• Quinta-feira, 01 Março 2012 / 11:43

Amorim manda punir militares

     Dos repórteres Evandro Éboli e Gerson Camarotti, do ‘Globo’:
     “O ministro da Defesa, Celso Amorim, determinou ontem que sejam punidos os cem oficiais da reserva que assinaram manifesto com críticas ao governo e à criação da Comissão da Verdade. Em conversa com os três comandantes militares, Amorim combinou que os oficiais da reserva que assinaram o manifesto “Alerta à Nação – eles que venham, aqui não passarão” sofrerão uma reprimenda de suas forças. A punição pela indisciplina depende do regulamento de cada arma, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e pode ser aplicada mesmo a militares da reserva.
Ontem, a presidente Dilma Rousseff voltou a manifestar irritação com o comportamento dos militares. Em conversas no Planalto, ela chegou a cogitar a prisão de um oficial como efeito demonstrativo para os demais. Mas acabou avaliando que a punição poderia agravar ainda mais a situação.
No texto divulgado na última terça-feira, os militares da reserva criticaram a interferência do governo no site do Clube Militar e o veto a um texto ali publicado que criticava a presidente Dilma Rousseff e duas ministras. Nesse “Alerta à Nação”, os oficiais afirmam não reconhecer autoridade ou legitimidade de Celso Amorim”. “Em uníssono, reafirmamos a validade do conteúdo do Manifesto publicado no site do Clube Militar, a partir do dia 16 de fevereiro, e dele retirado, segundo o publicado em jornais de circulação nacional, por ordem do ministro da Defesa, a quem não reconhecemos qualquer tipo de autoridade ou legitimidade”, diz o documento.
Como no manifesto vetado no site do Clube Militar, o documento de ontem também critica a criação da Comissão da Verdade. “A aprovação da Comissão da Verdade foi um ato inconsequente, de revanchismo explícito e de afronta à Lei da Anistia com o beneplácito, inaceitável, do atual governo.”
O texto publicado e retirado do site do Clube Militar atribuía às ministras Maria do Rosário e Eleonora Menicucci declarações que estariam a serviço do que os signatários classificaram de “minoria sectária”, disposta a reabrir feridas do passado.
O primeiro manifesto polêmico foi assinado pelos presidentes do Clube Militar, Renato Cesar Tibau Costa; do Clube Naval, Ricardo Cabral; e do Clube da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista, todos já na reserva”.

  • Segunda-feira, 09 Agosto 2010 / 9:07

Amorim: “Mercosul precisa ter metas”

        Do repórter Sergio Leo, do ‘Valor Econômico’:
“O Mercosul precisa de metas para garantir uma integração “plena” dos mercados nos países do bloco, defende o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim. Ele diz estar contente com os resultados da última reunião do bloco, que criou procedimentos comuns para as alfândegas do Mercosul e fixou prazo para acabar com a cobrança dupla de tarifa de importação no trânsito de mercadorias de um país ao outro. “Está na hora de pensar grande”, diz ele. “Em vez de negociar setorzinho por setorzinho , será que não devemos ter metas?”
O ministro diz que esse deve ser o passo a tomar na presidência temporária do Brasil neste semestre. Entre as metas que o ministro considera necessárias estão um prazo para acabar com as exceções à Tarifa Externa Comum (TEC) e datas para acordos de serviços e de compras governamentais, que dê tratamento nacional às empresas dos países do Mercosul nos outros mercados do bloco.
Amorim não esperou que começasse a sessão de perguntas para reagir a uma das críticas mais fortes à política externa do governo Lula, a de que é leniente com abusos dos direitos humanos em países aliados do Brasil. Ele vê motivação política na interpretação do documento não oficial encaminhado pela diplomacia brasileira em Genebra, que propõe novas etapas antes da aprovação de resoluções condenando qualquer país. “Ninguém nasceu ontem, [esse mecanismo] existe para certos casos, certos países”, desafia. Sobre outro tema polêmico, garante: “O Brasil não apoia o Irã; apoia a paz”. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor, em que Amorim fala também de seus planos pessoais para 2011.
- Ministro…
- Li agora o documento entregue na ONU; de maneira nenhuma ele procura isentar nenhum país de nada, pelo contrário, o objetivo é tornar as recomendações dos órgãos de direitos humanos mais fáceis de implementar. Diz apenas que o método usado até agora, só condenação aos países, não foi efetivo, não mudou a situação de nenhum país. E há o fato de que as condenações são muito concentradas em uma ou duas regiões. Quando se leu alguma resolução sobre Guantánamo, ou algum país que permitiu que seus serviços de inteligência transferissem presos para lugares onde seriam torturados? Ninguém nasceu ontem, [o mecanismo] existe para certos casos e certos países.
- Todos os países passam por revisões no Conselho…
- O Brasil lutou muito para ter esse mecanismo universal, todos passam por isso: Brasil, Coreia, Irã, EUA. No documento levado a Genebra se fala em mecanismo para ver se as ações recomendadas podem ser implementadas; vai ter até quem o veja como intrusivo, porque pede informativos, visitas aos países por delegações de Estados-membros, estratégias para implementação das recomendações dos mecanismos de revisão periódica, como implementar recomendações dos outros mecanismos de direitos humanos…
- A questão direitos humanos ganhou fôlego por que…
- Porque é misto de má fé e ignorância. Ignorância porque não sabem como as coisas correm na realidade da vida, que países aliados militares de outros ficam totalmente isentos. Não vou dar exemplos, não quero romper relações diplomáticas, mas todo mundo sabe disso. Falei há pouco de Guantánamo porque até o presidente Obama falou; e os países cujos serviços de inteligência foram usados para levar presos, isso está noticiado. Não queremos dar refresco para nenhum país, queremos uma maneira que melhore, não para que os que tem complexo de culpa possam botar diploma na parede e dizer: condenei, e não mudar nada. O que me choca é a falta de interesse em melhorar de fato a situação de direitos humanos.
- Mas Cuba e Irã são dois países onde…
- A mídia está totalmente errada ao dizer que o Brasil apoia o Irã. O Brasil não apoia o Irã. O Brasil apoia a paz, procurou um acordo proposto pelos países ocidentais em relação a energia nuclear, evitar armas nucleares.
- Mas o presidente Lula faz declarações de apoio aos países, como quando compara oposição iraniana à torcida de futebol, diz ser avacalhação intervir por uma condenada à morte por adultério, diz que pode abrigá-la se ela estiver incomodando…
- Estamos trabalhando pelos direitos humanos, mas nossa maneira de agir é diferente de outros que fazem da hipocrisia sua maneira de principal instrumento. Condenam publicamente e financiam privadamente, em muitos casos.
- Citaria um exemplo?
- Não.
- Especialistas dizem que o Brasil emite sinais ambíguos, dá impressão de ser advogado dos interesses iranianos…
- Isso é imaginação, invenção das pessoas. Peguem os comentários feitos pelo Brasil sobre as exposições iranianas no Conselho de Direitos Humanos e verão que há muitas críticas e recomendações. Está disponível.
- Pode citar algumas?
- Várias: condenação à pena de morte para menores, sobre a situação da mulher. Agora, o Irã, com todos os defeitos, convidou a alta comissária de Direitos Humanos para ir lá, e ela não foi até agora, deve sofrer pressão de alguém para não ir. Não propomos refresco para ninguém. Os métodos tradicionais não funcionam, precisamos encontrar métodos eficazes, e entre eles existe a maneira como implementar as recomendações dessa revisão universal. Isso não é notícia nova sequer, há uma fabricação com objetivos políticos, no noticiário.
- Não só os jornais, as ONGs também se queixam do Brasil….
- As ONGs estão em sua missão de fiscalizar, como as de meio ambiente, que falam coisas que a gente não concorda, depois nos elogiam. A maneira como encaramos o processo, essa ideia da revisão periódica universal, eu defendi em Genebra, no governo FHC, justamente porque se pretendia tratar com isonomia, não permitir a politização, porque países entravam e outros não.
- Na Guiné Equatorial o senhor falou em negócios; seria tradição de isolar a economia do tema de direitos humanos?
- Um jornalista me fez uma pergunta, foi totalmente distorcida, sobre negócios com o país. Eu disse: qual manteiga você comprou hoje? Quais companhias de petróleo operam aqui? Não quer dizer que esteja endossando o governo. Não quis dizer que isso guia nossa diplomacia, mas que não se pode confundir as coisas. A manteiga era francesa, as companhias de petróleo, americanas.
- Outra crítica é que o Brasil se propõe a atuar como mediador…
- Não estamos propondo não, os outros países nos procuram. O Presidente da Síria esteve aqui, o [presidente da Autoridade Palestina] Mahmoud Abbas, o presidente de Israel e o presidente do Irã estiveram aqui.
- E na América do Sul, onde o Uruguai pediu em vão ajuda na crise com a Argentina pela instalação de papeleiras na fronteira?
- Só podemos ajudar quando os dois lados estão interessados, senão em vez de ajudar prejudica. No caso iraniano, recebemos estímulos de países ocidentais e outros para continuar na trilha e tinha óbvios interesses no Irã. Óbvio interesse dos dois lados.
- No caso de palestinos e Israel não havia tanto interesse…
- Essas coisas têm de ser levadas com delicadeza. Há movimentos sendo feitos, no caso eu, pessoalmente, em decorrência até de pedido de Israel.
- A aproximação com a Síria?
- Não vou dar detalhes, estive na Síria, Palestina, em Israel. E Turquia.
- O Brasil não poderia ser mais ativo no Mercosul? E as queixas dos uruguaios?
- Não agimos com imposição, não faz parte de nossa atitude. Há mecanismos persuasórios, mas se não funcionam não adianta forçar, tem de esperar que o momento ocorra.
- A reunião do Mercosul avançou com uma agenda que estava paralisada?
- O ministro não pode estar o tempo todo presente; lançam-se linhas de ação e elas avançam. Coisas que pareciam impossíveis ocorreram, houve o código aduaneiro, eliminação dos cronogramas, acordo de livre comércio com o Egito, o primeiro com país em desenvolvimento – além do que o Egito por si mesmo é país importante para nós. Tivemos uma coisa que não é comercial, mas é importante, o de gestão do aquífero Guarani. Só podemos exercitar plenamente nossa soberania mediante acordos de cooperação entre os quatro países.
- Mas não falta, como reconheceu na reunião, um cronograma para acabar com as exceções à tarifa comum? Como aplicar um código nas alfândegas com tantas diferenças de tarifa?
- Uma coisa pressiona a outra, é positivo. A inexistência de uma tarifa externa comum faz com que o mercado comum não se realize plenamente, dificulta até negociações externas. Não se consegue isso de um dia para o outro, mas se fizermos um cronograma -não quero botar números, dez anos, quinze anos que sejam, e umas exceçõezinhas para o final – teremos mecanismo de cobrança sobre nós mesmos . Vamos conseguir dessa vez? Foi grande êxito a reunião, vai até ficar difícil para o Brasil agora porque muitas coisas que estavam represadas saíram. Temos de começar outras iniciativas.
- Os chanceleres e presidentes discutiram as exceções à tarifa externa na última reunião?
- Falei na minha apresentação. Não houve discussão, estávamos muito concentrados em resolver nossos problemas. No último momento sempre há questões complexas. Até o ultimo momento estávamos empenhados em uma solução razoável para esse problema naquela reunião.
- Era a reivindicação argentina de incluir impostos de exportação no código?
- Não necessariamente o da Argentina, o Brasil aplicou por muito tempo imposto sobre exportação de couro wet blue…
- O Mercosul vai manter práticas como esse imposto de exportação?
- A medida em que a gente evolua para uma tarifa externa comum para valer, elimine a dupla cobrança da TEC, trabalhe para eliminar subsídios internos, não faz sentido ter imposto de exportação interno, mas isso será uma evolução.
- Na crise Venezuela e Colômbia, um dos problemas é a presença dos guerrilheiros das Farc na fronteira; não é um problema regional a ser atacado?
- As Farc nascem de qualquer maneira dentro da Colômbia, qualquer atitude tem de ser combinada com o governo colombiano. Não significa que não vamos melhorar o policiamento na fronteira, isso aliás vale para os dois lados. A ideia do Conselho de Defesa da Unasul é também poder trocar de informação, ter medidas de criação de confiança, incluir medidas desse tipo, certamente com o repúdio a grupos armados sobretudo ligados ao narcotráfico.
- Uribe desmoralizou a Unasul ao preferir denunciar na OEA a presença das Farc na Venezuela?
- Não desmoralizou, primeiro porque não é problema do Conselho de Defesa; quando se trata de denúncia é problema político. O Conselho é para encaminhar soluções ou que previnam que se chegue a esse ponto (de crise diplomática) ou para encaminhar alguma decisão política. Uma ação de um país não pode desmoralizar uma organização. O presidente Uribe tem direito de fazer a opção que quiser, também é membro da OEA, mas é muito mais provável conseguir solução na Unasul que na OEA.
- Defende a ideia de mecanismo conjunto de fiscalização das fronteiras na região
- Pode ajudar, mas pode ser bilateral, vamos respeitar as sensibilidades; essas coisas não podem ser impostas.
- Que metas o governo tem para o fim do governo?
- Resolver bem o que começamos. Sempre disse que o Brasil, até para atuar fora da região, precisa que a região esteja bem organizada e bem integrada. Demos passos importantes, não definitivos, não resolvem os problemas, temos de avançar mais. Não é eliminar as exceções; é como chegar a uma plena tarifa do Mercosul num numero X de anos. Tem sentido não ter acordo de compras governamentais que deem ao Mercosul uma preferência real? Temos de ter acordo de serviços mais amplo, maior liberalização, dar tratamento nacional às empresas do bloco em todos os países. Em vez de negociar setorzinho por setor será que não devemos ter meta para definir, que devem ser alcançadas? Talvez agora, com o fim do nosso governo, esteja na hora de pensar grande novamente no futuro. Essas metas temos de buscar.
- Pode-se fechar o acordo de livre comércio com a União Europeia neste ano?
- Não quero fazer previsões. Se forem pessimistas, tornam-se auto-cumpríveis; se muito otimistas, dirão que é a proverbial ingenuidade do Itamaraty. Vamos trabalhar, ver até onde avançamos. Acho que dá para avançar, mas, realisticamente, concluir negociação neste semestre, não sei. Aguardamos a resposta deles para nossa oferta agrícola.
- O que há entre EUA e Brasil para Lula falar em decepção com Barack Obama?
- Não posso fazer juízo assim, o presidente Obama é bem intencionado, muito importante para a política interna dos EUA, foi positivo o que fez na saúde, na disciplina dos bancos, Mas a política americana é complexa, parece não poder tratar de muitos assuntos ao mesmo tempo. Talvez o que o presidente Lula fale é da necessidade de maior compreensão do que é e como mudou a América Latina.
- O embaixador José Botafogo diz que a diplomacia aponta uma série de tarefas, mas confunde importância com prioridade. Se tudo é prioridade, desperdiça esforços.
- Quando o [secretário-geral do Itamaraty, Antônio] Patriota vai a um determinado lugar me sinto representado. Tanto que esses avanços todos no Mercosul foram obtidos na minha ausência. Quando há necessidade, pode ter certeza de que estamos presentes, como no caso do código aduaneiro no Mercosul.
- O senhor atuou diretamente?
- Me lembrei de problema parecido, no acordo Trips [direito de propriedade intelectual] da OMC. Garantimos que o assunto fosse mencionado, mas que cada um pudesse considerar-se representado.
- Ministro, já decidiu o que fará no próximo governo?
- Minha vida não se mede por governos.
- Em 2011, permanece no ministério? Falou com a candidata de seu partido?
- Não conversei, nem vou criar esse tipo de constrangimento para ela. Uma coisa garanto: não vou criar constrangimento a ninguém. E estou tomando providências: vou dar aulas na UFRJ. Não estou em idade de ensinar teoria, os mais jovens devem saber mais, mas posso transmitir experiência. Outra coisa minha mulher já fez: pedimos o apartamento nosso no Rio, em Copacabana que já está alugado.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:50

Lula e o risco do pitoresco ao ridículo

De Elio Gaspari:
“O Nosso Guia precisa pisar no freio de seu desembaraço internacional. Quem viu algumas das expressões de perplexidade no plenário da reunião com chefes de Estado caribenhos, em Brasília, quando anunciou que “depois da Presidência, vou continuar fazendo política” teve uma ideia do efeito que a ligeireza verbal do Grande Mestre provoca em reuniões internacionais. Noves fora a platitude, o que desconcertou parte da audiência foi a utilização de uma reunião desse tipo para um improviso de palanque municipal.
Na política internacional sempre há lugar para personagens improváveis. Alguns, como o Mahatma Gandhi (um “faquir seminu”, segundo Winston Churchill) ou Nelson Mandela, um prisioneiro sem rosto nem voz durante 27 anos, tornam-se figuras da história. Outros, como o jovem capitão Muammar Gaddafi, que destronou o rei senil da Líbia em 1969 e, quase septuagenário, ficou parecido com Cauby Peixoto, nas palavras de Lula.
A distância do improvável ao pitoresco é pequena e quase sempre benigna. Do pitoresco ao ridículo é imperceptível, porém maligna. O operário pobre que chega à Presidência de um país de 190 milhões de habitantes é uma história de sucesso em qualquer lugar do mundo. Não se pode dizer o mesmo do monoglota que tem o seu nome oferecido para a Secretaria-Geral da ONU, ou do latino-americano que sai pelo Oriente Médio oferecendo uma mediação desconexa, “risivelmente ingênua”, na opinião pouco protocolar atribuída à secretária de Estado Hillary Clinton.
No auge da crise financeira de 2008, Lula sugeriu que partisse da ONU “a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças”, com uma reunião dos presidentes dos Bancos Centrais e ministros da Fazenda dos 192 países-membros da organização. Do presidente do Federal Reserve Bank americano ao ministro das Finanças do reino de Tonga, Otenifi Matoto.
Pode-se entender que o Brasil tenha negócios com a Venezuela e que Nosso Guia e seu comissariado tenham afeto nostálgico por Fidel Castro. Daí a abrir uma embaixada no campo de concentração do “Querido Líder” norte-coreano ou a receber em Brasília o cleptocrata uzbeque Islam Karimov, cuja polícia ferveu dissidentes, vai grande distância.
Toda política externa tem algo de teatral, mas o embaixador Marcos Azambuja ensina, há décadas, que “os diplomatas são produtores de blá-blá-blá, mas não são consumidores”. A maior negociação diplomática ocorrida nos quase oito anos de diplomacia-companheira foi a Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio. O chanceler Celso Amorim trabalhou pelo seu êxito, deu um drible de última hora na Índia e na China, caiu numa armadilha da delegação americana e amargou um fracasso.
Quando uma diplomacia acredita no próprio teatro, deixa de ser associada a uma política externa e é vista como uma companhia de espetáculos. Sobretudo quando essa diplomacia gira em torno de um personagem-ator. Ainda falta algum chão para que Nosso Guia ganhe um retrato na galeria dos governantes pitorescos, como Silvio Berlusconi ou Boris Yeltsin de seus últimos anos, mas o caminho em que entrou pode levá-lo até lá.
Serviço: nas próximas quatro quartas-feiras o signatário usufruirá o abuso adquirido (expressão tucana) das férias”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:36

Collor briga pelo cunhado

O senador Fernando Collor decidiu paralisar as nomeações de 13 embaixadores pelo Itamaraty.
Todos aguardam para serem sabatinados pelo Senado, mas Collor decidiu pedir vistas de um dos processos, interrompendo assim a sua tramitação.
Antes, o Senado cobrava a presença de Celso Amorim na Comissão de Relações Exteriores, para explicar a política externa do país junto ao Irã.
O Chanceler compareceu, e Collor não deu as caras.
Agora que tudo parecia resolvido, o ex-presidente pediu vistas de uma das nomeações.
Tudo isso porque ele não conseguiu emplacar o cunhado Marcos Coimbra, como embaixador do Brasil na FAO – órgão das Nacões Unidas para Agricultura e Alimentação.
Esse é um dos mais cobiçados postos no exterior. Sua sede é em Roma.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:21

A política pós-Lula

O historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro disse a Diego Viana, do ‘Valor Econômico’, em Paris, que “os cenários políticos que podem emergir das urnas, em outubro, contêm elementos preocupantes, seja quem for o vencedor. Michel Temer, como eventual vice-presidente de Dilma Rousseff, tenderia a comandar um PMDB fortalecido demais, a ponto de comprometer o poder da presidente. Quanto a José Serra, Alencastro entende que o ex-governador de São Paulo, embora tenha “muita experiência” e seja “um grande líder”, tem “um problema sério”, derivado da dificuldade de formular uma proposta que se diferencie de políticas que se mostraram bem-sucedidas no governo Lula. Essa situação pode trazer certo conforto para a candidata do PT, mas está aí outro motivo de inquietação”, pois “não é sadio para país nenhum a ausência de alternância política”.
“Tendo acompanhado de perto a formação dos novos partidos, nos anos 1980, Alencastro conhece a dinâmica interna das principais legendas. No PT, vê o risco de transformação do lulismo no varguismo que o partido combateu em sua origem. Já o PSDB pode ficar circunscrito a São Paulo, enquanto a direita passa por um processo de radicalização semelhante ao dos republicanos nos Estados Unidos.
Exilado em 1968, Alencastro, então estudante da Universidade de Brasília, foi recebido na França pelo economista Celso Furtado e Raul Ryff, secretário de Imprensa do governo João Goulart. Na Europa, completou a graduação, o mestrado e o doutorado, antes de voltar ao Brasil para lecionar na Unicamp.
Titular da cadeira de História do Brasil na Sorbonne desde 2001, o autor de “O Trato dos Viventes” [Companhia das Letras, 2000] conversou com o Valor num café próximo de sua residência parisiense”.

                                                                   * * *

A seguir, trechos da entrevista.

“- A revista “The Economist” fez uma matéria de capa sobre o Brasil, dizendo que o futuro chegou para o país do futuro. O sr. compartilha desse otimismo?
- Até a oposição compartilha desse otimismo. Dentro e fora do país há um consenso favorável sobre a economia brasileira, sobretudo com a entrada da China no mercado mundial, com uma forte demanda por matérias-primas. O lado negativo é que o comércio externo fica parecido com o que era no século XIX. Há um risco nessa divisão internacional do trabalho que vai se criando, em que o Brasil vira exportador de matérias-primas novamente.
- E a perspectiva política?
- O que me assusta é a ideia de ter Michel Temer como vice-presidente. Ele é deputado há décadas e foi presidente da Câmara duas vezes. Controla a máquina do PMDB e o Congresso à perfeição. Vai compor chapa com uma candidata que nunca teve mandato e é novata no PT. O presidencialismo pressupõe um vice discreto, porque ele é eleito de carona, para trazer alianças e palanques. Aos trancos e barrancos, instaurou-se um sistema presidencialista que tem dado certo no Brasil. O fato de haver dois turnos, associado à integração do vice na chapa do presidente, deu estabilidade ao sistema. Foi assim com Fernando Henrique e Marco Maciel. Foi assim com Lula e José de Alencar. Dilma e Temer formam uma combinação inédita: uma candidata até então sem mandato associada a um político cheio de mandatos e dono do PMDB, que é o maior partido do Brasil, mas nunca elegeu um presidente e vai com sede ao pote. O PMDB pode estabelecer um vice-presidencialismo, com um papel de protagonista que seria descabido.
- Dilma é considerada uma administradora eficiente, mas não tem uma carreira política como a de Lula. Isso pode comprometer seu governo?
- Ela assumiu a Casa Civil num momento difícil. O governo e o país estavam em crise e, por muito tempo, não se falou nela, o que é um indício de grande eficácia. Num cargo exposto como esse, não ser notícia é um grande feito. Isso prova que não é ficção sua fama de boa administradora. Mas acho problemático ela não ter a experiência de um mandato eletivo.
- Lula, quando eleito, só tinha passado pela Assembleia Constituinte.
- Mas era o fundador de um importante partido político e um grande líder sindical. O lado conciliador de Lula vem daí, da experiência de conversar no botequim com os companheiros, negociar com o patronato, avaliar relações de força na fábrica e na política. Se ele errasse, dirigindo uma greve furada, a sanção não seria perder um mandato, mas ter no dia seguinte dezenas de trabalhadores no olho da rua. Sem contar as campanhas, as três que perdeu para presidente e uma para governador de São Paulo, em 1982. Dilma foi secretária estadual no Rio Grande do Sul, um Estado muito politizado, mas isso não equivale a um cargo eletivo.
- Serra, o sr. conhece melhor.
- Serra tem muita experiência e é um grande líder. Mas tem um problema sério. Vou formulá-lo de maneira abrupta: e se Serra for um blefe? Explico: ele é apresentado desde 1982, quando foi secretário de Planejamento em São Paulo, como o reformador do Brasil, o homem que vai racionalizar a economia e dar jeito no país. Quando Fernando Henrique ganhou, ele foi ministro do Planejamento, mas ficou fora da política econômica. Como se dizia, Serra era o candidato da Fiesp, da indústria, e Fernando Henrique, da Febraban, dos banqueiros. Serra foi parar na Saúde e até hoje não quer ser associado àquela política econômica, de que era crítico acerbo.
- Já em 2002 ele tentava se apresentar como ruptura.
- As pesquisas mostravam uma rejeição ao candidato indicado por Fernando Henrique. Isso continua. É curioso esse excesso de impopularidade. Chega a ser injusto. Não tem um vereador do PSDB que faça santinho dizendo ser candidato do partido de Fernando Henrique. Pergunto às pessoas, quando vou ao Brasil, o que as incomoda em Fernando Henrique. Fala-se das privatizações: “Vendeu tudo e não se viu o dinheiro”. Ou nos bilhões de dólares queimados na gestão temerária da paridade cambial. Ou coisas mais subjetivas, misteriosas: “O jeito como ele ri”…
- Voltando a Serra, e se ele for um blefe, como o sr. diz?
- O problema dele é esse: com a expectativa em torno de seu nome, ele vai fazer o quê no governo? A própria Fiesp, que mais ela quer, senão seguir com a política de Lula? E os banqueiros, que se entopem de dinheiro? Sem contar os 26 milhões de pessoas que subiram na escala social. Não dá para saber o que Serra vai fazer. Não pode entrar com o discurso de acabar com a corrupção, porque isso não dá muito refresco e depende mais da Justiça, dos tribunais de contas.
- Essa situação parece confortável para Dilma.
- Esse pode ser outro motivo de inquietação. Não é sadio para país nenhum a ausência de alternância política. A transição de Fernando Henrique para Lula foi a primeira alternância que houve no Brasil dentro da legalidade democrática. Era a última hipoteca que pesava sobre a democracia brasileira. Uma democracia não é só ter partido político e eleição. É preciso que a oposição também possa ganhar. Isto posto, no Chile a “Concertación” ficou 20 anos no poder, só perdeu agora. Se o Lula voltar em 2014, e ficar 8 anos, aí vamos ter 20 anos de PT na Presidência. Penso que será mais complicado que o ocorrido no Chile.
- De todo modo, é uma projeção.
- É uma projeção, mas está no horizonte de gente como Aécio Neves, que deve estar inquieto. E não é uma perspectiva nova. Em 2006, a candidatura de Fernando Henrique estava na pauta. Na época, Serra teria dito: “Se for para perder, o candidato sou eu. Se for para ganhar, é Fernando Henrique.” Essa projeção não é irracional. Os dois mandatos de Lula criaram algo novo. O cientista político André Singer mostra [em artigo para a revista "Novos Estudos"] que Lula foi eleito no primeiro mandato pelos operários sindicalizados e pela classe média. No segundo, perdeu uma parte da classe média e ganhou entre trabalhadores não organizados e subempregados, graças aos programas sociais. Isso resultou num novo populismo. Segundo Singer, esse eleitorado é conservador, não quer mudanças, quer que o governo tome conta dele. Acho essa interpretação um pouco estática, porque pressupõe que a ascensão social desse subproletariado não incomoda ninguém, e que a ameaça de perder o que ganhou não o levará a uma politização ativa.
- A classe média também pode gerar instabilidade, ao sentir que perde privilégios?
- Isso já está acontecendo. É o que alimenta a agressividade anti-Lula de certos jornais e revistas, que retratam a perplexidade de uma camada social insegura: os pobres estão satisfeitos e os ricaços também, mas a velha classe média não acha graça nenhuma. Ter doméstica com direito trabalhista, pobres e remediados comprando carro e atrapalhando o trânsito, não ter faculdade pública garantida para os filhos matriculados em escola particular. Tudo isso é resultado da mobilidade social, que provoca incompreensão e ressentimento numa parte da classe média. Daí o furor contra o ProUni, as cotas na universidade, o Bolsa Família. Leio a imprensa brasileira pela internet e às vezes fico pasmo com os comentários dos leitores, a agressividade e o preconceito social explícitos. O discurso de gente como o senador Demóstenes Torres no DEM [contra o sistema de cotas raciais nas universidades públicas] indica uma guinada à direita da direita parecida com a dos republicanos nos Estados Unidos. Lá, esse extremismo empolgou o partido inteiro e pode desestabilizar o país. A falta de perspectiva da oposição cria um vácuo para o radicalismo.
- A oposição está desarticulada?
- Desarticulada e sem discurso político coerente, e isso é ruim para o Brasil. Como ela vai se reorganizar? E vamos extrapolar: se perder São Paulo e o Rio Grande do Sul, acaba como força política nacional. Um desequilíbrio tamanho entre os partidos é problemático. Novamente, o exemplo americano: fico impressionado não só com o radicalismo, mas com a histeria. Obama é chamado de Anticristo… O Brasil pode enveredar por aí. Brasil e Estados Unidos são países conservadores e precisam ter um partido conservador à altura. A desarticulação da direita não é bom sinal. É preciso uma alternativa conservadora que mantenha a insatisfação no jogo eleitoral. Foi isso que o PT fez na esquerda. Ainda no tempo da ditadura, recolheu o sindicalismo apartidário, a franja próxima da luta armada, que tinha sido desmantelada, e a militância cristã, que não tinha onde se expressar eleitoralmente. Isso fez a força do PT.
- Depois de 2003, muitos desses foram embora, como os fundadores do PSOL.
- Foram, mas não saíram do quadro institucional. No México ainda tem gente fazendo política com capuz e arma na mão, como o subcomandante Marcos [porta-voz do comando militar do grupo indígena chamado Exército Zapatista de Libertação Nacional]. Na Argentina, não houve alternância completa: não conseguiram se livrar do peronismo até hoje. A China é uma ditadura que explora brutalmente sua classe operária. A Índia tem atentados a bomba. A Rússia está envolvida numa guerra colonial na Tchetchênia. O Brasil é o único dos Bric [grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China] sem bomba atômica, sem encrencas com os vizinhos e com uma prática democrática bem enraizada.
- A tendência, então, é Serra liderar uma direita radicalizada?
- O problema é que, a princípio, Serra não é o candidato que a direita gostaria de ter. Ele é um democrata com trânsito numa parte da esquerda. Também é meio estatizante, adepto de uma política tarifária protecionista e por aí vai. Não é a mesma direita de Demóstenes Torres, Ronaldo Caiado ou mesmo Geraldo Alckmin. Por quê? Porque Serra teve a experiência da perseguição política, da ditadura, do exílio. Companheiros dele foram mortos, outros torturados. Isso até o aproxima de Dilma: os dois principais candidatos à presidência correram o risco de ser assassinados pela direita mais radical. Serra ainda escapou de Pinochet quando estava no Chile. De Paris, acompanhei com atenção sua volta ao Brasil em 1977, antes da anistia. Eduardo Kugelmas [sociólogo e cientista político, morto em 2006], quando soube que Serra tinha voltado sem ser preso, me disse: “Todo mundo pode voltar agora. Serra é um elefante de piranha. Se ele passou, todo mundo pode voltar”. Hoje, o que torna sua candidatura difícil é não ter um discurso mais abrangente, além do anti-PT, para atrair outros setores.
- A aliança possível para Serra seria talvez a direita radical, com que não se identifica. E sua adversária é uma esquerda que se aproximou das ideias que ele defendia…
- Serra está confrontado a um impasse. Não pode elogiar Fernando Henrique e não pode atacar Lula. Que candidato ele pode ser? Qual é seu terreno? Ele pode ser um blefe nesse sentido. Na campanha, vai ter de prometer continuidade para os programas do PT. Quando Sérgio Guerra disse que o PSDB faria tudo diferente, foi um desastre. Disse que ia mexer no câmbio e nos juros. Falou disparates e levou um cala-boca do partido.
- Isso pode fazer com que a campanha se torne virulenta?
- Na blogosfera, já começou. É terrível, a começar pelo episódio da ficha policial falsa de Dilma. É um sinal do que está por vir. Vai ser um vale-tudo monumental. Embora o impacto disso seja limitado no grande eleitorado, é forte entre os chamados “formadores de opinião”. Sobretudo, cria um clima de tensão e de irresponsabilidade na campanha presidencial.
- A presidente da Associação Nacionais de Jornais, Judith Brito, disse que a fraqueza da oposição leva a imprensa a agir como partido. O que significa a imprensa se comportar como partido político?
- Normalmente, a imprensa defende a Constituição, reformas políticas, ideias. Não há nada errado, por exemplo, em apoiar candidatos. O “New York Times” apoiou Obama, mas tem um trabalho jornalístico sério e equilibrado. Esse é o papel da imprensa, o que é diferente de querer substituir partidos políticos. Fiquei perplexo com o texto de uma coluna regular num grande jornal carioca que continha uma proposta partidária para o PSDB. O papel do jornalista não é redigir programas partidários.
- Aécio Neves fala de um voto antipaulista que poderia prejudicar Serra.
- Aécio vem falando nisso desde 2002. A política nacional sempre foi perturbada pela política paulista. São Paulo não consegue se arrumar internamente por razões objetivas: é o maior Estado industrial, mas também o maior Estado agrário. Tem alta tecnologia, mas grandes favelas. Pesa economicamente do Oiapoque ao Chuí, no Paraguai e na Bolívia. Tudo isso cria rivalidades fortes na esfera estadual e a influência do Estado no país faz com que essa desordem repercuta nacionalmente.
- O PSDB é cada vez mais dependente desse Estado. Ele pode se tornar uma versão moderna dos partidos paulistas de antigamente?
- É uma possibilidade. No Rio Grande do Sul, por exemplo, Tarso Genro já empatou com José Fogaça. Se o PT toma o Rio Grande, sobra pouco para o PSDB fora de São Paulo. Fernando Henrique disse numa entrevista quando percebeu que a eleição de 1994 estava ganha: na Bahia, foi mais ovacionado que Antonio Carlos Magalhães. As pessoas agitavam notas de um real. Qual é o real do Serra? O real da Dilma são o Bolsa-Família, o PAC, o ProUni. Serra vai vender o quê? A grande mudança trazida pela ditadura eram os partidos nacionais, tanto na direita quanto na esquerda. Mas isso está acabando. O último partido nacional é o PT, os outros são fragmentos de costuras locais. Com isso, o que acontece? O desabamento do PFL, hoje DEM, à direita. Um PDMB que virou essa massa informe, que permeia tudo com clientelismo e é o maior partido do país. O PSDB pode se tornar um partido ilhado.
- Como fica o PT nessa configuração?
- Como partido no poder, o PT se aguenta, porque tem financiamento também do patronato, empreiteiras, grupos que antes não o financiavam. O PT tem ainda uma máquina partidária bem operacional, tempo de televisão e, claro, a disciplina partidária. Mal ou bem, eleições para a direção do PT têm atraído dezenas de milhares de militantes. Que outro partido brasileiro tem essa participação? Todo mundo se lembra da “convenção do Massimo”, que reuniu Serra, Aécio, Fernando Henrique e Tasso Jereissati, em fevereiro de 2006, num dos restaurantes mais caros do Brasil, em São Paulo, para discutir a candidatura do PSDB às eleições presidenciais daquele ano.
- O PT sofreu mutações desde que Lula foi eleito.
- O aparelho, que se mexia sozinho, foi decapitado com a derrocada de [Luiz] Gushiken, [Antonio] Palocci e [José] Dirceu. Lula tomou conta e o partido perdeu sua independência. Tarso Genro disse que a candidatura Dilma cresceu no vazio que se criou dentro PT, e tem razão. O próprio Tarso, em 1997, foi pré-candidato contra Lula. Imagine se hoje isso seria possível! Existe um problema de sobrevivência para o PT pós-Lula. O movimento mais forte do Brasil no século XX, o varguismo, esgotou-se quando Lula foi para o segundo turno em 1989, batendo Brizola e puxando o eleitorado trabalhista. O PT também pode se desarticular porque perdeu o debate interno. Em 2005, com o escândalo do mensalão, Raul Pont propôs uma refundação do partido e enfrentou [Ricardo] Berzoini nas eleições internas. Perdeu, depois sumiu. Ninguém mais ouve falar nele, nem se sabe o que ele pensa. A ausência de debate interno pode transformar o PT num partido amorfo, corroído pelo empreguismo e o clientelismo político.
- A política brasileira caminha para a fragmentação?
- O que está acontecendo é a fagocitose das estratégias partidárias nacionais pela política estadual. É um efeito das reeleições nos Estados e nos municípios. Isso também coloca outros problemas. Seria necessário que os tribunais de contas estaduais e municipais fossem mais fortes, mais independentes – como o Tribunal de Contas da União – para escapar ao sobrepeso de um governador ou prefeito que é reeleito. As contas do Maluf, por exemplo, sempre foram aprovadas, e hoje ele está na lista vermelha da Interpol. Isso deveria levar a um questionamento maior no Brasil. Primeiro, nos partidos. Eles têm comissões de ética, mas abrigam eleitos acusados de diversos crimes. Depois, na imprensa, que deveria questionar tribunais de contas que aprovam o exercício de governadores e prefeitos delinquentes. Os editores deveriam pautar repórteres para recuperar os documentos, interrogar os membros desses tribunais. Como pode alguém ser perseguido pela Interpol, podendo ser preso em 181 países por causa disso, mas passar pelas regras da gestão pública brasileira?
- A política externa brasileira tem recebido elogios no exterior, mas críticas pesadas no país. A que o sr. atribuiria essa disparidade?
- Pela primeira vez, desde 1850, quando a marinha de guerra inglesa bloqueava a baía de Guanabara por causa do tráfico negreiro, a diplomacia brasileira entrou na agenda da campanha eleitoral nacional. Acho uma coisa muito boa. Durante a ditadura, política externa era um assunto secundário. Depois, com a internet, os jornais desistiram de ter sucursais e correspondentes no exterior. Ora, a política externa virou um assunto complexo, mas o Brasil não tem especialistas suficientes nos jornais ou nas universidades. A imprensa não segue política internacional de maneira adequada. Exige-se mais conhecimento específico dos jornalistas esportivos que de quem cobre o setor internacional. Há um quarteto de embaixadores aposentados que estão sempre na televisão, batendo em Celso Amorim e Lula. Repetem que a política externa é um desastre. Desastre? Os jornais americanos e europeus discordam. Nunca vi o Brasil com tanto prestígio. É até desproporcionado, dado o peso ínfimo do país no comércio internacional. Ao contrário da Índia e da China, potências atômicas com peso comercial enorme. Em maio, Lula vai ao Irã e está sendo criticado no Brasil. Já a “Economist” diz que é bom, porque abre novos canais de comunicação entre Estados Unidos e Irã. Nos últimos dias, a diplomacia brasileira usou com habilidade as regras da OMC e as manobras políticas para rebater o protecionismo americano na questão do comércio do algodão. Tenho certeza de que esse assunto, que começou em 2002 e ainda não terminou, ficará como um marco na história diplomática”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:13

PT pedirá a Cabral cabeça de Picciani

Da repórter Paola de Moura, do ‘Valor Econômico’
“A direção nacional do PT virá ao Rio nos próximos dias para negociar com o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), uma mudança na chapa que compõe a aliança entre o PT e o PMDB no Estado. Isto porque, segundo o ex-prefeito Lindberg Farias, que renunciou ontem ao cargo para disputar a vaga ao Senado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quer uma composição com o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) e não com o presidente da Assembleia Legislativa fluminense, o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB-RJ), desejada pelo governador Cabral.
Segundo o ex-prefeito, Lula teria lhe contado pessoalmente a preferência. A página do senador Crivella, na Internet, conta que Lula comunicou ao presidente do PT, José Eduardo Dutra, sua decisão na semana passada e também teria declarado seu apoio, numa reunião no CCBB em Brasília, a toda base aliada no Senado. O fato é que Crivella é presença constante ao lado de Lula em quase todos os eventos públicos realizados no Rio. Na última vez em que o presidente esteve no Rio, durante o 5º Fórum Urbano Mundial, o senador estava lá sentado na primeira fila ao lado de Cabral, da ministra da Casa Civil Dilma Rousseff e de Lula.
O ex-prefeito Lindberg, que também anda de braço dado com representantes das igrejas protestantes, como o ex-cantor de pagode e atual pastor da Igreja Missionária Novo Israel, Waguinho (presente na cerimônia de transição), está gostando da troca. Lindberg diz que terá uma relação mais intensa no palanque caso o escolhido seja o senador Crivella. “Vejo duas possibilidades, uma relação intensa no palanque e outra mais fria e distante”, analisa o candidato, que revela também ter levado um puxão de orelhas do diretório nacional do PT, pedindo que ele se acalmasse porque tudo seria negociado com Cabral.
Apesar disso, Lindberg bateu mais um pouco no deputado Picciani. Questionado sobre a manchete do jornal carioca O Dia, que relembrava que o ex-prefeito está sendo investigado pelo Ministério Público Federal, Lindberg respondeu: “Isto é o tipo de batalha que vamos ter que enfrentar”, dando a entender que a reportagem teria sido influenciada pelo presidente da Alerj. “Mas não tem problema, vou abrir meus sigilos na campanha e desafio os outros candidatos a fazer o mesmo”, promete. Lindberg Farias teve os sigilos quebrados em meados do ano passado numa investigação do MP sobre um suposto desvio de verbas.
No entanto, o ex-prefeito acredita que toda esta briga não é boa politicamente. “Ela não é boa para mim, nem para o Cabral, tem que ser resolvida com serenidade”, reflete, dizendo que vai deixar mesmo por conta da direção nacional do partido. “É um problema da direção dos partidos”.
O ex-prefeito negou que esteja negociando uma vaga de ministro num eventual governo Dilma Rousseff, conforme publicado ontem no jornal “O Globo”. No entanto, Lindberg disse que a discussão chegou a ser levantada há alguns meses. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, seria seu suplente e ocuparia a vaga no Senado quando Lindberg virasse ministro. “Não quero ser ministro, quero ser o senador da Baixada Fluminense. Tenho muito mais a fazer por esta terra”, afirma, já em campanha”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:12

Lula veta Celso Amorim

De Ilimar Franco, no Panorama Político:
“O ministro Celso Amorim (Relações Exteriores) ficou tentado a deixar o cargo para participar das eleições no Rio. O candidato do PT ao Senado, Lindberg Farias, o convidou para ser primeiro suplente de sua chapa. Uma vez eleito, Lindberg almeja um cargo de ministro ou secretário estadual e acenou com o exercício do mandato para Amorim. A articulação não foi adiante. O presidente Lula foi contra.
Na segunda-feira à noite, Lula disse a Amorim: Um chanceler não pode ser suplente”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:11

O Haiti e o futuro

Do Chanceler Celso Amorim, em artigo para a ‘Folha’:
“A nova visita que fiz a Porto Príncipe desde que assumi as funções de chanceler no governo do presidente Lula foi, sem dúvida, a mais desalentadora. O terremoto de 12 de janeiro, além de provocar a monumental tragédia humana que todos acompanhamos, fez retroceder um processo virtuoso de superação de dificuldades seculares.
A descrição que Voltaire fez de Lisboa após o sismo de 1755 coincidetristemente com a destruição que testemunhei ao percorrer a capitalhaitiana. E, a exemplo da ampla discussão moral desencadeada pelo poemado filósofo francês, a catástrofe haitiana lança hoje um desafio àcapacidade da comunidade internacional de reagir diante de um desastreque afeta não apenas o povo do Haiti, mas a humanidade toda.
Ao realizar hoje, dia 31 de março, na sede das Nações Unidas em Nova York, a Conferência de Doadores por um Novo Futuro para o Haiti, a comunidade internacional confronta-se com a
oportunidade de reafirmar, com ações concretas, sua solidariedade e disposição para ajudar o Haiti a recuperar-se da tragédia.
O Brasil, escolhido como um dos copresidentes da conferência, defenderá que o objetivo central do encontro seja construir, sob a condução das lideranças haitianas, as condições para o desenvolvimento social e econômico de longo prazo no Haiti.
Desde 2004, quando assumiu o comando militar da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah), o Brasil sustenta que segurançae desenvolvimento são dimensões inseparáveis para encaminhar umasolução duradoura para a situação haitiana.
A ajuda que o governo brasileiro estendeu ao Haiti já superou US$ 200 milhões. Trata-se da maior soma que o Brasil destinou a um país vitimado por catástrofe natural. Em Nova York, anunciarei compromissos adicionais que elevarão a cerca de US$ 340 milhões essa contribuição. É um montante considerável para um país em desenvolvimento como o Brasil.
Tenho a certeza de que essa resposta ao chamado da solidariedade orgulharia os brasileiros que perdemos entre as vítimas do terremoto, como a dra. Zilda Arns, o vice-representante especial da ONU, Luiz Carlos da Costa, e nossos militares.
Não basta, contudo, canalizar bilhões de dólares para uma miríade de projetos de cooperação com o Haiti se não houver uma visão estratégica para o futuro do país. Sem ela, corremos o risco de apaziguar momentaneamente nossas consciências, deixando intactas as raízes históricas e sociais que explicam o atraso haitiano.
A Conferência de Doadores dá passos positivos para superar essa lógica,ao prever a criação de um fundo fiduciário único, que dirigirá recursospara prioridades estabelecidas pelo governo do Haiti no seu Plano deAção.
Tenho proposto que países em condições de fazê-lo -sobretudo os mais desenvolvidos- ofereçam ao Haiti a abertura de seus mercados, sem tarifas nem quotas, de modo a incentivar investimentos produtivos em território haitiano. O Brasil espera pôr em prática em breve seu próprio mecanismo facilitado para importação de mercadorias haitianas, em especial têxteis, em linha com a aspiração do setor privado brasileiro de instalar unidades fabris naquele país.
Com o objetivo de gerar empregos e renda no Haiti e melhorar as condições ambientais, sugeri no Fórum Econômico Mundial que o Banco Mundial liderasse o financiamento de amplo programa de reflorestamento, cuja contrapartida deveria ser a abertura de mercados importadores para produtos do manejo sustentável das áreas reflorestadas no Haiti.
No campo da infraestrutura, o Exército brasileiro já vem elaborando projeto técnico para a construção de barragem no rio Artibonite, que permitirá a produção de energia limpa e renovável, bem como irrigação para agricultura.
São muitos e de grande monta os desafios da reconstrução. Aproxima-se a estação das chuvas, que demandará a reacomodação em condições dignas das populações deslocadas pelo terremoto. O fornecimento de bens emergenciais deverá continuar pelos próximos meses, em paralelo ao esforço de plantio da próxima safra.
Escolas terão de ser erguidas e, ao mesmo tempo, as famílias precisarão recobrar a confiança de que seus filhos podem voltar aos bancos escolares sem medo de desabamentos.
Hospitais improvisados terão de ser substituídos por estruturas permanentes.
Tenho a convicção de que, com a contribuição adequada da comunidade internacional, o povo haitiano, com sua coragem e resistência invejáveis, será capaz de superar essas adversidades e refundar seu país. Nosso compromisso em Nova York deve ser o de coadjuvar o Haiti em uma nova independência”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:09

O futuro do PT

O PT do Rio tem uma bancada federal de apenas 5 deputados.
Luiz Sergio, Carlos Santana, Cida Diogo, Chico D’Angelo e Antonio Carlos Biscaia, sendo que esses dois últimos são suplentes e , na  próxima semana, devolverão suas cadeiras aos titulares Edson Santos e Jorge Bittar.
Nada leva a crer a bancada aumente, nas próximas eleições.
Wladimir Palmeira e Alessandro Molon serão candidatos a deputado federal, com eleição praticamente garantida.
Sobrarão então três cadeiras, para sete candidatos.
Se Carlos Minc fosse concorrer à Câmara, sobrariam duas e, se o chanceler Celso Amorim viesse para o Rio, restaria somente uma para ser disputada pelos demais.
Mas se todos fossem candidatos, seria possível até sonhar com um aumento da bancada federal e, quem sabe, ela chegasse a seis, sete ou mesmo oito deputados.
Mas o partido, no Rio, é a unica seção do país que não vingou, por motivos os mais diversos, sendo o que principal deles é a intervenção constante dos dirigentes nacionais nas coisas internas do Rio.
Assim foi com Vladimir, assim foi com Bené, assim foi com Molon, assim foi com Lindberg, e assim será na próxima eleição.
Seja quem fôr o candidato.

CORREÇÃO:

Fui alertado e corrigo: o deputado Biscaia  é o suplente do ministro Edson Santos, mas o suplente do secretário Bittar é Glauber Braga, do PSB, e não o deputado Chico D’Angelo.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:32

Hillary pressionará contra o Irã

Dos colunistas Clovis Rossi e Eliane Catanhede, da ‘Folha’:
“A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, insistirá hoje com o presidente Lula e com o chanceler Celso Amorim para que o Brasil apoie o endurecimento das sanções contra o Irã, para tentar forçá-lo a manter o programa nuclear nos limite do uso pacífico.
Seus interlocutores brasileiros insistirão que sanções não contribuem para resolver problemas, de que dá prova o próprio Irã, “que já está sob sanção das Nações Unidas”, como diz Amorim. “Sanções atingem a população que mais necessita e nem por isso modificam o comportamento do governante. Qualquer pessoa sensata pensa assim”, disse o chanceler.
Esse desencontro de posições significa um atrito entre os dois países? Só muito superficial. Basta saber que a visita de Hillary servirá de pretexto para um acordo que cria um diálogo estratégico permanente Brasil/Estados Unidos, o que implica reuniões de alto nível (chanceleres) a cada ano, uma no Brasil, outra nos EUA.
Sem falar que haverá a assinatura de três outros acordos: um para o combate conjunto à violência de gênero, especialmente quando envolve crianças; outro para um diálogo permanente sobre questões climáticas, e, o terceiro, um entendimento para a cooperação trilateral. Ou seja, Brasil e Estados Unidos atuarão em conjunto em projetos de desenvolvimento em terceiros países, com forte ênfase no Haiti e na África.
Mesmo no caso do Irã, é preciso qualificar o desacordo, lembrando o contexto de conversações anteriores entre Lula e Barack Obama, a começar do encontro que tiveram à margem da cúpula do G8+5 em L”Aquila, na Itália, há nove meses.
Obama até estimulou o diálogo Brasil/Irã, desde que o governo brasileiro usasse o peso de seu relacionamento comercial e econômico com o Irã para defender o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear.
Foi o que Lula fez ao receber o presidente Mahmoud Ahmedinejad, meses depois. Reconheceu o “o direito do Irã de desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos”, mas cobrou “respeito aos acordos internacionais” e ainda acrescentou que “esse é o caminho que o Brasil vem trilhando”.
De lá para cá, o Brasil manteve rigorosamente a mesma posição. O que mudou foi a posição do governo Obama, que se tornou muito mais dura em relação ao Irã, em boa medida como consequência de suas dificuldades internas.
O chanceler Amorim anota que “as posições estão se enrijecendo”, mas acrescenta que o presidente Ahmedinejad tem sempre revelado disposição para negociar a questão nuclear.
Uma impressão que combina com o fato de que autoridades norte-americanas, em conversas reservadas com seus colegas brasileiros, têm dito que Ahmedinejad nem é o mais inflexível no tema. Até a oposição a ele seria mais rígida.
Por isso mesmo, Amorim defende a tese de que “se deveria dar uma chance a uma discussão mais aprofundada”. “Não é simples mas é necessário.”
É a posição da China, o único dos cinco países do Conselho de Segurança da ONU com direito a veto. O porta-voz do Ministério do Exterior chinês, Qin Gang, disse ontem que ainda há espaço para negociações, antes da adoção de sanções.
Como a China pode vetar qualquer nova sanção, perde urgência a eventual pressão norte-americana para que o Brasil aceite o novo pacote. Tanto que a própria Hillary Clinton disse, pouco antes de desembarcar em Buenos Aires ontem, que imaginava que as sanções poderiam levar “vários meses” para serem adotadas.
Um motivo a mais para desarmar uma eventual tensão com o Brasil. Nesses meses, Lula irá primeiro a Israel, o país que mais defende sanções pesadas ao Irã, e depois a Teerã. “Mesmo que quisesse a bomba, o Irã não poderia tê-la em dois meses ou três”, diz Amorim”.

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.