Obama botou os consulados para trabalhar

                                         Elio Gaspari*

      O companheiro Obama foi à Flórida e anunciou medidas para consertar o sistema inepto e colonial de concessão de vistos para brasileiros que pretendem visitar os Estados Unidos.
Houve época em que se formavam filas no fim da madrugada nas ruas próximas ao consulado americano em São Paulo. Quando Obama esteve em Pindorama, a espera para entregar a papelada era de 134 dias em Brasília, 107 em São Paulo e 105 no Rio.
Quem reclamava era brindado com uma embromatina. Um cônsul que não sabia falar português assinou um texto de quem não sabia escrevê-lo e disse que o número de solicitações “disparou para níveis inaceitáveis”.
Cada freguês paga uma taxa de US$ 140, dinheiro equivalente a 10% do preço de um pacote turístico que inclui passagem, carro e quatro noites num hotel. (Noves fora o custo de uma viagem a Brasília, Rio, São Paulo ou Recife, pois só essas cidades têm consulados.)
O companheiro Obama foi à Disney caçar os votos da Flórida, seguindo o conselho de seu antecessor, Calvin Coolidge (1923-1929): “O negócio dos Estados Unidos são os negócios”.
Com uma taxa de desemprego de 9%, os americanos se deram conta de que aquelas filas que parecem um estorvo são um bálsamo. No ano passado, 1,2 milhão de brasileiros foram aos Estados Unidos e cada um deles gastou, na média,
cerca de US$ 6.000. Deve-se aos brasileiros parte da recuperação do mercado imobiliário de Miami, devastado pela recessão.
Se o companheiro quer acelerar em 40% o tempo para “processar os vistos”, sua fala foi insuficiente, pois, entre a hora em que o cidadão entrega seu passaporte para o “processamento” e o dia em que o recebe com o visto, os consulados informam que se passam entre três e sete dias úteis.
Admitindo-se que ele se refira ao verdadeiro enrosco, que está na espera para marcar o dia da ida ao consulado, e se a sua base for o congestionamento de hoje, até dezembro a demora cairá para 46 dias em São Paulo, três em Recife, 12 em Brasília e oito no Rio. Se a redução for calculada em cima dos períodos de pico, continuarão pipocando esperas de 80 dias. Os consulados do Rio e de São Paulo não têm instalações capazes de atender 80% da demanda com prazos de três semanas, com jornadas de 6h30 de atendimento.
Basta ver que as filas se estendem pela rua, para alegria dos vendedores de guarda-chuvas.
O melhor que o companheiro tem a fazer é mandar reabrir os consulados em Belo Horizonte e Porto Alegre. O serviço exterior americano, como todos os outros, prefere trabalhar no circuito das grifes. Há apenas quatro consulados no Brasil. Na Itália, onde não se emitem vistos de turista, também. Um em Florença, num palazzo de frente para o rio Arno, a poucos passos do Harry’s Bar.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’.