• Domingo, 08 Agosto 2010 / 10:12

O primeiro debate

                                             Marcos Coimbra*

    Em uma das eleições presidenciais mais previsíveis que fizemos no Brasil moderno, o que esperar do primeiro debate entre os candidatos na televisão? Que fosse … previsível, tanto quanto o que a Bandeirantes realizou quinta feira. Nele, tudo que se imaginava aconteceu.
Era previsível uma baixa audiência, e foi o que tivemos. Pelos números preliminares disponíveis, o pico de audiência alcançou pouco mais que 5% na Grande São Paulo e dificilmente terá sido maior no conjunto do país. Para deixar dramaticamente claro quão pequeno é o interesse do telespectador médio por programas de conteúdo político, na abertura do debate a emissora perdeu metade da audiência. Polícia 24 horas terminou com 6% e o encontro dos presidenciáveis começou com 3%. Mais adiante, a proporção de televisores sintonizados caiu a pouco mais que 1%.
Era previsível que esse debate fosse tratado como um episódio na guerra entre as emissoras e foi o que elas fizeram. Enquanto não mudarmos nosso modelo, em que cada uma faz o seu debate, é isso que sempre teremos. Faz sentido o que está combinado para este ano, em que os candidatos irão a todas, apenas por que essa é a conveniência delas? Será que um dia chegaremos ao bom senso de ter debates em rede, como os americanos, onde a competição entre as emissoras é mais acirrada que aqui? Espremido entre o futebol de uma e a habitual profusão de programas populares das outras, o debate foi o perdedor na batalha pela audiência noturna da quinta feira.
Era previsível que os abnegados que fossem assistir aos programas (especialmente os poucos que ficaram até o fim, depois da meia noite) tivessem características bem diferentes do eleitor comum. As pesquisas sobre o perfil da audiência não estão concluídas, mas é fácil apostar no que mostrarão, pois é o que acontece no mundo inteiro: que terão visto o debate eleitores de escolaridade e renda mais elevadas, mais velhos e predominantemente do gênero masculino. Mas o fundamental é que terão sido pessoas de interesse significativamente mais alto por questões políticas, mais informadas, mais atentas ao cotidiano do processo eleitoral e mais curiosas a respeito dos candidatos.
São pessoas que costumam ter identidades políticas e/ou partidárias estruturadas e fundamentadas, e que, em função disso, se decidem precocemente. Para elas, a eleição começa cedo, os prós e os contras dos candidatos são logo avaliados e a dúvidas sobre o que fazer no dia da eleição mínimas.
Quem vê com atenção um debate como esse, em um horário como aquele, já decidiu se vota Dilma, Serra ou Marina, ou se não vota em nenhum dos três. Por seu interesse e informação, é uma pessoa que, tendo chegado a uma escolha, não a muda por impulso, talvez como fizesse outra para quem a questão fosse menos importante. Para ela, o escorregão, a gafe, o gaguejo de um candidato são irrelevantes: não fazem com que deixe de votar no candidato escolhido ou que opte por um em quem havia decidido não votar. Ela ri das dificuldades dos adversários do seu candidato, mesmo que se incomode com os deslizes que ele ou ela cometem.
Era previsível que não fosse um debate acalorado e emocionante, cheio de tiradas espirituosas e de eloquências. Quem conhece os candidatos que temos não esperava que eles repetissem o que antigos mestres faziam em situações parecidas. Nenhum é um Brizola, e isso estava nítido.
Era previsível que o nervosismo afetasse de maneira diferente os candidatos e foi o que as câmeras mostraram. Serra, no seu enésimo debate, era o mais à vontade, tanto quanto pode estar alguém cujas perspectivas se tornam, a cada dia, mais preocupantes. As estreantes Dilma e Marina (pois não se pode considerar que a experiência anterior da senadora a tivesse preparado para uma noite como aquela) estavam mais tensas. Quanto a Plínio de Arruda Sampaio, sua posição era a que se espera de quem nada tem a perder. De todas, a mais confortável.
Deixando de lado as avaliações dos torcedores (pois quem tem simpatia por uma candidatura sempre diz que seu candidato foi superior aos demais), é quase consensual a opinião de que ninguém ganhou o debate. Superado um primeiro momento visivelmente favorável a Serra, Marina e Dilma se equilibraram e empataram com ele, indo assim até o final. Quem viu, com alguma isenção, mais que o primeiro bloco dificilmente dirá que houve perdedores e ganhadores.
Se essa impressão de jornalistas e profissionais for confirmada pelas pesquisas de impacto direto e secundário na opinião pública, quem talvez mais tenha lucrado foi Dilma. Não perder é um bom resultado para quem está na frente. Adicionalmente, adquiriu experiência para os próximos, aumentando sua autoconfiança, que é o que mais conta para um bom desempenho neles.
Serra e Marina é que têm de reverter as tendências que estão em curso. Para ambos, o debate da Bandeirantes não foi ruim, mas não foi tão bom quanto desejariam (ou precisariam).
*Marcos Coimbra, sociólogo, preside o Instituto Vox Populi e escreve para o ‘Correio Brasiliense’.

  • Sexta-feira, 06 Agosto 2010 / 2:07

Os vídeos com o debate da Band

 

  • Sexta-feira, 06 Agosto 2010 / 2:05

Notas sobre o debate da Band

   Dilma Rousseff
   Começou nervorsa e foi se acalmando aos poucos. Muitas vezes, preferiu olhar para o candidato do que para as câmeras. Seu discurso foi menos técnico: falou da mulher, da necessidade de pagar bem os professores, das crianças, prometeu 6 milhões de cresches em seu governo (será mesmo tudo isso?), privilegiou as UPAs e a UPPs (sem citar Sergio Cabral), das escolas técnicas, dos 14 milhões de novos empregos com carteira assinada, e disse que seu compromosso é com a erradicação da miséria e da fome. Disse que teve o privilégio de coordenar os ministros de Lula.

   José Serra
   Saiu-se melhor do que a encomenda. Falou sobre tudo, mas apenas sobre o que quis. Deixou a impressão que vai governar para dar eficiência aos Correios, aos mutirões de cirurgia de varizes e apoio aos excepcionais. Foi – depois de Plinio – o mais tranquilo de todos os presidenciáveis. Atrapalhou-se ao falar do programa ‘Luz para Todos’ e da recuperação da indústria naval. Foi bem quando falou dos aeroportos, portos e estradas, mas ficou alijado do debate sobre o crack, uma de suas especialidades.

   Marina Silva
   Foi a políticamente correta, mas será dificil encontrar alguém que consiga reproduzir o que ela disse no debate. Deixou claro que, caso haja um segundo turno, ela estará com Dilma, ou melhor, com Lula, de quem foi ministra. Serra deve ter tomado um susto com essa sua postura. Citou Deus na primeira e na última fala. E acrescentou a moradia e o meio ambiente em suas prioridades, ao lado da saude, educação e segurança.

   Plinio de Arruda Sampaio
   Com um discurso radical e fora de moda, foi o vencedor, embora isso não queira dizer absolutamente nada. Mas ganhou por teve visibilidade , embora reclamasse o tempo todo de discriminação. Foi o único que falou, repetidas vezes, de seu  partido – o PSOL. Pena que seu discurso não tenha nada a ver com quem o assistia. O ponto central de seu programa é acabar com as desigualdades e, a chave para isso, seria uma reforma agrária radical. Chegou a dizer: “Você, camponês, que está me assistindo…”, como se algum camponês ficasse acordado até meia noite para assistir a  um debate político. Acusou seus adversários de serem todos iguais, e reclamou que Serra, por ser hipondríaco, so falava de saúde. No final, entrevistado, Serra fez questão de dizer que Plínio é “tão hipocondríaco quanto eu”.

                                                      * * *

     O debate foi tão comportado que nenhum candidato pediu direito de resposta.
     Tudo leva a crer que os próximos debates serão ainda mais engessados que o da Band.

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