• Terça-feira, 17 Abril 2012 / 15:31

CPI do Submundo

                                               Eliane Cantanhêde*

A CPI dos Bingos, de 2005, mirou no que viu e acertou no que não viu. A proposta era rastrear velhas propinas de um bicheiro para Waldomiro Diniz, braço direito do braço direito de Lula, José Dirceu. A coisa saiu do controle e acabou derrubando o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O relatório da CPI foi aguado, mas o resultado prático, demolidor: dois coelhos (de Lula) com uma cajadada só.
A CPI do Cachoeira vai no mesmo rumo de abrir demais o leque de investigados e de investigações. Ou não dá em nada, ou pode dar grandes sustos. O PT quis, o PMDB deu a maior força, Lula adorou a chance de empurrar os adversários para o banco dos réus e desviar os holofotes do mensalão. Até que Dilma acordou.
Um cacique de oposição ironiza que “CPI, até contra o Santo Sudário, só é boa para a oposição”. Um ministro diz que “CPI só interessa à imprensa”. Outro avisa que “o governo abrange 8,5 milhões de quilômetros quadrados, nunca se sabe o que pode aparecer”. E todos temem o manancial de surpresas da empresa Delta.
Em comum, as CPIs dos Bingos e do Cachoeira têm um nome, um apelido e um método: Carlos Augusto Ramos, empresário, vulgo Carlinhos Cachoeira, bicheiro. Ele foi o foco da primeira e está sendo o da segunda, mas acabou preso pela Polícia Federal. Com um arsenal explosivo.
Todas as atenções estão nas fitas da PF, que tragaram Demóstenes Torres, do DEM, mas há as do próprio Cachoeira, que explodiram Waldomiro e geraram o primeiro escândalo do governo Lula, em 2004. O PT e Lula comemoram o pacote da PF, mas devem se preocupar com o ainda não sabido pacote Cachoeira.
O advogado do bicheiro é o ex-ministro de Lula Márcio Thomaz Bastos. Na dupla condição de defender o réu e evitar que ele saia do controle? A CPI dos Bingos virou a “CPI do fim do mundo”, e a do Cachoeira, a “CPI do submundo” -porque o submundo está em toda parte.
*Eliane Cantanhêde é colunista da ‘Folha’.

  • Segunda-feira, 09 Abril 2012 / 23:19

Todo o inquérito contra Cachoeira

        O deputado Miro Teixeira voltou as origens.
Como jornalista que é, ele criou o site Lei dos Homens e colocou na íntegra o texto do inquérito contra Carlinhos Cachoeira, da Operação Monte Carlo.
No site, ele explica que “no total, aproximadamente 1 gigabyte de arquivos estão disponíveis. Muitos deles estão em segredo de Justiça e contêm autorizações judiciais para interceptações telefônicas, quebras de sigilos bancários, fiscais e de e-mails e degravações de diálogos entre os suspeitos. A divulgação da íntegra de todo o conteúdo, sem tratamentos ou filtros, se dá com base no princípio constitucional da liberdade de informação”.
                         * * *
Para quem tiver curiosidade e, principalmente tempo, basta clicar aqui para ler todo o conteúdo.
São 7.804 gravações telefônicas.
No mandado de busca e apreensões são 980 páginas no primeiro volume, e mais 859 no segundo.
O inquérito policial soma 4.659 páginas, e a movimentação bancária e fiscal dos envolvidos são outras 583 páginas.
                         * * *
O ainda senador ex-Demóstenes Tôrres está frito.
E o deputado Miro Teixeira acaba ganhando o Premio Esso de Jornalismo.

  • Domingo, 08 Abril 2012 / 13:10

Presidente Demóstenes em Nova York

                                                        Elio Gaspari*
        Setembro de 2015: eleito presidente da República, em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos da Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”. Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.
O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética que o país precisa”. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação. Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.
Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”. À noite o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grande Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel. Chamou a atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.
Em 2012 a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como “Carlinhos Cachoeira”, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes. O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo, cancelada em 2013. A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959 Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello. O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior. O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.
Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da industria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o Estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura. Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.
Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.
*Elio Gaspari é jornalista.

  • Quarta-feira, 04 Abril 2012 / 16:58

Nercessian deveria pedir o boné

     Sinto muito, mas os 44 anos de carreira como ator, e dos bons, do deputado Stepan Nercessian não podem servir de álibi para o “empréstimo” que ele recebeu do contraventor Carlinhos Cachoeira.
Todos os deputados que pertencem a alguma comissão, estão lá porque pediram.
Ninguém é convidado a integrar essa ou aquela comissão.
Com que objetivo então Nercessian trabalhava na comissão que trata de Combate ao Crime Organizado?
Seria para condenar o amigo que lhe emprestou os R$ 179 mil? Ele não sabia que Cachoeira era bandido?
O ator-dançarino-deputado disse que pensa em renunciar e abandonar a política.
Deveria fazer isso rapidinho.

  • Quarta-feira, 04 Abril 2012 / 16:55

Cachoeira virou tsunami

    O estrago de Carlinhos Cachoeira é enorme.
Tanto no DEM quanto no PSDB.
O chefe de gabinete do governador Marconi Perillo, uma estrela tucana, já era…

  • Sexta-feira, 30 Março 2012 / 3:05

Demóstenes se complica de vez

      ‘O Globo’ deveria ´providenciar um busto para o repórter Jailton de Carvalho e instalá-lo no meio da redação.
Há tempó, muito tempo, o jornal não crava uma denuncia nacional – com tamanha repercussão. E consequências.
Na edição de hoje, Jailton de Carvalho faz novas revelações contra o senador Demóstenes Tôrres:
“Novas gravações da Polícia Federal mostram que o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) colocou o mandato e o prestígio de parlamentar a serviço de negócios de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso por chefiar a exploração ilegal de caça-níqueis e outros jogos em Goiás. Nas escutas, obtidas pelo GLOBO, Demóstenes acerta com Cachoeira táticas que vão da interferência em processo judicial ao lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso Nacional.
Nos diálogos, o senador trata ainda de nebulosos negócios na Infraero no período em que a estatal estava sob o comando do brigadeiro José Carlos Pereira, e Demóstenes era o relator da CPI do Apagão Aéreo. Em outros trechos das gravações, Demóstenes pede dinheiro a Cachoeira para pagar despesas com táxi-aéreo, no valor de R$ 3 mil, conforme antecipou O GLOBO na sexta-feira passada.
As conversas foram gravadas pela Polícia Federal, durante a Operação Vegas, ao longo de 2009. Num dos diálogos, interceptado às 14h41m de 22 de junho de 2009, o senador pede que Cachoeira pague o frete de um avião da Sete, empresa de táxi-aéreo. O contraventor já cobra a conta na mesma conversa e pede ao senador que interceda num processo judicial que estava no gabinete do desembargador Alan Sebastião de Sena Conceição, do Tribunal de Justiça de Goiás. O processo estava relacionado a um delegado e três agentes da Polícia Civil de Anápolis acusados de tortura e extorsão.
- Por falar nisso, tem que pagar aquele trem do Voar. Do Voar, não, da Sete, né? – pede Demóstenes.
- Tá, tu me fala aí. Eu falo com o… com o Vilnei. Quanto foi lá? – concorda Cachoeira.
O senador informa que a despesa é de R$ 3 mil. Cachoeira diz que vai mandar um auxiliar quitar a dívida e imediatamente encomenda um serviço especial ao parlamentar.
- Deixa eu te falar. Aquele negócio (processo) tá concluso aí, aquele negócio do desembargador Alan, você lembra? A procuradora entregou aí para ele. Podia dar uma olhada com ele. Você podia dar um pulinho lá para mim? – diz Cachoeira.
O senador pergunta sobre um detalhe do caso e aceita a missão.
- Tá tranquilo. Eu faço – diz Demóstenes.
Os dois já tinham acertado formas de interferir no processo em conversas anteriores. Nos diálogos, em que Demóstenes chama Cachoeira de “Professor” e é tratado pelo amigo de “Doutor”, o senador relata ao contraventor o resultado de uma reunião que tivera pouco antes com o magistrado.
- Fala, Professor. Acabei de chegar lá do desembargador. O homem disse que vai olhar o negócio e tal – confidencia o senador, numa conversa interceptada às 16h39m de 6 de abril de 2009.
Cachoeira quer saber se o julgamento será rápido, e o senador confirma.
- Vai julgar rápido. Mandou pegar o papel, já pegou o… negócio lá. Diz que vai fazer o mais rápido possível – avisa Demóstenes.
Num diálogo, gravado em 22 de abril de 2009, o contraventor manda o senador fazer um levantamento sobre o projeto de lei 7.228, relacionado a jogos de azar, e dois dias depois cobra uma posição de Demóstenes. E até pede que ele fale com o então presidente da Câmara, Michel Temer, hoje vice-presidente da República. O senador promete ajudar e diz que vai tentar fazer com que o plenário da Câmara vote a proposta, o que não aconteceu.
- Anota uma lei aí. Você podia dar uma olhada. Ela tá na Câmara. 7.228 2002. PL (projeto de lei) – orienta Cachoeira.
O senador obedece, pede mais informações, anota e aceita a tarefa.
- Vou levantar agora e depois te ligo aí – promete.
Em outras conversas, o senador, que sempre alegou desconhecer atividades ilegais de Cachoeira, alerta que o texto, na forma em que se encontrava, poderia prejudicar o contraventor.
- Regulamenta, não (as loterias estaduais). Vou mandar o texto procê. O que tá aprovado lá é o seguinte: “transforma em crime qualquer jogo que não tenha autorização”. Então inclusive te pega, né? Então vou mandar o texto pra você. Se você quiser votar, tudo bem, eu vou atrás. Agora a única coisa que tem é criminalização, transforma de contravenção em crime, não regulariza nada – avisa Demóstenes.
- Não, regulariza, sim, uai. Tem a 4-A e a 4-B. Foi votada na Comissão de Constituição e Justiça – diz.
Uma outra conversa, gravada em 4 de abril de 2009, revela que o senador e o contraventor estão de olho em um milionário “negócio” em andamento da Infraero. Um dos intermediários na transação seria Dadá, o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Matias Dadá, um dos presos na Operação Monte Carlo. Demóstenes teria usado a autoridade de relator de uma CPI para levantar informações e prospectar contratos de informática na estatal.
- O negócio da Infraero, conversei com a pessoa que teve lá. Disse o seguinte: o nosso amigo marcou um encontro com ele em uma padaria, não sei o quê. E levou o ex-presidente (José Carlos Pereira, da Infraero), cê entendeu? E que aí o trem lá não andou nada. Eles nem sabem o que tá acontecendo – confidencia Demóstenes
Cachoeira ordena, então, que o senador faça o serviço.
- Mas tem que ser você mesmo. Você que precisava ligar para ele.
Procurado pelo GLOBO, Pereira confirmou que teve três encontros com Demóstenes em 2009 e reforçou as acusações contra o senador, dizendo que o político estava interessado nos contratos da área de informática da Infraero.
- Houve uma época, durante a CPI (do Apagão Aéreo), eu senti que o Demóstenes poderia estar interessado em assuntos muito internos da Infraero, principalmente ligados à área de informática. E eu cortei na raiz. Eram licitações – disse o brigadeiro.
O desembargador Alan Sebastião confirma que tratou do caso dos policiais torturadores, mas diz que não se lembra se recebeu Demóstenes em seu gabinete. Ele alega que muita gente vai ao gabinete dele pedir “carinho” na análise de processos.
- Mas, se você for escrever alguma coisa, escreva que meu voto foi pela manutenção da condenação dos policiais – disse o desembargador.
Michel Temer disse que, em nenhum momento, foi procurado por Demóstenes para tratar de projetos relacionados a jogos. O advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, contratado pelo senador, disse que Demóstenes sempre votou contra os bingos, mas não faria comentários porque não conhece o conteúdo das gravações”.

  • Sexta-feira, 30 Março 2012 / 3:02

Demóstenes, suplente, Cachoeira e mulher

      Da colunista Vera Magalhães, do Painel da ‘Folha’:
       “O senador Demóstenes Torres (DEM-GO) é sócio, desde 2008, do empresário Marcelo Limírio na Nova Faculdade, instituição de ensino superior em Contagem (MG). Limírio possui 60%, e Demóstenes, 20% das participações no negócio, que tem uma terceira cotista.
Em um outro empreendimento, Limírio é sócio de Andrea Aprigio de Souza, ex-mulher do contraventor Carlinhos Cachoeira, cujas conexões com Demóstenes vieram à tona na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal. A empresa é o Instituto de Ciências Farmacêuticas (ICF), que existe desde 2002. Limírio se tornou parceiro da empresa em 2006, dois anos após Andrea.
Primeiro suplente de Demóstenes Torres, o empresário Wilder Pedro de Morais – cuja ex-mulher, Andressa, hoje é casada com Carlinhos Cachoeira- afirmou ter R$ 2,2 milhões em espécie na declaração de bens ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2010.

  • Segunda-feira, 26 Março 2012 / 9:33

Ex-ministro defende Cachoeira

     De Vera Magalhães, do Painel da ‘Folha’:
     “O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos assumiu a defesa do empresário de jogos Carlinhos Cachoeira, preso na Operação Monte Carlo sob acusação de liderar organização que explorava caça-níqueis em Goiás. O criminalista montou equipe para estudar o processo e protocolou memorial em habeas corpus a ser apreciado hoje no Tribunal Regional Federal.
A entrada de Bastos no caso ocorre no momento em que crescia em Brasília o temor de que Cachoeira, pivô do escândalo Waldomiro Diniz, o primeiro do governo Lula, revelasse extensa lista de contatos com políticos, inclusive petistas, documentados em áudio.
Por ora, as investigações da PF demonstraram conexões mais próximas de Cachoeira com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), de quem é amigo. Foram gravados 300 telefonemas entre os dois”.

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