• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:38

Jobim: “Nada muda na Defesa”

De Eumano Silva, da revista Época:
“O ministro da defesa, Nelson Jobim, desfruta uma situação única no governo Lula. Homem de confiança do presidente numa das áreas mais sensíveis da Esplanada, Jobim mantém estreitas relações com o candidato da oposição ao Planalto, José Serra (PSDB). A dupla militância permite a previsão de que, em assuntos de Defesa, o Brasil manterá as diretrizes atuais caso a eleição seja vencida por Serra ou pela ex-ministra Dilma Rousseff. ?Fiz reuniões com PT, PMDB, DEM e com o ex-presidente Fernando Henrique?, diz Jobim, ao explicar as mudanças na área militar, como a subordinação ao poder civil, aprovadas no Congresso. Nesta entrevista a ÉPOCA, Jobim faz um balanço dos acordos internacionais do país e das medidas para tentar organizar a aviação no Brasil”.
                                                        * * *
“? Como vai ficar a defesa nacional do Brasil no futuro?
? Os políticos e os governos civis viam a defesa com certa distância. Na época da Constituinte, a defesa se confundia com repressão política. Com isso, militares tinham de tomar certas decisões que, a rigor, eram decisões de governo civil. Exemplo: quais as hipóteses de emprego (das Forças Armadas) que politicamente interessam ao país? Isso é um misto de política internacional com defesa. Cabe ao poder civil definir o que os militares devem fazer em termos de defesa. Os militares decidem a parte operacional.
? Isso aconteceu no governo Lula?
? Tudo é um processo. Não acontece assim, bum! Começou no governo Fernando Henrique, com a criação do Ministério da Defesa, em 1999, nas condições possíveis naquele momento. No governo Lula, avançou-se um pouco no início, com o ministro Viegas (José Viegas, primeiro ministro da Defesa de Lula). Os avanços mais doutrinários são consolidados pelo vice-presidente (José Alencar) que o sucedeu e, depois, pelo Waldir Pires. Quando assumi, decidi que precisávamos realizar uma mudança de concepção para dar mais musculatura ao Ministério da Defesa.
? Como assim?
? O orçamento, por exemplo. Antes, as Forças (Marinha, Exército e Aeronáutica) se acertavam entre si dentro do limite fixado pelo Ministério do Planejamento. O ministro (da Defesa) não tinha participação. Também foi aprovado na Câmara o projeto de alteração da Lei Complementar nº 97. O Estado-Maior de Defesa passa a ser o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. Será chefiado por um oficial de quatro estrelas escolhido pelo presidente, indicado pelo ministro da Defesa. Vai ter a mesma precedência dos comandantes de Força. Ao assumir, vai para a reserva. Hoje, ele volta para a Força de origem.
? Qual é o problema?
? Dá constrangimentos. Às vezes, precisa tomar decisão contrária ao interesse da Força de origem e tem dificuldade. Outra mudança é na política de compras, que hoje é fixada pelas Forças, mas será fixada pelo ministério em função do que o poder civil considera relevante. Precisamos de monitoramento e controle, mobilidade e presença. O monitoramento deve ser feito, por satélite, na Amazônia Legal e na Plataforma Continental, onde o Brasil tem soberania.
? São planos de longo prazo?
? Ah, uns 20 anos…
? O senhor, então, não espera grandes mudanças se o próximo presidente for Dilma Rousseff ou José Serra? ? Eu não espero.
? A Defesa está acima das questões políticas?
? Tudo que estou falando foi discutido com todos os partidos. Fiz reuniões com o PT, o PMDB e com o DEM. Fui ao Instituto Fernando Henrique Cardoso. Estava cheio de gente lá, todos os ministros dele, todos meus colegas, e várias outras pessoas, intelectuais também.
? Não há ideologia nessa área?
? Eu quis descolar, mostrar que não é um programa do governo. É um programa do Estado.
? O que mais mudou?
? Tem uma mudança doutrinária. Saímos do conceito de operações combinadas para o conceito de operações conjuntas. Na combinada, cada Força tem seu comando próprio. Na conjunta, tem um comando só para as três Forças. O comandante da operação vai depender do teatro de operações. Se for a Amazônia, o comandante da operação vai ser do Exército. Se for no mar, vai ser um almirante.
? O que, de fato, interessa ao Brasil em termos de defesa?
? O Brasil não é um país com pretensões territoriais, não vamos atacar ninguém. Então, devemos ter um poder dissuasório. Temos três coisas fundamentais. Uma é energia, que tem o pré-sal e também energia alternativa, energia limpa, entre elas a energia nuclear. Segundo, o Brasil tem as maiores reservas de água potável do mundo: a Amazônia e o Aquífero Guarani. E, terceiro, temos a maior produção de grãos. São coisas que, progressivamente, o mundo vai demandar mais.
? Na América do Sul, quais são as maiores preocupações?
? A estabilidade política e econômica. Quanto mais desenvolvido o país, mais estável será. Quando o Brasil paga mais pelo excedente de energia elétrica do Paraguai, ajuda a criar condições para que o Paraguai se estabilize. Um país que tem a dimensão do nosso não pode botar o pé em cima dos outros.
? Qual é sua opinião sobre a relação do Brasil com a Venezuela?
? É boa. A Venezuela viveu sempre do óleo. A elite se apropriou dessa riqueza e não investiu no país. Ficou um conjunto de pessoas muito pobres. Aí, surgiu o presidente Hugo Chávez, que lidera esse setor. Está conseguindo avançar. Agora, o Chávez é um homem, digamos, de uma retórica forte. Isso não atrapalha. Faz parte do hispano-americano. É preciso ter paciência. Boa sorte à Venezuela.
? E com os Estados Unidos?
? Estamos muito bem. Com a vitória do presidente Obama, mudou muito. Concluímos um acordo de defesa para criar novas perspectivas de cooperação bilateral. Vai nos permitir, por exemplo, vender aviões da Embraer para eles sem licitação.
? O Irã é o maior ponto de divergência entre Brasil e Estados Unidos?
? A posição do presidente Obama não é nesse sentido. Há setores nos EUA, principalmente no governo Bush, que demonizam o islã. O islã é pacífico. A posição do Brasil é assegurar a legitimidade do enriquecimento do urânio para fins pacíficos. Nós temos tecnologia para isso e temos urânio. Ainda precisamos completar a parte industrial.
? Qual é sua opinião sobre o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares?
? É assimétrico. Divide os países em nucleares e não nucleares. Os nucleares assumiram compromisso de reduzir as armas e transferir tecnologia nuclear com fins pacíficos para os não nucleares. Não fizeram nem uma coisa nem outra. O Brasil só desenvolveu tecnologia de urânio com luta própria, com cientistas militares brasileiros.
? Quais são os interesses do Brasil na área de defesa em Israel?
- Temos interesses em Veículos Aéreos Não Tripulados, os Vatns, para fazer monitoramento. Algumas empresas israelenses produzem. Estou examinando a possibilidade de produzirmos no Brasil, com uma empresa brasileira associada a uma israelense.
? E a compra dos caças para a Força Aérea Brasileira (FAB), quando se resolve?
? Pretendo terminar em abril uma exposição de motivos para o presidente, com uma opção. O presidente convoca o Conselho de Defesa Nacional, que emite um parecer e, aí, o presidente decide.
? Como estão as buscas dos desaparecidos na Guerrilha do Araguaia?
? A segunda etapa já começou.
? A irmã de um guerrilheiro desaparecido encontrou ossadas. Isso ajuda?
? Sim. Qualquer pessoa que encontrar ossos tem de chamar a polícia e identificar. Se isso estiver no âmbito de execução da sentença penal que estamos cumprindo com as buscas, vamos ter de aproveitar isso. Não há um conflito.
? O senhor foi nomeado para resolver o caos aéreo do Brasil. Considera a missão cumprida?
? Vou falar o que fizemos. A primeira medida foi substituir a direção da Infraero, despartidarizar. Formulamos a Política Nacional de Aviação Civil. Ela foi aprovada. Pretendemos oferecer um tratamento diferente para a aviação regional. Vamos enviar um projeto de lei ao Congresso. Em 2005, instituímos liberdade de rota e liberdade tarifária. Esse sistema funciona para a aviação doméstica, mas não para a regional, que precisa de estímulos. Vamos investir nos aeroportos regionais.
? Nossa estrutura de aeroportos estará preparada para as Olimpíadas do Rio em 2016?
? Sim. Tem um calendário da Infraero para as obras necessárias. Temos um crescimento anual médio de 10% na aviação civil. Na Copa do Mundo, terá um aumento de 2% em dois meses. Mas nossa preocupação não é só com a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Tem muito mais gente viajando, os preços caíram. Em 2002, o quilômetro voado custava R$ 0,71. Em 2009, custa R$ 0,49.
? E em relação aos passageiros?
? Incentivamos uma resolução da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) sobre a responsabilidade das empresas em relação a atrasos, overbooking. É o que a Anac podia fazer dentro da legislação. Paralelamente, nós mandamos para o Congresso um projeto que cria um dever de indenização por parte das empresas se os atrasos forem devidos a qualquer agente. Se o atraso for decorrente da Infraero, a empresa se ressarce do que entregou ao passageiro.
? E se for culpa da meteorologia?
? Nesse caso, não tem ressarcimento.
? Dá trabalho ser ministro da Defesa?
? Na época das demissões da Infraero, recebi críticas de amigos meus porque eu demiti pessoas indicadas por eles. Fiz exatamente o que eu precisava fazer. Como não sou candidato a coisa nenhuma e sempre gostei de confusão, não teve problema”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:06

“Lulismo pode durar 30 anos”

 Em entrevista a Mariana Sanches, da revista ?Época?, o ex-porta-voz do governo, Andre Singer, disse que a conquista dos eleitores pobres levará o PT à hegemonia política, já que alia um projeto de redistribuição de renda à manutenção da ordem social. Singer acredita que o lulismo reorganizou o eleitorado brasileiro e poderá virar uma força política hegemônica por décadas. Eis a entrevista: 
“? Como o senhor define o lulismo?
? O lulismo é a execução de um projeto político de redistribuição de renda focado no setor mais pobre da população, mas sem ameaça de ruptura da ordem, sem confrontação política, sem radicalização, sem os componentes clássicos das propostas de mudanças mais à esquerda. Foi o que o governo Lula fez. A manutenção de uma conduta de política macroeconômica mais conservadora, com juros elevados, austeridade fiscal e câmbio flutuante, foi o preço a pagar pela manutenção da ordem. Diante desse projeto, a camada de baixa renda, cerca de metade do eleitorado, começou a se realinhar em direção ao presidente.
? Quando isso aconteceu?
? Em 2006. Houve um realinhamento eleitoral, um deslocamento grande de eleitores que ocorre a cada tantas décadas. A matriz desse tipo de estudo é americana. Lá, eles acham que aconteceu um realinhamento eleitoral em 1932, quando (Franklin) Roosevelt ganhou a eleição presidencial. Ele puxou uma base social de trabalhadores para o Partido Democrata que não havia antes. Aqui, em 2006 a camada de baixíssima renda da população, que sempre tinha votado contra o Lula, votou a favor dele. A diferença entre 2002 e 2006 foi que Lula perdeu base na classe média, seu eleitorado tradicional, e ganhou base entre os eleitores de baixa renda.
? O lulismo pode sobreviver sem o Lula? Não é preciso uma liderança carismática à frente desse projeto político?
? No lulismo existe um elemento de carisma, mas isso não é o mais importante. A importância do carisma é maior nas regiões menos urbanizadas do país, onde se tende a atribuir a capacidade de execução de um projeto a características especiais da liderança. Em regiões urbanizadas existe uma adesão mais racional ao programa político. Se minha análise estiver correta, o lulismo sobreviverá sem o Lula. Uma hipótese é que o lulismo vá desaguar no PT. Essa camada social que aderiu ao Lula pode lentamente começar a votar nos candidatos do PT a prefeito, governador, senador. Vejo indícios de que isso começou a ocorrer nas eleições municipais de 2008. O PT foi mal nas capitais, mas foi bem nas regiões metropolitanas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte. Isso pode sinalizar que o voto da camada de menor renda da sociedade está caminhando para o PT.
? Dilma Rousseff será a herdeira do lulismo? O que acontecerá em 2010?
? Mantidas as condições atuais, a tendência é que, à medida que ficar claro para o eleitor que a Dilma é a candidata de continuidade do lulismo, ela aumentará suas intenções de voto com chances consideráveis de ganhar a eleição.
? Se o lulismo desaguar no PT, o partido terá de abrir mão de bandeiras históricas de esquerda?
? O PT poderá ser uma fusão de duas forças, o petismo e o lulismo, que têm projetos com pontos de contato e diferenças. O PT continua sendo o partido do proletariado organizado, sindicalizado, com carteira de trabalho assinada. Pode vir a ser também o partido do subproletariado. Quando a gente vê a força do PT na periferia de São Paulo pode ser a expressão da confluência dessas duas forças.
? Se essa convergência ocorrer, haverá uma hegemonia do PT?
? Pode ser. É possível que estejamos assistindo a um realinhamento como foi na época do Roosevelt, que trouxe segmentos da classe trabalhadora para o Partido Democrata por cerca de 30 anos.
? Essa camada que era anti-Lula, antiesquerda e a favor da ordem não teria dificuldades em se associar ao PT?
? Com adaptações de parte a parte parece possível, mas será um processo lento. Não é tão simples porque o PT tem formação ideológica de esquerda e, embora tenha se transformado, mantém a identidade de um partido de esquerda. O PT é herdeiro de uma tradição de crítica ao populismo. Se o partido vier a ser caudatário desse movimento, vai haver o encontro de águas bem diferentes.
? O que aproxima o lulismo do populismo de Getúlio Vargas?
? Em ambos há uma política de governo voltada para os setores de menor renda. Mas há uma diferença importante. Getúlio Vargas, ao fazer a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), criou direitos para o setor urbano da classe trabalhadora, em um país predominantemente rural. Deixou de fora um vasto setor da classe trabalhadora que foi incorporado agora.
? O lulismo pode prejudicar as instituições democráticas?
? O presidente Lula tomou uma decisão fundamental ao não aceitar a proposta do terceiro mandato. Colocou um ponto final nessa questão. O Brasil sai desse processo com instituições democráticas fortalecidas. Há problemas na política partidária, cada vez mais pragmática e menos programática. Isso cria a sensação de que a política diz respeito aos políticos, e não à sociedade.
? Lula e o PT, em sua estratégia eleitoral, fizeram uma guinada ao centro. A política econômica ortodoxa não tem a ver com esse caminho que o partido já vinha tomando antes de chegar ao poder?
? O PT foi se institucionalizando, mas a ida ao centro é relativa se você olhar o aspecto programático. O partido manteve um programa com mudanças relativamente pequenas. E é isso que faz com que o PT mantenha a identidade de esquerda. Onde houve mudança foi na política de alianças do PT. Antes ele recusava alianças até o ponto de, em 1989, não querer o apoio do PMDB no segundo turno, sem contrapartida. Hoje o PT dá prioridade à aliança com o PMDB. Isso é compreensível do ponto de vista eleitoral, por causa do tempo de televisão, do tamanho do PMDB. Mas é também um problema porque não se sabe qual é a base programática dessa aliança.
? Com Dilma na Presidência, crescem as chances de o PT aplicar um programa de governo mais à esquerda?
? Depende da política de alianças. Se você tiver um vice-presidente como o Henrique Meirelles (presidente do Banco Central), as probabilidades caem muito. Mas o sentimento do PT é ter um governo mais à esquerda.
? A emergência dos pobres significará a marginalização da classe média?
? A entrada em cena dessa força nova tirou a centralidade das decisões políticas da classe média. Se o lulismo se consolidar, teremos o setor de baixa renda em um campo político e a classe média tradicional em outro. A nova classe média é dúvida. A oposição em 2010 vai fazer tudo para não se isolar dos eleitores de baixa renda. Vai tentar a mágica de convencer os lulistas de que seu candidato é melhor para dar continuidade ao projeto do que a candidata da situação?.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:44

Mais provas contra Arruda

Os repórteres Andrei Meireles, Marcelo Rocha e Murilo Ramos, da revista ?Época?, tiveram acesso a mais documentos apreendidos, pela Polícia Federal, que complicam ainda mais a vida do ainda governador de Brasília, José Roberto Arruda:
“A Operação Caixa de Pandora, da Polícia Federal, revelou em novembro um esquema de caixa dois e pagamentos de propina a políticos e outras autoridades em Brasília que movimentou milhões de reais. No primeiro ato, a operação tornou públicas cenas chocantes de corrupção mesmo num país acostumado a frequentes escândalos. Os vídeos com políticos do Distrito Federal escondendo dinheiro em sacolas, meias e até cueca foram gravados pelo ex-secretário de Relações Institucionais do governo Durval Barbosa. Durval entrou num programa de delação premiada do Ministério Público e, nas últimas semanas, prestou novos depoimentos. Além de dar mais detalhes, Durval também fez novas acusações sobre a rede criminosa que seria comandada pelo governador José Roberto Arruda, ex-DEM e atualmente sem partido. ÉPOCA agora teve acesso ao conteúdo do material apreendido pela PF no dia da operação.
Foram vasculhados empresas prestadoras de serviço, escritórios e residências de secretários do governo, casas e gabinetes de quatro deputados distritais. De gavetas e computadores, milhares de documentos foram retirados. São agendas com anotações de pagamentos a políticos, livro-caixa com a contabilidade que os investigadores suspeitam ser distribuição de propina, dossiês sobre corrupção em secretarias e empresas estatais, um mapa do loteamento político de mais de 3 mil cargos, remessas de dinheiro para o exterior e acertos para fraude em licitações públicas.
Na pilha de papéis, chama a atenção o material encontrado na casa e no gabinete de Domingos Lamoglia, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Distrito Federal por causa do escândalo. Lamoglia foi o assessor mais próximo de Arruda nos últimos 20 anos. Até outubro de 2009, era seu chefe de gabinete e tinha o privilégio de ser o único auxiliar com escritório na residência oficial do governador. Na casa de Lamoglia, num setor de mansões em Brasília, a PF apreendeu um livro-caixa, agendas e papéis com nomes e iniciais de políticos sempre relacionados a números que, para os investigadores, se referem a valores da suposta propina.
Numa agenda de 2009, na data de 24 de agosto, os registros de possíveis pagamentos foram separados em dois grupos: ?Pessoais? e ?Política?. Entre os ?Pessoais? aparece a anotação ?Severo=450?. Seria referência a Severo de Araújo Dias, dono do haras Sparta. A PF investiga a denúncia de que o proprietário oculto do haras seja Arruda. Em um depoimento à subprocuradora-geral da República Raquel Dodge, prestado em 9 de dezembro, Durval Barbosa afirmou que o haras foi comprado pelo governador como um presente para sua mulher, Flávia Arruda. Durval diz ter ouvido a confirmação do negócio de Heraldo Paupério, padrasto de Flávia e advogado do delator antes da deflagração da operação da PF.
ÉPOCA ouviu aliados e auxiliares próximos de Arruda. Sob a condição de não ser identificados, eles disseram que o verdadeiro dono do haras é Arruda. Contaram que, antes de o escândalo estourar, aos sábados pela manhã Arruda agendava compromissos oficiais em locais próximos à propriedade. Terminada a programação, o governador dispensava assessores, seguranças e motorista e seguia dirigindo o próprio carro até o haras.
No grupo ?Política? há registros como ?Pesquisas=100?, ?Evangélicos=80? e ?Fraterna=100?. Em outros documentos estão registrados pagamentos a pelo menos três institutos de pesquisa de opinião. Segundo os investigadores, ?Fraterna? seria o Instituto Fraterna, ONG presidida pela mulher de Arruda. Durval afirmou ter recebido orientação do governador para usar 10% do que arrecadava de propina com empresas de informática para financiar a entidade da primeira-dama, instalada em um espaço cedido por uma empresa estatal.
O Instituto Fraterna foi criado em abril de 2009, com o propósito declarado de reforçar ações sociais do governo. A vice-presidente é Anna Christina Kubitschek Pereira, mulher do vice-governador Paulo Octávio e neta do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Outro associado da ONG é Marcos Sant?Ana Arruda, filho do governador. Arruda afirma que o instituto não recebe recursos públicos e não tem vínculos com o governo. O gabinete do governador também nega que a ONG tenha recebido dinheiro de Durval”.

O QUE FOI APREENDIDO
“Com a nomeação de Lamoglia para o Tribunal de Contas, no final de outubro Arruda nomeou Fábio Simão seu chefe de gabinete. Simão é presidente da Federação Brasiliense de Futebol e, até o escândalo, coordenador dos preparativos na cidade para a Copa do Mundo de 2014. A PF apreendeu maços de dinheiro na casa e no gabinete de Simão, comprovantes de remessas para uma conta no exterior e registros de abertura de uma empresa na Inglaterra. Também foi encontrada uma agenda com registros de pagamentos. Um deles, de 22 de janeiro de 2007, refere-se ao governador: ?R$ 17.700 Arruda?. Um papel apreendido na residência oficial de Águas Claras, guardado num envelope diri-gido a Simão, com data de 23 de novembro do ano passado, tem a seguinte anotação: ?1 ? chefão 400, 2 ? Dep Charles 100, 3 ? Pesque Pague 800 e 4 ? Brazlândia 1500?. Fábio Simão disse a ÉPOCA que não se recorda desse papel. Quanto ao que menciona Arruda, afirma que a agenda apreendida pertence a Evelyne Gebrim, sua sócia em uma empresa de turismo e também alvo da investigação. Em relação a contas e empresas no exterior, diz que estão declaradas no Imposto de Renda.
Com as apreensões, a PF diz ter descoberto que havia uma briga entre secretários de Arruda. Eles usariam arapongas da polícia para investigar uns aos outros. Foram encontrados relatórios que descrevem casos de corrupção em várias secretarias e estatais. Em um deles, apócrifo, que estava na casa de Lamoglia, há a informação de que a Polícia Civil fazia grampos para monitorar supostos simpatizantes do ex-governador Joaquim Roriz com cargos na administração Arruda. O autor recomenda cuidado às autoridades, pois o próprio Arruda e o vice Paulo Octávio (DEM) teriam sido flagrados nesses grampos em conversas sobre a concessão de lotes a empresas. Trata-se de um programa que dá descontos de até 90% no preço dos terrenos. Para a PF, o autor desse relatório é um dos chefes de inteligência da Polícia Civil.
Aos sábados, Arruda dirigia até o haras que, segundo Durval, foi comprado em nome de um laranja
O mesmo documento registra indícios de corrupção na Secretaria de Comunicação, chefiada pelo jornalista Wellington Moraes, e diz que papéis apreendidos pela Polícia Civil ?comprovam desvios de recursos da área de tecnologia em contratos do atual governo?. Outro papel importante foi apreendido no gabinete de José Geraldo Maciel, chefe da Casa Civil antes do escândalo. Descreve em minúcias quem pagou e quem recebeu propina em contratos da Secretaria de Saúde quando ela esteve sob seu comando. Há papel até com uma resposta de Maciel às acusações: ?Repilo com veemência qualquer insinuação de participação financeira que me seja atribuída?. Essas afirmações soam como galhofa diante dos vídeos em que Maciel aparece acertando distribuição de propina.
No gabinete de Maciel, a PF apreendeu uma carta escrita por ele ? com data de 14 de janeiro de 2009 e endereçada ao governador ? que serve como amostra de como são feitos negócios com dinheiro público em Brasília. Maciel se refere a uma conversa que teve com Arruda para acertar a escolha, em uma licitação dirigida, de uma instituição privada para criar infovias de transmissão de dados em Brasília. A beneficiada seria a Fundação Gonçalves Lêdo, entidade dirigida por maçons e investigada pelo Ministério Público por outro contrato com o governo, conforme ÉPOCA revelou em maio. É um negócio com custo estimado em R$ 200 milhões. ?A Gonçalves Lêdo tem tudo para sair vitoriosa e está com um canal aberto junto à Presidência da República para trazer inicialmente cerca de R$ 100 milhões para esse projeto (e só ela poderá trazer esse dinheiro)?, escreveu Maciel. Com o surgimento das suspeitas, o Projeto Infovias ficou parado. O presidente da Gonçalves Lêdo, Manoel Tavares, admitiu que a instituição prospectou contratos na área de tecnologia, mas desconhece ações com a Presidência da República. ?Estou interessado só na parte filantrópica da fundação. É uma coisa distinta do que está colocada nessa carta. Se houver coisa desse tipo, estou fora?, diz.
No fundo falso de uma gaveta na mesa de Durval Barbosa na Secretaria de Relações Institucionais, a PF encontrou uma planilha com registros das datas de pagamentos do governo a empresas de informática. Em depoimento, Durval disse que usava a planilha para prestar contas a Arruda da propina arrecadada. Quem não pagasse propina em dia, afirma ele, seria punido com uma ordem do governador ao secretário da Fazenda para a suspensão dos respasses previstos nos contratos.
Em resposta a ÉPOCA, a assessoria do governador diz que Arruda não vai se pronunciar sobre ?papéis? e ?anotações? de terceiros. ?Os advogados do governador não tiveram acesso ao inteiro teor do inquérito. Pelo que se depreende das perguntas formuladas, órgãos de imprensa podem ter tido acesso a material que não foi disponibilizado para os advogados, o que, em tese, fere o segredo do inquérito determinado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça)?, afirma a nota.
José Geraldo Maciel disse a ÉPOCA que soube da existência do Projeto Infovias por meio de outro secretário do DF e o defendeu por considerá-lo importante. Em relação ao documento sobre corrupção na Secretaria de Saúde, afirmou que não identificou seu autor. Quanto às anotações com iniciais de nomes de deputados distritais, disse que era uma maneira de registrar a presença de parlamentares governistas no plenário da Câmara Legislativa. Domingos Lamoglia não quis se manifestar?.

IMPOPULAR
“Manifestações contra Arruda em Brasília são reprimidas com violência pela polícia. O governador se apoia nos deputados, mas pode perder o cargo na Justiça
Para permanecer no cargo até o fim do mandato, em dezembro, Arruda tem pela frente uma corrida de obstáculos. Na semana passada, a Câmara Legislativa voltou do recesso tendo como pauta única o escândalo da Caixa de Pandora. Na reabertura dos trabalhos, não foi permitida a entrada de manifestantes. Integrantes do movimento Fora, Arruda tentaram, mas foram retirados a força e arrastados pelo gramado por policiais militares, cenas comuns em Brasília desde o início do escândalo. Dois trios elétricos puxavam os coros pró e contra Arruda. Sem plateia, os deputados aliados do governador escolheram colegas governistas para comandar as investigações.
Arruda tem dito a auxiliares que sairá ileso da apuração dos deputados. Pode estar certo. Pelo menos oito dos 24 parlamentares ? entre eles o presidente Leonardo Prudente, flagrado em vídeo guardando dinheiro nas meias ? estão sob investigação no inquérito aberto no STJ. Outros 11 mantêm apoio a Arruda, aparentemente em troca de verbas e cargos. Uma planilha apreendida pela PF mostra que cada um dos 19 deputados aliados teve direito a 80 cargos comissionados (leia o quadro na próxima pág.).
A expectativa de Arruda é que, no começo de fevereiro, o Supremo Tribunal Federal (STF) decida manter a interpretação de que governadores só podem ser processados com autorização das assembléias estaduais. Arruda aposta na pressão sobre o STF por parte de outros governadores que não gostariam de abrir esse precedente. Nesse caso, Arruda pode estar errado. O presidente do STF, Gilmar Mendes, disse a interlocutores que a maioria de seus colegas está decidida a rever a jurisprudência e declarar inconstitucionais as leis que exigem aprovação prévia das assembléias.
Fontes de ÉPOCA dizem ter ouvido de ministros de tribunais superiores que, após a decisão do STF, o Ministério Público Federal pretende entrar com uma ação de improbidade administrativa contra Arruda, acompanhada de um pedido de afastamento do governador, do vice, Paulo Octávio, e do deputado Leonardo Prudente. Como os investigadores dizem possuir indícios consistentes de que o governador está tentando obstruir a apuração, se Arruda for mesmo afastado corre risco de uma troca significativa de endereço: de Águas Claras para uma cela especial na Polícia Federal?.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 23:34

Sarney diz o que quer

 O senador José Sarney não se emenda. Continua mentindo.
Leiam só essa nota assinada por Paulo Moreira Leite, diretor de redação da Época:
“Sarney errou de novo
Quem assistiu ao discurso de José Sarney na tribuna do senado recorda-se de uma cena: como se tivesse um troféu na mão, ele exibiu um DVD para o plenário e para as câmaras de TV.
Ali se encontrava, disse Sarney, a prova de que a mídia utiliza métodos condenáveis para procurar informações a seu respeito. Conforme Sarney, o DVD mostrava um repórter que, durante uma visita a um escritório de seu sócio,  roubou documentos que poderiam comprometê-lo ? e saiu correndo. O presidente do senado ainda disse que o jornalista havia ameaçado seu sócio, dizendo: ?Você é laranja do Sarney, confesse!?
Em busca da cena, digna de uma comédia, fui atrás do DVD. Assisti ao filme em seus 54 minutos de duração. Sozinho no meu quarto, telefones desligados.
Não há roubo, não há correria.
O DVD mostra um repórter, Andrei Meireles, da revista Época, entrevistando um socio do Sarney. Mostra o momento em que, para reforçar seus argumentos, o sócio entrega um pacote de documentos a Andrei. Os dois conversam, a entrevista prosseguem. A certa altura, o sócio diz que precisa ir ao dentista. Mais tarde,  levanta-se para ir embora. Coloca o paletó e ajeita o celular no bolso. Pega os documentos, à vista do sócio de Sarney e outros funcionários. Ninguém lhe diz para deixá-los ali.
Em companhia do socio de Sarney, Andrei se retira do escritório ? e do filme.
O DVD é um tiro no pé de Sarney”.

  • Sábado, 26 Junho 2010 / 4:29

Zé Dirceu perfila Álvaro Dias

O blog do ex-ministro Zé Dirceu publica hoje um rápido perfil parlamentar do senador Álvaro Dias:
“Para quem não sabe, ou não se lembra, Álvaro Dias é o senador escalado pela Globo e pelos tucanos para produzir dossiês e denúncias falsas contra o PT. Para relembrar alguns episódios: Foi no seu gabinete que Veja procurou construir toda a denúncia sobre os cartões corporativos, na mesma linha dos dossiês de Serra e Eduardo Jorge. Também o caso da ex-secretaria da Receita Federal que inventou ter tido um encontro com Dilma, no qual esta teria pedido interceder em favor dos Sarney, nasceu no seu gabinete, neste caso em consórcio com a Folha; assim como a CPI da Petrobras que não deu em nada, uma vez que era somente para impedir o pré-sal, mas foi articulada mais de uma vez em seu gabinete com total apoio da Rede Globo. Além de dar espaço aos seus “dossiês”, a emissora lhe dá proteção total, não publicando um segundo de notícias que o envolvem negativamente, como foi o caso quando a revista Época, distraidamente, revelou que o senador escondeu R$ 6 milhões da justiça eleitoral em sua declaração”.
Entenderam?

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