• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:16

José Serra não é Carlos Lacerda

Do jornalista Elio Gaspari:
“Como era previsível, uma única palavra ? ?roubalheira? ? deu o tom do discurso de despedida de José Serra. Pena. Foi uma fala tediosa, mas uma só palavra desviou o curso de uma reflexão em torno de ideias, honradez e sobriedade administrativas.
Ela não caiu como cabelo na sopa. Foi um flerte com ?a busca da notícia fácil? que o próprio Serra criticaria no mesmo discurso.
Com suas pressões e ansiedades, as campanhas moldam os candidatos. Quando entrou na disputa pela Presidência, Barack Obama não tinha proposta para a reforma dos planos de saúde. Juscelino Kubitschek nunca pensara em construir Brasília até que, meses antes da eleição, um estudante chamado Toniquinho perguntoulhe se cumpriria o dispositivo constitucional que previa a transferência da capital para o Planalto.
Na atual campanha, há uma energia interna no mandarinato oposicionista que procura um foco na denúncia da amoralidade do governo de Lula. Foi essa força que levou o ?roubalheira? para o discurso de Serra.
Se essa tática prevalecer, acarretará vários riscos, todos lesivos ao nível político do país e à biografia do candidato. O combate à corrupção não deve ser plataforma de governo, mas pressuposto.
O país sofre com o desembaraço dos mensaleiros e com a proteção paternal que Lula lhes dá, assim como padece com o silêncio tucano diante da cassação do mandato, pela Justiça, de seu governador da Paraíba. O mais ilustre detento do sistema carcerário nacional é o ex-governador José Roberto Arruda, o queridinho do DEM, que chegou a aspirar à vice-presidência na chapa de Serra.
Dois presidentes chegaram ao Planalto montados na bandeira da moralidade: Jânio Quadros (seu símbolo de campanha era uma vassoura) e Fernando Collor. Nenhum dos dois concluiu o mandato, e Jânio tornou-se o único governante nacional com conta secreta no exterior disputada em juízo. Esses exemplos não devem estimular complacência, apenas ilustram que o moralismo é um refúgio habitual do corrupto.
Serra nada tem a ver com Jânio e Collor. Faltam-lhe até mesmo a teatralidade, o oportunismo e a mediocridade administrativa. Pelas obsessões, pelo estilo e pela visão de governo, ele se parece com Carlos Lacerda, seu adversário juvenil. Lacerda foi o maior governante da História do Rio de Janeiro (1960-1965). Fez a adutora do Guandu e resolveu o problema secular do abastecimento de água da cidade. Urbanizou o Aterro do Flamengo, abriu o túnel Rebouças e remendou a rede escolar pública. Desse Lacerda, o ?Carlos? dos amigos, pouco se fala. O personagem da História foi outro, o ?Corvo? dos inimigos, que carimbava ?roubalheira? nos adversários. Demolidor audaz, escondia em ímpetos de calculada agressividade um temperamento egocêntrico e depressivo. Carregava nas costas o suicídio de Getulio Vargas (cujos capangas tentaram matá-lo em 1954), assim como carregou a deposição de João Goulart e um pedaço da ditadura que se instalou em 1964.
Vale ouvi-lo: Sobre Vargas: ?Getulio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência.
Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse.
Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar?.
Sobre Juscelino Kubitschek: ?Um político notoriamente desonesto, cujo enriquecimento, seu e de seus amigos, constitui uma afronta ao país?.
Sobre João Goulart: ?Eu agarro o touro pelos chifres?. Diante dos risos da plateia, fez um adendo infame: ?E ele os têm?.
Sobre o presidente Castello Branco: ?O marechal é um anjo da rua Conde Lages?. (Numa referência aos santos colocados nas salas de estar dos bordéis da Lapa.) Nada a ver com Serra. Numa trapaça do tempo, ele recorreu ao ?roubalheira? no dia 31 de março, exatos 46 anos depois do levante militar que o levou ao exílio e deu a Lacerda um breve período de esplendor.
Uma campanha desqualificadora que fecha seu foco na denúncia da corrupção alheia precisa que o candidato puxe o samba. Para aprender esse papel, Serra tem idade demais e treino de menos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:35

Sarney sobre Tancredo Neves

Do senador José Sarney, na ‘Folha’:
“O tempo se comporta em relação à memória dos homens de maneira contraditória: a de uns desaparece nas garoas do tempo; a de outros vai se tornando mais nítida, liberta das poeiras do cotidiano.
Tancredo Neves tem a sua imagem cada vez mais definida, visto como o maior político da vida brasileira contemporânea.
Em todos os episódios que abalaram as nossas instituições em 1954, 1955, 1961, 1964 e 1985, foi ele o responsável pela engenharia política que nos permitiu conservar o objetivo democrático. Até mesmo os militares diziam em suas intervenções salvacionistas que lutavam contra a realização imperfeita dos valores da liberdade.
Em 1954, Tancredo, falando no sepultamento de Getúlio, vence a comoção, o ódio, a revolta e o desejo de revanche para pregar “que minhas palavras não desejam agitar a opinião pública nem trazer um elemento a mais para a instabilidade política da morte de Vargas”. Usou o caminho contrário de Marco Antônio pedindo vingança pelo assassinato de César.
Em 1955, é ele quem evita que o golpe de 11 de novembro interrompa a eleição de Juscelino. Em 1961, na renúncia de Jânio, costura a posse de Jango e encontra a engenhosa fórmula de um parlamentarismo de avesso. E com a mesma habilidade restaura os poderes da Presidência, no plebiscito que acabou com sua própria criação parlamentarista.
Em 1964, embora amigo pessoal do presidente Castello Branco, nele não vota. Castello, por sua vez, quando a linha dura pede a cassação de Tancredo, sem abrir o processo, risca na capa: “Este não!”.
Em 1985, é ele o estuário para onde correm todas as águas da liberdade. Só ele a história preparou para essa missão de fazer a transição democrática, unindo o país e fundando a Nova República.
Sua arma é a conciliação. Seu ídolo é o marquês do Paraná, que no Império fora o grande conciliador. Mas faz uma ressalva: “Sou o conciliador que prefere fazer um acordo a derrotar o adversário. Sou um tático, mas em matéria de princípios não transijo”.
Tancredo era um estadista que se distinguia dos homens do seu tempo. Ele foge do jogo partidário para ver o país, o interesse de todos. Convivi com ele intensamente, posso testemunhar sobre seu espírito público, sobre sua capacidade de construir pontes.
Afonso Arinos bem o definiu: “Há homens que dão a vida pelo país. Tancredo deu mais, deu a morte”.
E é a relíquia do seu corpo glorioso que reverenciamos nestes cem anos do seu nascimento”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:42

Os golpistas do PSDB

De Élio Gaspari, com o título “Perigo à vista: vivandeiras do tucanato”:
“A expressão “vivandeira” veio do marechal Humberto Castello Branco, há 45 anos, no alvorecer da anarquia militar que baixou sobre o Brasil a treva de 21 anos de ditadura. Referindo-se aos políticos civis que iam aos quartéis para buscar conchavos com a oficialidade, ele disse:
“Eu os identifico a todos. São muitos deles os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias ao Poder Militar”.
Desde o início da controvérsia provocada pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, sentia-se o perfume da sedução tucana pelo flerte com a figura abstrata dos militares aborrecidos com a ideia de esclarecer a responsabilidade por crimes praticados durante a ditadura. Uma palavrinha aqui, outra ali, coisa cautelosa para uma corrente política que pretende levar à Presidência da República o governador José Serra, que pagou com 15 anos de exílio o crime de ter presidido a UNE. Serra e os grão-tucanos conhecem um documento de 1973, preparado pela meganha enquanto ele estava preso ou asilado no Chile. A peça vale por uma anotação manuscrita: “Esta é a súmula do que existe sobre o fulano. Como vês, trata-se de “boa gente” que bem merece ser “tratado” pelos chilenos”. A rubrica do autor parece ter três letras. (Ao menos cinco brasileiros foram “tratados” pelos chilenos nas semanas seguintes ao golpe do general Pinochet.) Será que Serra não tem curiosidade de saber quem queria “tratá-lo”?
A vivandagem tucana explicitou-se numa entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao repórter Gary Duffy. No seu melhor estilo, disse a coisa e seu contrário. Referindo-se aos itens do programa de direitos humanos que cuidam do estabelecimento de uma comissão da verdade, o ex-presidente afirmou o seguinte:
“Este não é um assunto político no Brasil, mas uma questão de direitos humanos, o que para mim é importante, mas o perigo é transformar isso em um assunto político”.
Assunto político, o desaparecimento de pessoas jamais deixará de ser. Não há como dizer que seja um tema climático. O ex-presidente foi adiante e viu na iniciativa de investigar os crimes do Estado um fator de “intranquilidade entre as Forças Armadas”.
Pode vir a ser um fator de indisciplina. “Intranquilidade entre as Forças Armadas”, só se fosse uma ameaça às fronteiras nacionais ou às reservas de petróleo do mar territorial. Fernando Henrique Cardoso já sentiu o gosto amargo da vivandagem quando ampliou a Lei da Anistia e reconheceu a prática, pelo Estado, dos crimes da ditadura. Nesse sentido, na busca da verdade e da compensação das vítimas (reais) da ditadura, deve-se mais a ele e a tucanos como José Gregori do que a Lula e a organizadores de eventos como Tarso Genro e Paulo Vannuchi.
Não se reconhece em Fernando Henrique Cardoso do ano eleitoral de 2010 o presidente de 1995 a 2002. Muito menos o militante das causas democráticas, visto pela tigrada como um “marxista violentíssimo”. Felizmente, pode-se garantir que FHC não sentou praça na tropa da ditadura. Infelizmente, podendo mostrar pelo exemplo que há uma diferença entre os tucanos e as vivandeiras, escolheu o cálice do oportunismo”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:34

Cabral, do descaso à empulhação

De Élio Gaspari hoje na ‘Folha’ e em ‘O Globo’, com o título “O choque de ordem de Maria Moita”:
“O Rio de Janeiro precisa de um choque de ordem. Em pouco mais de 24 horas o governador Sérgio Cabral passou do descaso à empulhação e assumiu uma postura de dragão de festa chinesa para rebater as críticas de que sumira diante das tragédias de Angra dos Reis e da Ilha Grande.
Cabral anunciara que passaria a última noite de 2009 em sua casa de Mangaratiba. Dispondo de acesso a uma marina, estava a 40 minutos da praia do Bananal ou da encosta da Carioca. Por terra, são 57 quilômetros, lembrou o repórter Ricardo Noblat, que passou o dia 1º procurando-o.
O tempo consumido por Cabral para chegar a Angra seria justificável se os desmoronamentos tivessem ocorrido em abril passado, quando estava de férias em Paris. Caso tivesse recebido a notícia no hotel (o George 5º, apreciado por Greta Garbo) no início da manhã, teria como pousar no Galeão no meio da madrugada seguinte, debaixo de aplausos.
Sempre que um governante entra atrasado na cronologia de uma catástrofe, procura oferecer uma explicação racional. George Bush está explicando até hoje por que acordou tarde no episódio do furacão Katrina, que devastou Nova Orleans em 2005. Cabral justificou-se com uma aula de ciência política autocongratulatória:
- Tenho discernimento e seriedade. Em uma situação de crise, quem tem que estar no local são as autoridades que de fato podem assumir o comando do problema. Você jamais vai me ver fazendo demagogia. No momento de crise, estavam aqui os dois secretários da pasta. Qualquer exploração política a respeito chega a ser um deboche com a população. Isso é ridículo.
Ridículo é pagar impostos para ouvir coisas desse tipo. Se não havia o que fazer na região do desastre na quarta-feira, por que ele foi lá na quinta? Discernimento? Seriedade? Demagogia? Pode-se dizer o que se queira do marechal-presidente Castello Branco (1964-1967), menos que ele fosse bonito ou demagogo. Pois na enchente de 1966 ele foi à rua de Laranjeiras onde desabara um edifício.
Cabral saiu do ar na quarta-feira, dia 31. Às 15h daquele dia estavam confirmadas as mortes de 19 pessoas na Baixada Fluminense e em Jacarepaguá, com pelo menos 600 desabrigados. (No dia seguinte seriam 4.000.)
Admita-se que as visitas a locais de desastres (todas, inclusive as do papa) são gestos simbólicos, pois o que conta é a qualidade da gestão.
Nesse aspecto, a de Cabral é pré-diluviana. Em 2009 seu Orçamento tinha R$ 152,7 milhões alocados para obras de controle de inundações.
Numa conta, de seus técnicos, gastou 67% desse valor. Noutra conta, gastou nada.
Se não fez o que devia, o que não devia fez. Em junho, o governador afrouxou as normas de proteção ambiental da região do litoral e das ilhas de Angra, beneficiando sobretudo o andar de cima e seu mercado imobiliário. O Ministério Público entrou na briga e o caso está na mesa do procurador-geral Roberto Gurgel.
O choque de ordem de marquetagem que Cabral, seu prefeito e sua polícia aplicam espetaculosamente no Rio de Janeiro vale de cima para baixo. Pega mijões, camelôs e barraqueiros. O alvo é sempre o “outro”.
Um dia, virá o choque de Maria Moita, trazido por Vinicius de Moraes e Carlos Lyra:
“Pôr pra trabalhar Gente que nunca trabalhou”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 1:16

Estatal para a banda larga

Elio Gaspari publica hoje mais uma mensagem do Além.
De ernesto.geisel@edu para lula@gov
“SENHOR PRESIDENTE,
Antes de mais nada, agradeço seus gentis comentários sobre meu governo e faço-lhe uma revelação: em 1994 votei no senhor. Há por aí pelo menos uma pessoa a quem eu contei isso.
Escrevo-lhe para pedir que enfrente as operadoras de telefonia nessa história da banda larga da internet. Crie uma estatal, não se intimide. Informe a todos os sacripantas das privatizações que cabe ao presidente da República a defesa dos interesses do Estado. O seu cargo é estatal. Seu antecessor privatizou-o e, pelo que me contou o Tancredo Neves (que não gosta dele), carrega índices constrangedores de rejeição popular.
A rede de banda larga do Estado de São Paulo tem mais conexões que o Norte, Nordeste e Centro-Oeste somados. Algo de errado está acontecendo. Os empresários preferem trabalhar no mercado paulista, onde está o dinheiro, desprezando as regiões mais pobres. Não podemos condená-los, mas daí a fazermos o que lhes convém, vai distância enorme.
Durante o governo do marechal Castello Branco eu coordenava a política de telecomunicações do país e queria que esse serviço ficasse sob o guante de uma empresa estatal. O Roberto Campos era ministro do Planejamento e queria privatizar tudo. O Castello não quis discutir a venda da Petrobras, mas disse que gostaria de ver as telecomunicações nas mãos da iniciativa privada. Pediu ao Campos que atraísse capitais para o negócio. Como eram ingênuos…
O Campos foi ao mercado e aprendeu que a plutocracia só se interessaria se a viúva do Duque de Caxias entrasse com os capitais. Eu só consegui estatizar as telecomunicações porque tive a ajuda de um empresariado que defendia um mercado no qual a iniciativa é privada, mas os recursos são públicos, de preferência do BNDES.
Presidente, fuja do monopólio, mas crie um competidor estatal para a banda larga. Se ficarmos na parolagem privatista, voltaremos ao tempo da minha juventude, quando vendia-se manteiga europeia nos armazéns de Bento Gonçalves. Não digam que isso é conversa de velho. Aos 80 anos eu vi os supermercados de Ipanema vendendo verduras belgas.
Respeitosamente,
Ernesto Geisel”

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