• Quarta-feira, 18 Janeiro 2012 / 12:28

Os doutores blindaram os implantes

                                     Elio Gaspari*

 
             Os cirurgiões plásticos e suas guildas deveriam convocar um congresso da categoria para discutir os aspectos desastrosos de suas condutas diante das adversidades provocadas pelos implantes de mamas de silicone PIP.
A ruína poderia ter sido evitada em 2009, quando a Câmara aprovou um projeto do deputado Miro Teixeira exigindo que os médicos comprovassem a “ciência da parte do paciente de todos os riscos eventuais do uso de silicone quando implantado no organismo humano”. A nobiliarquia médica mobilizou-se contra a exigência e prevaleceu, pois o projeto morreu no Senado.
Até abril de 2010, quando o uso dos implantes PIP foi proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, estima-se que 20 mil brasileiras tenham passado por esse tipo de cirurgia. Desde então, a Anvisa recebeu 39 queixas de ruptura dos implantes e 55 de outros efeitos adversos.
Em todos os casos, as reclamações vieram de pacientes. Não houve uma só notificação de médico. Zero, mesmo sabendo-se que, antes de reclamar na Anvisa, a vítima queixou-se a ele. (É verdade que os computecas da agência avisam no site do órgão que só se chega ao formulário de “evento adverso” com um navegador, o Explorer, da Microsoft.)
A agência recebe anualmente 650 mil queixas de pacientes e apenas 200 notificações de profissionais. Essa disparidade resulta do ambiente promíscuo onde coabitam a indústria farmacêutica, médicos e hospitais. Mesmo assim, no primeiro semestre de 2011 ocorreram 323 queixas relacionadas com a má qualidade de luvas de procedimentos.
A revendedora das próteses -EMI Importação e Distribuição- foi obrigada pela Justiça a pagar uma nova cirurgia e a troca da prótese. Notificação do médico? Nem pensar. O silêncio persistiu ao longo de 2009 e 2010, quando o fabricante verificou que o índice de rompimento dos seus implantes oscilava entre 30% e 40% e indenizou mais de uma centena de vítimas, na França.
Os médicos que implantaram essas mamas souberam dos problemas e nada disseram à Anvisa. Serão obrigados a defender suas condutas na Justiça, pois não só há ações das vítimas, como o Ministério Público entrará no lance. A Anvisa, que não deu atenção às queixas das pacientes, responderá pela sua inépcia.
Ocorrida a desgraça, a Sociedade Brasileira de Mastologia informou que um estudo de 2002 revelou que os índices de ruptura dos implantes oscilavam entre 26% em quatro anos, 47% em dez anos e 69% em 18 anos.
Em 2009, combatendo a exigência da comprovação do conhecimento, pelas clientes, dos riscos que corriam, o Conselho Federal de Medicina disse o seguinte: “O médico brasileiro é obrigado, por questões éticas, a explicar a seu paciente o que será usado como propedêutica e como terapêutica, sem a necessidade de um ‘laudo de autorização’ que, sem trazer qualquer benefício ao paciente, irá -ao contrário- provocar uma situação de constrangimento para o médico que empregue a prótese de silicone e uma expectativa negativa por parte do paciente. Isso mostra que a exigência de autorização por escrito para a realização desse procedimento médico é incabível”.
Incabível era jogar para baixo do tapete uma justa “expectativa negativa” da paciente. Boa notícia: daqui a duas semanas, com a Câmara reaberta, Miro Teixeira reapresenta seu projeto, com novas salvaguardas.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Domingo, 15 Janeiro 2012 / 22:53

Coelhos, um poder centenário

                                          Elio Gaspari*
 
    Não se deve cometer a injustiça de atribuir uma obsessão nepotista ao doutor Fernando Bezerra Coelho. Isso é coisa de pobre que precisa arrumar uma boquinha para familiares. É verdade que seu irmão Clementino ocupou a presidência da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco e o tio
Osvaldo teve uma cadeira no conselho consultivo da economia irrigada.
O tio da mulher de seu filho-deputado e tesoureiro de sua campanha representava o ministério em Pernambuco. Já o pai da senhora dirigiu o escritório do Departamento Nacional de Obras contra a Seca em Recife. Seu tio, Nilo Coelho, foi governador de Pernambuco e senador. Fez fama em Brasília pela qualidade
dos jantares que oferecia. Outro Nilo Coelho governou a Bahia. O sucesso da família está no poder, não nos empregos.
O primeiro Coelho a governar Petrolina assumiu a prefeitura em 1895. Pela medida do coronelismo político, a parentela (com suas dissidências) produziu oito prefeitos e mais de 20 mandatos parlamentares.
Pela medida do coronelismo fundiário, em 1996 tinha 120 mil hectares irrigados produzindo frutas no vale. Pela medida do coronelismo eletrônico, tem nove emissoras de rádio e uma de televisão. Isso tudo e mais 30 empresas industriais e comerciais.
O atual ministro da Integração Nacional foi duas vezes deputado e prefeito, dirigiu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco e presidiu a estatal do porto de Suape.
Nada a ver com nepotismo. Tudo a ver com o controle do aparelho do Estado, de verbas, terras e águas. Petrolina tem diversos títulos, e o mais vistoso é “Califórnia Brasileira”. Olhada só pela produção de frutas no semiárido, o paralelo procede.
No início do século passado, quando os Coelho prosperavam em Petrolina, o sul da Califórnia estava nas mãos de grandes famílias. Fizeram-se fortunas controlando os programas de irrigação e obras contra a seca, quase sempre com dinheiro federal.
A partir da segunda metade do século, quando os Coelho tomaram conta do vale do São Francisco, as oligarquias endinheiradas da Califórnia viraram nome de museus (Getty) ou de personagens da história (Patton). A última delas foi a dos Chandler, dona do Los Angeles Times. A sociedade mudou e durante 20 anos, de 1973 a 1993, Los Angeles foi governada por um negro.
Em 1891, um magnata fundou em Pasadena uma escola técnica com uma doação de US$ 2,5 milhões em dinheiro de hoje.
Com mais apoios e muita ajuda oficial, tornou-se o Instituto de Tecnologia da Califórnia. Produziu 31 prêmios Nobel e, no ano passado, foi considerado a melhor universidade do mundo, desbancando Harvard.
Até hoje o MEC não conseguiu saber o que a Prefeitura de Petrolina fez com uma verba de de R$ 2,5 milhões, destinada à educação de jovens que abandonaram as escolas.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’.

  • Quarta-feira, 11 Janeiro 2012 / 7:56

A privataria quer bicar o Fundão

                                               Elio Gaspari*

       O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, concedeu à General Electric, por 50 anos, um terreno de 47 mil metros quadrados para que ela construa um centro de pesquisas na Ilha do Fundão.
O doutor comprou a gleba ao Exército, pagando R$ 13 milhões. Aquilo que pode parecer um episódio de modernização da cidade é um capítulo da dilapidação do patrimônio da Viúva e dos impostos pagos pelos cariocas.
Faz tempo, existiu na baía de Guanabara uma ilha do Bom Jesus e lá, no reinado de D. Pedro II, instalou-se o Asilo dos Inválidos da Pátria para receber veteranos da Guerra do Paraguai. A iniciativa foi amparada por uma subscrição pública de moradores da cidade. Em 1868, havia lá 32 oficiais e 1.163 praças. Passados 106 anos, o presidente Ernesto Geisel soube que o asilo continuava funcionando.
Pelas suas contas, se houvesse inválido da pátria vivo, teria algo como 124 anos. Pediu ao ministro do Exército, general Silvio Frota que lhe explicasse o que era aquilo.
O ministro mostrou que nas 58 casas do asilo trabalhavam 57 militares e 69 civis. Os asilados eram quatro, de outras guerras. Em dinheiro de hoje, a instituição consumia R$ 455 mil anuais (noves fora os salários).
Portanto, havia 32 servidores para cada “inválido da pátria” que, por sua vez, custava R$ 9,5 mil mensais. Geisel mandou acabar com a maluquice. Como o ministro demorava, em 1976 o presidente ameaçou entrar em greve. Não assinaria coisa alguma levada por Frota enquanto o asilo não fosse extinto. Ganhou a parada.
Essa era uma época em que se esbanjava o dinheiro da Viúva. (Um sargento do asilo tivera dupla militância, dividindo-se entre o plantel do torturadores da Polícia do Exército e o contrabando.)
As terras da ilha do Bom Jesus continuaram como propriedade da União e, como agora esbanja-se o patrimônio da Boa Senhora, Eduardo Paes quer atrair para o Rio o “Brazil Technology Center” da General Electric.
Para isso, presenteia a empresa com o terreno. Como a propriedade não é dele, comprou-a ao Exército. A GE é uma empresa privada e tem bala para comprar terrenos. O Exército, uma instituição pública sustentada pelo Tesouro, não faz nenhum uso daquilo que foi a ilha de Bom Jesus.
A vereadora Sonia Rabello, que já ajudou a impedir a construção de um monstrengo difarçado de marina no aterro do Flamengo, sustenta que esse tipo de munificiência faz mal à cidade. Até bem pouco tempo, o Exército teve um projeto para a construção de três edifícios, com 140 apartamentos, no Forte do Leme. A ideia, aceita pelo prefeito, felizmente foi abatida em voo na Câmara do Rio.
A choldra que paga impostos verá R$ 14 milhões de sua carga tributária municipal passar para o Exército, em benefício dos acionistas da General Electric, cujas ações fecharam a US$ 18,86 no pregão de segunda-feira da Bolsa de Nova York.
Há inúmeros interessados em bicar as terras do Fundão. São negócios em que todo mundo ganha, menos a Viúva e os inválidos do fisco.
Serviço: Está na rede o trabalho “A Espuma das Províncias – Um estudo sobre os Inválidos da Pátria e o Asilo dos Inválidos da Pátria, na Corte (1864-1930)” do professor Marcelo Augusto Moraes Gomes.
*Élio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 18 Agosto 2010 / 10:15

O modelo “Serra Palin” emborcou

                                                                            Elio Gaspari*
    Segundo o Ibope, Dilma Rousseff botou 11 pontos de frente sobre José Serra. Pelo Datafolha são oito e pelo Vox Populi, 16. Em todos ela está em alta, e ele, em queda. Quem melhor explica essa circunstância é um simples apelido: “Serra Palin”. A sacada veio do cientista social Celso Rocha de Barros, do blog “Na prática a teoria é outra”.
Enquanto John McCain, candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, tirou da cartola Sarah Palin, uma governadora do Alasca, desconhecida, feroz e simpática, o candidato tucano, que o país conhece há décadas, apresentou-se como algo que nunca foi. Pior: pelo que se suspeita, apresenta-se como algo de que o eleitorado não precisa. Há milhões de pessoas dispostas a votar num candidato que denuncia o fisiologismo do aparelho petista. Essas pessoas também não gostam do iraniano Ahmadinejad, do boliviano Evo Morales e das Farc colombianas.
A manobra da invenção de Sarah Palin deu errado porque ela encantou o eleitorado conservador americano, que já estava disposto a votar em McCain. (Voto feminino? O companheiro Obama prevaleceu entre as mulheres.) A manobra “Serra Palin”, além de primitiva, revelou-se idêntico equívoco aritmético. Uma pessoa pode detestar Lula e Dilma Rousseff por 17 motivos, mas isso não faz com que ela possa votar 17 vezes.
Serra lançou-se candidato com um discurso de unidade nacional, por um Brasil que “pode mais”, apimentado com um toque moralista (“meu governo nunca cultivou roubalheira”). Em poucos dias arquivou a proposta de unidade e serviu a pimenta. Tentando ser o que nunca foi, deixou de informar quem pretende ser como presidente da República. O coroamento desse galope em direção ao nada poderá se cristalizar numa tentativa de metamorfose num hipotético “Zé”, eco aziago da transformação de Alckmin no “Geraldo” da campanha de 2006.
Enquanto o tucanato não soube para onde ir, a plataforma petista foi simples como uma lâmina: Dilma Rousseff é a candidata de Lula. É verdade que os 78% de popularidade de Nosso Guia lhe permitem esse luxo, mas esse dado está na equação política nacional desde o final do ano passado, quando ele atravessou a crise financeira com leves escoriações.
O modelo “Serra Palin” emborcou. Restam a José Serra os dois meses decisivos da campanha e a possibilidade de levar a disputa para o segundo turno. A seu favor, terá os ímpetos do “já ganhou” petista. Prova disso pode ser encontrada no desembaraço com que os companheiros já começaram a compor ministério, na ressurreição de comissários saídos do sarcófago de réus do processo do mensalão e até mesmo no reaparecimento das rivalidades das facções internas do PT. Afinal de contas, não se pode supor que, numa campanha eleitoral, só um dos lados cometa todos os erros durante todo o tempo. Nesse altura, vale lembrar, os desastres raramente derivam de estratégias ou astúcias da marquetagem. O fator decisivo, por incrível que possa parecer, sempre sai da essência da candidatura.
Quatro meses de campanha crispada renderam nada aos tucanos. Em março, ao deixar o governo de São Paulo, Serra lembrou-se de Guimarães Rosa: “Mestre não é quem ensina, mestre é quem, de repente, aprende”.
*Élio Gaspari é jornalista, e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’

  • Quarta-feira, 11 Agosto 2010 / 9:33

Leandro e seu vídeo são o Juruna 2.0

                                            Elio Gaspari*

  Era uma vez um índio chamado Juruna. Ele escandalizou o país no fim dos anos 70 com um simples gravador. O xavante ia aos gabinetes de Brasília, apresentava seus pleitos, ouvia o blá-blá-blá dos burocratas e gravava. Quando Juruna tocou suas fitas, o Brasil percebeu que não era só ele quem estava sendo feito de bobo e tratado como um estorvo. Juruna transformou-se numa celebridade e, em 1982, tornou-se o primeiro índio a sentar na Câmara dos Deputados. Deu-se à bebida e morreu no anonimato em 2002.
Para felicidade geral, existem hoje internet e YouTube. O garoto Leandro dos Santos de Paula, que vive no conjunto Nelson Mandela, em Manguinhos, perto de uma área conhecida como “Faixa de Gaza”, gravou em vídeo uma breve conversa com Lula e Sérgio Cabral durante uma visita dos dois ao bairro e tornou-se um Juruna 2.0.
Leandro queixou-se ao Nosso Guia de que na área esportiva da obra que os maganos visitavam não podia jogar tênis. Tomou a primeira, de Lula: “Isso é esporte da burguesia, porra”. (Se Leandro tivesse o chassis de Serena Williams, ele não arriscava uma cortada dessas.) Na condição de pai dos pobres, aconselhou: “Por que você não faz natação?”
“Porque a gente não pode entrar na piscina.” Por quê? “Porque não abre para a população.”
Nosso Guia virou-se para o governador Sérgio Cabral e ensinou: “No dia em que a imprensa vier aqui e pegar um final de semana com essa porra fechada, o prejuízo político será infinitamente maior do que colocar dois guardas aqui”.
Maravilha. A patuleia paga a piscina, não pode entrar, e Lula se preocupa com a possibilidade de a imprensa flagrar a cena. Sem imprensa, tudo bem. Ademais, o que ele teme é o “prejuízo político”. O da Viúva é desprezível.
Leandro reclamou do barulho que o “Caveirão” (o blindado com que a PM demonstra sua força) faz à noite na sua rua. Entrou em cena o governador Sérgio Cabral, chamando Leandro de “otário” e “sacana”. A intervenção de Cabral foi claramente intimidatória, mas o jovem não baixou a bola. Afinal, como no caso de Juruna, sua ação foi premeditada. Ele é freguês das comemorações triunfalistas do governador. À diferença do índio, ele faz o registro em vídeo.
Cabral sustenta que Leandro está sendo usado por interesses eleitorais. Engano. Foram ele e Nosso Guia que usaram a autoridade que a choldra lhes confere para desfilar vulgaridades, o resto é registro. Como diria o bandido Elias Maluco, “não esculacha”. Em seu benefício, foi arrogante, mas não chamou Leandro para a briga, como fez Ciro Gomes em Tianguá, nem estapeou um eleitor em Campo Grande, como fez o governador André Puccinelli. (Nos dois casos, os doutores haviam sido chamados de “ladrão”.)
Bem-aventurados os leandros desta vida, bem-aventurado o YouTube e glória eterna ao Juruna. O xavante, depois de eleito deputado, fez um discurso chamando todos os ministros do governo João Figueiredo de “ladrões”. O general invocou os sentimentos do ministro do Exército e quis que o ministério o processasse: “Eu quero todos! Quem não fizer, eu demito!” Onze fizeram, e chegou-se a temer uma crise com o Congresso. Deu em nada. O Brasil tinha começado a melhorar.
* Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e o ‘Globo’.

  • Quarta-feira, 28 Julho 2010 / 10:55

Afeganistão supera o Vietnã

                                                                 Elio Gaspari*

De Lyndon.Johnson@edu para Obama@gov

Presidente Obama,
O ideal seria que você encarcerasse o pessoal do WikiLeaks que entregou à imprensa 90 mil documentos da Guerra do Afeganistão. Como isso não é possível, encare os fatos. Sua situação parece-se com minha quando assumi a Presidência, em 1963, e herdei a Guerra do Vietnã. Você sabe que temos que ir embora daquele fim de mundo, não sabe como, e tem medo de parecer frouxo. Foi o que aconteceu comigo e desgracei minha Presidência.
Quando o Kennedy foi assassinado, aquela guerra havia custado a vida de 195 americanos. No seu governo já morreram 577 no Afeganistão e 192 no Iraque. Em 1975, quando abandonamos Saigon, haviam morrido mais 57 mil garotos. Os militares dizem que eu os manipulei, mas eu é que fui manipulado por eles, pensando que os manipulava.
O que está acontecendo contigo é pior. Os teus generais acham que são artistas de cinema e descobriram que lidam com um presidente indeciso.
Essa catarata de documentos da WikiLeaks é mais venenosa que a dos “Papéis do Pentágono”, que destruíram a credibilidade da Guerra do Vietnã. Aqueles eram estudos, análises. O que temos agora são as vísceras de operações militares. Se fizéssemos isso na Segunda Guerra Mundial, o marechal Montgomery seria levado a uma corte marcial por ter perdido uma divisão de paraquedistas em Arnheim, e Douglas MacArthur teria sido remetido para Hollywood pelas suas palhaçadas nas Filipinas.
Obama, em abril de 1964, quando eu mal completara seis meses de governo, perguntei ao senador Richard Russell o que ele achava que deveria ser feito no Vietnã. Dick Russell foi um dos maiores congressistas do meu século. Racista como um banheiro de brancos, juntava a discrição dos sulistas ao sentido de missão dos Confederados. Sua resposta acabou associada a um anedotário cínico: “Temos que conseguir um sujeito que nos peça para ir embora. Assim teremos uma desculpa e voltamos para casa”.
Ao longo de sua vida, Dick nunca teve um momento de cinismo. Deus poupou-o do desastre do Vietnã, levando-o em 1971, e sempre que vou ao Capitólio passo um bom tempo admirando sua estátua. Você precisa ouvir todos os dias os dez minutos da conversa do Russell comigo. Felizmente, grampeei os meus telefones e preservei momentos de grande valor histórico, inclusive alguns que me deixam mal. Ouça a reposta do Dick quando perguntei que importância tinha o Vietnã: “Nenhuma”. E a do Afeganistão?
Lady Bird manda um abraço para Michelle e agradece pela horta que ela plantou no nosso jardim.
Do seu companheiro
Lyndon
Serviço: Minha conversa com Russell, muito bem editada, pode ser ouvida no seguinte endereço: http://whitehousetapes.net/clip/ lyndon-johnson-richard-russell- lbj-and-richard-russell-vietnam
Para os brasileiros, nesse mesmo sítio há uma conversa minha com o assessor de segurança nacional, McGeorge Bundy, no dia 14 de abril de 1964. Combinávamos o texto de uma mensagem de felicitações ao marechal Castello Branco pela sua posse na Presidência.
Bundy estava preocupado com as prisões decorrentes da queda daquele presidente esquerdista que fugiu para o Uruguai:
http://whitehousetapes.net/clip/lyndon-johnson-mcgeorgebundy-lbj-latin-american-dictators
*Elio Gaspari, jornalista, escreve para ‘Folha’ e para ‘o Globo’.

  • Domingo, 25 Julho 2010 / 9:35

Bilhete único pode virar piada

    Do jornalista Élio Gaspari:
“O IBGE procurou a Secretaria de Transportes do Estado do Rio para obter informações sobre o impacto econômico do Bilhete Único intermunicipal, criado no início do ano pelo governador Sérgio Cabral. Deseja-se medir o alcance da iniciativa na renda das famílias.
Na última quinta-feira o sistema transportou cerca de 250 mil pessoas por dia (621 mil viagens).
Trabalhadores que gastavam R$ 22 por dia hoje gastam R$ 8,80. Isso significa uma economia anual de pelo menos R$ 3.000. Daqui a pouco começará a vigorar o Bilhete Único municipal (R$ 2,40, com direito a dois percursos de ônibus).
Se essa tarifa for integrada à rede estadual de ônibus, trens, metrô e barcas, o Rio terá conseguido algo que São Paulo ainda não tem.
Se não houver a integração, sobrará uma piada. A da cidade que terá dois bilhetes que se intitulam únicos, o do Cabral e o do Eduardo Paes”.

  • Quarta-feira, 21 Julho 2010 / 19:21

História não é maconha, para ser queimada

                                                                   Élio Gaspari*

    A professora Silvia Hunold Lara, da Unicamp, pede que o Congresso socorra a história do Brasil. Há cerca de um mês, uma comissão de sábios entregou ao Senado um anteprojeto de reforma do Código de Processo Civil que prevê a incineração, depois de cinco anos, de todos os processos mandados ao arquivo. Querem reeditar uma piromania de 1973, revogada dois anos depois pelo presidente Ernesto Geisel.
Se a história do Brasil for tratada com o mesmo critério que a Polícia Federal dispensa à maconha, irão para o fogo dezenas de milhões de processos que retratam a vida dos brasileiros, sobretudo daqueles que vivem no andar de baixo, a gente miúda do cotidiano de uma sociedade. Graças à preservação dos processos cíveis dos negros do século 19 conseguiu-se reduzir o estrago do momento-Nero de Rui Barbosa, que determinou a queima dos registros de escravos guardados na Tesouraria da Fazenda.
Queimando-se os processos cíveis, virarão cinzas os documentos que contam partilhas de bens, disputas por terras, créditos e litígios familiares. É nessa papelada que estão as batalhas das mulheres pelos seus direitos, dos posseiros pelas suas roças, as queixas dos esbulhados. Ela vale mais que a lista de convidados da ilha de Caras ou dos churrascos da Granja do Torto.
A teoria do congestionamento dos arquivos é inepta. Eles podem ser microfilmados ou preservados digitalmente. Também podem ser remetidos à guarda de instituições universitárias. O que está em questão não é falta de espaço, é excesso de descaso pela história do povo. Pode-se argumentar que os processos com valor histórico não iriam ao fogo, mas falta definir “valor histórico”.
Num critério estritamente pecuniário, quanto valeria o contrato de trabalho assinado nos anos 50 por uma costureira negra de Montgomery, no Alabama? Certamente menos que um manuscrito de Roger Taney, o presidente da Corte Suprema dos Estados Unidos que deu o pontapé inicial para a guerra civil. Engano. Uma simples fotografia autografada de Rosa Parks, a mulher que desencadeou o boicote às empresas de ônibus de Montgomery e lançou à fama um pastor de 29 anos chamado Martin Luther King, vale hoje US$ 2.500. O manuscrito encalhado de Taney sai por US$ 1.000.
O trabalho dos sábios incineradores está com o presidente do Senado, José Sarney, cuidadoso curador de sua própria memória e membro da Academia Brasileira de Letras. Como presidente da República, autorizou a queima dos arquivos da Justiça do Trabalho. Com isso, mutilou a memória das reclamações de trabalhadores, de acordos, greves e negociações coletivas.
A piromania é fruto do desinteresse, não da fatalidade. O STF, os Tribunais de Justiça de São Paulo, do Rio de Janeiro e de Rondônia, bem como o TRT de Rio Grande do Sul, acertaram-se com arquivos públicos e universidades para prevenir o incêndio.
Há mais de uma década, a desembargadora Magda Biavaschi batalha na defesa dos arquivos trabalhistas, mas pouco conseguiu. Lula ainda tem mandato suficiente para agir em relação à fogueira trabalhista e para alertar sua bancada na defesa dos arquivos cíveis. Milhares de processos estimulados pelas lideranças sindicais dos anos 70, quando ele morava no andar de baixo, já viraram cinzas.
* Élio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 14 Julho 2010 / 15:06

Os palacetes de uma elite mal assombrada

 

                                                                         Élio Gaspari*
   A prefeitura do Rio de Janeiro pretende comprar o palacete que pertence à família Guinle de Paula Machado, na rua São Clemente (Botafogo). Os donos queriam R$ 15 milhões, mas deixariam por R$ 10 milhões. A cinco minutos dali, caindo aos pedaços, está o Hospital Rocha Maia. Por que a Viúva gastará semelhante ervanário para comprar uma exuberância sem saber o que vai fazer com ela? A casa, tombada pelo Iphan, está em bom estado, assim como seus mil metros quadrados de jardins. Se alguém estiver interessado, que faça uma oferta, deixem a Boa Senhora longe dessa.
No final do século 19 e nas primeiras décadas do 20 os endinheirados do Rio de Janeiro construíam palacetes em Botafogo, e os mais belos ficavam na São Clemente. Nessa mesma época os milionários americanos erguiam mansões na Quinta Avenida, em frente ao Central Park. Quem percorrer esses trajetos poderá admirar a grandeza do capitalismo americano e a desgraça da plutocracia brasileira bem relacionada.
Na Quinta Avenida sobrevivem as casas de Henry Frick; a Starr Miller, comprada por Ronald Lauder; a do banqueiro Felix Warburg; e a do magnata do aço, Andre Carnegie. Todas hospedam instituições culturais privadas. Frick deixou o palacete com centenas de obras primas. (Vermeer? Três. Rembrandt? Quatro.) Ninguém se lembra dele como o mandante, em 1892, de um massacre de operários grevistas, nem dos dois tiros que tomou no pescoço, disparados por um anarquista. Lauder criou a Neue Gallery, para a qual comprou o retrato de Adele Bloch-Bauer, de Gustav Klimt. Na casa de Warburg funciona o Museu Judaico. Mais adiante está o palácio de Carnegie, o maior entre os “barões ladrões”, foi o homem mais rico dos Estados Unidos no início do século e provavelmente o maior filantropo de sua história. Nela há um centro de exposições de desenho.
Na rua São Clemente a história foi outra, os plutocratas construíram palacetes, regalaram-se e, quando as heranças encurtaram, penduraram-se quase todos na bolsa da Viúva. A de Rui Barbosa hospeda uma instituição exemplar. A mansão de um comerciante português, onde funcionou o Colégio Jacobina, tornou-se um Centro de Arquitetura e Urbanismo da prefeitura que vive na indigência. O palácio do embaixador inglês foi comprado pela prefeitura num negócio esquisito, no qual pagou pelos móveis quatro vezes mais do que o preço do imóvel. Em alguns casos, os prédios foram preservados por empresas, mas onde a Viúva pagou a conta, quase nada sobrou para a patuleia.
Noutro bairro, o filho do barão de Nova Friburgo, falido, vendeu à República o Palácio do Catete. Quem o visita e depois vai à casa de Carnegie pensa que o magnata americano era um avarento. O mesmo acontecerá ao paulista que visitar o Palácio dos Campos Elíseos, repassado à Boa Senhora pelos descendentes de Elias Pacheco Chaves.
Os Guinle foram uma das famílias mais ricas da República Velha. Fizeram dinheiro com indústrias, obras e concessões de serviços públicos. Lá atrás, tiveram o equivalente a R$ 2 bilhões. Enquanto ganharam mais do que gastavam, souberam distribuir sua fortuna. Se o prefeito Eduardo Paes não tem o que fazer com R$ 10 milhões, faça como o patriarca Guilherme Guinle (1882-1960): proteja os hospitais do Rio de Janeiro.
*Elio Gaspari, jornalista, escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:54

Tucanos, a USP e a PM

De Élio Gaspari:
“Se o tucanato tiver juízo, mantém a PM longe do campus da USP, cujos funcionários resolveram entrar em greve.
Há dois anos, durante o governo de José Serra, ex-presidente da UNE, a tropa de choque da PM desocupou o diretório da Faculdade de Direito, que havia sido invadido por um condomínio que incluía movimentos estranhos à escola, como o MST. Uma pancadaria semelhante à de junho do ano passado é tudo o que a militância sindical precisa. Na ocasião havia pelo menos um sargento PM armado de metralhadora”.

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