• Domingo, 22 Abril 2012 / 13:18

Sergio Kirchner x Cristina Cabral

     Do jornalista Elio Gaspari, na ‘Folha’:
     “Cristina Kirchner assumiu o controle da petrolífera YPF em nome do futuro da Argentina. Pelo menos é o que ela diz.
O governador Sérgio Cabral desapropriou um edifício de 13 andares avaliado em R$ 500 milhões, onde funcionam 14 grandes empresas, nas quais trabalham 4.000 pessoas, para servir de anexo à Assembleia Legislativa e dar conforto a 70 deputados.
Até 2011, 33 deles estavam espetados na Justiça.
Quem sabe, até o fim do mandato, desapropriará sua casa de Mangaratiba para servir de colônia de praia para os deputados”.

  • Domingo, 08 Abril 2012 / 13:10

Presidente Demóstenes em Nova York

                                                        Elio Gaspari*
        Setembro de 2015: eleito presidente da República, em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos da Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”. Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.
O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética que o país precisa”. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação. Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.
Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”. À noite o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grande Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel. Chamou a atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.
Em 2012 a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como “Carlinhos Cachoeira”, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes. O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo, cancelada em 2013. A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959 Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello. O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior. O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.
Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da industria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o Estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura. Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.
Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.
*Elio Gaspari é jornalista.

  • Quarta-feira, 04 Abril 2012 / 16:47

Bo Xilai, o Demóstenes chinês

                                            Elio Gaspari*

          Numa época em que o mundo flerta com a disciplina chinesa, vale a pena dar uma olhada na sucessão do presidente Hu Jintao. É duro ler sobre um rolo no qual Wen briga com Bo porque Deng escolheu Zhao, mas é útil, porque nessa sopa de letras está o futuro da segunda economia do mundo e do maior parceiro comercial do Brasil.
Se tudo der certo, Hu passará o governo para Xi Jinping, um engenheiro de 59 anos. Nas últimas semanas a hierarquia do Partido Comunista detonou a estrela ascendente de Bo Xilai, ex-governador de uma das principais províncias do país.
O rolo chinês mostra o vigor da democracia brasileira e e de suas instituições. O sucesso econômico do Império do Meio dá sinais de fadiga e, olhando-se para o jogo político, a coisa piora.
O segredo com que são conduzidas as sucessões chinesas camufla um jogo bruto, às vezes selvagem. O Grande Timoneiro Mao Zedong teve três herdeiros. Um morreu numa enxovia, outro explodiu num avião e o terceiro foi escanteado sem deixar sua marca. Deng Xiaoping, o pai da China moderna, dispensou um herdeiro, botou o outro em prisão domiciliar e coroou um azarão que, por sua vez, não conseguiu fazer o sucessor.
No início do ano, mesmo quem dava como certa a ascensão de Xi Jinpin, achava que Bo Xilai seria uma novidade no núcleo dirigente do Partido Comunista. Era mais um dos príncipes das dinastias de chefes da revolução comunista. Diferia dos demais porque era um governador enérgico e punha ladrões na cadeia. Isso tudo e mais um toque de nacionalismo e demagogia maoísta.
Desde o tempo de Deng a China tem uma peculiaridade que confunde os observadores, sobretudo os brasileiros. Lá, a facção que defende a redução do Estado simpatiza com a desordem fiscal. Já os estatizantes sustentam a ortodoxia orçamentária. Dependendo do lado pelo qual se olha, são a coisa e seu contrário.
Até o mês passado, o companheiro Bo parecia um Demóstenes Torres 1.0. De repente, o chefe de sua polícia pediu asilo aos Estados Unidos, teve-o negado, pode estar preso e contou sua história, envolvendo o patrão em roubalheiras. Um inglês que vivia no círculo de poder do príncipe apareceu morto. Teria sido intoxicação alcóolica, mas os amigos dizem que ele não bebia. Era consultor de empresas, protegido por Madame Bo. Quase todos os hierarcas chineses tiveram familiares associados ao usufruto de Bolsas Consultoria. As da mulher do primeiro-ministro ficavam no ramo dos diamantes.
Os pequenos principes são acompanhados por uma auréola de roubalheiras poucas vezes vista no Brasil. A mulher de Deng Xiaoping casou-se com ele durante a Longa Marcha, formou-se em física, ralou dois ostracismos e aleijaram-lhe um filho durante a Revolução Cultural. Aguentou tudo, mas tentou se matar em 1994, quando outro filho foi denunciado por corrupção.
Por trás da briga de hoje estão rivalidades que remontam aos anos 80, quando o pai de Bo ajudou a derrubar o protetor de boa parte dos mandarins de hoje. Desde a queda do Demóstenes 2.0, a China foi tomada duas vezes pelos boatos de uma crise política. Daqui a alguns anos vai-se saber o que aconteceu.
- Um bom retrato da confusão chinesa está no artigo “The Revenge of Wen Jibao” (“A vingança de Wen Jibao”), do jornalista australiano John Garnaut.
*Elio Gaspari é jornalista.

  • Quarta-feira, 28 Março 2012 / 17:48

A cachoeira de Demóstenes Tôrres

                                                                    Elio Gaspari*

           Demóstenes Torres, ex-líder do DEM no Senado, foi delegado de polícia, promotor e secretário de Segurança de Goiás. Fosse um frade, seria possível dizer que se aproximou do contraventor “Carlinhos Cachoeira” por amor ao próximo. No ano passado, aceitou um fogão e uma geladeira (importados) de presente de casamento. Vá lá que, pela sua etiqueta, “a boa educação recomenda não perguntar o preço nem recusá-los”. Em 2009, Demóstenes recebeu de “Cachoeira” um aparelho Nextel, habilitado nos Estados Unidos, e utilizava-o para conversar com o amigo, sem medo de grampos. Segundo um relatório da Polícia Federal, as chamadas contam-se às centenas. Isso e mais um pedido de R$ 3.000 para quitar uma conta de táxi aéreo. Geladeira e fogão são utensílios domésticos. Rádios com misturador de voz para preservar conversas com um contraventor cujas traficâncias haviam derrubado, em 2004, o subchefe da assessoria parlamentar da Casa Civil da Presidência da República, são outra coisa.
Em 2008 (e não em 2009, como o signatário informou no domingo), o senador foi personagem da denúncia de um grampo onde teriam capturado uma conversa sua com o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. A acusação custou o cargo ao diretor da Agência Brasileira de Informações, delegado Paulo Lacerda. Mendes, cuja enteada é hoje funcionária do gabinete do senador, disse na ocasião que o país vivia “um quadro preocupante de crise institucional”.
As investigações da Polícia Federal em torno das atividades de “Carlinhos Cachoeira” haviam começado em 2006. Uma sindicância da Abin e outra da PF não conseguiram chegar à origem do grampo, cujo áudio jamais apareceu. Gilmar Mendes disse, posteriormente, que “se a história não era verdadeira, era extremamente verossímil”.
O futuro do senador Demóstenes está pendurado na distância que separa o verdadeiro do verossímil. O verdadeiro só aparecerá quando ele e a patuleia tiverem acesso a toda a documentação reunida pela Polícia Federal. Nesse sentido, não é saudável que seja submetido à tortura dos vazamentos administrados. (Paulo Lacerda foi detonado por um deles e não se descobriu quem o administrou.) Se o negócio é verossimilhança, o senador está frito.

PATRULHA E CENSURA

Diga qual foi a publicação onde aconteceu isso:
Tendo publicado em seu site uma resenha favorável a um livro, ela foi denunciada pela direção de um partido político e daí resultaram os seguintes acontecimentos:
1) A resenha foi expurgada.
2) O autor do texto foi dispensado.
3) Semanas depois o editor da revista foi demitido.
Isso aconteceu na revista “História”, o livro resenhado foi “A Privataria Tucana”, a denúncia partiu do doutor Sérgio Guerra, presidente do PSDB, o jornalista dispensado foi Celso de Castro Barbosa e o editor demitido foi o historiador Luciano Figueiredo.
Em nove anos de poder, não há registro de que o comissariado petista com suas teorias de intervenção na imprensa tenha conseguido desempenho semelhante.
A revista é editada pela Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional, que pouco tem a ver com a administração da veneranda instituição. No episódio, sua suposta amizade ofendeu a ideia de pluralidade essencial às bibliotecas.
*Elio Gaspari é jornalista.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 8:14

Diretas-já para a OAB

                                                           Elio Gaspari*

           Está na Comissão de Justiça da Câmara um projeto do deputado Hugo Leal (PSC-RJ) que reabre o debate das eleições diretas para a direção nacional da Ordem dos Advogados do Brasil. Ao tempo em que a OAB era presidida por Raymundo Faoro e confundia-se com a luta pelas liberdades democráticas, ela foi para a rua na defesa de eleições diretas para a Presidência da República.
Passados 29 anos do início da campanha das Diretas-Já, a diretoria do Conselho Federal continua a ser escolhida por meio de um sistema no qual 81 conselheiros federais, representando as 27 seções estaduais da Ordem, escolhem a direção do órgão.
Resultado: as seccionais de Roraima e do Amapá, onde há 1.770 advogados, 0,26% de um universo de 696 mil doutores, têm o mesmo peso que as de São Paulo e do Rio, onde há 348 mil eleitores, com 50% da categoria.
O sistema da OAB, como o das indiretas que Faoro e o país combateram, permite que se saiba, com razoável antecipação, quem será seu próximo presidente. Um bom palpite para a eleição de novembro próximo será a escolha do atual secretário-geral, Marcus Vinicius Furtado Coelho.
Pelo ritual de hoje, os advogados de cada Estado elegem diretamente três conselheiros federais, e eles escolhem a diretoria da instituição. A nova diretoria precisa de 42 votos e pode consegui-los nas bancadas de Estados que, juntos, não somam 20% dos advogados com carteirinha da Ordem.
Contra a ideia das diretas circula o mesmo argumento que defendia o sistema da ditadura: se a manada ficar solta, São Paulo e o Rio de Janeiro tomarão conta de tudo. Ele é falso. Parte da premissa de que todos os advogados desses dois Estados votariam na mesma chapa federal. Numa eleição direta, o advogado vota numa chapa para a seccional, mas pode votar em qualquer outra no pleito federal. A última eleição paulista teve quatro chapas na disputa, e a vencedora bateu a segunda colocada por 33 mil votos contra 31 mil.
Hoje a OAB federal e algumas de suas seccionais tornaram-se empreendimentos milionários que mobilizam interesses bem diversos daqueles que levavam Raymundo Faoro a batalhar pelo restabelecimento do habeas corpus.
O Conselho de Ética da seccional paulista absolveu sete advogados acusados de dupla militância com o Primeiro Comando da Capital.
Isso para não falar no vexame do Conselho Federal, que viu rebarbada uma lista sêxtupla de candidatos a uma vaga no Superior Tribunal de Justiça. Um dos indicados pela OAB paulista para o lugar de desembargador havia sido reprovado nove vezes em concursos para juiz de primeira instância. Outro, no Rio, juntara documentos falsos ao seu processo.
Um pedaço da cúpula da Ordem flertou com o sistema de voto de lista proposto no projeto de reforma política do comissariado petista. Em 2007, por pouco a OAB não foi colocada a reboque de um projeto de reformas plebiscitárias concebido no Planalto.
Metendo-se em episódios burlescos que têm mais a ver com a natureza humana do que com a defesa das prerrogativas dos advogados, a OAB arrisca ficar como a Portela: tem um passado cheio de glória, mas desde 1984 não ganha um Carnaval. Eleição direta não melhora desfile de escola de samba, mas pode melhorar a Ordem dos Advogados.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 15 Fevereiro 2012 / 10:08

Os remédios pagaram a lavadora

                                 Elio Gaspari*

     O programa federal de remédios gratuitos para hipertensos e diabéticos que a doutora Dilma botou na rua no ano passado beneficiou 7,8 milhões de pacientes de janeiro de 2011 a janeiro de 2012. É êxito para ninguém botar defeito. Êxito social e êxito administrativo.
Estima-se que no Brasil haja 30 milhões de hipertensos e 10 milhões de diabéticos. Boa parte deles padecem das duas condições e precisam tomar remédios todos os dias.
Tanto a hipertensão como a diabetes são doenças silenciosas. Quando o cidadão vai ao hospital, o estrago já está feito. Sem medicação, pode acontecer-lhe aquilo que sucedeu a d. Pedro 2º, que viveu num tempo em que ela não existia e foi-se embora aos 66 anos.
Desde 2006, o governo federal mantinha uma rede de farmácias, onde os pacientes retiravam medicamentos por 10% do preço. Foi uma das joias da coroa do governo, mas estava mais para turmalina que para esmeralda. Fazia a felicidade dos marqueteiros em ano eleitoral, mas embutia custos da infraestrutura de farmácias, transporte e pessoal.
Em 2011, mudou-se a gestão do programa. Em vez de a Viúva sustentar uma rede de farmácias, ela passou a credenciar as que estão estabelecidas no mercado. A rede expandiu-se, chegando a 781 municípios, com 20.300 estabelecimentos.
O negócio é bom para o freguês, porque agora ele não paga nada. É bom para a farmácia, porque o cliente acaba comprando mais alguma coisa. É bom para os laboratórios porque, vendendo grandes quantidades ao Ministério da Saúde, ganham com a expansão do mercado.
Em 2010, o programa beneficiou 2,8 milhões de pessoas e custou
R$ 203 milhões. Com o novo formato, em 2011 atendeu 7,8 milhões a um custo de R$ 579 milhões.
A iniciativa é economicamente eficiente, para usar uma expressão ao gosto de quem olha para o dinheiro gasto no andar de baixo preocupado com a relação custo/benefício. No ano passado, o SUS teve 11.000 internações a menos por conta de hipertensão de diabetes.
A nova classe C, também chamada de emergente, nada mais é do que a massa de trabalhadores que vivem com orçamento apertado.
Segundo números do Ministério da Saúde, com a gratuidade, o hipertenso que toma dois comprimidos de 50 mg de losartana potássica economizou cerca R$ 452 no ano, levando em conta que ele só pagava 10%. O diabético que não depende de insulina economizou pelo menos R$ 102, e aquele que precisa dela deixou de gastar entre R$ 407 e R$ 1.000.
Frequentemente, a rede de proteção social criada pelos governos é vista como assistencialismo. Um cidadão que trabalha em produção, comércio ou financiamento de mercadorias da linha branca pode ter dificuldade para valorizar o impacto social desses programas. Ele está feliz porque sua empresa vai bem. Ficaria mais satisfeito se relacionasse o seu bem-estar com o dos outros.
A firma vende mais eletrodomésticos porque há mais gente comprando-os e há mais gente comprando-os porque um trabalhador deixou de gastar R$ 452 com remédios e comprou uma máquina de lavar roupa semiautomática.
Num outro exemplo, fora da esfera federal, esse mesmo cidadão, que toma dois ônibus no Rio de Janeiro para ir trabalhar e outros dois para voltar à sua casa, economiza mensalmente a prestação do notebook do filho.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve na ‘Folha’ e no ‘Globo’.

  • Domingo, 12 Fevereiro 2012 / 21:36

General do povo, não

                                                                                   Elio Gaspari*

      No século passado, havia generais de direita e de esquerda, deu em ditadura, assassinatos e tortura
A cena de confraternização do general Gonçalves Dias, comandante da 6ª Região Militar, com os PMs amotinados de Salvador foi constrangedora e impertinente.
Constrangedora porque o general foi aos amotinados, recebeu um bolo de aniversário e abraçou um deles. Esqueceu-se de que estava no comando de uma operação militar. Desde o início do motim, mais de 135 pessoas foram assassinadas em Salvador. A Assembleia Legislativa fora ocupada. Lojas e casas foram saqueadas. O prejuízo do comércio vai a centenas de milhões de reais, e os rebelados cantavam “Ôôô, o Carnaval acabou”.
O general foi impertinente ao dizer o seguinte: “Peço aos senhores: se as pautas que estão sendo discutidas pelos políticos não forem atendidas, vamos voltar a uma negociação. Não poderá haver confronto entre os militares. Eu estarei aqui, bem no meio dos senhores, sem colete”.
A primeira impertinência esteve na afirmação de que “as pautas estão sendo discutidas pelo políticos”. A negociação estava na alçada dos Poderes constituídos, aos quais as Forças Armadas estão subordinadas. A segunda impertinência estava na afirmação de que “não poderá haver confronto entre os militares”. Os PMs amotinados não estavam ali como militares, mas como desordeiros, cabeças-de-ponte de um motim articulado que se estendeu ao Rio de Janeiro. A ideia de que a negociação estava nas mãos dos “políticos” e de que “não poderá haver confronto entre os militares” é subversiva e caquética.
A tropa do Exército é mobilizada para exercer um efeito dissuasório. O discurso do general e a cena do bolo transformaram o poderio militar em alegoria carnavalesca. Se “não poderia haver confronto”, com que autoridade um coronel ordenaria a um capitão que respondesse a uma agressão? (No dia seguinte, no peito, cerca de 50 pessoas furaram o cerco da tropa e juntaram-se ao motim. Na quinta-feira, no Rio, a polícia baixou o pau nos trabalhadores vitimados pela SuperVia.)
No século passado havia os “generais da UDN” e a eles contrapuseram-se os “generais do povo”. Deu no que deu. O tenente que em 1964 comandava os tanques que guarneciam o Palácio Laranjeiras tornou-se um dos “doutores” da Casa da Morte, onde se assassinavam presos políticos. Em 1981, estava no carro que jogou a bomba na casa de força do Riocentro. Outra explodiu antes da hora, matou um sargento e estripou um capitão
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para ‘O Globo’ e a ‘Folha’.

  • Domingo, 05 Fevereiro 2012 / 12:57

Turismo e saúde no Brasil

     Do colunista Elio Gaspari:
     “Fala-se muito da ascensão da classe D aos padrões de consumo da classe C, mas o andar de cima de Pindorama atingiu os padrões de despesa dos bilionários chineses.
Um carioca resolveu passar cinco dias num bom hotel de praia no Nordeste. Pagou US$ 1.100 pela passagem e US$ 5.800 por noite no apartamento, sem café da manhã.
Outro, de Miami, resolveu passar cinco dias em Washington. Pagou US$ 500 pela passagem e US$ 320 por noite num hotel a um quarteirão da Casa Branca, com café.
O carioca de Miami marcou uma consulta (sem qualquer recomendação), com o renomado neurocirurgião Barth Green, entrou no hospital às sete da manhã, passou por uma ressonância magnética, fez oito chapas de raio X, foi examinado por três assistentes e teve uma consulta de uma hora com o médico.
Na saída, quitou a conta e trouxe o recibo para emoldurá-lo: pagou US$ 320, ou R$ 545″.

  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:49

O homem dos Bric está otimista

                                                        Elio Gaspari*

          Para quem não aguenta mais as notícias ruins da economia mundial, apareceu uma voz otimista. É a de Jim O’Neill, o economista da casa bancária Goldman Sachs que, em 2001, cunhou o acrônimo Bric. Ele chamava atenção para a emergência das economias de Brasil, Rússia, Índia e China.
Hoje, acredita que o mundo vive “os primeiros anos de algo que provavelmente será o maior deslocamento de riqueza e das desigualdades de renda da história”. O motor do progresso serão os Bric, mais o grupo dos “Próximos 11″, os “N-11″.
Seu principal argumento é o de que no ano passado a economia mundial crescia a 4% ao ano, contra 3,7% dos 30 anteriores. Numa ponta desse progresso estão os novos ricos. A BMW tem fila de espera na Alemanha porque a fábrica está atendendo pedidos chineses. Na outra ponta, estão centenas de milhões de pessoas que saem da pobreza. Ele estima que em 2025 o Brasil terá mais carros que a Alemanha e o Japão juntos.
Num novo indicador, que reúne variáveis macro e microeconômicas, tais como telefones, internet, computadores, respeito aos contratos, corrupção, estabilidade política, expectativa de vida e educação, em 2010, o Brasil ultrapassou a China e tomou-lhe o primeiro lugar.
O’Neill juntou suas previsões no livro “Growth Map” (“O Mapa do Crescimento – Oportunidades Econômicas nos Brics e Além Deles”, com o e-book a US$ 14,99). Veterano da Goldman Sachs, estava lá em 2002, quando produziu-se na casa o “Lulômetro”, um indicador terrorista que permitia estimar o preço do dólar se Nosso Guia fosse eleito. Passou o tempo e, depois de destacar que o Brasil saiu do atoleiro graças às reformas de Fernando Henrique Cardoso, ele coloca Lula como “o maior político do G20 na primeira década do século”.
O’Neill conta que em 2003, quando esteve em Pindorama, ouviu o seguinte de seu anfitrião: “Você só incluiu o Brasil porque tornava o acrônimo atraente”. Não foi bem assim, uma testemunha do diálogo relembra: “Não sei se foi ele quem disse isso ou se, tendo ouvido o comentário, concordou”. À época, O’Neill teria ficado em dúvida entre o Brasil e o México, mas MRIC soaria como um grunhido. Ele reconhece que o “B” foi “a maior e a mais audaciosa aposta que fiz” e revela ter sido influenciado pela qualidade do futebol brasileiro. (Em 2002, numa brincadeira de futurologia esportiva, O’Neill estimou que o Brasil não chegaria à final da Copa da Ásia.)
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’.

  • Domingo, 22 Janeiro 2012 / 11:51

Obama botou os consulados para trabalhar

                                         Elio Gaspari*

      O companheiro Obama foi à Flórida e anunciou medidas para consertar o sistema inepto e colonial de concessão de vistos para brasileiros que pretendem visitar os Estados Unidos.
Houve época em que se formavam filas no fim da madrugada nas ruas próximas ao consulado americano em São Paulo. Quando Obama esteve em Pindorama, a espera para entregar a papelada era de 134 dias em Brasília, 107 em São Paulo e 105 no Rio.
Quem reclamava era brindado com uma embromatina. Um cônsul que não sabia falar português assinou um texto de quem não sabia escrevê-lo e disse que o número de solicitações “disparou para níveis inaceitáveis”.
Cada freguês paga uma taxa de US$ 140, dinheiro equivalente a 10% do preço de um pacote turístico que inclui passagem, carro e quatro noites num hotel. (Noves fora o custo de uma viagem a Brasília, Rio, São Paulo ou Recife, pois só essas cidades têm consulados.)
O companheiro Obama foi à Disney caçar os votos da Flórida, seguindo o conselho de seu antecessor, Calvin Coolidge (1923-1929): “O negócio dos Estados Unidos são os negócios”.
Com uma taxa de desemprego de 9%, os americanos se deram conta de que aquelas filas que parecem um estorvo são um bálsamo. No ano passado, 1,2 milhão de brasileiros foram aos Estados Unidos e cada um deles gastou, na média,
cerca de US$ 6.000. Deve-se aos brasileiros parte da recuperação do mercado imobiliário de Miami, devastado pela recessão.
Se o companheiro quer acelerar em 40% o tempo para “processar os vistos”, sua fala foi insuficiente, pois, entre a hora em que o cidadão entrega seu passaporte para o “processamento” e o dia em que o recebe com o visto, os consulados informam que se passam entre três e sete dias úteis.
Admitindo-se que ele se refira ao verdadeiro enrosco, que está na espera para marcar o dia da ida ao consulado, e se a sua base for o congestionamento de hoje, até dezembro a demora cairá para 46 dias em São Paulo, três em Recife, 12 em Brasília e oito no Rio. Se a redução for calculada em cima dos períodos de pico, continuarão pipocando esperas de 80 dias. Os consulados do Rio e de São Paulo não têm instalações capazes de atender 80% da demanda com prazos de três semanas, com jornadas de 6h30 de atendimento.
Basta ver que as filas se estendem pela rua, para alegria dos vendedores de guarda-chuvas.
O melhor que o companheiro tem a fazer é mandar reabrir os consulados em Belo Horizonte e Porto Alegre. O serviço exterior americano, como todos os outros, prefere trabalhar no circuito das grifes. Há apenas quatro consulados no Brasil. Na Itália, onde não se emitem vistos de turista, também. Um em Florença, num palazzo de frente para o rio Arno, a poucos passos do Harry’s Bar.
*Elio Gaspari é jornalista e escreve para a ‘Folha’ e ‘O Globo’.

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