• Quarta-feira, 15 Setembro 2010 / 10:43

Fatos e versões

                                     Marcos Coimbra*

     Nas eleições, como em tudo na vida, uma coisa são os fatos, outra as versões. E, nem sempre, aqueles são mais importantes. Na luta política, uma versão bem defendida vale mais que muitos fatos.
Uma vitória, por exemplo, pode ficar parecida a uma derrota, de tão diminuída e apequenada. Depende do que sobre ela se diz. Por maior e mais extraordinária que seja, os derrotados podem se vingar, ganhando a batalha das versões. Os vitoriosos, em vez de comemorar e receber elogios, ficam na posição de se explicar, se defender. Os perdedores lhes roubam a cena.
Neste fim de campanha eleitoral, à medida que nos aproximamos da data da eleição, a perspectiva de uma vitória de Dilma por larga margem só tem aumentado. Ao que tudo indica, ela vai conseguir o que Lula não conseguiu em nenhuma das eleições que disputou: ganhar no primeiro turno. A crer nos números das pesquisas, ela está prestes a alcançar, jáem3 de outubro, a votação que ele obteve apenas no segundo turno de 2006, quando chegou a 60% dos votos válidos. Não é nada, não é nada, Dilma tem tudo para se tornar, daqui a três semanas, a pessoa mais votada de nossa história.
Enquanto a eleição real avança, a guerra de narrativas sobre seu provável resultado está em curso.
De um lado, a que é formulada pelas forças políticas e as correntes de opinião que não conseguiram apoio na sociedade para levar seu candidato à vitória.
Do outro, a dos vencedores.
Paradoxalmente, são os prováveis derrotados na batalha eleitoral real que estãoemvantagem na briga das versões.Vão perder, ao que parece, na contagem dos votos, mas têm, pelo menos por enquanto, o consolo de fazer que sua interpretação prevaleça.
É o oposto daquilo que o professor Edgar deDecca, daUnicamp, caracterizou há alguns anos. Escrevendo sobre a Revolução de 1930, ele mostrou que ela entrou para nossa história através da narrativa daqueles que a venceram. Tudo aquilo pelo qual se bateramos derrotados foi ignorado ou desconsiderado.
Sobre aquele movimento, nossa historiografia só nos conta a versão dos vencedores. Ninguém mais se lembra do que queria o outro lado. Impôs-se a ele “o silêncio dos vencidos”.
Em 2002, Lula e o PT venceram tanto a eleição quanto a batalha das versões. Quando o resultado objetivo foi proclamado, estava pronto um discurso: era “a vitória da esperança sobre o medo” e o Brasil podia sentir orgulho de sua própria coragem ao colocar na Presidência um metalúrgico. Ninguém deslegitimou o que as urnas disseram.
Se Lula começasse seu segundo mandato depois de uma apertada vitória sobre Alckmin no primeiro turno da eleição de 2006, seria complicado livrar-se da interpretação de que, depois do mensalão, havia diminuído de tamanho.Mas, no segundo turno, cresceu tanto que até seus detratores tiveramque reconhecer que nada indicava que fosse essa a realidade.
Agora, na véspera do que todos calculam ser a eleição de Dilma, está sendo elaborada uma versão que a reduz. Nela, a vitória é apresentada como um misto de manipulação (“usaramo Bolsa Família para comprar o voto dos miseráveis”), ilegalidade (“Lula passou por cima de nossa legislação eleitoral”) e jogo sujo (“montaram um fábrica de dossiês para derrotar José Serra”).
Nesse tipo de combate, não faz a menor diferença se algo é verdade ou não. Como é apenas uma guerra de versões, o que conta é falar alto.
Quem tem meios de comunicação (jornais, revistas, emissoras de televisão) à disposição para propagandear seus argumentos, sempre leva vantagem.
Pode até ganhar.
Que importa se apenas 20% do voto de Dilma vem de eleitoresemcujo domicílio alguém recebe o benefício (ou seja, que ela tem votos suficientes para ganhar no primeiro turno ainda que esses fossem proibidos de votar)? Que importa se nossas leis são tão inadequadas que até uma passeata de humoristas a modifica?Que importa se nada do resultado da eleição pode ser debitado a qualquer dossiê, existente ou imaginado? Mas fatos são sempre fatos. E as versões, por mais insistentes que sejam, não os modificam. Ganhase no grito, mas perde-se no voto. Lá na frente, os fatos terminarão por se impor.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Quarta-feira, 25 Agosto 2010 / 9:04

Pesquisas polêmicas

 
 
 
                                              Marcos Coimbra*

          Pesquisas nas quais não se pode confiar são um problema. Elas atrapalham o raciocínio. É melhor não ter pesquisa nenhuma que tê-las.
Ao contrário de elucidar e ajudar a tomada de decisões, confundem. Quem se baseia nelas, embora ache que faz a coisa certa, costuma meter os pés pelas mãos.
Isso acontece em todas as áreas em que são usadas.
Nos estudos de mercado, dá para imaginar o prejuízo que causam? Se uma empresa se baseia em uma pesquisa discutível na hora de fazer um investimento, o custo em que incorre? Na aplicação das pesquisas na política, temos o mesmo. Ainda mais nas eleições, onde o tempo corre depressa. Não dá para reparar os erros a que elas conduzem.
Pense-se o que seria a formulação de uma estratégia de campanha baseada em pesquisas de qualidade duvidosa. Por mais competente que fosse o candidato, por melhores que fossem suas propostas, uma candidatura mal posicionada não iria a lugar nenhum.
Com a comunicação é igual. Boas pesquisas são um insumo para a definição de linhas de comunicação que aumentam a percepção dos pontos fortes de uma candidatura e que explicam suas deficiências. As incertas podem fazer que um bom candidato se torne um perdedor.
E na imprensa? Nela, talvez mais que em qualquer outra área, essas pesquisas são danosas. Ao endossálas, os veículos ficam em posição delicada.
Neste fim de semana, a Folha de São Paulo divulgou a pesquisa mais recente do Datafolha. Os problemas começaram na manchete, que se utilizava de uma expressão que os bons jornais aposentaram faz tempo: Dilma dispara…. Dispara.., afunda… são exemplos do que não se deve dizer na publicação de pesquisas. São expressões antigas, sensacionalistas.
Compreende-se, no entanto, a dificuldade do responsável pela primeira página. O que dizer de um resultado como aquele, senão que mostraria uma disparada? Como explicar que Dilma tivesse crescido 18 pontos em 27 dias, saindo de uma desvantagem para Serra de um ponto, em 23 de julho, para 17 pontos de frente, em 20 de agosto? Que ganhasse 24 milhões de eleitores no período, à taxa de quase um milhão ao dia? Que crescesse nove pontos em uma semana, entre 12 e 20 de agosto, apenas nela conquistando 12,5 milhões de novos eleitores? O jornal explicou a disparada com uma hipótese fantasiosa: Dilma cresceu esses nove pontos pelo efeito televisão. Três dias de propaganda eleitoral (nos quais a campanha Dilma teve dois programas e cinco inserções de 30 segundos em horário nobre), nunca teriam esse impacto, por tudo que conhecemos da história política brasileira. Aliás, a própria pesquisa mostrou que Dilma tem mais potencial de crescimento entre quem não vê a propaganda eleitoral. Ou seja: a explicação fornecida pelo jornal não explica a disparada e ele não sabe a que atribuí-la. Usou a palavra preparando uma saída honrosa para o instituto, absolvendo-o com ela: foi tudo uma disparada.
É impossível explicar a disparada pela simples razão que ela não aconteceu. Dilma só deu saltos espetaculares para quem não tinha conseguido perceber que sua candidatura já havia crescido. Ela já estava bem na frente antes de começar a televisão.
Mas as pesquisas problemáticas não são danosas apenas por que ensejam explicações inverossímeis.
O pior é que elas podem ajudar a cristalizar preconceitos e estereótipos sobre o país que somos e o eleitorado que temos.
Ao afirmar que houve uma disparada, a pesquisa sugere uma volubilidade dos eleitores que só existe para quem acha que 12,5 milhões de pessoas decidiram votar em Dilma de supetão, ao vê-la alguns minutos na televisão. Que não acredita que elas chegaram a essa opção depois de um raciocínio adulto, do qual se pode discordar, mas que se deve respeitar.
Que supõe que elas não sabiam o que fazer até aqueles dias e foram tocadas por uma varinha de condão.
Pesquisas controversas são inconvenientes até por isso: ao procurar legitimá-las, a emenda fica pior que o soneto. Mais fácil é admitir que fossem apenas ruins.
Boas pesquisas são um insumo para a definição de linhas de comunicação que aumentam a percepção dos pontos fortes de uma candidatura e que explicam suas deficiências. As incertas podem fazer que um bom candidato se torne um perdedor.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Quarta-feira, 18 Agosto 2010 / 10:21

Mitos e verdades sobre as pesquisas

                                                   Marcos Coimbra*

       De agora ao início de outubro, a mídia vai bombardear a opinião pública com pesquisas, uma atrás da outra. No começo, teremos pesquisas novas quase diariamente. Adiante, mais de uma ao dia. Na última semana, muitas. Quem não tomar cuidado, pode se confundir.
É uma boa hora para revisitar certos mitos sobre as pesquisas e discutir ideias que parecem certas, mas que escondem equívocos. Há coisas que se dizem para ajudar o cidadão a compreendê-las, mas que só atrapalham.
Quase todo mundo desconfia de que seja possível apontar o que pensa o eleitorado brasileiro a partir de amostras que raramente passam de 2,5 mil entrevistados. Somos mais de 135 milhões de pessoas aptas a votar, e é difícil imaginar que uma amostra que não chega a 20 milionésimos do universo o retrate adequadamente.
Outra coisa que confunde é ver que 2,5 mil entrevistas servem para que os institutos falem tanto do Brasil, quanto de um estado ou cidade. É intuitivo supor que, à medida que aumenta o tamanho do universo, deveria aumentar o tamanho da amostra. Se 2,5 mil são necessárias para representar, por exemplo, a cidade de São Paulo, muito mais seria exigido para falar do estado ou do país.
Os pesquisadores costumam responder a essas dúvidas com a analogia da sopa: uma colher basta para testar seu gosto, não sendo necessário tomar a panela inteira.
Mais ainda: não interessa se são 10,100 ou 1000 litros de sopa. Uma colher continua bastando.
É uma analogia que parece boa, mas que é limitada. Ao contrário da sopa, que é igual em qualquer lugar da panela de onde se tire uma colherada, o eleitorado não é homogêneo. Ou seja, nem toda colherada o representa bem.
Prosseguindo com as analogias gastronômicas, seria melhor dizer que as amostras devem ser como o prato que o freguês de um restaurante de comida a quilo monta quando quer conhecê-lo: uma colherada de cada tipo de alimento, sem exagerar em nenhum.
Se só colocar macarrão ou se não provar nenhuma sobremesa, como poderia avaliar o cardápio inteiro? As discrepâncias entre as pesquisas, que ficaram visíveis em diversas oportunidades ao longo do ano, resultam, principalmente, de diferenças na amostragem.
Há institutos que incluem todos os segmentos do eleitorado em suas amostras e outros que não. Aqueles que, por exemplo, só entrevistam eleitores que possuem telefone e que não ouvem quem mora em áreas rurais.
Outra ideia comum sobre as pesquisas é que elas são fotografias de momento, sem capacidade explicativa ou preditiva. Em parte, é uma banalidade, uma verdade acaciana. Em parte, uma confissão de incompetência.
Quando, por exemplo, um lugar está no meio da neblina, o melhor fotógrafo, mesmo se usar a melhor câmera, só conseguirá uma imagem borrada.
Não importa a lente, ela não ficará nítida. Mas isso, ainda bem, não é o mais frequente.
Imaginemos a fotografia de um automóvel, no meio de uma estrada, com as janelas fechadas e um vulto ao volante. À frente, um precipício. Tudo sugere que, se o carro estiver em movimento (como parece) e se não mudar a rota, vai cair. Com apenas essa foto, qualquer um suspeita que um desastre é iminente.
E se houver uma segunda, mostrando que o carro avançou, aproximando-se 10 metros do abismo? E outra, com uma distância ainda menor? E mais outra? Pesquisas só são fotografias estáticas se não as conseguirmos entender. Com a vasta informação de que dispomos, é perfeitamente possível falar, com base nelas, sobre o que tende a ocorrer em uma eleição.
Ceticismos (nunca fui entrevistado e não conheço ninguém que tenha sido), perplexidades (como é possível falar de todo o Brasil com tão poucas entrevistas?) e falsas noções (pesquisas são retratos do passado, que nada dizem sobre o futuro) são comuns sobre as pesquisas. Mas elas são um elemento central na cultura política moderna. Bom seria se todos conseguíssemos utilizá-las corretamente (sem querer delas nem demais, nem de menos), em escolhas tão importantes quanto as que faremos no dia 3 de outubro.
*Marcos Coimbra, sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi.

  • Quarta-feira, 04 Agosto 2010 / 11:22

As pesquisas públicas

                                             Marcos Coimbra*

      Quando escrevem sobre pesquisas, alguns jornalistas mostram não conhecer bem o papel que elas têm hoje nas campanhas políticas. Curioso é que mesmo profissionais tarimbados costumam revelar esse desconhecimento e não apenas os jovens repórteres no início de carreira.
Em momentos iguais a este, de aproximação das eleições, veem-se exemplos disso a toda hora. Como saem pesquisas com muita frequência, a imprensa está sempre cheia de matérias que as citam, nas quais se percebe a desinformação de seus autores sobre o que acontece no quartel-general das candidaturas.
Não são todas as campanhas que conseguem, mas todas que podem montam sistemas para acompanhar os humores do eleitorado por meio de pesquisas. À medida que aumenta a importância do cargo em disputa e sobe a capacidade de arrecadação, maior é o arsenal de pesquisas próprias que mandam realizar, para uso de coordenadores e estrategistas.
Faz tempo que as pesquisas quantitativas de intenção de voto se tornaram apenas o pedaço visível desses projetos, pois eles envolvem inúmeros outros levantamentos cujos resultados não são divulgados ou comentados. Ou seja: o que se vê é somente a ponta de um iceberg, cuja parte maior permanece submersa.
No mundo real das campanhas, grande destaque é dado às pesquisas qualitativas, indispensáveis à formulação de estratégias de comunicação. São elas que permitem entender as razões e motivos dos eleitores, por que preferem um candidato em detrimento de outros, o que esperam da eleição, o que não sabem e gostariam de saber dos candidatos. Os marqueteiros costumam olhá-las com mais interesse que os resultados das quantitativas, cujo objetivo é medir quantos pensam de uma maneira ou de outra, bem como identificar que variações existem entre os segmentos (socioeconômicos ou geográficos) do eleitorado.
As campanhas de Serra e de Dilma estão fazendo pesquisas desde muito antes do lançamento oficial das candidaturas. Seus partidos têm o hábito de pesquisar, possuem institutos que tradicionalmente lhes prestam serviços e contam com especialistas, internos e de fora de seus quadros, para assessorá-los em sua análise. A esta altura do processo eleitoral, já fizeram alguns (muitos) milhares de entrevistas e (várias) dezenas de discussões em grupo, a técnica qualitativa mais empregada. Ambos têm em mãos longas séries de pesquisas em todo o país, estado por estado, sempre usando questionários mais elaborados e detalhados que aqueles que se veem na imprensa. De agora em diante, na reta final, essa massa de dados vai aumentar exponencialmente.
Além da parafernália de pesquisas próprias, as duas campanhas têm acesso a dezenas de outras, feitas por correligionários e aliados nos estados, por entidades de classe e empresas do setor privado. Não deve haver um só dia em que não chegue aos comitês uma pesquisa nova.
Faz algum sentido imaginar que campanhas assim organizadas e tão bem abastecidas tenham que esperar a divulgação de pesquisas públicas para tomar qualquer decisão relevante? Que as equipes de Serra e Dilma fiquem roendo as unhas na frente da televisão para saber quem está na frente e quem atrás? Que só resolvam o que vão fazer depois de ler no jornal o que disse uma pesquisa?
Pelo que escrevem alguns jornalistas, pareceria que sim. Seus textos dizem coisas como antes da pesquisa do Ibope, Serra ia fazer…., agora com o Datafolha, Dilma decidiu…., o que equivale a supor que os candidatos foram inteirados de algo pela imprensa. Que o vasto investimento de suas campanhas em pesquisas próprias é inútil, pois o que contaria seriam as pesquisas hípicas (as que mostram quais cavalinhos estão na frente) que todos conhecem.
Nas disputas eleitorais, as pesquisas publicadas são irrelevantes como instrumentos de informação estratégica, pois as campanhas grandes (e seus apoiadores) sabem muitíssimo mais que aquilo que chega à imprensa e ao cidadão comum. O que não quer dizer que sejam irrelevantes na guerra da comunicação, pois estar publicamente na frente é melhor que estar atrás e isso pode trazer diversas vantagens a quem lidera.
* Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Quarta-feira, 21 Julho 2010 / 19:16

Ibope programa super pesquisa

Na próxima semana, o Ibope fará pesquisa para todos os governos estaduais.

  • Terça-feira, 20 Julho 2010 / 17:40

O Ibope e os candidatos

    Da diretora-executiva do Ibope, Márcia Cavallari:
“Quando tem o resultado de uma pesquisa, só um fica na frente, os outros todos ficam descontentes. Eles acham que a pesquisa tem influência direta na escolha do eleitor. Mas não. Se fosse assim, nunca teria virada”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:05

Ministro da tapioca cala para manter boquinha

A foto oficial do ministro. De boca fechada.

A foto oficial do ministro. De boca fechada.

No dia 1º de fevereiro, esse blog postou o seguinte texto com o título ?Qual será a posição do ministro??
?Esse blog enviou, essa manhã, as assessoras de imprensa do ministro Orlando Silva -  Maria José Mundin e Marcia Oliveira Gomes  – as seguintes perguntas para serem respondidas pelo ministro do Esporte:
1. O que o senhor achou da contratação do ex-premier Tony Blair para ser consultor das Olimpíadas de 2016?
2. Qual a sua opinião sobre o ex-primeiro-ministro da Grã-Bretanha?
3. Quando o senhor embarcou para Londres, já sabia dessa agenda com Tony Blair, ou foi surpreendido?
4. O senhor comunicou ao seu chefe, o Presidente Lula, de que participaria desse encontro?
5. Os dirigentes de seu partido, o PCdoB , foram informados previamente?
6. O sucesso das Olimpíadas depende da consultoria de Blair?
7. Pelo o que diz o governador Cabral, um grupo de empresários pagará as despesas dessa assessoria. Não existe nenhum outro item mais relevante, no orçamento, que poderia se pago por esse grupo de empresários?
8. O senhor não seria mais útil às Olimpíadas de 2016 se fosse detentor de um mandato popular, como o de deputado federal, já que seria na Câmara o porta-voz natural dos interesses olímpicos do país?”
Passados 13 dias, o ministro Orlando Silva nada respondeu, embora tenha, com certeza, recebido as perguntas.
O ex-presidente da UNE se comporta mais como um secretário de Sergio Cabral, do que como um ministro do Presidente Lula. E por isso ele não responde. Na verdade, ele não tem o que dizer.
Político sem voto, Orlando Silva de Jesus Junior, que adotou, políticamente, o nome do ?Cantor das Multidões?, decidiu pegar a boquinha das Olimpíadas e está feliz da vida.
Conseguiu um emprego que vai até 2016 – isso é mais do que o mandato de um governador ou de um presidente. E o melhor, sem ter a chateação de prestar contas a quem quer que seja.
Aliás, prestar contas nunca foi o forte do ministro.
Até o episódio dos cartões corporativos, pouco se ouvia falar nele. Até o dia em que foi descoberta a farra dos cartões, quando chegou a pagar uma tapioca de R$ 8,30, com dinheiro dos cofres públicos.
A tapioca foi a ponta do iceberg.
Depois, viu-se que, dentre todos os ministros, ele tinha sido o terceiro que mais utilizara o cartão.
Só em um jantar em São Paulo, na região dos Jardins, o  ministro pagou uma conta de R$ 485,05, em um restaurante, onde o valor médio de uma refeição é de R$ 150,00. O pior é que, nesse dia, não constava de sua agenda nenhuma atividade em São Paulo.
Certo dia, a agenda dizia que o ministro ficaria em Brasília em despachos internos. Mas ele gastou nessa data R$ 196,23 em uma churrascaria do Rio. Descobriu-se que ele pagara hotel para a esposa, a filha e a babá, durante um final de semana na cidade sede das Olímpiadas de 2016.
Menos de 24 horas depois que a colega Matilde Ribeiro foi exonerada, por uso abusivo do cartão, Orlando Silva, em pleno sábado de Carnaval, convocou a imprensa para fazer um anuncio em tom solene: estava devolvendo aos cofres publicos, de uma só vez, não apenas a tapioca, mas tudo o que havia gasto com o cartão de crédito corporativo: R$ 30.870,38.
E assim salvou o pescoço.
Pode-se dizer que isso nada tem a ver com a visita que ele fez a Tony Blair.
Tem sim, pois assim como ele falseava o cartão ? tanto que devolveu tudo o que gastou ? ele falseia o governo a quem serve, e falseia o seu próprio partido, o PcdoB.
Quando Orlando Silva foi chamado a depor na CPI dos cartões, o ministro reclamou das distorções da imprensa:
“Tomei a decisão de recolher aos cofres públicos todas as despesas utilizadas por mim com os cartões corporativos. Foi uma atitude política, um gesto político, que refletiu a minha indignação. Eu percebi que havia uma escalada na distorção de informações que envolvia a minha própria reputação e a minha família. O meu patrimônio é minha família e minha história política. Não poderia tolerar ataques à minha honra, minha ética”.
Para que não houvesse novas “distorções” sobre o pensamento do ministro, esse blog enviou as perguntas.
E por que ele não responde?
Porque teria que discordar de Sergio Cabral. E isso ele não faz, pois quer a boquinha de autoridade olímpica durante os próximos seis anos?
Quem se dispõe, por livre e expontânea vontade, a tomar chá com Blair, além de sorrir para fotos e apertar a mão de um facínora, está disposto a tudo.
Ter Tony Blair como consultor das Olimpíadas será muito ruim.
Mas ter Orlando Silva como gestor das Olimpíadas do Rio será péssimo.
O Rio não merecia isso.
Apesar de jovem, o ex-presidente da UNE representa o que existe de mais atrasado na política brasileira.
O ministro também é o responsável pela requisição do Palácio Gustavo Capanema, onde quer instalar o seu gabinete de trabalho, quando estiver morando no Rio.
Até Carlos Nuzman já tirou o corpo fora. Disse que não conhecia as instalações e nada tinha a ver com essa idéia.
Já o ministro continua calado.
Se perder o emprego terá de disputar votos para que possa continuar na vida pública.
E eleição, pelo jeito, é o tipo de esporte que Orlando Silva prefere distância.
                 * * *  
Ainda sobre a trapalhada de se requisitar o palácio Gustavo Capanema, recebi hoje o endereço do blog da psicopedagoga mineira Cristina Farage, que fala sobre o absurdo da idéia.
Leia o seu texto, e ouça a interpretação extraordinária de Ella Fitzgerald cantando “Samba de Uma Nota Só”.

  • Quarta-feira, 19 Maio 2010 / 4:08

Cesar: pesquisa da Vox ajuda

Do ex-prefeito Cesar Maia, em seu blog,comentando a pesquisa do Vox Populi, onde a candidata Dilma Rousseff passa o candidato José Serra:
“1. O Instituto Vox Populi divulgou pesquisa realizada entre 8 e 13 de maio onde Dilma aparece com 37% das intenções de voto em lista cheia, Serra 34% e Marina 7%. Imediatamente, muitos questionaram a seriedade da pesquisa. Esse é um caminho equivocado para se analisar as pesquisas. Como este Ex-Blog explicou em uma nota dias atrás, as pesquisas apenas sondam o “grid de largada”, até que se intensifique o “jogo de coordenação” (expressão estatística que denota o processo de distribuição de informações e a troca de opinião crescente entre as pessoas até transformar a intenção de voto em decisão de voto).               
2. É natural que nessa altura do campeonato as pesquisas flutuem. Os dados internos cruzados do Vox Populi reafirmam os mesmos vetores dos outros institutos: Dilma vence no Nordeste, perde em SP e no Sul, equilibra entre os homens, perde entre as mulheres… O que ocorreu, no caso, foi uma ampliação do nível de Dilma pelo fato da pesquisa ter sido contratada para o período em que os comerciais do PT na TV estavam no ar.                   
3. Pode se dizer que foi um truque do PT. É provável que se o PSDB fizesse o mesmo em seus comerciais, Serra ampliaria sua vantagem. Mas isso não impede que seja usada para fins de análise.                   
4. Na medida em que uma pesquisa ao meio de comerciais na TV altera os patamares de intenção de voto, pode-se dizer que, pelo menos, naquela faixa, o voto está longe de estar cristalizado. Repare que Marina ficou nos mesmíssimos 7% de 30/31 de março. Serra perdeu 4 pontos e Dilma avançou 4 pontos. Houve uma simples troca. Por quê? Porque nesta faixa de 4 pontos a intenção de voto está muito frouxa.
5. Caberia às campanhas compararem as duas pesquisas do Vox Populi e verem em que pontos ocorreram esta troca e acentuar a campanha nesses pontos, observando seus cruzamentos sócio-espaciais.                
6. Por outro lado, isso indica também que a campanha da oposição deve se preocupar em cristalizar as intenções de voto antes de a TV entrar, pois o natural caminho de Dilma será tocar um realejo, esperando 15 de agosto para que Lula entre na telinha e tente desequilibrar o jogo. Essa possibilidade será tanto menor quanto maior a cristalização. E essa não se conquista em palcos engravatados e entrevistas na mídia.                   
7. A cristalização se dá através dos multiplicadores de opinião. E são eles que prioritariamente devem ser mobilizados e motivados. Melhor que ir numa associação empresarial é reunir num auditório a militância e orientá-la e mobilizá-la. Se essa pesquisa sinalizou para isso, então, Santa Pesquisa”.

  • Quarta-feira, 19 Maio 2010 / 4:08

Vox: Dilma ultrapassa Serra

Das repórteres Denise Rothenburg e Alana Rizzo, do ‘Correio Brasiliense’:
“Pela primeira vez, uma pesquisa eleitoral apresentou a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, à frente do ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB). Na consulta feita pelo instituto Vox Populi, ela aparece com 38% contra 35% do pré-candidato tucano num cenário de três concorrentes. Marina Silva (PV) obteve 8%. Se considerada a margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos, Dilma está no intervalo entre 35,8% e 40,2%, e Serra, entre 32,8% e 37,2%. Ou seja, há um empate técnico entre os dois que estão na dianteira. Num segundo turno entre Dilma e Serra, o empate técnico se mantém: a petista tem 40% e Serra, 38%, dentro da margem de erro.
Considerando os resultados da pesquisa Vox de janeiro, Dilma cresceu nove pontos enquanto Serra caiu três. Marina se manteve no mesmo patamar. Num cenário com os candidatos de partidos menores, como o PSol de Plínio Arruda Sampaio, a diferença entre Serra e Dilma também é de três pontos: 37% para a petista e 34% para o tucano (leia quadro nesta página).
O diretor do instituto Vox Populi, o cientista político Marcos Coimbra, atribuiu o crescimento de Dilma ao tempo de exposição na TV que a candidata do PT recebeu este mês e não à saída de Ciro Gomes (PSB) da disputa. A distribuição dos votos de Ciro está equilibrada entre os dois. Existe uma grande relação entre o nível de conhecimento e a intenção de voto. O que tende a ter influência são os comerciais de 30 segundos, e ainda houve o programa de 10 minutos na quinta-feira, afirmou Coimbra, se referindo ao período em que a pesquisa foi a campo, de 8 a 13 de maio em 117 cidades nas cinco regiões do país. Os estados que não tiveram pesquisadores do Vox foram Amapá, Roraima e Acre, terra de Marina Silva.
Na pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor diz em quem votará sem que o entrevistador lhe apresente um leque de opções, Dilma ultrapassou Lula. Ela aparece em primeiro, com 19%, Serra em segundo, com 15%, e Lula em terceiro, com 10%. Em janeiro, Lula tinha 19%, Serra e Dilma tinham 9% cada um. Essa passagem na espontânea vem ocorrendo aos poucos. Quem quer votar no Lula e fica sabendo que ele tem uma candidata, vota nela. Isso faz a evolução dela muito mais provável do que a de José Serra, avalia Coimbra.
A pesquisa mostra que 74% dos entrevistados sabem ou ouviram dizer que Dilma é a candidata que tem o apoio do presidente Lula. Só 4% acham que Serra tem o apoio de Lula e 1% considera que Lula apoia Marina. Hoje, 33% dizem que votariam com certeza num candidato apoiado pelo presidente Lula e 30% dizem que poderiam votar, dependendo do candidato. Apenas 10% não votariam num nome apoiado por Lula e 24% não levariam isso em conta. Se considerado o corte desse cenário de transferência por regiões do país, o Nordeste é onde o poder de Lula (2)é mais forte, com 51% dos entrevistados dispostos a votar com certeza num nome apoiado pelo presidente. O mais baixo é no Sul, 20%. Quanto ao apoio de Lula para governos estaduais, a transferência é menor: 22% votariam com certeza num candidato apoiado por ele.
A amostra indica ainda que Dilma cresceu em todas as regiões do país. No Centro-Oeste, passou de 25% em janeiro para 34% nessa última pesquisa. No Nordeste, de 38% para 45%. No Norte, de 26% para 41%. No Sudeste, passou de 22% para 36% e, no Sul, de 24% para 30%. Serra cresceu três pontos no Nordeste, de 27% para 30% e no Sul, de 39% para 45%, sua melhor performance. No Norte, oscilou de 31% para 32%. No Centro-Oeste, caiu de 36% para 33%, no Sudeste, de 36% para 35%.
Coimbra atribuiu o novo fôlego de Dilma no Sudeste a Minas Gerais. Havia tal vontade de votar em Aécio (o ex-governador de Minas, Aécio Neves) que isso inibiu o crescimento de Dilma durante algum tempo. Agora que ele não é mais candidato, ela cresceu, explicou. Segundo Coimbra, Lula tem uma alta popularidade em Minas, a maior fora do Nordeste. Por isso, é natural que a candidata do presidente cresça em intenção de voto entre os mineiros. Isso estava inibido pela candidatura de Aécio. Agora que ele não é mais candidato, muitos em Minas passaram a pensar em Dilma, já que não podem mais votar no Aécio, diz Coimbra.
Serra mantém a liderança entre quem recebe acima de 10 salários mínimos, 41% a 29% para Dilma e 11% para Marina, a melhor marca da candidata do PV. Serra lidera ainda entre os eleitores de nível superior, 39% a 35%. Dilma vai melhor entre os que recebem um salário mínimo, 43% a 31%, e entre os eleitores com ensino médio, 39%. Contra 32% de Serra e 9% de Marina). Dilma melhorou sua performance entre as mulheres. Aparece com 34% e Serra 35%. Entre os homens, ela tem 42% e o tucano 34%.
A maioria dos eleitores, 47%, deseja mudar algumas políticas do governo Lula e continuar com a maioria delas, enquanto 34% preferem a continuidade de todas as políticas do atual governo. Apenas 13% querem mudança na maioria das políticas e 5% propõem mudar tudo. A rejeição dos candidatos (leia quadro nesta página) não é vista pelo cientista político como algo que deva preocupá-los. Serra tem uma biografia respeitada, Dilma é a candidata de um presidente que todo mundo gosta e Marina é ambientalista e menos conhecida, diz ele”.

  • Domingo, 16 Maio 2010 / 4:08

Os desafios do eleitor

Do sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Vox Populi, para o ‘Correio Brasiliense’:
“As eleições são muitas coisas na vida de um país, desde um salutar reencontro dos cidadãos com sua capacidade de ação, limitada pela complexidade do estado moderno, até uma oportunidade para avaliar sua trajetória recente, quando os eleitores decidem o que nela deve ser mantido e o que deve ser mudado. São mais que uma troca da pessoa que está à frente do governo.
Votar em um candidato a presidente é se pronunciar sobre um amplo conjunto de questões, importantes para o presente e o futuro da sociedade. Não é surpresa, portanto, que seja um ato que causa ansiedade e tensão na maioria das pessoas, tanto maior quanto menos informadas elas se sentem para tomar a melhor decisão.
Nossa experiência com eleições presidenciais democráticas é, lamentavelmente, pequena. Nem dá para falar nas que tivemos antes de 1930, pelas restrições severas ao sufrágio. Há 100 anos, por exemplo, Hermes da Fonseca se elegeu presidente da República com o voto de 400 mil eleitores (todos, aliás, do gênero masculino, pois as mulheres eram proibidas de votar). Rui Barbosa, seu oponente, teve 200 e poucos mil. Somados, fizeram menos que os eleitores de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, o 15º município brasileiro em termos de eleitorado.
Depois do Estado Novo e antes da redemocratização, só fizemos quatro eleições presidenciais. Comparadas às da República Velha, foram mais abertas, mas ainda cheias de limitações, pois jovens e analfabetos não podiam votar e os partidos de esquerda estavam proibidos. Se pensarmos que se passaram 90 anos entre a primeira eleição direta (a de Prudente de Morais) e a vitória de Tancredo, é muito pouco.
Quando, após a Constituição de 1988, voltamos a eleger presidentes pelo voto dos cidadãos, foi como se começássemos do zero. Havia, é verdade, uma parcela do eleitorado que tinha memória de haver votado antes, mas era pequena, menos que 10% dos que estavam aptos em 1989. A imensa maioria das pessoas não fazia idéia de como escolher um presidente.
A dificuldade aumentava pela ausência de identidades políticas estruturadas. A ditadura não havia apenas suprimido o direito de voto, mas cerceado a organização partidária, extinguindo os velhos partidos e inventando outros, distantes de nossa cultura política. O novo sistema partidário que emergiu com seu fim estava em seus primórdios, com todos os problemas da primeira infância: excesso de siglas, volatilidade, não diferenciação, infidelidade doutrinária, migração errática dos eleitos de um partido para outro.
Em um sistema como esse, a saída para o cidadão era criar seus próprios critérios de escolha. Privado do aprendizado que vem da experiência e sem ter como referência organizações partidárias estáveis (e confiáveis), só lhe restava chamar a si a responsabilidade integral de identificar o melhor, dentro do cardápio que o sistema político oferecia.
Até o fim dos anos 1990, um tipo de depoimento se repetia nas pesquisas qualitativas, traduzido em uma imagem: o olho no olho. As pessoas diziam que escolhiam candidatos olhando em seus olhos na televisão, procurando identificar sua honestidade, sua sinceridade, se tinham ou não bons propósitos. Pobres e ricos, jovens e velhos, com maior ou menor escolaridade, todos concordavam com essa ideia absurda. De que, magicamente, enxergariam a verdade dos candidatos lá onde ela menos se revela, na televisão.
Uma das coisas boas da democracia é que ela avança. Com o tempo, os cidadãos amadurecem, aposentam mitos e deixam ilusões para trás. Hoje, cada vez menos se fala no olho no olho. Cada vez mais, os eleitores percebem que a escolha de um presidente não é um desafio íntimo, a procura épica de um melhor idealizado, à qual se segue a epifania de uma descoberta.
Escolher candidatos se tornou mais simples: olhar o que representam, de que lado estão, qual é sua turma. Podendo, também comparando o que faz cada lado, cada turma, quando governa”.

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