• Quinta-feira, 02 Fevereiro 2012 / 7:13

Brasil amplia influência em Cuba

                                              Evaldo Alves*

         A primeira visita de Estado da presidente Dilma a Cuba foi resultado de um objetivo pautado por interesses econômicos, bem como de uma longa tradição de relações políticas e comerciais, cuja origem está no início da Revolução Cubana.
Por ter sido uma visita de Estado, com protocolo rígido, as oportunidades para discutir temas econômicos foram restritas. No entanto, constituíram os pontos de maior interesse para ambos os países.
No que concerne à tradição histórica, convém lembrar que, no momento em que ocorreu a ascensão de Fidel Castro ao poder, em 1959, o Brasil começava a desenvolver a ideia de política externa independente. O conceito foi criado por San Thiago Dantas, Afonso Arinos e Araújo Castro, implantado no governo Jânio e adotado no governo Goulart, cujo ministro de Relações Exteriores era o próprio San Thiago Dantas. Vem desse período o processo de cooperação e parceria.
É fato que o fluxo de comércio é reduzido, tendo o Brasil, em 2011, exportado cerca de US$ 550 milhões e importado US$ 91 milhões. No entanto, existe uma grande sinergia da qual os dois países se beneficiam. Do lado brasileiro, exportações de US$ 248 milhões em produtos básicos e de US$ 301 milhões em industrializados. Já do lado cubano, exportações de produtos medicinais, químicos e minerais elaborados.
Considerando o avanço da medicina e de produtos médicos em Cuba, as exportações poderão ser ampliadas -um caminho para o equilíbrio na balança comercial.
O que o governo cubano precisa urgentemente é de um parceiro que traga projetos e recursos. O projeto principal do governo brasileiro é o de porto Mariel, onde serão investidos US$ 957 milhões, com a participação de 71% do BNDES.
As perspectivas são de que os acordos assinados deem ao Brasil mais visibilidade na América Central. Cria-se também um novo padrão de parceria econômica, financeira e política. Enfim, amplia-se a esfera de influência do país com atos concretos e, portanto, mais perenes.
*Evaldo Alves é professor de Economia Internacional da FGV – EAESP, Escola de Administração de Empresas de São Paulo e escreveu para a ‘Folha’.

  • Terça-feira, 31 Janeiro 2012 / 14:36

A entrevista de Dilma em Cuba

 

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  • Domingo, 29 Janeiro 2012 / 7:55

Yoani Sánchez não ajuda Cuba

                                                             Julia Sweig*

       Uma confissão: a viagem da presidente Dilma a Cuba me faz sentir “inveja de política externa”. Como historiadora e analista política que vem viajando à ilha e escrevendo sobre ela há 25 anos, já teci fantasias sobre ter a oportunidade de assistir a meu próprio presidente fazer uma viagem dessas.
Mas, nos EUA, a ideia de que eleitores e financiadores de campanhas cubano-americanos puniriam um presidente que fosse longe demais nos leva a ignorar as transformações monumentais, embora lentamente implementadas, advindas sob Raúl. Perda nossa, ganho do Brasil.
Quando primeiro decidi escrever uma coluna sobre a viagem de Dilma a Cuba, imaginei que eu falaria sobre o teor das reformas econômicas, sociais e políticas -empresas privadas, acúmulo de capital e produtividade agora são coisas patrióticas, e não contrarrevolucionárias- abrangidas no eufemismo governamental sobre “atualização do socialismo cubano”.
Mas, quando uma jornalista de uma séria agência de notícias internacional me telefonou para falar sobre a visita, ela me surpreendeu ao apresentá-la, como a imprensa brasileira vem fazendo, como um teste da política de direitos humanos de Dilma.
Após um ano na Presidência, Dilma vem lentamente, e com alguns desvios incômodos, assinalando a intenção de fazer dos direitos humanos uma parte de sua agenda nacional e internacional.
Em Cuba, porém, não são o blog de Yoani Sánchez nem a comparação autoelogiosa e historicamente falsa que ela traçou com Dilma na juventude que merecem atenção ou são medidas de avanço dos direitos humanos.
Os tuítes dela não se comparam às críticas aguçadas e profundamente focadas ao governo que podem ser encontradas, por exemplo, em nada menos que o site da Arquidiocese de Havana, www.espaciolaical.org.
Ali, uma gama inusitada e ideologicamente diversificada de vozes critica o governo, a burocracia e o Partido Comunista por sua opressão desumanizadora dos cidadãos cubanos. As críticas não medem palavras, mas sua intenção é serem construtivas, e não histriônicas -escritas no espírito de uma oposição leal, nacionalista.
A Igreja Católica não é a única outra voz ativa no país, mas sua voz, e a de numerosos outros acadêmicos, figuras culturais e jornalistas, torna obrigatório perguntar “o que significa a dissidência na Cuba de Raúl? E qual seria a melhor maneira de potências externas apoiarem o movimento em Cuba em direção a uma sociedade e economia abertas?”.
O “diálogo político” que o ministro Patriota e a presidente Dilma pretendem realizar com Cuba, além da geração de empregos (o porto de Mariel) e os primeiros passos em direção ao aumento do comércio e dos investimentos, tem muito mais chances de reforçar transformações positivas do que se poderia conseguir brincando de favorito com este ou aquele “dissidente”.
Nos EUA já tivemos mais de um século de experiência tentando e não conseguindo identificar vencedores na política interna cubana.
Se não posso ter meu presidente em Havana, permita-me a liberdade de oferecer uma sugestão não solicitada a Dilma: falar com Raúl sobre opções para a imprensa brasileira abrir sucursais em Havana em tempo para a viagem do papa Bento 16, em março.
A cobertura das transformações na ilha e das vozes que fazem parte dela só poderá ajudar a vocês e seu público, no momento em que o Brasil se abre para Cuba e Cuba se abre para o Brasil. E talvez também ajudar Washington a ver Cuba além de sua política doméstica.
*Julia Sweig é diretora do programa de América Latina e do Programa Brasil do Council on Foreign Relations, autora de “Inside the Cuban Revolution” e “Cuba: What Everyone Needs to Know”, e escreveu para a ‘Folha’.

  • Sexta-feira, 27 Janeiro 2012 / 16:58

Exilada, Yoany terá de abandonar o blog

    Do repórter Bernardo Mello Franco:
    “O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse ontem que a cubana Yoani Sánchez não poderá manter seu blog com críticas ao regime cubano caso peça asilo diplomático ao Brasil.
Ele disse acreditar que Yoani não usará o visto brasileiro, que recebeu anteontem, para pedir asilo ou refúgio político.
“Acho difícil para ela manter esta atividade [o blog] como exilada. O exilado político não pode ter atividade política no país que o recebe. Não me parece que ela queira isso.”
A permissão para Yoani entrar no país foi concedida às vésperas da primeira viagem oficial de Dilma a Cuba, na terça-feira.
Questionado sobre a possibilidade de Cuba autorizar a saída de Yoani, Garcia se esquivou: “O visto está dado. Isso vocês têm de perguntar ao governo cubano”.
Embora a blogueira tenha recebido o visto brasileiro, ela ainda depende de autorização do regime cubano para deixar a ilha.
Segundo Garcia, que acompanha Dilma no Fórum Social Temático em Porto Alegre, a blogueira recebeu o visto porque “preenche todos os requisitos” para vir ao Brasil.
Garcia disse acreditar que o caso não marcará a visita de Dilma à ilha, a convite do dirigente Raúl Castro. Ela também deve se encontrar com Fidel Castro, que transmitiu o cargo ao irmão em 2008, por motivos de saúde.
Em Cuba, Dilma anunciará um crédito de US$ 1 bilhão (R$ 1,75 bilhão) para a modernização do porto de Mariel.
Segundo Garcia, 85% dos recursos serão financiados pelo BNDES, e a maior parte da obra será tocada pela Odebrecht”.

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