• Terça-feira, 17 Abril 2012 / 15:31

CPI do Submundo

                                               Eliane Cantanhêde*

A CPI dos Bingos, de 2005, mirou no que viu e acertou no que não viu. A proposta era rastrear velhas propinas de um bicheiro para Waldomiro Diniz, braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu. A coisa saiu do controle e acabou derrubando o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O relatório da CPI foi aguado, mas o resultado prático, demolidor: dois coelhos (de Lula) com uma cajadada só.
A CPI do Cachoeira vai no mesmo rumo de abrir demais o leque de investigados e de investigações. Ou não dá em nada, ou pode dar grandes sustos. O PT quis, o PMDB deu a maior força, Lula adorou a chance de empurrar os adversários para o banco dos réus e desviar os holofotes do mensalão. Até que Dilma acordou.
Um cacique de oposição ironiza que “CPI, até contra o Santo Sudário, só é boa para a oposição”. Um ministro diz que “CPI só interessa à imprensa”. Outro avisa que “o governo abrange 8,5 milhões de quilômetros quadrados, nunca se sabe o que pode aparecer”. E todos temem o manancial de surpresas da empresa Delta.
Em comum, as CPIs dos Bingos e do Cachoeira têm um nome, um apelido e um método: Carlos Augusto Ramos, empresário, vulgo Carlinhos Cachoeira, bicheiro. Ele foi o foco da primeira e está sendo o da segunda, mas acabou preso pela Polícia Federal. Com um arsenal explosivo.
Todas as atenções estão nas fitas da PF, que tragaram Demóstenes Torres, do DEM, mas há as do próprio Cachoeira, que explodiram Waldomiro e geraram o primeiro escândalo do governo Lula, em 2004. O PT e Lula comemoram o pacote da PF, mas devem se preocupar com o ainda não sabido pacote Cachoeira.
O advogado do bicheiro é o ex-ministro de Lula Márcio Thomaz Bastos. Na dupla condição de defender o réu e evitar que ele saia do controle? A CPI dos Bingos virou a “CPI do fim do mundo”, e a do Cachoeira, a “CPI do submundo” -porque o submundo está em toda parte.
*Eliane Cantanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 16:46

A trinca e o coringa

                                             Eliane Catanhêde*

         O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi salvo na última hora pelo desabamento de prédios no Rio. Não fosse a tragédia, as principais imagens e conversas políticas pelo país afora seriam sobre Kassab levando ovos no dia do aniversário da capital paulista.
Com Kassab virando omelete, o PSDB dividido irrecuperavelmente e Dilma fazendo bonito nas pesquisas, o PT recupera fôlego e sai a galope para a prefeitura, onde joga o seu futuro. Como já dito aqui, se Fernando Haddad -que fez 49 anos- se eleger prefeito da principal capital do país, estará automaticamente na lista de presidenciáveis de 2018.
Quando FHC diz que Aécio Neves é a opção “óbvia” para a Presidência, empurra Aécio para uma arena inglória. Em 2014, será a chance de o PSDB paulista fazer com Aécio o que ele fez com Serra e Alckmin em 2002, 2006 e 2010: jogá-lo aos leões -ou leoas. Dilma não terá mais só a aura de Lula. Tenderá a ter também a sua própria popularidade e, no rastro dela, a união dos governistas.
O jogo que está sendo jogado é, sobretudo, para 2018, com um trio que tem o impulso da renovação natural e se destaca desde já: Aécio pelo PSDB, Haddad pelo PT e Eduardo Campos (PSB) como um pêndulo entre os dois, mas na verdade querendo ele próprio concorrer.
Os três apontam para o futuro da política, mas há diferenças: Aécio é neto de Tancredo, e Campos, de Miguel Arraes. Enquanto eles têm a articulação política no sangue e a liderança nos seus partidos, Haddad tem que comer na mão de Lula, aprender os primeiros passos com Dilma e evitar acidentes “em casa” – no PT.
Kassab circula bem entre PSDB, PSB e PT, como um coringa que pode reforçar a cartada de um dos três. Deve, porém, ajustar sua (ótima) capacidade política e sua (medíocre) popularidade. A questão geracional ajuda a definir o jogo e os jogadores, mas não é o único fator. É apenas uma imposição da política, como da vida.
*Eliane Catanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Sexta-feira, 13 Janeiro 2012 / 9:58

SP: PSDB começa perdendo

                                                         Eliane Catanhêde*
  

     Acabou a solenidade do Minha Casa, Minha Vida, a presidente petista Dilma Rousseff correu para uma conversa de três horas com o padrinho Lula, enquanto o governador tucano Geraldo Alckmin foi trocar ideias com o prefeito Gilberto Kassab.
Os dois movimentos reforçam a polarização PT-PSDB. Apesar das aparências, da convivência cordial de Dilma e Alckmin e da imensa confusão de alianças e de atores na eleição de São Paulo, é um contra o outro. Os demais girando como satélites.
O PT mudou muito, mas é o PT. O PSDB está totalmente rachado, mas é o PSDB.
As duas novidades são a entrada em cena do PSD de Kassab, que oscila entre ambos, e a tentativa do PMDB de lançar a candidatura de Gabriel Chalita para recuperar liderança política em São Paulo.
É por isso que, ao oferecer um nome -qualquer nome- do seu PSD para Lula como vice do petista Fernando Haddad, Kassab confundiu ainda mais o cenário e deixou os dois lados atordoados. Serviu como pausa para pensar.
Se o PT já engoliu a candidatura Haddad só porque Lula quis, é muito difícil assimilar um vice indicado por Kassab. Lula até gostaria de reunir o máximo de forças políticas e isolar os tucanos, mas o prefeito é a alma da campanha petista. Sem Kassab, quem será o alvo? Qual será o discurso?
No caso do PSDB ocorre o mesmo, em sentido contrário. A eleição, a vitória e a gestão de Kassab na prefeitura são indissociáveis dos tucanos, o que vale mais para o ex-governador José Serra, mas vale também para Alckmin, queira ele ou não.
Quem é mesmo o seu vice? Guilherme Afif Domingos, que é do PSD, pré-candidato de Kassab à sua sucessão.
Como, então, o PT poderia usar seus palanques para defender ou no mínimo ignorar Kassab? E como o PSDB poderia se esgoelar para criticar a gestão dele?
O plano A de Kassab segue sendo lançar o cabeça de chapa e ter apoio de Alckmin, que é quem dá as cartas tucanas no Estado e na capital e está atolado em várias candidaturas, três delas de secretários de seu governo. Preferia Bruno Covas, recuou e virou uma esfinge.
Kassab, portanto, é o centro do universo neste momento em São Paulo. Não apenas por ser formalmente o prefeito, mas por aliar índices medíocres de popularidade à capacidade política de criar um novo partido tão eclético e por ameaçar desequilibrar para um lado ou para o outro a polarização PT-PSDB.
O excesso de interrogações ainda é, assim, o forte da campanha paulistana. O que há de concreto é uma transição geracional, com nomes e caras novas, e um novo peso local para Lula. A capital nunca foi seu forte, mas isso parece coisa do passado.
Mais uma vez, o jogo nacional começa a se definir por São Paulo e pela disputa PT-PSDB. E o PSDB parece claramente em desvantagem.
*Eliane Catanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:23

Advogados abandonam Arruda

Da colunista da ‘Folha’, Eliane Catanhede:
“Quatro advogados do governador afastado José Roberto Arruda (sem partido) renunciaram oficialmente ao caso com uma carta de apenas um parágrafo, deixando a defesa integralmente a cargo do escritório de advocacia de Nélio Machado, do Rio. Arruda, que está preso na Polícia Federal desde o dia 11, já assinou ontem o recibo da rescisão do contrato.
Deixaram a causa os advogados José Gerardo Grossi, Nabor Bulhões, Eduardo Alkmin e Eduardo Ferrão, apontados como a elite da advocacia no DF. Ontem, como parte de sua estratégia de defesa, o governador preso disse, por meio de seu advogado, que está disposto a se licenciar do cargo até que terminem as investigações.
Machado disse que ainda não está certo como será essa prorrogação. “Mas conversamos rapidamente sobre isso e ele não contestou”, afirmou. A maior preocupação dos advogados que saíram é evitar a ilação, que dizem ser incorreta, de que estariam abandonando o caso por considerar Arruda culpado. Conforme a Folha apurou, o problema foi incompatibilidade e disputa de espaço com Machado. O desconforto começou na decisão de contratar Machado, quando os outros quatro já atuavam na defesa.
A chegada de mais um advogado, e de fora da capital, foi considerada um “atravessamento”. A partir de então as divergências se aguçaram e se tornaram incontornáveis com a prisão de Arruda decretada pelo ministro Fernando Gonçalves e ratificada pelo Superior Tribunal de Justiça.
Na versão do lado de Nélio Machado, Grossi se dizia amigo de Gonçalves, mineiro como ele, e assegurara que o ministro não decretaria a prisão. Já na apresentação do habeas corpus ao Supremo Tribunal Federal, quem é acusado de errar é Machado, que teria se precipitado para jogar a decisão nas mãos de Marco Aurélio Mello, conhecido como liberal ao livrar réus de prisão preventiva. Desta vez, porém, ele manteve Arruda na cadeia.
Esta “culpa” recaiu sobre Machado, acusado de ter sido “açodado” e de ter entrado com o pedido antes de se reunir com os demais advogados, sem que eles tivessem tomado conhecimento do teor da decisão de Gonçalves e do STJ.
A questão considerada crucial é quanto à necessidade ou não de ouvir a Câmara Legislativa do Distrito Federal para poder prender o governador. Quatro ministros do próprio STJ consideravam que sim, deveria ser consultada. Os advogados de Brasília julgam que isso poderia ter evitado a prisão, mas foi tratado com ligeireza no pedido de Machado -assinado por Grossi “por procuração”, sem que ele concordasse com a medida.
Por isso, houve o pedido de adiamento da votação no STF e a alteração do teor do habeas corpus. Se a votação tivesse sido ontem, Arruda perderia, dizem advogados e ministros”.
O abandono tem toda cara de divergência, mas pode ser também falta de pagamento.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:18

Arruda procurou ministro do STJ

Eliane Catanhede e Lucas Ferraz, da ‘Folha’, entrevistaram o ministro Fernando Gonçalves, que mandou o governador Arruda para a cadeia.
Eis o seu texto:
“Avesso a jornalistas e agora famoso pela prisão preventiva do governador José Roberto Arruda (DF), o ministro Fernando Gonçalves, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), disse que foi procurado por Arruda pessoalmente e pelo governo de Minas Gerais, por telefone, depois de receber o processo da Operação Caixa de Pandora, que estava em segredo de Justiça. “O processo era sigiloso, não sei como vazou”, disse. “Devia ter mais coisa no ar do que avião”, acrescentou à Folha ontem, citando o chefe da Casa Civil de Minas, Danilo de Castro, como autor do telefonema. Ouvido pela Folha, Castro disse que não se lembrava da ligação. Os advogados de Arruda não foram localizados. Gonçalves, que irá se aposentar em abril, quando completa 70 anos, vota em Brasília, afirma que magistrado não decide por clamor da opinião pública e que a prisão de Arruda não foi fácil: “Fiz a contragosto, não foi por prazer”.
- No despacho para prender Arruda, o sr. afirma que a prisão preventiva era “imprescindível”. Por quê?
- Não fiz da minha cabeça, da minha vontade, foi um pedido do procurador-geral da República. Houve apreensão de dinheiro, confissão de quem levava dinheiro, pessoas ligadas ao governador que teriam feito a negociação. A prisão foi para que não se frustasse a instrução criminal.
- O sr. foi implacável?
- Fiz a contragosto, não por prazer. Apesar de a imprensa gostar da decisão de prender, nunca fui de mandar prender.
- E quanto aos vídeos com políticos e empresários recebendo dinheiro?
- Não vi, só na televisão. Tenho a degravação dos áudios, que são de 2006, e isso é suficiente.
- Em sendo da época da campanha, pode ser caixa dois, prática generalizada no país?
- Não diria que só são de campanha, não, porque presume-se que há coisas posteriores. Mas, para mim há uma única expectativa: no dia 20 de abril eu saio.
- E sai com uma vitória de 12 a 2 no plenário do STJ. Isso foi fator condicionante para a decisão do ministro Marco Aurélio Mello (STF) contra o habeas corpus de soltura de Arruda?
- A dúvida foi se era possível fazer a prisão sem a autorização da Câmara Legislativa [do Distrito Federal]. Quatro ministros foram vencidos, houve a votação do mérito e, depois, o ministro Marco Aurélio esclareceu que um dispositivo da Lei Orgânica foi considerado inconstitucional pelo Supremo. Ou seja: não precisa ouvir a Câmara.
- O que o sr. pensou ao receber o pedido de prisão?
- Estou muito calejado, como esses motoristas que dirigem à noite daqui até Belo Horizonte. Não quero dizer que sou uma pessoa fria, e é lógico que você não vai receber um pedido desses prazerosamente, mas cada um tem que cumprir seu dever. Quando tomo uma decisão, me coloco naquele lugar do vencido, não do vencedor. Preferiria que não tivesse caído para mim. Não gosto de ficar exposto.
- O sr. sofreu pressão dos seus conterrâneos? Arruda e Paulo Octávio são mineiros.
- O Arruda veio aqui e pediu para falar comigo, dizia que havia um processo contra ele. Foi logo no início, antes de toda e qualquer providência. Eu o conheço. Ele veio, ficou sentado aí [apontando o sofá]. O processo era sigiloso, não sei como vazou.
- O que o sr. lhe disse?
- Que tinha sido distribuído para mim, que estava tramitando sigilosamente, que não tinha conhecimento dos fatos e que não poderia adiantar nada. O processo tinha sido distribuído, mas não tinha chegado. Não sei se a operação vazou. Devia ter alguma coisa no ar além de avião.
- O Durval Barbosa, delator do mensalão, disse que Arruda iria falar com Aécio para pedir ao sr. que o recebesse. Aécio falou algo?
- A Socorro [secretária do ministro] disse que o chefe da Casa Civil, Danilo de Castro, havia ligado para mim. Mas isso é muito normal. Sou muito amigo dele e do Aecinho, mas nem falei com ele. Quando ele ligou, Arruda já tinha vindo.
- A prisão preventiva de um governador aproxima o Judiciário da opinião pública?
- Não pensei nisso, só fiz o meu papel. Eu não posso deixar a opinião pública me induzir contra a minha consciência. Não à prisão por clamor popular!”

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:18

Governo quer antecipar visita de Obama

Da colunista Eliane Catanhede:
“O governo vai sugerir à secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que o presidente Barack Obama venha ao Brasil ainda neste primeiro semestre, para evitar “contaminação” do processo eleitoral na visita. A eleição é em outubro.
Hillary tem encontro com o chanceler Celso Amorim e o presidente Lula na quarta da semana que vem, em Brasília.
A americana poderá falar sobre a Venezuela, mas outros temas terão destaque: Irã, Haiti e Honduras, além de relações bilaterais. A visita de Hillary tem o objetivo de discutir datas e afunilar a pauta da vinda de Obama. A agenda dela será detalhada na sexta com o subsecretário de Estado para Assuntos Políticos, William Burns.
A questão mais delicada será o Irã. O Brasil investe no diálogo com o regime de Mahmoud Ahmadinejad, e Lula deve viajar a Teerã em 15 de maio.
Os EUA estão no lado oposto, articulando para ampliar sanções ao país, que anunciou o enriquecimento de urânio a 20% e não garante que não irá projetar a bomba atômica.
“A agenda do Brasil é para paz, estabilidade, diálogo e solução diplomática, e nossa ação é transparente”, disse o secretário-geral do Itamaraty, Antonio Patriota, que foi embaixador em Washington, conhece Hillary e tem contato com Burns e o embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon.
Segundo Patriota, a conversa entre Amorim e Hillary deve abordar pontos de vista diferentes quanto “a valor e eficácia” de ampliar as sanções.
No caso de Honduras, Brasília e Washington começam a afunilar posições para a reintegração do país à Organização dos Estados Americanos, de onde foi suspenso após o golpe de 2009 contra Manuel Zelaya.
Brasília admite o reconhecimento ao presidente eleito, Porfírio “Pepe” Lobo, mas conta com o apoio de Washington para colher de Lobo garantias de governo de coalizão, com livre trânsito de Zelaya.
No caso do Haiti, EUA e Brasil tentarão fazer um programa para “projetos estruturantes”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:39

Vannuchi: “Sou fusível removível”

A jornalista Eliane Catanhede, da ‘Folha’, entrevistou o ministro Vannuchi:
“O secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, disse ontem à Folha que é “um fusível removível” no governo e pedirá demissão caso o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos seja alterado para permitir a investigação de militantes da esquerda armada durante a ditadura militar (1964-1985), como exigem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e as Forças Armadas.
“A minha demissão não é problema para o Brasil nem para a República, o que não posso admitir é transformarem o plano num monstrengo político único no planeta, sem respaldo da ONU nem da OEA”, disse.
Ele condena a tentativa de colocarem no mesmo nível torturadores e torturados. Uns agiram ilegalmente, com respaldo do Estado, os outros já foram julgados, presos, desaparecidos e mortos, comparou o secretário, citando o próprio presidente Lula, que foi julgado e condenado a três anos (pena depois revista) por liderar greves no ABC.
Lula volta ao trabalho amanhã espremido entre o amigo e assessor de mais de 30 anos e ministros como Jobim e Reinhold Stephanes (Agricultura), que têm sido críticos ácidos do plano de direitos humanos, ao lado de outros setores, como a Igreja e a imprensa.
Vannuchi aposta que Lula tentará uma opção intermediária: “O presidente Lula é construtor de caminhos de meio termo. Mas, se não for possível, não posso ficar. Vou optar pelo caminho da Dona Lindu [mãe de Lula]: sempre de cabeça erguida”, disse.
Não é a primeira ameaça de demissão no governo por causa do plano. A primeira crise surgiu em dezembro quando os comandantes do Exército, general Enzo Martins Peri, e da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, fizeram a mesma ameaça só que por motivos opostos.
A pressão era para que Lula revogasse trechos do plano que, entre outras coisas, cria uma “comissão da verdade” para apurar torturas. Os militares classificaram o documento como “excessivamente insultuoso, agressivo e revanchista” às Forças Armadas.
Ficando ou saindo, Vannuchi diz que o saldo do plano já é amplamente positivo, “porque provocou um intenso debate interno sobre Direitos Humanos, abarcando as posições dos mais diferentes setores. Que sejam necessários ajustes, não me oponho, mas há limites”.
Segundo ele, “as críticas são desproporcionais e baseadas em interpretações equivocadas”. Na sua opinião, o plano “não é uma peça da esquerda radical, é uma construção que, eventualmente, contém imperfeições e até erros, mas fundamentada em elementos essenciais da democracia”.
Um dos equívocos que aponta foi cometido, segundo ele, por Stephanes e pela senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura. Para Vannuchi, “não é possível ser contra o agronegócio, como eles dizem, mas é preciso garantir que não oprima, não viole, não asfixie a agricultura familiar e o médio produtor”.
Nos itens sobre a descriminalização do aborto, ele admite mudanças para deixar o texto mais aberto, menos específico. Esse é um ponto nevrálgico, porque produziu uma reação firme da Igreja, aliada da causa dos Direitos Humanos.
O centro da discussão, porém, está na questão militar. Vannuchi e Jobim concordam num ponto: o plano não propõe o fim da Lei da Anistia, tanto que o item dois do capítulo 6 cita a lei, reconhecendo, portanto, sua legitimidade. “Pena que cita o número e a data da lei, e as pessoas não reconheceram ali a Lei da Anistia”, disse Vannuchi.
Ele passou ontem pelo menos duas horas, lendo tanto as críticas que se avolumam nos jornais quanto o próprio texto, para fazer uma autocrítica: “Estou revendo ponto por ponto, com reflexão, com humildade, mas a decisão é do presidente Lula”.
De férias numa praia, Vannuchi aguarda a convocação do presidente a qualquer momento para debate o plano. É possível que isso ocorra simultaneamente ou logo depois da reunião de Lula com Jobim para o debate do plano. A tensão é nítida dos dois lados”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:32

Todos perguntam: onde estava Wally?

Da jornalista Eliane Catanhede hoje, na ‘Folha’, sobre a tragédia de Angra:
“Tragédias assim têm causas naturais, sim, mas têm também a enorme responsabilidade do poder público e o empurrão da imprevidência, da ganância ou da simples ignorância. E deixam um grito e um eco: prevenir, prevenir, prevenir. Porque, no ano que vem, tem mais”.
E para finalizar:
“PS – Onde estava Sérgio Cabral?
O candidato de fato à reeleição é o vice, Luiz Fernando Pezão?”

  • Segunda-feira, 17 Maio 2010 / 4:09

General merece ir para cadeia

Os repórteres Lucas Ferraz e Eliane Catanhede, da ‘Folha’,  publicam hoje uma entrevista com o general Maynard Marques Santa Rosa, ex-diretor do Departamento de Pessoal do Exército, exonerado em fevereiro.
Ele diz que Lula quer implantar “uma ditadura totalitária comunista” e o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos é parte dessa estratégia. Garante que ninguém foi torturado no país e a imprensa foi livre durante a ditadura.
A entrevista mostra como ainda existem brucutus soltos por aí.
Espera-se que, durante o dia, o ministro da Defesa exija do comandante do Exército a prisão do general. Mesmo de pijama.
Eis a entrevista:
- Qual é sua opinião sobre o governo Lula?
- Acho o presidente uma pessoa simpática, tem empatia com o público e sensibilidade em detectar os anseios da massa. O que é diferente da linha governamental que ele segue. Está rodeado de pessoas impregnadas de preconceito e ideologia. O governo tem várias caras. Ideologicamente, é intolerante, autoritário. Para ser mais preciso, tem anseio totalitário.
- O Lula?
- O governo. O presidente, não. Não sei se ele é usado ou se ele usa esse grupo para promover seus interesses.
- O que caracteriza o autoritarismo do governo?
- A intolerância com opiniões contrárias. Quem examinar o Programa Nacional de Direitos Humanos vai interpretar o que digo. Aquilo é um tratado ideológico de extrema intolerância, onde se pretende regular uma sociedade inteira. Adota o tal princípio da transversalidade. Na medida em que se têm intenções que transcendem Legislativo e Judiciário, são pretensões que transcendem até preceitos da Constituição, portanto, totalitárias.
- Em que parte o 3º PNDH transcende Legislativo e Judiciário?
- Quando propõe a institucionalização de mecanismos ilegais. Ingerir no processo judicial de reintegração de posse transcende a lei e na estimulação da degradação dos costumes à revelia da tradição cristã que temos, ao estimular a homoafetividade.
- Totalitarismo não é o contrário, exigir que todos tenham o mesmo comportamento?
- Querer consertar isso com outra penada mais totalitária é que é o erro. Temos de deixar fluir a natureza, inclusive nas relações sociais.
- Os dois planos elaborados no governo FHC já não continham basicamente os mesmos pontos.
- O primeiro plano não choca ninguém. Embora tenha bandeiras polêmicas, obedece ao princípio da naturalidade, não faz a sociedade civil engolir pontos que não lhe pertencem, diferentemente do de agora, fabricado de fora.
- De fora? De onde?
- Se você pesquisar a similitude entre a Constituição venezuelana, e também a equatoriana e a boliviana, que são clones adaptados aos seus países, vai verificar qual é a origem. Isso tudo é uma composição organizada, é uma conspiração internacional.
- Durante seus 49 anos no Exército, o sr. conheceu muitos gays nas Forças Armadas?
- Não, existe uma rejeição inata da estrutura militar contra isso. O problema é que existe uma articulação, no sentido de transformar a sociedade, colocar uma nova cultura goela abaixo na classe média, e isso é apenas uma fase preliminar para depois se implementar o que se quiser.
- E o que se quer?
- Uma ditadura totalitária.
- Comunista?
- Exatamente. Primeiro, transformar os costumes da sociedade, para, por último, implementar o sistema totalitário. Falar isso no século 21 é quase uma aberração.
- Após 21 anos de ditadura, a democracia não é irreversível?
- Não acho. O povo não reage, está numa situação letárgica. Nosso povo não tem opinião, e quem tem se cala. Estamos anestesiados.
- No seu e-mail contra o plano não havia nada disso.
- O nosso foco era a defesa da instituição militar.
- Nosso? De quem?
- Meu. O foco militar era porque, se se conseguisse abrir a Comissão da Verdade, o resto seria facilmente alastrado. Houve uma reação institucional à qual até o próprio ministro [Nelson Jobim] aderiu, reconhecendo que iria causar uma desarmonia grande. Então, ele contrapôs aquele protesto que levou o presidente a flexibilizar a redação do plano.
- Que nota o sr. dá para o ministro Nelson Jobim?
- Para o momento, é o melhor que se tem. É preparado, foi ministro do STF, da Justiça, tem relacionamentos de alto nível e é inteligente. O Ministério da Defesa é uma necessidade, faz parte da modernidade do Estado.
- Como o sr. define o regime de 1964?
- Um regime emergencial, um mal que livrou o país de um mal maior.
- E a tortura?
- Nunca foi institucionalizada, é um subproduto do conflito. A tortura começou com os chamados subversivos. Inúmeros foram justiçados e torturados por eles próprios, porque queriam mudar de opinião. A tortura nunca foi oficial.
- O sr. critica que o plano está transportando para o país um regime autoritário, mas não foi justamente o de 1964?
- Foi autoritário, mas não totalitário.
- Qual é a diferença?
- A imprensa, por exemplo, foi amplamente livre.
- Como?!
- Só teve censura no momento de pico, a partir do AI-5 [1968]. Se não houvesse um enrijecimento político naquela oportunidade, poderia se perder o controle. Considero isso tudo um mal, mas um mal menor e necessário.
- O sr. aceita um militar torturando uma pessoa indefesa, um jovem, uma mulher, desarmados?
- Nenhum militar torturou ninguém. Se houve, foi no Dops [Departamento de Ordem Política e Social, oficialmente vinculado à polícia].
- Não é covardia matar pessoas e torturar rapazes e moças, algumas grávidas, depois de presas?
- Sinceramente, não sei de nenhum caso. O que existe é produto de imaginação.
- O sr. tem dúvida? A própria ex-ministra Dilma Rousseff foi presa e torturada.
- Ela diz que foi torturada, mas… Só no Brasil, a pessoa que sobrevive, e está com boa saúde, alega a tortura para ganhar os benefícios, sejam políticos ou de pensão.
- É mentira que houve tortura?
- Com certeza absoluta. Vocês conhecem algum ex-torturado cubano? Ou russo? Ou chinês? Não existe, porque não se deixava sair [da prisão]. Então foi a bondade, entre aspas, dos torturadores que permitiram que saíssem [no Brasil]. Institucionalmente, legalmente, não houve [tortura]. Não posso afirmar que, fora do controle, não tenha havido.
- Não é justo, portanto, ter uma Comissão da Verdade para apurar se houve ou não houve?
- Seria justo se os dois lados dissessem a verdade. Se você perguntar a Dilma Rousseff quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou…
- Até onde se sabe, ela não matou ninguém.
- É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima.
- Qual é a sua opinião sobre José Serra? Ele foi presidente da UNE, exilado no Chile…
- É um administrador competente, um gestor público excelente, tanto que, se voltar para São Paulo, se reelege. Mas eu estou me atendo ao produto do trabalho dele.
- E a Marina Silva?
- Tem uma visão da Amazônia igual à da Fundação Ford, igual à dos americanos. É uma visão internacionalista.
- O sr. vota em quem?
- Na Dilma não voto de jeito nenhum, mas não é fácil engolir o Serra.

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