Cesar: “Eleição no Rio terá 2º turno”

       Com vem fazendo todos os domingos, ‘O Dia’ publicou, nesse final de semana, mais uma entrevista com um cacique político do Rio. Esse domingo foi o dia de Cesar Maia que concedeu a entrevista a Rozane Monteiro:
“- O senhor tem dito que é hora de renovação no cenário político do Estado do Rio. O que isso quer dizer?
– A política do Rio de Janeiro, a política do estado todo tem alguns personagens: o (governador Sérgio) Cabral (PMDB), o (deputado federal Anthony) Garotinho (PR), eu (DEM) e, agora, o Lindbergh (Farias, senador do PT). São quatro personagens. Então, se você vai atrás da dinâmica do processo político, você vai atrás desses personagens. Só que, no nosso caso, por exemplo, a gente quer renovar o personagem — nós, do DEM. A busca nossa, não apenas no Rio de Janeiro, é a busca de entender que a nossa geração é uma geração que cumpriu o seu papel. Agora, tem que vir outra geração. Estou com 66 anos. Este ano, vou fazer 67. Em 2014, eu vou ter 70. Então, essas coisas a gente tem que entender. A gente não pode imaginar que a curva política seja uma curva de eternidade. O partido precisa buscar renovação. Para o caso do Brasil, isso é fundamental, que é buscar renovação para construir personagens políticos que serão, este ano ou em outro ano qualquer, os novos personagens da política de cada estado.
- Nesse quadro, o próprio prefeito Eduardo Paes, que parece convencido de que vai ser reeleito…
- Não está mais convencido. Não está mais convencido como estava há cinco meses.
- O senhor acha isso ou o senhor sabe que ele não está mais convencido?
- É o que eu sei. A gente faz as mesmas pesquisas que ele faz. Nós temos no Rio uma eleição que inexoravelmente vai para o segundo turno — é uma tradição do Rio, não tem jeito. O eleitor carioca não joga tudo num nome só. As pesquisas que a gente faz mostram que o Eduardo vai ter que disputar para ir para o segundo turno também. Porque ele comete três erros que, na história política do Rio de Janeiro, têm sido fatais: persegue servidores públicos, humilha os pobres — repressão pela repressão e intimidação —, e privatização da Educação e Saúde, que são os servidores que têm contato direto com a população. Ele vai ter que disputar a eleição para ir para o segundo turno. O Garotinho, em entrevista a O DIA (publicada dia 29 de janeiro), lembrou que, na hora que uma pesquisa do Ibope coloca o nome do (senador do PRB, Marcelo) Crivella, ele (Paes) já vem para 36%. Óbvio. Na hora que coloca o nome do (ex-deputado federal do PV Fernando) Gabeira, o meu, ele já vem pra 25%. E porque tanta gente na prefeitura… Tanta gente no entorno dele… Tanta gente que ele telefona, fala e recebe e que me conhece também… Dessa tanta gente, tem lá, uns 10%, sei lá, que me ligam, me mandam e-mail: “Cesar, estive com Eduardo”, “conversei não sei com quem”, “estão preocupados”…
- O filho do senhor, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), e a filha de Garotinho, a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR), estão juntos para enfrentar o prefeito Eduardo Paes. Os três fizeram uma reunião na quarta-feira para falar de eleição. Por que o senhor não foi?
- Por que não fui convidado. Só por isso.
- Foi o Rodrigo que marcou, não foi?
- Não faço a menor ideia. Eu sei que o Rodrigo e o Garotinho são deputados federais. Eles sentam no plenário e ali conversam. Um deputado fala uma bobagem, outro fala uma besteira, outro fala uma coisa interessante… “Olha, presta atenção, olha o que está falando ali”. Estão conversando ali. Então, tem um tipo de conversa, de interação entre os dois, na condição de deputado federal, que dá para eles uma interação natural todos os dias ou uma vez por semana, sei lá quanto. Não é meu caso.
- O senhor tem se reunido com Garotinho?
- Nesses últimos anos, estive com Garotinho duas vezes. Uma vez, foi um almoço na casa do Rodrigo, que foi, sei lá, aí por junho ou maio de 2011, com a Clarissa presente, em que se tratou do quadro geral.
- Foi nesse encontro que, como ele já contou, o senhor prometeu apoio em 2014 se ele vier candidato a governador?
- Não foi bem assim, né? Nesse, nem se tratou disso. Esse foi uma análise conjuntural. Teve um outro, que foi um jantar curto, com Rodrigo, Rogério Lisboa, Garotinho e eu. Fiquei 15 minutos na mesa porque tinha um compromisso num hotel em frente — era uma churrascaria, em Brasília. Eu tinha uma reunião. Ele estava com dúvidas sobre Nova Iguaçu. Foram respondidas. “E 2014?” 2014 é 2014. Agora, eu não tenho nenhum tipo de restrição ou dificuldade de amanhã, conforme as circunstâncias, ser seu vice. Falei assim, né? Ou não. Foi só essa frase que foi dita. Depende da dinâmica. Na entrevista do Garotinho a O DIA, ele tem uma preliminar que é muito importante: 2012 definirá 2014. Então, como nós — ele, eu e a torcida do Flamengo — passaremos por 2012? Como Sérgio Cabral passará por 2012? Sérgio Cabral era um forte eleitor em 2008. É um eleitor que os candidatos não vão querer na televisão. Hoje, Sérgio Cabral não agrega aos candidatos, tira voto.
- Ele atrapalha?
- Atrapalha.
- Por quê?
- Porque a gente testa. Só por isso. A gente faz pesquisa e testa. É uma eleição completamente diferente de 2008 e completamente diferente de 2010. Porque em 2010, o (ex-presidente) Lula era um santo, botava o dedo e elegia ou deselegia. Agora, não é assim. Agora, a presidenta é a Dilma, quem tem caneta. Não são mais 27 estados, são 500 cidades grandes. Então, é um quadro completamente diferente, um quadro competitivo. Agora, como é que a gente sai dessa eleição? Pensa bem, se alguém é candidato a governador vai querer como candidato a vice alguém que agregue ou não desagregue. Se eu fosse candidato a vice de alguém em 2010, eu agregaria? Não. Eu desagregaria? Alguma coisa.
- Por quê?
- Porque eu saí da prefeitura impopular. Só por isso. Então, como é que a gente pode fazer uma previsão de 2014, repetindo o que o Garotinho disse, sem passar por 2012? Fundamental. Aí, eu usaria o nome dele, Matheus. Mateus, 6,34: “Não vos inquieteis pelo dia de amanhã. O dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta para cada dia o seu mal”. Então, o ‘dia’ de 2012 é o ‘dia’ que você tem que viver. Esse ‘dia’ de 2012 é que vai produzir as consequências para 2014. Imagina o que significa o Garotinho, que é uma pessoa muito popular, com muito voto na área popular, com muito voto na área evangélica — teve 170 mil votos para deputado federal na cidade do Rio de Janeiro… Imagina o que significa ele numa campanha dar uma grande agregação de votação ao Rodrigo e Clarissa. Agora, você imagina o contrário. Imagina eu sendo candidato a vereador — que serei, né? —, eu tendo 300 mil votos. Agora, imagina eu tendo 30 mil votos e sendo eleito. Então, como é que a gente vai tratar de combinações antes de saber quem são aqueles que ajudarão ou não candidatos ou ele mesmo em 2014?
- Garotinho seria um candidato competitivo ao governo do estado em 2014 contra o vice-governador Luiz Fernando Pezão?
- O Garotinho é um pré-candidato a governador muito forte. Ele é o fantasma do Pezão. Pezão faria de tudo para que essa nossa coligação fosse rompida porque onde o Pezão tem expectativa de voto o Garotinho é campeão de voto. O Pezão, com aquele estilo campônico dele, na capital não vai ganhar nada. Então ele fica naquela ansiedade porque essa dobradinha PR-DEM em 2012 é uma dobradinha que, fortalecendo o PR, nos fortalecendo, debilita o PMDB. O que o PMDB tem hoje no estado? A expressão do PMDB basicamente é ter o prefeito da capital, que é um PMDB de último momento. Você sabe das diferenças que existem entre os dois, governador e prefeito.
- Por exemplo?
- São reiteradas. Sempre. Reclama: “Está gerando desgaste para mim”… “Não fez o que se comprometeu em UPA”… Não sei das quantas… São coisas que vão acontecendo ali e que são ditas em voz alta. E as pessoas imediatamente, ali, no próprio celularzinho que tem ali… (imita alguém passando torpedo por um celular) “Cesar Maia, sabe o que ouvi agora?” Ou então: “Fulano, sabe o que ouvi aqui agora?” E, aí, vem e repercute para cá.
- O senhor está muito bem informado…
- Não estou muito bem informado porque não sei o quanto de informação existe. Eu estou suficientemente bem informado para que a gente possa planejar a campanha de 2012 de maneira que o nosso vetor seja um vetor liderado pelo Rodrigo e um vetor competitivo. É isso que nós estamos trabalhando. O Rodrigo tem uma linha de crescimento que vai ser relativamente rápida, que vai de 7 a 15 pontos. Depois da campanha, vai fazer a projeção da condição de ir para o segundo turno. Eu tenho tido no Rio de Janeiro 20% dos votos. Aqui, votam 3,5 milhões de eleitores. Eu tenho tido 20% disso como média. Em 2010, eu tive isso.
- O Rodrigo também herda a rejeição ao senhor?
- Claro, mas não herda toda.
- Qual a principal diferença entre o senhor e ele?
- Eu sou um político racionalista, de máquina de calcular. O Rodrigo é um político de articulação. Ele aprendeu a dinâmica da conversa, da audiência, da paciência. Ele tem estilo completamente diferente. Esse estilo permite a ele ter agregações que eu não tenho.
- A Clarissa, por ser bonita e carismática, pode ofuscar o Rodrigo?
- Se isso daí significar agregar, ‘tá bom. A Clarissa é o melhor quadro político da geração dela. Se há algum grande mérito da Rosinha e do Garotinho foi ter criado as condições para ter uma política que os supera. A Clarissa supera tanto a Rosinha quanto o Garotinho, sob qualquer ponto de vista. Eu não vou falar que tem o traquejo do Garotinho numa comunicação em rádio. Claro que não, certo? Mas, do ponto de vista político, eles criaram, educaram, abriram espaço para a filha, que, com seu talento, é hoje o quadro mais importante da geração dela. Mas o que significa ofuscar?
- Brilhar mais.
- Quanto mais ela brilhar, melhor para o Rodrigo. Eu perguntava para ele há um ano se não valeria a pena ter um vice do PR, técnico, sem brilho. E ele defendeu enfaticamente que não, que era fundamental ter um vice — que seria Clarissa Garotinho — que tem o talento dela, que tem a visibilidade dela, que tem a luz dela e que, em governo, será uma figura importante. Não apenas em campanha eleitoral, mas também em governo, pelo talento dela, pelo preparo dela, pela disciplina dela. Então, ele está muito bem acompanhado. O Garotinho tem, como eu, elementos de atrito que ela não tem.
- Que elementos de atrito os senhores têm?
- Essa combinação toda, do ponto de vista eleitoral, pode nos custar alguma coisa na Zona Sul, (nos fazer) perder votos. Vê a votação do Garotinho na Zona Sul e vê na Zona Oeste. Alguma razão existe para isso. Você tem uma taxa de rejeição dele na Zona Sul que não é pequena. E, ao contrário, na Zona Oeste, a taxa entre os evangélicos é uma taxa de aprovação grande, de entusiasmo com ele. Só que, na Zona Sul, o que a gente pode perder no início da campanha migra para o (deputado estadual Marcelo) Freixo (PSOL). Por quê? Porque, se a pessoa está marcando a gente e não o Eduardo, na hora que tiver algum motivo para sair, sai para o Freixo, para o (deputado federal) Otávio Leite (PSDB-RJ), não sai para o Eduardo. O problema nosso é só esse. Então, isso daí não nos preocupa porque a campanha vai corrigir algum tipo de potencial de desgaste na Zona Sul que poderia vir dessa combinação PR-DEM. Vamos ter um tempo de televisão muito bom.
- O senhor e o Garotinho têm um encontro marcado para o dia 27, quando estarão juntos em um ato público da coligação. A cena vai causar algum estranhamento porque os senhores já foram adversários?
- São meses com esse processo entrando. Cesar e Garotinho, “caramba, mas eles eram adversários”. No dia 27, não vai ter esse impacto que você imagina. Se nós estivéssemos há sete, oito meses, e tivéssemos dado essa fotografia (juntos em público). Mas nós não demos. De uma forma racional, o encontro foi sendo construído. Você imagina há sete, oito meses, a quantidade de e-mails que eu recebia: “Me explica isso, Cesar Maia”. As pessoas foram tendo respostas, conversando umas com as outras, isso vai acomodando. Por outro lado, você tem uma grande parte da população que acha bom isso.
- Vocês vão juntos fazer campanha nas ruas?
- Eu sou candidato a vereador. Ele está apoiando os candidatos do PR e não a mim, candidato a vereador. Ele vai junto com o Rodrigo e com a Clarissa, que são os candidatos majoritários. Eu sou candidato a vereador. Ele não pode querer que eu tenha mais votos — eu poderei ter — porque eu vou tirar vereador do PR. Então, ele vai ter que fazer campanha na rua para o PR, e a minha campanha de vereador vai ser uma campanha própria.
- Isso foi uma decisão de vocês dois?
- Foi uma decisão do partido, tomada na convenção de julho. A ideia dele é que eu vou ter muito voto. “E se eu não tiver?”, perguntei para ele. “E se eu não tiver e for eleito? A responsabilidade é de vocês. Mas, para que eu tenha voto, eu preciso de tempo de televisão. Então, vocês vão ter que sacrificar tempo de televisão para que eu possa ter essa votação que vocês imaginam. É uma hipótese de vocês. A minha é fazer uma campanha para me eleger vereador e tentar ter a votação que vocês imaginam.”
- Qual é a sua expectativa de votos para se eleger vereador?
- A conta ali no quadro negro foi assim: o Tio Carlos, o Caiadinho (Carlos Caiado) e o Cesar Maia, somados, teriam 250 mil votos. Os demais candidatos nossos a vereador (do DEM), numa chapa com coligação, teriam uns 3 mil votos em média. Isso daria de 8 a 9 vereadores (DEM). Eu e mais sete ou oito, desde que os três — Tio Carlos, Caiadinho e eu — tenhamos 250 mil votos. Essa é a projeção que eles fazem. Acho possível.
- Quais serão suas bandeiras como vereador?
- Eu vou lutar para derrubar as leis que prejudicaram os servidores públicos, derrubar as leis que permitiram a privatização da educação e da saúde, enfrentar a especulação imobiliária e garantir os recursos das Olimpíadas
- O prefeito Eduardo Paes já disse “não perco um minuto da minha vida com nenhum deles”, referindo-se ao senhor e ao Garotinho. O que o senhor tem a dizer sobre isso?
- Ele vai dizer o quê? Se ele é prefeito, se ele é candidato à reeleição, vai dizer que as pesquisas dele dizem que essa eleição é uma eleição difícil e vai para o segundo turno? A resposta dele é uma resposta natural. Não vai encher a bola dos adversários. Mas está sempre ali procurando… Dá uma pancadinha. É aquele negócio: não se joga pedra em fruta podre. Vai fazer um discurso, diz: “Estou fazendo uma coisa que o Cesar Maia não fez…” Para quê? Por que ele não diz que o Conde não fez, por que não diz que o Marcello Alencar não fez? Ele não diz que o Conde não fez, que o Marcello Alencar não fez porque não são atores competitivos no quadro político do Rio de Janeiro hoje. Depois, está cometendo um erro político muito grande. Quantos partidos o estão apoiando? 17? Isso é uma coligação? Isso é um baile de máscaras de Luiz XVI. Ninguém sabe quem é quem. Com máscara, vale tudo. Prejudica. Uma coligação dessa é fácil ser atingida. Mas eles acham que isso tudo gera vitória…
- Há alguma possibilidade de o senhor ser candidato a prefeito este ano?
- Isso não existe. Não há hipótese, não há possibilidade. Quarta vez? Muito bom três vezes prefeito — o prefeito mais longevo da história do Rio de Janeiro. ‘Tá bom. Cumpri com minha função”.