mensalão, o PT se escorava no discurso da ética e do combate à corrupção. Hoje não se viu ainda a ex-ministra Dilma tocar nesse assunto.
- O mensalão foi uma grife que pegou como toda grife. Mas o mensalão, nos termos em que foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República, não houve. Por que cargas-dágua o ex-deputado Roberto Brant (DEM) recebeu dinheiro lá no Banco Rural se ele nunca votou com o governo? Por que o Professor Luizinho, que era líder do governo, receberia 20 000 para votar? Por que o João Paulo Cunha, que era presidente da Câmara e nunca votava, iria receber dinheiro?
- Por quê?
- Era caixa dois. É público e notório. O que houve foi crime eleitoral. Não estou atenuando, não estou tirando a gravidade de que é crime também. Agora, o mensalão, nos termos em que foi colocado, volto a repetir, não existiu.
- Mas caixa dois do quê, se todos eles já estavam eleitos?
- Não era ano eleitoral parlamentar, mas esse dinheiro foi usado para saldar dívidas das campanhas municipais do ano anterior de candidatos ligados aos deputados.
- Mas o fato é que o discurso sumiu…
- O escândalo serviu para atenuar a postura udenista do PT, de achar que a ética é um objetivo, quando na verdade tem de ser uma obrigação de toda atividade política. Serviu também para mostrar que não somos um conjunto de freiras franciscanas dentro de um bordel. A ética é uma obrigação. Deixa de ser o palanque principal. Ela tem de ser um alicerce da campanha, e não aquilo que está em cima.
- É confortável fazer uma campanha em companhia de José Sarney, Renan Calheiros e Jader Barbalho?
- Já tivemos alianças com essas pessoas em eleições anteriores. É um processo que naturalmente tem de ser levado em consideração num país como o Brasil. E que vale para nós como vale para a oposição. Até porque todos esses personagens estavam no governo do Fernando Henrique Cardoso, do PSDB. Para os críticos, agora, essas pessoas são ruins. Quando elas estavam do lado deles, eram boas. Tudo o que eles, da oposição, gostariam é que nós disséssemos: “Não, nós não queremos o PMDB”. Com certeza, no dia seguinte eles estariam tentando se aliar a ele.
- Ciro Gomes foi alijado da campanha presidencial e saiu atirando no PT e até elogiando José Serra.
- Depois da primeira declaração, ele já se corrigiu dizendo que o Serra seria nefasto para o Brasil. Essas declarações refletem um estado de espírito perfeitamente natural de alguém que acreditava que podia ser presidente e cujo projeto não se consolidou. A culpa não é do PT nem da Dilma. Espero que o Ciro, depois de baixar a poeira, siga as recomendações do partido e se engaje na campanha da Dilma.
- Duda Mendonça, ex-publicitário do PT, considera um erro tentar construir uma imagem diferente para Dilma. O senhor concorda?
- Nós não estamos tentando construir uma imagem diferente. Também acho errado produzir uma Dilma artificial. O problema são as inevitáveis comparações com o Lula. Qualquer que fosse o candidato, quando comparado com o Lula na comunicação e no carisma, estaria em desvantagem. A Dilma tem de ser ela mesma. O eleitor percebe quando o candidato é artificial. Por isso não temos de construir uma nova Dilma. Este período está servindo para ela pegar traquejo de candidata, não para se transformar.
- Como será para o PT disputar a primeira eleição sem o Lula?
- Não vamos disputar eleição sem o Lula. O Lula estará na campanha. Dentro da lei, será nosso principal militante e cabo eleitoral da Dilma. Nos horários de folga, fim de semana, programas de TV, ele estará presente. A partir da propaganda de TV, vamos ampliar o conhecimento da nossa candidata, o conhecimento da população de que a Dilma é a candidata do governo, é a candidata do Lula. E não há dúvida de que hoje nós contamos com o cabo eleitoral mais decisivo na eleição, que é o apoio que o governo e o Lula têm. O Lula vai eleger a Dilma.
- Qual deve ser a marca de Dilma para que ela não fique parecendo apenas um sub-Lula?
- É difícil. A marca da campanha é continuidade com avanço. Mas transformar isso em um tema legível para o eleitor comum é difícil, terá de ser construído pelos profissionais. Temos de ter claro que o eleitor vota no candidato. Mas, ao escolher, também analisa como está a vida dele. Essa é a vantagem da Dilma. Hoje a marca dela é representar o governo do Lula, que ela ajudou a construir. O Lula é o principal cabo eleitoral. Aliás, cabo não. É um general eleitoral. Isso é bom para nós. A oposição adoraria que o Lula estivesse do lado deles. Tanto é que faz um esforço danado para que esqueçam o que eles disseram sobre o Lula desde o início do governo.
- O PT critica a privatização, principalmente de serviços públicos. Existe alguma coisa estatizável no Brasil?
- Não, o estado tem de ficar do tamanho que está. Não é preciso estatizar mais nada, nem privatizar. Nós vamos fortalecer os instrumentos estatais de que dispomos, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica. São instrumentos que se revelaram essenciais na crise e na retomada do crescimento. A oposição, por seu lado, diz que esse programa é chavista e que nem na China o estado é tão grande. Não quero fazer um sofisma, mas quem é contra fortalecer os instrumentos estatais dá margem a dizer que vai enfraquecer. É a oposição que precisa explicar o que quer do estado.
- Os banqueiros já foram tratados pelos petistas como os grandes vilões da sociedade. O que mudou?
- Quando a economia cresce, os bancos também crescem. A diferença é que no governo Lula não foram só os bancos que cresceram. Outras empresas cresceram. Os trabalhadores tiveram aumentos acima da inflação. Não queremos que ninguém perca. Mas também não queremos que só um setor ganhe, como acontecia anteriormente.
- A política do MST de pregar a reforma agrária pela força ainda conta com a simpatia do PT?
- O MST teve o mérito de colocar a luta pela reforma agrária na agenda nacional. Mas o PT sempre foi crítico de ações do movimento, como ocupação de prédios públicos, de terras produtivas, de destruição de patrimônio. É a posição histórica do partido. O MST reclama do governo Lula, dizendo que podia ter avançado mais. Só que metade de tudo o que foi feito em reforma agrária na história ocorreu no governo Lula. Não há do que reclamar.
- O PT ainda se considera um partido de esquerda?
- Atualmente, o que move a esquerda é entender que o mercado não pode ser o regulador das relações entre as pessoas, instituições e países. É entender que o estado não pode ser idolatrado nem demonizado. É lutar contra a injustiça e a desigualdade social. É combater qualquer discriminação de raça, sexo ou cor. É saber que a democracia é um valor estratégico permanente, não só tático ou instrumental. São conceitos universais de posições à esquerda na política. Todos encontram abrigo no PT.
- O governo Lula abrigou todos esses conceitos?
- O governo Lula é de coalizão, de centro-esquerda. Abriga partidos de esquerda, de centro, como o PMDB, e até de centro-direita, caso do PP.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:52

De Serra para Lula da Silva

De José Serra, no Twitter:
“Parabéns ao Presidente Lula, escolhido líder do ano pela revista americana Time. É bom para o Brasil”.
                       * * *
A mensagem de Serra deve ser menos por Lula, e mais para infernizar a vida de FHC.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:51

Só para saber…

Quanto estará valendo uma palestra de Lula a partir de janeiro de 2011?
Alguém ainda vai pagar para ouvir Fernando Henrique Cardoso, seja quem for o eleito/a em outubro?

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:49

Dirceu ataca Henrique Meirelles

Pelo que se sabe, Henrique Meirelles permaneceu na presidência do Banco Central a pedido do Presidente Lula.
Isso foi o que os jornais publicaram e nenhum dos dois procurou desmentir.
Meirelles não tinha condições de ser vice de Dilma Rousseff e, aparentemente, a candidatura ao Senado, pelo PMDB de Goiás, não o interessou.
Lula certamente não acertou a permanência de Meirelles, no BC, num eventual governo Dilma – a não ser que a própria candidata tenha feito um aceno.
Ou quem sabe o candidato José Serra…
           * * *
O fato é que o ex-ministro José Dirceu ataca hoje em seu blog, violentamente, o presidente Henrique Meirelles, que falou em dar uma tacada – para cima óbviamente – na taxa de juros, para não ter de aumentá-la, mês a mês, até as eleições.
Veja o que diz Dirceu:
“O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, ficou no governo, não quis ser candidato, mas se comporta como se fosse. Agora dá conselhos ao próximo governo. Previne que ele não deve manipular o câmbio – é, exatamente aquele que os tucanos mantiveram fixo até o Brasil quebrar.
Além disso, dr. Meirelles deita falação sobre gastos públicos – exato, aqueles que os tucanos nunca controlaram; sobre dívida pública, que os tucanos dobraram em seus oito anos de governo; e sobre poupança, que caiu sem parar no tucanato.
Dr. Meirelles continua o de sempre, agora fazendo coro com a oposição por corte de gastos públicos e aumento da poupança. Fala como se essa elevação fosse uma questão de vontade política e como se os tucanos tivessem praticada essa política no governo FHC. Na maior parte do seu tucanato, todos se lembram, era câmbio fixo, ausência de superávits e aumento da dívida pública, que comno eu disse acima, dobrou naqueles oito anos.
Mas como reduzir a relação dívida PIB e aumentar a poupança com aumento dos juros e da taxa Selic? Sim, porque é isso que ele e seus diretores no BC passaram para o jornalista Kennedy Alencar na Folha de S.Paulo, e para outros nos diversos jornais: quer dar uma ?paulada? nos juros, taxas que chegaram a 27,5% descontada a inflação no governo de FHC sob a regência de Gustavo Franco na presidência do BC.
Só espero que não seja uma paulada no governo Lula e no Brasil”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:42

Tancredo, há 25 anos

De Élio Gaspari:
“Há um quarto de século, morreu Tancredo Neves. Na noite de 14 de março de 1985, os brasileiros foram dormir esperando assistir às cenas de sua posse na manhã seguinte e acordaram com o último dos generais deixando o palácio pela porta dos fundos enquanto José Sarney vestia a faixa presidencial. Tancredo só chegou a Brasília morto.
Ele foi uma resultante. Somava marqueses da ditadura, cardeais da moderação democrata-cristã, comissários de uma esquerda mais ou menos convicta. Morto Tancredo, a coligação perdeu o nexo e, aos poucos, deslizou para o colapso financeiro da hiperinflação e o desastre político do collorato.
Passados 25 anos, persiste o mito de que Tancredo Neves era um conservador. Com aquele jeito, falando baixo, sempre de terno, só podia ser. Além disso, seu conservadorismo seria um bálsamo capaz de aliviar o passado de Sarney e o futuro de Fernando Henrique Cardoso. Um mito conveniente.
Felizmente, o jornalista Mauro Santayana organizou o livro “Tancredo: O Verbo Republicano”, com os textos dos últimos discursos e entrevistas de Tancredo Neves. Santayana assessorou-o por quase 20 anos. Na tarde de 14 de março de 1985, passou cerca de duas horas com ele, revendo o discurso que faria na manhã seguinte, ao tomar posse. Semanas depois, quando sabia-se que Tancredo não sairia vivo do hospital, Santayana entregou os originais a Risoleta Neves, mulher do presidente eleito.
A primeira metade do discurso de Tancredo contém uma das mais belas páginas da oratória política nacional. Elegante no estilo, profético no conteúdo. Em alguns momentos impressiona pela atualidade, mas, se isso indica a clarividência de Tancredo, ilustra também a mediocridade do debate nos 25 anos que se seguiram. Alguns trechos:
“Temos construído esta nação com êxitos e dificuldades, mas não há dúvida, para quem saiba examinar a história com isenção, de que o nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. (…) A pátria dos pobres está sempre no futuro e, por isso, em seu instinto, eles se colocam à frente da história”.
“A legislação sindical brasileira se encontra envelhecida. (…) A unidade sindical não pode ser estabelecida por lei, mas surgir naturalmente da vontade dos filiados. (…) Os sindicatos não podem submeter-se à tutela do governo nem subordinar-se aos interesses dos partidos políticos”.
“Já vivemos, nas grandes cidades brasileiras, permanente guerra civil (…). É natural que todos reclamem mais segurança nas ruas, e é dever do Estado garantir a vida e os bens dos cidadãos. Essa garantia, sabemos todos, não será oferecida com o aumento do número de polícias, ou com a multiplicação dos presídios. É muito mais fácil entregar ferramentas aos homens do que armá-los, e muito mais proveitoso para a sociedade dar pão e escola às crianças abandonadas, do que, mais tarde, segregar adultos criminosos. A história nos tem mostrado que, invariavelmente, o exacerbado egoísmo das classes dirigentes as tem conduzido ao suicídio total”.
“Temos de ampliar o mercado interno, o único com que podem contar permanentemente os empresários brasileiros. Não se amplia o mercado interno sem que haja mais empregos e mais justa distribuição da renda nacional”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:41

Serra e o fim da reeleição

De Luiz Carlos Azedo, do ‘Correio Brasiliense’:
“Mais do que uma crítica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, grande patrono da reeleição no Brasil, as declarações contrárias à reeleição do ex-governador de São Paulo José Serra, pré-candidato tucano a presidente da República, ontem, em Minas, foram a cartada mais alta que poderia jogar na armação de sua campanha eleitoral. Era o ás de ouro que tinha nas mãos e resolveu pô-lo na mesa logo no começo do jogo.
?Acho que reeleição não é coisa boa. Deveria ter cinco anos de mandato. Você chega e governa fazendo aquilo que tem de ser feito, não apenas de olho na reeleição?, disparou. Serra citou Juscelino Kubitschek, construtor de Brasília, cujo slogan era ?50 anos em cinco?. E anunciou que pretende enviar a proposta ao Congresso. ?Precisa ver se o Congresso concorda. Se não concordar, paciência. Mas vou defender?, disse.
A cartada de Serra mira o ex-governador de Minas Aécio Neves, em mais uma tentativa velada de atraí-lo para a vice. Mas é também um recado para o presidente Lula, reiterando a velha proposta de acordo que havia lhe feito no primeiro mandato para acabar com a reeleição. Para bom entendedor, seria um convite à cristianização da candidata petista Dilma Rousseff (PT)”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:39

Guerra: “Eleição será plebiscitária”

 Os repórteres Gerson Camarotti e Maria Lima, de ‘O Globo’, entrevistaram o presidente nacional do PSDB, senador Sergio Guerra (PE):
“- Quais foram o principal acerto e o principal erro do pré-candidato tucano José Serra até agora?
- O principal acerto foi o encontro dos partidos em Brasília, em que ele fez o melhor discurso dos últimos tempos. Muitas perguntas que estavam no ar foram integralmente respondidas por ele. E vamos, de fato, iniciar a précampanha em Minas.
- Minas é uma forma de neutralizar a tentativa da pré-candidata Dilma Rousseff de conquistar o mineiro?
- Tudo que a Dilma está fazendo não está dando certo. Pode ser que, no futuro, ela acerte.
- Tucanos e aliados reclamaram da demora de Serra em se lançar. Foi o principal erro?
- Se antes estava errado, terminou dando tudo certo. Então, prefiro não discutir este assunto. Acho que começamos com pé direito essa précampanha. Olhar para trás para saber se deveríamos ter começado antes? Eu não consigo responder a essa pergunta.
- Mas essa demora de Serra não permitiu a Dilma crescer nas pesquisas?
- Eu não conheço qualquer eleitor de Dilma. Conheço gente que vota nela porque é a candidata do Lula.
- E quais o acerto e o erro da campanha de Dilma?
- Não posso dizer que o PT é incapaz de desenvolver campanha. Pelo contrário. O PT é extremamente competente na realização de campanhas. O presidente da República é um comunicador de primeiríssima qualidade. Agora, na primeira volta sem Lula, ela não ajudou. Como disse Roberto Jefferson, agora que tiraram as rodinhas da bicicleta dela, Dilma não consegue andar direito. A ministra foi muito orientada. Imagino que a orientação foi boa, e a execução da tarefa foi ruim. Porque o resultado é péssimo.
- Como assim?
- Ela não tem liderança. O tom agressivo da ministra não foi inventado agora. As pessoas que trabalharam junto com ela sabem que Dilma é autoritária. Ela não consegue disfarçar. Quando se tem natureza autoritária, é difícil alterar esse comportamento. Ao primeiro gesto de democracia, ela fica irritada. Eleita presidente, será alguém com vocação autoritária e governo fraco.
- O PSDB vai ter caixa para fazer campanha milionária?
- Campanhas de presidente não se resolvem com mais ou menos dinheiro. A logística de campanha custa caro. Mas é preferível gastar menos. Porque a população não gosta da exuberância, do exagero. A notícia de que o PT tem duas, três, quatro casas alugadas no Lago Sul guarda distância imensa de uma campanha que quer ser a dos pobres. É uma ostentação exagerada.
- O PSDB tem enfrentado muitas dificuldades nos palanques regionais, no Ceará, no Amazonas, no Rio…
- Os palanques têm a própria lógica dos estados. Temos problemas que qualquer partido tem. O PT tem uma aliança muito ampla, o que deve dificultar as alianças locais. O PT tem condições de resolver as confusões dele porque tem o poder, o governo. As nossas, temos que resolver com cabeça, trabalho e esforço.
- A eleição será plebiscitária?
- Há sinais de que a campanha está caminhando para ser plebiscitária. A candidatura Marina Silva não tem crescido. Ciro não tem apoio partidário. A maioria dos votos de Ciro já está com Dilma. E os votos residuais dele podem ir para Serra. Por enquanto, a disputa é entre Serra e sua biografia e Lula com sua candidata. Quando começar a disputa, a eleição será entre Dilma e Serra.
- Qual o desafio de uma campanha plebiscitária?
- Eleição entre dois candidatos simplifica o julgamento. A população terá que considerar duas propostas e duas hipóteses de governo. Nessa comparação, nós levamos imensa vantagem.
- Mas o PT quer comparar o governo Lula com o governo Fernando Henrique…
- Isso é conversa de elefante. Essa é a agenda deles, não a agenda da população. As pessoas vão pensar no Brasil que está pela frente.
- Um vice errado pode derrubar uma candidatura?
- Seguramente, um vice errado prejudica e derruba uma candidatura. Agora, não é certo dizer que o vice elege um candidato. Defendo que não devemos alimentar a expectativa de Aécio Neves como vice. A gente não pode pendurar a candidatura do Serra nessa dependência. Se Aécio for o vice, melhor. Se não for, vai ser bom também”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:39

Levandowski: “TSE vai endurecer”

Do repórter Felipe Recondo, do ‘Estadão’:
“O próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ricardo Lewandowski, que vai comandar as eleições deste ano, é contra o projeto que proíbe políticos com processos na Justiça de se candidatarem, mas afirma que, como eleitor, votará nos candidatos que tenham a ficha mais limpa. “Como cidadão e eleitor, eu vou escolher o candidato que tenha os melhores antecedentes possíveis”, afirma.
Duas semanas atrás, numa decisão comandada pelos líderes do PMDB e do PT, o projeto de lei da ficha limpa foi retirado da pauta do plenário da Câmara e encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Essa manobra vai atrasar a votação. Para que valesse para estas eleições, Câmara e Senado teriam de aprovar a regra antes do dia 10 de junho, data de início das convenções partidárias.
Lewandowski, que assume o TSE na quinta-feira, faz um alerta: “A tendência é a Justiça Eleitoral endurecer” nos casos de campanha antecipada. O ministro avalia que o voto obrigatório “é importante neste momento histórico”, de “consolidação da democracia”, mas diz que este pode ser “um dever transitório”.
                           * * *
Eis a entrevista:
“- Será a primeira eleição desde a redemocratização sem Lula. O que isso significa?
- É um grande teste para a democracia brasileira. Saímos de eleições em que tínhamos dois candidatos muito carismáticos: Fernando Henrique Cardoso, uma liderança intelectual de grande respeito, e depois o presidente Lula, um líder sindical também muito respeitado. Entramos numa fase de normalidade democrática, depois de quase 20 anos de Constituição. Se ultrapassarmos com êxito (a eleição), vamos definitivamente consolidar a democracia e estaremos à altura do grande País que somos.
- Qual é a vantagem de os dois principais pré-candidatos não terem o carisma como atributo principal?
- Ao invés de centrarmos na personalidade dos candidatos, vamos, e espero que isso ocorra, centrar o debate em teses, programas e projetos. Essa é a grande vantagem.
- O sr. acha que por essas duas razões se antecipou tanto o debate eleitoral?
- O debate não se antecipou tanto. Tivemos episódios pontuais, mas não houve incidentes maiores. Se houve uma tentativa de antecipação por parte de certos candidatos, ela foi prontamente coactada pela Justiça Eleitoral.
- O TSE tem como coibir a propaganda antecipada?
- A tendência do TSE é que fique cada vez mais rigoroso. Não podemos permitir que haja uma disparidade de armas entre os candidatos, um desequilíbrio de forças. A Justiça Eleitoral foi testada nos últimos tempos. E ela respondeu tornando menos flexíveis as normas legais, a jurisprudência anterior quanto à campanha antecipada. E a tendência, a meu ver, é o plenário endurecer em relação à antiga interpretação, que era mais frouxa.
- O TSE dava muito espaço para a propaganda antecipada. Os candidatos podem estar sendo punidos em razão dessa visão anterior?
- No que tange à campanha antecipada, o TSE sinalizou com muita clareza um endurecimento em relação ao entendimento anterior. Agora há um subjetivismo maior, uma flexibilidade maior na interpretação dos fatos por parte do TSE. No passado havia uma objetividade maior nos seus pronunciamentos. Definiam-se com maior objetividade as condutas que podiam ou não ser praticadas pelos candidatos.
- O sr. acha que o presidente Lula brincou com a Justiça Eleitoral na última declaração?
- Vejo no pronunciamento do presidente da República um inconformismo com a decisão do TSE. Isso é comum nas pessoas que perdem alguma demanda na Justiça. É claro que uma autoridade deve manifestar seu inconformismo, de preferência, no devido processo legal. Acho que a esse inconformismo se seguirá algum recurso.
- Como fazer para que o TSE não vire palco da disputa eleitoral?
- Sempre digo que não se deve judicializar ou criminalizar a política. E faço uma analogia com o futebol. A partida boa, bonita, é aquela em que o árbitro não interfere a todo momento. A eleição é uma enorme festa cívica e a Justiça só deve intervir quando o ilícito for patente. Não cabe à Justiça Eleitoral intervir espontaneamente no conflito. Vamos procurar fazer com que as disputas normais da política não sejam transferidas para a Justiça Eleitoral. Conflitos puramente políticos têm que ser devolvidos para a política.
- Como o sr. analisa essa vontade de quem está no cargo fazer seu sucessor?
- É algo natural da política. No parlamentarismo é absolutamente natural que certos partidos políticos se mantenham por muitos anos, às vezes décadas, no poder. Por quê? Porque o partido quer colocar em prática determinados programas de governo. Entendo que esse desejo que alguns chefes de Executivo têm de fazer seu sucessor se encaixa nessa ideia, não no sentido de projetar sua personalidade para além do seu mandato. Vejo o lado bom desse continuísmo entre aspas: é a vontade de continuar um programa de ação, de governo. Em tese, isso é lícito, não há nada de irregular.
- O sr. é a favor da candidatura apenas de candidatos com ficha limpa?
- No Supremo, eu me filiei à corrente segundo a qual deve prevalecer a presunção de inocência. Mas é claro que, como cidadão, como eleitor, eu vou escolher o candidato que tenha os melhores antecedentes possíveis.
- A Justiça não pode barrar essas candidaturas?
- A meu ver cabe aos partidos políticos e aos eleitores fazer essa escolha. Pela Constituição e pelas leis em vigor, enquanto não houver trânsito em julgado de uma condenação, não é possível barrar a candidatura de alguém. Essa é a Constituição e a lei, mas pessoalmente, como eleitor, eu vou escolher o que tiver os melhores antecedentes.
- O que o sr. diz para o eleitor que quer anular seu voto?
- O voto nulo é um voto de protesto, não contra o sistema eleitoral, mas contra determinados candidatos ou contra a falta de opções legítimas. Eu espero que nessas próximas eleições, os eleitores não votem nulo, espero que escolham um candidato até para dar legitimidade aos eleitos. Acredito que teremos bons candidatos e que esse fenômeno não se repetirá tanto quanto nas eleições anteriores.
- O sr. é a favor do voto facultativo?
- Em tese sou a favor do voto facultativo, mas num país como o nosso, que está desenvolvendo sua democracia, o voto obrigatório ainda me parece muito importante. É preciso dar legitimidade às eleições e isso se consegue com uma votação forte nos candidatos que se apresentam. A obrigatoriedade do voto é importante neste momento histórico, mas pode ser um dever transitório.
- Políticos que trocam de partido têm sido absolvidos pelo TSE. O troca-troca partidário não pode voltar?
- Nós temos, no TSE, examinado várias situações concretas e decidido que houve justa causa para a mudança de partido. A preservação do mandato, que significa na essência a preservação da vontade do eleitor, é o princípio que deve dominar. Só em último caso, quando não houver evidente justa causa para a troca de partido, é que a essa sanção deve ser aplicada”

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