• Quarta-feira, 28 Março 2012 / 17:44

Serra candidato

                                                                        Marcos Coimbra*

                O PSDB paulista poderia ter comemorado no último domingo um grande dia. Um dia de olhar para a frente e se renovar. Poderia.
Mas foi um domingo sem brilho, em que velhos personagens encenaram uma antiga história. Ao invés de rejuvenescer, a seção paulista do partido reenvelheceu. A vitória de Serra na prévia tucana foi a derrota da mudança — por mais que alguns tenham tentado fazer do limão uma limonada, apregoando que suas correntes saíram dela unificadas.
No terreno do realismo político, não haveria por que lamentar o ocorrido. Suas lideranças são adultas e sabem o que fazem — ou deveriam sabê-lo. Se é assim que querem ser, que o sejam.
Para quem olha o sistema político brasileiro de fora, no entanto, o episódio é de lamentar. Ele ilustra a imensa dificuldade que nossos partidos têm de passar de instituições fechadas a abertas. De evoluir de organizações de quadros para organizações de massa, na consagrada terminologia de Maurice Duverger.
Chegou a parecer que o PSDB paulista teria a coragem de fazer a transição. Até o início do ano, tudo indicava que era para valer o desejo de reinventar-se.
Quatro pretendentes ofereceram o nome e entraram em campo. Arregaçaram as mangas e foram fazer campanha, percorrendo bairros e comparecendo a debates com apoiadores e militantes, alguns de intensa participação.
Pela primeira vez, o PSDB estava a caminho de prévias partidárias em uma eleição grande, de importância nacional. Não que nunca tivesse realizado alguma, mas não de tal significado.
O que acontecia era a realização de algo que, até então, os tucanos apenas imaginavam. Quando, por exemplo, em 2009, Aécio sugeriu que o partido escolhesse o candidato a presidente por meio de prévias, todos sabiam que a proposta era inexequível — ele incluído. O PSDB não tinha condições operacionais de realizá-las em âmbito nacional, pela simples razão de que não dispunha de instrumentos para fazê-las nos estados e em quase nenhum município.
Se tivesse avançado, o processo paulista deste ano seria um marco na história do partido. Depois dele, seria difícil evitar que surgissem pré-candidatos “independentes” — isto é, não ungidos pelos líderes — e que as bases partidárias — mesmo que não sejam lá tão grandes — quisessem ser ouvidas na escolha de candidatos a qualquer cargo.
Mas, movidos, pela enésima vez, pela sua peculiar maneira de ler as pesquisas de intenção de voto — em que o que importa é de quanto parte um candidato e não aonde pode chegar —, os próceres peessedebistas não admitiram que o processo fosse adiante. Na última hora, melaram o jogo e resolveram que o candidato seria Serra.
Bem que eles — a começar pelo próprio — preferiam cancelar as prévias, marcadas para dias depois do “lançamento” da candidatura. Mas seria traumático demais para aqueles que haviam acreditado nelas, que ficariam com cara de bobo. Foram apenas adiadas, dando tempo ao candidato para que reunisse apoio entre os filiados.
Domingo, Serra teve a vitória mais pífia de sua carreira: o comparecimento foi decepcionante e sua votação, surpreendentemente baixa. Ganhou de José Aníbal por pouco mais de mil votos.
Mais relevante, porém, é a marcha ré que levou ao resultado — e que o explica. Na hora em que as portas estavam abertas para que o PSDB deixasse de ser um típico partido de quadros, recuou.
Parece que os tucanos não aprendem a lição: o PT só é o que é por ser um partido. De verdade, e não uma agremiação de notáveis — que há tempo deixaram de ser fortes.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Segunda-feira, 26 Março 2012 / 9:22

José Serra divide o PSDB

    José Serra teve vitória magra nas prévia do PSDB em São Paulo: 52%.
Seus companheiros esperavam que ele tivesse um mínimo de 60% dos votos, sendo que algumas chegaram a arriscar 80%.
O partido vai para as urnas dividido, embora ele continue sendo o candidato mais forte á sucessão do prefeito do prefeito Gilberto Kassab.

  • Domingo, 25 Março 2012 / 9:02

Quem fala demais…

                                                     Marcos Coimbra*
          O ex-governador José Serra é um homem de declarações polêmicas. Não era. Mas tornou-se.
Sua marca mais notável sempre foi a discrição. Fazia questão de estar sério, a ponto de muitos o considerarem excessivamente fechado. Para dizer o mínimo.
Essa sisudez ajudava a preservar a imagem de alguém de tal maneira voltado para as obrigações que não lhe sobrava tempo para amabilidades. Um obcecado pelo trabalho. Uma máquina competente, que varava madrugadas debruçado sobre estudos e relatórios, impaciente com tudo que o desviava deles.
Quem se apresentava assim não podia se deixar levar pela língua. Quanto menos cedesse aos apelos para se pronunciar, melhor. Evitava os riscos em que incorrem os que não conseguem calar-se.
Agora, não. Volta e meia, emite juízos inusitados. Fala coisas sem pensar.
É possível que esteja assim pelo desconforto de ter que fazer o que não queria. A candidatura a prefeito de São Paulo, além de desviá-lo da rota que havia traçado para seu futuro, revelou-se uma dor de cabeça.
Hoje, deve vencer as prévias partidárias a que, a contragosto, teve que se submeter. Mas a candidatura, lançada para aglutinar o PSDB da cidade, ficou longe de consegui-lo.
Um levantamento feito, semana passada, entre presidentes de diretórios zonais do partido, mostrou o tamanho da resistência a seu nome: 51 foram consultados — de um total de 58 — e apenas 20 disseram que votariam nele.
Seja causado por esses novos ou por antigos dissabores, o fato é que tem dito coisas que, nos bons tempos, não se ouviam dele.
Como a respeito do compromisso de não deixar a prefeitura, assumido de livre e espontânea vontade durante a campanha de 2004. Ao longo dela, em diversas oportunidades, assegurou que não sairia — chegando a afirmar que só não completaria o mandato se “Deus me tirar a vida”. Até assinou um “papelzinho” com esse teor.
Agora, diz que o compromisso era não disputar a Presidência em 2006, e que o teria honrado. Ou seja, largar a prefeitura para concorrer ao governo do estado não representaria quebra de palavra.
Seria bonito se fosse verdade, mas ele se esquece que, no mundo de hoje, é fácil ter acesso às imagens da época. Nelas, aparece garantindo que não sairia em nenhuma hipótese.
Não é inteligente evitar ser considerado pouco verdadeiro com outra inverdade. Não parece coisa de Serra.
E o que pensar de sua declaração de que “em matéria de parceria, o parceiro fundamental da prefeitura é o estado e não a União”, que contraria tudo que sabemos sobre a concentração de recursos e poderes na esfera federal?
À primeira vista, parece um modo habilidoso de sugerir que a ligação de Fernando Haddad com Dilma é pouco importante para a cidade e que a dele com Alckmin é que é “fundamental”. Mas o que faz é jogar no colo dos governadores tucanos — que, ele incluído, se sucedem no Palácio dos Bandeirantes desde 1994 — a responsabilidade pelo que falta na capital.
Mas nenhuma de suas recentes declarações é tão sem sentido quanto a de que “o governador de São Paulo é um prefeitão”. O que será que imagina?
Que Alckmin é um prefeitão? Ou que Mário Covas e Franco Montoro foram prefeitões, para ficar com dois correligionários? Que ele mesmo foi, à frente do governo do mais rico estado brasileiro, apenas um prefeitão da capital? Que o papel nacional do governador de São Paulo é de prefeitão?
Falando coisas desse tipo, vê-se que Serra não atravessa mesmo uma boa fase.
Vamos aguardar seus pronunciamentos, agora como candidato oficial ao posto que não desejava. Promete.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Domingo, 04 Março 2012 / 10:27

Nacionalizando São Paulo

                                       Marcos Coimbra*
          Chega a ser comovente a satisfação com que alguns setores da sociedade paulista receberam a decisão de Serra de disputar as eleições este ano. Desde o dia em que ele fez o anúncio, estão em êxtase.
Foi nítido o aplauso de alguns veículos da grande imprensa da cidade. Editoriais e colunistas celebraram o gesto “de estadista” do ex-governador, com o entusiasmo de quem noticia um fato de importância capital para o Brasil.
Na internet, seja nos blogs da direita, seja nas manifestações “espontâneas”, viu-se um clima que misturava júbilo e animosidade. Vinha daqueles que se sentiam-se órfãos de uma candidatura que “enfrentasse” o “lulopetismo”. Ficaram felizes quando seu campeão se dispôs a entrar no páreo.
Serra — não fosse ele quem é — parece estar se sentindo bem no papel que lhe está sendo oferecido. Tudo que mais quer é (re)assumir o posto de “líder nacional que luta contra Lula e o PT”.
É como se o passado recente, o presente e o futuro se entrelaçassem em uma só história. Nela, 2012 é apenas uma etapa — em si desimportante — no meio do caminho entre 2010 e 2014.
No discurso em que comunicou a decisão de concorrer, Serra foi explícito: seria candidato para, eleito, impedir, com o “peso e a importância que tem São Paulo”, o “avanço da hegemonia de uma força política no país”, assim solucionando os “dissabores que o processo democrático tem enfrentado” (seja lá o que chama de “dissabor”).
A proclamação de que entrou na disputa para “conter o avanço do PT” foi logo recompensada. No dia seguinte, o maior jornal conservador da cidade saudou a “federalização” da eleição, dizendo que o gesto de Serra “reanima (sic) a possibilidade (…) de existência de uma alternativa ao lulopetismo no comando dos destinos nacionais”. Para o ex-governador, rasgou seda: “José Serra cria um fato político que transcende os limites do município”.
Enquanto prosperava essa troca de amabilidades sob a luz dos holofotes, nos desvãos da internet o tom era mais pesado, ainda que com conteúdo semelhante. Depois de meses amuados, também os ciber-brucutus do serrismo se sentiram “reanimados” pela perspectiva de derrotar os adversários. Os radicais se alvoroçaram.
Parece perfeito: um político que se oferece para fazer aquilo que um segmento da sociedade almeja e diz o que essas pessoas querem ouvir. Serra deseja ser candidato para derrotar o “lulopetismo” e há quem torça para que a eleição de São Paulo seja isso. Qual o problema?
O problema é que nem ele, nem seus amigos veem a eleição de prefeito como um fim (mas os eleitores sim).
Ou faria sentido “enfrentar o lulopetismo” tomando conta da prefeitura? Administrando a Guarda Municipal, a merenda escolar, o transporte público? Lidando com camelôs e perueiros? Distribuindo uniformes escolares? Tentando acabar com os congestionamentos no trânsito? Construindo piscinões?
Pode haver — e há — quem queira ver sangue no embate PSDB vs. PT. A dúvida é se o ringue apropriado é uma prefeitura — mesmo a de São Paulo, que é, apenas, maior que as outras.
Na hora em que a campanha levar o ex-governador ao Jardim Elba, em Sapopemba, o que ele vai dizer aos moradores? Que vai conter o “avanço do PT”? Como? Brigando com o governo federal, com Dilma e seus programas?
Ou vai fazer como em 2010, prometendo que manterá e melhorará iniciativas como o Bolsa-Família, o Prouni, o Minha Casa, Minha Vida? Que vai fazer tudo aquilo com que Fernando Haddad se comprometerá, só que com mais “competência”, pois tem mais “experiência”?
E na hora em que seu vigor anti-lulopetista arrefecer? Na hora em que voltar a ser o Serra de 2010, o “Zé que vai continuar a obra do Lula”?
Só há um jeito de Serra manter a contundência oposicionista que tanto agrada a seus amigos: convencer-se de que a eleição está perdida. Só nessa hipótese será coerente com o que esperam dele.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quinta-feira, 01 Março 2012 / 16:36

Uma vela para Deus, outra…

                                                                                 Eliane Cantanhêde*

          Ao nomear Marcelo Crivella para o Ministério da Pesca, a presidente Dilma Rousseff tenta matar dois coelhos com uma cajadada só, ou melhor, com uma canetada só. Quer satisfazer o PRB e, ao mesmo tempo, acalmar os evangélicos, de olho no Congresso e na eleição para a Prefeitura de São Paulo.
Crivella é senador do PRB, partido que não tinha nenhum ministério até agora, coitado, e tem um nome para a prefeitura, Celso Russomanno, que lidera as pesquisas e pode tirar votos do candidato do PT, Fernando Haddad. Uma coisa -o ministério- pode compensar a outra -o fim da candidatura de Russomanno.
Mais que isso, Crivella é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e influente integrante da chamada “bancada evangélica”, que anda de mau humor com o Planalto e com Haddad por erros e por acertos do governo: a nomeação da ministra Eleonora Menicucci (Mulheres), defensora assumida do aborto; a convocação do ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) para que as esquerdas travem uma “disputa ideológica” com as igrejas pela “nova classe média”; e o kit anti-homofobia do MEC à época de Haddad.
Colocados os dados políticos da escolha de Crivella, vem a pergunta que não quer calar: o que o senador evangélico entende de pesca?
Provavelmente, nada, o que não é nem mais nem menos do que seus antecessores no governo Dilma, os petistas Luiz Sérgio, que conseguiu a proeza de pescar duas demissões num único governo, e Ideli Salvatti, que virou ministra da articulação política e foi jogar o arrastão em águas mais profundas -no Congresso.
Essas escolhas apenas comprovam que o Ministério da Pesca é uma abstração e foi criado exatamente para isso: acomodar interesses e aliados políticos, além de justificar uma penca de emendas parlamentares. Poderia ser o ministério do frango, da soja, do gado de corte, do gado leiteiro, quem sabe das almas?
*Eliane Cantanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 8:28

De volta ao passado

                 Marcos Coimbra*

      Depois de um longo percurso, do qual parecia que sairia mudado, o PSDB de São Paulo acabou no mesmo lugar. Com o anúncio de que José Serra disputará a eleição de prefeito da capital este ano, o partido voltou à estaca zero.
Nada de prévias, nada de renovação, nada de formar quadros para o futuro. Se o ex-governador mantiver a disposição de hoje — o que, com ele, nunca é certo —, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes.
Para Serra, é a quarta tentativa de chegar à prefeitura da cidade e a oitava eleição majoritária desde 1988. Dessas, venceu três — o que não chega a configurar uma carreira de vitórias.
Pela enésima vez, o PSDB torna as pesquisas de intenção de voto seu critério fundamental de decisão. É como se a coisa mais importante do mundo fosse a posição dos candidatos na “corrida”.
Não deixa de ser curioso que um partido tão cheio de sociólogos e cientistas políticos — que deveriam saber avaliá-las — se comporte dessa maneira. Mais do que ninguém, têm a obrigação de conhecer os alcances e limitações de pesquisas desse tipo e a esta distância da eleição.
Pelo que estávamos vendo nas últimas semanas, uma parte do tucanato sofreu um ataque de pânico pré-eleitoral. Imaginaram que seriam derrotados, no primeiro turno, por Fernando Haddad.
Outra coisa engraçada: com toda razão, não se preocuparam com a posição de Haddad nas pesquisas de agora. O que os interessava era onde poderia chegar.
Se tinha 4% ou 5%, não importava. Por ser bom candidato, porque deverá fazer boa campanha e, especialmente, por contar com o apoio de Lula e Dilma, apostaram no seu crescimento.
Mas não raciocinaram assim em relação a seus pré-candidatos. Talvez por não acreditar no potencial de nenhum e não levar fé na influência de seus líderes, enxergaram somente que os quatro estavam “mal” nas pesquisas — embora empatados com o candidato do PT.
Não foi difícil obter de Serra que se desdissesse. Sua jura de que não seria candidato tinha o valor de outras coisas com as quais havia se comprometido no passado.
É lógico que aceda ao “apelo dos correligionários”. Depois do que dele andou falando, FHC e em meio a denúncias cada vez mais fortes de seus adversários, participar da eleição, mesmo que para perder, é positivo.
Contando com a simpatia quase unânime das grandes corporações da mídia, ele será mais bem tratado que o petista. De agora a outubro, terá oito meses de visibilidade, com a imensa exposição que apenas as eleições de prefeito oferecem aos candidatos, dadas as peculiaridades de nossa legislação eleitoral.
Melhor que a penumbra a que estava condenado a partir do momento em que Aécio foi sagrado “candidato óbvio” das oposições em 2014.
As pesquisas foram, outra vez, soberanas no ninho tucano, mas devem ser olhadas com atenção, antes de fazer planos para os próximos anos levando em conta que Serra ganhará.
Sem Marta, ele, de fato, lidera. Mas alcança uma vantagem diminuta para alguém com seu currículo: com 20%, conhecido por quase 100% dos eleitores e sendo o mais rejeitado, quanto conseguirá crescer – considerando que, com o que obtém hoje, não vai a lugar nenhum?
Seus amigos comemoraram que Kassab resolveu apoiá-lo. O problema é que isso faz com que ele se torne o “candidato óbvio” da continuidade de uma administração que vai (muito) mal.
É evidente que pode vencer. Haddad e Chalita são políticos jovens, menos conhecidos, e ele talvez receba o voto do eleitor despolitizado e desinteressado, para quem é mais cômodo votar em nomes familiares.
Não é isso, no entanto, que indicam as pesquisas. O petista e o peemedebista possuem larga perspectiva de crescimento, mesmo no eleitorado conservador, o atual bastião do serrismo.
Para ele — que não tem, a esta altura, nada a perder —, o resultado disso tudo pode não ser ruim. Para o PSDB, no entanto, é pouco provável que seja bom. Vencendo, nem Aécio, nem Alckmin terão um aliado sincero na prefeitura de São Paulo. Perdendo, o partido permanecerá sem opções para os próximos anos”.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 8:24

Serra acha que futuro do país depende de sua vitória

     Da repórter Daniela Lima, da ‘Folha’:
     ”O ex-governador José Serra (PSDB) afirmou ontem que entrou na corrida à Prefeitura de São Paulo para deter o avanço do PT como força hegemônica na política nacional e disse que o futuro do país depende do resultado da eleição deste ano na capital.
Numa carta em que formalizou para o PSDB seu desejo de concorrer à prefeitura, Serra disse que decidiu se candidatar depois de refletir sobre o “avanço da hegemonia de uma força política” e definiu a eleição em São Paulo como um embate entre “duas visões distintas de Brasil”.
“Duas visões distintas de administração dos bens coletivos, duas visões distintas de democracia, duas visões distintas de respeito aos valores republicanos”, escreveu.
Serra e os tucanos estão preocupados com a possibilidade de isolamento do PSDB se o PT vencer a eleição municipal em São Paulo.
Por indicação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT lançou o ex-ministro da Educação Fernando Haddad como candidato a prefeito. De perfil moderado, Haddad é a aposta dos petistas para conquistar o eleitorado paulistano e tirar a prefeitura da órbita do PSDB.
A vitória na capital, onde eleitores mais conservadores sempre rejeitaram candidatos petistas, seria um passo importante para o PT, que há 18 anos tenta tirar os tucanos do governo do Estado.
Para fortalecer a campanha de Haddad, Lula tentou replicar a estratégia que levou à eleição de sua sucessora, a presidente Dilma Rousseff, em 2010, construindo um amplo arco de alianças em torno de seu candidato, e procurando o prefeito Gilberto Kassab para negociar a adesão de seu partido, o PSD.
O namoro de Kassab com o PT contribuiu para a decisão de Serra de entrar na disputa municipal. O ex-governador avaliou a aproximação entre o prefeito -seu afilhado político- e Lula como “um desastre” para o futuro da oposição em São Paulo.
A aproximação de Lula e Kassab poderia resultar numa aliança entre o PT e o PSD no plano nacional, o que liquidaria as chance de manter o prefeito no alcance da oposição e do próprio Serra.
A partir daí, o tucano passou a reconsiderar sua candidatura a prefeito. Kassab abandonou as negociações com o PT e declarou apoio à candidatura de Serra.
Em visita a obras em Pernambuco, a presidente Dilma Rousseff indicou que prefere se manter distante da disputa eleitoral. “Sou presidente da República, não sou prefeita de São Paulo nem tenho nenhum pronunciamento a fazer a esse respeito”, afirmou, questionada sobre o cenário em São Paulo. “Essa é uma questão que tem que ser tratada a nível municipal”.
Com a carta entregue ontem, Serra oficializou sua inscrição nas prévias convocadas pelo PSDB para definir seu candidato. Ele disputará a preferência dos militantes do partido com o secretário José Aníbal (Energia) e o deputado Ricardo Trípoli.
Após receber a carta de Serra, a executiva municipal do PSDB se reuniu para adiar as prévias para o dia 25 de março. Elas estavam marcadas para o dia 4, mas, com suporte do governador Geraldo Alckmin, o grupo serrista conseguiu mudar a data para que Serra tenha tempo de se incorporar ao processo.
A reunião foi tensa e dirigentes do PSDB ligados Aníbal e Trípoli acusaram Serra de “rachar” o partido. Após o embate, o presidente da executiva, Júlio Semeghini, admitiu que será preciso “reconstruir a unidade” da sigla”.

  • Quarta-feira, 29 Fevereiro 2012 / 8:17

PR pode lançar Tiririca em SP

     Do repórter Eduardo Bresciani, do ‘Estadão’:
     “Na tentativa de aumentar o valor de face do partido, o PR decidiu dar ao deputado federal Tiririca (PR-SP) o status de pré-candidato a prefeito de São Paulo. A manobra atende a vários objetivos da legenda, como a retomada de um lugar no primeiro escalão do governo Dilma Rousseff.
Até agora, praticamente todos os partidos com alguma representativa no Congresso já anunciaram a disposição de ter candidatos próprios a prefeito de São Paulo, como PP, PTB, PDT, PPS, PC do B e PMDB, além de petistas e tucanos.
O atual ministro do Transporte, Paulo Sérgio Passos, é filiado ao PR, mas não tem respaldo da cúpula do partido. Sondado durante o carnaval, Tiririca já avisou que aceita a missão e em conversa ontem com o Estado colocou a melhora do transporte público como uma prioridade dos paulistanos.
Além dos objetivos no curto prazo, dentro da legenda há quem defenda que uma candidatura de Tiririca teria o efeito de manter o PR alinhado com o PT no cenário nacional sem se afastar do PSDB no Estado. Dessa forma, o partido teria peso importante em um eventual segundo turno em São Paulo entre petistas e tucanos na capital.
Outra aposta é que, tendo o artista à frente do partido, seria possível ampliar a bancada de vereadores, atualmente com cinco representantes na Câmara.
Tiririca teve 1,3 milhão de votos, sendo o deputado federal mais votado do País em 2010. Sua campanha tinha o deboche como slogan: “Pior do que está não fica”. Com sua votação, ajudou a coligação de que fazia parte a eleger outros três parlamentares para a Câmara.
O responsável pela entrada do palhaço na política foi Valdemar da Costa Neto (PR-SP), um dos réus no processo do mensalão em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). A nova investida também tem a mesma origem. Foi Valdemar quem ligou para o colega durante o Carnaval para propor a candidatura.
“Eu estava no interior do Rio no Carnaval, e ele (Valdemar) me ligou dizendo que tinham muitos pedidos de eleitores para que eu fosse candidato a prefeito”, contou o deputado. “Não era uma coisa que eu pensava. Foi o partido que me procurou, mas, se o povo quiser, eu vou”.
Tiririca mora em São Paulo desde 2006 e diz ser o principal problema da cidade o “trânsito maluco”.
Na Câmara a atuação do parlamentar é discreta, apesar de ele estar sempre presente em plenário e na comissão de Educação e Cultura.
Até hoje nunca subiu à tribuna do plenário para fazer qualquer pronunciamento. Comedido nas conversas com a imprensa ressalta não estar na política para fazer “palhaçada”.
Vislumbrando um possível debate na televisão com o ex-governador José Serra (PSDB) e o ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT) o artista não se acanha. “Eles são muito inteligentes, mas eu vou falar da minha maneira. Eu sei das dificuldades do povo mais do que ninguém.”

  • Domingo, 12 Fevereiro 2012 / 21:38

Prévias tucanas em São Paulo

                                                                          Marcos Coimbra*
       As prévias partidárias estão na moda. Nos Estados Unidos, os pré-candidatos a presidente do Partido Republicano se engalfinham. No Brasil, o PSDB paulista anda às voltas com elas em diversas cidades, tentando fazê-las para escolher seus candidatos a prefeito.
Em São Paulo, a discussão é especialmente relevante na capital, pelo motivo óbvio de ser a mais importante cidade do estado e a maior do Brasil. A disputa pela sua prefeitura sempre desperta interesse nacional, apesar de ter consequências tênues nas eleições presidenciais — e mesmo nas estaduais — seguintes.
Teremos, este ano, uma eleição aberta na cidade, sem medalhões de qualquer lado. No PT, por escolha do Diretório Municipal, que acatou a orientação de Lula e sua indicação de Fernando Haddad. No PSDB, pelo esvaziamento de Serra, que fez com que ele mesmo preferisse não correr o risco de uma derrota.
O prefeito vai mal de imagem — aliás, muito mal — e tampouco tem um nome forte para lançar. Kassab terminou 2011 como vitorioso no front político, depois que seu PSD cresceu além do imaginado, mas amargando índices fortemente negativos de avaliação. A ideia de continuidade, bandeira inevitável de um candidato ligado a ele, tem poucos adeptos.
Nada mais natural que o PSDB procure novos rostos. E existem vários em condições de representá-lo em outubro. Mais novos e mais velhos; mais ligados a Alckmin ou a Serra; com atuação na prefeitura ou no governo do estado; com e sem experiência no Legislativo.
Em condições como essa, no mundo inteiro, é comum que os partidos façam prévias. É o que está acontecendo, nos Estados Unidos, com os republicanos. São, atualmente, quatro candidatos, dentre os quais sairá o adversário de Obama.
Lá, é um processo totalmente institucionalizado, tão antigo quanto a democracia — mesmo que seja confuso e misterioso para os não iniciados.
Aqui, o problema é que nossa legislação a respeito das prévias é simples, mas restritiva. E nossos partidos, com exceção do PT, não têm experiência com elas.
Falar em prévias, no Brasil, é mais fácil do que realizá-las. Como está vendo o PSDB de São Paulo.
A legislação admite apenas prévias “fechadas”, em que só filiados podem votar. E aí começam os problemas. De um lado, a vasta maioria dos eleitores identificados com o PSDB não está inscrita, pois filiar-se a um partido — a qualquer partido — não é comum em nossa cultura política. De outro, uma proporção nada irrelevante dos que preencheram ficha de inscrição não tem vínculo com ele.
Nem o PSDB sabe, com certeza, quantos são seus filiados em São Paulo. Até 2009, trabalhava-se com uma estimativa de 40 mil, quando Serra, preocupado com a movimentação de Aécio em favor de prévias na eleição do ano seguinte, mandou fazer uma recontagem. O número caiu pela metade, mas continuava incerto.
O partido contratou, então, uma empresa de telemarketing para checar seu cadastro. Que, até agora, a um mês da data marcada para que as prévias aconteçam, só conseguiu contatar 8,5 mil pessoas.
Quantos eleitores tucanos haverá em São Paulo? Difícil responder, mas sabemos, por exemplo, que Serra teve 3,4 milhões de votos na cidade em 2010. Que Alckmin teve 3,2 milhões para governador, no mesmo ano.
Embora imensa, não seria tão grave a discrepância entre eleitores e filiados (que são, somente, 0,003% dos primeiros) se esses fossem uma espécie de “vanguarda tucana”, cidadãos de tal maneira motivados e dispostos a participar que seria natural que sua decisão fosse acolhida pelos demais.
Quando, porém, se vai à procura dos filiados ao PSDB, o que se encontra, em muitos casos — como registrou a reportagem de um dos mais importantes jornais paulistas —, são pessoas que nem sabiam que o eram, pois acreditavam que haviam “preenchido fichas” para se cadastrar no Minha Casa, Minha Vida, ou para receber leite em programas estaduais. Que não têm qualquer intenção de se envolver nas questões do partido. Que foram arregimentadas por cabos eleitorais ou filiadas por amigos, algumas até simpatizantes do PT.
É bom e salutar que os partidos façam prévias. Elas oxigenam a vida partidária e os fortalecem.
Mas nossos partidos têm que fazer muito para que elas sejam mais que uma ficção. Partidos que nasceram na elite — e permaneceram sendo organizações de quadros — precisam se reinventar se quiserem se abrir à efetiva participação popular.
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Braziliense’.

  • Quinta-feira, 19 Janeiro 2012 / 13:55

Haddad não conta com Kassab

      Fernando Haddad, o candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, concedeu ontem uma entrevista aos repórteres Fábio Takahashi e Renato Machado, da ‘Folha’:
- Em setembro o sr. disse que a gestão Kassab era provinciana. Como avalia agora a possibilidade de aliança com o partido dele, o PSD?
- Eu comentei que não tinha conseguido fazer a quantidade de parcerias que desejava com São Paulo. Os problemas na cidade não são simples.Como pré-candidato, tenho conhecimento da máquina federal que me faz crer que oportunidades podem ser oferecidas aos paulistanos, algumas das quais eles nem sequer conhecem.
- E a possibilidade de aliança com o prefeito?
- O que Kassab disse ao presidente [Lula], e eu ouvi do próprio presidente, é que seu projeto continua sendo o anunciado: oferecer apoio ao Serra ou receber apoio ao Afif. Elereiterou isso, inclusive nos jornais. Este é o plano dele. Foi um gesto de generosidade dele elogiar o PT, mas não podemos deixar de ter clareza de que o projeto que está em curso não é esse. É isso o que me chegou. A recomendação que fiz ao PT foi fazer um balanço da nossa relação com os partidos da base da presidente Dilma. O movimento de negociar com o PSD é muito novo e precário.
- O sr. se sentiria incomodado com um vice do PSD?
- Estou estudando a cidade. Neste momento, estou abrindo a discussão com setores simpáticos não petistas para debater mobilidade, saúde, educação, urbanismo. O segundo momento é o gesto em direção aos partidos da base da presidente Dilma. Qualquer que seja o cenário, procurar uma aproximação com esses partidos.
- O que o sr. acha da possibilidade de ter Gabriel Chalita [PMDB] como seu vice?
- Estarei sempre aberto para discutir com o PMDB. Mas eles já estão em uma posição mais adiantada [de lançar Chalita]. À parte da amizade que temos, vamos manter a interlocução permanente.
- O sr. já foi acusado de ser um “estrangeiro”, confundiu Itaim Paulista com Itaim Bibi…
- É uma crítica que desqualifica o debate. O que vai ajudar São Paulo é discutir ideias.
- O Enem (exame do ensino médio) teve sucessivas falhas. Como responder às críticas?
- Os problemas foram pontuais. Não estou falando de 2009, um ano atípico. Estou falando das questões pontuais de 2010 e 2011. Foram localizadas, de fácil superação. Farei do Enem, do ProUni [bolsas para alunos pobres nas universidades privadas], do Sisu [seleção de vagas nas federais] bandeira de luta pela democratização do acesso dos estudantes da escola pública às universidades. Me orgulho muito e não terei dificuldade em discutir um assunto que me enche de paixão e de orgulho”.

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