Datena: Lula virou um Padre Cícero

   O apresentador de TV José Luiz Datena ficou famoso e ganhou audiência como repórter policial.
Mas foi a ele que José Serra decidiu anunciar que seria candidato à Presidência da República.
Em seguida, ele entrevistou Dilma Rousseff, que cantou para os telespectadores da Rede Bandeirantes, o tango ‘El dia que me quieras’.
Datena – apresentador do programa popular ‘Brasil Urgente’, de audiência média -  acabou virando uma estrela. Nessa segunda-feira, é ele o entrevistado da ‘Folha’, onde revela ao repórter Marcio Aith: “O Serra estaria mais preparado, mas a minha ligação com o Lula é um negócio muito legal. Acho que ele é um divisor de águas. Virou um Padre Cícero”. Por isso ele deve votar em Dilma. 
- Quem teve a ideia de entrevistar candidatos à Presidência num programa policial?
- Era um sonho antigo que eu tinha, mas, na verdade, fui procurado para entrevistá-los. Parece finalmente que os marqueteiros de plantão pegaram as caravelas e estão fazendo o que Cabral fez em 1500. Estão descobrindo o Brasil de novo, como eu tenho dito e escrito por aí. Como apresentador popular, quase sempre fui relegado a um segundo plano nas campanhas. Um jornalista de segunda classe. Mas os gênios se esqueciam de que quem vota é o povo que vê a televisão, ouve rádio e lê jornal.
- Como é que você conseguiu tirar do Serra a admissão de que seria candidato à Presidência?
- A assessoria dele chegou a perguntar pra mim: “você não vai abordar política na entrevista, não é?”. Eu respondi: “O que eu vou perguntar para ele não lhes interessa”. No meio da entrevista, ele deu uma brecha. Era o aniversário dele, e tinha uma criançada cantando os parabéns. Vi que quase chorou, porque gosta do neto pra caramba. Pensei: “nossa, o Serra chora”. Ali ele abriu a guarda e eu perguntei: “Se o sr está beijando criancinha é porque é candidato.” Ele respondeu: “Ainda não, Datena.” Eu disse: “Ainda não? Então o senhor vai ser candidato?” Ele: “Eu só pretendo lançar minha candidatura depois, em abril.” Pronto. A candidatura estava lançada.
- Mas por que ele teria dito isso ao senhor, naquele momento?
- Ninguém tira do cara o que ele não quer falar. Num momento ou outro ele falaria. Acho que o momento adequado foi criado para que ele abrisse a guarda. Alguém me perguntou: por que ele não falou para o William Bonner e falou para o Datena? Ora, quem estava ali era o Datena, não o Bonner.
- Qual é a estratégia para tirar mais revelações de candidatos?
- Se você deixa o cara à vontade, o cara fala mais. Se você começa a falar empolado, dá espaço para ele te enrolar.
- Qual dos dois candidatos foi melhor nas entrevistas?
- As duas foram legais. Falaram que o Lula não tinha gostado do desempenho da Dilma. Parece que isso não é a verdade absoluta. Não foi isso o que o Lula disse. O presidente recomendou a ela que se preparasse melhor. Mas o presidente não viu a entrevista. Algum cara disse a ele que ela estava insegura. Eu tenho outra impressão. Achei que a entrevista da Dilma a aproximou do povo do que estava antes. Ela foi mais solta do que de costume. Tive uma ótima impressão dela.
- E o Serra?
- O Serra é um avião. A Dilma tem que se preparar para enfrentar o Serra porque, no pau a pau, num debate político, o Serra está muito mais acostumado do que ela. Se ela descomplicar o palavreado dela, falar simples, pode até levar. Vai ser um páreo duro. Essa eleição pode ser decidida no primeiro turno, para um lado ou para o outro. Os dois foram muito bem. O Serra foi mais seguro. Aprendi a gostar do Serra.
- Em quem você vai votar?
- Ainda não decidi. Mas acho que vou votar na Dilma, por causa do Lula. Acho que a Dilma tem a capacidade para governar o país. O Serra estaria mais preparado, mas minha ligação com o Lula é um negócio muito legal. Acho que ele é um divisor de águas. Ele deu ao país a noção absolutamente exata de que um pobre pode ser presidente da República. O Lula virou um Padre Cícero. Mas, mesmo se o Serra ganhar, o país estará bem servido. Muito bem servido. Porque o Serra é um cara preparado.
- Qual deles é mais de esquerda?
- O Serra é muito mais socialista do que a Dilma diz que é. Explico: a Dilma hoje é socialista porque não tem comunismo. Se tivesse comunismo ela estaria com arma na mão. Eu sou um cara de esquerda. Mas não aquele cara bobão, o comunista que escorregou para o socialismo de vergonha. Eu, ao contrário de outros, tenho plena consciência de que Stálin matou 50 milhões de pessoas, de que Mao Tsé-tung matou outros 70 milhões.
- Entrevistar políticos é uma novidade para você?
- De jeito nenhum. Quando eu trabalhava na Globo, fazia de tudo. Apresentava um programa político chamado “A Palavra é Sua” e também fazia entrevistas variadas em outros espaços. Desde a Cicciolina ao Pavarotti, passando pelo Rei Juan Carlos, entrevistei todo mundo. Aprendi a fazer entrevistas descontraídas. Então, quando um político fala comigo, ele não tem as amarras que teria com um repórter político. O problema é que o preparo do jornalista político, que tende a ser intelectual, apesar dos poucos imbecis na área, é um preparo de muita leitura, filosofia e formalismo. Ele tem vergonha de flertar com o ridículo. Como eu atuei por muito tempo no limiar do sensacionalismo, consigo descontrair muito mais.
- A leitura é um problema?
- Não. Também leio. Também gosto de literatura, história, filosofia. Só não fico me exibindo. Não fico citando autor. Quando Sêneca [um dos mais célebres escritores e intelectuais do Império Romano] fala que o verdadeiro problema é justamente a forma de lidar com os problemas, eu simplesmente uso isso na vida real. Não preciso falar quem é o autor. Os candidatos estão perdendo o preconceito, falando mais fácil, chegando perto do povo. Que se danem os intelectualóides e até os verdadeiros intelectuais.
- Você gosta de apresentar programas policiais?
- Veja que ironia. Sou rotulado como apresentador sensacionalista, mas ganhei dois prêmios Herzog [ Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos]. Não gosto de fazer jornal de polícia. Nunca gostei. Gostaria muito de parar de fazer jornal de polícia. Mas, dá audiência, os caras não me tiram. Quando entrevistamos o Lula recentemente, o presidente falou. “Olha, Datena, tem muita bala, muito tiro na televisão”. Eu respondi: “presidente, você tem que tirar a violência da rua, não da televisão.” Disse também: “Olha, presidente, o meu medo de o senhor controlar os meios de comunicação é o seguinte: como o sr. não vai falar em política se grande parte da política está envolvida com corrupção?” A metros de onde estávamos havia um governador preso, o babaca do Arruda.
- Sua saída da Globo em 1989 ocorreu quando você subiu no palanque do Lula na eleição contra o Collor. Conte como isso ocorreu.
- Fiz o comício do Lula porque achava que esse Collor era um xarope. Achava, não. Tenho certeza de que ele é. Por isso perdi o emprego na Globo. O diretor da época me chamou e falou: “Olhe, Datena, você sabe por que eu estou te mandando embora, né?” Eu falei: “evidente que sei”. Três meses depois da eleição, após a derrota do Lula, o cara me chamou e me deu a carta de demissão.
- A audiência cai quando se reduz a parte policial do programa?
- A audiência é a mesma, mas, quando há crimes pontuais, como esse de Goiás, que todas as emissoras exploram, a audiência sobe muito. Moral da história: a humanidade não mudou nada. Quando colocavam leões para comer os cristãos no Coliseu, ele lotava. Hoje, se pegarmos o Pacaembu, o Morumbi e colocarmos leões para comer estupradores e assassinos, vai lotar mais do que final de campeonato. Isso é triste. Eu sei. Mas, infelizmente a sociedade tem essa demanda de Justiça. O ser humano em geral”.