• Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:38

Cesar, a remoção e a repressão

Do ex-prefeito Cesar Maia, para a ‘Folha’:
“A expressão “remoção” foi cunhada no início do regime autoritário, entre 1964 e 1965, para nominar a transferência compulsória de moradores de algumas favelas de bairros de classe média no Rio para conjuntos habitacionais construídos em bairros afastados, com recursos dos programas de ajuda dos EUA.
A palavra “remoção” aplicada à mudança de objetos foi usada pelo regime autoritário, nas demolições de favelas, para marcar uma ação de força. Passou a carregar, dali para a frente, essa marca repressiva no imaginário da população.
No Império, o problema habitacional dos mais pobres não foi colocado como questão. Os pobres eram basicamente escravos e viviam no local em que trabalhavam.
O problema começa a surgir com o retorno das tropas da Guerra do Paraguai e se agrava com a exclusão dos escravos, pelos fazendeiros, após a Abolição. Surgem e proliferam os cortiços.
A reforma sanitária do Rio iniciou a demolição dos cortiços e a abertura de fronteiras para a expansão imobiliária. O caso de maior força simbólica foi a queima do cortiço Cabeça de Porco (passou a ser a denominação dos cortiços), em 1892, na base do morro da Providência, em frente à ferrovia Central do Brasil. A solução foi subir o morro, que depois se ampliou com o retorno das tropas de Canudos.
Chamaram favela, planta onde ficava o acampamento. A reforma urbana do Rio, em 1904, com suas demolições, construiu apenas um pombal de 200 microcasas.
Em 1928, a prefeitura contratou o arquiteto francês Alfred Agache (que criou o termo urbanismo) para o plano urbano do Rio, publicado em 1932. Agache tratava as favelas como equipamentos provisórios e lastimava que Santa Teresa se tornara permanente.
Para o ato, foram convidados arquitetos famosos. Um deles, Ed Groer, russo, quis ver onde os pobres moravam e cunhou a frase “favela é solução” ao comentar as condições de areação e insolação comparadas às dos cortiços.
As expansões imobiliária e industrial e a opção por não investir em transporte de massa e em habitação popular atraíram a mão de obra para perto do local de trabalho. O adensamento começou a produzir conflitos. Em 1942, realizou-se a primeira demolição com forte simbolismo, transformando em fogueira a favela do largo da Memória, no Leblon. No final dos anos 40, o STJ confirmou o usucapião das cinco maiores favelas.
O vereador Carlos Lacerda defendia a urbanização. Um programa de acesso à cidade e a seus serviços e de moradia digna se transformou em confronto. A expressão “remoção” afirmou um estilo repressivo e unilateral, transformando o que deveria ser um direito dos pobres em direito dos ricos. Agora volta com a mesma entonação”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 3:16

José Serra não é Carlos Lacerda

Do jornalista Elio Gaspari:
“Como era previsível, uma única palavra ? ?roubalheira? ? deu o tom do discurso de despedida de José Serra. Pena. Foi uma fala tediosa, mas uma só palavra desviou o curso de uma reflexão em torno de ideias, honradez e sobriedade administrativas.
Ela não caiu como cabelo na sopa. Foi um flerte com ?a busca da notícia fácil? que o próprio Serra criticaria no mesmo discurso.
Com suas pressões e ansiedades, as campanhas moldam os candidatos. Quando entrou na disputa pela Presidência, Barack Obama não tinha proposta para a reforma dos planos de saúde. Juscelino Kubitschek nunca pensara em construir Brasília até que, meses antes da eleição, um estudante chamado Toniquinho perguntoulhe se cumpriria o dispositivo constitucional que previa a transferência da capital para o Planalto.
Na atual campanha, há uma energia interna no mandarinato oposicionista que procura um foco na denúncia da amoralidade do governo de Lula. Foi essa força que levou o ?roubalheira? para o discurso de Serra.
Se essa tática prevalecer, acarretará vários riscos, todos lesivos ao nível político do país e à biografia do candidato. O combate à corrupção não deve ser plataforma de governo, mas pressuposto.
O país sofre com o desembaraço dos mensaleiros e com a proteção paternal que Lula lhes dá, assim como padece com o silêncio tucano diante da cassação do mandato, pela Justiça, de seu governador da Paraíba. O mais ilustre detento do sistema carcerário nacional é o ex-governador José Roberto Arruda, o queridinho do DEM, que chegou a aspirar à vice-presidência na chapa de Serra.
Dois presidentes chegaram ao Planalto montados na bandeira da moralidade: Jânio Quadros (seu símbolo de campanha era uma vassoura) e Fernando Collor. Nenhum dos dois concluiu o mandato, e Jânio tornou-se o único governante nacional com conta secreta no exterior disputada em juízo. Esses exemplos não devem estimular complacência, apenas ilustram que o moralismo é um refúgio habitual do corrupto.
Serra nada tem a ver com Jânio e Collor. Faltam-lhe até mesmo a teatralidade, o oportunismo e a mediocridade administrativa. Pelas obsessões, pelo estilo e pela visão de governo, ele se parece com Carlos Lacerda, seu adversário juvenil. Lacerda foi o maior governante da História do Rio de Janeiro (1960-1965). Fez a adutora do Guandu e resolveu o problema secular do abastecimento de água da cidade. Urbanizou o Aterro do Flamengo, abriu o túnel Rebouças e remendou a rede escolar pública. Desse Lacerda, o ?Carlos? dos amigos, pouco se fala. O personagem da História foi outro, o ?Corvo? dos inimigos, que carimbava ?roubalheira? nos adversários. Demolidor audaz, escondia em ímpetos de calculada agressividade um temperamento egocêntrico e depressivo. Carregava nas costas o suicídio de Getulio Vargas (cujos capangas tentaram matá-lo em 1954), assim como carregou a deposição de João Goulart e um pedaço da ditadura que se instalou em 1964.
Vale ouvi-lo: Sobre Vargas: ?Getulio Vargas, senador, não deve ser candidato à Presidência.
Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse.
Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar?.
Sobre Juscelino Kubitschek: ?Um político notoriamente desonesto, cujo enriquecimento, seu e de seus amigos, constitui uma afronta ao país?.
Sobre João Goulart: ?Eu agarro o touro pelos chifres?. Diante dos risos da plateia, fez um adendo infame: ?E ele os têm?.
Sobre o presidente Castello Branco: ?O marechal é um anjo da rua Conde Lages?. (Numa referência aos santos colocados nas salas de estar dos bordéis da Lapa.) Nada a ver com Serra. Numa trapaça do tempo, ele recorreu ao ?roubalheira? no dia 31 de março, exatos 46 anos depois do levante militar que o levou ao exílio e deu a Lacerda um breve período de esplendor.
Uma campanha desqualificadora que fecha seu foco na denúncia da corrupção alheia precisa que o candidato puxe o samba. Para aprender esse papel, Serra tem idade demais e treino de menos”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:43

Colecionador tem 4 mil vozes

 A ?Folha? descobriu um colecionador de vozes. A reportagem é curta e super interessante. E quem for assinante ainda poderá ouvir algumas dessas gravações. Veja a reportagem de João Batista Natali?:
?O jornalista Luiz Ernesto Kawall, 82, é um colecionador de vozes. Tem em casa 4.000 documentos sonoros -Rui Barbosa, Freud, Monteiro Lobato, Juscelino Kubitschek, Federico Fellini, Édith Piaf, o marechal Rondon- e procura uma instituição que aceite a doação do acervo ou possa digitalizá-lo e disponibilizá-lo na internet.
A “Vozoteca LEK” (iniciais de seu nome) possui, entre outras raridades, 74 gravações de gols históricos cedidas ao Museu do Futebol.
Entre os documentos, há a narração, pelo locutor Geraldo José de Almeida, de um gol de bicicleta feito pelo são-paulino Leônidas, em 1942, contra o Palmeiras. Em uma entrevista em que fala sobre música mineira, o ex-presidente JK diz que uma serenata em Diamantina (MG) “é mais bonita que um passeio de gôndola em Veneza”.
Rui Barbosa, afirma Kawall, tinha a voz rouca, fanhosa e um sotaque aportuguesado. Há um discurso da campanha presidencial de 1913, em que elogia as mulheres.
De Monteiro Lobato há declarações feitas durante o Estado Novo. Ele se diz favorável à exploração do petróleo pelos brasileiros, e não por empresas internacionais. Um último exemplo: o cantor Francisco Alves fez um concerto ao ar livre no bairro paulistano do Brás, em setembro de 1952. Referiu-se com carinho às “crianças do Brasil, às nossas criancinhas”.
Ao voltar para o Rio, horas depois, sofreu o acidente de carro que o matou. Kawall começou a trabalhar na “Tribuna da Imprensa”, jornal de Carlos Lacerda, na “Gazeta” e na Folha – onde tinha uma coluna dominical sobre artes plásticas – e assessorou dezenas de empresários, artistas e políticos.
Sua obsessão em colecionar vozes surgiu há 40 anos, mas o jornalista tem poucas entrevistas feitas por ele mesmo. Boa parte dos documentos foi comprada, doada ou copiada de outras fontes.
A digitalização dependeria de acordo de direitos autorais. Por enquanto, há três instituições que já se mostraram interessadas pela vozoteca: o Centro Cultural São Paulo, o Instituto Moreira Salles e o governo de Minas Gerais”.

  • Terça-feira, 13 Julho 2010 / 2:02

Eike Batista destrói o Aterro

 Elio Gaspari faz hoje um Raio X, sobre o dono da letra: Eike Batista.
Para vocês entenderem como Eike consegue esses privilégios, como o que Gaspari relata hoje, basta dizer que ele é atualmente um dos melhores ? senão o melhor amigo de Sergio Cabral. O governador acompanhou uma viagem de Eike a China, e levou com ele uma comitiva de mais de 15 pessoas, todos viajando, comendo e se hospedando por conta do governo do Rio.
Durante a semana que passou por lá, Sergio Cabral serviu de avalista de Eike junto aos chineses. Só que a principal parceira que o empresário buscava em Pequim, não era para o Rio de Janeiro, mas sim para Santa Catarina. E Cabral sabia disso.
O contribuinte que paga seus impostos no Rio, foi quem arcou com essa gracinha do governador. Em compensação, Mister X será, nas eleições de outubro, o principal e mais portentoso cabo eleitoral de Sergio Cabral.
Vejam a tramóia que Eike conseguiu implantar no Aterro, com o apoio das chamadas autoridades constituídas, sem que o Ministério Público faça absolutamente nada para impedir um absurdo dessa ordem.
O artigo de Gaspari:
?No final do ano passado, o empresário Eike Batista, que gosta de botar um X no final dos nomes de suas empresas, comprou a concessão da marina do Aterro do Flamengo e prometeu melhorá-la, informando que respeitaria as normas do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Como se trata de área tombada, tem mais é que respeitar. Podia-se supor que Batista apresentasse ao público um projeto arquitetônico para uma obra simples, harmoniosa, com a lembrança do objetivo daquele pedaço de maravilha: atender a quem tem barco mas não tem dinheiro para ser sócio do Iate Clube. Como disse o doutor: ?Adoro o conceito americano de você ter que devolver tudo para a sociedade.? Infelizmente, começou a acontecer justo o contrário. Eike Batista quer tomar para si algo que pertence à sociedade: 100 mil metros quadrados do Aterro. Um projeto temporário, para uma competição náutica de março, prevê a construção de uma arquibancada VIP (chô, choldra), lojas e restaurantes. O mafuá funcionará durante três semanas e será desmontado. Nada impede que ainda neste ano ele reapareça.
Nessas, e em ocasiões semelhantes, quem quiser entrar na área da marina terá que comprar ingresso.
Suprema humilhação para o carioca: pagar para pisar num pedaço de chão do Aterro.
Eike Batista já é dono do Hotel Glória, que fica em frente. Ele pode anexar a marina de forma elegante.
Os seus hóspedes usarão o Parque com o conforto que o hotel lhes ofereça, mas ele não pode ser uma extensão do Glória à custa do lazer e do movimento de quem já pagou pelo Aterro.
Desde que a audácia do governador Carlos Lacerda e a obstinação de Lota Macedo Soares criaram o Parque do Flamengo, todos os espertalhões da política da cidade procuraram bicá-lo. Há anos a marina sofre a degradação de um regime de mafuá. Em 2006 tentaram impor aos cariocas uma monstruosa garagem de barcos. Foi derrubada pela Justiça. (A privataria de 1997 anunciava um empreendimento com shopping center, restaurantes, clube e, sobretudo, um centro de convenções, um Riocentro no Aterro.) O Parque, como a praia, é o pulmão social do Rio. Grátis como o ar e bonito como uma tarde de maio, ele ajuda a fazer do Rio o Rio. Santa Lota blindou-o e em 1965 conseguiu o seu tombamento. Nada pode ser construído ali sem a licença do Iphan e o respeito ao espírito do tombamento.
Em 2006, os privatas alegavam que a obra era essencial para as provas náuticas do Pan e para o prestígio internacional do Rio. Era mentira. Felizmente o Ministério Público defendeu o patrimônio da Viúva e desmascarou a patranha. Agora, a EBX diz que tem pressa. Se tem pressa, o problema é só dela. A montagem e desmontagem de mafuás é um truque vulgar. Projeto arquitetônico? Nada. Concurso público, como se fez com o Museu da Imagem e do Som? Nada. Até agora, o que se conhece é uma pífia montagem de divulgação da vila temporária da EBX. Ela ilustra um conjunto de estruturas que está mais para Buchenwald do que para Baía de Guanabara.
Caso o grupo dos X esteja em busca de novos negócios no ramo da privataria de bens culturais, aqui vai uma ideia: TajX Mall, uma marina, com lojas e restaurantes na margem esquerda do Rio Yamuna, com um acesso para os XClients pelos fundos do Taj Mahal?.

  • Segunda-feira, 12 Julho 2010 / 21:44

Cesar Maia e a política do Rio

  O ex-prefeito Cesar Maia abre hoje o seu blog com a “História da política carioca”, onde analisa os governos que passaram pelo Rio, dos anos 30 até os dias de hoje – com o Prefeito Eduardo Paes que, para ele, governa usando como exemplo o modelo europeu daquela década.
Lá não está dito, mas o grave da administração Paes até o momento, tem sido o seu discurso.
Compreende-se sua lealdade ao governador Sergio Cabral, que lhe proporcionou toda a estrutura de campanha, além dos recursos infinitivos.
O ruim dessa história é que, que mesmo sendo mais brilhante e mais trabalhador que o governador, ele tenha aderido também às idéias do chefe.
A médio e longo prazo, persistindo nessa linha, é provável que ele venha a perder o apoio daqueles que o elegeram, e não ganhe a simpatia dos que já votaram contra ele na eleição passada.
Mas vamos a análise de Cesar:

“1. Desde o início da República a política carioca é polarizada entre dois vetores. De um lado, os que entendem que a questão social passa pela informalidade, do trabalho ao solo. No lado oposto, os que entendem que o progresso passa pela estrita observância da ordem e da propriedade. No primeiro, estiveram sempre os populistas sociais, trabalhistas, o populismo de clientela, os socialistas, os comunistas e recentemente, os populistas evangélicos. No início dos anos 30 constituiu-se um amplo arco de convergências entre todos estes grupos, e o partido autonomista obteve 70% dos votos em 1934. Em 1947 o partido comunista venceu as eleições no Rio com 34% dos votos e afirmou uma sólida base nas associações de melhoramentos nas favelas. Colocado na ilegalidade, avançaram sobre suas bases um setor católico, o ademarismo lastreado no jornal popular (A Notícia) e o trabalhismo de Vargas.
2. O vetor oposto, ordem e propriedade, se afirmou principalmente com a convergência entre o setor imobiliário/construção, o higienismo, a direita católica e a classe média dos bairros mais valorizados. O setor imobiliário/construção alterna seus empresários como dirigentes municipais por toda a República Velha. Mas sobrepõe a lógica do lucro imobiliário, focalizando a ordem e propriedade na dinâmica espacial que lhe interessa. A moradia/transporte da mão-de-obra mais barata (favelas) não incomodava enquanto cumpria alguma distância. No início dos anos 60, com Lacerda, afirma sua hegemonia na cidade. Mas este caminha ao centro, priorizando a administração pública ao lado da ordem no solo dos bairros valorizados. A eleição de 60 havia ensinado.
3. Esses processos constituem bases de voto ou opinião pública em torno de 30% para cada lado. A direita com uma dificuldade extrema de avançar além disso. O próprio Lacerda vence a eleição nessa faixa de voto. E, apesar de um governo com atuação exemplar na infraestrutura urbana e na administração pública, não consegue levar seu sucesso para fora desse patamar. Vence a oposição com Negrão de Lima, que realiza um governo híbrido, concluindo as ações de infraestrutura e a política de remoções de Lacerda, e mantendo a plasticidade exigida pelos setores populares.
4. O regime autoritário procura o caminho de menor atrito, numa cidade/estado com forte mobilização popular. Entrega o poder ao ademarismo renovado com Chagas, o populismo de clientela com base em um jornal popular. A fusão dos estados apenas retarda cinco anos este processo, que retorna crismado pelo regime autoritário. O debilitamento completo da direita política dá sequência ao vetor que se apóia na informalidade, com Brizola, com características socialmente mais orgânicas.
5. Do início dos anos 90 ao ano passado, assume a hegemonia política um vetor intermediário, mas não híbrido, que faz convergir políticas urbanas nos bairros e favelas (nestas, com apoio do BID) e destaca a administração pública. Afasta-se das posições polares e, em 2004, chega à maioria absoluta na maior votação distribuída espacialmente de todos os tempos.
6. Neste ano, um novo poder municipal é assumido a partir do voto popular. Mas perigosamente se afasta do eleitor e passa a governar na fórmula mais extrema da radicalidade. Retorna o higienismo e a expectativa imobiliária. Se vale a história política carioca, retorna a um nicho minoritário como nos anos 60. Provavelmente menor, pelo uso da repressão como forma de se exaltar a si mesmo, num modelo europeu dos anos 20 e 30 e pelo desprezo ao servidor público. Acompanhemos

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.